2015/10/01

Três vértebras

Em breve esquecerei o rosto de Santo Estevão e tudo o que li sobre “O enterro do Senhor de Orgaz”. É sempre assim. O último quadro que procurei estudar com alguma profundidade foi “A Ronda da noite”. Fi-lo para perceber o livro da Agustina Bessa-Luís. Que sei ainda sobre essa obra? Sei que foi uma encomenda dos arcabuzeiros de Amesterdão, sei que há quem diga que a estranha criança, vestida de branco, é Saskia (?), a mulher do pintor entretanto falecida, sei que alguém leva um frango à cintura e que isso tem um qualquer significado, sei que o quadro originariamente teve outro nome, não me recordo qual,  sei que lhe chamam “A Ronda da noite” apesar de não representar uma cena nocturna, sei que a tela original, gigante, teve de ser cortada porque não cabia na parede onde os arcabuzeiros a queriam colocar. Sei afinal muitas coisas sobre o extraordinário quadro de Rembrandt. Talvez a minha memória esteja finalmente disciplinada e, aos poucos, comece a reter o que é importante. Tenho pena de esquecer o que leio com interesse e entusiasmo. Alguma coisa fica, claro, quase sempre o pormenor estranho, insólito, que, à primeira vista, me parece irrelevante. Desde as aulas de filosofia, quando li alguns textos de “A Câmara Clara”, que sei que tudo o que vejo, escuto, leio tem um puctum, um pormenor que me atrai e não esqueço. Daqui a uns anos, por muito disciplinada que a minha memória se torne, pouco recordarei do que li ontem sobre o quadro de El Greco, mas lembrar-me-ei quase de certeza das três vértebras da grande odalisca de Ingres (no artigo referiam-se as 36 vértebras da odalisca como exemplo dos truques e artifícios que os pintores usam para atingir determinado efeito). Espanta a odalisca de Ingres, não só pelo olhar distante, sobranceiro, pela nudez muito branca, mas sobretudo pelo comprimento das suas costas. Parecem não ter fim. Ingres pintou uma mulher com três vértebras a mais. É o que se diz. É o que dizem os entendidos em pintura e anatomia. É o que vinha no jornal de ontem no artigo escrito por aquela rapariga que foi colega de curso da minha irmã. As três vértebras são o puctum do artigo que ontem li. É quase meia noite. Não tarda nada, ouvirei os sinos da igreja de Nossa Senhora de Fátima. 

(Não é fácil escrever com um gato que insiste em passear a sua felina elegância por cima do teclado do computador.)

2015/09/25

Uma da manhã

Acordei à uma da manhã para chorar. Despi-me e nua, sentada na cama, chorei. 

2015/09/24

Raiz africana

Enquanto o escuto, enquanto o observo, a perna sempre a tremer, pergunto-me muitas vezes “Mas é este o homem que amo?”. Com desapego, sabendo do amor que lhe tenho, fala-me das namoradas que teve depois de mim: uma que tinha uma podenga que largava pêlo, outra que vivia no Brasil, outra que gostava de fado, outra ainda que se alimentava só de rebentos e lavava os dentes com uma raiz africana. Fala-me dessas mulheres sem maldade, incapaz porém de perceber que, quando o faz, me faz sofrer. Entre o sofrimento e alguma desilusão, sei agora que o João me faz mal. Ao revelar-se destrói o homem que amo.

2015/09/23

Técnica

Marina voltou ao semáforo da Avenida EUA. Parece-me que apurou a técnica. Raramente deixa cair os malabares e atira-os agora com novas variações. Continuo a achá-la bonita. Tudo nela é redondo: os olhos, a boca, o rosto, as formas do corpo. Hoje, trazia uma gargantilha de prata (talvez fosse apenas uma imitação, mas tinha o brilho luminoso da prata) e, nos braços, várias fiadas de pulseiras coloridas.


Lithium

(I'm so ugly, but that's okay, 'cause so are you ...)

Fitzroy Road

Na breve biografia que aparece na contracapa de “Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos”, como é hábito nos seus livros, refere-se que Sylvia Plath, suicidando-se em casa, com gás, teve o cuidado de proteger os filhos (o suicídio, para além de poético, é um bom trunfo, ajuda a vender um autor). Sempre me causou estranheza tal preocupação. Há qualquer coisa que não bate certo. Por que quis Sylvia proteger os filhos se, com a sua morte, causou a maior violência das suas vidas? Uma mulher que pensa na morte, que a deseja, no delírio próprio dos suicidas, nessa embriaguez que embaraça assim que a lucidez volta, se os tem, pensa nos filhos. Sabe que não há nada mais devastador para um filho do que a revelação do desejo de morte da própria mãe. Como sobrevive uma criança a esse abandono? Quase sempre, para o bem e para o mal, a maternidade impõe-se e tolhe a liberdade da mulher. A mulher hesita, recua, culpabiliza-se.

Os filhos salvam e, ao mesmo tempo, condenam a mãe suicida. Por sua vez, a mãe suicida, quando decide ficar, salva e, ao mesmo tempo, condena os seus filhos. Pode passar o resto da vida a ensaiar sorrisos, a fingir alegria e normalidade, pode até tentar transformar-se noutra mulher, libertando-se da angústia, do aborrecimento, do desespero, mas dificilmente conseguirá esconder o desejo de fuga que um dia sentiu. Haverá uma altura em que um olhar, uma frase, uma palavra, até um simples gesto, revelará a dimensão da sua loucura. Viva ou morta, a mãe suicida é o carrasco dos seus filhos. Faz-lhes mal vivendo, faz-lhes mal morrendo. Acho que uma mãe suicida nunca consegue proteger os seus filhos. É por isso que, por mais que reflicta, não consigo perceber a preocupação de Sylvia Plath. Na manhã de 11 de Fevereiro de 1963, vedou completamente o quarto dos filhos com toalhas molhadas, deixou leite e pão doce perto de suas camas, abriu as janelas do quarto. Nevava nessa manhã de Inverno. Fazia muito frio. Quando abriu a janela, Sylvia deve ter olhado por instantes a rua. Talvez tenha sentido o vento no rosto, nos cabelos, na curva do pescoço. Voltou para a cozinha, tomou vários comprimidos e deitou a cabeça sobre uma toalha no interior do forno, com o gás ligado.


2015/09/16

Soletrar

Primeiro dia de chuva. Atravessamos o bairro e, depressa, muito depressa, chegamos à beira-rio. Não se vê ninguém. Até aqueles que correm, detestáveis novos super-heróis, desapareceram. As águas, batidas pelo vento, estão muito agitadas. A neblina, de um branco sujo, limita o horizonte. Naquela zona do parque, quando há sol, vê-se o casario de Sacavém e da Bobadela. Nos dias mais claros, se focarmos o olhar, é mesmo possível ver o recorte do arvoredo na recta do cabo. Hoje, porém, com a chuva, a linha do horizonte diluiu-se, desapareceu. Entre o céu e a terra, entre o céu e a água, não se percebe o que começa ou acaba. A beira-rio, sempre ruidosa e alegre, transformou-se noutra paisagem, adquiriu uma beleza agreste, solitária, misteriosa. Caminhamos pelos relvados e rapidamente os nossos pés ficam molhados. O Joaquim apanha folhas e pedras que mete no bolso do impermeável. De tão feliz,  em vez de andar, o meu filho galopa como um potrozinho.

No passadiço de madeira, no pontão junto da estátua da princesa, um rapaz vigia três canas de pesca. Quando nos vê, como se intuísse o nosso desejo de proximidade, faz um gesto para avançarmos. De uma caixa azul tira um casulo. Do casulo tira uma minhoca. Mais parece uma centopeia, tem a cabeça achatada, patinhas que se movem numa euforia que causa repulsa. O rapaz enfia a minhoca na ponta do anzol, fá-la deslizar pela curva do gancho, explica que tem de ficar assim, bem presa, caso contrário, os peixes serão capazes de a tirar e fugir em liberdade. O rapaz continua a falar com o Joaquim. Explica-lhe o seu ofício. Inclina-se agora sobre a protecção de metal e puxa um cesto de rede. Mostra a pescaria do dia. Dentro do cesto há dois peixes muito diferentes. Ainda estão vivos. O maior, esverdeado, assemelha-se a um tamboril. É feio: olhos esbugalhados, a pele lisa, barbatanas curtas, a cabeça enorme, desproporcionada em relação ao resto do corpo. “É um xarroco não é?” pergunto. O rapaz olha-me com espanto. Não conhece as minhas idiossincrasias: tivesse eu tempo e cabeça e aprenderia o nome de todas as árvores, de todas as flores, de todos os monstros que habitam as águas escuras e profundas do rio. 

O outro peixe mexe-se no fundo do cesto. É bonito. O fole das guelras, de um vermelho escuro, muito intenso, faz-me lembrar as dálias que na minha infância cresciam no canteiro da vizinha Idalina. É um peixe magnífico, um peixe de luz. O seu corpo, coberto de escamas prateadas, luminosas, quase brancas, saltita, estremece com brandura. O rapaz tira-o do cesto e, com cuidado, coloca-o nas mãos do Joaquim. “Sabes como se chama? Tem um nome engraçado. Chama-se rabeta…” O rapaz ri. Enquanto aconchega a gola do casaco ao pescoço explica que uma rabeta é uma corvina pequena. O Joaquim continua a pegar  no peixe prateado, mas, de súbito,  os seus olhos ficam inquietos. A palpitação que sente nas mãos é, simultaneamente, um sinal de vida e de morte. Talvez o meu filho pressinta isso mesmo e por isso se apresse a colocar o peixe no cesto. Começa a trovejar. Caem pingos grossos, pesados, redondos. Despedimo-nos do rapaz. Aceleramos a passada. O vento, cada vez mais forte, vira o guarda-chuva do Joaquim que, assustado, o larga. Corremos para o apanhar.  Voltamos a rir.

(À noite, quando lhe aconcheguei a roupa, falei-lhe ao ouvido: nunca te esqueças do passeio de hoje, do primeiro dia de chuva, do peixe nas tuas mãos, do sorriso do pescador, das palavras novas que aprendeste a soletrar.)

2015/09/12

Estendal

2015/09/11

Cheiro

Há dois meses que eu e o meu pai pouco ou nada falamos. No domingo, porém, por causa do aniversário do João, há almoço de família. É a primeira vez que nos voltamos a sentar todos à volta de uma mesa. Vou fazer feijoada. É barato, saboroso e dá pouco trabalho a fazer. Os miúdos mais pequenos vão odiar a minha escolha. Ralharão comigo, farão caretas engraçadas quando lhes disser o que é a comida. O Roberto e a Lurdes vão trazer o vinho, a Susana as sobremesas. Espero que nesse dia a minha mãe não trema muito das mãos, que espante ou pelo menos finja espantar os seus próprios demónios, que os seus olhos se alegrem com as brincadeiras dos netos. Avisei a tia Dé que não se esquecesse de trazer uma travessa de peixinhos da horta e também os livros da Elena Ferrante que lhe emprestei. Ninguém faz rissóis e peixinhos da horta como a tia Dé. Acabado o almoço, na altura do café, depois de os miúdos fugirem para o pátio, colocarei um cd do Charles Aznavour. Quando se começar a escutar o “ Il faut savoir”, o Manuel Ricardo fechará os olhos, cantará baixinho a canção e lembrar-se-á da sua mãe. Sentirei então uma felicidade muito pura e autêntica por a minha irmã ter encontrado um homem assim.

O meu pai deixou de me falar por causa de um texto que aqui escrevi: um texto duro, talvez desnecessariamente duro, mas no fundo apenas um texto escrito por uma filha que, por sentir nunca ter sido amada pelo pai, deseja sê-lo. Não deixa de ser estranho que um homem de oitenta anos, bastante conservador, não se sinta incomodado quando a filha escreve sobre bebedeiras solitárias, pornografia, masturbação, orgasmos, fodas em quartos de hotel e se ofenda quando essa mesma filha decide escrever sobre o amor (ou sobre a sua ausência). No domingo, quando o meu pai chegar, rosto fechado, o desprezo habitual tão evidente no olhar, cumprimentá-lo-ei como sempre faço. Beijá-lo-ei no rosto e farei uma festa nos seus cabelos crespos e ondulados. Nesse instante, quando os nossos corpos se aproximarem, aproveitarei para sentir o seu cheiro.

2015/09/10

Roseira da China

Para além da foxcrime, vejo agora o tlc. Passo horas a ver programas sobre anões, meninas com tiaras sobre lindos canudos de cabelo loiro, noivas ciganas, homens virgens de pintelhos já brancos, mulheres hediondamente obesas mas que, ainda assim, monstruosas, são amadas. Ontem, já tarde, vi um programa sobre uma mulher que injectou proteína de vaca nas mamas. Magra, velha, cheia de peles bambas, a mulher carrega duas exaltantes mamas do tamanho de melões pelas ruas feias de Los Angeles. Não leio e não escrevo. Passo os olhos pelo jornal, logo de manhã, sem interesse. Não tenho opinião sobre nada. A fotografia do menino afogado não me comoveu e o ruído sobre as eleições irrita-me, mas pouco. Na semana passada, depois de outra noite de fuga no estendal, desmarquei a consulta com o psiquiatra. Esta semana ainda não fugi para o estendal, mas voltei a desmarcar a consulta. Telefonei à Ana Paula, a amável recepcionista do consultório, pigarreei, e, num tom falso, numa voz que não era a minha, desculpei-me com os filhos. Sinto-me ausente, desligada de tudo e de todos, de mim própria, da minha vida. Já não sonho sequer. Sou uma assombração, uma sombra, um borrão de tinta, sou a raiva impotente, uma porta fechada, a gargalhada louca, o silêncio, o esplendor da mais triste miséria. Pudesse ser outra coisa qualquer e escolheria apenas ser os versos do poema: Vem subir a álea do jardim, Luriana Lurilee. A roseira da China floresce, uma abelha zumbe ali.

2015/09/01

Lush life

2015/08/06

Lagarto preto

Focada na cintilação do ecrã e nos papéis espalhados pela secretária, nem uma vez levantei os olhos para espreitar o azul na janela do gabinete. Reli o parecer, pareceu-me  bem escrito, juridicamente fundamentado. Ao fim do dia, quando atravessei a 5 de Outubro, a caminho do cinema, senti-me tranquila. Dá-me prazer cumprir os meus deveres: fazer bem o meu trabalho, pagar as contas no início do mês. Parei na livraria. Comprei vários livros do Petzi. Para o Joaquim e para os meus sobrinhos mais pequenos. Vão abraçar-me e, felizes, dizer “Obrigado, tia Ana!” quando no sábado lhos oferecer. Amorzinhos do meu coração. O livreiro, coisa estranha, não conhecia “ Os três mal-amados”. Ficou de o tentar arranjar. O Carlos é o melhor livreiro de Lisboa e continua a roer as unhas. Quando cheguei ao cinema tive um desgosto. O filme com a Juliette Binoche já não está em exibição. Contrariada, bufando, acabei por ir ver um filme espanhol bastante mau. É uma merda, mas descobri uma canção tão bonita. La ninã de fuego. Que maravilha! A determinada altura, quando Bárbara entra na porta do lagarto preto, para o sacrifício, também se escuta uma das Gnossiennes de Satie, acho que a primeira. Lembrei-me de Nosferatu, da sua sombra assustadora projectada numa parede e de como nunca me meteu medo. Voltei a atravessar a 5 de Outubro para ir buscar o carro. A meio da avenida, perto de uma porta de ferro forjado, muito linda, toda aos arabescos, cruzei-me com um homem e uma menina que levava preso por um cordelinho um balão azul. De súbito, olhando-os, deu-me vontade de chorar. Chorei. Quando entrei no edifício da Caixa, o segurança reparou nos meus olhos cansados, velhos, cada vez mais pequenos, borrados de rímel, mas não disse nada. Voltei para casa em silêncio, na cabeça, um torvelinho de pensamentos sombrios. Aqueci o feijão guisado que sobrou do jantar de ontem. Fumei dois cigarros. Bebi dois copos de vinho. Tomei banho. Ainda pensei em ligar ao Ricardo para falar um pouco, não estou habituada a estar sozinha à noite, mas não fui capaz. Telefonei aos meus filhos. 

2015/08/04

Lâmpada

Esta noite, nunca tinha acontecido, acordei para escrever uma frase. Não propriamente uma frase, mas a sua estrutura, a sua forma. Uma frase composta, interminável, com sentido, sem sentido, morfologicamente pobre, despida do seu corpo, adjectivos, substantivos, mas com as vírgulas exactas, as pausas exactas, a cadência certa. Uma frase para ser lida em voz alta. De manhã, quando acordei (de um pulo porque, por causa do vinho e dos comprimidos, não escutei o despertador), fui lê-la. Pareceu-me ultrapassada, antiquada, aborrecida, sobretudo pretensiosa. Já não se escreve assim. Hoje em dia, a forma pouco interessa. Diz-se muito, mas tão pobremente, tão desconsoladamente, faz-se uma literatura que não cuida da elegância e da beleza. Por exemplo, há palavras que, de tão feias, nunca utilizarei. Javardo. Esgalhado. Reverberação. Prefiro ter pouco ou nada a dizer, mas fazê-lo de forma a embalar quem me lê. A música de um texto é importante. A frase que escrevi era sobre um nariz. Encontrei também, junto do caderno, a lâmpada do candeeiro da mesinha de cabeceira. Não me lembro de a ter tirado.  

2015/08/03

Noite



(1:37:30)

2015/07/30

Passinho de dança

Jogamos futebol na cozinha enquanto ouvimos o Frank Sinatra. Baliza a baliza. O combinado é, antes de cada remate, cada um ensaiar um passinho de dança. O Joaquim joga bem à bola e é um excelente dançarino. Fica o menino contente e eu também. Nos intervalos dos remates, danço agarrada ao meu filho, sinto-me feliz, e lembro o homem que amo. É um homem bonito. Parece que é feliz com uma mulher dez anos mais nova do que eu. Falava-me dos Cantos de Maldoror, de Lautréamont e eu, tola, deslumbrada, amava-o mais e mais e mais. Antes de o conhecer não gostava do Frank Sinatra e agora gosto. O João nunca me amou e, no entanto, estupidamente, sinto que me deu tudo, que nenhum outro homem me poderá dar o que ele me deu. Puta que o pariu. 

2015/07/23

Caminho da manhã

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto, 1962

2015/07/22

Santa Luzia

Viana do Castelo vista de Santa Luzia, elefantes do circo banhando-se no rio Lima, as nossas sombras na álea de plátanos, gente melancolicamente louca, Sherlock Holmes e a mulher bonita, canteiros de begónias e petúnias, o prato de cavalas grelhadas na casa de pasto, raparigas espanholas fotografando-se junto do dinossauro de bucho na Calle Urzaiz. A muleta do gerúndio. Estar longe, sozinha com os meus filhos, fez-me sentir diferente. Aos poucos, quase sem dar por isso, espantei o vício de me banquetear com a minha própria dor. Partimos sem planos. E correu tudo bem. Senti-me invencível. Ouvimos o Benjamim Clementine, os Arcade Fire e comemos arandos secos. Tomámos banho na foz do rio Minho. Jogámos ao olho do cu, espojados na relva de um jardim. O Tiago expulsou o João Pedro e, durante duas noites, habitou os meus sonhos. Dormi sem acordar para fumar ou comer. Regressámos saciados, entontecidos de tanto amor, felizes por nos termos uns aos outros.

Na volta, a Graça e o Jorge, um romeno de dentes de ouro, tinham pintado a casa. O apartamento pareceu-me outro, luminoso, maior, limpo. A viagem pelo Minho fez-me largar a Teresa Veiga e voltar à Agustina. Ontem, enquanto a Madalena e o Joaquim viam a telenovela (o mais velho andava a monte), deitei-me com o Pedro Lumiares e a Semblano. Ema, muito linda e tola, debruçou-se na varanda do Romesal e deixou cair uma flor. Carlos adormeceu no baile das Jacas, as meias com baguete, de elásticos laços, descaíram, deixando-lhe à mostra os pêlos das pernas. Triste figura, a de um corno. Sublinhei palavras. Himeneu. Gineceu. Hissope. Palavras estranhamente belas. Diverti-me com as conhecidas contradições da narrativa agustiniana. Afinal, Ema é frígida ou sente prazer? Ou é uma frígida que busca o prazer? E Tomásia de Fafel é muito feia ou apenas moderadamente feia? Perguntas sem respostas. Nada disso interessa. Adormeci com a certeza de que desperdiço tempo que não tenho. Ver séries na foxcrime é bom, mas ler é decididamente o melhor remédio para me sentir viva.

Arcade Fire

2015/07/01

Dá-me

dá-me algo mais que silêncio ou doçura
algo que tenhas e não saibas
não quero dádivas raras
dá-me uma pedra

não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz

dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
e se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!

Carlos Edmundo de Ory


2015/06/30

À fresquinha

Fui à pastelaria comprar um palmier coberto. Sentei-me cá fora, no muro do hotel Barcelona, à fresquinha, a comê-lo. O grande leopardo vermelho do reclamo luminoso olhou-me com os seus olhos coruscantes. Passaram pessoas à minha frente. Passaram também táxis, camionetas, autopullmans cheios de turistas. Passou o cão coxo e passou o poeta. Ao vê-los passar, nem sei bem por quê, tentei recordar o poema preferido do João. Não consegui. Só sei que fala de amor, de uma pedra e de uma faca. A minha vida começa a ser apenas esquecimento. Penso nisso, no esquecimento, assusto-me e não sossego. Tentei então recordar o grito abafado do João quando certa vez lhe fiz uma mamada na casa de banho da Biblioteca Nacional. A minha memória não é sensível à poesia, nem ao amor, mas é perita em guardar o que é sórdido, vulgar, ordinário. Foi um esforço em vão. Deu-me vontade de chorar. Desfiz-me em lágrimas, ali no muro do hotel Barcelona, sentada à fresquinha enquanto comia um palmier coberto. Chorei durante muito tempo. As lágrimas escorreram e formaram um grande lago no cruzamento da Avenida de Berna com a  5 de Outubro. Felizmente, o grande leopardo vermelho, aturdido com o meu choro, saltou do reclamo luminoso. Lambeu docemente a minha cara e, depois de lançar um extraordinário rugido, engoliu-me. É um bicho bondoso.

2015/06/22

Mãos

Todas as segundas-feiras, à hora do almoço, na quietude do gabinete, quando apenas se escuta o ronco do ar-condicionado e, ao longe, por vezes, os passos pesados da Rosalina, pego na tesoura do papel e corto as unhas bem curtas. Recolho as que caem na mesa e meto-as no caixote do lixo. Fico depois a admirar as minhas mãos de dedos curtos, grossos, unhas de menina, limpas, com pequenas manchas brancas, sem saber o que fazer a seguir. Às vezes, tiro um livro da mala e leio. Outras vezes, como hoje, fico simplesmente paralisada, a olhar o azul do céu. Gosto muito das minhas mãos. Com mãos tudo se faz e se desfaz. 

Azul



(o amor é uma merda.)

2015/06/20

Líbido

Na altura, a revelação da verdadeira razão da vinda para Portugal da Maria de Lurdes caiu como uma bomba e cobriu de vergonha a minha família goesa. Passados alguns anos, a história está quase esquecida, ninguém fala do assunto. “Acabou por ter sorte, casou com um veterinário de Benaulim, tem um filho e uma filha, muito bonitos, quase brancos, mas continua completamente louca…”, explica o meu pai e, quando pronuncia a palavra “louca”, faz uma cara de nojo que acentua a sua fealdade. “Louca?”, pergunto-lhe, divertida com a conversa. O meu pai parece hesitar, olha fixamente Parvati, a segunda consorte de Shiva, enquanto calça os ténis que comprámos há dois anos em Nova Deli. “É tarada. Só pensa em sexo”, acaba por responder e explica os contornos da vergonhosa líbido da sobrinha. Dotada de um desejo insaciável, uma fogosidade intensa, parece que a minha prima não dá descanso ao marido. O veterinário, de tanto lhe acudir, sente-se esgotado, tão esgotado que até já pediu ajuda ao Marlindo. O Marlindo, também meu primo, psiquiatra numa plataforma no mar do Dubai, receitou-lhe uns comprimidos e, beato, baboso, devoto, mandou-o rezar o terço logo de manhã. Nada fez efeito. “O marido da Maria de Lurdes nem parece o mesmo. Encontrei-o na festa da tia Maria e, de tão chupado, está irreconhecível.”, remata o meu pai e, sem mais, sai para a sua caminhada. Corro atrás dele, custa-me acompanhar a sua acelerada passada. O meu pai é um velho mau e formidável. Ao lado dele, sou feliz; miserável, mas feliz. Caminho e, na noite que cai, sinto-me afortunada pela família que tenho. Há de tudo: ninfomaníacas, deprimidos, maníaco-depressivos, mitómanos e até um primo esquizofrénico. Assim é que é bom. Detestaria ter uma família onde só houvesse gente estupidamente sã, insuportavelmente feliz. 

Benjamin Clementine




2015/06/18

Jói de laranja

O psiquiatra diz que devo contrariar a solidão. Aconselha-me a estar com outras pessoas, conhecer outras pessoas, falar com outras pessoas. Inscrevi-me por isso num clube de leitura. É organizado por uma associação recreativa que funciona num palacete em Xabregas. Servem bolinhos secos de pacote, jói de laranja e chá preto. No primeiro encontro, foi hoje, falei com uma rapariga ruiva e uma outra, de caracóis largos, que se atrapalhou a dizer o nome de um dos livros do Italo Calvino. A ruiva cheira a suor, tem os dedos dos pés gordos e enclavinhados,  mas é simpática, ri-se bastante. A dos caracóis nem por isso, parece uma monja, tem um ar pesado, circunspecto, próprio de quem considera a literatura um assunto sério, intocável, essencial. “Nunca deixo um livro a meio”, disse com voz enfadonha quando lhe expliquei que cada vez tenho mais dificuldade em acabar uma história. Até dia 4 de Julho tenho de ler “O Baile”, da Irene Nemirovsky. Li-o há coisa de um ano, sei que gostei de o ler, e, no entanto, não me lembro da história, nem sequer de uma personagem, de uma frase ou de uma palavra. Pergunto-me: leio para quê?

2015/06/17

Mother's Little Helper



(O meu pequeno comprimido amarelo.)

Sainete

No Festival Literário da Gardunha, conheci o João Ricardo Pedro que, ao almoço, enquanto comíamos, desconsolados, um bacalhau desfeito numa cama de puré, explicou ter a certeza de que na vida apenas escreverá três ou quatro romances. Lembrei-me do Albert Cossery, escritor egípcio que fez a apologia da preguiça e do ócio. Cossery viveu até aos 90 anos e deixou apenas oito romances escritos. Foi um escritor de uma qualidade singular, raríssima, original. Se fazia a apologia da preguiça e do ócio não era por ser madraço, ou desprendido, mas por ver nestas atitudes o veículo essencial para uma actividade interior intensa de reflexão sobre a vida e o mundo. Numa das suas entrevistas, estranhava aqueles escritores que escrevem cinco páginas por dia. Referindo-se a esses escribas, explicou: “Não escrevem, apenas redigem um texto qualquer. Eu escrevo uma frase. Simplesmente, reviro-a vinte vezes para conseguir dizer alguma coisa.”  Às vezes, passeando pelas livrarias, folheando este e aquele livro, fico com a sensação de que são poucos os autores que reflectem sobre aquilo que escrevem e amadurecem as suas obras. Têm competência narrativa e pouco mais. Talvez muitos desses escritores sejam pressionados pelas suas editoras para publicar, não sei, talvez outros tantos procurem na escrita um certo prestígio social. Ser escritor dá muito sainete. Se me perguntarem o que sou e eu disser que sou bancária, ninguém me ligará, mas se disser que sou escritora, todos arremelgarão os olhos de admiração, pouco ou nada importando se o meu trabalho é bom ou mau. Acontece que os leitores, os verdadeiros leitores, não são tolos, são exigentes e inteligentes. Percebem quando um livro é um grande embuste. O que mais para aí há são livros que são grandes embustes. Quando falo de embustes não me refiro a esses livros que enchem as montras e os escaparates das livrarias. Esses, sendo o que são, pelo menos são autênticos, não aspiram à qualidade que a literatura, a verdadeira literatura reclama. Falo de um outro tipo de escrita, que se demarca dessa primeira, que goza até essa outra, a tal que é ligeira, light, mas que, bem vistas as coisas, muitas vezes, tantas vezes, não é muito diferente. Poderia enunciar uma mão cheia de autores, premiados, lidos, consagrados que melhor fariam em estrangular a voz e manter-se calados. E se não digo nomes é apenas por cobardia. Ser cobarde faz parte da minha natureza. Ao ouvir o João Ricardo Pedro dizer que apenas escreverá três ou quatro romances senti-me envergonhada por, cedendo à minha própria vaidade, miserável vaidadezinha, ter publicado uma colectânea de textos de um blogue, mais ainda por ter ficado magoada com a apreciação que a Lúcia fez do romance que escrevi.

2015/06/16

Feijão-frade

Faltam-me os dois últimos molares da arcada superior. Apodreceram há alguns anos e tive de os arrancar. A sua falta, não me desfeando o sorriso, dificulta a mastigação de certos alimentos. Para além de me faltarem esses dois dentes, aos quarenta e três anos, já tenho um implante e uma coroa. Hoje, à hora do almoço, enquanto chupava uma casca de feijão frade dos dentes, fui novamente assaltada pelo medo de ficar desdentada. É um medo relativamente recente. A Virginia Woolf aos trinta e poucos anos arrancou três dentes de uma assentada. Esse facto, chegado ao meu conhecimento através da leitura do seu diário, impressionou-me muito. Até então, sempre que a convocava aparecia-me pela frente uma rapariga vestida de branco, sorriso quase imperceptível, olhos plácidos, caídos para o chão, o cabelo escuro apanhado sem preocupação. É assim que Virginia aparece  na sua fotografia mais famosa. Já não consigo imaginá-la assim, etérea, ausente, como um espectro. Se penso nela, e penso muitas vezes, vejo apenas um corpo doente, apodrecido. Uma mulher velha, enlouquecendo devagar, cada vez mais triste, cada vez mais feia.

2015/06/15

Lava

A Madalena está no treino, os rapazes estão no pátio a jogar à bola com o miúdo que se mudou para o apartamento do lado. Deambulo pelos quartos, pela sala. Tudo nesta casa está velho, gasto, há azulejos partidos, tacos levantados, as paredes estão sujas, precisam de pintura nova. Gostava de mudar de casa, de começar noutro sítio qualquer, mas não tenho nem dinheiro nem energia. Pego no livro que ando a ler. Memento Mori, da Muriel Spark. Não estou a gostar muito. Sinto uma picada por baixo do braço. Apareceu-me a menstruação esta manhã. Dói-me, como sempre, a mama esquerda. Volto à cozinha, espreito o bolo de banana que prometi fazer ao Joaquim. Leva bicarbonato de sódio em vez de fermento. Talvez por isso esteja tão bonito, a forma cheia. O dia termina, lá fora já quase não há luz. É a hora da solidão e do silêncio. A hora da metamorfose. Passo a ser nada, apenas o vazio. Gostava de me transcender pela escrita. Ser mais qualquer coisa através da escrita. Na semana passada, enquanto corria, surgiu-me uma ideia para um livro. É uma ideia boa, cheia de força, mas tenho medo de me sentar em frente do computador e de começar a escrever. O Deniz disse-me um destes dias que a sua amiga T. pontua melhor do que eu. Fiquei a pensar no assunto. Pontuar bem um texto é muito importante. Já não há quem pontue bem um texto. Quem escreva uma frase com absoluta correcção. Sinto-me triste, sozinha, a solidão pesa-me, estranhamente, porém, não quero estar com ninguém. Quero apenas abrir uma garrafa de vinho e beber dois ou três copos. Bebo demais. O vinho dá-me paz, adormece-me. Tenho comichão na mão. Acho que estou novamente com escabiose. 

2015/06/09

2015/06/08

Areal

Quando o negro das pulseiras passa no areal, serpenteando entre guarda-sóis, à procura de freguesas que queiram uma fitinha da nossa senhora do Bonfim, deixa no ar um cheiro intenso a suor. A rapariga de cabelo oxigenado, o biquíni branco, muito cavado, enfiado no rego do rabo, faz uma careta de nojo e, com exagero, abana a mão em frente do rosto. O namorado, musculado e tatuado, ri numa hilaridade forçada, tão boçal, que a argolinha que traz presa no mamilo esquerdo se solta e cai na areia da praia. Que aflição! Agora a rapariga do cabelo oxigenado anda ali, de rabo para o ar, à procura da argolinha de ouro. O namorado merece o esforço, não cheira a catinga, isso não, cheira a patchouli, a madeiras de sândalo, é tão bonito e um dia, se Deus quiser, há-de ter um Audi descapotável. A loira dá um grito estridente. Encontrou finalmente o pequeno tesouro. O namorado puxa-a para si e beija-a à vista de todos. Voltam a rir. Riem durante muito tempo, esquecidos do negro que passou no areal e deixou no ar um cheiro intenso a suor.

2015/06/04

Bravura

Na aldeia, para além do Luís, não há quem lá queira trabalhar. Os homens preferem ir gerindo os cursos de formação profissional e os subsídios de desemprego. As mulheres fazem sopas de tomate com peixe frito para o almoço e educam os filhos nos intervalos dos programas de televisão. Só os búlgaros e romenos aceitam trabalhar nas malhadas. Não são de dar confiança a ninguém, pouco sorriem, não frequentam o café da associação de moradores, mas a Mena diz que são bons trabalhadores. Trabalhar nas malhadas é duro: alimentar centenas de animais, medicá-los, pesá-los, manter as boxes limpas, suportar as mordeduras das parideiras, não temer os varrascos, enormes porcos de pêlo escuro e dentes afiados, que, parecendo pré-históricos, se destinam unicamente à cobrição. 

Por isso, quando o meu filho João, há quatro anos, me perguntou se podia trabalhar nas malhadas, expliquei-lhe que apreciava a sua iniciativa, mas que aquilo era trabalho para homens feitos, não para rapazinhos de doze anos. Perante a sua insistência, acabei por falar com a Mena. “Deixa-o vir. Só lhe faz bem. Arranjo qualquer coisa para ele fazer e no fim dou-lhe uma nota!”, disse a minha prima, sempre sorridente, sempre bonita. Nessas férias, durante duas semanas, o meu filho mais velho trabalhou nas malhadas. Disciplinado, levantava-se às seis da manhã, vestia o fato-macaco, tomava o pequeno-almoço sozinho. Às seis e meia já estava à porta da casa da Mena para irem buscar os búlgaros e os romenos às Minas do Lousal. Trabalhava só até ao meio-dia. Nunca percebi ao certo o que lá fazia, só sei que, à hora do calor, quando regressava a casa, subia a única rua da aldeia com ar satisfeito. Sujo, tisnado, largando um cheiro fétido a merda de porco, mas satisfeito. As vizinhas mais velhas, a Antónia, a Teresa e a Preciosa dos queijos, vendo-o passar, metiam-se com ele. O calor a pesar-lhe no corpo e ele, gentil, parava a conversar com as velhotas. As velhacas das velhas riam-se, gozavam um pouco o prato. “Ai João, ai mocinho, deixa lá os porcos, vai mas é para a praia com a mãe e os manos.”, diziam, incapazes de perceber por que razão um rapaz da cidade havia de querer experimentar um trabalho sujo, indigno, um trabalho que ninguém na aldeia se rebaixava a aceitar.

Nesses quinze dias, por volta do meio-dia, o João subiu sempre a rua muito devagar, parando a conversar com as velhas da aldeia. No último dia de trabalho, porém, ao contrário do que era habitual, subiu a rua numa passada acelerada. Vinha com pressa, com muita pressa, não parou para falar à vizinha Antónia nem apanhou uma flor para me trazer. Abrasava e, da varanda, enquanto o esperava, conseguia ver as ondas de calor. Pensei que viesse com vontade de ir à casa de banho, mas, quando chegou perto de mim, não trazia o ar aflito com que fica sempre que precisa de aliviar as tripas. Trazia, bem pelo contrário, um grande sorriso nos lábios. “Mãe, tenho uma coisa para te contar!” explicou e, sujo, o fato-macaco duro das lamas da pecuária, começou a falar aos atropelos. Antes que pudesse continuar, dei-lhe um grito, mandei-o tirar a roupa e tomar um banho. Já à mesa, enquanto lhe servia o almoço, contou por fim a sua história. Pela manhã, um dos búlgaros, o Yuri,  dera com uma cria doente. Magoara-se na grade da box e tinha uma pata partida. A Mena viera com a engenheira Sónia ver o bicho. Chegaram à conclusão de que não havia nada a fazer. Era preciso matar a cria e deitá-la ao lixo. O Yuri pegara imediatamente numa pá para realizar a tarefa. Foi então que ele, o meu filho, lhe arrancara a pá das mãos e reclamara para si a tarefa. “Quis ser eu a matá-lo, mãe! Bati-lhe com força quatro vezes e morreu num instantinho!”, contou sentindo um estranho orgulho que me assustou, me meteu até nojo. No final, o búlgaro deu-lhe uma palmadinha nas costas e disse “ Ah, João, foste valente!”. 

Nesse verão, entre primos e tios, avós, amigos, a façanha do João foi muito comentada por ser um exemplo de coragem e viril bravura adequadas ao seu género. Passaram quatro anos. O meu filho nunca mais voltou a falar da sua glória de infância. Espero que a tenha esquecido. Já eu não a esqueço. Às vezes, quando menos espero, surgem à minha frente as imagens que construí a partir do relato que me fez naquela tarde. De tão vivo e entusiasta, consigo pairar, como um pequeno pássaro, nas traves dos barracões das malhadas. Vejo tudo. O meu filho, ainda criança, matando à pazada um pequeno leitão. O seu rosto, redondo e bonito, torcido de fúria. A pequena cria caída na berma escura do esgoto. O búlgaro Yuri acicatando o João como se fosse um cão de fila. A Mena e a engenheira Sónia, sorridentes, batendo palmas.

David Bowie



(Corridas nocturnas; é bom cansar o corpo.)

2015/06/03

Kamikaze

O problema, como lhes costumo dizer, é deles, não meu. Não tenho compromissos, sou livre como uma borboletinha. Não traio ninguém. Três homens casados, mas muito diferentes. Conheço o Alexandre há dez anos, encontramo-nos em quartos de hotel quando nos apetece. Os nossos corpos conhecem-se de outras vidas, encaixamos perfeitamente, tocamo-nos como bichos, sem filtros, sem inibições. Ele sabe o que me dá prazer. Sei o que lhe dá prazer. Gosta, por exemplo, que lhe lamba os testículos. Nunca me fala da mulher ou dos filhos. A última vez que estivemos juntos explicou-me o que era uma didascália e, depois de me beijar as mamas, disse que eu era uma mulher-kamikaze. É o amante perfeito. Não trocamos mensagens, não falamos ao telefone, não nos encontramos para almoçar. O segundo amante, recente, novato, é muito diferente. Encontrei-o por acaso na fila do pão. Bonito e escultural, mas um pouco parvo. Empolga-se, diz que os meus olhos castanhos são lindos e que a minha boca tem a cor das framboesas maduras. Que tédio, que miserável tédio! Chama-se Miguel e acho que o vou deixar. Fala-me de amor, um amor aborrecido e previsível, mas depois, pobre coitado, partilha comigo histórias sobre a mulher e as duas filhas. Na semana passada, depois de me oferecer um livrinho de merda que naturalmente não lerei, disse que a mulher, empregada bancária, é a rocha que sustenta a sua vida. Não vou para a cama com um homem para o ouvir falar da sua mulher. O terceiro homem casado com quem me deito é o homem que amo. Um homem inteligente, bonito, o mais bonito do mundo, não há homem igual, mas pelo qual não tenho qualquer tipo de entusiasmo sexual. Deito-me com esse homem quando ele quer, sou dissimulada, detestável, finjo orgasmos, simplesmente porque preciso de senti-lo perto de mim.

2015/05/30

Seis andares (1)

Depois do último internamento, há cerca de seis meses, passei a sofrer de insónia. Demoro muito tempo a adormecer. Acordo várias vezes durante a noite e fico às voltas na cama, à espera que o sono volte. Sonho recorrentemente com a enfermaria onde estive internada. É um sonho estranho. As chapas do telhado, enferrujadas, têm buracos por onde entram pássaros e outros bichos. Os degraus da entrada, de madeira apodrecida, estão cobertos de urtigas. As paredes, manchadas de tinta azul escura, parecem esboroar-se em caliça. Nas janelas há grades de ferro. O soalho é pardacento e áspero. As camas da enfermaria estão pregadas ao chão e, nos lençóis, manchados de urina, passeiam-se lindos percevejos verdes. Na verdade, a enfermaria com que sonho é muito diferente daquela em que estive internada, limpa e arejada, mas, não sei por quê identifico aquele lugar com a enfermaria da Clínica de São Lázaro. Desperto cansada, como se tivesse caminhado durante muito tempo, o corpo transpirado e moído, a cabeça a latejar, a boca seca, a língua encortiçada. Já experimentei comprimidos, mezinhas, chás para dormir. Já fiz tratamentos alternativos. Nada resulta. 
Há algumas semanas, Eduardo convidou-me para ir lanchar a uma pastelaria antiga, com paredes de espelho e mesas cobertas de toalhas de pano. Queria saber de mim, como me sentia, se estava melhor. Enquanto comia um lindo duchesse coberto de frutas, confessei-lhe que estava melhor, muito melhor, não alucinava há muito tempo, mas não conseguia dormir. Expliquei-lhe que não aguentava continuar assim, sentia um cansaço extremo, o meu desespero era de tal ordem que ponderava mesmo consultar um bruxo, um exorcista, enfim alguém que, dotado de dons místicos, me ajudasse a dormir uma noite sossegada. Eduardo, o meu amigo, também é doente dos nervos. Não é esquizofrénico como eu, nunca esteve internado, mas sofre de fobia social e ocasionalmente tem ataques de ansiedade. Escutou as minhas queixas e, com gargalhadas ruidosas, riu-se do meu desespero. Depois contou que, apesar dos picos de ansiedade, não tinha qualquer problema em adormecer.
- Deitas-te e o sono chega? – perguntei-lhe com despeito. 
Não era bem assim. Tinha um truque para adormecer. Arregalei-lhe os olhos, quis imediatamente saber que truque era aquele, talvez funcionasse também para mim. Eduardo não tardou em revelar-mo. Todas as noites recordava um sonho que tivera. Não era um sonho alucinatório ou enigmático, desses que estimulam o pensamento e nos fazem procurar respostas para a vida. Tratava-se apenas de um lugar, um lugar tranquilo, que lhe trazia paz. Bastava fechar os olhos, imaginar-se nesse lugar e era imediatamente inundado por uma sensação de bem-estar. Pouco depois adormecia completamente relaxado e dormia a noite inteira. Quis saber como era o tal lugar. O meu amigo hesitou durante alguns segundos, depois, levando a sua enorme mão às barbas grisalhas, falou calmamente:
- Estou debruçado no muro do terraço do meu prédio. Lá em baixo, em vez da confusão habitual das ruas, abre-se um oceano de águas azul-turquesa, onde o sol embate com tal intensidade que me fere um pouco os olhos; no meio do mar, um mar brando, claro e fresco, há uma ilha muito bela. Nas encostas da ilha, vislumbram-se veredas solitárias que serpenteiam entre pomares e jardins perfumados. Nos recantos da costa, as praias são de areia dourada e fina. São praias pequenas e desertas, nas águas transparentes notam-se as sombras velozes dos cardumes de peixes. Quero ir para aquela ilha, para aquele mar, mas para lá chegar, não te sei explicar por que razão, tenho de atravessar uma estufa degradada, um pouco suja e com vidros partidos. Na estufa, há um banco de pedra antiga, polvilhada de musgo negro e muito seco. É nesse banco que me costumo sentar antes de adormecer, fixando o horizonte onde parece terminar o mar, olhando a pequena ilha, entorpecido por memórias quentes e indefinidas.

2015/05/26

Fausto

2015/05/25

Dois dedos de testa

Não quero ruído, nem gargalhadas, nem conversas lúbricas, nem convites para jantar em restaurantes onde se servem carnes maduras. Não quero amar e não quero ser amada. Isso não. Quero apenas a vulgaridade, mas a vulgaridade silenciosa, invisível, a que jamais se confessa, a vulgaridade das casas de banho-públicas, dos quartos de hotel e dos carros parados à beira-rio. E, como no poema, não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.


2015/05/17

Cristina Branco



(dei-me a outros braços, mas nada que preste.)

2015/05/15

Arcas

É um cheiro bafiento, velho, de naftalina e humidade, parecido com aquele que se sente quando se abrem as arcas das casas das nossas avós. Arcas de madeira, ornamentadas com desenhos embutidos de gueixas submissas, levemente idiotas, passeando entre pinheiros, pagodes e riachos. Por cima dessas arcas há sempre um naperão de linha grossa e uma jarra com rosas de plástico. As avós guardam nessas arcas a roupa branca dos seus enxovais. Peças bordadas com infinito vagar, à espera de serem usadas em ocasiões especiais que nunca acontecem. É o cheiro dessas arcas e dessas roupas que encontrei ao entrar hoje nesta casa. Saio e fecho a porta. Não volto a entrar aqui. 

2015/05/12

Danzon nº 2

Nado morto

No sábado, depois de deixar o Joaquim na natação, enquanto alagartava na esplanada, bebendo um café e lendo o jornal, dei de caras com a fotografia da criança escondida dentro de uma mala de viagem.  Encolhido, em posição fetal, a boca silenciada com uma fita adesiva, o menino parece um nado morto boiando no ventre materno. Senti o que qualquer pessoa sente perante uma imagem de miséria e injustiça: comoção, vontade de chorar, também raiva. À noite, depois do jantar, mostrei a fotografia aos miúdos e pedi-lhes que lessem a notícia. Falámos sobre o assunto. 

O domingo passou, morno, bucólico, entre árvores, passarinhos e águas mansas. Os algodões dos freixos voavam pelo ar e, no cimo da serra, entre o arvoredo, a torre de uma velha capela transportava-me constantemente para um tempo antigo. O bolo de laranja da Marina estava uma delícia, molhadinho e pouco doce, os meus rissóis de carne nem por isso. À noite, depois de orientar as rotinas dos meus filhos, depois de telefonar à Marina e lhe dizer “Os teus olhos verdes são bonitos, a tua pele é macia, dá vontade de dar uma trincadela na tua pele”, telefonei ao Augusto e pedi-lhe que me levasse a dançar. Abraçada ao imperador baiano, magro, sorridente, dancei até de madrugada. Nem uma vez, ao longo do dia,  ao longo da noite, me lembrei da criança encolhida dentro de uma mala de viagem, do seu pai entretanto “detido”. É assim a minha revolta, inconsequente, breve, sórdida, absolutamente miserável.

2015/05/03

Baltimore

2015/04/29

Violeta

Todas as noites, antes de rezar, pego na bíblia e leio as passagens que o padre aconselha na missa de domingo. Uma passagem para cada dia da semana. Deito-me tranquila, sabendo que Deus me ama e protege. Mas, quando há lua cheia, não sei o que acontece, transformo-me numa qualquer. Não quero ser amada por Deus, quero ser amada por indigentes, velhos, bichos e, se bonitas e asseadas, também por putas. Nessas noites, abro a bíblia e procuro a página da passagem do dia. Arranco-a com cuidado e meto-a na boca. As folhas da bíblia mastigam-se muito bem. São finas, translúcidas e sabem a essência de violeta.

2015/04/25

Abril

O meu avô carpinteiro. A minha avó mondadeira. As velhas de lenço preto na cabeça, os montes pequenos e as casas feias. Eu, menina, encostada ao corpo morno da tia Dé, olhando, maravilhada, os postais da URSS. O meu pai, cheio de raiva, gritando comigo, batendo-me com o punho fechado na cabeça, sem suportar a minha traição. A dor da minha mãe. O José a beber uma cerveja pelo gargalo, a meter um arroto para dentro e a explicar-me a urgência de uma nova revolução. As noites passadas na Rua da Palma, no casarão da Rua da Palma, ébria, bêbada, trôpega, tentando esquecer a faculdade de direito. O Ricardo, na escadaria da biblioteca, a gozar o prato, a perguntar “Ó Ana, e então o Alexandre O'Neill?”. O Joaquim, batendo as teclas da psp, pedindo que volte a pôr o Charlatão. A Dá, hoje no desfile, de casaco cor-de-rosa, orvalhada pela chuva, etérea, olhando em redor e perguntando pela peça da Mila. Eu na multidão, vendo passar ao longe o velho da boina, imaginando-me ao lado do João Pedro,  passeando de mãos dadas, com um cravo preso na lapela do casaco.  

2015/04/23

Insectos

2015/04/22

Ernesto

Sabia fazer sarapatel, chacuti e balchão de peixe. Vivia num anexo da casa do Caniçado com o filho Ananias, um menino de carapinha azul que tinha a mania de atirar pedras ao meu irmão. Era um cozinheiro talentoso. Foi com ele, vendo-o trabalhar, que a minha mãe aprendeu os segredos da cozinha goesa. No Caniçado todos conheciam a sua história. Nascera numa aldeia perto do lago Niassa, mas, por ter matado a mulher, fora degradado para o sul da colónia. Apesar desse passado de violência, era um homem gentil, prestável, de modos educados. É assim que a minha mãe o recorda. Toda a gente gostava dele. Um dia, quando brincava na margem do rio Limpopo, Ananias ouviu um estranho canto e mergulhou nas águas lamacentas. Foi comido por um crocodilo. Ernesto, ao saber da notícia, manteve-se impassível, não verteu uma lágrima pela morte do filho. Continuou os seus afazeres. Como era seu hábito, limpou bem a cozinha e deitou-se cedo. Nunca mais apareceu.

2015/04/21

Pietá

Pensei na mão de dedos esguios entrando lentamente pela janela do carro. Masturbei-me como nunca antes o fiz, sem me fechar, sem sentir vergonha, sem sufocar, aceitando o meu corpo no seu vagar e mistério.  Tive um orgasmo e depois outro. Senti-me pura, iluminada por um sol novo. Levantei-me e fui fumar para a varanda. Um sorriso tolo parecia estar colado à minha cara, tentei uma expressão séria, mas o sorriso continuava preso aos maxilares. Como se tivesse fumado um charro. Voltei para o quarto e deitei-me. Pela primeira vez depois do divórcio, em vez de acantonada a um canto, adormeci bem no meio da cama. 

Ontem, depois do apartamento sossegar, deitei-me a ler. Lia, mas era como se não lesse, as personagens andavam pelas páginas como espectros, incapazes de captar a minha atenção. A lembrança da noite anterior não me largava. Ansiava pelo momento em que, apagada a luz, na penumbra, o meu corpo renascesse. Foi então que escutei passos familiares no corredor. Soube logo que era o mais pequeno, tem um modo de caminhar característico, a sua passada é acelerada e saltitante, parece um anãozinho torto a pisar um chão de cinzas incandescentes. Mal chegou mostrou os braços cheios de babas de mordedura de um mosquito. Peguei no meu filho ao colo e sentei-o na bancada da casa de banho. Coloquei-lhe fenistil nas pequenas borbulhas, dei-lhe beijos, falei-lhe com ternura. “Posso dormir contigo, mãe?”, acabou por perguntar, sabendo de antemão a resposta. Levei-o para a minha cama e esperei que adormecesse. Enquanto o observava, acantonada a um canto, recordei a pietá que encontrei na Igreja de São Domingos.

Beirut



(O Joaquim é o único filho que, como eu, gosta de chupar ossos de carneiro.)

2015/04/20

Seda libanesa

Marina desapareceu. Não a vejo há mais de um mês. Durante o último ano, com pequenos períodos de ausência, encontrei-a diariamente no semáforo da Av. Estados Unidos da América. Ao final do dia, no meio da rua, lá estava ela, magra, ossos salientes, um pouco vagarosa. Apesar da magreza, tinha um rosto cheio, redondo, de pele branca, leitosa e virginal. Usava sempre um ridículo barretinho vermelho enfiado na cabeça. Marina tinha ar de menina e lançava os malabares com pouca graça. Deixava-os cair frequentemente, não se atrevia a atirá-los muito alto. Outras vezes, enquanto os lançava, dava uns passinhos para a direita e para a esquerda, numa dança triste que me comovia. O seu número durava pouco tempo, talvez trinta segundos, mas era suficiente para me deixar com os olhos rasos de água. Ando meio sentimental desde que o cão morreu. Pouco antes do semáforo passar a verde tirava o barretinho da cabeça e, saltitante, caminhava entre o trânsito, pedindo uma pequena contribuição.

Marina, com os seus malabares dourados, apesar de me emocionar, alegrava-me. Cheguei a sonhar com ela. Estranha, bela e triste, a sua presença no tumulto da cidade parecia suspender a realidade. No semáforo da Av. Estados Unidos da América, por sua causa, a minha vida ganhava outra dimensão, infindável beleza. Esquecia o cão, os filhos, o trabalho. Às vezes, o seu rosto redondo espreitando pela janela do carro, eu apalpava desajeitadamente os bolsos do casaco, a mala, o saco do ginásio, fingindo não encontrar a carteira. Queria prolongar o nosso encontro. Espiava-a então pelo canto do olho. É diferente observar uma pessoa a certa distância e observá-la de perto, mas a proximidade, em vez de revelar Marina, tornava-a num enigma maior. Um dia, não sei de onde veio a coragem, não resisti a falar-lhe. Como te chamas? Que idade tens? Marina não disse nada. Recebeu a moeda e, num sorriso aberto, mostrou os dentes brancos e certinhos. A última vez que a vi, estava sentada de cócoras no passeio, junto à sua bicicleta. Contava o dinheiro amealhado. Sem que nada o fizesse prever, levantou-se e aproximou-se do meu carro. Enfiou a mão pela janela, uma mão de dedos esguios, macia como se estivesse enluvada, e, com delicadeza, abriu um pouco o lenço que nesse dia eu trazia enrolado ao pescoço, um lenço de seda libanesa que o meu marido me ofereceu pouco antes da separação. Tocou-me no rosto e esse gesto breve deu-me grande prazer. “Mi nombre es Marina, soy de Huelva”, disse numa voz clara, alegre e provocadora. Depois virou costas. 

2015/04/18

SG



Memórias

Ao fim da tarde, por volta da 16 ou 17 horas, a minha Tia Dé e a minha Avó Solange iam buscar-me ao colégio. A Tia Dé é a irmã da Avó Solange, ou seja, é minha tia-avó, mas é como se fosse uma avó para mim. Após um daqueles dias agitados, o choro logo pela manhã porque não me queria separar da minha mãe, a alegria presente nas brincadeiras, a raiva que aparecia na hora da sesta quando as educadoras me tiravam a chucha e eu me escondia debaixo dos lençóis a chorar, as minhas duas velhotas, por fim, iam buscar-me ao colégio.

Tinha quatro anos, portanto não me lembro de pormenores acertados, mas há algo que nunca esquecerei. Íamos sempre a pé para casa, nem uma nem outra tinham carta naquela altura, por isso era a única solução. Passávamos por várias quelhas, uma delas, do lado esquerdo, tinha um muro rosa claro com grades altas, através delas algumas das rosas vermelhas e vistosas floresciam cá para fora. Pedia-lhes sempre uma e elas davam-ma, mas antes, a minha Tia tinha que tirar todos os picos utilizando as unhas e as pontas dos dedos. Passávamos por mais umas quantas ruelas e finalmente estávamos na nossa casinha.

Elas faziam-me o lanche, era sempre uma grande caneca de leite com chocolate e uma torrada com manteiga ou bolachas Maria. Molhava as bolachas no leite e estas ficavam moles, mas deliciosas. A minha maior desilusão era quando metade da bolacha caía para dentro da quente bebida. Estava eu distraída com os desenhos animados e...plof! Lá se ia mais outra bolacha. Quando estava a acabar o leite, lá as encontrava, perdidas, moles e desfeitas. Por vezes, ainda as ia buscar com uma colherinha e enfiava-as para dentro da boca. Só de pensar nisso, passados quase dez anos, fico enjoada...

(Escrito pela minha filha Madalena que, desde o quinto ano, no ensino público, pois claro, tem tido extraordinárias professoras de português.)

2015/04/15

Chuva



(Benjamin Biolay, Javier Marías, Camille Paglia.)

Pau-preto

Há mobílias escuras e sofás de veludo surrado por toda a parte. Não se vislumbra um vestígio de beleza ou alegria. Em todas as divisões, nota-se um cheiro adocicado, de urina, de maturação excessiva, de fruta podre. À noite, os candeeiros lançam uma luz morrinhenta de alumiar mortos e sente-se uma permanente vibração provocada pelo tráfego da auto-estrada. O lar fica tão próximo dos rails que um dia a roda de um camião de carga se soltou, galgou para fora da estrada e foi bater com violência na parede da sala de convívio. Vitória, a preta dos chocalhos, a menina que veio no contentor dos patrões com as mobílias de pau-preto, os serviços de porcelana chinesa e as peles de crocodilo, estava encostada à parede onde o pneu bateu. Saiu ilesa, com apenas algumas escoriações no braço esquerdo, mas assustou-se, esteve sem falar e comer durante uma semana. 
- Vá lá D. Vitória, seja boazinha. Abra a boca. Olhe que a D. Odete já comeu tudo! – ia dizendo a auxiliar, colher em riste, apontando para a velha do lado, a boca suja, babete  atado com nastros esgaçados.
Vitória parecia não escutar. Emagreceu muito, era já só pele e ossos. Só arrebitou quando lhe explicaram que um jornalista da Tribuna a queria entrevistar. Telefonou para casa e pediu à neta que a fosse visitar no dia seguinte. Queria que a penteasse e, se fosse possível,  lhe levasse uma camisola nova. Pediu também o fio de ouro com a medalha de Santa Justa. A rapariga disse que sim, mas não apareceu. Quando o jornalista chegou, um rapaz gordo, de palidez macilenta, Vitória ajeitou com as mãos o cabelo e alisou a blusa. Sentiu vergonha da sua velhice desmazelada. O jornalista esteve pouco tempo, fez-lhe duas ou três perguntas, tratou-a com a condescendência com que se tratam crianças, imbecis e velhos. À despedida, mandou Vitória sentar-se numa cadeira, mesmo ao lado do buraco provocado pelo embate do pneu. Pediu que sorrisse e tirou-lhe uma fotografia. 

2015/04/12

Angústia

Não gostava de gatos. Na sua casa de campo, na Crimeia, tinha um grou amestrado e dois cães. Um dos cães, Kachtan, era gordo, muito estúpido e preguiçoso. Tchekhov amava-o. Não se sabe se o escritor tinha olhos azuis, castanhos ou cinzentos. Tchekhov escreveu o meu conto preferido, um conto pequenino, são três páginas, sobre um cocheiro e a sua égua. Chama-se, na tradução brasileira que tenho, "Angústia". 

2015/04/10

Sufjan Stevens



(Voltei a ouvir a Radar.)

2015/04/09

Lição de anatomia

Chamava-se Basílio e sabia de pintura. Usava um anel brasonado no dedo mindinho e bonitos lenços de seda lavrada. Apesar das origens aristocratas, da sólida erudição, a sua grande paixão era a horticultura. Num baldio comunitário, junto à estação de Entrecampos, plantava couves coração de boi, nabos, favas, ervilhas e pimentos vermelhos. Não era um amante brilhante – tinha um sexo minúsculo que não me enchia a boca – mas eu gostava de o ouvir divagar sobre os arcabuzeiros da Ronda da Noite ou sobre o cadáver da Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp. Aprendi muito com Basílio. Por exemplo, por causa das suas instrutivas conversas, ainda hoje sei que Rembrandt foi pai de três meninas e a todas deu o estranho nome de Cornélia. Pergunto-me quantas pessoas no mundo terão conhecimento desse facto extraordinário. Às vezes, depois de fazermos amor, enquanto eu ficava espojada na cama a folhear os seus livros de pintura, Basílio levantava-se, vestia um robe de popelina todo às cornucópias azuis e punha-se a assar os pimentos que colhia da sua horta. Cortava-os às tirinhas, um fio de azeite a temperar, colocava-os numa tigela e trazia-mos à cama. Eu, nua, o cabelo num desalinho, comia muito regalada. Às vezes, tal a gula, escorria-me da boca um fiozinho de azeite que Basílio se apressava a lamber com licenciosidade. Fiquei desolada quando decidiu partir para Oesta. Percebi que, para além de perder o meu pigmaleão, nunca mais na vida comeria uma salada de pimentos como a que ele me preparava. 

Levei algum tempo até encontrar um novo amante. Dei com ele por acaso à porta da Igreja de Nossa Senhora de Fátima. Mouret era o oposto de Basílio. Feio e um pouco bruto. Não demonstrou qualquer interesse quando, certa vez, a propósito já não sei do quê, lhe falei do cadáver da Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp. Nessa ocasião, pelo modo como largou uma gargalhada forçada, levantando exageradamente os zigomas e mostrando uma fiada de dentes serrilhados, fez-me lembrar uma hiena. Não tinha erudição, mas, em contrapartida, era um homem de muita fé. Um dia, não o esperava, apareceu no quarto do hotel Ibis de batina e tonsura. Explicou-me que se ordenara beneditino, mas que isso não o impedia de continuar a encontrar-se comigo. Com o passar do tempo, fui-me apercebendo de que o meu novo amante não era um modelo de virtudes: mentia muito, tinha a mania das grandezas e recorria a estratagemas mirabolantes para que lhe emprestasse dinheiro. A sua falta de carácter naturalmente não me incomodou. A sinceridade é uma qualidade dispensável num amante. Mouret era um prodigioso mineteiro, tinha mãos grandes e exalava sempre um agradável bafo mentolado. 

2015/04/06

Mamma Roma



Não sou capaz me zangar, nem de lhe gritar, não sei ser autoritária, disciplinadora. Não é da minha natureza. Quero apenas dançar com o meu filho, beijá-lo muito, contar-lhe os meus sonhos, explicar-lhe que o meu amor é incondicional, puro, dizer-lhe que nunca sentirei desilusão, que estarei sempre aqui para cuidar dele.

2015/04/02

Ciprestes

Os ciprestes parecem fazer pontaria unicamente para a campa do João Pedro. Ao contrário das outras campas, a dele está sempre cheia de caruma perfumada, também de umas bagas de polpa pegajosa que se aninham no rebordo da lápide. Aprendi há pouco porque se plantam estas árvores em cemitérios. Tesos e esguios, representam o duelo entre a vida e a morte, aguentam invernias sem perder o viço da folhagem, têm o cheiro da santidade, de genefluxórios encerados, simbolizam a vida eterna. Não sou entusiasta de vivências místicas,  mas na insólita pontaria dos ciprestes para a campa do João Pedro vejo uma manifestação divina, um sinal de eleição, de imortalidade e ressurreição. Sorrio por isso quando chego ao cemitério e me apercebo da campa cheia daquelas bagas cerosas. Sem perder tempo, na minha saudade zelosa, pego na vassourinha de estopa e apresso-me a varrer os pequenos bugalhos.

2015/03/31

IGFSS

A sala de espera do IGFSS é ampla e cheia de sol. Enrolo o papelinho da senha nos dedos. O segurança que está na portaria do instituto - colossal, torso triangular, robusto como um touro de lide - fala ao telefone com a mulher, uma tal Alexandra. Discutem por causa de dinheiro. Animo-me com a possibilidade de assistir a uma bela discussão, ali na sala de espera do IGFSS enquanto espero que me chamem. O telemóvel toca. Do outro lado, João, acelerado, dispara as queixas do costume. Suspiro, aborrecida. Por causa do seu telefonema, não poderei continuar a escutar a conversa do segurança.
- Provocaste-a…
- Estás sempre do lado dela!
- Não estou nada.
- Só porque é a filha sensata, perfeitinha…
O homem da portaria continua a falar ao telefone, cada vez mais alto, cada vez mais agitado. Não consigo perceber uma única palavra do que diz. Peço ao João que se acalme, falamos quando eu chegar a casa, explico que tenho de desligar, estão a chamar a minha senha. É mentira, ainda tenho muito que esperar, mas o segurança da portaria subitamente ficou colérico, deu um murro no balcão, tem os músculos do rosto retesados, vai explodir a qualquer instante. Enfio o telemóvel na mala, ponho-me à escuta, apuro os sentidos, tento apanhar o fio à meada. Ainda vou a tempo. “Não cago dinheiro, Alexandra!”, grita por fim o segurança do IGFSS e desliga o telefone.

2015/03/25

Bolinho de amêndoa

Mastigo o bolinho de amêndoa em frente da montra da loja de produtos religiosos. Cristos, beatos, santinhas de pés descalços, a grande virgem mãe de olhar manso ao meio. É feia, tem olhos bovinos, pés que lembram barbatanas. Não gosto da virgem mãe. A sua virtude e a sua abnegação aborrecem-me. Não me seduzem. É na ruína, na desordem, no pecado que me sinto viva. É bom ser pecadora. No meio do caos e das sombras respiro melhor. Meto o resto do bolinho de amêndoa na boca. Olho o meu reflexo no vidro. Ajeito o cabelo, encolho a barriga. Atravesso a rua e entro na igreja. 

2015/03/23

Vivre sa vie



( Ouvir a minha canção preferida.)

Felisminas

Sinto a boca seca, o coração acelerado. Fujo para o canto da cascata. Nas águas escuras, o grande sarrajão listrado da tia Dé nada calmamente. Desdobro o papelinho que tiro da caixa de comprimidos. Aprende-se muito a ler bulas de medicamentos. Por exemplo, ainda há pouco tempo, ao ler a bula do Lexapro, aprendi que o maior legado que Freud deixou à humanidade foi a loucura. Um legado de merda, diga-se de passagem. A minha cabeça começa a andar à roda. Tento acalmar-me. Aliso com as mãos o vestido e, como na canção, procuro pensar apenas em coisas boas. Dias de sol. Jardins. Flores, passarinhos e borboletas. O cheiro dos meus filhos. Rafael sentado no balcão da casa de Corturim. Penso nas aguadeiras de Tenerife. Ágeis como cabras montanhesas, sempre vestidas de preto, galgam como ninguém as escarpas e os socalcos da ilha. Denny, por mais que se esforce, nunca conseguirá alcançá-las. Tenho vontade de chorar, mas, por muito que tente, não consigo. Parece que já não sei chorar. É isto a cura? Deixar de saber chorar? Reparo numa ténue cintilação no fundo do lago. Tiro uma moeda do bolso e atiro-a à água. Há quem não goste de advérbios de modo, mas eu, decididamente, conscientemente, assumidamente, gosto. Sei que não posso dar-me ao luxo de ser doente dos nervos. Tenho três filhos para criar. Serei saudável, sã, feliz. Já não quero comer as felisminas da outra. Fecho os olhos e formulo um desejo. Quero ser outra mulher, linda, muito linda, inteligente, rica, alegre, quero pintar as unhas dos pés de azul, usar colares, anéis, pulseiras de cabedal, quero ter três gatos, um cão e dois canários, quero fazer ioga e escrever haikus, quero tatuar uma carpa no ombro, uma andorinha no pulso e um lindo varano australiano na barriga da perna. Volto a abrir os olhos. Tudo permanece igual, o jardim, o lago da cascata, o rapaz de bronze no seu nicho de gesso dourado, as chaminés da fábrica de curtumes erguendo-se ao longe. Eu também continuo a mesma. Só o lindo sarrajão listrado da tia Dé parece ter desaparecido.

2015/03/22

Solidão

Domingo de solidão, tristeza, silêncio. Os miúdos passaram o dia com o pai. Devia ter saído para caminhar um pouco e apanhar sol, mas não fui capaz. Enfiei-me na cama a ler. Estou quase a acabar “A nave dos loucos”, a seguir, já decidi, lerei “A flor azul”, da Penelope Fitzgerald (começou a escrever apenas aos sessenta anos, depois de criar três filhos e cuidar de um marido alcoólico). Li durante muito tempo, sentindo-me cada vez mais só, cada vez mais triste. Acabei por adormecer. Alegrei-me quando os meus filhos voltaram. O Joaquim trazia o joelho esfolado, a Madalena um pacotinho de amêndoas para mim, o João dois amigos para jantar.

2015/03/19

Pangim


Jajão

Perdi o relogiozinho preto da Timex que a minha mãe me ofereceu quando fiz trinta anos. Escutei com agrado, batendo os dedos no volante, uma quizomba muito popular. Na Almirante Reis, perto da igreja dos Anjos, cruzei-me com o editor da Assírio e Alvim. É um rapaz bonito, calado, discreto. Tem um rosto largo, bem escanhoado, e uma linda covinha no queixo.


2015/03/17

Bolor

“Estava cego, completamente cego, sentado a um canto, abandonado. A doutora chegava, pegava na minha mão e levava-me a passear”. Quis saber pormenores. Como cegara? Aparecia mais alguém no sonho? Para onde o levava? De que falávamos nós? Não foi capaz de explicar. “Lembro-me apenas de que, enquanto caminhávamos, sentia o cheiro do seu cabelo. Cheirava muito bem.” Dei-lhe um beijo e agradeci-lhe o sonho tão bonito. À hora do almoço, lembrando o sonho do Sr. Tobias, chegaram-me imagens do sonho desta noite. Uma livraria. Duas salas amplas, frescas como uma gruta, cheias de luz. Ando por ali, folheio alguns livros. Não sou capaz de levantar os olhos das páginas de um livro, não por estar concentrada na leitura, mas por me sentir incapaz de enfrentar o olhar dos outros. Sinto-me tensa, desconfortável, desajustada, uma intrusa, tenho vergonha do que sou. Comparando o sonho do Sr. Tobias com o meu, pensei nas conversas com o psiquiatra. Já por várias vezes falámos sobre a imagem que os outros têm de mim e a imagem que eu própria traço da minha pessoa. Qual é a imagem autêntica? A verdadeira? Não sei, só sei que, quase sempre, me sinto um embuste, uma peça de fancaria, um anelzinho de pechisbeque, daqueles que, pelo uso, rapidamente perdem o dourado e ganham a cor verdoenga do bolor. 

Página 174

Não consigo deixar de roer as unhas. Também não consigo deixar de fumar. Chateiam-me certas conversas sobre o livro. Tenho saudades dos meus pais e das minhas primas do Alentejo. Tenho saudades de ter a cama só para mim. Ando a ler “A nave dos loucos”. Foi preciso chegar à página 174 para perceber por que razão é um grande livro. Ler é tão bom. 

2015/03/13

Lírios azuis

César Augusto, imperador baiano, vive num quarto alugado. Para além dele, explicou-lhe a senhoria, vivem no apartamento dois homens, cada um em seu quarto, partilhando a cozinha e a casa de banho. Quando se mudou, César Augusto, habituado ao ruído do seu lar (vivia com a mulher, três filhos adolescentes e uma cadelinha de pêlo cerdoso), estranhou o silêncio da casa. Um dia, ao telefone, fumava eu no estendal, falou-me desse silêncio. É uma calma misteriosa, Ana Clara. Já cá estou há duas semanas e ainda não me cruzei com nenhum desses homens, nunca os vejo, não os oiço sair ou chegar. Pressinto a sua presença, vejo cabelos no chão da casa de banho, às vezes, sinto um leve cheiro a água-de-colónia. Ontem, no frigorífico encontrei duas bananas maduras, metade de um frango assado e uma caixa com sopa fresca. 

No dia seguinte, à hora de almoço, resolvi visitar o meu amigo. Subi as escadas escuras do velho prédio e bati à porta do apartamento. Assim que César Augusto abriu a porta, entreguei-lhe um pequeno ramo de lírios azuis. Gentil, compreendendo a razão da minha oferta, o imperador baiano cumprimentou-me com um beijo nos lábios e fez-me entrar no seu novo lar, uma divisão espaçosa com uma grande janela de guilhotina  a dar para o renovado largo do Intendente. Pelo seu ar de satisfação, rosto subitamente radioso e iluminado, intuí que intimamente se convencia de que entre nós aconteceria o que muitas vezes acontece. Sem demora, deitei-me na cama e expliquei-lhe que vinha apenas para escutar o silêncio. Ele deitou-se ao meu lado e começou a cantarolar. Girassóis, papoilas, cravos, anémonas, flores de amendoeira, tudo, tudo ele pintou, mas nada se compara aos seus lindos lírios azuis. Pedi-lhe que se calasse, deixasse as cantorias para depois, expliquei-lhe que não tinha muito tempo, às duas horas sem falta precisava de estar de volta à minha secretária. Fechei os olhos, deitei-me de barriga para cima, as mãos sobre o peito, as pernas bem alinhadas. Esperei. Concentrada, tentando ignorar uma mola solta que fazia pressão nas minhas costas, procurei apurar os sentidos para ver se escutava um ruído, um arrastar de chinelos, a descarga do autoclismo, um telefonema, enfim, qualquer coisa. Nada, não se escutava nada, absolutamente nada. Estivemos assim, deitados lado a lado, durante algum tempo, dez, quinze minutos. Acabei por ser eu a interromper o silêncio. Se calhar, César Augusto, esses homens estão sempre a dormir., disse, recordando os mandriões do vale fértil. E não comem, não vão à casa de banho?, respondeu-me com uma leve rispidez vingativa. Aquilo era um mistério.

Continuámos deitados. Novo silêncio. Percebi que aqueles homens de certa maneira já tinham deixado de existir, porventura já não ocupavam espaço na vida dos outros, talvez se tivessem tornado invisíveis, incorpóreos, inexpressivos, viviam mortos, feitos fantasmas, espectros, sem ninguém, sem um familiar, um amigo, um conhecido. A certeza da sua solidão entristeceu-me. Pedi ao meu amigo que inventasse para eles uma vida, mas uma vida alegre, repleta de aventuras, amor e lírios azuis. César Augusto é uma criatura singular, muito generosa; para além de outros atributos, é um minucioso contador de histórias. Pensou um pouco, depois, entre risadas, foi falando calmamente. Preparei-me para o escutar: encostei a cabeça no seu peito, passei a mão pela grande cicatriz que lhe atravessa a testa e palpei-lhe as mãos à procura do mindinho torto. 

Pescada frita

Almoço sozinha no Galeto. Peço pescada frita com arroz de tomate. Escolha muito acertada. A pescada é branquinha e macia. Bebo um copo de vinho branco. Folheio o suplemento de sexta-feira. Leio o artigo sobre o “Púsias” do Vitor Silva Tavares. Na origem de tudo, está o poeta e editor Ricardo Álvaro. O meu coração, tolo coração, enche-se de alegria. A amizade é uma forma muito bela de amor. Ao longe, baixinho, escuta-se a guitarra do Carlos Paredes. 

2015/03/05

Ruibarbos

Reler uma obra é sempre um risco. Reli há pouco tempo as primeiras páginas do “Em nome da Terra” e sinto que perdi qualquer coisa. Em contrapartida, reli na semana passada “Sempre vivemos no Castelo”, da Shirley Jackson. Como é bom voltar a um livro e sentir o encantamento da primeira leitura. Durante dias, só pensei na história daquelas duas irmãs, em palavras sortilégio, em ninhos de crias de cobra, em ruibarbos de cor vermelha – a que saberão os ruibarbos?-, em tartes de arandos, nos frascos de conserva das mulheres da família Blackwood, nos pequenos bolos fofos que Constance cozinha com tanto amor para o tio Julian. 

2015/02/13

Meu amor



(Passei o dia a trautear esta canção. Pensei, enquanto caminhava, no meu amor. Tem mãos grandes, mas não sabe abraçar-me.)

2015/02/12

URSS

Sentados no velho sofá da sala, folheamos o grande livro vermelho. Observamos construções extravagantes, estádios, piscinas, prédios de apartamentos, museus, teatros, palácios de casamentos e de rituais fúnebres. Imagens de uma arquitectura insólita, bela, onírica, vanguardista. O meu filho aponta para uma luminária que, cacheada de lâmpadas, se assemelha a uma gigantesca medusa, depois ajeita o edredão que lhe tapa as pernas. É um edredão bonito, trouxe-o de Jaipur. Pintado manualmente com carimbos de madeira, talvez tenha sido feito por mãos do tamanho das suas. Leio-lhe em voz alta nomes de cidades: Minsk, Chisinau, Vilnius, Baku, Erevan, Talin. 

2015/02/10

1979



Comprei uma camisa de flanela cor-de-rosa e um casaco preto, mas as compras não me alegraram. Sinto-me triste. Vou deitar os meus filhos, beijá-los muito. Depois vou fumar, beber e ouvir o Billy Corgan até chegar o sono. 

2015/02/07

Semáforo

Em frente do centro geriátrico “Haja Deus” há um semáforo. Todos os dias, quando volto para casa, apanho-o fechado. O centro geriátrico fica numa das poucas vivendas da Av. Gago Coutinho que ainda não sofreram obras para se transformar em colégios bilingues, escolas profissionais, sedes de empresas. As paredes, de tinta estalada, com manchas de bolor, têm uma cor suja, indefinida. Há dois grandes toldos amarelos nas janelas do primeiro andar e um toldo em forma de lagarta que vai do portão do jardim até à porta de entrada. As janelas, de caixilhos de madeira podre, estão sempre fechadas e as persianas corridas. Nunca se vê uma luz acesa. Parece que ninguém ali mora. Já o jardim, decadente, excessivamente preenchido, é habitado por uma multidão de figuras de pedra: cavaleiros, trovadores, lavadeiras, anões, sereias, fidalgos. Por todo o todo se vêem pesadas floreiras rectangulares. Nas duas floreiras que ficam por cima do pequeno portão de entrada, em forma de concha, crescem dois pés delgadinhos de rosas-de-pedra. Na sombra de um salgueiro-chorão, há uma pequena fonte de águas musgosas. Suportes de corda entrelaçada pendem dos ciprestes e balouçam quando há vento. As iluminações de Natal nunca são tiradas e, no crepúsculo do meu regresso a casa, lançam um fulgor triste. Estou certo de que, se as visse,  o Sr. Inácio gritaria à sua filha Solange: “Solange, no próximo Natal, também vou deixar as luzes postas. Poupo muito trabalhinho.” Quem, como eu, tiver uma natureza contemplativa, nunca se cansará de olhar para o jardim do centro geriátrico. Todos os dias descubro um detalhe, um novo habitante de pedra. 

Hoje, parada no semáforo, enquanto tentava a todo o custo vislumbrar o interior do centro geriátrico (uma luz estava acesa e, pela janela, consegui ver uma cabeça de cabelos muitos brancos), recordei a última vez que estive com o Alexandre. Foi pouco antes do Natal. Estivemos juntos durante duas horas. Acabámos cansados, muito transpirados. Descansámos em silêncio e, durante o tempo em que sosseguei nos seus braços, o amante intermitente, num gesto de afecto inconsequente, afagou-me docemente os cabelos. Nesse dia, recordei-o hoje, precisamente no instante em que, em frente do centro geriátrico “Haja Deus” aguardava que o sinal ficasse verde, senti que o corpo me doía. Não uma parte do corpo, mas todo o corpo. O meu corpo estava dorido como se tivesse caminhado durante muito tempo ou alguém me tivesse batido. Lembrei-me do sexo febril em “ A vida de Adéle”. Quando o sinal passou a verde, ri-me, feliz, e acelerei. 
           

2015/02/01

Olho

Depois de dar o almoço aos miúdos, fui ao Pingo Doce fazer as compras da semana. Comprei bolachas e pacotinhos de leite com chocolate para os lanches, esparguete, macarrão, arroz, azeite, lixívia, listerine, duas garrafas de vinho, ervilhas, batatas, cebolas, tofina, comprei borrego, frango e carne de vaca para estufar com cenouras e nabo. Esta semana não trouxe peixe. O meu luxo foi trazer um gel de banho da le petit marseillais. É caro, muito caro para a minha carteira, mas a minha filha gosta do cheiro a leite de baunilha. Compro com cuidado, comparando preços, procurando sempre as promoções e o que é mais barato. Quando pago a conta penso sempre na sorte que tenho em ter um ordenado mensal, fixo, que me permite alimentar, cuidar dos meus filhos. Quando cheguei a casa, depois de poisar os sacos na cozinha, corri aos quartos. O João esmerava-se nas cábulas para o teste de Geografia, a Madalena e o Joaquim, cabeças debruçadas sobre os livros, escreviam. “Já sei escrever olho”, disse-me o mais pequeno. Senti uma alegria genuína, intensa, única. Coisa tão parva. Aproximei-me, beijei-lhe os caracóis e disse baixinho “Meu amor, gosto tanto de ti.”Arrumei as compras, organizei a despensa e o frigorífico. Desfiz o tomilho-limão sobre a carne de vaca que deixara já temperada com alho. Depois, cônscia de que a minha liberdade é sempre efémera, deitei-me atravessada na cama a ler a Adília Lopes. Entrava um sol morno pela janela e a minha rua, de prédios altos, pareceu-me bonita, ampla. Li a nota que a Adília escreveu para o seu livro: “Acho que era a Sylvia Plath que estava convencida, por volta de 1950, que para escrever romances era preciso ter amantes e fazer viagens. É um mito, isso dos amantes e das viagens. Pode-se ser feliz e escrever romances sem ter amantes e se fazer viagens. Mais importante que amantes e viagens é ter um espaço próprio, um domínio, um território, uma casa, pelo menos um quarto com privacidade, como muito bem viu Virgínia Woolf”. Continuei a ler, li dois ou três textos, depois peguei em “ A Letra Escarlate” que ando a reler e onde, ontem, já tão tarde, descobri a palavra “cônscio”