2016/06/17

Mulher de sucesso


O sol brilhava e o verde dos jardins da fundação pareceu-lhe diferente. Apurou o olhar, cerrando as pálpebras, e reparou que as trepadeiras mexicanas já tinham flor. Lembrou-se, então. Fazia quarenta anos. Não atribuía qualquer importância à data. Nunca celebrava o aniversário. Nem a insistência dos filhos - gostavam do bolo, das velas acesas, do ambiente de festa -  a fazia mudar de ideias. Não era a passagem dos anos que a maçava, mas a alegria forçada do festejo, sobretudo, a obrigação de retribuir amabilidades. O marido, porém, teimara desta vez. Sempre eram quarenta anos. Festejariam com os amigos mais próximos num restaurante excessivamente caro para o ambiente informal que tinha. O sítio, segundo os suplementos de domingo dos jornais, aliava simplicidade e sofisticação. Reinventava-se ali a confecção de produtos tradicionais, celebrava-se a herança gastronómica. O marido tratara de tudo. Fizera a lista dos convidados. Escolhera uma ementa audaz. Os amigos seriam surpreendidos, logo nas entradas, com a aparição de umas minúsculas bolas de berlin com recheio de santola. Deliciar-se-iam, de seguida, com uma terrine de bacalhau, coentros e espargos. Seguir-se-ia um tornedó de vitela com molho de burzigada. Por fim, ser-lhes-ia apresentado um creme brullé de castanhas aromatizado com aguardente de medronho. Afinal, a tradição devia ser preservada e os petiscos mais populares toleravam-se desde que fossem servidos em faiança estilizada de apurada qualidade. O marido procurara também o presente ideal. Pensara, a princípio, numa jóia que assinalasse a data. Pusera de parte a ideia. A mulher nunca usava jóias. Na verdade, um brinco, por discreto que fosse, uma pulseira, um fio de ouro, resultaria num excesso insuportável. Aninhas era bela. Não necessitava de adornos. O marido acabara por optar por uma viagem. Escolhera Buenos Aires. Lembrava-se de que, certa vez, não podia precisar em que ocasião, a mulher demonstrara interesse em conhecer a capital argentina.

Afastou-se da janela e olhou para a cama. O marido dormia, alheio à luminosidade que tomara conta do quarto. Notou-lhe as escápulas nuas e, por instantes, deixou-se estar a olhá-lo. Tomou um duche rápido e, com o corpo ainda húmido, entrou no quarto de vestir. A empregada deixara pendurado, numa cruzeta, a roupa que escolhera para aquela noite. Levaria um vestido verde azeitona, sem mangas, com um drapeado largo que parecia poder desmanchar-se a qualquer instante. Era um vestido simples mas que exigia a elegância de um corpo esguio. Continuava magra. A gravidez não a deformara, mas também não lhe acentuara a feminilidade. O seu corpo nu lembrava a inocência de um corpo imberbe, de menina prestes a ter a primeira menstruação. Era a sua beleza, a elegância natural, que lhe permitia, em certas ocasiões, usar cores fortes, experimentar combinações arrojadas, imprimir até, se lhe apetecesse, certo desleixo nas escolhas. Ignorava propositadamente as tendências da moda. Se a temporada exigia saltos de vírgula, Aninhas apressava-se a oferecer à empregada todos os sapatos que encontrasse no quarto de vestir com esse tipo de salto. Se as revistas de moda aconselhavam calças justas, fazia questão de as usar largas. Tinha um estilo sóbrio e simples. Usava a extravagância com comedimento, sem pinga de folclore ou exagero. Naquela manhã, a manhã dos seus quarenta anos, escolheu umas calças de ganga e uma blusa branca. Calçou uns sapatos confortáveis. Preparou-se para sair. Atravessou o apartamento cheio de sol. Os filhos ainda dormiam. Encontrou a empregada na cozinha, preparando para o almoço o seu prato preferido. Cumprimentou-a e pediu-lhe que levasse os filhos a passear nos jardins da fundação. Estava um sol tão bonito. 

Apanhou um táxi que atravessou a cidade e a deixou na avenida onde se situavam várias lojas de marcas internacionais. Entrou no salão. O dono do cabeleireiro veio recebê-la. Cumprimentou-a com um beijinho e ofereceu-lhe um chá. Aninhas recusou com delicadeza. O dono era um homem gordo, muito expansivo, cuja afectação se justificava pela clientela que conseguira reunir ao longo dos anos: jornalistas, deputadas, uma ou outra ministra, escritoras, professoras universitárias, algumas actrizes consagradas, mas nem uma única dessas celebridades que aparecem nas capas de revista por confundir a sua profissão com meretrício. Aninhas perguntou-lhe pelo companheiro que fora operado há pouco. Não o fazia com sinceridade, não era genuína a sua preocupação. Na verdade, sentia certa repulsa quando via o dono do salão abraçar o namorado, um rapaz novo que trabalhava como colorista. Sacrificava, porém, o seu conservadorismo ao estatuto que aquela aparente intimidade lhe conferia. O salão tinha uma clientela selecta. No entanto, apenas, um círculo muito restrito, a que Aninhas pertencia, tinha direito ao convite para o chá, servido numa porcelana finíssima, quase transparente. 

Vestiu uma capa preta e sentou-se na zona de lavagem. Inclinou a cabeça para trás. Era sempre a mesma rapariga que lhe lavava a cabeça. Sabia exactamente o peso exacto que devia colocar na ponta dos dedos. Geralmente, naquela posição, Aninhas sentia que o corpo passava a ser apenas um invólucro, não pensava em nada, fechava os olhos, relaxava, às vezes, dormitava. Porém, naquela manhã, talvez porque a rapariga lhe esfregasse o couro cabeludo com movimentos circulares mais firmes, pondo naquela massagem uma intensidade que não era habitual, deu por si a deitar contas à vida. Ia fazer quarenta anos. Quarenta anos. Tinha um casamento sólido, dois filhos, uma carreira de sucesso como analista sénior numa empresa de auditoria americana, viajava frequentemente na companhia do marido, conhecia o mundo através das janelas dos hotéis de cinco estrelas, vivia num apartamento espaçoso no centro da cidade com vista para os jardins da fundação. Tinha uma empregada interna, competente e silenciosa, que compensava a sua falta de vocação materna. Quando chegava a casa, encontrava os filhos com banho tomado, o pijama vestido, já jantados, os trabalhos de casa feitos, dúvidas tiradas, preparados para dormir. Nem uma nódoa de sopa nos pijamas, nem um vestígio de birras, nenhum choro, nenhuma lágrima. Abria a porta do apartamento, pousava as chaves do carro no móvel da entrada, beijava os filhos, sentia-lhes o cheiro perfumado da cosmética infantil francesa. Tinha sempre a sensação de que aquelas crianças não lhe pertenciam. Esse sentimento não a incomodava. A empregada idolatrava-a. Achava-a a mulher mais bonita da cidade e imitava-lhe certos gestos e expressões. Aninhas era-lhe grata, embora nunca o demonstrasse. A empregada suportava o fardo da maternidade e poupava-a à vergonha de um fracasso. Se um dia os filhos falhassem, saberia que a culpa não fora sua, mas da empregada que os educara.

Para além da casa, da profissão, dos filhos, do casamento sólido, Aninhas tinha também um amante. Conhecera-o há alguns anos nos jardins da fundação. Pouco depois de se mudarem para aquela zona da cidade, ganhara o hábito de passear nos jardins. Observava com atenção as moitas de rododendros, os jardins de buxo, conhecia a floração dos pilriteiros e dos morangueiros anões. Gostava de ler num recanto mais sombrio do jardim. Certa manhã, fora surpreendida por um homem que a interpelou sobre o livro que lia. Conversaram. O homem, professor de literatura moderna, achou graça ao desmerecimento que lhe mereciam os autores clássicos e consagrados. Aninhas não os lia. Achava-os enfadonhos, mas assumia, com espantosa assertividade, esse aborrecimento. Após alguns telefonemas, acceitou almoçar com o professor de literatura moderna. Numa tarde de tédio, beijou-o, e numa tarde de maior fadiga, despiu-se e adormeceu nos seus braços. Encontravam-se, desde então, ocasionalmente num apartamento com marquises de alumínio, perto da Paiva Couceiro. A relação com o amante, apesar de intermitente, era estável e duradoura, de alicerces fundos, betonada. Exactamente como o seu casamento.

Aninhas relacionava-se com o marido sem esforço. Conheciam-se desde liceu e havia entre eles uma simbiose perfeita, um desejo de conforto e estabilidade, uma ambição não totalmente assumida de fugir das suas origens. Provinham ambos de famílias de classe média, esforçadas e honestas. Raramente voltavam ao bairro onde haviam crescido, nos subúrbios da cidade, e tinham o cuidado de nunca misturar na mesma festa os familiares com os seus novos amigos. Faziam férias na Sardenha e iam à neve quando apenas as famílias das Avenidas Novas frequentavam as estâncias espanholas. Assim que os seus hábitos se tornavam populares – a democraticidade do consumo e a facilidade no acesso ao crédito levava muitas vezes a que tal acontecesse - passavam a desprezá-los como se nunca tivessem sido seus. A empregada funcionava, muitas vezes, como indicador daquilo que podiam ou não continuar a fazer. Ainda não há muito tempo, enquanto lhes preparava o pequeno-almoço, a empregada contara que aproveitara a folga de domingo para experimentar um restaurante japonês que abrira no Cacém. Gostara dos fritos e até do peixe cru. Aninhas escutou-a e sorriu ao marido. Souberam naquele instante que não voltariam a comer sushi. Acreditavam que a estratificação social, a divisão de classes, não passa pelo dinheiro que se tem, pela casa onde se vive, pelo carro que se guia, mas apenas pela sofisticação de hábitos e interesses. Aninhas e o marido raramente discutiam porque, na verdade, raramente falavam. Eram tidos pelos amigos, pela família, pelos vizinhos, pelos colegas de trabalho, como o casal perfeito, jovens, bonitos, realizados, viajados. 

Aplicava-se, porém, na traição. Tratava o amante de maneira diferente. Estimava-o. Esmerava-se por lhe agradar, acarinhava-o como se fosse uma criança pequena. Trazia-lhe sempre uma caixinha com os primeiros morangos da época e comprava-lhe cigarros importados que espalhavam um fumo azul e adocicado pelo apartamento da Paiva Couceiro. Aninhas não sabia se o amava. Sabia apenas que precisava dele. O seu casamento, o apartamento espaçoso com vista para os jardins da fundação, as viagens, a maternidade delegada na empregada silenciosa, toda essa vida de solidez e fruição dependia da manutenção daquela relação. Quanto mais conhecia o amante, os seus defeitos, a sua banalidade, o romantismo insuportável que o fazia dizer “Meu amor”, mais Aninhas se consolava com a sobriedade do marido, a ausência total de afecto, o modo frio como lhe tocava no rosto. Nessa manhã, a manhã dos seus quarenta anos, enquanto a rapariga lhe secava a cabeça com um turco macio, percebeu que conhecera na vida apenas esses dois homens: o amante e o marido. Era uma contabilidade miserável para uma mulher de sucesso. 

Passou para a sala dos espelhos. Não precisou de explicar à cabeleireira o que queria. Usava sempre o cabelo pelos ombros, liso, ligeiramente estruturado, sem pontas enroladas para fora. Assumia os cabelos brancos numa idade em que a maior parte das suas amigas discutiam a eficácia dos métodos de coloração. A cabeleireira só uma vez lhe sugerira fazer madeixas. Aninhas, sempre tão cordata, não se conteve. Olhou-a com desdém e explicou-lhe que tinha horror a tudo o que fosse postiço. Não era o seu carácter, a sua personalidade forte, que a levavam a cultivar a autenticidade, aceitando as marcas que a passagem do tempo ia deixando no seu corpo. Era a sua beleza que lhe permitia dispensar os artifícios da cosmética capilar e zombar das vantagens da coloração artificial. Se fosse feia, pintaria o cabelo, faria extensões, submeter-se-ia a cirurgias plásticas, seria fiel às tendências da moda, maquilhando-se, penteando-se, vestindo-se de acordo com os figurinos das revistas. Tornar-se-ia, como todas as mulheres feias que conhecia, num decalque patético de um ideal de beleza artificial e ordinário.  

Foi na sala dos espelhos, enquanto a cabeleireira lhe esticava o cabelo e a manicura lhe arranjava as cutículas, que o aborrecimento tomou conta de si. A conquista foi metódica e apanhou-a desprevenida. Apoderou-se primeiro do seu espírito. Depois instalou-se no corpo. Aninhas, sentiu que se esvaziava, perdia todo o interior de entranhas, órgãos, tecidos, cartilagens, ossos, águas ensanguentadas. Ficou oca por breves instantes. Mil bichinhos minúsculos entraram depois pelos orifícios do seu corpo. Sentiu-se pesada, como se o seu avesso fosse preenchido por uma massa plúmbea. O aborrecimento triunfara sobre a certeza de uma vida preenchida e realizada. Experimentou um enfado monumental. Aquela sensação pesava-lhe nos ombros, nas pernas, no corpo todo, atrofiava-lhe os gestos, roubava-lhe a ligeireza. Levantou-se para sair. Pensou que talvez o aborrecimento, de tão denso e corpóreo, pudesse ficar preso àquela cadeira, largando-a de vez. Mal deu dois passos, em direcção à porta da saída, percebeu que o levava consigo. 

Despediu-se do dono do cabeleireiro, desejou as melhoras do namorado colorista e apanhou um táxi para casa. Levava o corpo cada vez mais pesado. Temeu, por instantes, que o aborrecimento se transformasse em angústia e a fizesse chorar. Ia a soprar nas unhas pintadas de encarnado quando o táxi parou num semáforo. A praça central da cidade estava vazia e o sol parecia aproveitar a ausência de ruído e movimento para brilhar com maior intensidade ali. Cada janela, cada pedra de calçada, cada parede era um ponto de luz e calor. Olhou com desinteresse a estátua que marcava o centro da praça. Viu a mesma coluna de sempre e, lá em cima, com corpo de chumbo comido pelo verdete, a imagem do déspota esclarecido. Preparava-se para desviar o olhar quando reparou que, na base da estátua, numa das paredes de mármore, alguém escrevera uma frase a vermelho. A tinta parecia estar ainda fresca, nela ainda não assentara a poeira da cidade, nem a fuligem dos tubos de escape. Escrita a todo o cumprimento, podia ler-se a seguinte frase “Já não te amo, Maria”. Durante o tempo em que o carro esteve parado no semáforo, Aninhas fixou aquela frase. Esqueceu por momentos o aborrecimento que sentia. Ali estava, no meio da cidade, à mercê do olhar de todos, o anúncio do fim de um amor. A frase era desconcertante. Só os que amam pincham paredes com dizeres ridículos. Que alguém, deixando de amar, readquirindo desse modo a lucidez, se tivesse dado ao trabalho de anunciar esse facto era coisa que não conseguia compreender. Aninhas desviou os olhos da estátua. Sempre achara que o amor era dispensável e tornava as pessoas imbecis. Percebia agora que o desamor era igual: dispensável e tornava as pessoas imbecis. 

Entrou em casa passava já do meio-dia. A empregada não voltara ainda do passeio nos jardins da fundação com os filhos. Um cheiro morno de pastéis de carne acabados de fritar espalhava-se pelo apartamento. Dirigiu-se ao escritório, arrastando, como se de um parasita gigante se tratasse, o seu corpo de aborrecimento. Encontrou o marido sentado, falando ao telefone. Combinava qualquer coisa para o jantar. Pela conversa, percebeu que não se arranjava santola suficiente para as entradas. Do outro lado, sugeriam rillete de faceira de porco ibérico. O marido concordou com a sugestão. Aninhas esperou que terminasse. "Quero o divórcio.", explicou-lhe, mal o viu poisar o telefone. No preciso instante em que as palavras se soltaram da sua boca, sentiu-se menos pesada. Pareceu-lhe, mas não podia assegurar, que os minúsculos bichinhos a abandonavam, chiando de excitação, e, como bolas de chumbo minúsculas, se espalhavam pelo soalho nacarado do escritório. O marido levantou os olhos. Aquiesceu sem lhe exigir justificações. Não conseguia explicar a decisão da mulher, mas, por outro lado, não a estranhava. Levantou-se e olhou pela janela os jardins da fundação. As sequóias pereceram-lhe feias e as tílias floriam em cachos brancos. Sem se virar para Aninhas, disse-lhe apenas que talvez fosse melhor desmarcar o jantar. Trataria de tudo. Nessa mesma tarde, depois de ligar aos amigos, fez as malas, despediu-se dos filhos e mudou-se para casa dos pais que viviam numa vivenda camarária que se esboroava em caliça na Amadora. A mãe recebeu-o com alegria. Sempre tolerara a nora, a impertinência daquela beleza altiva, a educação esmerada, o desprezo pelas origens burilado ao limite até se tornar numa simpatia que parecia genuína. As mulheres perfeitas, sabia-o bem, não existem. As mulheres, mesmo as perfeitas, não conseguem calar a sua natureza. Feitas a partir de uma costela, há nelas um desejo adormecido de rebelião. Cedo ou tarde, acabam por prescindir do corpo que lhes deu vida. Só assim se libertam. Só assim sossegam.   

Aninhas viu-se sozinha na noite dos seus quarenta anos. A empregada não fez perguntas. Deitou as crianças e recolheu ao quarto onde se entreteve a ver telenovelas brasileiras com os sapatos de salto de vírgula calçados. O apartamento estava mergulhado em penumbra e sombras. Era uma escuridão que a consolava. Lá fora, a noite caíra sobre os jardins da fundação, escondendo as tílias, os pilriteiros, os rododendros; só o perfil, levemente assustador, das sequóias permanecia visível. Aninhas sentou-se no escritório. Faltava-lhe fazer uma coisa. Precisava de ligar para o apartamento das marquises de alumínio, na Paiva Couceiro. Custava-lhe mais acabar a relação com o amante do que a relação com o marido. O casamento assentava num contrato e Aninhas sabia que a dissolução dos contratos se encontra prevista na lei, tutelando interesses, dividindo patrimónios, acautelando as opções de cada um. A lei parametriza a vida; cuida, de forma asséptica e eficaz daquilo que começa, mas também de tudo o que termina. A relação com o amante, porém, não assentava em premissas definidas, era volátil, inexistente. Não havia direitos, nem deveres, nem salvaguardas. Assentava apenas em sentimentos. 

Aninhas pensara durante a tarde. Nenhuma justificação lhe pareceu razoável, suficientemente plausível para acabar com aquela relação que pouco exigia e nada deixaria. Na penumbra do escritório lembrou-se então da frase que encontrara nessa manhã escrita na base da estátua na praça central da cidade. Discou o número da casa do amante. "Já não te amo, Rui.", disse-lhe com clareza, antes que ele pudesse cumprimentá-la. Era uma frase curta. Dita de supetão, não lhe exigia fingimento ou dissimulação. Porém, de tão absurda, ao dizê-la, teve vontade de soltar uma gargalha pequena. Pressentia que o amante sofria do outro lado da linha. Talvez chorasse quando desligasse o telefone. Dificilmente encontraria nos corredores da faculdade uma mulher como ela. Costumava desabafar, nas horas clandestinas que passavam no apartamento de marquises de alumínio, que as colegas cultivavam uma feminilidade esclarecida. Não tiravam o buço e, no tempo quente, usavam vestidos pingões que mostravam corpos macilentos. Aninhas não lhe queria mal. O amante, no fundo, assegurados que estivessem os mínimos de beleza e voluptuosidade, acreditava na igualdade de géneros, nas relações assentes no diálogo, nos sentimentos nobres, no amor, enfim. Era um bom homem, mas demasiado moderno para perceber que a sua decisão assentava em critérios de pura racionalidade. Não lhe podia explicar que já não precisava dele. Terminado o casamento, podia acabar com a relação que o sustentava. Aninhas sabia o que fazia: deitava-o ao lixo. Dispensava-o como aos sapatos com salto de vírgula que oferecia à empregada.

(Escrito  aos trinta e cinco anos. Achava que sabia escrever e os quarenta pareciam-me ainda distantes.)

Covinha



2016/06/16

Mãos

Todos os dias, enquanto espero a minha vez, desejo ser atendida pela D. Madalena ou pela Iris, uma rapariga de sorriso trocista e magníficos sobrolhos desenhados. Não tenho sorte. “Bom dia. O que deseja?”, pergunta a Lurdes com maus modos, seca, a querer despachar serviço. Respondo-lhe, procurando não olhar para as suas mãos, tento pensar noutras coisas. O esforço é inglório. Quanto mais tento pensar noutras coisas, mais o meu olhar é atraído para as mãos da Lurdes. Acabo, num vislumbre rápido, por fixá-las. Vermelhas, como se tivessem sido escaldadas em água a ferver, as canículas arrancadas, a polpa dos dedos esfarelada, as unhas postiças a esconder as verdadeiras, escamadas, amarelas de micoses e fungos. Sei que são assim porque volta e meia, à Lurdes, cai-lhe uma unha postiça e vejo o que está por baixo. Umas mãos assim devem cheirar a alhos grelados. Não aguento a visão das mãos da Lurdes. Fico agoniada. Sinto culpa por sentir agonia perante umas mãos que trabalham. Podia tomar o pequeno-almoço noutro café, no refeitório do banco, mas estou habituada a começar o dia ali, no snack-bar do Apolo 70, com o jornal, um café duplo e um pão com manteiga, entretida com as notícias, quase sempre distraída a observar quem passa. Os meus companheiros de pequeno-almoço, aqueles que diariamente espio, cujos gestos e manias conheço há muitos anos, são sempre os mesmos: o padre reformado que traz o buldogue ao colo, o ajudante de farmácia vaidoso, a mulher feia despeitada que critica a beleza alheia, a costureira pequenina da cave, sentada ao balcão de pernas cruzadas, os indianos da loja de telemóveis, rapazes sérios de bigodinhos ralos. Leio o jornal, bebo o café, trinco o pão com manteiga. Mal o mastigo. A minha vontade é deixá-lo no prato, mas tenho medo que a Lurdes perceba de que não o como por ter nojo das mãos que o prepararam. Não quero ofendê-la. Não gosto de ofender ninguém.

2016/06/15

Duas



Comprou uma marreta, partiu-se em duas e, numa só, foi Adalgisa e Adaljosa. 

2016/06/14

Ponta dos dedos

Não sou deus, mas para lá caminho. A escrita salvou-me. Já não apanho o comboio das oito para trabalhar num edifício de escritórios. Já não como frango assado aos domingos. Deixei de cheirar mal dos pés. Desaprendi o significado de palavras que escrevi durante muitos anos: litispendência, discricionariedade, réu, citação. A escrita melhorou a minha vida: curou-me do melasma, emagreci cinco quilos e aprendi a mastigar de boca fechada. Também deixei de coçar os pêlos púbicos para depois cheirar a ponta dos dedos. Tal gesto, parece-me, não fica bem a quem escreve. Uma vez por outra, de vez em quando, tenho vontade de ir passear ao outlet de Alcochete para ver as montras dos saldos, mas rapidamente esqueço esses devaneios e mergulho nos poemas do Dylan Thomas. Talvez um dia me atreva a escrever poesia. 

Consolo

2016/06/13

Flauta azul

Cortava o pequeno lombo de porco aos cubos, para depois o fritar para o jantar dos miúdos, quando o sol, de um amarelo moribundo, mas intenso, da cor do açafrão, bateu nas minhas mãos ensanguentadas fazendo desenhos de luz. As minhas mãos são pequenas, de dedos curtos e unhas roídas, feias, mas o sangue e o sol transformaram as minhas mãos. Se soubesse desenhar, desenhá-las-ia naquele preciso instante. Peguei na garrafa de cerveja e bebi o que dela restava. Com esse gesto, pegar na garrafa e levá-la à boca, as minhas mãos fugiram do sol. Isso afligiu-me profundamente. Ouvi as instruções de Julie. Une flute? Une flute. E o som frágil, mavioso, de uma flauta azul inundou a cozinha. Continuei a cortar a carne. Novamente o sol indiano nas minhas mãos. 

2016/06/10

Hora de jantar

Ninguém podia falar. O pai exigia silêncio. De olhos postos no televisor, comendo devagar, prestava atenção às notícias que a locutora ia apresentado. O jantar era sempre assim: o pai vendo o telejornal, os filhos comendo em silêncio, a mãe, em frenesim tardio, depois de um dia de trabalho, despachando o que houvesse a despachar para estar pronta à hora da telenovela. Ana estava bem avisada sobre a postura que devia ter durante a refeição: silêncio absoluto para não perturbar o pai e, se possível, se quisesse agradar-lhe, mostrar interesse nas notícias. Por vezes, distraía-se. Esquecida das ordens, falava com a irmã mais nova. Lúcia era habilidosa com as mãos. Para controlar a ansiedade que o silêncio imposto lhe causava, tinha o hábito de fazer dobragens com as folhas translúcidas dos guardanapos. À hora do jantar, saiam das suas mãos cravos, nenúfares, pequenas rosas.
- Que rosinha tão linda!
- Gostas?
- Ensina-me a fazer…
- Tu não és capaz, Ana!
- Sou sim!
- Tens sempre negativa a Trabalhos Manuais…
- Estúpida.
Riam-se. O pai não dizia nada quando via as filhas alegres, continuava a ver televisão, mas descaíam-lhe os cantos da boca, os olhos ficavam gelados. Carlos, o filho mais velho, chumbara já duas vezes no curso de Direito, era um desgraçado, nunca seria ninguém na vida, as raparigas, via-se bem, iam pelo mesmo caminho. Duas filhas, duas ignorantes que se deslumbravam com flores de papel em vez de se interessarem pelas notícias do mundo. A mãe, aflita, temendo que a desilusão do marido se transformasse em raiva, abria os olhos. “O vosso pai está a ver o telejornal!”, acabava por dizer. Lúcia logo esmagava a flor de papel na mão. Calava-se. Ana fingia não ouvir, mas, quando o pai por fim a mandava calar, desprezo na voz, calava-se também. Aquilo custava-lhe. Sentia então raiva, fazia por se controlar, não podia responder, a resposta poderia desencadear reacções violentas no pai. Ana, nesses instantes, assustava-se: pressentia que se tivesse ao seu alcance uma pedra, uma faca bem afiada, mataria o pai. Mexia com o garfo o arroz branco no prato. Não gostava de arroz branco, mas em casa, para além das batatas a acompanhar o peixe cozido, apenas se comia arroz, sempre branco, sempre cozido em água e sal. O pai só gostava de arroz branco. Observava os azulejos das paredes, a mãe, numa azáfama, de volta do fogão e do lava-loiças. Tudo era triste e desolador: o egoísmo do pai, a subserviência da mãe, a violência contida em cada gesto à hora de jantar.
Passados alguns anos, já Ana e Lúcia eram adolescentes, Carlos saíra de casa para viver num quarto alugado, o pai – talvez por sugestão da mãe – passou a jantar sozinho na sala. Depois de tomar banho, de robe e pijama, sentava-se na poltrona em frente da televisão. Cheirava bem, a sabonete e champô, estava limpo, tinha mãos bonitas, um cabelo espesso, muito preto. Ana sentia vontade de se sentar ao seu lado, mas não era capaz. O pai era um estranho, um homem que vivia na mais completa solidão. Antes de começar o telejornal, a mãe levava o tabuleiro à sala: um pano lavado, o arroz na quantidade exacta, uma costeleta frita, molho sobre o arroz, a acompanhar, um copo de vinho. Voltava depois à cozinha, onde, sentadas à mesa, Ana e Lúcia a esperavam para começar a jantar. Comiam em silêncio. Estavam habituadas ao silêncio. Tudo continuava a ser triste e desolador. Só o pai, concentrado nas notícias, sem ter ninguém a perturbá-lo, parecia agradado com a mudança. A sua felicidade era evidente: estava acompanhado pelo mundo e sua gente, mas livre da família.

2016/06/09

Lucia Berlin



Como um livro de contos pode ser um extraordinário romance.

2016/06/07

Menino Jesus

Falei durante trinta e nove minutos e quatro segundos, ao telefone, com o meu melhor amigo. Falámos sobre o Zola, a Lucia Berlin, a Inês Fonseca Santos, o Diogo Vaz Pinto - não o disse ao Ricardo, mas acho que fazem um lindo par -, e também sobre as bebedeiras do meu filho João. É bom ter um amigo. Sinto-me tão feliz por ter o Ricardo na minha vida que bebo mais um copo de moscatel e danço para o gato com floreados grotescos de mãos cansadas.

2016/06/05

Comportamento incaracterístico selvagem

O gato dorme em cima do frigorífico. Fumo, bebo e escuto o Elvis cantar "Suspicious minds" . Leio a bula da fluoxetina. Deixei de a tomar em Outubro de 2014. A ela volto. Já não recordava a extensa lista de efeitos secundários: dificuldade de engolir, diarreia, arrepios, dores de cabeça, alterações do sono ou sonhos anormais, euforia, movimentos involuntários, agitação extrema, perda de cabelo, disfunção sexual, secura da boca, falta de ar, erecções prolongadas, comportamentos de automutilação, e, o meu preferido, comportamento incaracterístico selvagem. “Deve evitar o álcool enquanto estiver a tomar este medicamento”. São divertidos os folhetos informativos dos medicamentos. Não se devem levar muito a sério, caso contrário uma pessoa dá em doida. Engulo um comprimido com um gole de moscatel de Setúbal. É tão docinho. Amachuco a folha de papel numa bola e atiro-a para o corredor. O gato desperta do seu sono e, ziguezagueando de um modo estranho, aos gangões, corre para a apanhar. Estaria a ter um sonho anormal? Abro a agenda e leio os textos que escrevi nos últimos dias, o início de dois contos, a imitar descaradamente o estilo da Lucia Berlin, as habituais notas sobre o dia-a-dia: aulas de natação, passeios no parque depois das aulas, discussões com o João, julgamentos, um grupo de rapazes na pizzaria, os olhos do meu pai, episódios do Inspector Morse, o choro incontido e em toda a parte, o aniversário do Sr. Branquinho no restaurante Chocalho em Alcáçovas. Uma a uma, lentamente, rasgo as folhas escritas da agenda. Faço bolas de papel. Atiro-as em todas as direcções. O gato está eufórico. 

2016/06/02

2016/06/01

Lucy

Li, por estes dias, um livro do Coetzee. Lá para o meio do romance há uma violação brutal, primitiva, africana no pior sentido, a fazer lembrar o tal profeta Joseph Koni de que ontem falava o jornal. A violência da cena, é muita, também é dada pela reacção da vítima, uma jovem mulher, que, não sendo assumidamente lésbica, prescinde da companhia dos homens. Essa mulher aceita a sujeição ao sujeito soberano. É essa inicial passividade, motivada por razões ideológicas, que, mais do que a violência física, violenta o leitor. É bom escritor, o Coetzee, dos que mais gosto de ler. Mas, consumada a violação, quando, em meia dúzia de linhas, se debruça sobre, como lhes chama, os assuntos de sangue das mulheres - menstruação, parto e violação - escreve o seguinte: violar uma lésbica é pior do que violar uma virgem: é um golpe mais forte. Li, sublinhei, reli, tenho pensado muito no assunto e juro que ainda não percebi. Deve ser preciso ser homem, ter certo discernimento, para perceber.

(1 de Maio de 2012)

2016/05/31

Recreio

Quando o Ricardo ligou estava no recreio da escola do Joaquim a observar uma menina que lia uma história para outra meninas. O meu amigo queria saber se estava contente com o prémio atribuído ao Raduan Nassar. Há tempos, dois, três meses, falei-lhe, entusiasmada, da minha descoberta: descobrira por acaso "Menina a caminho e outros contos" numa livraria da Baixa e, por influência do João Pedro, lera "Um copo de cólera". Olhei o recreio da escola. As meninas que escutavam a história usavam vestidos de alças, a menina que lia estava descalça e tinha uma saia de padrão florido. A literatura, sobretudo os prémios literários,  pareceram-me um assunto irrelevante. Disse-lhe que não. 

Odeceixe

Em Leiria, enquanto esperava pela hora do julgamento, pernas estendidas ao sol, li outro conto da Lucia Berlin. Estou rendida à sua escrita. “Dor fantasma” fala sobre envelhecimento, demência, velhas senis que se masturbam, velhos que sentem as pernas que já não têm, de um pai que não sabe amar, de uma filha que espera palavras simples que nunca chegarão: gosto de ti, és minha filha e, independentemente das tuas escolhas, do teu sucesso, amar-te-ei sempre. Fiquei paralisada. Sei-o há muito. Escrevo por causa do meu pai, do amor e da mágoa que sinto, para lhe mostrar que valho alguma coisa. É uma fraca razão para se escrever. Corro a contar-lhe se saí uma crítica ao livro (merdoso livro), exactamente como, em adolescente, no liceu e na faculdade, fazia com as notas. Contive o choro e imaginei que deve ser bom chorar no ombro de alguém. No ombro de um pai. Quando o meu pai morrer hei-de escrever sobre a melancia que se partiu em Odeceixe. 

Ana e Andrea




2016/05/29

Contenção

O Reinaldo veio jantar cá a casa para me ajudar com o IRS. Lembrando-me de que era um dos seus pratos preferidos, fiz rancho para o meu ex-marido: enchidos, grão, massa, as verduras cozidas em muita água com uma pitada de bicarbonato de sódio para avivar a cor. Foi um truque que a minha sogra me ensinou. A minha sogra definha num caixão, transforma-se em pó, nada, mas as folhas de repolho, com as suas nervuras, ganharam um tom vibrante, intenso, muito bonito. Enquanto cozinhava, de pé, livro aberto na bancada da cozinha, cigarro a arder no cinzeiro, li um conto da Lucia Berlin. Ontem, na feira do livro, comprei um livro de contos da Carson Mccullers e outro da Eudora Welty. Já não compro romances, só livros de contos. O conto tem o tempo exacto, contenção. É isso que procuro na literatura: contenção. O meu ex-marido comeu com prazer, repetiu, elogiou-me a mão para a cozinha. Com a sua ajuda, ultrapassei o calvário da entrega anual da declaração fiscal. Bebemos duas garrafas de vinho, conversámos, rimos ao lembrar a minha histeria no barco pirata do Zoomarine. À saída, andava ainda a Madalena a preparar a mochila para amanhã, pedi-lhe que me abraçasse. “ Que se passa, Nita?”, perguntou e envolveu-me com os seus braços enormes. “Nada”, respondi e entreguei-me ao braços do gigante. 

Letra miudinha

O Joaquim é o rapaz dos cadernos. Tem um caderno das flores, um caderno das folhas, um caderno dos desenhos, um caderno das histórias e, há três dias, descobriu  um caderno que enfeitou com brilhantes autocolantes que a minha mãe trouxe de Goa. É o seu diário. Todas as noites, já cansado, enfiado por baixo de edredão, só se vê a sua linda cabeça cheia de caracóis, escreve longos textos sobre o seu dia numa letra miudinha que, quando a espreito, me dá vontade de chorar. Como me atrevo, pela manhã, aos pensamentos mais sombrios, mais desesperados? O amor aos meus filhos, só esse, é absurdo, paradoxal: salva-me e condena-me. Explico-lhe que não precisa de contar detalhadamente o que acontece em cada um dos seus dias, pode escrever apenas uma frase sobre o que mais o marcou, a comida sensaborona do refeitório, uma brincadeira no recreio, as participações disciplinares do Sandro, um episódio do Mundo de Gumball. Olha-me demoradamente e contrapõe: “Mas assim não é um diário, mãe. É outra coisa qualquer”.  

2016/05/28

Água



2016/05/27

Sichuan

Fiz o pedido ao homem das longas unhas afiadas: frango frito com amêndoas para a Madalena, galinha com castanhas para o João, chop-suey de porco para o Joaquim, uma garrafa de vinho branco para mim. Esperei encostada a uma palmeira artificial. Enquanto lia a ementa, espantosa a quantidade de pratos, o restaurante vazio encheu-se de turistas chineses. Gente ruidosa e alegre, mulheres de cabelos frisados, crianças gordas, homens feios, duas velhas quase carecas. Deviam ser de Sichuan que é a única província da China que conheço. Sentaram-se em mesas redondas, de centro giratório. Um homem sentou-se sozinho numa pequena mesa. O homem fez-me levantar os olhos da ementa. Chamou-me a atenção, não só pelo corpo robusto e musculado, pouco usual nos asiáticos, mas também por trazer na cabeça um insólito boné preto com dois chifres. Nunca o tirou. Sozinho, afastado do grupo, excluído, o minotauro olhava fixamente para uma rapariga sentada entre as velhas carecas.

Passado pouco tempo, ainda só tinham chupado gomos de laranja e sorvido ruidosamente um caldo escuro, os turistas chineses, incluindo as duas velhas quase carecas, levantaram-se e saíram porta fora. A rapariga, ao passar por mim, sorriu-me. Senti nela o cheiro que senti na turista alemã na Sé de Évora. Olhando-a, perguntei-me se, na cama, miaria como uma gata. As chinesas dos filmes pornográficos miam sempre como, se em vez de mulheres, fossem gatas. O minotauro começou a comer. O tempo passou, dez minutos, quinze, até que o homem das longas unhas afiadas trouxe o meu pedido. Ofereceu-me três chupa-chupas e uma pequena porção de hóstias de camarão. Na rua, a caminho do carro, olhei à procura do grupo de turistas chineses. Imaginei que estivessem à porta do restaurante a tirar fotografias. Não estavam. Aliás não estavam em parte nenhuma. Chovia na diagonal e a luz pareceu-me irreal. Senti, como sinto muitas vezes, estar dentro do sonho de alguém. Meti uma hóstia de camarão na boca e voltei para casa.

2016/05/25

Favos de mel

Uma luz branca, intensa, ilumina o rosto da minha filha. Na bancada, o Sr. Orlando enche o molde com uma pasta lilás. O protésico tem um nariz feio, redondo, inchado. É igual ao nariz do bêbado que, nos dias da consulta de psiquiatria, às sextas-feiras, encontro na Avenida de Paris. O bêbado causa-me repulsa e os dois sem-abrigo que, mais adiante, pedem à porta do Pingo-Doce também. Apesar da miséria, da solidão, até da loucura, não sou capaz de sentir compaixão pelo bêbado ou pelos sem-abrigo da Avenida de Paris. Não sei se quero sentir compaixão. De que serve a compaixão inconsequente e transitória que sentimos pelos excluídos da vida? A compaixão é um sentimento menor e, no entanto, e nisto reside a minha mesquinhez, desejo que os outros sintam compaixão de mim. Quando saio do consultório do psiquiatra quero apenas caminhar, sentir prazer por colocar um pé em frente do outro, observar a estrutura de ferro das portas dos prédios da Avenida de Paris. Favos de mel. Atravesso a rua para não ver os indigentes da cidade, sobretudo para não sentir o cheiro que os seus corpos liberta.

2016/05/24

Saxofone



- Mãe, por que ouves sempre a mesma música?
- Porque me faz lembrar o João Pedro.
- É por isso?
- É. O João é o saxofone do John Coltrane.
- Mas faz-te infeliz.
- Sim, é verdade.
- Odeio esse homem.
- Eu também. 

2016/05/23

Tazio

Quando se debruça para receber a moeda, apoiando a mão transpirada no vidro, pergunto-lhe quantos anos tem. “Faço vinte e um na próxima semana.”, responde e, ignorando o meu sorriso, a sedução espelhada nos meus novos Clubmaster, segue entre os carros de mão estendida. Usa, como sempre, calças justas e camisola de alças. Em vez dos habituais ténis, traz umas sandálias de couro. Espreito pela janela do carro para lhe ver os pés.  Certa vez, deitei-me com um homem mais velho, bonito, bom amante, tive dois orgasmos em pouco mais do que uma hora, mas, quando se levantou, vi uns pés feios, deformados, com dedos esguios, compridos, encavalitados uns nos outros, grandes joanetes. Não voltei a encontrar-me com esse homem apesar de, durante algumas semanas, me telefonar para marcar novo encontro. Sempre que nele pensava, a primeira imagem que me vinha à cabeça era a dos seus monstruosos pés. Imaginava-me na cama sendo pisada por aqueles pés. Decido que se Marina tiver pés bonitos, condizentes com a beleza do seu corpo, na próxima semana, quando fizer anos, ofereço-lhe um exemplar de “ A morte em Veneza”. Debruço-me pela janela, mas  só lhe vejo os calcanhares.

Dudamel

2016/05/22

Alcáçovas

De Évora a Alcáçovas o caminho faz-se por uma estrada quase deserta. As bermas estão floridas: giestas, cardos roxos, azedas, papoilas. No céu limpo voam andorinhas e cegonhas. Os campos, ondulações suaves e verdes, pontilhados de azinheiras e grandes pedras, guardam memória do vento e da chuva. Conduzo devagar apesar de ter pressa de chegar. Quero prolongar a volúpia que sinto perante tanta beleza, preciso de tornar o caminho mais longo. O Joaquim reclama. Tem fome. Atiro uma maçã para o banco de trás e penso que às vezes a vida é uma fantasia maravilhosa. Ou uma risota mesquinha. Ainda bem que o rapaz bebeu até cair de podre. Ainda bem que encontrou a inglesa. Ainda bem que a heroína lhe fez parar o coração. Morto, não dará mais desgostos à mãe e à avó, sossegarão a partir de agora, uma e outra vestidas de preto. Hão-de recordá-lo menino, gordo, de mãos papudas e joelhos tortos, a fazer os trabalhos de casa na mesa da cozinha. Sim, repito para mim própria, e reparo num corvo pousado num tronco velho que solta um grito estridente, ainda bem que o rapaz morreu. Se não tivesse morrido, não estaria aqui, na estrada que vai de Évora a Alcáçovas, para ir ao seu funeral. 

2016/05/18

Magnetismo



(Marina, a linda malabarista dos semáforos, é parecida com a rapariga do video. Nova, muito nova, cheia de vida. Durante o jantar expliquei aos meus filhos que decidi ser lésbica. O pequeno ficou triste, os mais velhos riram-se.)

Marina

Voltei a encontrar Marina, a malabarista do semáforo da Avenida EUA. Mudou de poiso. Por isso não a vi durante meses. Pára agora num cruzamento perto do aeroporto. Acho-a diferente. Deixou crescer o cabelo. Cai-lhe, liso e preto, pelas costas. Engordou um pouco, mas o peso favorece-a. Voltou a ter formas, rabo redondinho, as mamas empinadas balouçam livres na camisola de alças. Já não usa o ridículo gorro vermelho. Qualquer coisa se alterou na rapariga dos malabares prateados. Não sei bem o quê. Já eu, no cruzamento perto do aeroporto, como no semáforo da Avenida EUA, continuo presa à beleza que, sem saber, Marina traz à minha vida. Quando ela avança de mão estendida entre os carros, segura, sinto uma estranha languidez, tenho vontade de lhe tocar.

2016/05/17

Canasten

Ia pela Avenida de Berna a pensar em certo violoncelista e em certa clarinetista da Orquestra Gulbenkian. O violoncelista faz-me lembrar “ Os dias de abandono”, o conto da Elena Ferrante que mete a um canto a sua restante obra. A clarinetista, tenho quase a certeza, foi minha colega no ciclo preparatório e chama-se Paula. Naquele tempo, parecia uma macaca, era a melhor aluna e tinha uma cadela amarela que se chamava Popsi. As voltas que a vida dá. A caminho do concerto, pensando na minha resolução de fim de ano, a única que tomei, senti-me feliz. Uma vez por mês, já não é mau, vou à Gulbenkian. Escolho um concerto, leio alguma coisa sobre os compositores e, para que os meus ouvidos se habituem, escuto as obras. Assisto aos concertos com um deslumbramento intenso, iniciático, ingénuo, palpita-me o coração, os finais apoteóticos arrebatam-me. Nesses dias, em que me sento sozinha numa das cadeiras do auditório da fundação, adio o momento em que volto para casa, faço o jantar, varro o chão e cuido dos meus filhos. Isso também me agrada. Continuei a andar. Olhei para o pespontado dos sapatos novos e esqueci a tristeza das últimas semanas.

Foi então, já nos jardins, que uma comichão intensa se fez sentir precisamente no meu epicentro, que é, como quem diz, na minha vagina. Apesar da aplicação de pomadas, dos comprimidos vaginais enfiados com um longo aplicador, volta e meia, a candidíase volta. Veio fulgurante, desta vez. Um prurido crescente, explosivo, vindo das entranhas mais fundas, parecia ser capaz de rebentar comigo. Apressei o passo, entrei no edifício. Nas escadas que descem para as casas de banho, duas mulheres, casacos pelos ombros, colares de pérolas sobre blusas caras, conversavam. Ao lado, num grupo animado, uma outra mulher deu uma gargalhada afectada e ajeitou o cabelo num gesto de sedução. Passou, sorumbático, quase cadáver, um dos fundadores do PSD. Imaginei-me no meio daquele gente, desesperada, a rebolar no chão, a meter as mãos dentro das calças, a coçar-me freneticamente como se tivesse pulgas, chatos, carraças. Comecei a rir. Sou uma deprimida que ri muito. O riso, em vez de me aliviar, acicatou a comichão. Desci as escadas, pulando degraus, enfiei-me na casa de banho e acabei com aquele tormento.

2016/05/16

Efeitos da liberdade

Eu pertenço a uma família de profetas aprés coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de Maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar. Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico. No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado. 
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo. No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: 
– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que… 
– Oh! meu senhô! fico. 
– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos… 
– Artura não qué dizê nada, não, senhô… 
– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha. 
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos. 
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. 
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu. 

Machado de Assis, crónica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de Maio de 1888, uma semana após a abolição da escravatura no Brasil

2016/05/14

Charulata



Charu esquece a mágoa do cuco e escreve sobre a sua aldeia. 

2016/05/13

Dezassete segundos

Há uma aldeia em Goa que se chama Nuvem. Nessa aldeia, vive Fidélia, uma sinhá-moça que herdou duas fazendas em Paraíba, uma com quinhentos escravos, outra com setecentos e cinquenta. Fidélia demorou precisamente cem dias a atravessar o mundo para chegar a Nuvem. Não sabe por que veio, talvez para se livrar de Tristão e da herança, mas gostou da aldeia e ficou. Todos os dias acorda de madrugada, só para ver as mulheres sair da pequena igreja, depois de assistirem à primeira missa. Àquela hora do dia, a neblina matinal cobre o alçado do templo e as mulheres, apesar das pernas feias, corpos franzinos, com os seus longos cabelos negros, parecem-lhe estranhas fadas. Fidélia volta para casa às dez horas. Senta-se numa cadeira de baloiço e come o balchão de camarão que Rosa lhe prepara. Às vezes, depois de comer o balchão, sentindo ainda a boca ardente, passeia no jardim da casa. Observa as árvores, as aves e as flores. Espanta-se por serem tão diferentes das da sua infância. À tarde, quanto todos se deitam, Rosa, Maria e Pancrácio, o escravo que trouxe de Paraíba, Fidélia escuta os concertos de Brandenburgo, sobretudo o terceiro concerto, sobretudo o segundo andamento do terceiro concerto. Tem apenas dezassete segundos. Sentada na sua cadeira de madeira rosa, na mais completa solidão, no silêncio que nunca termina, Fidélia, a sinhá-moça de Paraíba, passa os dedos na boca ardente. Pensa então que a vida devia ser assim: ter exactamente dezassete segundos, ser um início, um suspiro, um curto lamento. Fidélia atravessou o mundo, viu fadas sair da igreja da aldeia, comeu balchão de camarão e escutou o segundo andamento do terceiro concerto de Brandenburgo. Não tem mais nada para fazer. Sente um enorme cansaço por ter tanta vida para viver.

Sexta-feira

Os mais novos estão com o pai. Não sei por onde anda o mais velho. Arrumei a casa ao som das Variações Goldberg. Desde que a Graça deixou de vir (não tenho como pagar-lhe o ordenado), a casa enche-se lixo. Vejo sujidade em toda a parte, manchas nos tapetes, bolas de cotão nos cantos, sarro nas loiças sanitárias, gordura nas juntas, pó nos livros, nódoas nas colchas, e assusto-me. A sujidade é um sinal do meu desnorte. Detesto sujidade. Consegui limpar os quartos, as casas de banho e a cozinha a tempo de, durante a vigésima segunda variação, a minha preferida, parar para fumar um cigarro. Escrevi um pequeno texto baseado na Fidélia do Machado de Assis e saí para comprar o jantar: um pacote de batatas fritas, duas carcaças e uma garrafa pequena de vinho branco. Voltei a casa. Troquei as Variações Goldberg por Stabat Mater de Pergolesi. Abri uma carcaça, que recheei de batatas fritas, e enchi um copo de vinho morno. Senti-me imediatamente cheia de paz. Talvez Deus me habite. O gato veio roçar-se nas minhas pernas. Peguei-o ao colo e sussurrei “amorzinho querido”, exactamente como fazia aos meus filhos quando eram pequenos. 

Fanfarra

Às vezes, antes de adormecer, imagino o meu funeral. Para além dos colegas de trabalho, conheço pouca gente. Tenho três amigos. A minha família é pequena. A ideia do meu caixão descendo às profundezas da terra, com meia dúzia de pessoas em redor, mais do que me entristecer, humilha-me. Sei bem que o sucesso de qualquer acontecimento social, festas de aniversário e casamentos, é avaliado pela quantidade de pessoas que a ele assiste. Não consigo escapar desta lógica meramente estatística e por isso sinto um enorme desconforto ao imaginar o meu funeral. Os funerais com muita gente, de tão animados, quase não parecem funerais. O morto é alguém que se cumpriu em vida. Fez muitos amigos, foi amado, querido, respeitado. Nos grandes funerais há sempre reencontros. As pessoas sentem alegria. Conversam. Falam do passado, dão novidades, mostram fotografias dos filhos e dos netos. Há uma máquina de cafés e pratos com esses de limão. Coroas e palmas amontoam-se ao lado do caixão. Perante tanta variedade, às vezes, encontram-se conjugações ousadas de cores e flores. Gosto de grandes funerais. Já um funeral com pouca gente é triste. O morto é um falhado. Os que decidiram acompanhá-lo, por osmose, também. Não nego: gostava de ter um grande funeral, com muita gente a assistir e, se possível, com uma fanfarra a acompanhar. Um funeral igualzinho a um que vi passar em Curtorim, coisa bonita de se ver.

2016/05/12

Amor



Fiquei a olhar durante muito tempo para a fotografia. Desejei estar por baixo do guarda-chuva, à porta da biblioteca, colada ao corpo do João Pedro, sossegada, imóvel, a ouvir a chuva e os batimentos do seu coração. Toquei-lhe com a ponta dos dedos, beijei os olhos cansados e mudei a página da revista. 

Carcinoma

“Tenho a cara cheia de tumores. Tiram um e aparece logo outro…” diz a minha tia enquanto, sentada no sofá, continua a olhar para a televisão. Sento-me ao seu lado, pego-lhe nas mãos e beijo, com vagar, cada uma das suas cicatrizes. 

2016/05/10

Outra Ana

Atrás da casa amarela, havia um terreno com uma nogueira e um poço. Pelo porte, copa frondosa, folhas largas, de verde vibrante, a nogueira exercia grande fascínio sobre mim. Era diferente das árvores da aldeia: oliveiras, sobreiros, azinheiras, figueiras de ramos tortos. Sentada à sua sombra, apanhando nozes ainda verdes ou olhando-a simplesmente, sentia-me outra menina. Sempre, desde cedo, desejei ser outra Ana. A nogueira, por extraordinário que pareça, tinha esse poder mágico: libertava-me de mim própria, transformava-me, ainda que por breves instantes, noutra criança. Também o poço me atraía. Espreitava a medo para dentro. Acostumados à claridade, os meus olhos demoravam a habituar-se à escuridão. Conhecia, de as ouvir à minha avó, histórias de homens e mulheres que se tinham atirado ao poço. Imaginava um rosto defunto boiando nas águas fundas. Ofélia. Pré-rafaelitas. A ideia de encontrar um morto assustava-me, mas, ao mesmo tempo, excitava-me. Que bom seria quebrar o tédio das férias, largar a correr pelas ruas da aldeia, aos gritos, anunciando uma tragédia! Porém, quando os meus olhos finalmente se habituavam à escuridão, para além das águas paradas e escuras, viam apenas lagartixas e rãs. Sentia uma pontinha de desilusão e levantava os olhos na direcção da nogueira.

Kurt Vile



Then Saturday came around and I said "Who’s this stupid clown blocking the bathroom sink?"

2016/05/09

Sim

Para além de exaltar muito rapidamente uma certa emotividade que, com o passar dos anos, tenho aprendido a conter, o álcool tem em mim um efeito devastador. Bebo até cair para o lado. Sozinha ou acompanhada. Não sou capaz de parar. No domingo, de ressaca, deitada na cama, senti que tudo em meu redor me oprimia: os livros em cima da mesa-de-cabeceira, a luminosidade frouxa a entrar pelas frinchas do estore, o mau cheiro dos lençóis, a memória das conversas da véspera. Afinal quem é a actriz europeia mais bonita? Por volta do meio-dia, depois de vomitar na banheira, percebi que não conseguia fazer o almoço para os meus filhos. Voltei a sentir-me a pior mãe do mundo. Telefonei ao Reinaldo e pedi-lhe que levasse os miúdos a almoçar fora. 
- Que se passa? 
- Estou doente. 
- Estás doente?
- Estou. 
- Com o quê?
- Estou de ressaca. 
O meu ex-marido chegou pouco depois. Entrou no quarto, fez-me uma festa na cabeça e perguntou se precisava de alguma coisa. Disse-lhe que sim. 

2016/05/05

Lata Mangeshkar




Moto-serra

Quando a vi no quintal, cabo amarelo, lâminas aguçadas e dentadas, assustei-me. “Para que querem vocês uma moto-serra? Mete medo!”, perguntei à minha mãe. “Ora, Ana Clara! Uma moto-serra faz muita falta nesta casa!”, respondeu e, de chapelinho de palha na cabeça, continuou a apanhar as ervas que insistem em crescer em redor da camélia. A camélia é a grande frustração da minha mãe. Plantada há muitos anos, a estúpida da planta, como que querendo provocá-la, não ata nem desata, mantém-se pequena, torta, sem graça, tem apenas meia dúzia de folhas enceradas. Nem uma vez floriu. Voltei a olhar para a moto-serra pousada no escalracho. Toquei-lhe a medo como se, em vez de um objecto, de um ser vivo se tratasse, um cão, um leão, um tubarão, enfim um animal capaz de me surpreender com uma dentada violenta. Dei dois passos para o lado e imaginei-me com a moto-serra nas mãos. Que faria eu com aquele extraordinário objecto? Não seria capaz de cortar a cabeça de ninguém. Isso não. Infelizmente não há quem viva sem cabeça (é pena!) e descreio firmemente da pena de morte. Mas, se impune, desconfio que, conforme o grau de embirração e repulsa, a gente que eu cá sei, cortaria braços, pernas, pés, dedos, línguas, orelhas e outros pedúnculos. Também cortaria a pequena camélia da minha mãe e, no seu lugar, plantaria um diospireiro. Senti-me animada por uma certa selvajaria bucólica. Imaginei dióspiros maduros, de polpa doce, rebentando na minha boca. Imaginei também uma multidão de amputados, decepados, pernetas, manetas, castrados, descendo lentamente o monte do moinho. Dei mais dois passos e afastei-me da moto-serra.

(moto-serra é mais bonito do que motosserra.)

2016/05/02

2016/04/29

Hospício

Levei tempo a perceber, mas finalmente tornou-se claro. Não é o homem que não quer saber das árvores da ilha. São as árvores da ilha - um jambeiro, uma araucária do Chile, três coralinas da Abissínia e os dois dragoeiros cujas copas se unem no portão do hospício - que não querem saber do homem.

2016/04/27

Caniçado

A casa do Caniçado. No portão, de mão dada à Vitória, espero que a minha mãe chegue do dispensário. Está sol, calor, a luz fere os olhos e ilumina um horizonte aberto, com poucas casas, sem árvores, animais ou gente. No caminho de terra vermelha, ao longe, vejo a silhueta de uma mulher. À medida que se aproxima, percebo que é a minha mãe. Reconheço-a por causa da blusa que veste: branca, com uns estranhos desenhos, animais de longas patas, árvores de copa azul, figuras surrealistas, desfeitas, derretidas, que, a esta distância, associo aos quadros de Dali. Certa de que é a minha mãe, largo a mão da Vitória e corro na sua direcção. Pequena, três, quatro anos, abraço as suas pernas, enterro a minha cara no seu corpo. Só quando a mulher me pega ao colo e, rindo, me entrega à Vitória, percebo que me enganei. A minha primeira memória é de desilusão e perda. Quando a minha mãe morrer, continuarei a procurá-la nos sonhos, nos objectos, nas outras mulheres. E haverá sempre amanhã. 

2016/04/25

Pedras



Poema da Maria Teresa Horta, voz da Teresa Paula Brito, a mulher de olhos claros que cantou "Verdes Anos". Os quatro poemas do disco pertencem ao livro "Minha Senhora de Mim" da Maria Teresa Horta, proibido pela PIDE. Pergunto-me: somos herdeiras dignas das mulheres de Abril? Respondo por mim. Não sou. 

2016/04/22

Ingénua Manuela



(hora de almoço.)

Futuro radioso

Encontro o meu pai já de pijama, sentado em frente da televisão. Beijo-lhe o cabelo, sinto o aroma da loção capilar que usa há muitos anos e sento-me no sofá. O que estás a ver?, pergunto. Não responde. Olha a televisão como se o aparelho fosse uma feiticeira capaz de encantamentos e canções mágicas. O meu pai está hipnotizado. Olho à procura da razão de tal pasmo. Imagens de abandono e desolação. Uma piscina coberta, um tanque profundo, vazio, descarnado, o fundo de ladrilhos soltos. Blocos habitacionais, ruas e ruas, alamedas, avenidas, de blocos de apartamentos, todos iguais, casas que parecem clones, umas atrás de outras, numa arquitectura assexuada, traçada em linhas paralelas e perpendiculares. Ninguém caminha por aquelas ruas. Ninguém habita aqueles apartamentos. Uma floresta rompe os espaços abertos, as raízes grossas tomam conta dos passeios, das estradas e dos cruzamentos. Árvores frondosas, de folhagem brilhante e frutos envernizados, impedem as ruas de receber luz. A cidade é azul e sombria. Centáureas gigantes, carnívoras, mostram os seus cardos roxos. A câmara passa depois para o interior dos apartamentos dos blocos habitacionais. Paredes de tinta estalada, objectos esquecidos. Um cadeirão de braços forrado a napa vermelha, uma cadeira de espaldar tombada. Posters gigantes: Brejnev, Chernenko, Gorbatchov. No parapeito de uma janela estão dois peixinhos de borracha amarela. Pelo chão desses apartamentos, em nichos de lixo e entulho, há bonecas de corpo rijo, pose estática, pernas abertas. Dormem de olhos abertos um sono eterno. Um parque de diversões. A roda gigante tem cabines folheadas de chapa amarela. Campânulas solitárias balouçando ao vento. Há também um carrossel de cavalos que sorriem, mostrando a beleza da sua dentadura equídea. Percebo tratar-se de uma cidade abandonada, uma pompeia soviética. Que cidade é esta, cristalizada no tempo e no espaço, que mostra a beleza do silêncio e do vazio? 

Uma voz explica, por fim, a história daquele lugar. Trata-se de Pripyat, situada a 30 quilómetros de Chernobyl, cidade planeada para acolher cientistas, engenheiros, operários. Tinha um cinema, um teatro com uma grandiosa escada de caracol, várias piscinas, um hotel, muitas escolas e hospitais, possuía todas as infra-estruturas que o regime soviético considerava necessárias para o bem-estar do povo. Habitada por quem trabalhava na central nuclear, a média de idade dos cerca de quarenta mil habitantes da cidade rondava apenas os 26 anos. Para o regime todas as cidades deviam ser como Pripyat, planeadas, organizadas, assépticas, sem espontaneidade ou liberdade, regras claras de distribuição dos habitantes, edifícios para casados, edifícios para solteiros, procedimentos claros sobre a utilização dos espaços públicos. Só se é feliz com regras. Pripyat, cidade modelo, onde o futuro se cumpria no presente.

No dia a seguir ao acidente, a cidade despertou na sua rotina, ignorando a dimensão da tragédia. Um homem pediu à mulher que lhe preparasse um borsch com natas azedas para o jantar; uma rapariga levou para a fábrica uma merenda de conservas de pepino escuro; dois amigos planearam uma pescaria no rio, num recanto fresco, perto de um bosque de abetos, onde nadavam as trutas mais gordas; uma mulher apanhou o comboio para Kiev na estação de Yanov e, ao olhar a cidade sentiu, sem a saber explicar, a tristeza dos espaços vazios. Nessa manhã, a vida continuou como se nada fosse, porém, o bicho invisível já se havia espalhado por toda a cidade, entrara nas casas, gotejara pelos algerozes, penetrara nos solos, espreitara pelas frinchas, procurara o coração dos objectos, dos animais e das pessoas para aí se instalar. A catástrofe chegou à tarde: foram afixados em todos os blocos, em todas as portas, em cada espaço público, avisos de evacuação. Explicavam que a cidade teria de ser evacuada. Era uma evacuação temporária, os habitantes deveriam levar pouca coisa, elementos de identificação, qualquer coisa para comer, deixassem tudo como estava, trancassem os seus apartamentos, voltariam em breve. Depois, chegaram autocarros, mais de mil, vindos de toda a república. Os habitantes de Pripyat nunca voltaram. Ficou a cidade deserta, quieta, envelhecendo. A floresta boreal avançou e cobras radioactivas treparam pelas paredes, aninhando-se dentro do corpo das bonecas que as meninas não puderam levar. Pripyat, cidade modelo, onde o futuro radioso nunca se cumpriu.

O documentário está quase a terminar, o meu pai já tem o comando na mão, prepara-se para mudar de canal. A última imagem que vejo é a de um homem jovem que fala num inglês truncado, próprio dos eslavos. Entra num apartamento, era ali que morava numa perpendicular à Avenida Igor Kurchatov. Aos domingos, explica, entrando num quarto, a minha irmã ia com a minha mãe ao Hotel Polissia preparar o desfile do 1º de Maio, eu ia com o meu pai à piscina e passava horas a nadar. Caminha pelas divisões em silêncio. Fui feliz em Pripyat, diz, por fim. Levanto-me. Volto a beijar o cabelo do meu pai, também ele forçado a abandonar uma cidade e uma vida. 

2016/04/21

Volúpia literária

Às quinze horas e trinta minutos, comecei a estudar o processo do jovem professor. À medida que folheava o processo, lendo relatórios médicos e guias de tratamento, comecei a sentir vontade de fugir, as goelas estranguladas, a habitual sensação de desorientação e desperdício. Às quinze horas e trinta e quatro minutos, levantei-me. Percebi que o choro vinha descontrolado, amarinhava por dentro, em menos de um minuto, haveriam de assomar-se lágrimas aos meus olhos. Fiquei com a visão embaciada, percebi que não tinha tempo para chegar à igreja de Nossa Senhora de Fátima que é o sítio perto do trabalho onde gosto de chorar. Fico ali, na penumbra, perto do altar da Nossa Senhora do Carmo, a contar os anjos dos vitrais e a escutar o chiar dos sapatos ortopédicos das velhinhas no chão encerado. Corri à casa de banho. Tranquei-me no cubículo da retrete. Tapei o rosto com as mãos e comecei a chorar. Mordendo os lábios, sem conter os soluços. É tão bom chorar. Chorar mata a tristeza assim como a água mata a sede. Às quinze horas e quarenta minutos, senti alguém entrar na casa de banho e abrir a torneira do lavatório. Calei o choro e deixei-me estar quieta. Às quinze e quarenta e três, a mulher do outro lado, cansada de esperar, bateu à porta. Aborrecida, sorvi o ranho para dentro. É só um bocadinho!, respondi e comecei a limpar os olhos. O papel encheu-se de preto. Imaginei a minha figura. Deixei-me estar sentada na sanita a olhar o recipiente dos pensos higiénicos. A mulher que esperava foi-se embora. Saí do cubículo da retrete e olhei-me ao espelho. Há poucos suicidas na literatura contemporânea portuguesa. É uma pena. Não há boa literatura sem suicidas., disse para o reflexo. No corredor, cruzei-me com a Linda, colega do quinto piso. Gabei-lhe a cor da blusa. Ela perguntou pelas férias e pelos miúdos. Quis saber se tinha descansado. Muito, muito!, respondi, naturalmente mentido. Detesto férias, feriados, fins-de-semana. Só gosto do Natal. Comove-me o menino deitado nas palhinhas e ainda um dia hei-de fazer eggnog para a ceia. A determinada altura, eram quinze horas e cinquenta e dois minutos, a Linda começou a olhar fixamente para os meus olhos. Entrou-me uma poeira., respondi. Às dezasseis horas, sentei-me novamente à secretária. Olhei a paisagem estática que se vê da janela. Prédios feios, escritórios e hotéis, caixas do ar condicionado, nem um estendal, nem uma cortina, nem uma varanda florida. Há doze anos que olho por esta janela. Voltei a  pegar no processo do jovem professor. Aos trinta anos, foi internado compulsivamente, com um diagnóstico terrível: psicose delirante crónica. Senti-me bastante aliviada por ter apenas depressão crónica. A vergonha que seria para a minha família, sobretudo, para os meus meninos, se eu tivesse uma doença assim. Não chego a ser bem louca, sou apenas, como diz o meu filho mais velho, completamente instável. Quando ele vem com essa conversa, ouvida desde pequena ao meu pai e irmãos, tenho vontade de disparatar. Mentalmente mando-o para a puta que o pariu, que é o meu insulto preferido e serve para toda a gente, mas depois, logo a seguir, lembro-me que a puta que o pariu sou eu. 

(volúpia literária, o caralho.)

2016/04/06

Hora de jantar

Ninguém podia falar. O pai exigia silêncio. De olhos postos no televisor, comendo devagar, prestava atenção às notícias que a locutora ia apresentado. O jantar era sempre assim: o pai vendo o telejornal, os filhos comendo em silêncio, a mãe, em frenesim tardio, depois de um dia de trabalho, despachando o que houvesse a despachar para estar pronta à hora da telenovela. Ana estava bem avisada sobre a postura que devia ter durante a refeição: silêncio absoluto para não perturbar o pai e, se possível, se quisesse agradar-lhe, mostrar interesse nas notícias. Por vezes, distraía-se. Esquecida das ordens, falava com a irmã mais nova. Lúcia era habilidosa com as mãos. Para controlar a ansiedade que o silêncio imposto lhe causava, tinha o hábito de fazer dobragens com as folhas translúcidas dos guardanapos. À hora do jantar, saiam das suas mãos cravos, nenúfares, pequenas rosas.
- Que rosinha tão linda!
- Gostas?
- Ensina-me a fazer…
- Tu não és capaz, Ana!
- Sou sim!
- Tens sempre negativa a Trabalhos Manuais…
- Estúpida.
Riam-se. O pai não dizia nada quando via as filhas alegres, continuava a ver televisão, mas descaíam-lhe os cantos da boca, os olhos ficavam gelados. Carlos, o filho mais velho, chumbara já duas vezes no curso de Direito, era um desgraçado, nunca seria ninguém na vida, as raparigas, via-se bem, iam pelo mesmo caminho. Duas filhas, duas ignorantes que se deslumbravam com flores de papel em vez de se interessarem pelas notícias do mundo. A mãe, aflita, temendo que a desilusão do marido se transformasse em raiva, abria os olhos. “O vosso pai está a ver o telejornal!”, acabava por dizer. Lúcia logo esmagava a flor de papel na mão. Calava-se. Ana fingia não ouvir, mas, quando o pai por fim a mandava calar, desprezo na voz, calava-se também. Aquilo custava-lhe. Sentia então raiva, fazia por se controlar, não podia responder, a resposta poderia desencadear reacções violentas no pai. Ana, nesses instantes, assustava-se: pressentia que se tivesse ao seu alcance uma pedra, uma faca bem afiada, mataria o pai. Mexia com o garfo o arroz branco no prato. Não gostava de arroz branco, mas em casa, para além das batatas a acompanhar o peixe cozido, apenas se comia arroz, sempre branco, sempre cozido em água e sal. O pai só gostava de arroz branco. Observava os azulejos das paredes, a mãe, numa azáfama, de volta do fogão e do lava-loiças. Tudo era triste e desolador: o egoísmo do pai, a subserviência da mãe, a violência contida em cada gesto à hora de jantar.
Passados alguns anos, já Ana e Lúcia eram adolescentes, Carlos saíra de casa para viver num quarto alugado, o pai – talvez por sugestão da mãe – passou a jantar sozinho na sala. Depois de tomar banho, de robe e pijama, sentava-se na poltrona em frente da televisão. Cheirava bem, a sabonete e champô, estava limpo, tinha mãos bonitas, um cabelo espesso, muito preto. Ana sentia vontade de se sentar ao seu lado, mas não era capaz. O pai era um estranho, um homem que vivia na mais completa solidão. Antes de começar o telejornal, a mãe levava o tabuleiro à sala: um pano lavado, o arroz na quantidade exacta, uma costeleta frita, molho sobre o arroz, a acompanhar, um copo de vinho. Voltava depois à cozinha, onde, sentadas à mesa, Ana e Lúcia a esperavam para começar a jantar. Comiam em silêncio. Estavam habituadas ao silêncio. Tudo continuava a ser triste e desolador. Só o pai, concentrado nas notícias, sem ter ninguém a perturbá-lo, parecia agradado com a mudança. A sua felicidade era evidente: estava acompanhado pelo mundo e sua gente, mas livre da família.

2016/04/05

Afectuoso



Contaram-me, mas ainda me custa acreditar, que a Natália Correia não gostava de Bach. Preferia o absolutamente irrelevante Satie: escuta-se com agrado num elevador. Gosto menos um bocadinho da Natália Correia. 

2016/04/03

Lucia Berlin



(Desde sexta-feira, quando li o artigo da Isabel Lucas no Público, que esta mulher não sai da minha cabeça. Edward Abbey, Chinua Achabe, Sherwood Anderson, Jane Austen, Paul Auster. By the time she read the all wall, she was better.)

2016/04/02

Sangue mau

Uma vez por mês, corto o pulso da mão esquerda e deixo escorrer o sangue mau. Assim que me vêem no meio do quintal, sentada na cadeira que foi da minha avó Felicidade, os filhos da vizinha largam as brincadeiras e espreitam pelo muro. A Micaela, pequenina, tem de se pôr em bicos de pés para me ver melhor. O Luís, o irmão, às vezes pega-a ao colo e senta-a em cima do muro. Ficam à espreita, em silêncio. Olham para mim, olham para o céu. Esperam a chegada do abutre. Há muitos pássaros na aldeia, andorinhas, cucos, gaios, até cegonhas, também há outras mulheres que cortam os pulsos, mas nunca aparecem abutres. Assim que notam a sua sombra no céu, os meninos agitam-se. “Mana, olha as asas dele!”, diz o Luís.  “É tão feio…”, diz a Micaela e esconde o rosto com as pequenas mãos papudas. O abutre pousa ao meu lado. Faço-lhe uma festa na cabeça, é um velho amigo, conheço-o há muitos anos. Não perco tempo. Apesar da pele ser dura, estar tão calejada, faço sempre o corte no sítio da cicatriz antiga. Não quero outras marcas no corpo. O sangue mau, de tão espesso, escorre devagar. O abutre bebe-o. Imediatamente, essa a vantagem da sangria em relação a outros tratamentos, sinto alívio, um bem-estar que, apesar de transitório, me serena. A sangria constitui o nervo da cura, é nela que fundo toda a esperança. Quando o sangue se altera, fica claro, fluído, é tempo de parar. Livre do sangue mau, coso os bordos do corte. Faço outra festa na cabeça do abutre. Caminho na direcção do muro. Mostro o pulso aos meninos. O Luís não diz nada. Limita-se a olhar para a cicatriz. A Micaela, audaz, toca-lhe com os seus dedinhos gordos. 

2016/04/01

L'ombre des femmes



Vive-se melhor sem amor. 

2016/03/29

2016/03/23

Duas alianças

Caiu na esquina da 5 de Outubro com a Avenida António Serpa. Ficou no passeio durante duas horas, em frente da casa da sorte, à espera que chegasse o delegado de saúde pública. O dia de trabalho a terminar, a cidade no tumulto habitual, fiadas de taludas e raspadinhas na montra da casa da sorte e o corpo ali, coberto com um pano azul, fitas amarelas em volta, um polícia a guardá-lo. Gente passava, apressada, a caminho da estação de comboio. Algumas pessoas paravam, apontavam, faziam perguntas ao polícia. Queriam saber do suicida. Fora um homem? Uma mulher? Novo ou velho? E de que andar se atirara? Outras pessoas continuavam o seu caminho mal levantando os olhos do chão. Houve nesse dia um prémio elevado no euromilhões, mas, com um morto à porta, ninguém entrou na casa da sorte. O dono veio cá fora pedir explicações ao polícia. Aquele aparato estava a dar-lhe cabo do negócio. Passara já uma hora e o corpo continuava ali! O polícia procurou acalmá-lo, o delegado de saúde pública já vinha a caminho e, assim que elaborasse o auto, os serviços camarários haveriam de limpar o sangue das pedras da calçada com jactos de alta pressão. Eram assim os procedimentos legais. O dono da casa da sorte preparava-se para responder quando uma rajada de vento levantou o pano azul e mostrou um braço, a manga de um casaquinho cor de vinho, o início de uma mão velha, a pele coberta de manchas, duas alianças num dedo magro. O dono da casa da sorte calou-se, o polícia desviou o olhar e os castanheiros da Índia romperam em verde primaveril. 

2016/03/22

Distimia




2016/03/19

Pentelhos

Na livraria, antes de ir ao cinema, folheei a Cão Celeste. Não tenho interesse pela revista: acho-a aborrecida e insuportavelmente pretensiosa. Encontrei um conto da Ana Teresa Pereira sobre um menino, uma cadelinha e uma velhinha. Eriçaram-se-me os pêlos todos do corpo, incluindo os pentelhos.

Lush Life

2016/03/18

Yuri

Quando não chove os homens trocam o balcão pela esplanada. Estendem as pernas, apanham sol, conversam, bebem cervejas pelo gargalo das garrafas. Na rua, a caminho do supermercado, passam mulheres carregadas de filhos e compras. São feias, gordas e precocemente envelhecidas. Às vezes, de vez em quando, passa uma rapariga bonita. Com os mesmos filhos, os mesmos sacos de compras, mas bonita. O chefe dos soldadores logo lança um comentário ordinário. Os outros homens riem. Yuri também. São sempre assim os finais de tarde: Yuri com os outros homens que trabalham na construção do segundo tanque, em animado convívio. Mas, se rebenta uma tempestade, dessas comuns no norte, Yuri deixa de participar nas conversas. Não ri dos comentários do chefe dos soldadores. Parece mesmo não os escutar: em silêncio, imóvel, fixa com atenção a grande janela do café. Ao ver a chuva estalar nas vidraças recorda a noite em que encontrou o velho na sua cama. 
*
Chovia muito nessa noite. Depois de sair da obra, Yuri passara pelo supermercado para comprar o jantar, meio frango assado, uma caixinha de cuscuz para o jantar, uma coca-cola para acompanhar, e fora levantar a encomenda de Ana aos correios. Ana, a sua querida irmã Ana, mandava-lhe, pelo menos uma vez por mês, uma encomenda cujo conteúdo variava consoante a sua própria inspiração: um frasco de champô de ervas, um bálsamo para desentupir o nariz, latas de arenque fumado, pacotes de bolacha, caramelos de seiva azul, revistas, livros, folhas e flores secas, fotografias, desenhos e colagens feitas por si. Yuri nunca sabia ao certo o que ia encontrar. Sentia por isso uma excitação febril quando recebia o aviso para levantar a encomenda da irmã. Naquela noite, ao caminhar pelo bairro com o pacote por baixo do braço, antecipava o momento em que rasgaria o papel grosso e se surpreenderia com as coisas que Ana escolhera dessa vez. Talvez, imaginava, lhe tivesse mandado fotografias do jardim. Por aquela altura, as árvores à volta do lago já deviam ter folhas e os canteiros, floridos, perfumados, atenuavam a tristeza da aldeia. Yuri sentia-se feliz porque naquela noite Jonas não o perturbaria com os habituais comentários e Lucas, ao contrário do que sempre fazia, não lançaria olhares invejosos quando o visse barrar tostas com a pasta de salmão que Ana lhe mandava. Àquela hora, Lucas, Jonas e os dois marroquinos já deviam estar na festa de despedida de Pavel. 

2016/03/16

Cama

Passo a manhã de sábado a fazer as limpezas que não consigo fazer durante a semana. Aspiro, arrasto sofás, limpo as casas de banho, lavatórios, bancadas, banheiras, retretes, penteio os cadilhos dos tapetes da sala, tão direitinhos que ficam, lavo os vidros engordurados da cozinha com rolos de jornal amachucado, aplico óleo de cedro nos móveis. De todas as tarefas que decorrem ao sábado de manhã e que deixam a casa bem limpa, gosto especialmente de mudar a roupa da minha cama. Aprecio essa tarefa doméstica mais do que qualquer outra. Encaro-a mesmo com um zelo especial. Primeiro, arranco os cobertores, a seguir, com igual vigor, puxo os lençóis que, numa trouxa, lanço para o chão. Aspiro o colchão com cuidado, enfiando o bico de pato em todas as ranhuras e frestas da cama, expurgando assim o antigo leito conjugal dos bichos que se alimentam de pó. Os lençóis são depois abertos com um gesto largo, sacudidos com rapidez, às vezes estalam, fica aquela brancura a planar sobre o colchão. Entalo bem os cobertores e faço uma dobra perfeita com o lençol de cima, nem muito grande, nem muito pequena, a barra bordada a ponto cruz simetricamente colocado ao meio. Estendo, por fim, a colcha, disponho os almofadões, olho para a cama no meio do quarto limpo, o sol da manhã a entrar pelas janelas abertas. Experimento nesse instante uma sensação de conquista. Destruí e construí, penso, e transporto para a minha vida a significância libertária de tais gestos; serve tal filosofia para explicar o universo da casa e dos objectos, também para escolher os  meus alicerces. 

Azul escuro

2016/03/14

Brilho metálico

Ao atravessar o corredor em direcção ao quarto, sente o cheiro da cera que ainda esta semana aplicou no soalho. É um cheiro bom de madeiras antigas, que a conforta por  lhe mostrar aquilo que a casa é: um lugar onde o tempo passa sem ruído ou sobressaltos. Mas, hoje, estranhamente, o cheiro da cera não lhe traz conforto, apenas uma sensação vaga de enfado. Fica parada no corredor durante alguns instantes, sem saber o que fazer, depois decide ir à casa de banho. Não tem propriamente vontade de ir à casa de banho, pretende apenas adiar o momento em que voltará a estar sozinha no quarto. Sabe que, apesar do sono, quando chegar ao quarto não conseguirá adormecer. Mal a luz se acende, dois peixinhos-de-prata esgueiram-se para baixo do móvel do lavatório deixando no chão um rasto de brilho metálico. Tenta esmagá-los com a ponta do pé. Não consegue. Senta-se na sanita. Não quer pensar em nada, quer apenas estar ali, a observar as cornucópias do resguardo plastificado da banheira e a contar as flores que preenchem os intervalos dos pequenos chifres retorcidos. Mas, por mais que tente, a certeza de que em breve voltará ao quarto continua a assustá-la. Os seus pensamentos tomam um caminho conhecido do qual não pode fugir. É como se uma mão invisível, um corpo estranho, qualquer coisa, a empurrasse nessa direcção. 

Quando vier a Primavera

2016/03/13

Charulata

2016/03/12

Peixe de luz

Primeiro dia de chuva. Atravessamos o bairro e, depressa, muito depressa, chegamos à beira-rio. Não se vê ninguém. Até aqueles que correm, detestáveis novos super-heróis, desapareceram. As águas, batidas pelo vento, estão muito agitadas. A neblina, de um branco sujo, limita o horizonte. Naquela zona do parque, quando há sol, vê-se o casario de Sacavém e da Bobadela. Nos dias mais claros, se focarmos o olhar, é mesmo possível ver o recorte do arvoredo na recta do cabo. Hoje, porém, com a chuva, a linha do horizonte diluiu-se, desapareceu. Entre o céu e a terra, entre o céu e a água, não se percebe o que começa ou acaba. A beira-rio, sempre ruidosa e alegre, transformou-se noutra paisagem, adquiriu uma beleza agreste, solitária, misteriosa. Caminhamos pelos relvados e rapidamente os nossos pés ficam molhados. O Joaquim apanha folhas e pedras que mete no bolso do impermeável. De tão feliz,  em vez de andar, o meu filho galopa como um potrozinho.

No passadiço de madeira, no pontão junto da estátua da princesa, um rapaz vigia três canas de pesca. Quando nos vê, como se intuísse o nosso desejo de proximidade, faz um gesto para avançarmos. De uma caixa azul tira um casulo. Do casulo tira uma minhoca. Mais parece uma centopeia, tem a cabeça achatada, patinhas que se movem numa euforia que causa repulsa. O rapaz enfia a minhoca na ponta do anzol, fá-la deslizar pela curva do gancho, explica que tem de ficar assim, bem presa, caso contrário, os peixes serão capazes de a tirar e fugir em liberdade. O rapaz continua a falar com o Joaquim. Explica-lhe o seu ofício. Inclina-se agora sobre a protecção de metal e puxa um cesto de rede. Mostra a pescaria do dia. Dentro do cesto há dois peixes muito diferentes. Ainda estão vivos. O maior, esverdeado, assemelha-se a um tamboril. É feio: olhos esbugalhados, a pele lisa, barbatanas curtas, a cabeça enorme, desproporcionada em relação ao resto do corpo. “É um xarroco não é?” pergunto. O rapaz olha-me com espanto. Não conhece as minhas idiossincrasias: tivesse eu tempo e cabeça e aprenderia o nome de todas as árvores, de todas as flores, de todos os monstros que habitam as águas escuras e profundas do rio. 

O outro peixe mexe-se no fundo do cesto. É bonito. O fole das guelras, de um vermelho escuro, muito intenso, faz-me lembrar as dálias que na minha infância cresciam no canteiro da vizinha Idalina. É um peixe magnífico, um peixe de luz. O seu corpo, coberto de escamas prateadas, luminosas, quase brancas, saltita, estremece com brandura. O rapaz tira-o do cesto e, com cuidado, coloca-o nas mãos do Joaquim. “Sabes como se chama? Tem um nome engraçado. Chama-se rabeta…” O rapaz ri. Enquanto aconchega a gola do casaco ao pescoço explica que uma rabeta é uma corvina pequena. O Joaquim continua a pegar  no peixe prateado, mas, de súbito,  os seus olhos ficam inquietos. A palpitação que sente nas mãos é, simultaneamente, um sinal de vida e de morte. Talvez o meu filho pressinta isso mesmo e por isso se apresse a colocar o peixe no cesto. Começa a trovejar. Caem pingos grossos, pesados, redondos. Despedimo-nos do rapaz. Aceleramos a passada. O vento, cada vez mais forte, vira o guarda-chuva do Joaquim que, assustado, o larga. Corremos para o apanhar.  Voltamos a rir.

(À noite, quando lhe aconcheguei a roupa, falei-lhe ao ouvido: nunca te esqueças do passeio de hoje, do primeiro dia de chuva, do peixe nas tuas mãos, do sorriso do pescador, das palavras novas que aprendeste a soletrar.)

Rumba

2016/03/11

Quinta sessão de julgamento

Quinta sessão de julgamento: a juíza traz hoje as unhas pintadas de magenta, a procuradora de azul, a advogada da parte contrária de preto. Unhas impecáveis, ovais, cutículas arranjadas, unhas que não raspam o queimado do fundo de tachos. Pergunto-me: se as sanguessugas lêem Kavafis que lerão os gafanhotos, os percevejos, as lesmas e as lagartas da couve?

2016/03/09

Aquela cidade

Os prédios eram velhos e feios, de varandas de ferro enferrujado e paredes estaladas, cobertas de manchas de salitre, nas ruas passeavam homens que cuspiam para o chão e matilhas de cães que pareciam largar doenças em toda a parte. Nas arcadas dos edifícios, os mendigos, em singular vagar, mostravam a sua vagabundagem, triste e desoladora. Um bafo de urina e lixo libertava-se dos passeios. Mesmo assim gostei daquela cidade: as janelas tinham floreiras com petúnias, malvas e gerânios, as alamedas de acácias largavam uma sombra perfumada que atenuava o cheiro dos passeios e, para aliviar do calor, em qualquer esquina se vendiam talhadas de melancia, quadrados de coco fresco e figos da Índia descascados. Mas foi a noite que me maravilhou. O seu início, além de brandas aragens, trazia às ruas da cidade uma aceleração de corpos e movimentos: luzes explodiam por todos os cantos e as conversas dos transeuntes misturavam-se com os gritos dos milhafres que, descansando nas copas dos dragoeiros, debicavam frutos maduros que pingavam mel nas ruas. O início da noite não marcava o fim do dia. O maior encanto daquela cidade estava no crepúsculo, naquela tardia confusão que sempre esconde os escombros de que são feitas as cidades do sul. Visitei as muralhas reais, os banhos árabes e a catedral de Nossa Senhora da Anunciação. Subi ao monte para tirar fotografias aos macaquinhos berberes. Bichos sinistros: sentados na berma da estrada, aparentaram uma calma absurda quando o autocarro estacionou; continuaram a descascar favas de alfarrobas e assistiram serenos às caretas dos turistas. Também visitei a grande mesquita. Gigantes ninhos de vespas pendiam da cúpula da entrada principal, o grande minarete erguia-se aos céus, os altifalantes faziam ecoar as chamadas para a oração. O guia explicou que o exterior era revestido com mosaicos azuis, sobras trazidas da grande mesquita de Istambul, e que a porta de acesso estava decorada com passagens corânicas. Já se passaram muitos anos, mas ainda recordo que senti uma felicidade libertadora por estar ali, naquele lugar tão distante do meu apartamento de três assoalhadas e marquises de alumínio, ouvindo falar de gelosias de madeira com incrustações de marfim e placas de urnas de mármore trabalhado. Como se pressentisse a irrepetibilidade daquele momento, escutei com atenção as explicações do guia e tentei armazenar o máximo de informação possível. Mas os circuitos da memória não são facilmente controláveis, quanto mais se pretende reter o conhecimento fundamental da história, datas e factos, mais se esquece a narrativa do mundo; assimila-se o detalhe, o supérfluo e o irrisório. Apesar da atenção com que escutei o guia, algumas semanas mais tarde, de volta à rotina, ao meu apartamento de três assoalhadas e marquises de alumínio, já não era capaz de identificar qualquer particularidade arquitectónica da mesquita maior daquela cidade ou sequer referir um episódio marcante da sua história. Lembrava-me apenas dos prédios feios, dos homens cuspindo para o chão, das matilhas de cães, de uma mulher descalça, vestida de trapos, a caminhar por uma alameda perfumada.

2016/03/06

2016/03/04

Salva de prata

Mal entrou em casa, notou um cheiro a cânfora revelador da presença de Ester. Alberto, vendo-a franzir os sobrolhos, apressou-se a explicar que a mãe viera dar uma ajuda. Trouxera a Fátima logo de manhã que, sob as suas indicações, passara o dia a limpar o pó e a aspirar. Também lavara a loiça acumulada no lava-loiça e fizera a cama com os lençóis de linho que estavam guardados na gaveta da roupa melhor. Clara olhou em redor: a casa estava na realidade bem limpa. Fátima, mãos calejadas, a polpa dos dedos sempre inchada dos detergentes, apesar das constantes queixas de Ester, cumpria os seus deveres com máxima eficácia: tinha gosto em ver uma casa bem limpa, mesmo que não fosse sua, o cansaço depois de um dia de trabalho era compensado pela satisfação que sentia ao ver o brilho de um chão bem encerado. Pareceu-lhe que, mais do que arrumada, a casa estava diferente. Um olhar atento permitiu notar algumas alterações que a sogra fizera durante a sua ausência: escolhera um naperão de linha fina para a mesa da sala de estar e a boneca que costumava guardar dentro da cristaleira estava agora posta num recanto do móvel da entrada. Em cima do aparador, em vez da terrina de loiça, colocara a pesada salva de prata que o tio António lhes ofereceu como prenda de casamento. Clara não fez nenhum comentário, mas a lembrança do tio deixou-a irritada. O tio, próspero e sem descendência, vivia sozinho no bairro novo que começava a ser construído perto do aeroporto. Tinha um apartamento amplo, várias divisões, a cozinha integralmente equipada com electrodomésticos alemães. Toda a família de Alberto, irmãos, cunhadas, sobrinhos, lhe prestava vassalagem com o intuito de levar o maior quinhão da herança. Sobrinhos e cunhadas rivalizavam entre si para ser o centro das suas atenções: convidavam-no para padrinho das crianças que iam nascendo e, nos dias de festa, consoada, domingo de Páscoa, aniversários, insistiam em que se sentasse à cabeceira da mesa. Clara não gostava do homem. O velho era sempre amável quando a encontrava, perguntava-lhe pela família, queria saber novidades dos Cardoso da Mata, conhecia-os bem, tinha-os em grande consideração por causa do êxito dos seus negócios. Mas, enquanto lhe falava, com uma vertigem de volúpia que se notava no modo como a fitava, pousava-lhe a mão na cara, nas pernas, às vezes até nas nádegas. Clara sentia nojo daquele homem, mais ainda da vassalagem que a família de Alberto lhe prestava. Mantinha por isso a salva de prata no louceiro, guardada no estojo de veludo vermelho, bem longe da sua vista.
- Muito obrigada, D. Ester, não precisava de se incomodar. - Disse Clara e sentiu-se aliviada por ter vestido ao menino o cueiro que a sogra insistira que usasse quando saísse da maternidade. 
- Vim conhecer o meu neto. - Respondeu Ester.
Abeirou-se da alcofa num passo firme; os seus saltos altos até na alcatifa da sala se faziam ouvir. O menino estava coberto com uma mantinha e trazia uma touca que lhe escondia o rosto. Ester destapou-o. O menino abriu a boca num bocejo prolongado e, com os seus olhos de cílios revirados, pareceu fixar a avó. Apanhada de surpresa, não esperava uma criança tão bonita, Ester emudeceu por instantes. 
- Tão bonito! Parece um anjo barroco… – Acabou por dizer e abandonou a habitual secura para largar um sorriso rasgado. Sentia-se feliz, isso mesmo se notava no semblante e no modo como os seus lábios, geralmente contraídos, repentinamente relaxaram: não só o primeiro neto nascera homem como era encantador. Como fora Clara capaz de dar à luz uma criança assim? 
Clara sentou-se numa cadeira. Detestava Ester, como a detestava, não suportava a altivez, o corpo seco, o cheiro a cânfora. Porém, naquele instante, sentia-se grata por a sogra ser capaz de mostrar alegria pelo nascimento do filho. Que alguém sentisse amor àquela criança e fosse capaz de o mostrar. Alberto, o seu Alberto, era totalmente incompetente para demonstrar afecto. Fora visitá-la à maternidade logo no primeiro dia, chegara com um ramo de rosas aninhadas numa nuvem fofa de vivaz, mas não fora capaz de lho oferecer. Depois de fazer uma festa ao menino com a ponta dos dedos, pousara o ramo aos pés da cama e ali o deixara como se fosse outra coisa qualquer. Parecia guardar em relação ao filho uma distância cerimoniosa. Clara teve a certeza de que essa distância se manteria para o resto da vida. Quanto a si própria, sentia-se imune ao amor que todas as mulheres dizem sentir assim que vislumbram os filhos acabados de nascer. O menino nascera há três dias e ela  sem sentir nada. Absolutamente nada. Encarava aquela criança apenas com estranheza. 

Ester ficou até tarde. Obrigou Clara a comer uma sopa cheia de talos, assegurando que os caules fibrosos da couve lombarda ajudavam a subida do leite. Mexendo no colar de contas jaspeadas, passou o tempo a fazer recomendações. Clara escutou-a sem a docilidade que habitualmente fingia, mas com obediência. Volta e meia, fixava o olhar na salva de prata, certa de que na véspera Ester inspeccionara o apartamento, vasculhando gavetas e armários para se inteirar da sua capacidade de organização. Passava já das onze horas quando a sogra se foi embora. Mal saiu, antes de mudar a fralda do filho, chorava o menino na alcofa, Clara voltou a arrumar a salva de prata dentro do louceiro.

2016/03/02

2016/03/01

Olho negro

Decorei o poema de manhã, no refeitório, enquanto tomava o pequeno-almoço. Durante o dia, repeti-o para mim mesma como se fosse um mantra, uma oração, a minha salvação. Repeti-o depois de cada parágrafo que escrevi, perto da máquina de cafés, na rua, ao observar os sapatos feios de uma mulher que passou e deixou o seu perfume no ar, quando escutei a voz do outro lado da linha, no regresso para casa, em estranho assombro, ao dar-me conta de como a luz do final do dia é caprichosa: ilumina apenas as fachadas do prédios mais altos, suas varandas, suas janelas, velhos que se debruçam para espreitar a rua, paredes de tinta estalada, ficam os prédios mais baixos adormecidos em triste sombra. De tão presa ao poema, decidi que o diria a cada um dos meus filhos assim que os visse. Disse-o ao Joaquim quando o vi chegar. Sussurrei-lhe as palavras ao ouvido, no corredor da escola, junto do placar com as composições dos meninos do terceiro ano. Disse-o à Madalena quando, chegada do treino, se despiu e revelou o seu corpo nu. Disse-o ao João já na cama, meio adormecido, depois de o aconchegar e lhe beijar o olho negro. Equimoses de adolescente, dores de adolescente, bebedeiras de adolescente, curam-se com beijos, abraços, gestos simples. Os meus filhos escutaram-me em silêncio. Quando me calei perguntaram: “O que é isso, mãe?”. A cada um, sentindo por cada um amor infinito, belo, redentor, único, respondi: “É um poema”. 

Homem