A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes.
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha.
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda.
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda.
José Mário Branco
(Mas não há inquietação que se compare à do José Mário Branco.)
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2007/03/12
Lição em Pondá
Despimo-nos. Eu, a sobrinha europeia. Ela, a tia goesa, a menina que o meu pai carregava por caminhos sinuosos de chuva e lama até à escola. A nudez traz-nos a proximidade que tardava em chegar. Assim despedidas, a tia Amália começa a lição. Primeiro o saiote, bem apertado ligeiramente por cima da anca. O umbigo deve deixar-se sempre destapado. É por aí que o corpo respira, explica. Se se cobrir o umbigo o corpo sufoca. Depois a blusa que deve ser justa e tapar apenas o peito. Por fim, o rectângulo que envolve o corpo como se fosse um casulo. Há quatro passos essenciais que não se podem esquecer. O mais difícil é preguear decentemente a parte de baixo. É preciso ter mãos habilidosas para o fazer. À medida que a tia Amália fala, executa os gestos, enrolando-se na perfeição no tecido. Eu tento imitá-la.
Sentada na cama, Jessica come umas uvas pretas, muito doces e sem grainhas. Para me tranquilizar, diz que, em vez do sari, poderei sempre usar um churidar. Sorrio-lhe. Não gosto nada de churidares. A única peça que gosto no churidar é a dupata. Continuamos a lição. Por fim, com a ajuda de duas mulheres, consigo vestir o sari. A minha tia apanha-me o cabelo. Manda-me andar. Olho-a. “You can’t walk in a sari like you walk in your jeans. You have to walk with grace, Ana Clara!.” Ando. Ela abana a cabeça. Diz que temos de treinar o andar-de-sari. Reconheço-me nela. E, outra vez, vejo as mãos do meu pai no seu corpo. Ela faz-me uma festa no rosto. Gosto da festa que ela me faz, que é morna, como uma manhã de maio. Diz que pareço uma parsee por causa da claridade da minha pele. Que estranho, penso, sou uma europeia escura e uma indiana clara. Jessica, escura e gorda, continua a comer bagos de uva e ri-se.
(Ontem, fiz um esforço para lembrar os conselhos da tia Amália. Depois de várias tentativas consegui vestir o sari que o meu pai trouxe. Não fica bem dizê-lo, eu sei, mas fico linda.)
Sentada na cama, Jessica come umas uvas pretas, muito doces e sem grainhas. Para me tranquilizar, diz que, em vez do sari, poderei sempre usar um churidar. Sorrio-lhe. Não gosto nada de churidares. A única peça que gosto no churidar é a dupata. Continuamos a lição. Por fim, com a ajuda de duas mulheres, consigo vestir o sari. A minha tia apanha-me o cabelo. Manda-me andar. Olho-a. “You can’t walk in a sari like you walk in your jeans. You have to walk with grace, Ana Clara!.” Ando. Ela abana a cabeça. Diz que temos de treinar o andar-de-sari. Reconheço-me nela. E, outra vez, vejo as mãos do meu pai no seu corpo. Ela faz-me uma festa no rosto. Gosto da festa que ela me faz, que é morna, como uma manhã de maio. Diz que pareço uma parsee por causa da claridade da minha pele. Que estranho, penso, sou uma europeia escura e uma indiana clara. Jessica, escura e gorda, continua a comer bagos de uva e ri-se.
(Ontem, fiz um esforço para lembrar os conselhos da tia Amália. Depois de várias tentativas consegui vestir o sari que o meu pai trouxe. Não fica bem dizê-lo, eu sei, mas fico linda.)
2007/03/09
Abstinência
Estou tão mal disposta. Apetece-me vomitar em grandes jactos a feijoada que comi ao almoço. Se possível para cima da Bárbara Guimarães ou do António José Seguro. Desconfio que é a falta prolongada do xanax que me provoca a agonia, o mal-estar, o cansaço, a astenia, a gula, a paralisia, a fraqueza, as tonturas, os pesadelos, o inchaço e tudo o mais. Tão triste, ser-se toxicodependente.
Bo Derek
Soubesse escrever decentemente, sem erros, nem hesitações, com jactância e habilidade, e escreveria uma novela, cheia de palavrões e palavras-pedra. Não sei sobre o que seria. Talvez sobre uma prostituta-negra-albina-frígida-com-umas-grandes-mamas. Ou, então, sobre a dona-de-uma-agência-funerária-feia-e-levemente-marreca-tarada-sexual-com-umas-mamas-ainda-maiores.Qualquer coisa do tipo. Sei, porém, como lhe chamaria: “Bo Derek de Sapadores”. É um nome e peras.
2007/03/08
Senhor Tobias
O senhor Tobias, responsável pelo economato do meu serviço, deixou-me uma flor na secretária. Vermelha, parecia uma gota gorda de sangue derramada por cima dos processos. Claro que não fui capaz lhe dar com a flor na cabeça. Corri até ele e agradeci-lhe com um beijinho. Depois sentei-me perto dele e falámos do Benfica. Assegurou-me que o jogo está ganho. Suspirei de alívio pelos benfiquistas que tenho em casa. O senhor Tobias é um grande benfiquista, um grande pescador de alto mar e um grande apreciador de vinho tinto. Temos sempre conversa um para o outro.
Super Mulher
A propósito do dia de hoje, o Público fala de mulheres trabalhadoras com filhos. Chama-lhes super mulheres. Na minha ingenuidade, pensei que o Público abordasse efectivamente a situação das mulheres que têm de trabalhar e cuidar dos filhos. Enganei-me redondamente. O Público limita-se a descrever, de forma aborrecida, a vida de duas ou três mulheres, bem sucedidas profissionalmente, repimpadas nas suas vidas, que gostam de parir como coelhas (espero, sinceramente, espero que, pelo menos, também gostem de foder como coelhas). Há uma tipa qualquer que pôde deixar de trabalhar porque o marido tem “uma óptima posição” na sociedade de advogados onde trabalha. Faz de motorista. Ao fim do dia é uma canseira. Tem de ir buscar as crianças à escola e andar, de um lado para o outro, a distribuí-los nas actividades. Esta tipa é uma super mulher? Há outra, com uma catrefada de filhos, é certo, mas com duas empregadas e uma equipa de babysitters e avós para a ajudar. É esta uma super mulher? Sem cair no discurso do politicamente correcto (eu sei que agora está fora de moda o politicamente correcto, aliás, agora é politicamente correcto ser-se politicamente incorrecto), digo: super mulheres são as senhoras da limpeza, os rostos precocemente marcados com sulcos profundos, as mãos gretadas, o cheiro da catinga entranhado no corpo, que entram no edifício quando eu saio ao fim do dia e o abandonam pela manhã quando eu chego. O edifício espreguiça-se em movimentos lentos e expulsa o cansaço destas mulheres. Eu olho para elas e pergunto-me sempre quando é que dormem.
(E, se alguém se atrever a entregar-me uma florzinha, murcha e desengraçada, arrisca-se a levar com ela na cabeça.)
(E, se alguém se atrever a entregar-me uma florzinha, murcha e desengraçada, arrisca-se a levar com ela na cabeça.)
2007/03/07
Manelinha
Quando cheguei do almoço o peixe boiava na bolha de vidro, numa água esverdeada, com o bucho muito inchado e as guelras dilatadas. Corri à casa de banho. Lá dentro, a D. Manuela, a Manelinha como lhe chamam as colegas do seu serviço, comia uma pêra, bojuda e madura. Sempre estranhei que a D. Manuela escolhesse para comer a sua merenda da tarde o local onde as outras mulheres evacuam, urinam, trocam pensos higiénicos, libertam peidinhos malcheirosos e bufas sonoras. Adiante. Pois, a D. Manuela fixou os olhos na bolha de vidro que eu trazia nas mãos. Ao dar-se conta da imobilidade do bicho gritou. “Ai, Doutora, não me diga que o coitadinho morreu!”, disse ela. E, cruzando as mãos no peito, começou uma litania insuportável sobre o padecimento dos animais e de que era por isso, pela afeição que se cria aos bichinhos, que ela, apesar de solteira, não queria bichos lá em casa. Queria poupar-se, explicou, a essa dor imensa. No final suspirou e enfiou mais um pedaço de pêra pela goela abaixo. Eu fiz um ar grave e disse-lhe “Pois é”. Depois despejei o cadáver do peixe na retrete e puxei o autoclismo.
Pai
Depois de três meses na Índia, o meu pai volta amanhã para Portugal. As gralhas gigantes vão deixar de pairar por cima da sua cabeça. Deixarão de observar os seus passeios pelos campos na companhia do seu sobrinho Francisco e também as suas movimentações apressadas no jardim e no quintal. Uma roseira aqui. Um hibisco ali. Cortem aquela papaeira. Podem a mangueira. Reguem os limoeiros que estão junto ao muro. As gralhas preparam-se para a ausência do meu pai e para a monção que não tarda a chegar. Do lado de cá, a minha mãe desdobra-se em preparativos e arrumações para que tudo esteja perfeito. Correu hoje ao cabeleireiro a arranjar-se, ela que é tão bonita. Penso no meu pai, na minha mãe, no meu primo Francisco Anastácio, o homem dos olhos doces e dos abraços sinceros, sempre transpirado, sempre despenteado, penso nas perninhas de galinha, com sabor a limão, que a Jessica, sua mulher, me preparou para comer na viagem de comboio para Bombaim, e dá-me vontade de chorar.
2007/03/06
Cebola frita
Ao almoço uma amiga disse, com propriedade e alguma presunção também, não ter gostado do último livro da Agustina Bessa Luís. Discordei e perguntei-lhe porquê. Explicou que, na opinião dela, a escrita da Agustina se tornara “demasiado feminina e literária”. Anui. Em silêncio, continuei a mastigar rodelas translúcidas de cebola frita e pedaços de carne de porco mergulhados num molho de natas enjoativo. Mudámos de assunto. Ainda não percebi o que ela quis dizer.
Maniaco-depressiva
A Paz viajou em busca do silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva.
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa.
A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia.
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça Duma licença graciosa.
José Afonso
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva.
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa.
A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia.
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça Duma licença graciosa.
José Afonso
(O médico olhou para o papel que trazia nas mãos. Retorceu o bigode. Depois disse “Minha senhora, confirma-se o diagnóstico”.)
Bilhete
Quero transformar-me em pó, cinzas, poeira, em nada. Tornar-me definitivamente no vazio, numa recordação, numa lembrança. Passar a ter apenas expressão nas fotografias que envelhecem devagar nos álbuns que fiz há muitos anos, quando era nova, quando me sentia nova. Habita-me uma dor que não sei, não consigo descrever. É uma dor que não se sente, mas que está lá, espalhada, derramada pelo meu corpo. Cobre-me, evanescente, como se fosse uma gaze translúcida. Só por estar lá, só por existir, não me ferindo, fere-me. De uma maneira insuportável. Ácida, a dor corrói-me por dentro. Às vezes, parece que tenho caruncho, um exército de insectos minúsculos dilacera-me, come-me os órgãos e os membros. Não consigo olhar-me no espelho. Mesmo, pela manhã, quando lavo o rosto e me penteio, executo esses gestos rotineiros sem nunca me olhar. Habito o meu corpo. É isso. Limito-me a habitar o meu corpo, invólucro de qualquer coisa que adivinho menor. Sinto constantemente um nó a estrangular-me a garganta. Sinto esse nó em cada segundo, em cada minuto, em cada hora que passa. Fujo de mim.
2007/03/05
Vício (2)
Também corro o risco de me viciar nas revistas cor de rosa que não se param de falar da bancária maneta que mandou o amante brasileiro matar o marido alcoólico e que tem um filho pequenino, coitadinho, e outro, para aí de vinte anos, tão bicha, tão bicha, tão bicha, e feio, que uma pessoa, mesmo sem querer, sente dó de tal criatura. Uma tragédia.
Vício (1)
Não sou grande apreciadora de blogs. Há, na blogosfera, uma histeria colectiva, um sentimento de companheirismo e permanente discussão, uma vaidade, uma democraticidade que me aborrece. A democracia pode ser uma coisa tão sem graça. Mas tenho de dar a mão à palmatória. Há blogs únicos. Como este. Já me tinham falado da Bunny, do seu Xu e da vontade de ambos de procriar. É precioso. Corro o risco, sério, de me viciar neste blog.
2007/03/02
Laurinda
Gostava muito mais do Público de antanho. Por exemplo, neste, tão colorido e levezinho, não encontro os anúncios eróticos. Eu bem os procuro, entre suplementos, e nada. Depois, gostava que me explicassem, por que razão sou obrigada a levar com a Laurinda Alves à sexta-feira. O que é que eu tenho a ver com a Gracinda que a Larinda encontrou no recinto do santuário de Fátima e que, entre orações e devoções, lhe disse “gosto tanto, tanto, tanto, tanto, tanto de si!” Li aquilo e imaginei logo uma cena de engate entre a Laurinda e a Gracinda ao pé da capelinha das aparições. Depois fala das óperas a que assiste no São Carlos e tece elogios rasgados ao novo hospital da Luz. Tivesse a Laurinda bom senso e calar-se-ia com estas miudezas. Como ela bem sabe, o hospital da Luz, com as mordomias próprias dos mais caros hotéis, servirá apenas aqueles que o puderem pagar. Não faz mal que assim seja. O que chateia é que uma beata como a Laurinda, na sua coluna, se limite a falar dos que têm tudo e esqueça os que nada têm.
2007/03/01
Mariana
Sete saias tem Mariana
e um emprego em Miraflores.
Viveu ontem de recados
mas hoje vive de amores.
Sete carros vão chegando
pelas tardes de Belém,
com sete homens que a beijam
entre Sintra e o Cacém.
"Não tenho amores,
nem tenho amantes pois,
quantos amados não sei.
Tenho alguns amadores,
olha para mim,
lá na terra onde morei
escutava pela rádio o folhetim".
Sete saias tem Mariana,
à noite no Parque Mayer
dança bolero em dó menor
ali num cantinho qualquer.
"Ai de mim", diz Mariana,
se um dia amor me faltar
ao almoço eu já não como
e como menos ao jantar.
Fausto, Madrugada dos Trapeiros, 1978
e um emprego em Miraflores.
Viveu ontem de recados
mas hoje vive de amores.
Sete carros vão chegando
pelas tardes de Belém,
com sete homens que a beijam
entre Sintra e o Cacém.
"Não tenho amores,
nem tenho amantes pois,
quantos amados não sei.
Tenho alguns amadores,
olha para mim,
lá na terra onde morei
escutava pela rádio o folhetim".
Sete saias tem Mariana,
à noite no Parque Mayer
dança bolero em dó menor
ali num cantinho qualquer.
"Ai de mim", diz Mariana,
se um dia amor me faltar
ao almoço eu já não como
e como menos ao jantar.
Fausto, Madrugada dos Trapeiros, 1978
Escola
Uma das razões que me faz gostar da escola do J. e da M. são os pais dos outros miúdos. Felizmente os tios do bairro fazem questão, nem que para isso tenham de fazer do cu três bicos, de manter a sua descendência nos colégios da zona. Acho bem. Gosto pouco de misturar os meus filhos com criancinhas que parecem Nunos Melo e Teresas Caiero pequeninos. Até ver só topei com uma tipa, cavaleira, claro está, de madeixas loiras, nariz adunco, feia de morrer, tratar o filho por você. Ela, a dizer “O Martim não sabe que a mãe não gosta de birras! Pare de chora, por favor!” e meia dúzia de pessoas a olhá-la de esguelha. Evidentemente, aquela mãe enganou-se na escola. A gente não a quer lá. À semelhança daquelas pessoas que não querem crianças ciganas a frequentar a escola dos seus filhos, eu não quero na escola dos meus este tipo de gente. Havíamos de fazer um boicote à mãe do pobre Martim.
Tina
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