2016/12/23

Madeira perfumada

Acordei indisposta, com dores de cabeça. Vomitei no lavatório da casa de banho. Bati duas vezes com a cabeça na parede ao pensar nos textos que ontem aqui escrevi, também nas várias mensagens que enviei ao João Pedro. O álcool torna-me má, invejosa e miserável. Também me faz mal à pele. Vesti-me, lavei o rosto com água fria, beijei os meus filhos (dormiam ainda) e fui trabalhar. A meio da manhã, incapaz de me concentrar, fui à igreja de Nossa Senhora de Fátima. Sentei-me dentro de um dos confessionários, encostei a cabeça à madeira perfumada e adormeci.

2016/12/20

Ricardo Álvaro




Amanhã, almoço com o meu melhor amigo.  Nada me podia deixar mais feliz. Hei-de dançar quando o vir chegar. Braços no ar como se lhes desse o vento, eu, novamente, com dezoito anos, a primeira bebedeira, olhos fechados, a dançar no átrio da Escola Herculano de Carvalho. Vou dormir. Acabou-se o licor de uísque. 

Facebook

Fotografam-se poetas com os seus gatos e os seus filhos louros, espantosas e adoráveis criancinhas que comem compota de mirtilos ao pequeno-almoço, anunciam os escritores o seu sucesso, uma notícia ali, uma crítica acolá, um prémio de mil euros atribuído pela  Junta de Freguesia de Argoncilhe, caramba, caramba, como sou bom escritor!, lê a jovem poeta um poema do Carlos Drumond de Andrade com se fosse uma gata com o cio, mostra a menina poeta os livros que faz manualmente, folhinhas secas, florinhas secas e papel pardo, ai, que coisa mais bonita, rejubilam os leitores com os merdosos livros que leram, levam-se a sério os críticos que escrevem em jornais de referência, tão cheios de si próprios, fodendo os outros críticos que tentam escrever nos jornais de referência, gritam os deprimidos o seu desespero (por que não se matam?), escreve a professora de filosofia o seu diário, nunca revelando  um desespero, um orgasmo, o sufocar lento da solidão, passeios à chuva, isso sim, uma conversa de café, isso sim, um marmeleiro florido, isso sim, e é tudo e é tão pouco, indignam-se os medíocres, discutem os preguiçosos, grita o gigante de Gulpilhares que sabe escrever, ó, santo deus, se sabe!, pois se foi finalista daquele prémio literário, a culpa de não ser publicado é da editora com ar de sonsa que escreve letras para fados, mostra o editor velho, velhíssimo,  feiíssimo, a sua pescaria em São Tomé. Tudo isto comentam os pobres de espírito, de preferência com corações, risonhos e fiadas de pontos de exclamação. 

O frio de Trancoso

Encontrei o Manuel da Silva Ramos na Avenida Marquês de Tomar. Perguntou-me se continuava a escrever. Disse-lhe que não e desculpei-me com os filhos, o trabalho até tarde. Falámos sobre o frio de Trancoso, sobre o lançamento do livro do Tiago e sobre os livros do escritor egípcio. Despediu-se pouco depois com a desculpa de ter de ir escrever o próximo capítulo do último livro. Fiquei a ver o escritor desaparecer na Avenida Marquês de Tomar. À medida que caminhava, distanciando-se, tive a sensação de que era a própria literatura quem de mim fugia. 

Asleep

Half a person

Oscillate wildly

2016/12/16

Sete escravas de ouro

Agarrou-a pelo braço e levou-a para a varanda. Foi a primeira vez que a trancou completamente nua. Teresa não reagiu, não gritou, não bateu com os punhos nas vidraças, como fazia no início, apenas encolheu o corpo para se proteger do frio.

Rui viu um pouco de televisão e depois foi deitar-se. Dormiu sossegado, não acordou para beber água nem mesmo para ir à casa-de-banho. Ao acordar teve a vaga sensação de ter tido sonhos felizes.  Talvez por isso a primeira imagem que lhe veio à cabeça foi a da sua mãe caminhando de mãos dadas com Ana à beira do lago. Ana era uma criança encantadora, alegre e, pelo modo como falava, um pouco belfa, a voz cheia de mimo, cativava qualquer pessoa.  Até o tio Alberto sorria quando Ana se sentava ao seu colo e lhe pedia que contasse a história do Pinto Calçudo. Só se lembrou de Teresa quando o sol, entrando pelas frestas dos estores, fez brilhar os frascos de perfume pousados na cómoda. Nua na varanda. Como teria passado a noite? Ainda não fazia muito frio, mas, durante a noite, arrefecia. Sentiu angústia por ter trancado a mulher na varanda, mas não experimentou arrependimento. Pôs-se à escuta para ver se ouvia algum ruído vindo da varanda. Nada. A casa estava quieta, silenciosa e apenas o sol, incindindo nos frascos de perfume, parecia quebrar a calma aparente que pairava sobre os objectos. Por instantes, temeu que tivesse acontecido alguma coisa  a Teresa. E se tivesse saltado da varanda? “Vou ao terraço e atiro-me cá para baixo…”, era a frase que usava sempre que discutiam. Uma frase desesperada, mas dita calmamente, cada palavra pronunciada com lentidão, como se só assim a ameaça pudesse ser encarada como real. Não suportava que Teresa a dissesse, sobretudo em frente de Ana.

Afastou os pensamentos sombrios e procurou prolongar as rotinas para adiar o momento em que abriria o trinco da varanda e encararia a mulher. Tomou banho, esfregou bem o pescoço e as costas, fez a barba com vagar, passando a lâmina duas vezes no rosto para a pele ficar macia. Preparou o pequeno-almoço. Deu comida ao gato que, mansamente, se enrolou nos seus pés. Foi espreitar a filha: Ana dormia profundamente, enrolada aos pés da cama. Quando já não tinha mais nada a tratar, entrou na sala. Afastou os cortinados. Lá fora, Teresa continuava encolhida: a cabeça encostada à banqueta onde o gato dormitava nas tardes de sol, os pés e os lábios azuis do frio. Durante a noite, arrancara as folhas das plantas e despejara sobre si a terra dos vasos. Naquela posição, coberta de terra, folhas e flores, Teresa pareceu-lhe pequena, frágil e ainda mais bela. Sentiu uma erecção e lembrou-se do verso de um poema. O ruído do trinco da porta fez com que a mulher abrisse os olhos. Levantou-se e, sem o olhar, sem nada dizer, caminhou na direcção do quarto. Ficou um rasto de terra no chão encerado da sala. O tilintar das sete escravas de ouro que Teresa usava sempre no braço esquerdo quebrou por fim o silêncio da manhã.

2016/12/12

A vida breve




Antes do baile verde

Não pegava num livro desde o dia 18 de Setembro. Hoje, não sei o que me deu, li vários contos da Lygia Fagundes Telles. Apesar do desespero dos últimos tempos - de que serve a terapia, a medicação rigorosamente observada, as consultas de quinze em quinze dias, se a doença volta sempre?-, fui inundada por uma alegria imensa. Gostava de ser capaz de escrever assim, exactamente assim: com talento e precisão. 

Andrei Efimitch

Falei sobre "A enfermaria nº 6" ao meu psiquiatra. Não conhecia. "Nunca leu Tchekhov?!", perguntei com espanto, irritação maternal, usando um tom insuportavelmente pedante, tentando de alguma forma inverter os nossos papéis. Cansada de falar sobre mim ao jovem psiquiatra, tentei que o jovem psiquiatra partilhasse alguma coisa sobre si próprio. Não acho justo que saiba tudo sobre a minha pessoa, cada medo, cada lágrima, cada inquietação e eu, para além de que trabalha em Santa Maria e gosta de "As virgens suicidas", nada conheça da sua vida. Respondeu com naturalidade: "Não, Ana, nunca li Tchekhov". E continuou em silêncio. 

2016/12/08

Desejo

Carica

Aos dez anos, fui com os meus pais a Marrocos. Comi bolos areados na melhor pastelaria de Rabat. Coloquei as mãos em concha por baixo da cabeça decepada. Em praias desertas, apanhei búzios e conchas vermelhas. Mergulhei no mar e o meu cabelo ficou emaranhado com pequenas algas verdes. Dormi numa tenda de campismo. O colchão cheirava ao plástico da boneca recebida no Natal. Senti um perverso deleite ao ver a pele da tia Dé queimada pelo sol. Invejei o casal francês que viajava numa pequena auto-caravana. Observei o pai francês brincar com os filhos. Voltei a sentir inveja. A caminho de Marraquexe, no Toyota vermelho, comi pão com doce de tomate e fatias de melancia. O sumo da melancia escorreu pelo meu pescoço. Fiquei com as mãos pegajosas do doce de tomate. Ajudei a minha mãe a escolher pratos de bronze, potes de barro pintado à mão e banquetas de couro. Bebi chá de hortelã, servido num bule de prata. Vi um negro com um grande angioma abraçado uma mulher muito bela. Não vi o deserto. Também não vi camelos. Mas, num restaurante de estrada, bebi pela primeira vez na vida Coca-Cola. Guardei a carica por causa das estranhas letras árabes. Ainda a tenho. 

2016/12/03

Pastelaria Tim-Tim





Entre as baratas de vinho, vi caminhar uma garrafa. 

2016/11/28

Lista de compras

Quero um tomate maçã, vermelho, de polpa dura, quero um par de sapatos de flamenco, uma caveira sorridente, de preferência de grandes olhos espantados, quero dois dentes de alho (para o ensopado de coelho), três cebolas roxas (para o ensopado de frango do campo), um quilo de cogumelos vermelhos às pintinhas brancas, uma abóbora porqueira, quatro pacotinhos de açúcar com a imagem dos quatro discípulos evangelistas, se não tiver, são difíceis de encontrar, podem ser quatro pacotinhos de açúcar com a imagem dos quatro cavaleiros do apocalipse, quero também um paraplégico capaz de fazer amor, uma menina cigana de lábios pintados de azul, o mapa para o cadafalso, três sacos de água quente, cinco dióspiros de roer, cinco burkinis amarelos, trinta lenços de seda libanesa e, se não for pedir muito, duzentos gramas de fiambre, cortado em fatias finas, transparentes como o papel.

2016/11/10

2016/11/09

Tango



( O que em mim terá efeito? O que me fará acordar deste torpor, desta angústia tão antiga, desta podridão? Nada me interessa. Ninguém me interessa. Finjo. Sou uma extraordinária fingidora. Leio e finjo. Como e finjo. Afago o rosto da minha filha e finjo. Falo com o Sr. Tobias pela manhã, pergunto pela pescaria do fim-de-semana, e finjo. Irrito-me com a mulher que chama "pretinho" ao engenheiro informático e finjo. Imagino-me nas termas da Cúria, hotel antigo, portas de ferro e, nos quartos cheios de luz, a presença de um tempo antigo. Já não finjo. Um parque de magnólias floridas, a sala de jantar quase vazia, eu, sentada a uma mesa, envelhecendo num segundo, eu, com o rosto vincado de rugas, o cabelo branco, abreviando o meu sofrimento, a beber um copo de vinho, sem pensar em nada, a olhar para a jovem flautista de longos cabelos lisos.)

2016/07/08

Fim

2016/06/26

Batatas doces

Durante nove meses assistiu à alteração do seu corpo com distanciamento e estranheza. Às vezes, levava as mãos ao ventre, sentia o feto serpenteando como uma cobra. A gravidez não lhe suscitava amor antecipado pela cria, nem despertava qualquer instinto maternal, apenas uma sensação de extravagância que a confundia por não corresponder à habitual beatitude das primíparas. Mantinha-se à margem, não partilhando o entusiasmo de Ester que fez um enxoval luxuoso, digno de um pequeno príncipe: cueiros de piquet, toucas bordadas, casaquinhos de malha laminada, botinhas cardadas, interiores de fibras puras, muitos babygrows pedidos por catálogo, uns de veludo confortável, outros em jersey de algodão sem mangas e de pernas curtas para as noites mais quentes. Maria escudou-se numa alegria fingida e aguardou para ver. 
No dia do parto, por coincidência, domingo, estava sozinha em casa. O marido saíra logo cedo para comprar pão e lavar o carro. Naquele tempo, os homens de Sacavém tinham o hábito de se juntar, nas manhãs de sábado e domingo, no descampado junto à estrada nacional para a limpeza das suas viaturas. Encontravam no cumprimento desse dever uma desculpa para fugir dos filhos que, enfiados nos seus roupões de flanela, olhos ainda ramelosos, lhes pediam ajuda nos deveres de casa, também das mulheres, sobrolhos carregados, mãos na ilharga, exigindo a resolução de pequenos problemas domésticos: lâmpadas fundidas, canos rotos, algerozes entupidos, rachas e fissuras das paredes a precisar de betume. Salvos da ditadura doméstica, os homens aproveitavam essas manhãs para falarem de mecânica, partilhavam dicas sobre os melhores óleos lubrificantes, lavavam jantes e aplicavam ceras protectoras na carroçaria para evitar o aparecimento de manchas corrosivas de ferrugem. 
Na manhã em que deu à luz, Maria foi à casa de banho e despiu-se com dificuldade. Notou um muco gelatinoso, com laivos de sangue, nas cuecas. Olhou-se no espelho, nua. O seu corpo tornara-se num depósito, num enorme invólucro e isso, mais do que enternecê-la, aborrecia-a. Envergonhava-se desse tédio, julgando-se, por o sentir, indigna da maternidade. Apesar do corpo cheio, sentia-se vazia, simplesmente vazia. A meio da manhã, uma dor forte chegou e o útero empinou-se, rijo e piramidal. Maria percebeu que chegara a hora. Mudou de roupa e, sentindo uma calma que a espantava, deixou-se estar sentada no sofá da sala, aguardando que o marido voltasse. Chegou cansado, pouco passava do meio-dia, o jornal debaixo do braço, o saco do pão a rojar no chão. Antes que tivesse tempo de pousar as coisas em cima da bancada da cozinha, deu-lhe a novidade:
- Temos de ir para a maternidade.
- Rebentaram-te as águas?
- Ainda não, mas já tive três contracções.
O marido olhou-a com insegurança. Deu-lhe um abraço de tal modo apertado que Maria teve de pedir que a libertasse. 
- Olha que me sufocas! - Disse e, ao sentir a incerteza do marido, o enjoativo aroma do detergente que usava para lavar o carro, achou que o amava. Não era um amor de arrebatamentos, mas era exactamente o que queria, sólido, firme, um amor que chegava no tempo certo. 
O marido pegou na malinha que Maria preparara para a maternidade e desceu para ir buscar o Toyota Corolla que, há já algum tempo, passara a guardar numa garagem arrendada no prédio ao lado. Era uma despesa a mais, sobrecarregava o orçamento familiar, mas, depois da capota cinzenta ter sido vandalizada com uma pichagem solitária contra a propriedade privada, era a única forma de salvar a viatura da mesquinhez proletária de certa vizinhança sacavenense. Abriu a porta e, antes de que a mulher se sentasse, estendeu um oleado que, sem utilidade definida, costumava guardar no porta-bagagens. 
- É que podem rebentar-te as águas no caminho e ficam os estofos ensopados. 
Maria sorriu perante o sentido prático do marido. Lá fora, abafava. Era Outubro, tempo dos marmelos e dos aguaceiros brandos. Pela primeira vez desde que engravidara sentiu um desejo caprichoso e infantil. Lembrou-se das batatas-doces que a mãe costumava fritar às rodelas e que servia, como guloseima preciosa, na ceia de Natal. Teve vontade de as comer, cozidas, assadas, fritas, até cruas se preciso fosse. Quando voltasse da maternidade, pediria ao marido que as comprasse, havia de as fritar às rodelinhas muito finas, cobri-las com polvilho de açúcar e canela, tal qual a mãe fazia, comê-las vagarosamente, um prato cheio delas, uma de cada vez, até se empanturrar e saciar esse desejo que, chegando tardio, a confortava por a tornar igual às outras mulheres.

2016/06/23

O Joaquim partiu o pé. Colocou o gesso no dia em que o João, o mais velho, o tirou. Ando com ele ao colo para toda a parte. Gosto de o carregar nos braços; ele, pelo modo como se aninha, também. "Mãe, gostas da tua vida?", perguntou ontem quando me viu, era já muito tarde, a lavar o chão da cozinha. "Gosto filho, gosto muito.", respondi, sem mentir. Larguei a esfregona e levei-o para o quarto. Hoje, deitado na cama, com o gato aos pés, acabou, pela primeira vez na sua vida, de ler sozinho um livro de muitas páginas. Estava feliz. Eu também.