2015/11/29

Gato



2015/11/27

Abstinência

Para me livrar do longo período de abstinência literária, uma amável desconhecida aconselhou-me, via facebook, um livro do Miguel Real. Larguei um “foda-se!” para dentro, bebi, de trago, o vinho que restava no copo e acendi outro cigarro.

Cleópatra




2015/11/26

Caminho

À beira da estrada que atravessa a montanha, num pequeno canteiro lamacento, uma mulher coloca pés de arroz na terra. Sozinha, vestida com um sari puído, já sem cor definida, a mulher é uma sombra, um traço quase invisível. Traz um alforge imundo a tiracolo. Desse alforge tira os rebentos, depois, de forma mecânica, enterra-os na lama. A visão da mulher causa desconforto. Costumo ser indiferente à miséria dos outros, centrada que vivo na minha pequenez, mas qualquer coisa naquela mulher me desarma. Talvez seja o alforge imundo ou a certeza de que os seus pés gelam dentro da água. O meu incómodo dura pouco. A habitual egolatria alcança-me como uma flecha certeira. Já os abutres, no céu de nuvens baixos, voam em círculos, à espera do banquete. Na estrema do terreno, perto de uma palafita de chapas de zinco, avista-se uma bananeira de folhas largas. O verde dessas folhas, atravessado pelo sol, é de tal forma esplendoroso que, perante tanta beleza e harmonia, rapidamente esqueço a miséria da mulher enterrada nas lamas. Sinto um doce aperto no peito, uma vontade passageira de chorar. 

2015/11/25

Gunga Din

Li a mensagem do Tiago a desmarcar o nosso encontro. Fiquei irritada. Quem é que escreve a palavra “miasmas” numa sms? Senti-me também estúpida, muito estúpida. De manhã, por causa dele, maquilhara-me com cuidado, escolhera o sobretudo cintado preto e os sapatos de saltos altos que comprei em Bilbau. São bonitos, mas apertam-me os joanetes. Para me livrar da irritação, decidi ir ao cinema. Ao meio-dia, no Monumental, vira no jornal, passava “Um anjo sentado à minha mesa”, da Jane Campion. Saí a correr do escritório. Caminhei apressadamente enquanto falei com a minha irmã ao telefone. Falámos da nossa mãe, do aniversário do Pedro, dos bilhetes para a festa de Natal. Cheguei cansada, cheia de dores nos pés. Na parede do Monumental, um cartaz anunciava a reposição das três cores do Kieslowski. Dezembro vai ser um mês bom: hei-de rever o velho juiz, com ele beberei copinhos de aguardente de pêra.  Era capaz de amar um velho assim, que me confessasse, não as suas glórias, mas a sua mesquinhez, não a sua força, mas a fragilidade porosa dos seus ossos. Um velho que me oferecesse copinhos de aguardente de pêra. Mal as luzes da sala se apagaram, libertei-me dos sapatos de saltos altos. Aguentei o filme durante três horas. Não é grande coisa. A actriz que faz de Janet Frame, com as suas momices de louca, irritou-me. Adormeci quando é internada no hospício. Ando cansada e os estereótipos dão-me sono. Os loucos não são assim. Acordei com o grito de uma anã. Voltei a acompanhar a história da escritora neozelandesa. Janet já não tem os dentes podres e conhece um velho escritor que gosta de apanhar banhos de sol nu. O velho dá-lhe vários e preciosos conselhos para que possa desenvolver a sua arte. “Tens de libertar-te dos subúrbios. Não podes escrever no meio de acomodados e burgueses”, diz o velho. Que parvo! Na confortável escuridão da sala de cinema vazia, ri-me de tamanha estupidez. Há velhos e velhos. Quando o filme terminou, contrariada, voltei a enfiar os pés nos sapatos de saltos altos. À saída, a luz de inverno animou-me. Parei no Galeto. Comi dois croquetes ao balcão. Bebi uma imperial. Voltei para o trabalho. No cruzamento da Avenida da República com a João Crisóstomo, num semáforo, perdi a capa de um salto. Continuei a andar. Manca e dorida. Ao bater nas pedras da calçada o salto do sapato fazia um estranho ruído metálico. Lembrei-me do bico de um melro a bater no vidro do carro do meu pai, numa manhã de neblina, em Goa. Para não me esquecer, para nunca me esquecer, sentindo o frio no rosto, repeti para dentro: Dylan Thomas, Gunga Din, Dylan Thomas, Gunga Din, Dylan Thomas, Gunga Din…

2015/11/19

Amendoim

Deixei o último romance da Elena Ferrante a meio. De repente, sem perceber muito bem a razão, deixei de ter interesse na história de Lina e Lenuccia. Passou um mês. Desde então, para além de um pequenino livro do Amos Oz sobre fanatismo (“tornei-me escritor por causa da pobreza, da solidão e dos gelados.”) e de alguns poemas de Álvaro de Campos, lidos na vã tentativa de os explicar ao meu filho João, não li nada. Mesmo nada. É como se uma bruxa me tivesse lançado um feitiço. Sinto um vazio, um vazio que me paralisa e estupidifica, mas que não consigo contrariar. Em vez de ler, vejo televisão: novelas, concursos e programas de culinária. Vejo também alguma pornografia, sem grande entusiasmo, mais por desfastio do que propriamente por necessidade. Ontem, pensando neste longo período de desintoxicação literária, enquanto experimentava uma receita que aprendi na televisão – barras de chocolate preto com amendoim salgado -, percebi finalmente como posso livrar-me do vazio, desta incompreensível e absoluta desnecessidade de ler.


2015/11/18

Noite

2015/11/13

Mar

Não pego num livro há mais de três semanas. Não sou capaz. Ler faz-me sentir e faz-me pensar. Não quero sentir e não quero pensar. Quero ser apenas engraçadinha. Desejo, sem condescendência ou paternalismos, ser a rapariga que ontem seguia na carruagem quase vazia do comboio. Tinha formas voluptuosas, unhas em garra e um lindo cabelo escuro. Saiu na estação de Entrecampos. Não tenho fé, nem sei rezar, mas acredito na salvação. Uma evidência: o facto de desprezar os crentes que conheço não tem de me afastar de Deus. De manhã, a caminho da escola, o Joaquim disse:
 
- As rotundas das cidades, de todas as cidades do mundo, são lugares tristes.
 
Acho que o meu filho tem razão. As rotundas das cidades, de todas as cidades do mundo, são lugares tristes. Nanni Moretti olhou-me de frente enquanto ajeitava o laço. Beijei-o na boca, depois no feio nariz, por fim nos olhos cansados. Sou uma casa habitada. Não conheço a geometria da solidão. No domingo, quando o Reinaldo vier buscar os miúdos, meto-me no carro e vou ver o mar. Quero muito ver o mar: chegar à beirinha da água, arregaçar as calças, largar meias e sapatos, molhar os pés.

2015/11/12

Goldmonexx

Não tenho dinheiro para me aguentar até ao final do mês. Enquanto não chega o cartão de crédito que pedi, fui à Goldmonexx, na Amadora, penhorar duas libras de ouro e a salva de prata que um tio do meu ex-marido nos ofereceu quando casámos. Esperava encontrar atrás do guichet de vidro, de nariz adunco, olhos malvados, uma velha parecida à que atormentava Raskólnikov. Imaginei a velha, má, cínica, diabólica, ali, na Goldmonexx da Amadora, a esfregar as mãos de contente quando me visse entrar, pobre mãe de família, envergonhada dos seus apertos. Quando dei de caras com um homem de meia-idade, cabelo branco e ralo, feições regulares, vestido com um simples pulover preto, senti alguma desilusão. Novamente dei conta de que a literatura deturpa – e de que maneira! – a realidade. Na vida real nem os prestamistas têm ar de prestamistas. Apesar do aspecto desinteressante, da ausência de fibra literária, o homem  foi amável e eficiente. Fez-me assinar um papel e, sem conversas, passou-me um rolinho de notas que me apressei a enfiar no bolso invisível da mala.

Apanhei o comboio de volta para Lisboa. Na carruagem quase vazia, vendo os subúrbios passar, pensando no  bilhetinho que à noite escreveria ao Joaquim, senti-me tranquila, em paz, liberta de preocupações. Assumir a minha miséria afinal não custou nada. É só dinheiro. Depois de anos sombrios, de tão pesada angústia, acho que sou finalmente feliz. É um sentimento estranho. Não estou habituada a sentir-me assim. No próximo mês, precisando, vendo as pulseirinhas, os fios, os crucifixos que as tias do meu ex-marido ofereceram quando os miúdos nasceram. “Cristo salva!”, costumavam dizer as tias nos seus conciliábulos. Cristo salvar-me-á: não na cruz, mas na pequena balança digital do homem da Goldmonexx.

2015/11/04

Cheiro

Comem as papaias, as mangas, as vagens do tamarindo, também os frutos das pequenas árvores que o tio Filipinho plantou junto do muro rendilhado. Roubam as aparas de coco que secam ao sol. Às vezes, anda a Juanita a estender roupa, aparecem de surpresa e, atrevidos, talvez imitando gestos observados nos homens da aldeia, levantam-lhe a saia do sari. Gritam permanentemente. Quando o fazem mostram dentes raiados de castanho e as altas gengivas muito cor-de-rosa. Durante a tarde, em vez de procurarem uma sombra, juntam-se em cima do telhado, grupos de quatro ou cinco, e, como se fossem gente, falam animadamente. O Moreno e a Michelle, que vivem no apartamento do primeiro andar, andam com os nervos à flor da pele. Queixam-se que não conseguem dormir a sesta. Pediram por isso à tia Maria que, no piso térreo, mandasse preparar o quarto que era do tio Babai. Um quarto amplo, junto da cozinha, habitado por cristos padecentes e nossas senhoras de olhar triste. Já o meu pai, cansado dos trabalhos nas repartições públicas de Margão, dorme sossegado. Liga a ventoinha, deita-se, fecha os olhos. Conta que, apesar da distância, consegue sentir o cheiro da minha mãe. Concentrado nesse doce cheiro, o cheiro da minha mãe, rapidamente adormece. Não escuta a alegria dos macacos que desceram da montanha e invadiram a aldeia.

2015/11/03

2015/11/02

Renda preta

O Miguel vem a Lisboa na próxima semana. Mandou-me um mail a dizer que gostava de almoçar comigo. Não ando com cabeça para almoços, mas estou disponível para encontrar-me com ele, ao final do dia, num hotel ou numa pensão limpinha. Não me deito com um homem há muito tempo. E preciso. Avisei-o que, se aceitar o meu convite, terá de ser ele a pagar o quarto. Nos últimos meses, por causa dos manuais escolares, dos aniversários dos rapazes, das múltiplas inscrições em actividades extra-curriculares, das vacinas para o gato, do arranjo do carro, tenho pouco dinheiro. O meu amigo ainda não me respondeu, mas eu já fui adiantando serviço: tirei o buço, os pêlos das pernas, das axilas e das virilhas. Os meus ombros estão dourados do sol. Decidi que, se nos encontramos, usarei as cuecas de renda preta que comprei para ir a um festival literário. Imaginava que, à semelhança do que acontece lá fora, os festivais literários portugueses eram locais de animado convívio. A Mila chegou a dizer-me que alguns, mais a norte, eram mesmo uma pouca-vergonha de fornicação e bebedeiras. Acreditei no que a minha querida amiga me disse e, ingénua, fui na expectativa, não só de escutar poetas, escritores, editores, jornalistas da especialidade, mas também de, a um ou outro, mostrar as minhas cuecas de renda preta. Ouvi intervenções interessantes, passei a admirar ainda mais certos escritores (e a detestar ao ponto da náusea e da regurgitação outros), conheci homens inteligentes, amáveis, sedutores, mas sexo que é bom e faz tão bem à saúde nem vê-lo. A desilusão que apanhei foi de tal ordem que, na volta, meti as cuecas de renda preta no fundo da gaveta e jurei não voltar a um festival literário. Nunca mais voltei a usá-las. Na próxima semana, se deus-nosso-senhor quiser, volto a dar-lhes uso. Quando me despir para o Miguel, quando desapertar lentamente os botões das calças, as cuecas de renda preta cumprirão finalmente o seu destino: serão mostradas a um escritor.

2015/11/01

Kramer

2015/10/28

O amor

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Os Três Mal-Amados, João Cabral de Melo Neto

2015/10/23

Fogo azul

Falavam sobre o Piketty, sobre os pré-rafaelitas, sobre o espólio do Eduardo Lourenço. Eram capazes de falar sobre esses temas durante muito tempo, num tom natural, nada forçado, mostrando interesse autêntico em tais assuntos.  Enquanto ouvia aquelas pessoas falar - investigadores, professores universitários, doutorandos, pós-doutorandos -, experimentava alegria, exaltação, deslumbramento, também algum desconforto. Apesar do esforço, muitas vezes, não era capaz de acompanhar as conversas, desconhecia factos, sentia-me perdida perante os autores e livros referidos. Quase sempre, por isso, para não mostrar o meu desconhecimento, remetia-me a um silêncio prudente.

Mas um dia a minha ignorância libertou-se e revelou a sua triste dimensão. Passados alguns anos, se penso nesse episódio, ainda sinto o peito apertado. Almoçávamos no refeitório da biblioteca: eu, o João e um amigo do João, um professor universitário. Esse professor tinha um estatuto diferente no grupo que habitualmente frequentava o refeitório da Biblioteca Nacional. Pela sua carreira académica, pelos artigos escritos em jornais e revistas, era tratado com deferência por todos os outros: calavam-se para o ouvir e raramente o contrariavam. Nesse dia, o João e o amigo entretinham-se com as conversas do costume; eu, como sempre, escutava-os em silêncio e sentia um amor profundo pelo meu namorado. A certa altura, já não sei a que propósito, um deles mencionou que no tempo da ditadura era necessário ter uma licença para usar um isqueiro. A exigência, de tão absurda, pareceu-me brincadeira. Duvidei do que diziam e devo tê-lo feito com espanto genuíno. Não podia ser verdade. Era, asseguravam que era, diziam e insistiam, arregalando os olhos. Por fim, depois de muita birra, pouco convencida, anui. A conversa avançou para outros temas. Até que o João cruzou o olhar com o amigo e os dois começaram a rir. Não conseguiam parar de rir. O assunto de que falavam não se prestava a risos. Percebi nesse instante que se riam de mim.

Senti vergonha, muita vergonha, não só de não saber que durante o Estado Novo era necessário ter uma licença para usar um isqueiro, mas de tudo o que sou, das minhas raízes, dos meus pais, do bairro suburbano onde cresci, dos vestidinhos comprados nos saldos da Zara, do meu esforço para parecer uma mulher que não sou. Senti sobretudo vergonha do meu desejo de pertencer  a um mundo de saber, conhecimento, cultura, habitado por homens e mulheres que liam os livros certos, escutavam os discos certos, sabiam falar dos filmes certos. Odiei o João naquele instante, odiei-o bastante, senti por ele um ódio primitivo, um ódio capaz de um gesto imprevisto. Voltei a sentir ódio igual poucos dias depois, na última noite que passámos juntos. Já na cama, depois de observar atentamente a lombada dos livros pousados na mesa-de-cabeceira, fui para o beijar, para o abraçar e ele, sem uma palavra, afastou o rosto e virou-se para o lado. Na manhã seguinte, recordo-o, levantei-me muito cedo, vesti-me e saí em silêncio. Sentei-me na entrada do prédio a chorar. Sem me tocar, o homem que eu amava fora capaz de me fazer sentir suja, impura, desprezível. Exactamente como me sentia quando o meu marido me possuía sem cuidar da minha vontade. Acho que se, naquela manhã, tivesse um isqueiro à mão, o tal isqueiro para o qual entretanto aprendera ser necessário ter uma licença, antes de sair do apartamento, teria feito uma pilha com os livros de sociologia e, sem hesitação, teria ateado um lindo fogo azul.

2015/10/16

Espelho



No balneário do ginásio, encontro uma rapariga muito parecida com a Régine Chassagne. Por causa da rapariga do balneário, magra, nudez branca, virginal, sem mácula, esta semana, voltei a ler "A Bíblia de Néon", obra escrita por John Kennedy Toole aos dezasseis anos. Voltei também a ouvir os Arcade Fire. Esqueço-me do quanto gosto de os ouvir, esquecida de tudo, presa apenas às palavras. Os Arcade Fire são a única banda que escuto como se estivesse a ler um livro. So can you understand?/Why I want a daughter while I'm still young/I wanna hold her hand/And show her some beauty/Before all this damage is done.

Esferovite

Faltam dez minutos para a aula de natação terminar. No tanque mais pequeno, o Joaquim coloca as pernas sobre o rebordo e, com um impulso, tenta dar uma cambalhota. Mal termina o exercício, procura-me com o olhar. Faço-lhe um leve aceno com a mão, como que a dizer-lhe "Estou aqui, sou a tua mãe e vi a cambalhota que acabaste de fazer". Gaivotas e peixinhos de esferovite, presos por um cordel, pairam sobre a água.  Volto a ler. Procure as razões que o levam a escrever; verifique se elas lançam raízes nas profundezas do seu coração, pergunte e responda a si mesmo se morreria caso o impedissem de escrever. E acima de tudo: pergunte a si mesmo no mais silencioso da noite: tenho de escrever? As cartas que Rilke escreveu a Kappus fazem-me sonhar. Sentada nas bancadas, embalada pelo ronco permanente do sistema de ventilação da piscina, convenço-me de que, com paciência, muito trabalho, um dia escreverei um bom livro. Imagino-me com obra publicada, lida, admirada. Imagino-me finalmente liberta do vazio da vida quotidiana. Essa possibilidade deixa-me de tal forma embriagada de alegria que demoro algum tempo a reparar que Pedro, encostado às grades de protecção da bancada, continua a olhar para mim. Conheço-o do recreio da escola: miúdo feio, de olhos papudos, carapinha sempre despenteada, corpo atarracado a fazer lembrar um texugo furioso. Olha-me de viés, desconfiado. Talvez se tenha apercebido da minha exaltação interior. Sinto vergonha dos meus pensamentos delirantes. Levo a mão ao coração invertido de filigrana que uso sempre ao pescoço. Como um exorcista mostrando a cruz a uma alma possuída, aponto o coração de filigrana a Pedro.

2015/10/15

Quinta da Fonte

Nas encostas da serra, entre o casario clandestino, há quintas abandonadas, cumeadas floridas, oliveiras, figueiras, pinheiros, ribeiros de águas profundas, rebanhos de cabras apascentados por raparigas de cabelo comprido. O bairro, vários blocos de apartamentos pintados de amarelo, surge depois da última curva de Camarate. A primeira visão do bairro, imponente e desoladora, impressiona-me sempre muito.

Mal saio do carro, trémula de excitação, respiro fundo. Dora estende uma toalha de quadrados vermelhos no pequeno jardim da praceta principal. Com cuidado, distribuí por pratinhos de papel o que vai tirando do cesto: empadas de galinha, pastéis de massa tenra, triângulos de pão de forma barrados com pasta de sardinha, fatias húmidas de bolo de laranja. Do cesto de verga, herdado de uma tia holandesa, tira também fruta, uma garrafa com limonada e dois copos de vidro fosco que reserva para essas ocasiões. Olho em redor e rapidamente, muito rapidamente, entro num êxtase inexplicável. Há tanto para ver no bairro! Velhas debruçadas à janela. Estendais vergados pelo peso de colchas e toalhas turcas. Homens, encostados a muros, mudos, quedos, sem nada para dizer uns aos outros. Ciganos de um lado, cabo-verdianos de outro. De vez em quando, a porta do templo adventista abre-se e, aos pares, saem mulheres de bíblias nas mãos. As poucas lojas que existem no bairro têm grades nas janelas e nas portas. Escutam-se constantemente gritos magníficos. De tão absorvida pela vida do bairro sou ingrata para Dora. Mastigo os pastelinhos que, com tanto esmero, ela prepara na véspera sem lhes sentir o sabor.

 “Ana, não estão bons os rissóis que fiz com as sobras do rolo de carne?”, perguntou-me num certo domingo de sol brando. Olhei-a um pouco atrapalhada. A visão dos seus cabelos louros, longos, caídos sobre as costas, naquele instante, fez-me crer na existência de bosques encantados onde as árvores falam aos pássaros e, no lento desabrochar das flores, se apaga todo o terror, toda a dúvida, todo o cansaço do mundo. Puxei-a para perto de mim. Abracei-a. Senti o seu cheiro, a temperatura do seu corpo, os pequenos seios subitamente firmes por baixo da linda blusa azul que lhe ofereci quando fez trinta e oito anos. “És uma mulher extraordinária. Para além de saberes fazer rissóis de carne, gostas do que é belo.”, soprei-lhe ao ouvido. Dora reclinou a cabeça e esperou que a beijasse.

2015/10/06

Duas gemas

Passou a costureira brasileira a caminho da igreja. Parada no semáforo do cruzamento, os sapatos novos a morderem-me os pés, fiquei a vê-la passar. Sexualidade é diferente de genitalidade. Protágoras era sofista. A maiêutica é uma etapa fundamental do método socrático. Ler no tempo certo, não agora que finalmente envelheço e sou bastante tola. Tenho quarenta e três anos. Se vivesse nas margens do Limpopo, onde não se conhece o parto sem dor, seria já avó. Como bolachas de arroz tufado e, se me cruzo com um homem elegante, respiro superficialmente, como um peixe à tona de água, para disfarçar a flacidez abdominal. Às vezes, endoideço e desejo ser amada. Outras vezes, acho que o amor é um sentimento vulgar, que apenas humilha: vive-se melhor sem amor. “Abraça-me com toda a força que tiveres”, pedia ao Reinaldo e ele cumpria o meu desejo. Estrangulava-me. As minhas faces explodiam, violáceas, sentia o peito esmagado, escutava os ossos estalar. “Continua, não pares!”, ordenava. À beira do precipício, prestes a desfalecer, sossegava quando pressentia o vazio definitivo. À noite, enquanto faço o jantar, encontro tesouros extraordinários: ovos com duas gemas, um caracol na alface, gorgulho na lata do arroz, manchas de bolor nos cogumelos. Fico a olhar as gemas sem saber muito bem o que fazer, paralisada por pensamentos absurdos. Tenho uma casa, um carro para passear ao fim-de-semana, um ordenado que paga as contas. Os meus filhos são bonitos e inteligentes. O gato é meiguinho, cheira a pó e sabe escutar. Levo-o para a cama e - exactamente por esta ordem – leio-lhe um poema, uma carta e um conto. Que mais posso querer? Não é bom? Não é tão bom? Não é esta a vida que a lucidez aconselha? Tenho tudo o que sempre desejei e mais ainda. Tenho à minha frente, num aborrecimento que comove, um ovo com duas gemas.