O problema, como lhes costumo dizer, é deles, não meu. Não tenho compromissos, sou livre como uma borboletinha. Não traio ninguém. Três homens casados, mas muito diferentes. Conheço o Alexandre há dez anos, encontramo-nos em quartos de hotel quando nos apetece. Os nossos corpos conhecem-se de outras vidas, encaixamos perfeitamente, tocamo-nos como bichos, sem filtros, sem inibições. Ele sabe o que me dá prazer. Sei o que lhe dá prazer. Gosta, por exemplo, que lhe lamba os testículos. Nunca me fala da mulher ou dos filhos. A última vez que estivemos juntos explicou-me o que era uma didascália e, depois de me beijar as mamas, disse que eu era uma mulher-kamikaze. É o amante perfeito. Não trocamos mensagens, não falamos ao telefone, não nos encontramos para almoçar. O segundo amante, recente, novato, é muito diferente. Encontrei-o por acaso na fila do pão. Bonito e escultural, mas um pouco parvo. Empolga-se, diz que os meus olhos castanhos são lindos e que a minha boca tem a cor das framboesas maduras. Que tédio, que miserável tédio! Chama-se Miguel e acho que o vou deixar. Fala-me de amor, um amor aborrecido e previsível, mas depois, pobre coitado, partilha comigo histórias sobre a mulher e as duas filhas. Na semana passada, depois de me oferecer um livrinho de merda que naturalmente não lerei, disse que a mulher, empregada bancária, é a rocha que sustenta a sua vida. Não vou para a cama com um homem para o ouvir falar da sua mulher. O terceiro homem casado com quem me deito é o homem que amo. Um homem inteligente, bonito, o mais bonito do mundo, não há homem igual, mas pelo qual não tenho qualquer tipo de entusiasmo sexual. Deito-me com esse homem quando ele quer, sou dissimulada, detestável, finjo orgasmos, simplesmente porque preciso de senti-lo perto de mim.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2015/05/30
Seis andares (1)
Depois do último internamento, há cerca de seis meses, passei a sofrer de insónia. Demoro muito tempo a adormecer. Acordo várias vezes durante a noite e fico às voltas na cama, à espera que o sono volte. Sonho recorrentemente com a enfermaria onde estive internada. É um sonho estranho. As chapas do telhado, enferrujadas, têm buracos por onde entram pássaros e outros bichos. Os degraus da entrada, de madeira apodrecida, estão cobertos de urtigas. As paredes, manchadas de tinta azul escura, parecem esboroar-se em caliça. Nas janelas há grades de ferro. O soalho é pardacento e áspero. As camas da enfermaria estão pregadas ao chão e, nos lençóis, manchados de urina, passeiam-se lindos percevejos verdes. Na verdade, a enfermaria com que sonho é muito diferente daquela em que estive internada, limpa e arejada, mas, não sei por quê identifico aquele lugar com a enfermaria da Clínica de São Lázaro. Desperto cansada, como se tivesse caminhado durante muito tempo, o corpo transpirado e moído, a cabeça a latejar, a boca seca, a língua encortiçada. Já experimentei comprimidos, mezinhas, chás para dormir. Já fiz tratamentos alternativos. Nada resulta.
Há algumas semanas, Eduardo convidou-me para ir lanchar a uma pastelaria antiga, com paredes de espelho e mesas cobertas de toalhas de pano. Queria saber de mim, como me sentia, se estava melhor. Enquanto comia um lindo duchesse coberto de frutas, confessei-lhe que estava melhor, muito melhor, não alucinava há muito tempo, mas não conseguia dormir. Expliquei-lhe que não aguentava continuar assim, sentia um cansaço extremo, o meu desespero era de tal ordem que ponderava mesmo consultar um bruxo, um exorcista, enfim alguém que, dotado de dons místicos, me ajudasse a dormir uma noite sossegada. Eduardo, o meu amigo, também é doente dos nervos. Não é esquizofrénico como eu, nunca esteve internado, mas sofre de fobia social e ocasionalmente tem ataques de ansiedade. Escutou as minhas queixas e, com gargalhadas ruidosas, riu-se do meu desespero. Depois contou que, apesar dos picos de ansiedade, não tinha qualquer problema em adormecer.
- Deitas-te e o sono chega? – perguntei-lhe com despeito.
Não era bem assim. Tinha um truque para adormecer. Arregalei-lhe os olhos, quis imediatamente saber que truque era aquele, talvez funcionasse também para mim. Eduardo não tardou em revelar-mo. Todas as noites recordava um sonho que tivera. Não era um sonho alucinatório ou enigmático, desses que estimulam o pensamento e nos fazem procurar respostas para a vida. Tratava-se apenas de um lugar, um lugar tranquilo, que lhe trazia paz. Bastava fechar os olhos, imaginar-se nesse lugar e era imediatamente inundado por uma sensação de bem-estar. Pouco depois adormecia completamente relaxado e dormia a noite inteira. Quis saber como era o tal lugar. O meu amigo hesitou durante alguns segundos, depois, levando a sua enorme mão às barbas grisalhas, falou calmamente:
- Estou debruçado no muro do terraço do meu prédio. Lá em baixo, em vez da confusão habitual das ruas, abre-se um oceano de águas azul-turquesa, onde o sol embate com tal intensidade que me fere um pouco os olhos; no meio do mar, um mar brando, claro e fresco, há uma ilha muito bela. Nas encostas da ilha, vislumbram-se veredas solitárias que serpenteiam entre pomares e jardins perfumados. Nos recantos da costa, as praias são de areia dourada e fina. São praias pequenas e desertas, nas águas transparentes notam-se as sombras velozes dos cardumes de peixes. Quero ir para aquela ilha, para aquele mar, mas para lá chegar, não te sei explicar por que razão, tenho de atravessar uma estufa degradada, um pouco suja e com vidros partidos. Na estufa, há um banco de pedra antiga, polvilhada de musgo negro e muito seco. É nesse banco que me costumo sentar antes de adormecer, fixando o horizonte onde parece terminar o mar, olhando a pequena ilha, entorpecido por memórias quentes e indefinidas.
2015/05/25
Dois dedos de testa
Não quero ruído, nem gargalhadas, nem conversas lúbricas, nem convites para jantar em restaurantes onde se servem carnes maduras. Não quero amar e não quero ser amada. Isso não. Quero apenas a vulgaridade, mas a vulgaridade silenciosa, invisível, a que jamais se confessa, a vulgaridade das casas de banho-públicas, dos quartos de hotel e dos carros parados à beira-rio. E, como no poema, não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.
2015/05/17
2015/05/15
Arcas
É um cheiro bafiento, velho, de naftalina e humidade, parecido com aquele que se sente quando se abrem as arcas das casas das nossas avós. Arcas de madeira, ornamentadas com desenhos embutidos de gueixas submissas, levemente idiotas, passeando entre pinheiros, pagodes e riachos. Por cima dessas arcas há sempre um naperão de linha grossa e uma jarra com rosas de plástico. As avós guardam nessas arcas a roupa branca dos seus enxovais. Peças bordadas com infinito vagar, à espera de serem usadas em ocasiões especiais que nunca acontecem. É o cheiro dessas arcas e dessas roupas que encontrei ao entrar hoje nesta casa. Saio e fecho a porta. Não volto a entrar aqui.
2015/05/12
Nado morto
No sábado, depois de deixar o Joaquim na natação, enquanto alagartava na esplanada, bebendo um café e lendo o jornal, dei de caras com a fotografia da criança escondida dentro de uma mala de viagem. Encolhido, em posição fetal, a boca silenciada com uma fita adesiva, o menino parece um nado morto boiando no ventre materno. Senti o que qualquer pessoa sente perante uma imagem de miséria e injustiça: comoção, vontade de chorar, também raiva. À noite, depois do jantar, mostrei a fotografia aos miúdos e pedi-lhes que lessem a notícia. Falámos sobre o assunto.
O domingo passou, morno, bucólico, entre árvores, passarinhos e águas mansas. Os algodões dos freixos voavam pelo ar e, no cimo da serra, entre o arvoredo, a torre de uma velha capela transportava-me constantemente para um tempo antigo. O bolo de laranja da Marina estava uma delícia, molhadinho e pouco doce, os meus rissóis de carne nem por isso. À noite, depois de orientar as rotinas dos meus filhos, depois de telefonar à Marina e lhe dizer “Os teus olhos verdes são bonitos, a tua pele é macia, dá vontade de dar uma trincadela na tua pele”, telefonei ao Augusto e pedi-lhe que me levasse a dançar. Abraçada ao imperador baiano, magro, sorridente, dancei até de madrugada. Nem uma vez, ao longo do dia, ao longo da noite, me lembrei da criança encolhida dentro de uma mala de viagem, do seu pai entretanto “detido”. É assim a minha revolta, inconsequente, breve, sórdida, absolutamente miserável.
2015/04/29
Violeta
Todas as noites, antes de rezar, pego na bíblia e leio as passagens que o padre aconselha na missa de domingo. Uma passagem para cada dia da semana. Deito-me tranquila, sabendo que Deus me ama e protege. Mas, quando há lua cheia, não sei o que acontece, transformo-me numa qualquer. Não quero ser amada por Deus, quero ser amada por indigentes, velhos, bichos e, se bonitas e asseadas, também por putas. Nessas noites, abro a bíblia e procuro a página da passagem do dia. Arranco-a com cuidado e meto-a na boca. As folhas da bíblia mastigam-se muito bem. São finas, translúcidas e sabem a essência de violeta.
2015/04/25
Abril
O meu avô carpinteiro. A minha avó mondadeira. As velhas de lenço preto na cabeça, os montes pequenos e as casas feias. Eu, menina, encostada ao corpo morno da tia Dé, olhando, maravilhada, os postais da URSS. O meu pai, cheio de raiva, gritando comigo, batendo-me com o punho fechado na cabeça, sem suportar a minha traição. A dor da minha mãe. O José a beber uma cerveja pelo gargalo, a meter um arroto para dentro e a explicar-me a urgência de uma nova revolução. As noites passadas na Rua da Palma, no casarão da Rua da Palma, ébria, bêbada, trôpega, tentando esquecer a faculdade de direito. O Ricardo, na escadaria da biblioteca, a gozar o prato, a perguntar “Ó Ana, e então o Alexandre O'Neill?”. O Joaquim, batendo as teclas da psp, pedindo que volte a pôr o Charlatão. A Dá, hoje no desfile, de casaco cor-de-rosa, orvalhada pela chuva, etérea, olhando em redor e perguntando pela peça da Mila. Eu na multidão, vendo passar ao longe o velho da boina, imaginando-me ao lado do João Pedro, passeando de mãos dadas, com um cravo preso na lapela do casaco.
2015/04/22
Ernesto
Sabia fazer sarapatel, chacuti e balchão de peixe. Vivia num anexo da casa do Caniçado com o filho Ananias, um menino de carapinha azul que tinha a mania de atirar pedras ao meu irmão. Era um cozinheiro talentoso. Foi com ele, vendo-o trabalhar, que a minha mãe aprendeu os segredos da cozinha goesa. No Caniçado todos conheciam a sua história. Nascera numa aldeia perto do lago Niassa, mas, por ter matado a mulher, fora degradado para o sul da colónia. Apesar desse passado de violência, era um homem gentil, prestável, de modos educados. É assim que a minha mãe o recorda. Toda a gente gostava dele. Um dia, quando brincava na margem do rio Limpopo, Ananias ouviu um estranho canto e mergulhou nas águas lamacentas. Foi comido por um crocodilo. Ernesto, ao saber da notícia, manteve-se impassível, não verteu uma lágrima pela morte do filho. Continuou os seus afazeres. Como era seu hábito, limpou bem a cozinha e deitou-se cedo. Nunca mais apareceu.
2015/04/21
Pietá
Pensei na mão de dedos esguios entrando lentamente pela janela do carro. Masturbei-me como nunca antes o fiz, sem me fechar, sem sentir vergonha, sem sufocar, aceitando o meu corpo no seu vagar e mistério. Tive um orgasmo e depois outro. Senti-me pura, iluminada por um sol novo. Levantei-me e fui fumar para a varanda. Um sorriso tolo parecia estar colado à minha cara, tentei uma expressão séria, mas o sorriso continuava preso aos maxilares. Como se tivesse fumado um charro. Voltei para o quarto e deitei-me. Pela primeira vez depois do divórcio, em vez de acantonada a um canto, adormeci bem no meio da cama.
Ontem, depois do apartamento sossegar, deitei-me a ler. Lia, mas era como se não lesse, as personagens andavam pelas páginas como espectros, incapazes de captar a minha atenção. A lembrança da noite anterior não me largava. Ansiava pelo momento em que, apagada a luz, na penumbra, o meu corpo renascesse. Foi então que escutei passos familiares no corredor. Soube logo que era o mais pequeno, tem um modo de caminhar característico, a sua passada é acelerada e saltitante, parece um anãozinho torto a pisar um chão de cinzas incandescentes. Mal chegou mostrou os braços cheios de babas de mordedura de um mosquito. Peguei no meu filho ao colo e sentei-o na bancada da casa de banho. Coloquei-lhe fenistil nas pequenas borbulhas, dei-lhe beijos, falei-lhe com ternura. “Posso dormir contigo, mãe?”, acabou por perguntar, sabendo de antemão a resposta. Levei-o para a minha cama e esperei que adormecesse. Enquanto o observava, acantonada a um canto, recordei a pietá que encontrei na Igreja de São Domingos.
2015/04/20
Seda libanesa
Marina desapareceu. Não a vejo há mais de um mês. Durante o último ano, com pequenos períodos de ausência, encontrei-a diariamente no semáforo da Av. Estados Unidos da América. Ao final do dia, no meio da rua, lá estava ela, magra, ossos salientes, um pouco vagarosa. Apesar da magreza, tinha um rosto cheio, redondo, de pele branca, leitosa e virginal. Usava sempre um ridículo barretinho vermelho enfiado na cabeça. Marina tinha ar de menina e lançava os malabares com pouca graça. Deixava-os cair frequentemente, não se atrevia a atirá-los muito alto. Outras vezes, enquanto os lançava, dava uns passinhos para a direita e para a esquerda, numa dança triste que me comovia. O seu número durava pouco tempo, talvez trinta segundos, mas era suficiente para me deixar com os olhos rasos de água. Ando meio sentimental desde que o cão morreu. Pouco antes do semáforo passar a verde tirava o barretinho da cabeça e, saltitante, caminhava entre o trânsito, pedindo uma pequena contribuição.
Marina, com os seus malabares dourados, apesar de me emocionar, alegrava-me. Cheguei a sonhar com ela. Estranha, bela e triste, a sua presença no tumulto da cidade parecia suspender a realidade. No semáforo da Av. Estados Unidos da América, por sua causa, a minha vida ganhava outra dimensão, infindável beleza. Esquecia o cão, os filhos, o trabalho. Às vezes, o seu rosto redondo espreitando pela janela do carro, eu apalpava desajeitadamente os bolsos do casaco, a mala, o saco do ginásio, fingindo não encontrar a carteira. Queria prolongar o nosso encontro. Espiava-a então pelo canto do olho. É diferente observar uma pessoa a certa distância e observá-la de perto, mas a proximidade, em vez de revelar Marina, tornava-a num enigma maior. Um dia, não sei de onde veio a coragem, não resisti a falar-lhe. Como te chamas? Que idade tens? Marina não disse nada. Recebeu a moeda e, num sorriso aberto, mostrou os dentes brancos e certinhos. A última vez que a vi, estava sentada de cócoras no passeio, junto à sua bicicleta. Contava o dinheiro amealhado. Sem que nada o fizesse prever, levantou-se e aproximou-se do meu carro. Enfiou a mão pela janela, uma mão de dedos esguios, macia como se estivesse enluvada, e, com delicadeza, abriu um pouco o lenço que nesse dia eu trazia enrolado ao pescoço, um lenço de seda libanesa que o meu marido me ofereceu pouco antes da separação. Tocou-me no rosto e esse gesto breve deu-me grande prazer. “Mi nombre es Marina, soy de Huelva”, disse numa voz clara, alegre e provocadora. Depois virou costas.
2015/04/18
Memórias
Ao fim da tarde, por volta da 16 ou 17 horas, a minha Tia Dé e a minha Avó Solange iam buscar-me ao colégio. A Tia Dé é a irmã da Avó Solange, ou seja, é minha tia-avó, mas é como se fosse uma avó para mim. Após um daqueles dias agitados, o choro logo pela manhã porque não me queria separar da minha mãe, a alegria presente nas brincadeiras, a raiva que aparecia na hora da sesta quando as educadoras me tiravam a chucha e eu me escondia debaixo dos lençóis a chorar, as minhas duas velhotas, por fim, iam buscar-me ao colégio.
Tinha quatro anos, portanto não me lembro de pormenores acertados, mas há algo que nunca esquecerei. Íamos sempre a pé para casa, nem uma nem outra tinham carta naquela altura, por isso era a única solução. Passávamos por várias quelhas, uma delas, do lado esquerdo, tinha um muro rosa claro com grades altas, através delas algumas das rosas vermelhas e vistosas floresciam cá para fora. Pedia-lhes sempre uma e elas davam-ma, mas antes, a minha Tia tinha que tirar todos os picos utilizando as unhas e as pontas dos dedos. Passávamos por mais umas quantas ruelas e finalmente estávamos na nossa casinha.
Elas faziam-me o lanche, era sempre uma grande caneca de leite com chocolate e uma torrada com manteiga ou bolachas Maria. Molhava as bolachas no leite e estas ficavam moles, mas deliciosas. A minha maior desilusão era quando metade da bolacha caía para dentro da quente bebida. Estava eu distraída com os desenhos animados e...plof! Lá se ia mais outra bolacha. Quando estava a acabar o leite, lá as encontrava, perdidas, moles e desfeitas. Por vezes, ainda as ia buscar com uma colherinha e enfiava-as para dentro da boca. Só de pensar nisso, passados quase dez anos, fico enjoada...
(Escrito pela minha filha Madalena que, desde o quinto ano, no ensino público, pois claro, tem tido extraordinárias professoras de português.)
2015/04/15
Pau-preto
Há mobílias escuras e sofás de veludo surrado por toda a parte. Não se vislumbra um vestígio de beleza ou alegria. Em todas as divisões, nota-se um cheiro adocicado, de urina, de maturação excessiva, de fruta podre. À noite, os candeeiros lançam uma luz morrinhenta de alumiar mortos e sente-se uma permanente vibração provocada pelo tráfego da auto-estrada. O lar fica tão próximo dos rails que um dia a roda de um camião de carga se soltou, galgou para fora da estrada e foi bater com violência na parede da sala de convívio. Vitória, a preta dos chocalhos, a menina que veio no contentor dos patrões com as mobílias de pau-preto, os serviços de porcelana chinesa e as peles de crocodilo, estava encostada à parede onde o pneu bateu. Saiu ilesa, com apenas algumas escoriações no braço esquerdo, mas assustou-se, esteve sem falar e comer durante uma semana.
- Vá lá D. Vitória, seja boazinha. Abra a boca. Olhe que a D. Odete já comeu tudo! – ia dizendo a auxiliar, colher em riste, apontando para a velha do lado, a boca suja, babete atado com nastros esgaçados.
Vitória parecia não escutar. Emagreceu muito, era já só pele e ossos. Só arrebitou quando lhe explicaram que um jornalista da Tribuna a queria entrevistar. Telefonou para casa e pediu à neta que a fosse visitar no dia seguinte. Queria que a penteasse e, se fosse possível, lhe levasse uma camisola nova. Pediu também o fio de ouro com a medalha de Santa Justa. A rapariga disse que sim, mas não apareceu. Quando o jornalista chegou, um rapaz gordo, de palidez macilenta, Vitória ajeitou com as mãos o cabelo e alisou a blusa. Sentiu vergonha da sua velhice desmazelada. O jornalista esteve pouco tempo, fez-lhe duas ou três perguntas, tratou-a com a condescendência com que se tratam crianças, imbecis e velhos. À despedida, mandou Vitória sentar-se numa cadeira, mesmo ao lado do buraco provocado pelo embate do pneu. Pediu que sorrisse e tirou-lhe uma fotografia.
2015/04/12
Angústia
Não gostava de gatos. Na sua casa de campo, na Crimeia, tinha um grou amestrado e dois cães. Um dos cães, Kachtan, era gordo, muito estúpido e preguiçoso. Tchekhov amava-o. Não se sabe se o escritor tinha olhos azuis, castanhos ou cinzentos. Tchekhov escreveu o meu conto preferido, um conto pequenino, são três páginas, sobre um cocheiro e a sua égua. Chama-se, na tradução brasileira que tenho, "Angústia".
2015/04/10
2015/04/09
Lição de anatomia
Chamava-se Basílio e sabia de pintura. Usava um anel brasonado no dedo mindinho e bonitos lenços de seda lavrada. Apesar das origens aristocratas, da sólida erudição, a sua grande paixão era a horticultura. Num baldio comunitário, junto à estação de Entrecampos, plantava couves coração de boi, nabos, favas, ervilhas e pimentos vermelhos. Não era um amante brilhante – tinha um sexo minúsculo que não me enchia a boca – mas eu gostava de o ouvir divagar sobre os arcabuzeiros da Ronda da Noite ou sobre o cadáver da Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp. Aprendi muito com Basílio. Por exemplo, por causa das suas instrutivas conversas, ainda hoje sei que Rembrandt foi pai de três meninas e a todas deu o estranho nome de Cornélia. Pergunto-me quantas pessoas no mundo terão conhecimento desse facto extraordinário. Às vezes, depois de fazermos amor, enquanto eu ficava espojada na cama a folhear os seus livros de pintura, Basílio levantava-se, vestia um robe de popelina todo às cornucópias azuis e punha-se a assar os pimentos que colhia da sua horta. Cortava-os às tirinhas, um fio de azeite a temperar, colocava-os numa tigela e trazia-mos à cama. Eu, nua, o cabelo num desalinho, comia muito regalada. Às vezes, tal a gula, escorria-me da boca um fiozinho de azeite que Basílio se apressava a lamber com licenciosidade. Fiquei desolada quando decidiu partir para Oesta. Percebi que, para além de perder o meu pigmaleão, nunca mais na vida comeria uma salada de pimentos como a que ele me preparava.
Levei algum tempo até encontrar um novo amante. Dei com ele por acaso à porta da Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Mouret era o oposto de Basílio. Feio e um pouco bruto. Não demonstrou qualquer interesse quando, certa vez, a propósito já não sei do quê, lhe falei do cadáver da Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp. Nessa ocasião, pelo modo como largou uma gargalhada forçada, levantando exageradamente os zigomas e mostrando uma fiada de dentes serrilhados, fez-me lembrar uma hiena. Não tinha erudição, mas, em contrapartida, era um homem de muita fé. Um dia, não o esperava, apareceu no quarto do hotel Ibis de batina e tonsura. Explicou-me que se ordenara beneditino, mas que isso não o impedia de continuar a encontrar-se comigo. Com o passar do tempo, fui-me apercebendo de que o meu novo amante não era um modelo de virtudes: mentia muito, tinha a mania das grandezas e recorria a estratagemas mirabolantes para que lhe emprestasse dinheiro. A sua falta de carácter naturalmente não me incomodou. A sinceridade é uma qualidade dispensável num amante. Mouret era um prodigioso mineteiro, tinha mãos grandes e exalava sempre um agradável bafo mentolado.
2015/04/06
Mamma Roma
Não sou capaz me zangar, nem de lhe gritar, não sei ser autoritária, disciplinadora. Não é da minha natureza. Quero apenas dançar com o meu filho, beijá-lo muito, contar-lhe os meus sonhos, explicar-lhe que o meu amor é incondicional, puro, dizer-lhe que nunca sentirei desilusão, que estarei sempre aqui para cuidar dele.
2015/04/02
Ciprestes
Os ciprestes parecem fazer pontaria unicamente para a campa do João Pedro. Ao contrário das outras campas, a dele está sempre cheia de caruma perfumada, também de umas bagas de polpa pegajosa que se aninham no rebordo da lápide. Aprendi há pouco porque se plantam estas árvores em cemitérios. Tesos e esguios, representam o duelo entre a vida e a morte, aguentam invernias sem perder o viço da folhagem, têm o cheiro da santidade, de genefluxórios encerados, simbolizam a vida eterna. Não sou entusiasta de vivências místicas, mas na insólita pontaria dos ciprestes para a campa do João Pedro vejo uma manifestação divina, um sinal de eleição, de imortalidade e ressurreição. Sorrio por isso quando chego ao cemitério e me apercebo da campa cheia daquelas bagas cerosas. Sem perder tempo, na minha saudade zelosa, pego na vassourinha de estopa e apresso-me a varrer os pequenos bugalhos.
2015/03/31
IGFSS
A sala de espera do IGFSS é ampla e cheia de sol. Enrolo o papelinho da senha nos dedos. O segurança que está na portaria do instituto - colossal, torso triangular, robusto como um touro de lide - fala ao telefone com a mulher, uma tal Alexandra. Discutem por causa de dinheiro. Animo-me com a possibilidade de assistir a uma bela discussão, ali na sala de espera do IGFSS enquanto espero que me chamem. O telemóvel toca. Do outro lado, João, acelerado, dispara as queixas do costume. Suspiro, aborrecida. Por causa do seu telefonema, não poderei continuar a escutar a conversa do segurança.
- Provocaste-a…
- Estás sempre do lado dela!
- Não estou nada.
- Só porque é a filha sensata, perfeitinha…
O homem da portaria continua a falar ao telefone, cada vez mais alto, cada vez mais agitado. Não consigo perceber uma única palavra do que diz. Peço ao João que se acalme, falamos quando eu chegar a casa, explico que tenho de desligar, estão a chamar a minha senha. É mentira, ainda tenho muito que esperar, mas o segurança da portaria subitamente ficou colérico, deu um murro no balcão, tem os músculos do rosto retesados, vai explodir a qualquer instante. Enfio o telemóvel na mala, ponho-me à escuta, apuro os sentidos, tento apanhar o fio à meada. Ainda vou a tempo. “Não cago dinheiro, Alexandra!”, grita por fim o segurança do IGFSS e desliga o telefone.
2015/03/25
Bolinho de amêndoa
Mastigo o bolinho de amêndoa em frente da montra da loja de produtos religiosos. Cristos, beatos, santinhas de pés descalços, a grande virgem mãe de olhar manso ao meio. É feia, tem olhos bovinos, pés que lembram barbatanas. Não gosto da virgem mãe. A sua virtude e a sua abnegação aborrecem-me. Não me seduzem. É na ruína, na desordem, no pecado que me sinto viva. É bom ser pecadora. No meio do caos e das sombras respiro melhor. Meto o resto do bolinho de amêndoa na boca. Olho o meu reflexo no vidro. Ajeito o cabelo, encolho a barriga. Atravesso a rua e entro na igreja.
2015/03/23
Felisminas
Sinto a boca seca, o coração acelerado. Fujo para o canto da cascata. Nas águas escuras, o grande sarrajão listrado da tia Dé nada calmamente. Desdobro o papelinho que tiro da caixa de comprimidos. Aprende-se muito a ler bulas de medicamentos. Por exemplo, ainda há pouco tempo, ao ler a bula do Lexapro, aprendi que o maior legado que Freud deixou à humanidade foi a loucura. Um legado de merda, diga-se de passagem. A minha cabeça começa a andar à roda. Tento acalmar-me. Aliso com as mãos o vestido e, como na canção, procuro pensar apenas em coisas boas. Dias de sol. Jardins. Flores, passarinhos e borboletas. O cheiro dos meus filhos. Rafael sentado no balcão da casa de Corturim. Penso nas aguadeiras de Tenerife. Ágeis como cabras montanhesas, sempre vestidas de preto, galgam como ninguém as escarpas e os socalcos da ilha. Denny, por mais que se esforce, nunca conseguirá alcançá-las. Tenho vontade de chorar, mas, por muito que tente, não consigo. Parece que já não sei chorar. É isto a cura? Deixar de saber chorar? Reparo numa ténue cintilação no fundo do lago. Tiro uma moeda do bolso e atiro-a à água. Há quem não goste de advérbios de modo, mas eu, decididamente, conscientemente, assumidamente, gosto. Sei que não posso dar-me ao luxo de ser doente dos nervos. Tenho três filhos para criar. Serei saudável, sã, feliz. Já não quero comer as felisminas da outra. Fecho os olhos e formulo um desejo. Quero ser outra mulher, linda, muito linda, inteligente, rica, alegre, quero pintar as unhas dos pés de azul, usar colares, anéis, pulseiras de cabedal, quero ter três gatos, um cão e dois canários, quero fazer ioga e escrever haikus, quero tatuar uma carpa no ombro, uma andorinha no pulso e um lindo varano australiano na barriga da perna. Volto a abrir os olhos. Tudo permanece igual, o jardim, o lago da cascata, o rapaz de bronze no seu nicho de gesso dourado, as chaminés da fábrica de curtumes erguendo-se ao longe. Eu também continuo a mesma. Só o lindo sarrajão listrado da tia Dé parece ter desaparecido.
2015/03/22
Solidão
Domingo de solidão, tristeza, silêncio. Os miúdos passaram o dia com o pai. Devia ter saído para caminhar um pouco e apanhar sol, mas não fui capaz. Enfiei-me na cama a ler. Estou quase a acabar “A nave dos loucos”, a seguir, já decidi, lerei “A flor azul”, da Penelope Fitzgerald (começou a escrever apenas aos sessenta anos, depois de criar três filhos e cuidar de um marido alcoólico). Li durante muito tempo, sentindo-me cada vez mais só, cada vez mais triste. Acabei por adormecer. Alegrei-me quando os meus filhos voltaram. O Joaquim trazia o joelho esfolado, a Madalena um pacotinho de amêndoas para mim, o João dois amigos para jantar.
2015/03/19
Jajão
Perdi o relogiozinho preto da Timex que a minha mãe me ofereceu quando fiz trinta anos. Escutei com agrado, batendo os dedos no volante, uma quizomba muito popular. Na Almirante Reis, perto da igreja dos Anjos, cruzei-me com o editor da Assírio e Alvim. É um rapaz bonito, calado, discreto. Tem um rosto largo, bem escanhoado, e uma linda covinha no queixo.
2015/03/17
Bolor
“Estava cego, completamente cego, sentado a um canto, abandonado. A doutora chegava, pegava na minha mão e levava-me a passear”. Quis saber pormenores. Como cegara? Aparecia mais alguém no sonho? Para onde o levava? De que falávamos nós? Não foi capaz de explicar. “Lembro-me apenas de que, enquanto caminhávamos, sentia o cheiro do seu cabelo. Cheirava muito bem.” Dei-lhe um beijo e agradeci-lhe o sonho tão bonito. À hora do almoço, lembrando o sonho do Sr. Tobias, chegaram-me imagens do sonho desta noite. Uma livraria. Duas salas amplas, frescas como uma gruta, cheias de luz. Ando por ali, folheio alguns livros. Não sou capaz de levantar os olhos das páginas de um livro, não por estar concentrada na leitura, mas por me sentir incapaz de enfrentar o olhar dos outros. Sinto-me tensa, desconfortável, desajustada, uma intrusa, tenho vergonha do que sou. Comparando o sonho do Sr. Tobias com o meu, pensei nas conversas com o psiquiatra. Já por várias vezes falámos sobre a imagem que os outros têm de mim e a imagem que eu própria traço da minha pessoa. Qual é a imagem autêntica? A verdadeira? Não sei, só sei que, quase sempre, me sinto um embuste, uma peça de fancaria, um anelzinho de pechisbeque, daqueles que, pelo uso, rapidamente perdem o dourado e ganham a cor verdoenga do bolor.
Página 174
Não consigo deixar de roer as unhas. Também não consigo deixar de fumar. Chateiam-me certas conversas sobre o livro. Tenho saudades dos meus pais e das minhas primas do Alentejo. Tenho saudades de ter a cama só para mim. Ando a ler “A nave dos loucos”. Foi preciso chegar à página 174 para perceber por que razão é um grande livro. Ler é tão bom.
2015/03/13
Lírios azuis
César Augusto, imperador baiano, vive num quarto alugado. Para além dele, explicou-lhe a senhoria, vivem no apartamento dois homens, cada um em seu quarto, partilhando a cozinha e a casa de banho. Quando se mudou, César Augusto, habituado ao ruído do seu lar (vivia com a mulher, três filhos adolescentes e uma cadelinha de pêlo cerdoso), estranhou o silêncio da casa. Um dia, ao telefone, fumava eu no estendal, falou-me desse silêncio. É uma calma misteriosa, Ana Clara. Já cá estou há duas semanas e ainda não me cruzei com nenhum desses homens, nunca os vejo, não os oiço sair ou chegar. Pressinto a sua presença, vejo cabelos no chão da casa de banho, às vezes, sinto um leve cheiro a água-de-colónia. Ontem, no frigorífico encontrei duas bananas maduras, metade de um frango assado e uma caixa com sopa fresca.
No dia seguinte, à hora de almoço, resolvi visitar o meu amigo. Subi as escadas escuras do velho prédio e bati à porta do apartamento. Assim que César Augusto abriu a porta, entreguei-lhe um pequeno ramo de lírios azuis. Gentil, compreendendo a razão da minha oferta, o imperador baiano cumprimentou-me com um beijo nos lábios e fez-me entrar no seu novo lar, uma divisão espaçosa com uma grande janela de guilhotina a dar para o renovado largo do Intendente. Pelo seu ar de satisfação, rosto subitamente radioso e iluminado, intuí que intimamente se convencia de que entre nós aconteceria o que muitas vezes acontece. Sem demora, deitei-me na cama e expliquei-lhe que vinha apenas para escutar o silêncio. Ele deitou-se ao meu lado e começou a cantarolar. Girassóis, papoilas, cravos, anémonas, flores de amendoeira, tudo, tudo ele pintou, mas nada se compara aos seus lindos lírios azuis. Pedi-lhe que se calasse, deixasse as cantorias para depois, expliquei-lhe que não tinha muito tempo, às duas horas sem falta precisava de estar de volta à minha secretária. Fechei os olhos, deitei-me de barriga para cima, as mãos sobre o peito, as pernas bem alinhadas. Esperei. Concentrada, tentando ignorar uma mola solta que fazia pressão nas minhas costas, procurei apurar os sentidos para ver se escutava um ruído, um arrastar de chinelos, a descarga do autoclismo, um telefonema, enfim, qualquer coisa. Nada, não se escutava nada, absolutamente nada. Estivemos assim, deitados lado a lado, durante algum tempo, dez, quinze minutos. Acabei por ser eu a interromper o silêncio. Se calhar, César Augusto, esses homens estão sempre a dormir., disse, recordando os mandriões do vale fértil. E não comem, não vão à casa de banho?, respondeu-me com uma leve rispidez vingativa. Aquilo era um mistério.
Continuámos deitados. Novo silêncio. Percebi que aqueles homens de certa maneira já tinham deixado de existir, porventura já não ocupavam espaço na vida dos outros, talvez se tivessem tornado invisíveis, incorpóreos, inexpressivos, viviam mortos, feitos fantasmas, espectros, sem ninguém, sem um familiar, um amigo, um conhecido. A certeza da sua solidão entristeceu-me. Pedi ao meu amigo que inventasse para eles uma vida, mas uma vida alegre, repleta de aventuras, amor e lírios azuis. César Augusto é uma criatura singular, muito generosa; para além de outros atributos, é um minucioso contador de histórias. Pensou um pouco, depois, entre risadas, foi falando calmamente. Preparei-me para o escutar: encostei a cabeça no seu peito, passei a mão pela grande cicatriz que lhe atravessa a testa e palpei-lhe as mãos à procura do mindinho torto.
Pescada frita
Almoço sozinha no Galeto. Peço pescada frita com arroz de tomate. Escolha muito acertada. A pescada é branquinha e macia. Bebo um copo de vinho branco. Folheio o suplemento de sexta-feira. Leio o artigo sobre o “Púsias” do Vitor Silva Tavares. Na origem de tudo, está o poeta e editor Ricardo Álvaro. O meu coração, tolo coração, enche-se de alegria. A amizade é uma forma muito bela de amor. Ao longe, baixinho, escuta-se a guitarra do Carlos Paredes.
2015/03/05
Ruibarbos
Reler uma obra é sempre um risco. Reli há pouco tempo as primeiras páginas do “Em nome da Terra” e sinto que perdi qualquer coisa. Em contrapartida, reli na semana passada “Sempre vivemos no Castelo”, da Shirley Jackson. Como é bom voltar a um livro e sentir o encantamento da primeira leitura. Durante dias, só pensei na história daquelas duas irmãs, em palavras sortilégio, em ninhos de crias de cobra, em ruibarbos de cor vermelha – a que saberão os ruibarbos?-, em tartes de arandos, nos frascos de conserva das mulheres da família Blackwood, nos pequenos bolos fofos que Constance cozinha com tanto amor para o tio Julian.
2015/02/13
2015/02/12
URSS
Sentados no velho sofá da sala, folheamos o grande livro vermelho. Observamos construções extravagantes, estádios, piscinas, prédios de apartamentos, museus, teatros, palácios de casamentos e de rituais fúnebres. Imagens de uma arquitectura insólita, bela, onírica, vanguardista. O meu filho aponta para uma luminária que, cacheada de lâmpadas, se assemelha a uma gigantesca medusa, depois ajeita o edredão que lhe tapa as pernas. É um edredão bonito, trouxe-o de Jaipur. Pintado manualmente com carimbos de madeira, talvez tenha sido feito por mãos do tamanho das suas. Leio-lhe em voz alta nomes de cidades: Minsk, Chisinau, Vilnius, Baku, Erevan, Talin.
2015/02/10
2015/02/07
Semáforo
Em frente do centro geriátrico “Haja Deus” há um semáforo. Todos os dias, quando volto para casa, apanho-o fechado. O centro geriátrico fica numa das poucas vivendas da Av. Gago Coutinho que ainda não sofreram obras para se transformar em colégios bilingues, escolas profissionais, sedes de empresas. As paredes, de tinta estalada, com manchas de bolor, têm uma cor suja, indefinida. Há dois grandes toldos amarelos nas janelas do primeiro andar e um toldo em forma de lagarta que vai do portão do jardim até à porta de entrada. As janelas, de caixilhos de madeira podre, estão sempre fechadas e as persianas corridas. Nunca se vê uma luz acesa. Parece que ninguém ali mora. Já o jardim, decadente, excessivamente preenchido, é habitado por uma multidão de figuras de pedra: cavaleiros, trovadores, lavadeiras, anões, sereias, fidalgos. Por todo o todo se vêem pesadas floreiras rectangulares. Nas duas floreiras que ficam por cima do pequeno portão de entrada, em forma de concha, crescem dois pés delgadinhos de rosas-de-pedra. Na sombra de um salgueiro-chorão, há uma pequena fonte de águas musgosas. Suportes de corda entrelaçada pendem dos ciprestes e balouçam quando há vento. As iluminações de Natal nunca são tiradas e, no crepúsculo do meu regresso a casa, lançam um fulgor triste. Estou certo de que, se as visse, o Sr. Inácio gritaria à sua filha Solange: “Solange, no próximo Natal, também vou deixar as luzes postas. Poupo muito trabalhinho.” Quem, como eu, tiver uma natureza contemplativa, nunca se cansará de olhar para o jardim do centro geriátrico. Todos os dias descubro um detalhe, um novo habitante de pedra.
Hoje, parada no semáforo, enquanto tentava a todo o custo vislumbrar o interior do centro geriátrico (uma luz estava acesa e, pela janela, consegui ver uma cabeça de cabelos muitos brancos), recordei a última vez que estive com o Alexandre. Foi pouco antes do Natal. Estivemos juntos durante duas horas. Acabámos cansados, muito transpirados. Descansámos em silêncio e, durante o tempo em que sosseguei nos seus braços, o amante intermitente, num gesto de afecto inconsequente, afagou-me docemente os cabelos. Nesse dia, recordei-o hoje, precisamente no instante em que, em frente do centro geriátrico “Haja Deus” aguardava que o sinal ficasse verde, senti que o corpo me doía. Não uma parte do corpo, mas todo o corpo. O meu corpo estava dorido como se tivesse caminhado durante muito tempo ou alguém me tivesse batido. Lembrei-me do sexo febril em “ A vida de Adéle”. Quando o sinal passou a verde, ri-me, feliz, e acelerei.
2015/02/01
Olho
Depois de dar o almoço aos miúdos, fui ao Pingo Doce fazer
as compras da semana. Comprei bolachas e pacotinhos de leite com chocolate para
os lanches, esparguete, macarrão, arroz, azeite, lixívia, listerine, duas
garrafas de vinho, ervilhas, batatas, cebolas, tofina, comprei borrego, frango
e carne de vaca para estufar com cenouras e nabo. Esta semana não trouxe peixe.
O meu luxo foi trazer um gel de banho da le petit marseillais. É caro, muito
caro para a minha carteira, mas a minha filha gosta do cheiro a leite de baunilha.
Compro com cuidado, comparando preços, procurando sempre as promoções e o que é
mais barato. Quando pago a conta penso sempre na sorte que tenho em ter um
ordenado mensal, fixo, que me permite alimentar, cuidar dos meus filhos. Quando
cheguei a casa, depois de poisar os sacos na cozinha, corri aos quartos. O João
esmerava-se nas cábulas para o teste de Geografia, a Madalena e o Joaquim,
cabeças debruçadas sobre os livros, escreviam. “Já sei escrever olho”, disse-me
o mais pequeno. Senti uma alegria genuína, intensa, única. Coisa tão parva.
Aproximei-me, beijei-lhe os caracóis e disse baixinho “Meu amor, gosto tanto de
ti.”Arrumei as compras, organizei a despensa e o frigorífico. Desfiz o
tomilho-limão sobre a carne de vaca que deixara já temperada com alho. Depois, cônscia
de que a minha liberdade é sempre efémera, deitei-me atravessada na cama a ler
a Adília Lopes. Entrava um sol morno pela janela e a minha rua, de prédios
altos, pareceu-me bonita, ampla. Li a nota que a Adília escreveu para o seu livro: “Acho que era a Sylvia Plath que estava convencida, por volta de 1950, que para
escrever romances era preciso ter amantes e fazer viagens. É um mito, isso dos
amantes e das viagens. Pode-se ser feliz e escrever romances sem ter amantes e
se fazer viagens. Mais importante que amantes e viagens é ter um espaço
próprio, um domínio, um território, uma casa, pelo menos um quarto com privacidade,
como muito bem viu Virgínia Woolf”. Continuei a ler, li dois ou três textos,
depois peguei em “ A Letra Escarlate” que ando a reler e onde, ontem, já tão tarde, descobri a
palavra “cônscio”.
2014/12/04
2014/11/03
Luz
Não tenho vontade de escrever. Desconfio mesmo que já não sei escrever. Desaprendi. Salto valados durante a noite, encontro apóstatas e duendes, limpo o rosto a um lenço sujo de escarros da minha mãe, deito-me sozinha num chão de musgo e adormeço. Tenho quarenta e dois anos; na vida, procuro sobretudo o silêncio. Não o silêncio da solidão e da angústia, dos dias em que vivi morta e chorei. É um outro silêncio. Retiro das coisas mais simples um prazer genuíno e intenso : ouvir o fervilhar dos passarinhos nas árvores, ler o jornal de uma ponta à outra, ligar a telefonia no instante em que se escuta o primeiro acorde daquela canção antiga. Leio como outros vêem televisão, para ocupar os serões, para adiar o momento em que apago a luz e o ruído começa.
2014/10/19
Sexta-feira
Custa-me levar o dia de trabalho até ao fim. Sinto uma desconcentração cada vez maior (o facto de não dormir uma noite seguida há muito tempo, talvez dois anos, não ajuda), mas sobretudo o que passou a ser-me intolerável é o entusiasmo dos meus colegas em relação ao mundo jurídico. Ontem, ao final do dia, os dois colegas do gabinete ao lado (competentes juristas, bons colegas) discutiam acaloradamente o teor de uma sentença. Os comentários sobre a impreparação de magistrados e advogados distraíram-me. Levantei os olhos do ecrã (tentava terminar uma contestação) e olhei fixamente a grande janela que dá para a empena lateral de um hotel de luxo e para um céu sempre triste. Suponho que o céu que os prisioneiros vêem através das grades seja igual. Fixei o canto da janela onde a madeira está apodrecida por causa da água que pinga nos dias de bátegas pesadas. Notei os desenhos da sujidade no vidro. Os comentários alegres dos meus colegas continuavam; quanto mais falavam maior a minha paralisia. Sei para onde me leva a paralisia que, por vezes, chega enquanto trabalho: um canto escuro, abafado, com cheiro a mofo. Para contrariar essa paralisia, peguei na gabardina e saí para a rua. O céu ameaçava com um horizonte escuro, o vento frio eriçou-me a pele. Respirei fundo e, aos poucos, senti o meu corpo ganhar de novo destreza, agilidade. Caminhei lentamente até à livraria, passei pela pequena janela do canário amarelo. Pedi um chá de menta ao livreiro (acho que se chama Carlos) e levei para a mesa o novo livro do José Luís Peixoto e também o da Felipa Martins. Não gostei nem de um nem de outro. Também folheei sem interesse o livro do Frederico Pedreira. Li durante quinze minutos, apenas o tempo necessário para o chá arrefecer. À saída, perguntei ao livreiro se tinham “O quarto de Jacob”. Ando a ler, há já algum tempo, o diário da V.W. Com calma e vagar, não tenho pressa, aliás, antecipo que sentirei um certo vazio quando acabar de o ler. Decidi ir lendo os romances à medida que Virgínia Woolf os vai escrevendo. Estou a ler as entradas de 1922, ano em que Virgínia terminou “O quarto de Jacob” e, no seu espírito, como fiapos de luz, começam a delinear-se os contornos de “Mrs. Dalloway”. É muito interessante descobrir a extraordinária crítica literária que esta mulher foi. Sobre o “Ulisses”, escreveu: “Um livro ignorante e malcriado, é o que este livro me parece ser: o livro de um trabalhador autodidacta, e todos sabemos como eles são aflitivos, como eles são egoístas, insistentes, crus, impressionantes e em última análise nauseantes. Se se pode comer a carne cozinhada, porquê comer carne crua?”. Mas, confesso, o que mais gosto é de a acompanhar no seu dia-a-dia. No dia 7 de Julho, Virgínia arrancou três dentes e, no dia 3 de Agosto, passeando pelos campos de Richmond, encontrou uma colónia de cogumelos.
2014/10/07
Aretha Franklin
(Comprei, por dois euros, o diário da Khaterine Mansfield, edição de 1944, tão bonita, colecção dirigida por António Ferro, prefácio de John Midleton Murry, seu companheiro. Enquanto tratava do jantar dos miúdos, escutei a Aretha Franklin e bebi dois copos de vinho tinto. Estou feliz.)
2014/10/06
Ontem
Sentada na sanita, estico o braço para abrir a porta do armário onde guardo cremes, loções, pensos higiénicos, escovas, os sabonetes de açafrão e sândalo que a minha mãe trouxe do mercado de Goa. Tiro um penso higiénico. Está dobrado em três, dentro de um rectângulo de plástico azul-escuro. É um penso bastante comprido, reforçado, com abas largas; quando o aproximo do nariz larga um leve cheiro asséptico. Há já alguns meses que tenho de usar estes pensos enormes. Passei a ter um fluxo abundante, hemorragias torrenciais, diluvianas, causadas, segundo me explicou a médica bailarina, por um mioma com três centímetros de diâmetro. Durante o duche, se estou menstruada, escorrem de mim grandes coágulos escuros, cor de amora, que se assemelham a lagartas e rapidamente desaparecem pelo ralo da banheira. Com um gesto brusco arranco o penso sujo das cuecas e enrolo-o no plástico azul-escuro.
Leio durante algum tempo, depois adormeço.
Leio durante algum tempo, depois adormeço.
Acordo a meio da noite para ir comer (há cerca de dois anos que sofro desta estranha forma de parassónia; acordo três, quatro, cinco vezes durante a noite e, num estado semi-inconsciente, devoro alimentos calóricos de sabor excessivo: os cereais dos miúdos, a nutela dos miúdos, as bolachas dos miúdos). Ao abrir a luz reparo nos lençóis tingidos de vermelho. São várias manchas de um vermelho aberto, muito vivo. Fico durante alguns instantes a olhar para a cama, sem saber muito bem o que fazer. Parece que alguém entrou no quarto e, sem eu dar por isso, de forma eficaz e indolor, me esfaqueou várias vezes. Atordoada, apalpo o corpo à procura de uma qualquer ferida que justifique aquele sangue todo derramado nos lençóis brancos da minha cama. Só depois me lembro de que estou menstruada. Continuo a olhar para os lençóis da cama. Não sinto repulsa, nem nojo, nem sequer estranheza. Afinal, é apenas o meu sangue.
2014/10/02
2014/10/01
Amor maternal
Há muitos lugares-comuns acerca da maternidade; a maior parte deles, por inércia ou simples cobardia, vai-se sedimentando até se tornar verdade absoluta. Nenhum desses equívocos é, por assim dizer, tão falso e absurdo como a imediata emergência do amor filial. É certo que muitas mulheres, com propensão para o drama, choram de emoção mal vislumbram o ser que lhes escorre das entranhas. Ainda os meninos, olhos inchados das conjuntivites neonatais, sonham com o aconchego nacarado do ventre materno, e já essas mulheres lhes chamam meu docinho, meu amorzinho, meu queridinho, amor da minha vida, como se, em vez de um filho, estivessem a chamar por um amante. Essas mulheres, apesar do ridículo a que se sujeitam, sossegam por cumprir o papel de mães dedicadas que lhes compete. A liberdade escapa-lhes, a lucidez também. Porque não se ama quem não se conhece. Um filho acabado de nascer, tal como o sentiu Maria, é um desconhecido. Ainda que uma excrescência solta do seu corpo, não deixa de ser um estranho que de repente invade a vida de uma mulher. Uma mãe precisa de tempo para se acostumar a um filho, mais tempo ainda para o amar. Muitas mulheres levam vários anos até finalmente sentirem amor a um filho. Outras nunca chegam a senti-lo.
2014/09/26
Prócida
O João vai ser pai. Contou-me no dia em que fui ter com ele à Biblioteca Nacional, no preciso instante em que me entregou “A ilha de Arturo”. Dei-lhe os parabéns, tive vontade de o abraçar longamente e meti o livro no cacifo. À noite, já no meu quarto, tirei o livro da mala. Olhei-o, passei as mãos pela capa, e, lembrando-me que as mãos do João o tinham tocado, levei-o aos lábios. Depois, já sentada na pequena secretária de pau-preto que herdei da minha avó Aninhas, abri o livro, senti a leve rugosidade do papel e, como sempre faço, escrevi o meu nome e a data na primeira página. A caligrafia saiu ligeiramente inclinada para a direita. Continuei a olhar para a primeira página e, não sei porquê, senti que o meu nome e a data eram insuficientes para marcar aquele livro. Alguns livros precisam de ser marcados. Peguei novamente no marcador preto e, numa caligrafia diferente da que usei para assinar, escrevi “Almocei hoje com o João Pedro na Biblioteca Nacional, contou-me que vai ser pai; em Novembro nascerá a sua segunda filha, uma menina muito desejada que se chamará E. Fiquei verdadeiramente feliz por ele e novamente lhe confessei o meu amor. “. Reli a frase, uma, duas, três vezes, de forma mecânica, à espera de sentir qualquer coisa. Não senti nada. Deixei o livro pousado na secretária, junto dos papéis da segurança social. Durante alguns dias esqueci-o. Porém, quando finalmente lhe peguei para o ler senti um leve frémito interior, formiguinhas passeando pelo meu avesso, uma sensação vaga de perigo. Temi que a leitura de tal livro pudesse fazer desaparecer a minha serenidade. “A ilha de Arturo” é um dos livros que o João mais gostou de ler nos últimos tempos, por diversas veze me falou da ilha de Prócida, sobretudo, da ilha de Prócida. Temi que a leitura de tal livro reacendesse a angústia que senti quando o perdi. Amo o João por várias razões, uma delas é por o considerar um leitor excepcional. Por breves instantes, passou-me pela cabeça não voltar a tocar no livro, mas, depois de pensar no assunto, recordando a nossa conversa no refeitório da Biblioteca Nacional, percebi que o meu receio não tem qualquer fundamento. O meu amor é tranquilo, paciente, sossega-me, faz-me feliz, é um amor que nada exige, que nada quer. De tão puro talvez o amor que sinto não chegue a ser amor ou talvez seja a sua forma mais sublime. Um amor assim não magoa. Peguei no livro, voltei a levá-lo aos lábios e entrei na ilha de Prócida.
2014/09/12
Teresa Torga
(Escutei vezes seguidas esta canção, li um conto do João de Correia Araújo, comprei o último livro do Miguel Martins, encontrei o imperador baiano no café do largo, jantei duas vezes: primeiro, um desenxabido caril de legumes, depois uma fumegante sopa vietnamita. Caminhei pela Rua do Benformoso e, no instante em que o Ricardo me fez olhar para um prédio esguio, lembrei a Mariana das sete saias. Mulher na democracia não é biombo de sala.)
2014/09/11
Manhãs
Desliguei-lhe o telefone (dormia à uma da tarde enquanto os mais novos esperavam pelo almoço) e murmurei entredentes: “ É igualzinho ao pai. Não se pode contar com ele para nada.” Pus creme nas mãos e, durante algum tempo, enquanto as amaciava, olhei a fotografia que está em cima da minha secretária –foi tirada pouco antes dele partir o dente da frente na piscina; sorri, abraçado à irmã que veste a canadiana vermelha e usa os brincos das libelinhas. Saí para a consulta de psiquiatria e, no caminho, já mais calma, apercebi-me de que não tinha, não tenho, qualquer autoridade para censurar o meu filho mais velho. Como posso recriminar o João? Durante as férias, sábados e domingos, durmo sempre até tarde. Deixo muitas vezes a Madalena a tomar conta do Joaquim que, sensata, responsável, lhe dá o pequeno- almoço e o obriga a lavar os dentes. Eu fico na cama, meio acordada, meio adormecida, num mundo paralelo, insólito, ao mesmo tempo próximo e distante. “É dos comprimidos que tomo para dormir”, justifico-me aos miúdos para não parecer mal, intimamente sabendo que os comprimidos já não fazem qualquer efeito, servem apenas para esconder a minha vontade de adiar um pouco o momento em que terei de voltar a ser mãe e cuidar deles. Fico a preguiçar na cama. Às vezes, imagino-me com os homens com quem me deitei, às vezes, toco-me, às vezes, venho-me. Já a chegar ao consultório, pouco antes do Areeiro, senti-me a pior mãe do mundo. Má por, languescente, passar as manhãs na cama. Má por ter desligado o telefone ao João. Telefonei-lhe a pedir desculpa. “Desculpa filho”, disse-lhe e a voz dele logo se animou.
2014/09/09
Elisabeth Badinter
( Sou feminista, da ponta dos meus cabelos à ponta dos meu pés.Não sei ser mulher sem ser feminista. Ser feminista é o que melhor me define.)
2014/08/29
Hora de almoço
Sento-me a ler o livro que ontem encomendei. Ao ler o prefácio e as primeiras páginas, facilmente percebo a razão pela qual me sugeriram tal leitura. Volto a ter a sensação - nos últimos meses cada vez mais frequente - de que devia abandonar de vez a mania da escrita e dedicar-me apenas à leitura. Ler é tão bom e as s histórias que gostaria de escrever já foram escritas por mulheres incrivelmente talentosas. Continuo a ler, bebo cada palavra, cada frase; a cada página, sinto uma espécie de vibração, de morno sossego, uma alegria íntima por estar aqui, sozinha, na minha livraria preferida, a ler o livro da Elena Ferrante. Hoje, ao contrário do que é habitual, a livreira não pôs música de fundo, de modo que, apesar de estar concentrada na leitura, consigo ir escutando as conversas de quem passa na rua. Em rigor, não são bem conversas, são apenas fragmentos de frases soltas. Duas ou três palavras: “Fiz almôndegas de bacalhau e…. “ ou “ …telefone-me assim que o Dr. Saraiva…” ou ainda, numa voz alta, de adolescente“…pagas onze euros e podes comer…”. Continuo a ler até que uma nova frase se escuta. “Deixa-me, por favor, deixa-me…”, escuto, dito numa voz febril, angustiada, de quem está à beira do precipício. Levanto os olhos do livro. Uma mulher parou junto à montra da livraria e, com gestos tensos, continua a falar alto. “Não quero, percebes? Não consigo continuar a viver contigo…”. Finjo continuar a ler, mas faço um esforço de concentração para perceber o contexto da conversa. Por que está a mulher tão desesperada? Que carrasco a deixa naquele estado? Baixo os olhos e lembro as discussões com o Reinaldo no tempo em que eu queria sair de casa e ele não deixava. “Sais de casa, mas sais sozinha, sem os miúdos.”, dizia-me e eu ficava sem saber o que fazer. Até que chegou o dia em que dois jovens polícias chegaram e eu pude sair com os meus filhos. Passaram-se apenas alguns anos, mas esse tempo, violento e trágico, parece-me longínquo como se tivesse sido vivido por outra mulher. Já não sinto medo, nem raiva, nem nojo. Serei eu uma mulher diferente? Não sei, mas gosto de acreditar que, se voltasse a passar pelo mesmo, em vez da loucura, dos gestos trágicos, do desespero, saberia agora fazer escutar a minha voz.
2014/08/27
João
Vou feliz, o meu coração bate acelerado. Sei que o João não está no fim do caminho perfumado, nem está, como sempre o imaginei, sentado a uma mesa do Longuinhos, provando um prato de kishmor, não está sequer na Índia, está no outro lado do mundo, deitado com uma mulher jovem, uma mulher sem passado, sem prole, uma mulher que lhe dará dois filhos e o tratará até ser velho por “amor”. No entanto, é para ele que caminho e isso faz-me sentir viva, dolorosamente feliz.
(Sonho frequentemente com o homem que amo. Às vezes, como ontem, sonho com a sua ausência e é bom na mesma.)
2014/08/26
Sombra
A Madalena veio ter à minha cama. Não sei como lá fomos dar, mas acabámos a falar da memória. Expliquei-lhe como funciona a minha memória, como sempre funcionou, como é estranha, ineficaz, tudo esquece, assimila apenas pormenores, insignificâncias, quase sempre imagens sem possibilidade de interpretação ou análise. Para exemplificar, disse-lhe que me lembrava perfeitamente dos ténis que usei no funeral do meu avô (tinha onze anos). Uns ténis vermelhos, da Adidas, comprados na Suíça. Recordo que caminhava no meio do cortejo fúnebre - velhas de lenço na cabeça, envoltas em xailes com cheiro a fumo, homens de rugas fundas e mãos calejadas - sem experimentar propriamente angústia ou sofrimento. Até que uma mulher olhou com censura para os meus ténis vermelhos. Acrescentei que também me recordava, com nitidez, ainda em Maputo, do exacto tom de azul do copo de plástico que um menino segurava no refeitório. Não me lembro do rosto dessa criança, não sou capaz de dizer se era magro, gordo, bonito ou feio, só me lembro das suas mãos segurando o copo de plástico azul. A minha filha escutou-me, depois fechou os olhos como se procurasse uma memória que pudesse acompanhar as minhas. Pouco depois, abriu os olhos e falou: “Lembro-me do dia em que os treinadores trouxeram o praticável. Fiz vários saltos de mãos para experimentar os tapetes novos. Lembro-me perfeitamente da minha sombra projectada no chão do ginásio”. Beijei-lhe os cabelos e mandei-a para a cama. Muito bela, a memória da minha filha, aliás, não consigo imaginar memória mais bela do que a dela, a da sua própria da própria sombra.
2014/08/24
Laura
Meto conversa com uma mulher jovem que está sentada junto de uma janela aberta. Está sozinha e abana-se com um vistoso leque vermelho de sevilhana. Não usa sutiã, percebe-se pelo leve balouçar das mamas, e cheira um pouco a suor. Os seus olhos escuros, expressivos, revelam tranquilidade. Pergunto-lhe pelo nome. Diz-me que se chama Laura e, sem que lho pergunte, explica estar a tirar um doutoramento em teologia feminista. “Em Estocolmo”, acrescenta e a boca abre-se num sorriso lento. Fico impressionada com a resposta, intimamente volto a lamentar o curso que escolhi. Peço-lhe que me explique o que é isso da teologia feminista, mas a chegada de uma mulher mais velha ao salão parece suscitar toda a atenção de Laura. A mulher vem cansada de subir a grande escadaria de pedra que dá acesso ao salão. Encosta-se a uma coluna, apoiada numa bengala, a retomar a respiração. Tem um ar sisudo, contrariado, os cantos da boca caídos. Traz pela trela uma cadelinha irritante que larga uns ginchos de rato e é muito apaparicada por um homem baixo que parece ter algum protagonismo na reunião. Pouco depois, dá-se início ao lançamento da obra. O homem baixinho faz a apresentação da colectânea. Fala de coisas interessantes, sim, claro que fala, mas não sou capaz de reter uma única ideia do seu discurso. Aplausos, aplausos, aplausos e, de seguida, explica que irão ser lidos alguns poemas. O Ricardo atravessa o salão e pede-me que leia o meu texto (não é um poema, explicou-me, é prosa poética). Digo-lhe que não, mas, logo a seguir, olhando a rapariga que estuda teologia feminista, talvez querendo impressioná-la, digo que sim. Gosto de ler em voz alta, leio bem, a minha voz é naturalmente projectada, clara, segura. Enquanto leio reparo que a luz faz brilhar o soalho escuro. Volto a sentar-me ao lado de Laura que elogia o meu texto e a minha leitura. Fico à espera que os poetas a sério leiam os seus poemas. A matrona da cadelinha é a primeira. Levanta-se e com lentidão paquidérmica arrasta-se até ao palco. Pergunto a Laura “Quem é esta senhora?” e ela explica "É a Maria da Conceição Caleiro, crítica literária e grande poeta”. Percebo, pelo tom da sua voz, que lhe merece admiração. A grande poeta senta-se de pernas levemente abertas, deixando antever umas coxas marmóreas e flácidas, e, com insuportável sobranceria, olha em volta. Começa então a ler o seu poema. A voz arrasta-se, dolorosa, é uma voz calcificada, moribunda. Declama como se tivesse a boca cheia de feridas. Laura bebe cada palavra, os olhos tremem-lhe de emoção.
2014/08/23
Sapatos Vermelhos
Comprei uns lindos sapatos de verniz vermelho em Dunquerque. Fui a Calais comer ostras e mostrar aos meus filhos, como se de animais em cativeiro se tratasse, os imigrantes que vieram para atravessar o mar. Não foi difícil descobri-los. Negros, retintos, agasalhos quentes por cima de trapos rasgados. Estavam num terreno árido, longe do centro da cidade, uns sentados em silêncio, outros fazendo fila para conseguir um prato de sopa. Comovi-me por um instante e depois esqueci-os. Passeei na praia de Malo les Bains, sentindo o vento frio no rosto e notando a marca das pegadas do Joaquim (corria mais à frente, gritava para espantar as gaivotas). Mulheres sentadas em cadeiras de lona, a apanhar sol. Uma avó magra, de biquíni azul e touca amarela, brincava com os netos e, sem pudor, mostrava o seu corpo anquilosado, suas peles flácidas, seus lentigos, sua magnífica velhice. Um grupo de rapazes asiáticos fotografava-se junto ao mar e, ao longe, o pontão de Leffrinckoucke surgia coberto por uma leve neblina cinzenta. O mar pareceu-me estranhamente calmo. Esperava um mar escuro, revolto, perigoso. Comemos gelados americanos todos os dias. Hesitei entre tantos sabores desconhecidos; um dia, depois de ter estado a observar um menino gordo a saltar nas camas elásticas, escolhi gelado de violeta e a boca encheu-se daquele creme suave, lilás, muito perfumado, ligeiramente enjoativo. Em Bergues, imaginei o céu repleto de aviões, os alemães marchando nas ruas da aldeia, sem notar a beleza das begónias amarelas. Subi à torre de Bergues e, lá no alto, ao olhar o casario e a torre negra de uma abadia, senti vertigens, os meus olhos ficaram embaciados e o meu coração bateu, acelerado. Jantámos quase sempre fora, em restaurantes familiares, baratos e com cheiro a fritos. Uma noite, enjoada de hambúrgueres e batatas fritas, cozinhei coelho com ameixas para os meus filhos. Ficou muito bom, a Madalena repetiu duas vezes. Reli “Mrs. Dalloway” à luz fraca de um candeeiro de abajour amarelo. Não sei explicar o que há na escrita da Virgínia Woolf que tanto me prende. Já li análises, assisti a documentários, já li até uma tese de mestrado de uma rapariga brasileira sobre a estética feminista na sua obra. Conheço a essencialidade, a modernidade, a força imensa da sua escrita, mas, quando leio os seus livros (os romances, sobretudo "Rumo ao Farol"), todas as análises, estudos, comentários me parecem comezinhos, insuficientes. Falta qualquer coisa. Há um mistério secreto na escrita da Virgínia Woolf; suponho que nunca o descobrirei.
2014/08/06
41º movimento
R., que há alguns anos tenta levar-me para a cama, sabendo da minha preferência pelo período barroco, telefonou-me no início da semana a dizer que, apesar de esgotado há muito tempo, arranjava bilhetes para o “ Messias”. Gosto muito dessa obra, conheço-a bem, há qualquer coisa no 41º movimento que me emociona profundamente. A possibilidade de escutar ao vivo, numa interpretação da orquestra, a obra de Händel pareceu-me valer bem o esforço de tolerar durante algumas horas a presença de R., suas aproximações e olhares sedutores. Depois de reflectir um pouco, decidi aceitar o convite e pedi à Cila – prima solteira, vive sozinha com dois gatos e passa a vida a queixar-se que raramente vê os meus filhos - que ficasse com a prole.
Acontece que, no dia do concerto, ao levantar-me, senti uma espécie de ardor no estômago, um braseiro queimava-me por dentro e fazia-me engolir em seco. Passei o dia em agonia. O meu corpo parecia arder como se feito de uma matéria inflamável qualquer. Um fogo lambia-me o avesso. À hora de almoço, quando saí para ir comprar aipo à D. Rosa, afastei-me de um homem que fumava um enorme charuto por temer que o meu corpo se incendiasse. Durante a tarde, continuei a sentir esse ardor, cada vez maior, mas também uma náusea ligeira que me fez arrotar pelo menos quatro vezes. Fiz um chá de lúcia lima, muito perfumado, o mal-estar aliviou durante alguns minutos, mas voltou a piorar assim que olhei para o grande relógio da cozinha e me dei conta de que faltavam apenas duas horas para o concerto. Foi então que me passou pela cabeça que talvez me sentisse assim por causa do concerto. Sou bicho do mato, pouco dada a convívios e relações, aguento meia-hora, se tanto, de conversa de chacha. Percebi que iria passar três horas (três horas!) ao lado de R., homem afectado, intelectualmente frívolo, ridiculamente vaidoso, um palerma que cai na triste tentação de me seduzir com as suas camisetas Lacoste, os seus gestos cavalheirescos, as suas leituras de poesia e também uma quinta oitocentista em Penacova que herdou de um tio padre. (R., é bom que se explique, é um homem rico, fleumático, foi chefe de gabinete, secretário de estado, não chegou a ministro, mas agora vive de uma bela pensão de reforma, faz parte de um grupo de oração carismática e joga xadrez). Três horas ao lado de tal homem pareceu-me uma eternidade, um sacrifício, um castigo imerecido. Às oito da noite, pouco antes do concerto começar, já eu estava desesperada, a náusea tomou conta de mim e tive de ir vomitar. Voltei a sentar-me na sala e olhei em volta. Ao fixar as folhas da grande “samambaia” que o imperador baiano me ofereceu, percebi que não aguentava a companhia daquele homem durante tanto tempo. Simplesmente não aguentava. Liguei-lhe e, como de costume, a maternidade serviu-me de desculpa. “Desculpe R., mas não vou poder ir ao concerto. O Joaquim está cheio de febre”. R. é frívolo, mas não é burro. Percebeu que se tratava de uma desculpa mal-amanhada, como outras que tenho inventado para fugir do seu convívio, mas não deu parte de fraco. Desejou as rápidas melhoras do pequeno e, em jeito de provocação, prometeu que, para compensar, tentaria arranjar bilhetes para a “ Paixão segundo São Mateus”.
Poisei o telefone e respirei fundo. O ardor passou de imediato. Foi então que se escutou a campainha. Era a prima Cilinha. Vinha sorridente, um bonito bolo mármore nas mãos. Os miúdos vieram cumprimentá-la e receberam, com genuína alegria, os seus abraços e beijos. Fui magnânima. Não havia nenhuma razão para privar a Cilinha de estar três horas sozinha com os meus filhos, cuidando deles, brincado às mães. Arranjei-me para sair e disse-lhe que por volta da meia-noite estaria em casa. Percebi então que tinha três horas livres, três horas inteiras, só para mim, ao meu dispor, para fazer o que muito bem entendesse. Que fazer com tanto tempo? Não hesitei um minuto. Telefonei imediatamente ao Alexandre a dar-lhe conta de que tinha três horas livres e muita precisão de dar cansaço ao corpo. O Alexandre é um amante e tanto, intermitente é certo, mas raramente me deixa ficar mal. Ficara de ir às compras com a mãe, mas, daí a meia-hora, explicou, estaria à minha espera no Hotel Ibis da Praça de Espanha. Mal entrei no quarto, disse-me que gostava mais de me ver com o cabelo comprido e, sem demora, atirou-me para a cama. Fodemos durante duas horas e, como sempre acontece, foi bom. Acabámos exaustos, suados e peganhentos, o ambiente saturado a sexo. No descanso, já encaixada no braço do Alexandre, enquanto lhe cheirava os pêlos do peito, lembrei-me de R. A essa hora, enquanto eu descansava nos braços do amante intermitente, ainda devia estar sentado no renovado auditório da fundação a escutar o “Messias”. Talvez tamborilasse os dedos no braço da cadeira para marcar o compasso do 41º movimento.
2014/07/28
2014/07/16
Florzinhas azuis
A Madalena acordou-me com um beijo. “Já passa da uma, mãe. Não vais pelo menos trabalhar durante a tarde?”, perguntou. Envergonhada, disse-lhe que sim e saltei da cama. Tomei banho, bebi um café, tomei os comprimidos. A casa pareceu-me limpa, cheia de sol, incrivelmente arrumada. Antes de sair pedi à Graça que fizesse gelatina e deixasse o frango desfiado. Já no edifício, enquanto subia no elevador, notei vincos do lençol nos meus braços. Fechei os olhos e, diante de mim, surgiram imagens do sonho desta noite: prédios altos, blocos cinzentos de janelas pequenas, ruas cheias de lixo e águas insalubres. Comecei a trabalhar num parecer sobre a aplicabilidade de certo regime jurídico aos trabalhadores de um serviço intermunicipalizado de gestão de resíduos. Cheguei a conclusões, mas não fui capaz de as redigir. Encontrei a Filomena na máquina dos cafés que me falou das beringelas recheadas que comera no refeitório. A Maria José trouxe-me as framboesas há muito encomendadas. Notando a minha voz, perguntou-me se estava de bem como a vida. Intrigou-me a expressão: estar de bem com a vida. “Nem por isso”, respondi e meti uma framboesa na boca. O telemóvel tocou duas vezes, não atendi. Ao longo do dia, lembrei-me várias vezes do lindo bule de florzinhas azuis que ontem comprei na feira da Ladra.
2014/07/15
Dor
Quero transformar-me em pó, cinzas, poeira, em nada. Tornar-me no vazio, numa recordação, numa lembrança. Passar a ter apenas expressão nas fotografias que envelhecem devagar nos álbuns que fiz há muitos anos, quando era nova, quando me sentia nova. Habita-me uma dor que não sei, não consigo descrever. É uma dor que não se sente na carne, mas que está lá, espalhada, derramada pelo meu corpo. Cobre-me, evanescente, como uma gaze translúcida. Só por estar lá, só por existir, não me ferindo, fere-me. De uma maneira insuportável. Ácida, a dor corrói-me por dentro. Às vezes, parece que tenho caruncho, um exército de insectos minúsculos dilacera-me, come-me os órgãos e os membros. Não consigo olhar-me no espelho. Mesmo, pela manhã, quando lavo o rosto e me penteio, executo esses gestos rotineiros sem nunca me olhar. Habito o meu corpo. É isso. Limito-me a habitar o meu corpo, invólucro de qualquer coisa que adivinho menor. Sinto constantemente um nó a estrangular-me a garganta. Sinto esse nó em cada segundo, em cada minuto, em cada hora que passa.
(Senti-me bastante triste ontem. Hoje acordei melhor. Fui à feira da Ladra, onde caminhei ao sol. Observei um homem jovem, corpo moído da heroína, que vendia camisas Victor Emanuel. Comprei alguns livros e um lindo bule com florzinhas azuis.)
2014/07/13
Procissão
O anjinho de mãos papudas limpa o suor da testa. O outro, mais pequeno, chama pela mãe. As vizinhas debruçam-se nas varanda para ver a procissão passar. A fanfarra toca. Abnegada, servil, fria, segues em cima de um andor de madeira perfumada. Tens olhos mortiços, um sorriso cândido que mal se nota. Foste mãe sem chegares a ser mulher. És incrivelmente feia. Vejo-te passar e pergunto-me: como pôde o padre Mouret apaixonar-se por ti?
2014/07/09
Mulher de franja
Sentada na primeira fila, uma jovem mulher. Franja curta e olhos carregados de khol. Tem pinta de jornalista. Ou coisa que o valha. Ri que nem uma perdida. O texto tem brejeirice, presta-se ao riso, mas a mulher da primeira fila não se limita a rir. Já o texto segue adiante, já se fala do fio de seda que prende a patinha do pardal, já tudo é poesia, profanação e liberdade, e ela continua numa hilaridade forçada. Às tantas, sacoleja o corpo como se alguém lhe fizesse cócegas nos sovacos. Salta à vista que o seu riso é forçado, é o riso de quem, pelo exagero, se quer livrar do anonimato da plateia. Passa o resto do espectáculo a bichanar à companhia do lado. Às vezes, faz um ar grave e fita o palco com melancolia. Volta a rir-se descontroladamente, ruidosamente, se se escutam as palavras “cona” e “foder”. Concentro-me no texto. Apesar das aparências, o longo poema é denso, exigente, metafórico, cheio de subtileza e inteligência. Saio com uma frase, uma única frase, na cabeça. Sento-me a uma das mesas do café e escrevo na agenda: “Então tudo acabará. As estações terão chegado ao fim, com as suas sombras e os seus ecos”. A mulher da franja também está por ali. Encontrou uma amiga.
- Joana!
- Olá.
- Não sabia que estavas cá!
- Não podia perder este espectáculo!
- Gostaste?
- É muito, muito bom…
-Também adorei!
- E o texto é…
- Magnifico!
- Tem imensa força…
- Pois tem…
A conversa diverte-me. Cá está a habitual frivolidade de certa gente da cultura. Leram fulano e beltrano, conhecem isto e aquilo, mas não têm nada na cabeça. Só deslumbramento. Passava o resto da noite a escutar a conversa da tal Joana, mas são quase onze horas e os meus filhos ficaram sozinhos em casa.
2014/07/08
2014/07/06
Chongqing
Hei-de renascer entre florestas de betão e tocas de zinco. Habituar-me-ei a carregar baldes de cimento sobre os ombros. Hei-de ter calos nas mãos, o cabelo crespo, a pele baça, os dedos dos pés muito separados, com fungos e bolores. Hei-de aprender a comer de cócoras, encolhida, como se estivesse ainda no ventre da minha mãe. E a sorver, sem temer o ocidental embaraço, a sopa de massas. Darei estalinhos com a língua e sorrirei ao sentir o caldo quente escorrer-me pelas goelas. Nos domingos, em Chongqing, hei-de vestir uma blusa amarela, desbotada pelo tempo, com pavões desenhados. Passearei sozinha no parque da cidade onde as árvores largarão um cheiro enjoativo a fruta madura e os meninos comerão gelados de três sabores.
2014/07/03
2014/07/02
Lembrete
A limalha de ferro cobre a mesa do alfaiate. A canção de amor passa na telefonia. Uma carpa gorda nada no lago do museu. A prostituta de socas brancas sobe a rua dos Anjos. O peixe-aranha pica o pé do João. Orlando seca as lágrimas de Adolphine. Adolphine volta a ser menina e regressa ao gueto de Theresienstadt. Da sublimação do iodo, falou-me hoje a minha filha.
2014/07/01
Grampos de massa
Continuo sem dormir. As noites são um poço sem fundo, os dias custam a passar. Espeto alfinetes nos olhos para os manter abertos. Quero ordenar ideias e não consigo. Caminho sem direcção. Leio, observo, tiro notas, mas não escrevo. Os miúdos pressentem a minha tristeza. Não dizem nada. Tenho inveja das mulheres jovens. Não têm varizes nas pernas e a felicidade parece-lhes alcançável. Tenho saudades do meu cabelo comprido. Nos dias de chuva, quando ganhava volume, enrolava-o na nuca e prendia-o com grampos de massa. Também tenho saudades de foder, mas isso é outra conversa.
2014/06/25
Toutinegras
Cortei o cabelo muito curto. Deixei de usar maquilhagem. Meti bâtons e rímeis numa caixa de cartão que ofereci à Graça. Tenho preguiça de tirar o buço. Deixei de usar saltos altos, vestidos e transparências. Engordei cinco quilos. Já não corro. Também já não vou às aulas de ginástica. Tomo vários comprimidos ao longo do dia. Amo os meus filhos e os meus filhos amam-me de volta. Gosto de silêncio, de árvores, de música francesa e da poesia da Adélia Prado. Não gosto muito de animais. Só de passarinhos. Toutinegras, piscos, pintassilgos, canários. Preciso de chorar pelo menos uma vez por mês. Choro nos dias de chuva e nos dias de sol. Choro dentro do carro, nas escadas do prédio e na igreja. Escrevi um livro que é uma grande merda. Disse-o, eufemisticamente, o editor. Foi gentil. Não almoço e não janto, mas, durante a noite, levanto-me para comer chocolates, bolachas, aperitivos indianos, latas de sardinha e pão com manteiga. Às vezes, para desenjoar, como laranjas e limões.
2014/06/24
Maria José
A Maria José fala às baratas e aos gatos, cuida das begónias roxas e anda sempre com uma pucarinha vermelha, de barro esmaltado, que usa ao longo do dia para tarefas indiferenciadas. Há pouco tempo, o psiquiatra mudou-lhe a medicação. Quis controlar os surtos psicóticos e devolver a Maria José à normalidade. A minha amiga engordou vinte quilos e a sua pele ganhou um tom azulado, muito bonito, que faz lembrar princesas mortas e hortenses murchas. O jovem poeta que mora no prédio dos azulejos, um tipinho de bigode retorcido, anda por aí a dizer que a Maria José se perdeu com a nova medicação: deixou de escrever, deixou de ler e, muito pior, já não alucina, já não delira. Agora só pensa nos saldos da H&M e na magreza da Angelina Jolie. É um infame e um intriguista, o tal jovem poeta. Ainda ontem encontrei a Maria José no adro da Igreja dos Anjos. Não me falou nos saldos da H&M, muito menos na magreza da Angelina Jolie. Convidou-me para ir lanchar ao Ramiro. Enquanto partíamos as tenazes de uma sapateira açoreana, contou-me que na véspera acordara a falar aramaico e com vontade de fazer milagres. Com um lençol caído pelos ombros e sandálias nos pés, saiu para passear no Jardim Constantino. Levou os gatos e as baratas a fazer de apóstolos.
Avenida Nevsky
Regressei com os primeiros raios de sol. Ao passar pela praça vi as tricotadeiras em frente do pelotão de fuzilamento. Uma mulher que conheço vagamente tricotava um cachecol azul. “É uma prenda para o meu marido. Tenho de o terminar antes que chegue a minha hora.”, explicou com uma voz tranquila. Sorri e desejei-lhe boa sorte. Mal entrei em casa, corri à cozinha e pedi à Adelaide - estava a migar couves para as galinhas - que me fizesse atum com feijão-frade para o almoço. Deitei-me. Adormeci embalada pelo som seco dos disparos. Acordei espapaçada de sono, olhos moles, vincos dos lençóis no rosto. Comi o feijão-frade com atum. Soube-me bem. À tarde, em vez de visitar o prostíbulo camarário, fui à missa das quatro. Durante a segunda leitura, voltei a pensar no meu plano. Setenta comprimidos na sopa e o meu pai agonizará tranquilamente. Morto e enterrado, poderei então fugir para um país quente. Hei-de arranjar uma casinha de paredes azuis e janelas de madeira lascada. Aí, numa cama de dossel, deitar-me-ei com pretos, mulatos, padres missionários e também com as putas mais bonitas da Avenida Nevsky.
2014/06/16
2014/06/04
Santa Ana
Só conheço pessoas realizadas, razoáveis, sãs. A minha irmã tem as contas em dia, a nova secretária nunca come fruta sem ser lavada e, ontem, uma criança censurou-me por atravessar a rua fora da passadeira. Da janela do gabinete, vejo antenas, telhados, caixas-de-ar condicionado, janelas que nunca se abrem. Ao meio dia, quando se escuta o sino da igreja, pico o ponto e saio para almoçar. Sentada ao balcão do pronto a comer, faço sempre o mesmo pedido: poeira de magnésio, pãezinhos enfarinhados e um chá de menta servido em bule de prata. Não tenho salvação e já pensei em ir ao templo pedir um exorcismo. Não durmo, não sereno, ando cansada. Continuo a procurar a cabeça do abutre no manto da virgem e, nos olhos bondosos do menino, a maldade original, mas sou agora capaz de enunciar as características organolépticas da seiva alexandrina: líquido opalino, de um branco suave, consistência de clara de ovo, cheiro a ervas esmagadas, sabor intenso, ligeiramente adocicado, a fazer lembrar leite de espelta.
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