2015/07/30

Passinho de dança

Jogamos futebol na cozinha enquanto ouvimos o Frank Sinatra. Baliza a baliza. O combinado é, antes de cada remate, cada um ensaiar um passinho de dança. O Joaquim joga bem à bola e é um excelente dançarino. Fica o menino contente e eu também. Nos intervalos dos remates, danço agarrada ao meu filho, sinto-me feliz, e lembro o homem que amo. É um homem bonito. Parece que é feliz com uma mulher dez anos mais nova do que eu. Falava-me dos Cantos de Maldoror, de Lautréamont e eu, tola, deslumbrada, amava-o mais e mais e mais. Antes de o conhecer não gostava do Frank Sinatra e agora gosto. O João nunca me amou e, no entanto, estupidamente, sinto que me deu tudo, que nenhum outro homem me poderá dar o que ele me deu. Puta que o pariu. 

2015/07/23

Caminho da manhã

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto, 1962

2015/07/22

Santa Luzia

Viana do Castelo vista de Santa Luzia, elefantes do circo banhando-se no rio Lima, as nossas sombras na álea de plátanos, gente melancolicamente louca, Sherlock Holmes e a mulher bonita, canteiros de begónias e petúnias, o prato de cavalas grelhadas na casa de pasto, raparigas espanholas fotografando-se junto do dinossauro de bucho na Calle Urzaiz. A muleta do gerúndio. Estar longe, sozinha com os meus filhos, fez-me sentir diferente. Aos poucos, quase sem dar por isso, espantei o vício de me banquetear com a minha própria dor. Partimos sem planos. E correu tudo bem. Senti-me invencível. Ouvimos o Benjamim Clementine, os Arcade Fire e comemos arandos secos. Tomámos banho na foz do rio Minho. Jogámos ao olho do cu, espojados na relva de um jardim. O Tiago expulsou o João Pedro e, durante duas noites, habitou os meus sonhos. Dormi sem acordar para fumar ou comer. Regressámos saciados, entontecidos de tanto amor, felizes por nos termos uns aos outros.

Na volta, a Graça e o Jorge, um romeno de dentes de ouro, tinham pintado a casa. O apartamento pareceu-me outro, luminoso, maior, limpo. A viagem pelo Minho fez-me largar a Teresa Veiga e voltar à Agustina. Ontem, enquanto a Madalena e o Joaquim viam a telenovela (o mais velho andava a monte), deitei-me com o Pedro Lumiares e a Semblano. Ema, muito linda e tola, debruçou-se na varanda do Romesal e deixou cair uma flor. Carlos adormeceu no baile das Jacas, as meias com baguete, de elásticos laços, descaíram, deixando-lhe à mostra os pêlos das pernas. Triste figura, a de um corno. Sublinhei palavras. Himeneu. Gineceu. Hissope. Palavras estranhamente belas. Diverti-me com as conhecidas contradições da narrativa agustiniana. Afinal, Ema é frígida ou sente prazer? Ou é uma frígida que busca o prazer? E Tomásia de Fafel é muito feia ou apenas moderadamente feia? Perguntas sem respostas. Nada disso interessa. Adormeci com a certeza de que desperdiço tempo que não tenho. Ver séries na foxcrime é bom, mas ler é decididamente o melhor remédio para me sentir viva.

2015/07/01

Dá-me

dá-me algo mais que silêncio ou doçura
algo que tenhas e não saibas
não quero dádivas raras
dá-me uma pedra

não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz

dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
e se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!

Carlos Edmundo de Ory