2014/08/26

Sombra

A Madalena veio ter à minha cama. Não sei como lá fomos dar, mas acabámos a falar da memória. Expliquei-lhe como funciona a minha memória, como sempre funcionou, como é estranha, ineficaz, tudo esquece, assimila apenas pormenores, insignificâncias, quase sempre imagens sem possibilidade de interpretação ou análise. Para exemplificar, disse-lhe que me lembrava perfeitamente dos ténis que usei no funeral do meu avô (tinha onze anos). Uns ténis vermelhos, da Adidas, comprados na Suíça. Recordo que caminhava no meio do cortejo fúnebre - velhas de lenço na cabeça, envoltas em xailes com cheiro a fumo, homens de rugas fundas e mãos calejadas - sem experimentar propriamente angústia ou sofrimento. Até que uma mulher olhou com censura para os meus ténis vermelhos. Acrescentei que também me recordava, com nitidez, ainda em Maputo, do exacto tom de azul do copo de plástico que um menino segurava no refeitório. Não me lembro do rosto dessa criança, não sou capaz de dizer se era magro, gordo, bonito ou feio, só me lembro das suas mãos segurando o copo de plástico azul. A minha filha escutou-me, depois fechou os olhos como se procurasse uma memória que pudesse acompanhar as minhas. Pouco depois, abriu os olhos e falou: “Lembro-me do dia em que os treinadores trouxeram o praticável. Fiz vários saltos de mãos para experimentar os tapetes novos. Lembro-me perfeitamente da minha sombra projectada no chão do ginásio”. Beijei-lhe os cabelos e mandei-a para a cama. Muito bela, a memória da minha filha, aliás, não consigo imaginar memória mais bela do que a dela, a da sua própria da própria sombra.

2014/08/24

Laura

Meto conversa com uma mulher jovem que está sentada junto de uma janela aberta. Está sozinha e abana-se com um vistoso leque vermelho de sevilhana. Não usa sutiã, percebe-se pelo leve balouçar das mamas, e cheira um pouco a suor. Os seus olhos escuros, expressivos, revelam tranquilidade. Pergunto-lhe pelo nome. Diz-me que se chama Laura e, sem que lho pergunte, explica estar a tirar um doutoramento em teologia feminista. “Em Estocolmo”, acrescenta e a boca abre-se num sorriso lento. Fico impressionada com a resposta, intimamente volto a lamentar o curso que escolhi. Peço-lhe que me explique o que é isso da teologia feminista, mas a chegada de uma mulher mais velha ao salão parece suscitar toda a atenção de Laura. A mulher vem cansada de subir a grande escadaria de pedra que dá acesso ao salão. Encosta-se a uma coluna, apoiada numa bengala, a retomar a respiração. Tem um ar sisudo, contrariado, os cantos da boca caídos. Traz pela trela uma cadelinha irritante que larga uns ginchos de rato e é muito apaparicada por um homem baixo que parece ter algum protagonismo na reunião. Pouco depois, dá-se início ao lançamento da obra. O homem baixinho faz a apresentação da colectânea. Fala de coisas interessantes, sim, claro que fala, mas não sou capaz de reter uma  única ideia do seu discurso. Aplausos, aplausos, aplausos e, de seguida, explica que irão ser lidos alguns poemas. O Ricardo atravessa o salão e pede-me que leia o meu texto (não é um poema, explicou-me, é prosa poética). Digo-lhe que não, mas, logo a seguir, olhando a rapariga que estuda teologia feminista, talvez querendo impressioná-la, digo que sim. Gosto de ler em voz alta, leio bem, a minha voz é naturalmente projectada, clara, segura. Enquanto leio reparo que a luz faz brilhar o soalho escuro. Volto a sentar-me ao lado de Laura que elogia o meu texto e a minha leitura. Fico à espera que os poetas a sério leiam os seus poemas. A matrona da cadelinha é a primeira. Levanta-se e com lentidão paquidérmica arrasta-se até ao palco.  Pergunto a Laura “Quem é esta senhora?” e ela explica "É a Maria da Conceição Caleiro, crítica literária e grande poeta”. Percebo, pelo tom da sua voz, que lhe merece admiração. A grande poeta senta-se de pernas levemente abertas, deixando antever umas coxas marmóreas e flácidas, e, com insuportável sobranceria, olha em volta. Começa então a ler o seu poema. A voz arrasta-se, dolorosa, é uma voz calcificada, moribunda. Declama como se tivesse a boca cheia de feridas. Laura bebe cada palavra, os olhos tremem-lhe de emoção. 

2014/08/23

Sapatos Vermelhos

Comprei uns lindos sapatos de verniz vermelho em Dunquerque.  Fui a Calais comer ostras e mostrar aos meus filhos, como se de animais em cativeiro se tratasse, os imigrantes que vieram para atravessar o mar. Não foi difícil descobri-los. Negros, retintos, agasalhos quentes por cima de trapos rasgados. Estavam num terreno árido, longe do centro da cidade, uns sentados em silêncio, outros fazendo fila para conseguir um prato de sopa. Comovi-me por um instante e depois esqueci-os.  Passeei na praia de Malo les Bains, sentindo o vento frio no rosto e notando a marca das pegadas do Joaquim (corria mais à frente, gritava para espantar as gaivotas). Mulheres sentadas em cadeiras de lona, a apanhar sol. Uma avó magra, de biquíni azul e touca amarela, brincava com os netos e, sem pudor, mostrava o seu corpo anquilosado, suas peles flácidas, seus lentigos, sua magnífica velhice. Um grupo de rapazes asiáticos fotografava-se junto ao mar e, ao longe, o pontão de Leffrinckoucke surgia coberto por uma leve neblina cinzenta. O mar pareceu-me estranhamente calmo. Esperava um mar escuro, revolto, perigoso. Comemos gelados americanos todos os dias. Hesitei entre tantos sabores desconhecidos; um dia, depois de ter estado a observar um menino gordo a saltar nas camas elásticas, escolhi gelado de violeta e a boca encheu-se daquele creme suave, lilás, muito perfumado, ligeiramente enjoativo. Em Bergues, imaginei o céu repleto de aviões, os alemães marchando nas ruas da aldeia, sem notar a beleza das begónias amarelas. Subi à torre de Bergues e, lá no alto, ao olhar o casario e a torre negra de uma abadia, senti vertigens, os meus olhos ficaram embaciados e o meu coração bateu, acelerado. Jantámos quase sempre fora, em restaurantes familiares, baratos e com cheiro a fritos. Uma noite, enjoada de hambúrgueres e batatas fritas, cozinhei coelho com ameixas para os meus filhos. Ficou muito bom, a Madalena repetiu duas vezes.  Reli “Mrs. Dalloway” à luz fraca de um candeeiro de abajour amarelo. Não sei explicar o que há na escrita da Virgínia Woolf que tanto me prende.  Já li análises, assisti a documentários, já li até uma tese de mestrado de uma rapariga brasileira sobre a estética feminista na sua obra. Conheço a essencialidade, a modernidade, a força imensa da sua escrita, mas, quando leio os seus livros (os romances, sobretudo "Rumo ao Farol"), todas as análises, estudos, comentários me parecem comezinhos, insuficientes. Falta qualquer coisa. Há um mistério secreto na escrita da Virgínia Woolf; suponho que nunca o descobrirei. 

2014/08/06

41º movimento

R., que há alguns anos tenta levar-me para a cama, sabendo da minha preferência pelo período barroco, telefonou-me no início da semana a dizer que, apesar de esgotado há muito tempo, arranjava bilhetes para o “ Messias”. Gosto muito dessa obra, conheço-a bem, há qualquer coisa no 41º movimento que me emociona profundamente. A possibilidade de escutar ao vivo, numa interpretação da orquestra, a obra de Händel pareceu-me valer bem o esforço de tolerar durante algumas horas a presença de R., suas aproximações e olhares sedutores. Depois de reflectir um pouco, decidi aceitar o convite e pedi à Cila – prima solteira, vive sozinha com dois gatos e passa a vida a queixar-se que raramente vê os meus filhos - que ficasse com a prole.

Acontece que, no dia do concerto, ao levantar-me, senti  uma espécie de ardor no estômago, um braseiro queimava-me por dentro e fazia-me engolir em seco. Passei o dia em agonia. O meu corpo parecia arder como se feito de uma matéria inflamável qualquer. Um fogo lambia-me o avesso. À hora de almoço, quando saí para ir comprar aipo à D. Rosa, afastei-me de um homem que fumava um enorme charuto por temer que o meu corpo se incendiasse. Durante a tarde,  continuei a sentir esse ardor, cada vez maior, mas também uma náusea ligeira que me fez arrotar pelo menos quatro vezes. Fiz um chá de lúcia lima, muito perfumado, o mal-estar aliviou durante alguns minutos, mas voltou a piorar assim que olhei para o grande relógio da cozinha e me dei conta de que faltavam apenas duas horas para o concerto. Foi então que me passou pela cabeça que talvez me sentisse assim por causa do concerto. Sou bicho do mato, pouco dada a convívios e relações, aguento meia-hora, se tanto, de conversa de chacha. Percebi que iria passar três horas (três horas!) ao lado de R., homem afectado, intelectualmente frívolo, ridiculamente vaidoso, um palerma que cai na triste tentação de me seduzir com as suas camisetas Lacoste, os seus gestos cavalheirescos, as suas leituras de poesia e também uma quinta oitocentista em Penacova que herdou de um tio padre. (R., é bom que se explique, é um homem rico, fleumático, foi chefe de gabinete, secretário de estado, não chegou a ministro, mas agora vive de uma bela pensão de reforma, faz parte de um grupo de oração carismática e joga xadrez). Três horas ao lado de tal homem pareceu-me uma eternidade, um sacrifício, um castigo imerecido. Às oito da noite, pouco antes do concerto começar, já eu estava desesperada, a náusea tomou conta de mim e tive de ir vomitar. Voltei a sentar-me na sala e olhei em volta. Ao fixar as folhas da grande “samambaia” que o imperador baiano me ofereceu, percebi que não aguentava a companhia daquele homem durante tanto tempo. Simplesmente não aguentava. Liguei-lhe e, como de costume, a maternidade serviu-me de desculpa. “Desculpe R., mas não vou poder ir ao concerto. O Joaquim está cheio de febre”. R. é frívolo, mas não é burro. Percebeu que se tratava de uma desculpa mal-amanhada, como outras que tenho inventado para fugir do seu convívio, mas não deu parte de fraco. Desejou as rápidas melhoras do pequeno e, em jeito de provocação, prometeu que, para compensar, tentaria arranjar bilhetes para a “ Paixão segundo São Mateus”. 

Poisei o telefone e respirei fundo. O ardor passou de imediato. Foi então que se escutou a campainha. Era a prima Cilinha. Vinha sorridente, um bonito bolo mármore nas mãos. Os miúdos vieram cumprimentá-la e receberam, com genuína alegria, os seus abraços e beijos. Fui magnânima. Não havia nenhuma razão para privar a Cilinha de estar três horas sozinha com os meus filhos, cuidando deles, brincado às mães. Arranjei-me para sair e disse-lhe que por volta da meia-noite estaria em casa. Percebi então que tinha três horas livres, três horas inteiras, só para mim, ao meu dispor, para fazer o que muito bem entendesse. Que fazer com tanto tempo? Não hesitei um minuto. Telefonei imediatamente ao Alexandre a dar-lhe conta de que tinha três horas livres e muita precisão de dar cansaço ao corpo. O Alexandre é um amante e tanto, intermitente é certo, mas raramente me deixa ficar mal. Ficara de ir às compras com a mãe, mas, daí a meia-hora, explicou, estaria à minha espera no Hotel Ibis da Praça de Espanha. Mal entrei no quarto, disse-me que gostava mais de me ver com o cabelo comprido e, sem demora, atirou-me para a cama. Fodemos durante duas horas e, como sempre acontece, foi bom. Acabámos exaustos, suados e peganhentos, o ambiente saturado a sexo. No descanso, já encaixada no braço do Alexandre, enquanto lhe cheirava os pêlos do peito, lembrei-me de R. A essa hora, enquanto eu descansava nos braços do amante intermitente, ainda devia estar sentado no renovado auditório da fundação a escutar o “Messias”. Talvez tamborilasse os dedos no braço da cadeira para marcar o compasso do 41º movimento.

2014/07/28

2014/07/16

Florzinhas azuis

A Madalena acordou-me com um beijo. “Já passa da uma, mãe. Não vais pelo menos trabalhar durante a tarde?”, perguntou. Envergonhada, disse-lhe que sim e saltei da cama. Tomei banho, bebi um café, tomei os comprimidos. A casa pareceu-me limpa, cheia de sol, incrivelmente arrumada. Antes de sair pedi à Graça que fizesse gelatina e deixasse o frango desfiado. Já no edifício, enquanto subia no elevador, notei vincos do lençol nos meus braços. Fechei os olhos e, diante de mim, surgiram imagens do sonho desta noite:  prédios altos, blocos cinzentos de janelas pequenas,  ruas cheias de lixo e águas insalubres.  Comecei a trabalhar num parecer sobre a aplicabilidade de certo regime jurídico aos trabalhadores de um serviço intermunicipalizado de gestão de resíduos. Cheguei a conclusões, mas não fui capaz de as redigir. Encontrei a Filomena na máquina dos cafés que me falou das beringelas recheadas que comera no refeitório. A Maria José trouxe-me as framboesas há muito encomendadas. Notando a minha voz, perguntou-me se estava de bem como a vida. Intrigou-me a expressão: estar de bem com a vida. “Nem por isso”, respondi e meti uma framboesa na boca. O telemóvel tocou duas vezes, não atendi. Ao longo do dia, lembrei-me várias vezes do lindo bule de florzinhas azuis que ontem comprei na feira da Ladra.

2014/07/15

Dor

Quero transformar-me em pó, cinzas, poeira, em nada. Tornar-me no vazio, numa recordação, numa lembrança. Passar a ter apenas expressão nas fotografias que envelhecem devagar nos álbuns que fiz há muitos anos, quando era nova, quando me sentia nova. Habita-me uma dor que não sei, não consigo descrever. É uma dor que não se sente na carne, mas que está lá, espalhada, derramada pelo meu corpo. Cobre-me, evanescente, como uma gaze translúcida. Só por estar lá, só por existir, não me ferindo, fere-me. De uma maneira insuportável. Ácida, a dor corrói-me por dentro. Às vezes, parece que tenho caruncho, um exército de insectos minúsculos dilacera-me, come-me os órgãos e os membros. Não consigo olhar-me no espelho. Mesmo, pela manhã, quando lavo o rosto e me penteio, executo esses gestos rotineiros sem nunca me olhar. Habito o meu corpo. É isso. Limito-me a habitar o meu corpo, invólucro de qualquer coisa que adivinho menor. Sinto constantemente um nó a estrangular-me a garganta. Sinto esse nó em cada segundo, em cada minuto, em cada hora que passa. 

(Senti-me bastante triste ontem. Hoje acordei melhor. Fui à feira da Ladra, onde caminhei ao sol. Observei um homem jovem, corpo moído da heroína, que vendia camisas Victor Emanuel. Comprei alguns livros e um lindo bule com florzinhas azuis.)

2014/07/13

Procissão

O anjinho de mãos papudas limpa o suor da testa. O outro, mais pequeno, chama pela mãe. As vizinhas debruçam-se nas varanda para ver a procissão passar. A fanfarra toca. Abnegada, servil, fria, segues em cima de um andor de madeira perfumada. Tens olhos mortiços, um sorriso cândido que mal se nota. Foste mãe sem chegares a ser mulher. És incrivelmente feia. Vejo-te passar e pergunto-me: como pôde o padre Mouret apaixonar-se por ti? 

El Cigala

2014/07/09

Mulher de franja

Sentada na primeira fila, uma jovem mulher. Franja curta e olhos carregados de khol. Tem pinta de jornalista. Ou coisa que o valha. Ri que nem uma perdida. O texto tem brejeirice, presta-se ao riso, mas a mulher da primeira fila não se limita a rir. Já o texto segue adiante, já se fala do fio de seda que prende a patinha do pardal, já tudo é poesia, profanação e liberdade, e ela continua numa hilaridade forçada. Às tantas, sacoleja o corpo como se alguém lhe fizesse cócegas nos sovacos. Salta à vista que o seu riso é forçado, é o riso de quem, pelo exagero, se quer livrar do anonimato da plateia. Passa o resto do espectáculo a bichanar à companhia do lado. Às vezes, faz um ar grave e fita o palco com melancolia. Volta a rir-se descontroladamente, ruidosamente, se se escutam as palavras “cona” e “foder”. Concentro-me no texto. Apesar das aparências, o longo poema é denso, exigente, metafórico, cheio de subtileza e inteligência. Saio com uma frase, uma única frase, na cabeça. Sento-me a uma das mesas do café e escrevo na agenda: “Então tudo acabará. As estações terão chegado ao fim, com as suas sombras e os seus ecos”. A mulher da franja também está por ali. Encontrou uma amiga. 
- Joana!
- Olá.
- Não sabia que estavas cá!
- Não podia perder este espectáculo!
- Gostaste?
- É muito, muito bom…
-Também adorei!
- E o texto é…
- Magnifico!
- Tem imensa força…
- Pois tem…
A conversa diverte-me. Cá está a habitual frivolidade de certa gente da cultura. Leram fulano e beltrano, conhecem isto e aquilo, mas não têm nada na cabeça. Só deslumbramento. Passava o resto da noite a escutar a conversa da tal Joana, mas são quase onze horas e os meus filhos ficaram sozinhos em casa. 

2014/07/08

Ontem

Li duas novelas do Stefan Zweig e um estudo da Ana Luísa Amaral sobre escrita feminina. Passava pouco das duas da manhã quando apaguei a luz. Durante a noite comi duas gelatinas de ananás, três laranjas e cem gramas de chouriço fatiado.

2014/07/06

Chongqing

Hei-de renascer entre florestas de betão e tocas de zinco. Habituar-me-ei a carregar baldes de cimento sobre os ombros. Hei-de ter calos nas mãos, o cabelo crespo, a pele baça, os dedos dos pés muito separados, com fungos e bolores. Hei-de aprender a comer de cócoras, encolhida, como se estivesse ainda no ventre da minha mãe. E a sorver, sem temer o ocidental embaraço, a sopa de massas. Darei estalinhos com a língua e sorrirei  ao sentir o caldo quente escorrer-me pelas goelas. Nos domingos, em Chongqing, hei-de vestir uma blusa amarela, desbotada pelo tempo, com pavões desenhados. Passearei sozinha no parque da cidade onde as árvores largarão um cheiro enjoativo a fruta madura e os meninos comerão gelados de três sabores.

2014/07/03

2014/07/02

Lembrete

A limalha de ferro cobre a mesa do alfaiate. A canção de amor passa na telefonia. Uma carpa gorda nada no lago do museu. A prostituta de socas brancas sobe a rua dos Anjos. O peixe-aranha pica o pé do João. Orlando seca as lágrimas de Adolphine. Adolphine volta a ser menina e regressa ao gueto de Theresienstadt. Da sublimação do iodo, falou-me hoje a minha filha. 

2014/07/01

Grampos de massa

Continuo sem dormir. As noites são um poço sem fundo, os dias custam a passar. Espeto alfinetes nos olhos para os manter abertos. Quero ordenar ideias e não consigo. Caminho sem direcção. Leio, observo, tiro notas, mas não escrevo. Os miúdos pressentem a minha tristeza. Não dizem nada. Tenho inveja das mulheres jovens. Não têm varizes nas pernas e a felicidade parece-lhes alcançável. Tenho saudades do meu cabelo comprido. Nos dias de chuva, quando ganhava volume, enrolava-o na nuca e prendia-o com grampos de massa. Também tenho saudades de foder, mas isso é outra conversa.


2014/06/25

Toutinegras

Cortei o cabelo muito curto. Deixei de usar maquilhagem. Meti bâtons e rímeis numa caixa de cartão que ofereci à Graça. Tenho preguiça de tirar o buço. Deixei de usar saltos altos, vestidos e transparências. Engordei cinco quilos. Já não corro. Também já não vou às aulas de ginástica. Tomo vários comprimidos ao longo do dia. Amo os meus filhos e os meus filhos amam-me de volta. Gosto de silêncio, de árvores, de música francesa e da poesia da Adélia Prado. Não gosto muito de animais. Só de passarinhos. Toutinegras, piscos, pintassilgos, canários. Preciso de chorar pelo menos uma vez por mês. Choro nos dias de chuva e nos dias de sol. Choro dentro do carro, nas escadas do prédio e na igreja. Escrevi um livro que é uma grande merda. Disse-o, eufemisticamente, o editor. Foi gentil. Não almoço e não janto, mas, durante a noite, levanto-me para comer chocolates, bolachas, aperitivos indianos, latas de sardinha e pão com manteiga. Às vezes, para desenjoar, como laranjas e limões.

2014/06/24

Maria José

A Maria José fala às baratas e aos gatos, cuida das begónias roxas e anda sempre com uma pucarinha vermelha, de barro esmaltado, que usa ao longo do dia para tarefas indiferenciadas. Há pouco tempo, o psiquiatra mudou-lhe a medicação. Quis controlar os surtos psicóticos e devolver a Maria José à normalidade. A minha amiga engordou vinte quilos e a sua pele ganhou um tom azulado, muito bonito, que faz lembrar princesas mortas e hortenses murchas. O jovem poeta que mora no prédio dos azulejos, um tipinho de bigode retorcido, anda por aí a dizer que a Maria José se perdeu com a nova medicação: deixou de escrever, deixou de ler e, muito pior, já não alucina, já não delira. Agora só pensa nos saldos da H&M e na magreza da Angelina Jolie. É um infame e um intriguista, o tal jovem poeta. Ainda ontem encontrei a Maria José no adro da Igreja dos Anjos. Não me falou nos saldos da H&M, muito menos na magreza da Angelina Jolie. Convidou-me para ir lanchar ao Ramiro. Enquanto partíamos as tenazes de uma sapateira açoreana, contou-me que na véspera acordara a falar aramaico e com vontade de fazer milagres. Com um lençol caído pelos ombros e sandálias nos pés, saiu para passear no Jardim Constantino. Levou os gatos e as baratas a fazer de apóstolos. 

Avenida Nevsky

Regressei com os primeiros raios de sol. Ao passar pela praça vi as tricotadeiras em frente do pelotão de fuzilamento. Uma mulher que conheço vagamente tricotava um cachecol azul. “É uma prenda para o meu marido. Tenho de o terminar antes que chegue a minha hora.”, explicou com uma voz tranquila. Sorri e desejei-lhe boa sorte. Mal entrei em casa, corri à cozinha e pedi à Adelaide - estava a migar couves para as galinhas - que me fizesse atum com feijão-frade para o almoço. Deitei-me. Adormeci embalada pelo som seco dos disparos. Acordei espapaçada de sono, olhos moles, vincos dos lençóis no rosto. Comi o feijão-frade com atum. Soube-me bem. À tarde, em vez de visitar o prostíbulo camarário, fui à missa das quatro. Durante a segunda leitura, voltei a pensar no meu plano. Setenta comprimidos na sopa e o meu pai agonizará tranquilamente. Morto e enterrado, poderei então fugir para um país quente. Hei-de arranjar uma casinha de paredes azuis e janelas de madeira lascada. Aí, numa cama de dossel, deitar-me-ei com pretos, mulatos, padres missionários e também com as putas mais bonitas da Avenida Nevsky. 

2014/06/16

2014/06/04

Santa Ana

Só conheço pessoas realizadas, razoáveis, sãs. A minha irmã tem as contas em dia, a nova secretária nunca come fruta sem ser lavada e, ontem, uma criança censurou-me por atravessar a rua fora da passadeira. Da janela do gabinete, vejo antenas, telhados, caixas-de-ar condicionado, janelas que nunca se abrem. Ao meio dia, quando se escuta o sino da igreja, pico o ponto e saio para almoçar. Sentada ao balcão do pronto a comer, faço sempre o mesmo pedido: poeira de magnésio, pãezinhos enfarinhados e um chá de menta servido em bule de prata. Não tenho salvação e já pensei em ir ao templo pedir um exorcismo. Não durmo, não sereno, ando cansada. Continuo a procurar a cabeça do abutre no manto da virgem e, nos olhos bondosos do menino, a maldade original, mas sou agora capaz de enunciar as características organolépticas da seiva alexandrina: líquido opalino, de um branco suave, consistência de clara de ovo, cheiro a ervas esmagadas, sabor intenso, ligeiramente adocicado, a fazer lembrar leite de espelta.

2014/05/29

Peppermint extra-forte

- Ah, aquilo é muito bonito...
Abriu a mala e procurou uma pastilha que a livrasse do sabor da meia-desfeita de bacalhau comida num restaurante ali perto; o prato fumegando, cabeças de alho esmagadas, cebola picada, salsa espalhada por cima. Ulla comeu e bebeu, deixou prato limpo, copo vazio, uma delícia!, disse no fim e deu um arroto de satisfação. O hálito reimoso da cebola e do alho, porém, não o aguentou. Era tradição a mais. Encontrou a embalagem de pastilhas e pôs-se a mastigar vagarosamente. Sabor peppermint extra-forte. Depois, como se não a tivesse escutado, repetiu:
- Aquilo é muito bonito. 
Não era. Era bizarro, estranho, demasiado óbvio. O apreço dela por estatuária tão grotesca, desgostou-me, senti-me até ofendida. Aborreci-me, detestei-a, mas por muito pouco tempo. Ulla era bonita e tão educada. Não lhe respondi, amuada, mas a sua insistência fez-me olhar em redor. Andava o bairro muito diferente: caliça e alumínios por todo o lado, paredes pinchadas de palavrões, calçadas cheias de lixo, hordas de noctívagos passeando por ali, intelectuais, jornalistas, artistas, poetas de calças apertadas. O bairro já não conservava a mornidão das casas habitadas, era um lugar diferente, moderno, indistinto. Mas, no largo principal, como se fosse uma obra de arte, posto num altar profano, continuava aquilo, apontando, teso, muito hirto, para a janela onde viveu a professora de violino da Mafaldinha. 

2014/05/27

Renúncia

Fiz a aprendizagem da minha condição e, com passividade absoluta, acatei leis antigas. Aprendi o meu papel no casamento e na cama. Fui uma deusa morta, não uma mulher viva. Distribuí sorrisos, fiz sopas, massas guisadas, bolos de erva-doce, lavei copos e pratos, estendi cuecas, meias, lençóis; à noite, abri as pernas, arfei de cansaço e aborrecimento, recebi o esperma conjugal, virei-me para o lado e adormeci. Mas a máscara ainda não estava enterrada na carne do meu rosto. Numa noite de Verão, raspei os nós dos dedos na parede até os ver sangrar, mordi os braços, cuspi no espelho, arranquei a roupa do corpo e, assim nua, fugi. Uma desconhecida encontrou-me no largo da aldeia, encolhida junto de um canteiro de goivos. Levou-me para casa, lavou-me as feridas. Depois, sem nada perguntar, explicou-me o óbvio: não há maior tragédia na vida de uma mulher do que a renúncia; antes o desespero e a loucura.

2014/05/26

Segundo Sexo

Mal entrou no carro reparou no livro pousado no assento. Passou a mão pela barba e falou:
- Sabes uma coisa, Ana Clara?
- O quê?
- A Simone de Beauvoir só escreveu este livro porque o Sartre nunca foi capaz de lhe dar o que ela precisava…
Sem esperar resposta, colocou o cinto e começou a explicar o melhor caminho para chegar à Rua Capitão Renato Baptista. As minhas entranhas agitaram-se, o calor da noite deu-me uma súbita sufocação ao corpo; tive a sensação de que só me libertaria da náusea se abrisse a boca e, calmamente, lhe dissesse “Vai para o caralho” ou “Vai para a grande e malcheirosa puta que te pariu” ou simplesmente “Vai levar no cu”. Não disse nada. Conhecia-o há pouco tempo e a sua personalidade neurótica, também a sua erudição, ainda me deslumbravam. Engoli em seco, meti a primeira e, a explodir por dentro, arranquei em direcção à Rua Capitão Renato Baptista. Isto passou-se há mais de dois anos. Há muito tempo que não via o meu amigo, mas, ontem, encontrei-o à saída do cinema com uma mulher jovem, bonita, com um minúsculo pingente brilhante no nariz. Recordei o comentário que largou naquela noite. Recordei o meu silêncio. Quis puxar-lhe pela aba do casaco, retomar o assunto, dizer-lhe exactamente o que penso dele. Sem filtros, sem diplomacia, usando o insulto e, sobretudo, a mesquinhez. Voltei a calar-me. Agora, sinto-me fraca, miserável. Custa-me ser cobarde. Tenho vergonha de o ser.

2014/05/22

Estação morta

Roubei um livro da Maria Ondina Braga. Morreu em silêncio e solidão. Roubar, transgredir, prevaricar, experimentar o excesso e o delírio. Reli o melhor conto do Mishima. Comprei uma bromélia muito linda no Lidl. Antecipei o fim da flor num dia de chuva. Comi salada de rebentos de rabanete rosa. Tomei o triticum, a fluoxetina, o seroquel e, ao deitar, um libertador dulcolax. 

2014/05/07

Canto

Tenho um dente podre. Causa-me dor e mau hálito. Ando a ler “Anatomia da Melancolia”, do Robert Burton. Aprendi que a carne de veado é melancólica e tem mau sangue. Melancolia, desídia, bílis negra. Comprei um livro do Miguel Martins. Gostei do primeiro poema, mas o final desiludiu-me bastante.  A Rosalina trouxe-me um ramo de rosas do quintal. Ficou de me arranjar dois ou três bolbos de jarros. Liguei à Raquel. Estava em Moscavide a comer caracóis. Estive de conversa com o mais velho. Cortei-lhes as unhas dos pés enquanto falámos de sexo. Fez-me uma pergunta. Expliquei-lhe: o meu canto não atraí, não enlouquece nem desnorteia.

2014/05/06

Gladíolos silvestres

Caminhamos lentamente. Os miúdos correm mais adiante. No cruzamento da antiga farmácia, a minha tia estuga o passo e fixa o caminho do cemitério. Deixa-se estar assim por alguns instantes, parada, em silêncio, a olhar o horizonte. Depois fala: “Quando eu era pequena havia aqui duas figueiras muito altas. Lembro-me de vir aqui com a tua mãe apanhar figos.” Sorrio e, ao beijá-la, sinto o cheiro gorduroso da sua pele. Ao chegar ao cemitério, ergo-me na ponta dos pés para alcançar a chave do portão. Por cautela, o coveiro da aldeia deixa-a sempre no esconderijo que escavou no tronco de um pinheiro. Enquanto a tia Dé se encarrega da limpeza da campa – já lá vem com um balde de água e uma vassoura de cerdas rijas -, passeio entre os mortos. Cheiro as sebes de buxo, leio os epitáfios, faço questão de ir ver as campas dos três anjinhos que morreram com leucemia, murmuro os nomes das mortas que conheci, Umbelina, Eleutéria, Adosinda, Preciosa. A Adosinda atirou-se a um poço. A Preciosa enforcou-se no limoeiro do quintal. A minha tia vai esfregando a campa com a vassoura de cerdas rijas. Por mais que esfregue, as manchas pretas não saem, apenas o verdete mais superficial desaparece. “Da próxima vez”, diz, erguendo a voz para que a escute, “é preciso trazer ácido muriático para limpar estas manchas”. Levanto os olhos da campa da Preciosa. A conversa perturba-me. A passagem foi demasiado abrupta. Há pouco, a minha tia falava das figueiras da sua infância, convocou um tempo distante e feliz, uma alegria branda chegou-me nesse instante, o sol acariciou-me as mãos, o céu ficou mais azul, as iresines dos canteiros esticaram-se mais do que é costume, mostrando-se, senti vontade de chorar. Agora, a minha tia levantava a voz e pronuncia a palavra “ácido muriático”. Sempre que oiço falar em acido muriático, lembro os quatro da vida airada queimando as pedras do pátio, mas também uma reportagem que vi há alguns anos. Um rapaz amava muito a sua namorada e por amor, quando esta o quis deixar, amarrou-a ao tronco de uma árvore e lançou-lhe ácido no rosto. Borbulhou o rosto da rapariga e, para sempre, ficou marcado pela triste loucura do amor. O amor é um grande risco, penso e, não sei porquê, aflora-me ao espírito o primeiro romance da Maria Teresa Horta. Foi recentemente reeditado e chama-se “Ambas as mãos sobre o corpo”. É um título tão mau que até arrepia. Volto-me para o portão. "E os miúdos? Por onde andarão?", pergunto à minha tia. Não me responde. Está completamente concentrada no que está a fazer. Retira a gravilha da jarra de alabastro. Sente a rugosidade das pedras nas pontas dos dedos que, estranhamente, se tingem de um vermelho açafrão. Enfia as três hastes de flores artificiais compradas na loja chinesa que fica perto do mercado de Santiago. Um euro e oitenta, cada. Imitações grosseiras de rosas e coroas imperiais. Volta a colocar a gravilha, calca-a com as mãos para que as flores fiquem bem presas. É inconsequente a sua preocupação. As flores resistirão ao vento, mas daqui a dias a cor estará comida do sol e o ar de ruína e abandono voltará. Os meus filhos chegam por fim. Vêm ofegantes e, nas mãos, o Joaquim traz um raminho mal-amanhado de papoilas, malmequeres do campo e calças de cuco, raríssimos gladíolos silvestres que costumam crescer nas pastagens altas da ribeira. 

2014/05/04

Almanaque

A semana passada, no alfarrabista da Elias Garcia, encontrei vários exemplares da revista Almanaque. Actualmente, com excepção de algumas pequenas editoras, da Antígona e da Relógio D`Água, no geral, fazem-se livros feios, vulgares, de dimensões pantagruélicas. Até os livros da Tinta da China, que tanta gente aprecia, me parecem todos iguais, repetitivos, grafia aborrecida e previsível. Um leitor se quer lavar as vistas tem mesmo que se virar para a edição antiga. Aí encontrará livros luminosos  e sóbrios, com capas do Paulo Guilherme, do António Garcia, do Sebastião Rodrigues ou do João Câmara Leme.  A revista Almanaque, para além da coordenação do José Cardoso Pires, teve como responsável gráfico o Sebastião Rodrigues. São revistas únicas. Mal as vi, perfiladas na segunda estante do novo alfarrabista, desejei que fossem minhas. Porém, quando perguntei à mocinha pelo preço, para minha surpresa, ela largou o que estava a fazer e foi inesperadamente teatral na resposta que deu. Saiu detrás do balcão, ensaiou um passo de dança e, de um salto, montou-se no alazão de crina dourada que está no meio da loja. Lá de cima, devidamente escarrapachada no lombo do bicho, explicou-me, com um esganiço de voz, que só vendiam as revistas por atacado. Duzentos e cinquenta euros pelo conjunto dos dezoito exemplares publicados. Engoli em seco. Suspirei. Saí. Tive pena de não ser rica como o meu vizinho Duarte que é militante socialista e tem um lindo Porshe Carrera. Desde então não penso noutra coisa. Imagino-me sentada na cama, com dois pacotes de Filipinos, as revistas espalhadas na colcha de floreados que comprei no Ikea. Deleito-me com a possibilidade de bisbilhotar à vontade cada exemplar, atentar aos detalhes gráficos, ler os contos, divertir-me com os artigos de floricultura e com as críticas gastronómicas. Depois de muito pensar no assunto, percebo que só me resta uma solução: pôr-me à venda. Toda a gente tem um preço e eu tenho o meu. Pelas revistas, janto, converso, gargalho, molho os lábios num branco muito fresquinho. Respostas, sff, ao mail anexo a este berloque.

2014/04/29

Rua dos Fanqueiros

 Salão da Academia Recreio Artístico, ali na Rua dos Fanqueiros, onde geralmente anoitece mais cedo. Os tectos do salão, de estuque trabalhado, estão pintados de amarelo clarinho, o soalho de madeira range, mas a música silencia esse ruído. O ar abafado dá uma febril sufocação aos corpos dos bailarinos. Na parede central, o retrato de um tal António Pedro. De expressão mansa e bigodes retorcidos, parece vigiar a aula de dança. Duas mulheres dançam ao som dos tangos do Carlos Gardel. São um par. Dois corpos cingidos em assumido êxtase sensual. E o dimorfismo que se lixe. Dançam com paixão e entrega. Os seus passos são seguros, marcam bem o ritmo, mostram domínio, técnica, mas também uma excessiva aceleração que merece a atenção da professora. “Lento, mais lento”, vai-lhes dizendo num português cheio de variações. A mulher mais nova é bela e dança de olhos fechados. Deixa-se levar pela companheira. Os seus cabelos compridos, que balançam de lá para cá, suscitam-me pensamentos vagos de felicidade.

2014/04/10

Liberdade



(Tenho pena que não tenha cantado "O grande capital" e "Um tractor", canções muito datadas, mas essenciais. E a sonsa da Sheila, de lenço atado à cabeça, de criancinha nos braços, na capa do disco. O pó que tenho a esta mulher.)

2014/04/06

Baltazar Borda d' Água

Cumpridor e reservado, fato escuro assertoado de quatro botões, camisa impecavelmente engomada, gravatas discretas, sapatos pretos pespontados, verdadeira imagem de sobriedade. Senhor gerente isto, senhor gerente aquilo, senhor gerente, estão a pedir-nos a média diária de captação de depósitos a prazo do mês de Julho, e, amanhã, não se esqueça, vem cá o sócio do presidente da junta tratar do empréstimo para o prédio que querem construir no Prior Velho. Baltazar Borda d’Água sempre correcto, ajudando cada empregado novo que chegava, paciente na arte de ensinar, realizando estornos, esclarecendo dúvidas sobre saldos e extractos, explicando planos de investimento e taxas, aconselhando prudência nos investimentos e recato nos créditos, sugerindo, sem paternalismo, mas sincera preocupação, planos de poupança às famílias de Sacavém. O primeiro a chegar e o último a sair, trinta e seis anos de serviço e nunca se soube de desvios ou enganos. Sempre declinou com educação os convites para almoços que a clientela da agência, pequenos investidores, lojistas, comerciantes por atacado, revendedores de maquinaria pesada, proprietários de stands de automóveis, construtores civis, lhe fazia. Gostava de almoçaradas, mas sabia que aqueles convites traziam água no bico, eram feitos com o propósito de tornar ligeiras as negociatas, dois ou três almoços, bem comidos, bem regados e, a seguir, chegaria o desafio para gozar a penumbra nativa nos bares polinésios da Praça do Chile e, se o atrevimento fosse muito, ir ver as raparigas do Cais do Sodré. Depois, assumida a amizade, haveriam de chegar convites para os casamentos dos filhos e baptizados dos netos. Apesar da urgente necessidade de fidelização dos clientes, Baltazar Borda d’Água sabia que, como gerente bancário, tinha de ser firme, não podia ceder perante esse assédio. Quando se desse conta, já não conseguiria avaliar com imparcialidade os pedidos de empréstimo, havia de afrouxar na negociação da taxa de juro, alijar no número de prestações; a sua liberdade negocial seria aturdida pelos camarões comidos gulosamente nos copos de água e pela lembrança das inocentes cabecinhas dos netos dos construtores civis, debruçados sobre a pia baptismal, berrando da frieza dos óleos santos, mas livres do pecado original. 
Quando Baltazar Borda d’Água se reformou os colegas da agência fizeram-lhe uma festa na Churrasqueira Brasil. Os rodízios eram novidade e os bancários de Sacavém andavam com vontade de experimentar a fartura das carnes vermelhas, o delicioso desperdício dos bufetes livres, o aparato dos empregados vestidos de gaúcho, bombachas dentro das botas caneleiras, camisa larga, faixa vermelha, espeto nas mãos com nacadas de carne escorrendo gordura. Encontraram na reforma do chefe uma boa razão para lá ir. A ementa era um luxo, picanha, maminha, cupim, coxão. Também serviram corações de galinha barrados com manteiga de alho, petisco apreciado sobretudo pelas senhoras. Uma colega nova, vinda da agência de Mem Martins, pôs-se mesmo a trincar os pequenos músculos galináceos com um gozo excessivo:
- Ai, que delícia…- dizia a mem-martinense, não se dando conta de que comer corações com tamanho prazer, ainda que seja de bicheza pequena, desconcerta, faz lembrar feitiçaria medieval, canibalismo primitivo, macumbas africanas para curar infidelidades, tanglomanglos em geral, enfim, é um gesto de gula adequado apenas às mulheres que não conseguem disfarçar um desejo voraz de prazer.
Os acompanhamentos eram à discrição, saladas variadas, arroz branco, batatas fritas e feijão guisado, à sobremesa, o que se quisesse, bavaroises aveludadas, gelatinas, pudins de coco, um pão-de-ló de alfeizerão solitário, para quebrar a brasileirice da ementa, fruta fresca, abacaxi, mamão e manga fatiados. Houve quem repetisse cinco vezes. No final, grogues da doçura inocente das caipirinhas, fivela do cinto desapertada, os subordinados gabaram a liderança e capacidade de organização de Baltazar Borda d’Água. Fizeram-se discursos emotivos, houve até quem lacrimejasse ao lembrar histórias antigas. Ofereceram-lhe uma caneta de aparo de aço e o banco mandou, como era procedimento habitual na reforma das chefias intermédias, uma placa de reconhecimento, em prata de lei, cinzelada. Trabalho fino, muito discreto.

2014/04/04

Folha

No verso da folha escrevi “O segundo amor da vida de Aninhas, um professor de sociologia, bem-parecido e  alegre, morreu subitamente duma queda aparatosa que deu na casa de banho da universidade enquanto se masturbava a pensar numa aluna com uma sombra pronunciada de buço, mas peituda e de modos emputecidos”. Fiquei a olhar para a folha e pensei nas três palavras que recentemente aprendi. Nastúrcios, hidrângeas, pervincas. Pensei também na frase que li ontem à noite:“Camilo gostava das pessoas  que choram”.

2014/04/03

Bonjour, tristesse



Fumo, bebo, observo a pedra e a caracoleta que hoje o Joaquim me ofereceu. 

2014/04/01

Serão

Outras vezes, era apenas para se livrar da modorra dos serões que o fazia, estava para ali sentado sem fazer nada, inerte, em frente do televisor, escutando a mãe contar a sua rotina, os conciliábulos com as amigas, a alcovitice com as peixeiras no mercado, as pequenas arrelias domésticas com Fátima, a empregada. A mãe fora buscá-la a um refúgio de meninas, trouxera-a ainda nova, lisinha como uma tábua, livrara-a de uma existência de abandono, a rapariga fora-lhe grata a vida inteira, movia-se como uma sombra silenciosa e muda; à noite, depois de arrumar a cozinha, metia-se no quartinho ao lado da cozinha a rezar o terço e a ler fotonovelas. Mas perdera a cabeça quando começara a namorar com um tipógrafo sindicalista. Desleixava-se amiúde no cumprimento das tarefas, não puxava o brilho dos móveis em condições, usava até pequenas manigâncias para imprimir brandura no trabalho, ia buscar o aspirador por tudo e por nada, introduzira esfregonas e cabos extensíveis para a limpeza dos vidros, passara a apurar os refogados com caldos maggi. Quando o namoro com o tipógrafo pegou de vez, Fátima começou com umas conversas atrevidas sobre aumentos de ordenado e descanso semanal. A mãe achava-a ingrata, mas intimamente parecia agradecer a afronta reivindicativa: tinha assim oportunidade de soltar o azedume. Carlos escutava-a:
- Ó mãezinha, tenha calma, que a Fátima é boa rapariga!- ia dizendo para a sossegar.
Quando chegava a um ponto de saturação - geralmente quando a mãe perdia a compostura e, mexendo no colar de pérolas, lhe chamava porca, devassa, ai coitadinha, anda mesmo apanhada por aquele comunista nojento! -, levantava-se com a desculpa de ter de ir à casa de banho. Fechava a porta à chave e abria o resguardo do poliban. Recorria então a um imaginário indistinto de formas, mamas, coxas, nádegas, vaginas. Muitas vezes, pensava em Fátima, agachada no chão, a puxar cera ao parquet de tacos; a posição serviçal, as rótulas escanzeladas assentes na madeira dura, a bata arregaçada, o vislumbre da sua escuridão fresca, faziam-no estremecer em espasmos agitados. De forma mecânica, pegava no pénis e esfregava-o com vigor; dotado de um frênulo elástico e longo, os movimentos levavam ao recolhimento total do prepúcio, deixando a descoberto uma glande lisa e levemente nacarada que, ao toque, acelerava o frenesi da excitação; meia dúzia de esfregadelas e esguichava um espirro esbranquiçado que, com o chuveiro, fazia depois desaparecer pelo ralo do poliban. Baixava os olhos quando voltava à sala e se sentava novamente ao lado da mãe. Ficava-lhe uma sensação de ignomínia que se prolongava durante o resto do serão. 

2014/03/31

Geater Davis

Pensão Gerês (4)

Ficamos na mesma posição durante algum tempo, encaixados. Conversamos.
- Ainda gostas do Caetano Veloso?
- Já não, acho mesmo que não o suporto.
- E do Chico Buarque?
- Oh, isso é amor para a vida inteira...
Pouco falta para as seis. Não tarda nada, o meu filho estará à minha espera no portão da escola, o rosto redondo, muito bonito, parecido com o pai, os bolsos cheios de pedras e folhas para mim. Tomo banho rapidamente, visto-me, pinto os lábios, ajeito o cabelo. Abro as janelas. Em frente há um prédio pombalino abandonado, fuligem e cacos por toda a parte, as ervas crescem no telhado e nas varandas. Os azulejos que cobrem as paredes têm uma cor extraordinária. Um verde de bosque, misterioso, profundo, húmido. O Alexandre chega pouco depois da casa de banho. Ao beijar-me no pescoço sinto novamente o seu cheiro.
-Costumas reparar na beleza das coisas?
- O quê?
- Se costumas reparar na beleza das coisas?
- Sim, claro.
A resposta é de tal forma imediata e mecânica que desconfio. É muito difícil encontrar quem repare na beleza das coisas. Ele fixa o olhar numa das varandas do prédio abandonado. “Quem terá brincado com aquela bola?”, pergunta e aponta para uma velha bola de futebol esquecida entre as ruínas. Olho-o e, nesse instante, percebo por que razão nos encontramos assim, há já tantos anos, intermitentemente, em quartos de pensões, sem querer nada um do outro, sem desejarmos fazer parte da vida do outro. Descemos à rua. O Alexandre fica na entrada do prédio à espera que a chuva passe. Corro para a paragem de táxis. Tenho de estar às seis horas no portão da escola.


2014/03/30

Pensão Gerês (3)

Conheço o seu cheiro, um cheiro autêntico, de cabedal, de pele curtida. O seu toque é lento, contido, certeiro. Certa vez, no jardim da Feira da Ladra, pegou na minha mão e beijou-a. Um beijo discreto, mas sensual. Nesse instante, senti uma vertigem, tornei-me líquida, desejei intimamente que me tomasse ali, num banco de jardim, à vista dos velhos que jogavam à sueca. Atravesso-me agora na cama, deito a cabeça sobre a virilha esquerda do Alexandre. Sinto o seu sexo pousado sobre o meu rosto. Dá-me pancadinhas ligeiras. Penso: “Aqui estou, num quarto de pensão, com duas grandes janelas a dar para o casario da Baixa, deitada com o homem que me beijou a mão no jardim da Feira da Ladra”. Olho novamente o pénis. Pulsa como se tivesse vida própria. Cheiro-o, humedeço as pontas dos dedos com saliva e toco a glande, macia, frágil. Desço a mão pelo frisado do prepúcio recolhido, agarro o fuste. Sinto um pulsar de bomba. Inclino-me, enfio por fim a ponta da minha língua no meato. Sabe a sal e os nervos das comissuras parecem linhas repuxadas. Encho a boca. Pouco depois, amarinho pelo corpo do Alexandre. Sopro-lhe uma frase ao ouvido e viro-me de costas. 
-Nunca quiseste fazer assim…
- Experimentei há pouco tempo e gostei. 
O Alexandre entra tranquilamente dentro de mim, percebo que se esforça para não me magoar. Ficamos deitados, um sobre o outro, mal nos mexendo. “Desconcertas-me, Ana, excitas-me, se me mexo venho-me”. A sua mão procura-me entre as coxas, no emaranhado dos meus pêlos muito negros e ásperos. Começo a gritar. Não sei porque o faço. É a primeira vez que grito na cama. E se a mulher da farda puída bater à porta? Uma vez, na feira de Grândola, ao andar no Twister Gigante, também gritei assim. Sinto vergonha por estar aos gritos, mas não os consigo controlar. O Alexandre continua a tocar-me. Tenho um orgasmo bom, muito diferente do que é habitual. 

2014/03/29

Pensão Gerês (2)

Ali”, digo pouco depois e aponto para um prédio que fica na esquina da Rua Barros Queirós. Na varanda do terceiro andar, uma placa antiga anuncia “Pensão Gerês”.  Caminhamos, apressados. Ainda assim, sou capaz de me dar conta das movimentações dos africanos no adro da Igreja de São Domingos. Há homens ociosos que mantêm a alegria da conversação, falam ruidosamente, gesticulam, as palmas das suas mãos são cor-de-rosa clarinho, quase brancas, mas os olhos, de tão raiados de sangue, assustam-me. Duas mulheres, de turbantes coloridos, pés enfiados em chinelos de corda, estão sentadas num banco de pedra. Vendem malaguetas verdes, quiabos e uns pequenos frutos alaranjados que não conheço. A entrada do prédio da pensão cheira a humidade, bolores, madeiras bafientas. Por cima das velhas caixas do correio, pequenas placas identificam os inquilinos: um advogado, um técnico oficial de contas, uma esteticista, dois osteopatas e um astrólogo. Subimos  ao terceiro andar e tocamos à campainha.  Uma mulher velha abre a porta. Usa chinelos ortopédicos e uma bata azul muito puída da gola. Parece espantada com a nossa chegada e, quando ri, mostra os dentes da frente cheios de sarro amarelo. Não se vê mais ninguém, não se escuta um ruído. A pensão parece deserta, parada no tempo, como se há muitos anos ali não entrasse ninguém. A mulher caminha devagar por um corredor estreito até chegar a um pequeno balcão de madeira escura. Em cima de uma mesa de encosto com formato de meia-lua vê-se um escaparate com folhetos turísticos e um arranjo de flores artificiais desbotadas pelo tempo. Quer saber quantas noites vamos ficar. “Ficamos uma noite e pagamos já”, esclareço. A mulher guarda o dinheiro numa gaveta que fecha à chave e leva-nos por um segundo corredor ainda mais escuro. As paredes estão cobertas até meio por azulejos que formam um padrão de formas geométricas e, apesar da penumbra, os candeeiros, de vidro fosco, estão apagados. Tudo é silencioso e sombrio, mas, subitamente, a mulher abre uma porta e faz-nos entrar num quarto limpo, amplo, arejado, cheio de luz. Há um roupeiro de espelho oval entre duas janelas, a cama é grande e está coberta com uma colcha azul clara, de cadilhos brancos. A luminosidade faz-me piscar os olhos. O Alexandre fecha a porta e começa a despir-me.

2014/03/07

Pensão Gerês (1)

A Pensão Imperial já não existe. Agora é um hostel com ares de modernice, mobilado com caixotes do ikea, tapetes de cores neutras, molduras garridas com reproduções dos borrões do Adolph Gottlieb nas paredes. Já não há passadeiras de linóleo nos corredores, nem vasos de cóleos murchos aos cantos, o rapaz dos óculos muito graduados desapareceu. A cozinha, que funcionava como recepção, é agora um espaço estranho, não sei muito bem o que é, parece uma sala de laboratório, as paredes estão revestidas de azulejos verdes e, em cima das bancadas altas, há portáteis e seus sucedâneos. Uma rapariga, feiosa, com ar tristonho, cabelo ruivo mal cortado, consulta o facebook ao mesmo tempo que fala ao telefone. Pergunto ao gerente pela antiga dona. O homem, de barba muito cerrada e cabelo despenteado, roda os olhos na minha direcção, depois volta a pousá-los no ecrã de um computador. Parece aborrecido com a pergunta que lhe faço. “Já estava muito cansada”, acaba por dizer, “quis desfazer-se do negócio, ficámos nós com isto”. E cala-se sem dar mais explicações.  Pelo olhar displicente, pelo encolher de ombros, consigo escutar para lá das palavras que lhe saem da boca. Diz assim: “Limpámos o lixo, não há um único vestígio da velha, pode olhar à vontade, não encontrará animais de loiça, cães, raposas, galos, não encontrará fruteiras de plástico nem naperões de linha em cima das mesas”. Olho em volta, toda aquela modernidade me entristece. “Já não gosto deste sítio”, explico ao Alexandre e descemos à rua. Continua a chover. Precisamos de encontrar rapidamente uma alternativa, já não temos muito tempo, às seis horas o meu filho espera-me no portão da escola. 

2014/03/04

Dezembro

A minha mãe sofre de depressão crónica. Eu também. Pouco antes de ela regressar a Goa, senti-me bastante em baixo, sem vontade de fazer nada, sem vontade de estar com ninguém. Dezembro foi um mês terrível. Passei dias inteiros na cama. Pouco comi. Não atendi o telefone. Entreguei os meus filhos aos cuidados da Graça. Deixei de ler, de correr, de escrever. Até de tomar banho e de lavar os dentes. Cheguei a pedir ao psiquiatra que me internasse. Ele fingiu não me ouvir e aumentou-me a medicação. Um dia, porém, consegui levantar-me da cama, vestir-me e arrastar-me até ao trabalho. Ao fim da manhã, olhando em volta, senti uma vontade urgente de chorar. É-me muito difícil aguentar o choro. Querer chorar e não o poder fazer é uma autêntica tortura. Ainda pensei em ir para a casa de banho, trancar-me no cubículo pequeno, sentar-me na retrete, fixar o recipiente dos pensos higiénicos, chorar com a cabeça encostada à parede de azulejos esverdeados. Porém, temi que a minha aflição não desaparecesse com um choro silencioso. Sempre que pressinto um choro incontido, muito aflito, corro à igreja de Nossa Senhora de Fátima, sento-me ao lado do altar a Nossa Senhora do Carmo, fixo os noventa anjos e choro na sua companhia. Mas, nesse dia, sentia-me tão em baixo, tão suja, tão incrivelmente miserável e cansada, que temi não conseguir caminhar até à igreja. Aguentei o choro durante mais alguns momentos, mas, assim que as lágrimas me embaciaram o olhar, desci à rua e apanhei um táxi. Comecei a chorar, encolhida no banco. O condutor do táxi, um homem jovem de rosto grosseiro, atrapalhou-se, “A senhora acalme-se, não chore, tem aqui um lenço!” foi dizendo enquanto me espiava pelo espelho retrovisor. Mal cheguei a casa dos meus pais, entrei no quarto da minha tia para que o Joaquim não se desse conta da minha chegada. A minha mãe rapidamente se apercebeu do meu desespero. “Não aguento”- fui-lhe dizendo numa aceleração de palavras – “Tenho medo de ficar sozinha, tu vais para Goa, o Reinaldo volta para França, eu fico sozinha com os miúdos e isso assusta-me, aterroriza-me”. Mergulhada nessa tristeza tão sombria, senti-me pela primeira vez na vida incapaz de tomar conta dos meus filhos. Chorei durante muito tempo, aos soluços, nos braços da minha mãe. Pedi-lhe que me abraçasse com muita força e ela abraçou-me. Gosto dos abraços que estrangulam. Continuei a falar no tom delirante que às vezes me chega. “Sabes, mãe, o meu pensamento foge sempre para aqueles pensamentos, faço um esforço, juro que faço, mas não consigo libertar-me”. A minha mãe escutou-me em silêncio. Por fim, explicou-me que por vezes também pensava em acabar com tudo, mas guardava sempre para si tais pensamentos sombrios, nunca os partilhava. As suas palavras desconcertaram-me, nelas encontrei a revelação da dimensão da sua tristeza, mas também uma subtil crítica, era como se me acusasse de imaturidade, como se me aconselhasse a sofrer calada, sobretudo a nunca incomodar os outros com a minha angústia. Recuperei  a calma. Deixei de chorar. 

2014/03/01

Alívio

Pela manhã, ao pequeno-almoço, li um conto da Katherine Mansfield. Nas primeiras páginas, a escritora neozelandeza descreve o alívio que as mulheres de uma família inglesa sentem quando Stanley, marido, cunhado, pai, filho, sai de manhã. Stanley parte para o trabalho, leva o chapéu de feltro posto e a bengala que custou a encontrar, Beryl, Linda, a velha Mrs. Fairfield, as crianças, Kezia, Isabel, Lottie, ficam sozinhas. A casa volta a ser um lugar doce, tranquilo, feminino: as mulheres aproveitam o fresco do jardim, notam os detalhes do mundo, tomam banhos de mar, gozam o prazer de falar sem ter ninguém a perturbá-las. Até Alice, a empregada, é atingida por essa inconveniente felicidade, lava a loiça na cozinha, despreocupadamente, estouvadamente, desperdiçando água. “ Já foi? Já! Oh, que alívio, como as coisas ficavam diferentes com o homem fora de casa. Até as próprias vozes pareciam mudadas, quando se chamavam umas às outras; soavam quentes e cheias de ternura, como se estivessem a partilhar um segredo”. Li este parágrafo, pela manhã, no refeitório, e senti-me plena, estupidamente feliz. À noite, na cozinha, enquanto picava alhos para temperar bifes e observava a torneira do esquentador (pinga há mais de quinze dias, um pingue-pingue contínuo e silencioso), pensei novamente no conto da Katherine Mansfield. De imediato, me aflorou ao espírito o alívio que a minha mãe sente quando o meu pai parte sozinho para Goa. Os seus olhos ganham brilho, às vezes, surpreendo-a a cantar pelos cantos da casa. Parece uma outra mulher, alegre, tranquila. A minha mãe desfruta, com discrição, dessa calma, mas, um dia, no quarto da tia Dé, depois de trocar a fralda ao João, levantou os olhos e perguntou-me “Mas por que é que eu me sinto tão bem quando o teu pai não está cá?” Logo a seguir, como se temesse a sinceridade da minha resposta, baixou os olhos e começou a rir-se nas momices do neto mais novo. A minha mãe não o confessa abertamente, mas, pela alegria das conversas, pelo brilho dos seus olhos, é evidente que se sente menos tensa quando o meu pai não está. Parece libertar-se de qualquer coisa que a sufoca lentamente. No entanto, passado algum tempo, como se se sentisse intimamente culpada por esse bem-estar, começa a insistir que tem de ir para Goa. “Tenho de ir ter com o vosso pai”, explica, “Não tem ninguém que trate dele, a Ligorina só cozinha aquelas comidas condimentados que lhe fazem mal à pancreatite”. É um discurso forçado, mas adequado à sua condição de mulher de setenta anos. Mete-se sozinha no avião e vai ao encontro do meu pai. Fica por lá três, quatro meses. É um tempo de profunda agonia e solidão. O meu pai ama a minha mãe, tem por ela um amor antigo, comovente, mas isso não significa que cuide dela, que a abrace, que lhe preste atenção. Passa os dias em bancos, repartições, conservatórias, serviços. A minha mãe nunca o acompanha nessas andanças, fica na casa de Maina, sem ter ninguém que a leve a Margão ou a Pangim. Penso nela muitas vezes. Como ocupará o tempo dessas longas horas de solidão? De manhã, desce ao jardim, entretém-se a regar as árvores de fruta e a apanhar folhas secas das roseiras. Pela tarde, senta-se no alpendre a ouvir as conversas da Fátima, indolente, preguiçosa, e da tia Maria, má, feia, o olho cego de víbora sempre a largar uma aguadilha ramelosa. Se lhe falta alguma mercearia, vai até à pequena loja que fica junto da igreja. Volta a casa com um pequeno saco de plástico nas mãos, leva o corpo pesado do calor, os seus chinelos pisam as vagens de tamarindo que cobrem a vereda do portão. Arruma as compras no armário da cozinha, enfrenta novamente o silêncio. Às vezes, a solidão da minha mãe torna-se incomportável. Telefona, choraminga, diz não aguentar as saudades dos filhos, dos netos, da irmã. Desafio-a a meter-se no avião e a voltar para perto de nós. A reacção da minha mãe é sempre igual. Emudece o choro e, num tom firme, quase irritado, responde-me: “O meu lugar é ao lado do teu pai”.  

2013/11/17

Al Green



Acontece sempre o mesmo: procuro no manto da virgem a cabeça do abutre e, nos olhos do menino, a maldade inicial. 

2013/10/21

Funeral

Chove. A viúva mantém-se imperturbável, rosto sem lágrimas, o corpo rijo como se fosse feito de pedra. Essa imobilidade, que soa um pouco a afectação, apenas é quebrada pelos puxões que dá ao filho. Presa pela mão, com uma lagarta de ranho a escorrer do nariz, a criança insiste em querer subir ao monte de terra que cobrirá o caixão. Familiares e amigos mantêm-se silenciosos, hirtos, o mesmo semblante inexpressivo, a mesma serenidade. Só uma velhinha, que mastiga o vazio, soluça abertamente. Quando o coveiro começa a largar pazadas de terra sobre o caixão, talvez incomodada pela contenção geral, leva as mãos ao peito e exclama “coitadinho do meu vizinho!”. A viúva não desvia o olhar, não se mexe. Dá apenas um novo puxão ao filho. O menino sorve o ranho e choraminga.

O coveiro vai compondo desajeitadamente as coroas de flores. Recordo o morto. Namorámos durante algum tempo, pouco depois do meu divórcio. Um homem amável, de conversa fácil, incapaz, porém, de partilhar um pensamento íntimo. Só uma vez, num dia igual ao de hoje, escuro, denso, chuvoso, me revelou o seu mundo interior. Descíamos a Rua da Madalena em direcção à Baixa quando parou a olhar uma varanda de vasos floridos. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, explicou que a morte não o assustava. O que o assustava era a morte depois da morte, o esquecimento dos outros, sofria com a possibilidade de ninguém recordar os seus gestos, o tom da sua voz, os principais traços do seu carácter, sobretudo, as suas opiniões. Contou ainda que o pai morrera novo e a lembrança da mãe ajeitando as jarras da campa com flores frescas, beijando o nome incrustado na lápide, era a mais bela que guardava da infância. Como que surpreendido com a sua confissão, ficou por instantes em silêncio, depois continuou a caminhar.

Esqueço essa estranha conversa. Volto a fixar o vulto da viúva. Conheço-a vagamente. É bonita, inteligente, emancipada. Imagino que, ao contrário de mim, não encontre satisfação na simples ostentação do seu corpo. Tenho a certeza de que não voltará a entrar no cemitério. Cuidar dos mortos deve parecer-lhe uma mania de gente ignorante, uma tradição obsoleta, até estúpida. A ideia da campa degradando-se lentamente, enchendo-se de estrelas de bolor preto, entristece-me. Uma rajada de vento forte desequilibra-me e faz-me pisar uma poça de lama. Enquanto raspo o salto do sapato ao bordo de um aviso camarário, tomo uma decisão: não pude cuidar do João vivo, cuidarei dele morto.

2013/10/19

Nico

2013/10/15

Despique

A Dina trabalha há muitos anos no minimercado que fica nas traseiras do meu prédio. No início do ano lançou um romance e partilhou o acontecimento com os clientes habituais. Caí na tentação de lhe confessar que também andava a escrever um livro. Expliquei-lhe ainda que, se corresse tudo bem, o livro sairia em Setembro. Desde então temos conversas muito interessantes sobre o processo de criação literária. Acontece que, por cansaço, também falta de talento, o meu livro não saiu em Setembro. A Dina, cada vez que me apanha, insiste em querer saber quando é que será publicado. Respondo-lhe evasivamente, às vezes, finjo-me distraída e não digo nada. Há coisa de quinze dias, contou-me que escreveu um segundo romance. Sairá em Novembro. Dei-lhe os parabéns, forçando um sorriso amarelo. Enquanto ensacava as compras, notei-lhe um brilho de vaidade no olhar, como se me dissesse assim, toma lá, não consegues acabar o teu livro e eu já despachei dois. Senti-me magoada. Não mereço o despique e até lhe trouxe uma lembrança de Goa.

Ontem, numa grande livraria, procurei o livro da Dina. Encontrei-o com facilidade na bancada dos livros coloridos. Tem uma capa cheia de brilho e traz uma linda cinta a explicar que se trata de uma história de amor, com um travo picante de erotismo. Li páginas soltas e não tardei a pensar, muito aliviada, que merda, que grande merda, o que demonstra bem a minha mesquinhez e não desmerece a escrita da Dina. Li as primeiras cinquenta páginas do último livro do Coetzee, obra aclamada pela crítica – desconcertante, assombroso, alegoria não sei do quê -, e pensei exactamente o mesmo, que merda, que grande merda. Não voltei a entrar no minimercado. Não sou capaz de enfrentar a alegria da Dina e humilha-me ser confrontada com o meu fracasso. A decisão, porém, causa-me transtorno. Agora, se preciso de salsa, fiambre, pão, massa para a canja, tenho de caminhar durante dez minutos até ao grande supermercado que fica na outra ponta do bairro. Não sou propriamente rancorosa, mas penso muitas vezes que era bom que a Dina fosse despedida. Poderia dedicar-se a tempo inteiro à escrita, apurar o estilo, quem sabe até ganhar um prémio literário. Eu ganhava o minimercado de volta. 

2013/10/14

Aznavour

2013/10/10

Outubro

Morri no princípio de Outubro. Enterraram-me num cemitério com vista para a auto-estrada do sul. Passei os primeiros dias entretida, inteirando-me da minha nova condição, descobrindo como é estar morta. Escutei o restolhar das folhas dos eucaliptos e pude fazê-lo durante longos minutos, concentrando-me apenas no ruído das copas, isolando-o do resto do mundo até se tornar insuportável. Vagueei por alamedas, paralelas e perpendiculares, olhando as campas, lendo inscrições, observando a estatuária: gárgulas, anjos, cristos lacrimosos, conchas de mãos piedosas. Cheirei as flores frescas das coroas fúnebres e desfiz com as minhas mãos invisíveis corolas frágeis. No princípio da noite, quando a escuridão era ainda clara, os portões do cemitério eram sempre fechados com estrondo. As mulheres vestidas de preto voltavam para os seus apartamentos de marquises de alumínio e sentavam-se sozinhas em frente do televisor. Uma quietude insuportável abatia-se sobre o lugar e eu voltava então ao meu corpo, deitado num caixão de cetim branco. Encaixava perfeitamente nele. Uma noite, porém, senti desconforto ao voltar a mim. O corpo inchara e eu sobrava dentro dele. Aninhei-me no canto esquerdo e procurei adormecer. Um reco-reco pequeno, um barulho persistente, fez-me despertar. Pensei que fossem térmitas alimentando-se do pinho do caixão. Abri os olhos. Vi duas lagartas gordas, brancas, cegas, sorrindo-me. Uma das lagartas tinha boca de ventosa e mordiscava a ponta esquerda do meu coração. Enervei-me. Não vivo sem corpo. Mesmo morta, preciso dele. Não encontro conforto na imaterialidade, só compreendo o que é concreto, comum, palpável. Enxotei as lagartas que fugiram como toupeiras. Decidi partir. Tentei ressuscitar que é a única maneira que conheço de largar a morte. Não consegui. É muito difícil. É preciso ser deus, filho de deus, parente de deus, amigo de deus, para o conseguir. Na manhã seguinte, estava entretida a observar o namoro dos pardais, vi chegar pela alameda os meus três filhos. Não traziam flores. Vinham com olhos líquidos de abandono. Nessa noite, deitei-me nas ruínas do meu corpo, era já só ossos, os malares cavados, a carne ressequida. Ventava na arcada das costelas e o ruído desse vento perpétuo não me deixou adormecer. A morte pesou-me mais do que a vida.

2013/10/06

La Noyée

2013/10/04

Sala de espera

Tento ignorar as mulheres com o útero já descaído, concentro-me no livro que o Luís me emprestou pouco antes de morrer. Mal entro no gabinete percebo que a médica está tensa. Acelerada, masca uma pastilha elástica e, de tanto o morder, tem o canto do lábio superior cheio de sangue pisado. Sem sorrir, sem me olhar, manda-me despir. Abre-me as pernas e, bruscamente, enfia uma sonda vaginal. Que sorte!, explica enquanto olha o monitor, está limpinha, não precisa de fazer nenhuma raspagem. Despede-se dizendo que daqui a um mês posso voltar a engravidar. Saio do gabinete e volto a sentar-me na sala de espera. Não sinto tristeza, apenas humilhação. Sei que o meu corpo não presta, vive deslassado do resto, mas, para o suportar, sempre me agarrei à evidência da sua outra eficácia. Não chego a ser mulher, sou apenas uma fêmea, um útero, uma máquina. É assim que me vejo. É assim que os outros me vêem. Engravidei quando quis. Tive gravidezes calmas, trabalhei até à véspera do dia do parto. Gerei crianças sadias, grandes, espertas, risonhas e muito bonitas. Toda a gente mas gaba. Para mim era tão certo o nascimento deste filho que imaginei as suas feições, a cor do cabelo, o recorte das mãos. Também pensei em nomes: Ana ou Álvaro. Aproveitei até os saldos de verão para comprar roupa de grávida, duas camisolas, uma preta, outra vermelha, um vestido estampado. Tudo muito justinho e confortável como se quer numa grávida moderna.

Não percebo o que correu mal desta vez. Aconteceu no domingo. O mais novo, sentado no chão, entretinha-se com um puzzle. Preparava-me para lhe explicar que várias peças estavam mal encaixadas quando senti uma cólica violenta. Deixei-o e corri à casa de banho. Sentei-me na sanita e imediatamente escorreu um coágulo escuro, morno, do tamanho de uma uva. Soube naquele instante que dentro daquele saco estava um minúsculo lagarto arroxeado, morto, de mãos de dedos membranosos, cauda embrionária. Fiquei sem saber o que fazer. Descreio do aborto como forma de emancipação feminina e muitas vezes penso no destino desses embriões e fetos expulsos antes do tempo. Que lhes acontece? Devem ser metidos em grandes sacos de lixo pretos juntamente com rins, massas tumefactas, mucos, quistos, secreções, escarros, ossos, restos de pele. A possibilidade desses pequenos monstros serem indistintamente incinerados em fornos de altas temperaturas impressiona-me. Faz-me muita confusão. Deixei-me ali estar, de pé, a olhar o coágulo na sanita, sem conseguir descarregar o autoclismo. 

Agora, estou aqui, nesta sala de espera, limpinha, bem limpinha, como explicou a médica dos lábios trilhados, sem precisar de fazer uma raspagem. Que faço às duas camisolas? Ao vestido estampado que comprei nos saldos? Aos nomes que escolhi para o pequeno lagarto assexuado? Ao rosto redondo que lhe imaginei? 

2013/10/02

Sufixo

Li o relatório várias vezes, satisfeita com o resultado final. Gosto de redigir ofícios, contestações, pareceres, dá-me prazer apurar essa escrita glaciar, objectiva, sem desperdícios, mas formalmente inspirada. Ao final do dia, corri à chuva, procurei subidas íngremes, pisei poças de água e lama. Corro porque preciso cansar o corpo, é a única forma de o sentir vivo.  Na volta passei  pelo minimercado, comprei broa branca, dióspiros, também morangos a um euro o quilo. Fui buscar o Joaquim a casa dos meus pais, beijei o cabelo oleoso da tia Dé, abracei muito a minha mãe, o meu pai pediu-me cuidado com as corridas tardias. Já em casa, enquanto escolhia alguns livros para o R. levar para Dunquerque, encontrei A Aldeia de Stepantchikovo e os Seus Habitantes, o livro mais divertido que li em toda a minha  vida. Levei-o para o quarto e deixei-o em cima da mesinha de cabeceira. Lavei os morangos, arranquei-lhes  o pezinho, enchi quatro grandes taças, polvilhei-as com açúcar e um salpico de água de rosas tal qual aprendi a fazer num programa de culinária inglês. Os meus filhos espantaram-se quando me viram chegar com as taças dos morangos. É o nosso jantar, expliquei. O mais pequeno bateu palmas e, com a sua voz de corneta, exclamou:  és a melhor mãezinha do mundo. O amor num sufixo. Já os deitei, beijei, escutei cada um falar do seu dia. Também já tomei a fluoxetina e o comprimido cor-de-rosa para dormir. Terei uma noite branca, lisa, sem sonhos. É isto um bom dia: eu, livre de calamitosos delírios, aceitando a vida em toda a sua bela tranquilidade, não querendo, não esperando absolutamente mais nada. 

2013/10/01

Andar a pé

 “Posso morrer porque amei e porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburgers, de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.”

Adília Lopes, Irmã Barata, Irmã Batata


2013/09/25

Coração

No dia seguinte, a cidade despertou, ignorando a dimensão da tragédia. Os jovens casais despediram-se com um beijo. Um homem pediu à mulher que arranjasse beterrabas e repolho no mercado e preparasse um borsch com natas azedas para o jantar. Uma rapariga levou para a fábrica uma merenda de conservas de pepino e pão duro. Dois velhos planearam uma pescaria no rio, num recanto fresco, perto do bosque de abetos, onde nadavam trutas gordas. Uma mulher apanhou o comboio para Kiev na estação de Yanov e, ao olhar a cidade sentiu, sem a saber explicar, a imensa solidão dos espaços vazios. A vida continuou como se nada fosse, a mancha invisível, porém, já se havia espalhado, entrara nas casas, penetrara nos solos, procurara o coração dos objectos, dos animais e das pessoas para aí se instalar.

Shouei

2013/09/20

Endofalk

A preparação para o exame durou dois dias. Andei a dieta de caldos, carnes magras e pão branco, fiambre de peru, peixes magros, carapau, faneca e robalo. Nada de legumes, nada de fruta, quatro saquetas de endofalk diluídas em muita água, três litros para beber, de quinze em quinze minutos, na véspera. O médico explicou-me com familiaridade: Ana Clara, se fores muito presa dos intestinos, podes juntar ao endofalk uma colher de dulcolax. Ele a falar, eu a pensar no canto da sibila, em sefarditas e aristos. À cautela, não fosse dar-se o caso de não levar a tripa bem limpa e ter de repetir o exame, segui o conselho: juntei duas colheres de laxante e espremi meio limão para evitar a agonia de tanta doçura. Enchi um copo de vidro biselado muito bonito que roubei este verão da casa abandonada. Levei-o à boca,  bebi de trago como faço nas noites em que procuro o sossego de uma embriaguez rápida. Comecei a preparar o jantar e aumentei o volume do rádio. Abraçado às minhas pernas, o Joaquim fala de ninhos, ouriços e castanhas, o mais velho, acelerado no quarto, está nas habituais atrapalhações da adolescência. Tenho um potro e um alazão. A doce menina contempla em silêncio a travessa do peixe. Sorrio e esqueço-os. Enquanto espero que a água levante fervura para deitar o arroz, penso no homem de mãos escuras que não me toca, não me quer. Na sua indiferença e distância reside a justificação do meu amor. Felizmente o endofalk não tarda a fazer efeito e liberta-me da melancolia. Empalideço e corro à casa de banho.

2013/09/14

2013/09/12

Fervura

A adolescência trouxe-me uma espécie de fervura ao sangue. Foi por volta dos vinte anos que desejei morrer pela primeira vez. Contava lamelas de comprimidos. Pressionava pontas de faca contra os pulsos. Ficava à beira do passeio a sentir o corpo estremecer à passagem próxima dos autocarros. Subia ao telhado do prédio com o intuito de me atirar lá de cima. Apesar da angústia, sinto um conforto esquisito quando recordo esses instantes desesperados, sobretudo quando me chega a lembrança da beleza extrema do telhado do prédio dos meus pais. Abria a pequena porta de metal e o ar era subitamente puro, livre de fuligem cancerígena. Olhava em redor, só via céu, o alinhamento simétrico das torres de doze andares, a pista do aeroporto ao longe. Parecia-me que ali, naquela dimensão, mundo inóspito, silencioso, solidão muito branca, o ar voltava a chegar-me aos pulmões. A pouco e pouco passava-me a vontade de morrer. Deitava-me no declive de telhas, esverdeado de líquenes, sentia o vento no rosto, esperava que o tempo passasse.

Pensar na morte tornou-se num vício. Aliviava-me. Fazia listas de métodos, tentava perceber qual o mais eficaz e menos doloroso. Todos apresentavam desvantagens e dificuldades. Na queda havia o instante em que o corpo bate no passeio e o crânio se racha. Cortar os pulsos trazia o incómodo do sangue empapando as carpetes da sala e a certeza de morrer lentamente. O enforcamento parecia-me uma morte feia, abrupta, os enforcados morriam aos soluços, o corpo sacudido pelo estertor final, a língua de fora. Outra coisa me fazia rejeitar o enforcamento. Sabia que os enforcados perdiam o controlo do esfíncter e a ideia dos meus pais darem comigo morta, cheia de urina e fezes, envergonhava-me. Tomar comprimidos era, de longe, o melhor método, mas havia a possibilidade da falhar a dose, se não tomasse a quantidade certa corria o risco dos outros encontrarem artificialidade no meu gesto. A reflexão enfraquecia pois a minha determinação. Queria morrer, mas através de um gesto que fosse simples como beber um copo de água ou desligar um interruptor. 

Durante a noite, deitada na cama, muitas vezes, pensei que a solução mais fácil era entregar o assunto a um especialista. Podia simplesmente contratar alguém para me matar. Havia maridos que contratavam assassinos para matar as suas mulheres e mulheres que contratavam assassinos para  matar os seus maridos. Por que não havia eu de contratar quem me matasse? Estes pensamentos extraordinários chegavam geralmente depois de me masturbar a pensar em prostitutas com grandes mamas e vestidos de lantejoulas. A ideia do pistoleiro parecia-me boa, mas não tardei a perceber que a morte, encomendada e eficaz, era um pouco como as prostitutas de vestidos de lantejoulas: um luxo que não estava ao meu alcance. Não tinha dinheiro para contratar um assassino, e mesmo que tivesse, não conhecia nenhum. Vivia num bairro de classe média, pacato, perto de Sacavém. Havia apenas alguns heroinómanos que roubavam enciclopédias, loiças finas e garrafas das garrafeiras dos pais para assegurar a dose diária. Tudo era cinzento e deprimente. Encontrar ali um assassino não era fácil.

Mas, por mais que tentasse livrar-me dos pensamentos suicidas, a vontade de morrer não me largava. Tornei-me obsessiva, a ideia era-me tão agradável como sentir a luz da tarde coada pelas cortinas brancas no quarto da tia Dé ou observar a minha mãe, nas manhãs de sábado, limpando o pó do grande móvel escuro da sala. Sentia-me naturalmente desadequada, anormal, adensava-se a minha inquietação: não só me masturbava a pensar em mulheres prostibulares como sentia esse desejo latente de morte. Muitos anos passados,  habituada à natureza cíclica desse desejo, a minha iniciação no desespero parece-me caricata. Às vezes, entre soluços e lágrimas, dá-me até vontade de rir. Tudo bastante dramático, sofrido, estupidamente inconsequente. Sei agora que, assim como somos pornográficos às escondidas, somos suicidas às escondidas. A vida tem um punhado de coisas boas, mas não é como se pinta. Quase sempre é aborrecida, uma desilusão, está cheia de sofrimento, tristeza, injustiça, ruas sujas e íngremes, crianças com fome, gente silenciosa e desesperada. Como não achar a vida  insuportável? Não tenho dúvidas de que a morte é desejada por muita gente e constantemente. Se houvesse um método infalível, fácil,  instantâneo, limpo, haveria no mundo uma mortandade grande, talvez fosse até preciso mandar construir crematórios, valas comuns, investir na formação de coveiros, técnicos de equipamento de cremação, cangalheiros. Mas há vinte anos, precisamente há vinte anos, não tinha o discernimento de hoje, vivia na certeza da minha singularidade. Dava voltas na cama, inquieta. Quanto mais pensava no assunto mais me convencia de que a morte era o melhor que a vida tinha para me oferecer.

2013/09/11

Aos Amores




2013/09/10

Indicador

Fixo o almoço: sopa de feijão e uma pêra cozida num líquido licoroso. O jornal está aberto. Finjo ler. Recordo o desenho do meu sobrinho, a boca do meu irmão, o sonho de domingo interrompido pelo telefonema da Dá. Distraio-me com pensamentos soltos, lembranças felizes, mas, atrás, correm as imagens de sempre, latentes, dolorosas. Desejo o vazio, isso e aprender a deslizar o indicador no ecrã de um telefone. Sinto o cheiro da minha transpiração e noto pêlos escuros nas pernas. Mantenho-as, porém, cruzadas, à vista, para que sejam observadas na sua triste mornidão pelos homens que esperam na fila. Enquanto levo a colher à boca observo o rapaz das sopas, há doze anos que o vejo ali, entre a Rosa e a Fátima, sempre no mesmo aprumo: pega na concha, mete-a na panela, dá duas ou três voltas para dar corpo ao caldo, trá-la vertical e, com um rápido movimento do pulso, quase imperceptível, faz verter o líquido na tigela. Para além de ser excepcionalmente bom naquilo que faz, o João é gentil, doce. Imagino-o a viver com uma avó, os dois, felizes por se terem, a observar a cintilação do televisor. É isto a minha vida. Almoçar sozinha, imaginar as noites do rapaz que serve sopas e mostrar as pernas aos homens que aguardam na fila do refeitório.

2013/09/05

Lado B



(é bem melhor, este disco; escuto e tenho vontade de acelerar nas curvas.)

Filha

Pergunto “Nunca sentes vontade de maltratar os mais fracos, os miúdos doentes, aleijados, aqueles que são infelizes ou simplesmente parecem infelizes?”. Diz que não e deixa cair a cabeça no meu colo. “Não acontece sempre, mas, por vezes, tenho vontade de gritar com a mulher que pede à saída no metro e, hoje, durante a hora de almoço, senti vontade de pontapear uma criança. Maltratar os fracos sabe sempre bem.”, explico com vagar e cheiro-lhe o cabelo.

Anão

Os poetas, antes de tudo, celebram o amor, e têm razão, porque nada como o amor precisa tanto de ser transformado naquilo que não é. As mulheres tornam-se então melancólicas, enche-se-lhes de suspiros o peito, e os homens ganham um ar sonhador, pois todos percebem imediatamente que um poema que desfigura a tal ponto a realidade deve ser particularmente belo.

O Anão, Pär Lagerkvist

2013/09/01

Joaquim