2007/02/16

Retrato


Jean A. Dominique Ingres, 1859
(Quando for muito rica hei-de pagar a um pintor pobre e desesperado para que, imitando o traço de Ingres, me pinte o retrato. Não quero ser pintada como as odaliscas gordas que ele gostava de pintar. Quero um retrato sério, grave, mostrável. Hei-de usar um vestido igual ao de Madame Moitessier.)

Nazaré

Sonhei com o mar da Nazaré. Da praia, numa casa com paredes cobertas de retratos da minha mãe quando jovem, espreito o mar. É um mar de morte. As algas e os peixes que o habitam são melancólicos e silenciosos. Estou à janela e sei que o mar engoliu o meu pai, a minha irmã e os meus filhos. Isso não me entristece. Tenho uma couraça invisível que me protege do sofrimento. No areal o meu irmão esbraceja, aflito, como se o mundo tivesse acabado. (O sonho desta noite é um plágio descarado de um conto do Mishima que lá há pouco. Morte no Verão, é como se chama.)

2007/02/15

Bíblia (3)

Levei a bíblia para dentro da igreja do cata-vento e estive a ler. Uma senhora lançou-me um olhar cheio de compaixão. Consoladinha, muito sonsa, baixei os olhos, aspirei o cheiro do chão encerado e das madeiras do altar, e continuei. Estive lá quinze ou vinte minutos. À saída, pisquei os olhos para cima. O céu ameaçava com nuvens pardas. Mal dei um passo pisei um cócó de cão. Um cócó que se espalhou pelos meus botins de 175 euros que, quase de certeza, não vou voltar a conseguir usar. Um cócó digno de um grand danois, aquele cão gigante que parece uma vaca. Um cocó que merece outro epíteto. Não era um simples cocó. Era um senhor cagalhão. O cheiro espalhou-se e eu, mal o senti, comecei a ter vómitos. Não é exagero. Quis sei lá quem que o meu nariz fosse grande, cyranesco, uma protuberância grotesca que dá nas vistas e assusta. A sua dimensão potencia, pois, os maus cheiros. Enquanto esfregava histericamente o pé num arbusto abri a bíblia que levava na mão e enfiei lá dentro o meu colossal nariz. Esperei, em vão, que o cheiro das sagradas páginas me aliviasse aquela agonia. Ma o sagrado livro não me salvou. E há três dias que estou com gases. Uma chatice. Agora, a falar a sério, não fui feita para ter fé. Sou muito corpo e pouca alma.

Bíblia (2)

No intervalo dos outros livros ando a ler a Bíblia. Não gosto de fixar o calendário que aqui tenho, mesmo à minha frente, observar o quadro do mês de Luglio, pintado por um dos pintores que mais gosto, ler-lhe o título, Riposo nella fuga in Egitto, e não saber quem fugiu do Egipto. Abraão? Moisés? É embaraçoso hesitar entre um e outro. Eu bem me tento desculpar, atirar as culpas para cima dos meus pais que, negligentes, nunca me levaram à catequese. Mas não vale a pena. Incomoda-me não conhecer o básico da sagrada escritura. Não conhecer Deus e os seus homens. Comecei, então, pelo início, que é por onde se deve sempre começar. A Bíblia é um livro que conta uma história. Conta-a sabiamente, de uma forma directa, simples. Sem artifícios ou berloques. Logo no início do Génesis descobri a longevidade dos primeiros homens. Desde Caim, Abel e Set (não sabia que Adão tinha tido um terceiro filho) a Abraão, todos vivevam entre trezentos a oitocentos anos. Não fazia ideia. Fiquei pasmada e maravilhada. A ideia de viver tanto tempo assusta-me. É muito tempo. Demasiado para se viver com o entorpecimento do corpo. Eu não gostava. Mas isso sou eu que não tenho um pingo de fé. Apesar de, volta e meia, a procurar não sei muito bem onde ou porquê.

Bíblia (1)

Riposo nella fuga in Egitto, Caravaggio

2007/02/14

Mel

Vou falar bem de uma figura pública, dessas que estão na berra, que é para não se pensar que sou feita de inveja e fel. Não sou. Cá vai: Gosto do Ricardo Araújo Pereira. É muitíssimo giro. É simpático (ele a interpelar a minha irmã no chiado, a chamar-lhe susaninha, a mostrar-lhe a fotografia da filha acabada de nascer, eu, incrédula, quando ele se foi embora, a beliscar-lhe o braço, a dizer-lhe ouve lá, ó minha cabra, tu conheces este tipo?, ela a sorrir e a dizer ó mana, não sejas histérica). É benfiquista. É inteligente. Tem muita piada. Basta ver a imitação do Marcelo, para confirmar que o Ricardo Araújo Pereira roça o genial. Perto dele, o Herman José faz lembrar o António Calvário. Gosto, pois, do Ricardo Araújo Pereira. Só é pena ser comunista.

Fel

Enquanto esperava pelo Horatio Caine, vi o eixo do mal sobre o pior português de sempre. Coisa insonsa. O painel de comentadores estava tristonho. Dir-se-ia que estavam todos a fazer um grande frete. Estava lá uma espanhuela, com cara de Maribel, que esteve sempre caladinha, mas que, no final, a propósito de coisa nenhuma, aconselhou os portugueses a ter mais ganas, mais garra. Olé. Estava lá também uma rapariga chamada Inês Menezes, uma donzela pálida, grande observadora de costumes, que tentava ter piada, falando da floribela, da floribela e da floribela. Com excepção do Pedro Mexia, não conheci nenhum dos homens que lá estavam. Mas devem ser pessoas importantes. Fiquei com uma dúvida. É impressão minha ou a Clara Ferreira Alves tem, ou quer mostrar ter, um fraquinho pelo Pedro Mexia? Cada vez que o dito diz qualquer coisa ela ri descontroladamente. Ora, é preciso usar com parcimónia o riso. Eu, sem querer ser má-língua, está-me cá a parecer que a Clara está a acautelar o seu futuro literário. Quando finalmente lançar o seu aguardado romance, o tal que tem a ver com Casablanca e está para sair há meia dúzia de anos, o Pedro Mexia, lembrando-se das suas efusivas gargalhadas, da sua inteligência acutilante, da sua superioridade intelectual, da sua arrogância pós-moderna, não terá alternativa a não ser fazer-lhe uma boa crítica.

Valentim

Hoje, para além de ser o dia dos namorados, é também o dia europeu da disfunção eréctil. Gostava de saber se existe algum dia europeu da frigidez. Quase aposto que não há. A frigidez é assunto que, pura e simplesmente, não se discute. É frustração que não se assume. Abre-se as pernas. Recebe-se o esperma. Olha-se para o tecto. Ouve-se a respiração pesada do parceiro. Até se pode dizer qualquer coisa do tipo “anda, anda, vem, vem” que é para ele se entusiasmar e aquilo acabar depressa. E já está. É como se não existisse frigidez. Mas existe. Havia muito que dizer sobre a disfunção eréctil versus frigidez. Mas não tenho tempo, nem discernimento para o fazer. Estou aborrecida comigo mesmo. Gritei com a minha filha pela manhã, fi-la chorar e isso deixa-me de rastos.

2007/02/13

Raízes (2)

Só depois me lembro do resto. E o resto é muito. Tem o cheiro nauseabundo da miséria e da exploração. Tem o cheiro enjoativo da desigualdade. Tem o travo amargo de um futuro que não se conhece nem se adivinha. Tem o cheiro húmido, que se entranha na pele, dos bolores ancestrais. Mas tem, também, o cheiro da esperança. Na verdade, é complicado ser-se de toda a parte e não se ser de sítio nenhum. É difícil ter tantas raízes. Umas compridas, que atravessam países, mares, fronteiras para fundearem lá longe perto do rio Zuari, onde há quintais com cobras e a claridade do crepúsculo tem a cor da clara do ovo. Outras que se estendem além Tejo, por serranias de giestas habitadas por zorras e homens que matam a sede bebendo por caces de cortiça. Outras raízes que latejam memórias antigas, familiares, cheia de bichos: hipopótamos, jacarés, morcegos, leões, macacos, lagartas leitosas que vivem sob a minha pele. Outras ainda, imaginárias, que eu teço, que eu quero ter, que só por incompetência do destino não são minhas. São raízes que acrescento às reais, que atravessam o atlântico para se apaziguarem num lugar onde todos, ou quase todos, são como eu, mestiços.

Raízes (1)

As raízes são uma coisa estranha. Estão escondidas num mar baço de terra. As raízes são tentáculos de um polvo sedento de lembranças aquosas. São elas que alimentam, sustentam, estruturam. Umas crescem. Outras apodrecem. As raízes, as minhas, são invisíveis como as de toda a gente. Por vezes, porém, provocam-me reacções inexplicáveis. Como esta. Leio no Público uma entrevista a dois especialistas de política internacional que por cá andaram a convite da Fundação Oriente. Falam sobre as duas potências emergentes: a China e a Índia. Apontam as diferenças entre ambas. Explicam que a Índia é uma democracia há 60 anos. A maior do mundo, como a gaba o meu pai. Explicam também as diferenças entre ambas. Falam da capacidade intelectual e tecnológica da Índia. Leio e rejubilo. São as minhas raízes do levante que se agitam e se envaidecem. Fico insuflada, inchada de orgulho. Fecho o jornal, olho para quem passa com uma distância triunfal, como quem diz, tomem lá, seus palermas pálidos que é para aprenderem.

2007/02/12

Pai


Steve McCurry, Índia
Desconfio que o meu pai, do outro lado do mundo, me descobriu o blog. Paizinho, não te amofines com os disparates que aqui escrevo. Há muito folclore, muito exagero, muita mentirinha neste diário. Mas, de outra maneira, ninguém lê isto, percebes? Tu sabes que eu não sou assim. Sou um poço de virtude, bom senso, credibilidade e recato.

Ortiga...

…é o mesmo que urtiga. Basta consultar qualquer dicionário para constatar que se pode escreve das duas maneiras. (Confesso: lido mal com o reparo. E também gosto pouco, muito pouco, de ser contrariada ou corrigida. Tenho, como diz a minha mãe, um feitiozinho de merda.)

Âmbar

Fui à Gulbenkian ver o “Sentimento”, do Visconti. Não sei se gostei do filme ou não. Gostei? Há demasiada humilhação naquela mulher, demasiada estupidez e loucura. Tenho vontade de a esbofetear. O amor dela agonia-me. Mas há detalhes, palavras, planos que, de tão intensos, nos ferem e maravilham. Como, por exemplo, o plano que se vê depois de Lívia finalmente ceder à prosápia de Franz e lhe franquear a sua cama. É um plano sóbrio - porventura, dispensável -, que mostra apenas a luz de um candeeiro que se apaga. Nesse plano vi a noite tornar o amarelo e o âmbar em violeta e azul. Nunca a escuridão me assustou tanto.

D. Quixote

O Rui Santos diz hoje, no novo Público, que não se sente um D. Quixote, mas mais como um Francisco Louça do futebol. Ena. E eu que tinha o Rui Santos como um latoeiro, anti benfiquista, armado aos cucos e com muito mau gosto para escolher gravatas e se pentear (que caracóis são aqueles?). Afinal o homem tem decência. Tem o bom senso de recusar uma comparação com uma figura literária do calibre do D. Quixote, permitindo-se apenas comparar com um tele-evangelista, demagogo e intelectualmente desonesto.

2007/02/09

Julia Cota

Outra sugestão: Na Rua do Coliseu, logo no início, há uma loja de artesanato. Perfilando-se, altiva, naquele magnifico cortejo de figuras burlescas, destaca-se a figura de uma mulher gorda, baixa, muito feia, a fazer lembrar um sino vermelho. Tem um buço enorme, arrecadas douradas nas orelhas e as sobrancelhas carregadas como pássaros prestes a levantar voo. É uma peça da Júlia Cota. Custa 62 euros e eu quero-a.

Helena Andreevna

Ali, às portas de Santo Antão, comemos bacalhau com grão, temperado com cebola crua, salsa, e muitos dentes de alho. Ela, de unhas vermelhas (um vermelho da cor do licor de ginjas), picou os alhos com as mãos. Eu, também de unhas vermelhas (um vermelho da cor das framboesas), mais recatada, utilizei a faca e o garfo para os picar. Acabámos a refeição com um hálito, pesado, denso, que só deve passar daqui a uma semana. Ainda estou a arrotar a cebola. Estou até um bocadinho mal disposta. Tem razão a minha filha, quando, perante o meu inusitado desejo de ir viver para o outro lado do mundo, me pergunta se eu era capaz de viver longe da Maria Emília. Não era. Quem tem uma Helena Andreevna na vida não se pode dar ao luxo de a perder.

Velho

Todos os dias o filho vem trazê-lo. O homem ali fica, sentado sobre a laje fria, encostado a uma das colunas da entrada do edifício. Passa o dia inteiro, com a mão estendida, pedindo uma moeda para comer. Às vezes quando o frio esmorece, descobre a cabeça e deixa visível um enorme bocado de carne, uma bola mole, uma verruga gigante. Porventura quererá com esse gesto compadecer os transeuntes que passam ou, então, justificar a sua presença diária naquele sítio. A D. Bia, a gueixa ruiva da 5 de Outubro, enquanto remexe nas suas coisas, vai dizendo que é uma pouca vergonha, que o pobre do velho já deve ter o cu calejado, que anda uma pessoa a criar um filho para ter uma besta destas (refere-se ao filho do velho). Aprecio, sempre apreciei, a linguagem desta mulher. Gosto especialmente de a ouvir falar do filho, de uma feiura inenarrável, e do marido, levemente idiota. Durante o fim-de-semana, o velho não está ali. A cidade morre ao sábado e domingo. Em vez de o trazer para a avenida, o filho leva-o para as chegadas do aeroporto. Deixa-o estrategicamente sentado ao lado das máquinas do parque de estacionamento. Ao final do dia vai recolhê-lo. O velho segue-o, os olhos colados no chão, titubeante como a luz que uma vela que está prestes a apagar-se.

2007/02/08

Amanuense

Na tabacaria, depois de comprar vários maços de cigarros que fumarei noite fora para compensar o desmame abrupto dos anti depressivos a que me forcei, pedi uma chave do euromilhões. Parece que há um prémio qualquer. Desconfio que vou ganhar. A sério. Deixo logo de trabalhar. Livro-me de vez das providências cautelares no novo contencioso administrativo, arrenego a nulidade e a anulabilidade do acto administrativo, mando às ortigas os cadernos de justiça administrativa e o mais que se amontoa em cima desta secretária. No fundo, sou uma amanuense. Nada mais do que uma amanuense. Não quero ser amanuense a vida inteira.

Lince da Malcata

Um dos argumentos que os defensores do “não” volta e meia avançam é o de que a liberalização da IVG potenciará o acelerado decréscimo da natalidade na Europa. Estão preocupados com a extinção da espécie, das estirpes, da raça caucasiana. Aterroriza-os que, daqui a uns anos, já não haja europeus. Temem que os asiáticos, indianos, chineses, os magrebinos, os africanos, tomem conta disto. Ui, que chatice. Eu acho que havia de se criar uma associação para a preservação do Europeu. Assim como há uma associação para a preservação do lince da Malcata. Uma das medidas passaria naturalmente por proibir a interrupção voluntária da gravidez em qualquer circunstância e obrigar as mulheres, feitas para parir, a ter pelo menos meia dúzia de filhos.

Parvati


(Chamaram-me puta. Não me chateava se me chamassem puta se o fosse. Mas não sou. Sou uma consorte. Como Parvati.)