2007/05/28

Selma

Como diz a canção, tenho a vida partido em mil pedaços. Há uma cacaria de vidros espalhados pela casa-labirinto. Os meus pés ferem-se e sangram. Procuro pensar em coisas que me animem: a Dádá acha-me parecida com a Selma Hayek.

2007/05/26

Dalida

(Para a Maria Emília, que é feita de sol. Como gosto de si.)

2007/05/25

Guiomar (3)

Guiomar ri. Continua: Sabe, as horas tardias não são sempre iguais. Por vezes, são violentas. Precipitam-se. Transformam-se em palavras arremesso. Cavalgam sem cabresto sobre mim. Outras vezes, são pacíficas. Quase mornas e confortáveis. Como um casaco velho de lã. Ou o cheiro da roupa lavada. Sabe porquê? Porque quem me quer nada exige de mim. Não tenho de demonstrar afecto, nem interesse. Só tenho que estar ali. Disponível. Passo a ser um corpo que se consome por hábito. Quando as horas tardias são assim, mansas, consigo sair do meu corpo e ver-me. Vejo-me. Tenho quase sempre os olhos enxutos.

Guiomar (2)

Guiomar cala-se. Continua: Uma vez foi diferente. Nem sei bem o que foi. Ou como foi. Ou porque foi. Senti qualquer coisa. Regressava a casa. O comboio estava cheio. Os passageiros comprimiam-se, formando um corpo único. Uma amálgama de gente. Um homem tocou-me na perna. Com ligeireza e propósito. Senti um frémito. Um estremecimento. Uma poeira branca de luz pairou sobre mim. Depois, senti um carreiro de formigas subir pelas minhas pernas e tocar-me por dentro. O homem encostou-se. Eu deixei. Ficámos assim, imóveis, durante alguns minutos. O homem saiu, por fim, em Massarelos. Levou as formigas consigo. Não sei para onde foram. Fugiram. Nunca mais voltaram. O meu desejo tem corpo de insecto pequenino e vive perdido em Massarelos. Não acha engraçado? Eu acho. Acho até muito engraçado. Fiquei só.

Guiomar (1)

Guiomar abre a boca e diz: Amedrontam-me as horas tardias e tudo o que elas têm dentro. São intermináveis e espessas, as horas tardias. Nelas cabem muitos minutos e segundos. As horas tardias formam cassiopeias feias, cegas de escuridão. Trazem dentro delas mãos, sombras, vultos. Trazem a urgência dos outros. De quem me quer. Eu deixo que me queiram. Deixo que me tomem. Deixo até que me toquem. Mas não sinto nada. Nunca senti nada. Não acredita?

Homem-aranha

Também conheço um homem com nome de anjo que, amiúde, morre por amar. Cada vez que ama morre. É como a aranha macho que, quase sempre, morre depois do coito. Fecunda a fêmea tecelã. Esta, depois de o prender na sua teia, devora-o. O homem-aranha, o tal que conheço, ama com abnegação. É a pior forma de se amar. Inocente, espera sempre que os outros homens o amem da mesma maneira.

Evidência

Já o disse. Os homens dividem-se entre os que usam botões de punho e os que não usam botões de punho. As mulheres, por sua vez, dividem-se entre as que usam sapatos de cunha e as que não usam sapatos de cunha. A Bárbara Guimarães, apesar de tentar disfarçar com um toque de sofisticação amarela a sua ignorância, quase de certeza que gosta de sapatos de cunha.

2007/05/24

Nana

(j'adore cette femme.)

Biafra

Conheci, em tempos, uma mulher que morria por amor. É exactamente esta a palavra que quero empregar: morrer. Porque, assim como se pode morrer com uma crise aguda hemorroidal ou um ataque de flatulência, pode morrer-se por amor. É igualmente risível. Definhava a olhos vistos. Magérrima, chupada como uma criança do Biafra. Consumia-se por causa de um jeitoso que gostava de ópera, que lia Wittgenstein e, jantava, ao final do dia, em restaurantes de degustação. Um tédio de homem. Um homem-tédio. Os seus olhos tinham sempre uma névoa de tristeza que me desesperava e desamparava. Por osmose também eu, quando estava com ela, me sentia assim, a morrer devagar, a vasculhar nos cantos da minha vida razões para ser infeliz. Fazia terapia há 5 anos. Anunciava-o com alívio, assegurando que as sessões de terapia a ajudavam a enfrentar a vida, a estruturar-se como pessoa, a perceber as suas atitudes e opções. Eu achava aquela conversa estranha. Ainda acho. Como se aguenta um psicanalista durante cinco, dez, doze anos? A maior parte das relações não dura tanto tempo.

2007/05/23

Menina-balão

Na Índia, ao contrário de cá, os jornais não trazem mensagens eróticas. Shiva, sempre entretido em cabriolices eróticas com as suas consortes, de lingam erecto, não o permite. Em contrapartida, há em cada jornal uma longa secção de matrimonial. Trata-se, como o nome indica, de uma secção de anúncios de quem procura parceiro para casar. As mensagens são de uma especificidade impressionante. Nunca tinha visto nada igual. As brides e os grooms descrevem-se com rigor e exactidão. Num quadradinho de papel condensam a informação necessária para despertar o interesse de um potencial parceiro: idade, casta, religião, habilitações -desengane-se quem pensa que na Índia são todos uns desgraçadinhos analfabetos, na maior parte dos casos, principalmente nas cidades, o que está em causa é saber se se tem uma especialização ou um doutoramento -, região, profissão, salário e, claro, o tom da pele. Fiquei viciada na leitura daquela secção dos jornais indianos. Por isso, quando a tarde caía sobre a casa de Maina e os esquilos se escondiam nos ramos da mangueira, eu arrastava a cadeira de baloiço para a varanda e entretinha-me a ler os anúncios dos casamentos, tentando encontrar naquelas listas infindáveis correspondências que assegurassem aos noivos um casamento feliz para a vida. Um dia, a Ria, a menina-balão, veio sentar-se perto de mim. Espreitou o jornal e chamou, com a sua voz de trovão, as outras crianças da casa que, entretidas a chupar limas, correram para perto de nós. “Ana Clara is reading the matrimonial! She is looking for an indian groom!”. Ri-me do descaramento da menina-balão e belisquei-a. Depois, passámos o resto da tarde à procura de um noivo indiano para mim.
(Tenho saudades da Índia. Nunca mais chega o Natal para, por fim, voltar.)

2007/05/22

silvana mangano (flo sandon's)

Balzaquiana

Todas as manhãs, leio as mensagens eróticas do Público. É certo que as do Diário de Notícias e do Correio da Manhã, com grande oferta de travestis, são mais apelativas. Mas, enfim, sou de uma fidelidade canina ao Público. Habituei-me a ler as mensagens enquanto andava à procura de casa para alugar. Elas, as mensagens, estavam ali, mesmo ao lado dos apartamentos e escritórios para arrendar. Antes dos aborrecidos editais públicos dos tribunais. Leio-as à mesa do pequeno-almoço, no café, enquanto mordisco um pão com manteiga e uma meia de leite. De tailandesas a indianas, de brasileiras a africanas, de universitárias a executivas, de moreninhas de cara laroca a quarentonas de perna grossa, de éricas a natashas, de peludinhas a rapadinhas, de quase-quase-quase virgens a separadas, de mulheres sérias que procuram uma relação séria a gatas assanhadas, há lá de tudo um pouco. Porém, volta e meia, por entre o ambiente baço e ordinário, aparecem mensagens diferentes. No início desta semana apanhei uma de certa mulher balzaquiana que procurava cavalheiro distinto para relação séria. Havia uma solidão amargurada na mulher balzaquiana da mensagem do Público.

Santo Isidoro

A mãe da Rafaela trouxe-lhe um Santo Isidoro de Fátima. Ela está em pulgas, ansiando pelo final do dia para o ir buscar à Charneca da Caparica. Esta noite a Rafaela, de anágua branca, consoladinha, rezará pais-nossos em frente do Santo Isidoro de marmorite. Na sala, o marido, em tempos trocado por um talhante de Peso da Régua, sentirá um arrepio na espinha ao dar-se conta da devoção da mulher. E mais não digo. Calo-me. Amordaço a boca. Estrangulo os dedos. Parto as falanges, as falanginhas e as falangetas. Que, pela insistência com que aqui falo dela, pode começar a parecer que tenho uma fixação duvidosa pela minha colega da banda gástrica. Não tenho.

2007/05/21

Silvana Mangano


Nanni

Vinha eu a descer o Arco do Cego, feliz com a minha saia cintada, enfunada pelo vento, quando tive a revelação do sonho desta noite. Esta noite, até me custa dizê-lo, sonhei-me namorada do António Pires de Lima, o homem que usa sempre botões de punho. Simplesmente vergonhoso, ter um sonho destes. Podia, em vez, ter-me sonhado amiga do Nanni Moretti. Mi piace moltissimo la barba e il baffi di Nanni.

SG

Madalena, foi lindo! Gostaste? A mamã adorou! O Sérgio Godinho é lindo! E cantou a canção dos Amigos de Gaspar! Só para ti. É o homem mais lindo à face da terra! Ele, o Fausto e o Chico Buarque. A mamã ama-o! Ama-o, percebes? É um dos amores da vida da mãe!”, e vou vestindo-lhe o pijama vermelho às bolinhas. “Pensava que o amor da tua vida era o papá”, diz ela já deitada e fecha os olhos. Os disparates que as crianças dizem.

2007/05/18

Notas Soltas

1) O Sarkosy, para além de giro, é dotado de uma habilidade política inédita. Convidou para MNE o improvável e incorrecto Bernard Kouchner. Cala muita gente com este gesto de nítida provocação e ousadia.

2) Ontem, no jornal, vi finalmente a fotografia da namorada do Presidente do Banco Mundial. Feia, mas inteligente, empenhada, lúcida, um percurso brilhante, irrepreensível. Sempre a imaginei, vá-se lá saber porquê, uma loiraça de mamas gigantes e silicone nos lábios.

3) Ao que parece, o Luis Nobre Guedes será o candidato do CDS. Que dizer? Que o Paulo Portas, para além de ter mau gosto em relação a quem leva para a cama, tem também péssimo gosto para escolher candidatos?

4) O Wong Kar Way resolveu filmar uma lamechice qualquer com o Jude Law e a sonsinha da Norah Jones. Do elenco só se aproveita o Tim Roth. Aqui há uns anos tive um onírico orgasmo com este actor. Lembro-me dele, do orgasmo, com saudade.

5) A Laurinda Alves na sua chatíssima crónica de sexta-feira fala de um encontro qualquer de escritores em Gigon ou Tarragona. Pergunto eu, o que estava a Laurinda a fazer num encontro de escritores? Acaso é escritora? É?

6) O Carlos Magno, que hoje se fará ouvir na Antena 1, é um caso preocupante. Hão-de reparar que, durante uma hora de programa, ele se diz amigo de toda a gente, jornalistas, políticos, jogadores da bola, escritores, cantores. Conhece toda e gente, é amigo de toda a gente. É constrangedor ouvi-lo.

7) Vou ver o Sérgio Godinho com a estrelinha da tarde. É sacrilégio dizê-lo, eu sei, mas ando farta do SG. Este último disco não tem ponta por onde se lhe pegue. Os sacrifícios que uma pessoa faz por um filho.

8) Depois de anos de resistência, ando a tentar ler os livros do Corto Maltese. Não estou a gostar. Uma seca. Já não posso com os selvagens da Guiana Francesa. Prefiro, de longe, os romanos imbecis dos livros do Asterix.

9) A minha irmã tem razão: os homens dividem-se entre os que usam botões de punho e os que não usam botões de punho. O Pacheco Pereira não usa botões de punho. É uma das razões pelas quais gosto assim tanto dele, mesmo quando discordo frontalmente do que diz e defende.

8) Comprei uns brincos, de preço obsceno, feitos de resina, com tomatitos, malaguetas e folhas de espinafre, muito mediterrânicos, muito solarengos. Lindos. Sinto-me como nova.

Toada

Não sei o que fazer com a tristeza quando ela toma conta de mim. Não a convido. Não sei por que vem, derramando tentáculos de dor. Sinto-a fisicamente, como se fosse um bicho, um parasita. Petrifica-me. Torno-me num cristal baço. Numa mancha de bolor. Numa estátua grotesca. Repelente. Torno-me numa fêmea de jacaré ou caimão. Sou uma fêmea de caimão. Sei, com precisão, onde, no meu corpo, se aloja a tristeza. Sinto-a aninhada na traqueia, perto da laringe e da faringe. Nas imediações da glote. Provoca-me náuseas. Vontade de vomitar, também. Hoje, durante o almoço, transformou-se em lágrimas e escorreu sobre a sopa de agriões.

2007/05/17

Chico Buarque e Elis Regina

Nome (4)

Na altura, ficou furiosa e, tal como acontecia sempre que era contrariada, começou-lhe a tremer uma vista e a ter pequenos espasmos nervosos. Só mais tarde, um dos formadores explicou que a Ana Clara, a outra que morava nos Anjos, perto das putas e dos proxenetas, padecia de um qualquer distúrbio que a obrigava a acompanhamento psiquiátrico. Apesar da sua demência, tenho de confessar que não gostava dela. Não tinha pena dela. Nem um pinguinho. Não me comovia a sua tristeza e a sua solidão. Sobretudo incomodava-me que uma pessoa assim, com uma voz tão feia, com um ar tão apagado, uma chatarrona, sempre a comer papo-secos com manteiga, tão só, tão infeliz, pudesse transportar durante toda a vida o meu nome. Nunca mais conheci ninguém que tivesse o meu nome. Há uns dias atrás, porém, o meu ginecologista disse que a sua terceira filha, que nascerá ainda em Maio, se chamará Ana Clara. Portanto, para além da tal rapariga que morava na Rua dos Anjos e que gostava de animais, sei que, em Maio, nascerá uma menina que viverá nesta cidade e que transportará o meu nome.

Nome (3)

Mais tarde, contou que vivia nos Anjos, perto do Intendente. Queixava-se que se cruzava, todos os dias, com as mulheres que por ali se vendiam e com os homens que por ali as compravam e usavam. Isso causava-lhe um asco enorme, um nojo desmedido. Descobri também que tinha uma paranóia por animais. Adorava-os. Amava-os. Cada vez que encontrava um cão abandonado na rua, falava-lhe como se estivesse a falar para um bebé. Com uma voz melada, insuportavelmente cheia de amor e ternura, com se os animais fossem as únicas criaturas puras do universo. Sempre me enervaram as pessoas que falam com as crianças como se estas fossem atrasadas mentais. Por isso, ainda mais me incomodava e irritava ouvi-la falar assim com um animal. Certa vez, no campo de futebol, estavam os miúdos da Voz do Operário a ensaiar para as marchas populares, cheios de arquinhos, a cantar cantiguinhas antigas, chateámo-nos. Só porque lhe disse que não gostava de animais. Que nunca na vida teria um animal. Ela ficou horrorizada. Fitou-me com um ar muito sério e, com aquela voz horrível, disse-me que se eu não gostava de animais não podia gostar de pessoas. Mandei-a à merda. Porém, reconheço agora, que a tontinha dos Anjos tinha razão. Não gosto de animais e gosto de poucas pessoas.

Nome (2)

No quarto ano do curso de Direito, resolvi desistir da faculdade e tirar um curso profissional, daqueles que não servem para nada, na Voz do Operário. Era um curso, imagine-se, de Animação Cultural. Na primeira aula, lá tivemos que passar pelo suplício de nos apresentar. Dizer o nome, o que fazíamos, onde morávamos, a idade, as habilitações, etc... Estava eu, naquela moleza própria dos primeiros dias de aulas, à espera que chegasse a minha vez, quando, para meu espanto, uma rapariga que, nesse momento, se apresentava disse chamar-se Ana Clara. Despertei logo daquela sonolência. Como se atrevia alguém a ter o meu nome? Fixei nela os meus olhos. Com curiosidade, ódio e desprezo. Era míope, usava uns óculos grossos, demasiado grandes para o seu rosto. O cabelo escorrido, sem vida, tinha um tom indefinido. Uma mistura de castanho com cor de laranja. A sua pele era muito branca, nívea, salpicada por algumas sardas no rosto. Quem a visse, achava-a feia, por ter um ar demasiado sério, contido, nervoso. Acho que nunca a vi rir ou sorrir. Mas o pior era a voz, sumida, meio fanhosa, voz de uma verdadeira serial killer de rapariguinhas bonitas e felizes. Comia metade das letras de cada palavra, tornando quase imperceptível o que dizia.

Nome (1)

Para além de Ana, tenho um outro nome. Clara. Chamo-me Ana Clara. É um nome bonito, pouco comum, invulgar mesmo. Ana é como Maria. Combina bem com muitos outros nomes. No entanto, esta conjugação de Ana com Clara, apesar de bonita, não seduz muita gente. Conheço muitas Anas Ritas, muitas Anas Marias, muitas Anas Margaridas, uma infinidade de Anas Catarinas e de Anas Cristinas, algumas Anas Sofias, duas Anas Rosas, uma Ana Madalena, uma Ana Manuel e até uma Ana Miguel. Durante muito tempo, achei que este nome, Ana Clara, só a mim me pertencia. Tal como a minha voz, como a minha caligrafia, como o feitio das minhas mãos, como a mancha, enorme, cor de canela, com o recorte do mapa da Inglaterra, que tenho, desde nascença, na perna esquerda, também o meu nome só a mim me definia e se adequava. Até aos vinte anos vivi na ilusão de que era a única Ana Clara no mundo. Sabia que deviam existir outras pessoas no mundo com o meu nome, mas eu não as conhecia e, por isso, era como se não existissem. Até que aos vinte e um anos, finalmente, conheci uma pessoa com o mesmo, o mesmíssimo, nome que eu. E foi terrível. Eu conto.

2007/05/16

Palmatória

Nunca faço linques para outros blogues. É uma birra antiga que não merece explicações. Mas, na vida, de vez em quando, uma mulher tem de dar a mão à palmatória e ceder. Um homem que, em resposta à tolice do Pedro Mexia por conhecer sicrano e beltrano, lhe responde que, no saudoso verão de 2001, num quadro de inquestionável virilidade, cozinhou batatinhas cozidas e peixe para o David Suchet merece a minha pública homenagem. Gosto deste blog.

Rafaela


Lucian Freud

(Cá está a minha amiga Rafaela. Olhai para a pose dela, para o insuportável descanso nos ombros caídos. Julga-se a maior, apesar de ser um estafermo. E tem joanetes. Como não odiá-la?)

2007/05/15

Quatro

A mulher do lábio leporino viajou hoje no comboio das 9.20. Trazia no regaço o Correio da Manhã e a Nova Gente. Mal entrei na carruagem animei-me. Ouvi a sua voz gutural, depois, vi-lhe a carranca medonha, a boca sem caninos, as lentes de fundo de garrafa, o cabelo num desalinho. Falava com as suas companheiras de viagem sobre televisão. É sempre um bom tema de conversa. Elencava a mulher do lábio leporino, de forma sintética, os programas a que assistia na televisão. Na um, dizia ela, vejo o programa do Malato e os telejornais, na dois vejo as séries e alguns documentários, na três vejo o programa do Herman, na quatro, e fez-se um silêncio embaraçoso, na quatro não vejo nada... As companheiras, vindas como ela de Castanheira do Ribatejo, baixaram os olhos, recusando-lhe qualquer tipo de cumplicidade, de conforto. A estúpida, pensaram, esta tipa feiosa, a querer passar-se pelo que não é, a querer fazer-se diferente de nós, não vê a quatro, pois se ainda ontem foi desde Sacavém até Entrecampos a falar daquela moça do concurso que já foi miss! Concordo com as companheiras. Descarada, a mulher do lábio leporino, descarada e mentirosa. A Nova Gente com os vencedores do concurso beijando-se na capa e a mulher do lábio leporino olhando por cima das lentes os prédios de papelão e as faveiras das hortas, carregadas de vagens carnudas.

Ana Mulher

Voltei a ter o sonho de sempre. Estou no ciclo preparatório, mas não sou a Ana Menina, sou a Ana Mulher. Sou uma Ana Mulher que frequenta o ciclo preparatório com meninos da idade do João. O terceiro período já começou. Há na sala de aula, que tem vidraças largas, um frenesim de vozes, uma agitação de corpos. Só eu estou quieta. Sei que vou chumbar por faltas a Matemática e Português. O chumbo, esse chumbo eminente, provoca em mim uma humilhação sem fim. Há anos que, com ligeiras variações, tenho este sonho. Há anos que, na escuridão do quarto, acordo aliviada por perceber que se acabaram as aulas, os testes, os exames. É um alívio breve, esgota-se quando volto a adormecer. O meu irmão contou-me certa vez que costuma ter exactamente o mesmo sonho. Tanta gente com os mesmos sonhos.

2007/05/14

Rafaela

Podiam ter apedrejado a Rafaela da banda gástrica. Gorda como é ninguém falhava o alvo. (não se brinca com coisas destas, eu sei.)

Dua Khalil Aswad

No público, a imagem terrível da lapidação de uma mulher. Um corpo bonito e jovem. Nele existe a ondulação do mar e o breu das florestas nocturnas. Olho para aquele corpo, torcendo-se, como a mecha de uma candeia, e vejo um corpo de mãe, um corpo-cabaça, um corpo-casa. Dua Khalil Aswad tinha 17 anos. Era curda e foi apedrejada até à morte por uma multidão de mil homens, entre eles, irmãos e tios. Foi morta por querer casar com um muçulmano. O seu apedrejamento foi filmado e fotografado pela chusma viril que atirou pedras, que insultou, que gritou. Depois, como um troféu que se exibe, colocaram a sua morte no youtube. Lembrar-nos-emos, talvez, desta mulher durante alguns dias, condoídos com a sua dor e humilhação. Alguns, falarão com revolta, carregarão o cenho, exigirão mudanças, garantias, que nunca mais volte a acontecer. Depois a imagem de Dua Khalil tornar-se-á difusa. Acabaremos por esquecê-la. Acabamos sempre por nos esquecer.

2007/05/13

2007/05/11

Abuxarda

Entrei. Fiz um esforço para cumprimentar o senhor doutor e a senhora enfermeira que, rubescente do sol de Maio, parecia uma santola. Não sei porquê, por instantes, imaginei-a a viver na Abuxarda e a passar férias em Albufeira num T2 mobilado de pinho. Despi-me. Olhei para as minhas pernas, tristes, tão tristes, as pernas mais tristes do mundo, cheias de pêlos encravados e de marcas de picadas de mosquitos. Deitei-me na marquesa. O médico apalpou-me por dentro e por fora. Tomei consciência do meu interior. Estranho, o nosso avesso. Veio-me à cabeça uma palavra inusitada: excrementício e também uns versos de um poema da Yvette Centeno que fala de crianças mordiscando romãs. Respondi-lhe por monossílabos. Sim. Não. Nunca. Às vezes. No final mandaram-me vestir. O médico atirou com as luvas de latex para dentro de um contentor. As minhas luvas juntaram-se às luvas que durante a manhã tocaram outras mulheres. Corrimentos, mucos, outros líquidos vaginais misturando-se. A minha fluidez misturando-se com a de outras mulheres. O médico lavou as mãos com um líquido azul. Um cheiro de hospital espalhou-se pelo gabinete. Depois fez as perguntas da praxe. Perguntou-me pela pílula. Se continuava a tomá-la. Disse-lhe que não. Perguntou-me porquê. Expliquei-lhe. Ele soltou um ahaaa! levemente prolongado e rematou, dizendo, entre dentes, que eu não tinha vida sexual activa. Escrevinhou isso mesmo numa folhinha verde. Anui. Quis ser outra pessoa qualquer. Explicar-lhe que não era bem assim, que a vida, quase sempre, é mais complicada do que parece. Não disse nada. Fiquei calada. À saída, a enfermeira da Abuxarda sorriu-me com complacência e tocou-me, piedosa, no ombro.

Zeus

Há dias assim. Tristes. O problema da tristeza é o pavor que provoca. Hoje nada me anima. Nem a história de Ganímedes, tão lindo, possuído em pleno voo por Zeus feito águia. Ainda por cima a mulher do lábio leporino não viajou no comboio das nove. Por onde andará?

Il faut savoir

Il faut savoir encore sourire
Quand le meilleur s'est retiré
Et qu'il ne reste que le pire
Dans une vie bête à pleurer

Il faut savoir, coûte que coûte
Garder toute sa dignité
Et malgré ce qu'il nous en coûte
S'en aller sans se retourner

Face au destin qui nous désarme
Et devant le bonheur perdu
Il faut savoir cacher ses larmes
Mais moi, mon cœur, je n'ai pas su

Il faut savoir quitter la table
Lorsque l'amour est desservi
Sans s'accrocher l'air pitoyable
Mais partir sans faire de bruit

Il faut savoir cacher sa peine
Sous le masque de tous les jours
Et retenir les cris de haine
Qui sont les derniers mots d'amour

Il faut savoir rester de glace
Et taire un cœur qui meurt déjà
Il faut savoir garder la face
Mais moi, mon cœur, je t'aime trop

Mais moi, je ne peux pas
Il faut savoir mais moi
Je ne sais pas...

Charles Aznavour

2007/05/10

Medusa

Caravaggio, Auto-Retrato

Sempre confundi a Medusa com a Hidra de Lerna. São ambas monstros medonhos, o corpo coberto de escamas, cabeças de cobra, cabelos emaranhados de serpentes. Só ontem percebi que Perseu, filho de Zeus e Danae, matou a Medusa e Hércules, filho de Zeus e Alcmena, a Hidra. Confesso: também gosto, assim, de raspão, como quem não quer a coisa, de derramar erudição, conhecimento neste berloque. Fica sempre bem.

CML

Os melhores candidatos à presidência da CML são mulheres: Manuela Ferreira Leite, Helena Roseta e Maria José Nogueira Pinto. É quase certo, porém, que nenhuma destas candidaturas se concretizará. Infelizmente. O mundo é das mulheres. O resto é conversa. (O mesmo não digo acerca da eventual candidatura da Paula Teixeira da Cruz. A dita é casada com o Paulo Teixeira Pinto, o poderoso homem de lábios finos que nunca sorri. Formam um casal deveras sinistro. Assustador.)

2007/05/09

Xabregas

Há blogs que cheiram a cholé. É um fedor que não se pode. Cheiram a pés enfiados em sapatos baratos comprados na Bheska do Forum Montijo. Por falar em Bheska, acidentalmente, descobri por lá umas sandálias douradas que não me saem da cabeça. Mas, depois de comprar um par de sapatos italianos, custa-me andar de cavalo para burro, ou melhor dizendo, de égua para mula, e comprar sapatos feitos na Roménia, na Índia, ou na Turquia. Eu cá não pactuo com a globalização! Nem com a miséria doutros povos. Nem pensar. Era o que mais faltava. Adiante. Voltando aos blogs, outros há que cheiram a partes íntimas mal lavadas e suor. Um horror de podridão. Um cheiro nauseabundo. Outros cheiram a bafio, a mofo, a bolor. Outros cheiram a nádegas. A rabo. É lá, nos blogs-nalgas, que habitam as bichas solitárias, tão modernas, comendo sushi e sashimi com sofreguidão, derramando erudição e tricotando, com lãs amarelas e rosa ciclame, a solidão das suas vidas. Credo. Outros não têm cheiro. São assépticos, inodoros, incolores, inexistentes. Outros são transparentes que é coisa diferente. É bom ser transparente. Como a água que se bebe. Outros cheiram a sarcófago, a caixão, a ataúde de pinho envernizado. Quando encontro os blogs-ataúdes benzo-me e aspirjo-me com qualquer sucedâneo de água santa, que a morte desperta em mim um niquinho de fé e devoção. Outros blogs, são poucos, quase nenhuns, cheiram bem. Cheiram a azul, a mar e a embondeiros. A espirais nocturnas de fumo, chão encerado e cerveja preta. A sabonete de alcatrão. O meu blog cheira a Xabregas. Cheira a patchouli. Tem um cheiro encorpado, enjoativo, a princípio gosta-se, depois rejeita-se. Havia de cheirar a folhas frescas de lúcia-lima ou, então, à madeira molhada, chiando, no fogo.

Groselha

Um dos sabores da minha infância é o dos refrescos de groselha. Eu não gostava particularmente daquele sabor estranho, mas, todos os meses, durante as compras mensais na cooperativa Abril, ali perto da igreja dos Anjos, obrigava a minha mãe a comprar xarope de groselha. Gostava do recorte da garrafa, o rótulo preenchido com letras pretas, muito direitas, a fazer lembrar coisas antigas, esquecidas em sótãos abandonados. Gostava de ver os copos preenchidos por aquele líquido cor-de-rosa muito escuro. Quando me via a olhar para o copo ainda cheio, a minha mãe, trocista, perguntava-me Então, não bebes? Não gostas? Gosto, respondia-lhe, e engolia, em goles grandes, o copo de refresco. A minha tinha razão na sua troça. Eu não gostava do sabor da groselha. Só gostava da sua cor intensa e forte, cor de bosque, de lupanar. Era a cor do refresco de groselha, e não o seu sabor, que eu bebia em goles grandes, sem respirar, para não lhe sentir o gosto a remédio. (Pintei as unhas de groselha. O meu filho odeia. Os homens, mesmo os pequeninos, não percebem nada de estética, coitados.)

2007/05/08

Concertina

Há decerto em mim o deleite prolongado de olhar o rio, imenso e cinzento, prestes a chegar à foz, os troncos boiando nas águas como cadáveres de mendigos que ninguém reclama ou chora, os cardumes de tainhas roçagando as margens, alimentando-se de lixo e de limos com as suas bocas de ventosa. Há a outra margem, lugar da fuga, que a minha fuga há-de sempre rumar ao sul. Assomam-se do outro lado, entre as gruas, casas feias que nascem como flores de pedra nos campos amargos de papoilas e macelas. Numa dessas casas, sei-o, um homem velho toca concertina para uma mulher que, deitada há muito numa cama, espera que o rio morra no mar.

2007/05/07

Egipto

Fouad Elkoury, Egypt 1985-1998

Margarida

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
-Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria a tua mãe?
- (Ela conhece-me a fundo.)
Que ha muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
-Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
-Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Álvaro de Campos

2007/05/04

Cornélias

A mana contou-me que a nossa prima Cornélia (ela não se chama Cornélia, mas tem, também, nome de matrona romana), juíza, brilhante aluna do centro de estudos judiciários, comunista, adepta da neve, de sapatos timberland e casacos burburry, leitora assídua, única e exclusivamente, do camarada José Saramago, aquando do seu principesco matrimónio, adoptou, não um, mas dois nomes do seu insignificante esposo, um batráquio mudo, nem um coaxo se lhe ouve, muito franzino, que se senta na beirinha das cadeiras e rói as unhas. Fiquei boquiaberta. Aqui está uma prova de como, para além da Bárbara Guimarães, há outras mulheres imbecis no mundo. São mulheres que, em razão da sua estupidez, deviam ser homens e não mulheres. A imbecilidade nasce-lhes nas vísceras, trepa-lhes corpo acima, instalando-se depois nos miolos. Nunca na vida adoptaria o apelido de outra pessoa. Muito menos de um homem. Nem mesmo que me fosse oferecido o apelido Buarque de Hollanda.

(às mulheres que conheço que adoptaram o nome dos cônjuges: minhas senhoras, não tomeis esta opinião como grave insulto. Não é. É apenas um insultozinho, uma coisinha de nada.)

Seguro

Se o António José Seguro vier a ser eleito presidente da Câmara de Lisboa, pego na prole e fujo para a Índia. Tenho-lhe uma embirração antiga, genuína, intensa, uma embirração absolutamente justificável que acalento e alimento como um bicho de estimação. Cada vez que o antigo presidente da JS enche o ecrã uma náusea toma conta do meu corpo e um vómito assoma-se na garganta. É superior às minhas forças. A dita embirração só é superada pela que tenho à Bárbara Guimarães.

Portaló

Uma pessoa passa uma vida inteira sem nunca ter ouvido determinada palavra. Desconhece-a por completo. De repente, por artes mágicas, essa palavra aparece em toda a parte. Nos livros que lê, na televisão, nos sonhos, na voz do homem da rádio que todas as manhãs desenrola o novelo do mundo.

2007/05/03

Barso Re

(a Aishwarya Rai é a mulher mais bonita do mundo.)

Dói-dói

Ontem, na estação de Entrecampos, duas mulheres beijavam-se na primeira plataforma, perto da livraria, à vista da multidão que regressava a casa. Uma mulher beijava. A outra era beijada. A mulher que beijava era baixa e gorda. Usava um casaco largo que pingava chuva e uma mochila às costas. Beijava com o corpo todo, não só com a boca, beijava com as mamas, os braços, as pernas, enroscando-se como uma trepadeira no corpo da outra mulher. Estava alheia a tudo, mergulhada num frenesim sexual dificilmente controlável. O seu corpo tremia de excitação. Se tivesse um pénis, a mulher que beijava tê-lo-ia erecto, estupidamente óbvio, como é costume dos pénis, feito pedra, feito mármore, veias azuis irisando-lhe a pele. A mulher beijada era feminina. O cabelo pintado de ameixa, com as pontas viradas para fora, marginava um rosto feio, mas maquilhado com sobriedade. Vestia um fato castanho de calças e casaco. Mal se mexia. Deixava-se beijar pela mulher trepadeira. Foi a primeira vez que encontrei um par de mulheres osculando-se assim, com descaramento e intensidade, num espaço público. Não é pois de estranhar que, absorta naquele beijo, tentando fotografá-lo com os olhos, tenha batido com a cabeça na coluna de ferro maciço que naquele preciso momento se atravessou à minha frente. Ainda dói.

2007/05/02

Orfã


Delacroix, 1824

França

Já o disse. Gostaria que a Ségoléne ganhasse as eleições em França. Pelo simples facto de ser mulher. Não me incomodo com o vazio de ideias que os comentadores políticos lhe atribuem. Antes o vazio, mil vezes o vazio, do que a certeza de um Ministério para a Imigração e Identidade Nacional. Sou de uma família de mulheres fortes e homens fracos (paizinho, não te amofines, escuta, naturalmente tu és a excepção que confirma a regra). Porventura, por isso, defendo como uma amazona, o meu género.

Israel

Em Israel, até ver, na sequência do relatório do Comité Winograd, sobre a guerra do Líbano, ainda só saiu um tal Eytan Cabel, ministro sem pasta. Confesso, intrigam-me os ministros sem pasta. O que faz um ministro sem pasta?

2007/04/30

Lótus

Fui comprar gladíolos e cravos vermelhos às floristas do cemitério dos Olivais. Vendem-nas mais baratas do que as floristas dos centros comerciais. Como se os mortos merecessem um desconto. Lembrei-me das flores que as mulheres, agachadas sobre os cestos de vime, vendem à entrada dos templos hindus e das outras flores que se vendem nos mercados, nas praças, no caminho que vai de Margão para Loutolim. Eu, a entrançar o cabelo, a enchê-lo de flores, cravos amarelos, hibiscos, a olhar-me no espelho do quarto, a achar-me por breves instantes bonita, assim escura, feita de sol, sabendo a sal, a angústia e a tristeza cativas nos nós das minhas veias, eu, a sair para o quintal com uma flor de lótus presa no elástico, a ouvir as gralhas lá no alto, falando entre si, sem perceber que escarneciam da minha vaidade.

Pensão Imperial

A noite faz-se em chuva e escuridão. Vicente adormece no seu quarto segurando um pau de giz. Ascensão apaga as luzes da Pensão Imperial. Antes de se deitar, verifica se Alzira foi à casa de banho. Confere se o resguardo está colocado na sua cama. Está cansada dos lençóis molhados pela manhã, do cheiro adocicado que se espalha pelo quarto, esse cheiro intenso, excessivo, que a repele enjoa. A velha dorme de boca aberta com um barretinho de lã cor-de-rosa enfiado na cabeça. Em cima da mesa-de-cabeceira, a dentadura repousa dentro de um copo mal lavado, muito riscado e baço. Ascensão observa o quarto. O soalho de madeira apodrecida adormece os seus passos. O tecto, trabalhado em estuque, tem florões onde repousam insectos mortos. Em cima da cómoda, uma rapsódia de inutilidades: frascos de perfume vazios, estatuetas quebradas, caixas de pó de arroz, leques, um aparelho para retorcer as pestanas, outras bugigangas compradas nas lojas chinesas da praça.
Ascensão olha para Alzira que ressona baixinho. Não lhe pesa a traição do marido com aquela prima distante, mais velha, de rosto empoeirado e frases levemente ordinárias. A traição do marido trouxe-lhe até uma sensação de conforto que nunca pode confessar a ninguém. Não se importa que o marido, tantos anos atrás, a tivesse trazido para morar na Pensão Imperial. Os hóspedes passaram a sussurrar segredos, estranhando o seu silêncio e a sua compreensão. Apenas uma vez, lembrava-se agora, um vendedor, que se hospedou por um mês na Pensão Imperial, quis dizer-lhe qualquer coisa, vira-os na copa, ela deitada sobre o tampo de mármore, arfando como uma cadela com o cio, ele por cima dela, arfando também, mexendo-lhe no com desembaraço e intimidade, percorrendo-lhe todos os caminhos do corpo. Ascensão escutou o vendedor em silêncio, concentrando-se nas gotas de suor que escorriam dos seus poros. Depois, levantando-se com aborrecimento, perguntou-lhe se precisava de toalhas lavadas. Quando o vendedor voltou para a sua cidade levou consigo a sua história. Morto o marido, a prima Alzira continuou a morar na Pensão Imperial, sem nada pagar, reclamando de si as pequenas atenções que exigia do morto. Um copo de leite morno ao deitar. Um gladíolo vermelho na jarra amarela. A sua roupa lavada com sabão azul e branco. Os banhos prolongados ocupando, durante longos minutos, a casa de banho do primeiro andar. Mas nada disto incomodava Ascensão. Na verdade, tantos anos passados, só lhe custava uma coisa: o cheiro do mijo, tão doce e morno, que o corpo de Alzira libertava.

2007/04/29

Grândola

(Foi a tia Dé, mãe de carne, de avental posto, cabelo em desalinho, que me mostrou o mundo.)

Cravo

Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.

É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor
filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.

Ary dos Santos

(Nunca me despeço de Abril.)

2007/04/28

Desfolhada

(...quem faz um filho, fá-lo por gosto.)

2007/04/27

Rafaela

Ai Rafaela, Rafaela, tivesse eu à mão uma pistola e não mais falarias ao telefone com a tua sogra, coscuvilhando a vida da Rosa Maria, a tua cunhada que é casada com um brasileiro chamado Dorival e fez uma peregrinação a Fátima. Deu vinte voltas à capelinha das aparições. Ficou, pobre, com os joelhos feitos numa pasta ensanguentada. Tu, tão despeitada, a dizeres à tua sogra que só não cumpres as tuas promessas por causa da hérnia que te estrangula as vértebras. A rosnares à tua sogra que vinte voltas não é nada, que crente que se preze há-de dar pelo menos cinquenta voltas à capelinha onde os pastorinhos viram dançar o sol e falaram com uma senhora vestida de branco que tinha, em seu redor, um halo de santidade. Ámen. Rafaela, Rafaela, tivesse eu à mão uma bomba e não mais soltarias a tua boçal gargalhada que me eriça a pele e me faz arquear a coluna como um gato assanhado. Estoirava-te a mioleira e o resto. Bocadinhos de ti por todo o lado. A tua banda gástrica perdida entre processos e pastas. Eu sei. Era um favor que te fazia. Livrava-te de ti própria. Só era aborrecido para as senhoras da limpeza que chegam vestidas de cansaço, vindas de outros prédios, de outros escritórios, de outras secretárias. Iam ter um trabalho dos diabos para recolher todos os teus pedaços. É que continuas mastodôntica. Mesmo depois da banda gástrica.

Superlativo Absoluto Sintético

Entre as várias categorias de palavras existentes, verbos, preposições, advérbios, pronomes, nomes, artigos, sempre gostei da dos adjectivos. Já nas aulas de gramática, dadas pela professora da quarta classe, a Vitorina, me rendia aos encantos deles. Mesmo agora, passados tantos anos, ao escrever, uso e abuso dos adjectivos. Utilizo vários para descrever um determinado local ou uma determinada pessoa. Para enfatizar, acentuar uma ideia.

Para além da sua função específica – caracterizar o substantivo -, o que me fascina nos adjectivos é o facto de terem vários graus. Os comparativos, de superioridade, de igualdade, de inferioridade. Os superlativos, absolutos e relativos. Uma plêiade de graus que conferem à à mesmíssima palavra diferentes significados. Em função do grau utilizado, o adjectivo pode ter sentidos opostos. Porém, o superlativo absoluto sintético é, de longe, o meu grau preferido. Por oposição, acho o superlativo absoluto analítico um grau aborrecido, dependente dos outros, que tem de recorrer aos advérbios – o muito, o bastante, o assaz - para conseguir alcançar seu propósito. O superlativo absoluto sintético, pelo contrário, sozinho, numa única palavra, consegue exprimir aquilo que o superlativo absoluto analítico diz em duas.

Agrada-me, depois, a transformação que o grau superlativo sintético impõe à palavra, ao adjectivo. A palavra inicial torna-se comprida, adquire um corpo esguio, ondulante, interminável. Subitamente, o adjectivo torna-se num comboiozinho de letras, numa palavra-lagarta-centopeia. Ferocíssimo, lindíssimo, felicíssimo, agilíssimo, belíssimo, miserabilíssimo, gordíssimo, magríssimo, longuíssimo, curtíssimo, espertíssimo, agradabilíssimo, antiquíssimo, facílimo, burríssimo. Gosto principalmente daqueles que são diferentes, que não resultam da simples adição do sufixo ao adjectivo inicial. Daqueles que, irreverentes, têm o atrevimento de modificar a forma, a composição inicial da palavra. Como por exemplo, paupérrimo, libérrimo e dulcíssimo. “Dulcíssimo” é das palavras que mais gosto ouvir dizer. Quando a digo devagar, as sílabas bem separadas, bem vincadas, sinto-a derreter na boca como se fosse o algodão doce, enjoativo, tingido de rosa, que comia quando ia à feira popular com os meus pais. Dul-cí-ssi-mo. Tem também o sabor do mel, dos caramelos com pinhões trazidos de Espanha, dos rebuçados peitorais que o meu avô trazia sempre nas algibeiras do casaco, da geleia de marmelo preparada, com azáfama, pela tia Dé nas primeiras tardes de Outono, dos quadrados esboroados de doce de grão vindos de Goa, do xarope de laranja com cerveja preta que a minha mãe fazia quando alguma de nós tinha tosse.

Mumbai Train


2007/04/26

Confissão

Sem exagero ou comiseração: sou uma cavalgadura, uma autêntica bestinha asinina. Só me falta zurrar.

Operário Futebol Clube (2)

Uma mulher destaca-se do grupo. É uma loira magnífica. Deve ter perto dos sessenta anos. Usa uma camisola vermelha, de mangas de balão, e corsários pretos muito justos que acentuam as curvas generosas do seu corpo. Nos pés, unas sapatos pontiagudos, com saltos de agulha, combinam com o tom rubro da camisola. O cabelo comprido, e loiro, foi ripado ganhar volume. A loira magnífica é um leão velho, de juba hirsuta, que dança no meio do campo do Operário Futebol Clube de Lisboa, ali perto da Graça. Volta e meia, quando menos se espera, alça a perna que fica, por breves instantes, suspensa no ar. Confere, desse modo, à dança rendilhados que os outros pares ignoram. O rapaz em cima da camioneta continua a cantar. Na sua voz desfilam kizombas, funanás, canções do José Malhoa e do Quim Barreiros. Levo o meu irmão para o quadrado verde. Dançamos uma kizomba, tentando imitar os passos das mulheres que dançam sós, longe dos homens que soltam gargalhadas enquanto comem tiras esturricadas de entremeada. Sonhamos ambos com a praia do Biléne, em Moçambique, onde há regatos de água salgada cheios de algas roxas e peixes invisíveis. Os meus olhos, porém, não largam a loira que, querendo aproveitar o resto do feriado, se atraca ao corpo de um rapaz que usa sapatilhas puma e tem o cabelo empastado de gel.

Operário Futebol Clube (1)

No meio do campo do Operário Futebol Clube de Lisboa, um quadrado verde delimita a zona de dança. Um rapaz, em cima de uma camioneta de caixa aberta, toca órgão e canta canções populares. Atrás, no campo que sobeja, grupos de crianças jogam à bola. Os pontapés na gravilha do campo fazem levantar nuvens brancas de pó. Ficam os meninos cobertos de uma poalha muito fina que os empalidece. São poucos, quase nenhuns, os homens que se disponibilizam para dançar. Preferem ficar junto dos grelhadores, enchendo-se de fumo, bebendo cervejas em copos de plástico. Contam anedotas, falam do jogo do próximo fim-de-semana, afagam os bigodes escuros e aconchegam os testículos. As mulheres, habituadas à ausência dos homens, dançam umas com as outras. Velhas, novas, gordas, desdentadas, movimentam-se com passos ensaiados, acompanhando na perfeição o ritmo das canções que o rapaz do órgão lança do cimo da camioneta.

2007/04/24

Submissão

Há uns anos atrás Theo Van Gog realizou uma curta-metragem, a que deu o título adequado de "Submissão". Este pequeno filme falava sobre a opressão feminina na religião islâmica. Theo van Gog foi, como se sabe, morto por denunciar o que se passa com as mulheres islâmicas na Europa. Este homem fez mais pelos direitos das mulheres do que as ruidosas activistas de esquerda que, invocando tais direitos, se preocupam quase exclusivamente com as suas barrigas e com a questão do aborto. Nunca ouvi nenhuma levantar a voz contra a obrigação de uma mulher usar um véu a cobrir-lhe o rosto. Assim como nunca vi nenhuma preocupada com esse ritual macabro que é a excisão do clitóris feminino. Pelo contrário, enleiam-se no politicamente correcto, sendo mesmo capazes de arranjar fundamentos para o injustificável. Todas, ou quase todas, admitem a utilização do véu. Algumas admitem até a excisão do clitóris. Falam em liberdade cultural e liberdade religiosa. Avançam com a antropologia e a etnologia. Esquecem, claro está, que tais práticas põem em causa os direitos fundamentais das mulheres. Calam-se quando se noticia a humilhação diária a que são sujeitas as mulheres nas ruas de Teerão. Obrigar uma mulher a usar um véu é aceitar que pode ser apedrejada em público até à morte por adultério. É dizer que é admissível extrair-lhe o clitóris por lhe ser proibido o prazer sexual. Obrigar uma mulher a usar um véu é negar-lhe a liberdade. Obrigar uma mulher a usar um véu é dizer-lhes que é indigna. É atirar-lhe à cara a sua infinita menoridade. E nestes assuntos não há meio termo. Reclamo para estas mulheres exactamente os mesmos direitos que reclamo para mim. Nem que isso signifique ter de deitar para o caixote do lixo, pela pia abaixo, culturas milenares, séculos de tradições.

Deus

Vou-te amar como Deus. Não, não. Deus não sente prazer, nem movimento progressivo até ao prazer, coitado, é tão infeliz.
Vergílio Ferreira, Em nome da terra.
(É bom saber que Deus é como eu. Fico mais conformada por ter, na angústia e na ausência, uma companhia deste calibre.)

Picasso (3)


2007/04/23

Picasso (2)

Foi então que a minha cunhada, com umas mamas gigantes, prestes a saltar do decote, uma mamas que fazem plof, plof, cada vez que ela se abana, falou. Mordiscando uma tâmara, disse calmamente: Pois eu não gosto nem do Picasso, nem do Dali. São horraaaaarosos! Atenção: ela não disse que eles eram horrorosos. Disse, isso sim, que eles eram horraaaaarosos, assim mesmo, a prolongar o pobre “a” que nem era para ali chamado. E continuou, muito confiante, como uma vaca imensa, tunisina ou argelina, a ruminar a tâmara. Fervi por dentro. O sonho dela é ter na sala um quadro do Albino Moura, aquele tipo que pinta umas gordas em campos de malmequeres e de papoilas. São daqueles quadros que se escolhem nas lojas de decoração em função do padrão dos cortinados e dos sofás. Olhei-a, tão contente consigo própria por ter desdenhado, de uma assentada, dois dos maiores pintores de sempre. Horraaaaarosos! Lembrei-me, depois, de que, quando era rapariga, na vizinhança, era conhecida pela Bo Derek de Sapadores. Contou-me ela, certa vez, derramando orgulho por todo o lado. Enterneci-me. Nem toda a gente tem a sorte de ser cunhada da Bo Derek de Sapadores. Eu, o máximo que consegui foi, no ciclo preparatório, ser conhecida como a Ana Preta do 2º B. Não tem comparação, reconheço. A verdade é que gosto da minha cunhada. Só me aborrece que opine, com jactância, sobre o que desconhece.

Picasso (1)

Durante o almoço de domingo, já não sei a que propósito, o meu irmão, a quem nunca conheci interesses artísticos, saiu-se a dizer que gostava da pintura do Salvador Dali. Olhei-o com surpresa. E amor, eu, que nem gosto do Dali (gosto daquele quadro do Narciso espreitando-se no lago). O meu pai não tardou. Aproveitou a deixa para dar uma gargalhada apatetada, como é seu costume, escancarar a boca cheia de dentes feios e dizer que também gostava do Dali. Não pela pintura, que não conhecia, nem lhe suscitava qualquer tipo de interesse, mas por o Dali ser um franquista assumido, ao contrário do Picasso, esse comunista nojento. Foi assim que ele disse. E espiou-me pelo canto do olho. Ainda falou do bigode do Dali e da Gala. Fingi que não o ouvi. Respondi-lhe muitas vezes, demasiadas, provocando grandes tumultos familiares por coisa nenhuma. O tempo ensinou-me que as provocações do meu pai são uma forma turbulenta de manifestar o amor que me tem. Eu gosto que ele me ame assim, com fúria e uma pontinha de admiração, que nunca admite e mascara de desprezo.

Osvaldo

A leitura do último romance da Lídia Jorge fez-me retomar uma coisa que gosto de fazer: correr. Corro pelo crepúsculo, na companhia de Osvaldo Campos. Mas não observo paquetes (não os há no meu pedaço de rio). Observo brasileiras que, de sandálias de cunha e saias muito curtas, ensaiam passos de dança sob o olhar atento de homens que bebem cervejas mornas encostados ao muro.

2007/04/22

E Depois do Adeus

(devia ter nascido vinte anos antes.)

2007/04/20

CDS-PP

Na universidade tive uma colega que se chamava Vanda Silvério. Pequena e magra, movia-se pela faculdade sem a gente dar por ela. Transparente como um pingo de chuva. Como se não existisse. No último ano fiquei a saber que era uma proeminente dirigente da juventude centrista. Uma promessa no mundo da direita conservadora. Olhei-a com espanto. Na altura, a licenciatura quase terminada, prescindira das calças de ganga. Usava agora saias curtas que deixavam a descoberto umas pernas que não prometiam nada de bom. Olhava-se para aquelas pernas e percebia-se que, mais acima, devia haver uma vagina precocemente envelhecida, com musgos e líquenes, mirrada como uma ostra pingada de limão. Para além de se revelarem uma montra pouco apelativa, as saias, azuis ou verde bandeira, combinavam mal com os seus tristes e descambados sapatos de vela. Recordo que, ao vê-la, por instantes, por breves instantes, senti uma enorme pena da juventude centrista. (Não sei por que me lembro hoje da Vanda Silvério. Deve ser da chuva e porque o Ribeiro e Castro, de bochechas caídas, tão desamparado, falando aos soluços, preste a rebentar num choro furioso, me dá dó.)

Autópsia

Atiro-me da janela se, daqui a uns anos, o João adolescente quiser fazer parte de uma tuna académica. Não quero um João adolescente vestido de preto, como um corvo, a tocar cavaquinho, a bater pandeireta ou a fazer momices com uma bandeira. Não estou preparada para tamanho desgosto. É sinal de que falhei redondamente na sua educação. Estou descansada enquanto ele continuar a disputar comigo os olhos e os miolos das douradas que comemos à mão, lambuzando-nos como selvagens felizes.

(A Dá não gosta de olhos de peixe. Prefere chupar a espinha, arrancando-lhe, com perícia, a medula, um fiozinho translúcido com sabor a mar. O pai, esse, olha-nos horrorizado, enquanto come os lombos branquinhos com que lhe enchemos o prato.)

Lembrete

Tópicos: Pires, o braço direito do tio Vitalino, ex-pide, prestável, incomodamente simpático; negra albina da estação de Entrecampos; antigos prédios da Quinta do Mocho, descarnados, com as vísceras à mostra; Dean, o meu primo marinheiro de Nova-Deli.

2007/04/19

Construção

Joaquim

Assim, do nada, pela segunda vez, veio-me um enjoo grande. É castigo pela maledicência. Hei-de arder, queira deus, eternamente nas labaredas do inferno. Já tomei um chá e não passa. Na minha cabeça desfilam, num cortejo precipitado, nomes. Helena, Amélia, Rosa, Florinda, Joaquim, Xavier, Gaspar, Raul. Gosto de Florinda, que é o nome da menina-flor do Rapaz de Bronze. Gosto de Joaquim, nome do irmão preferido da minha avó Felicidade, sempre muito bêbado, um cheiro acre a vinho, toda a tristeza do mundo a escorrer-lhe dos olhos pelo rosto encardido e sujo.

Rafaela

A Rafaela, a tal secretária da banda gástrica que me elogia com suspiros as camisolas quaresmais, comprou um apartamento em Armação de Pêra. Não se cala. Em vez de tratar dos requerimentos executivos que repousam em cima da sua secretária passa o tempo a falar das vistas e mordomias da casa comprada na Massamá do Algarve. O Silva, contínuo desdentado, que fala guturalmente e gasta o seu ordenado em playstations para a besta do filho que já chumbou dois anos, ouve-a embevecido. Eu, em vez de trabalhar, fico muito quieta, maravilhada, a ouvir-lhes a conversa. A mulher não se cala. Tem o corpo ensopado de palavras. Eu tenho o corpo ensopado de silêncios.

Magdalena Carmen


2007/04/18

Rainha de Copas (2)

Hoje, quando a vi, estava com o marido a falar com uma mulher mais velha, que fazia gestos largos e dava gargalhadas ruidosas. A Carla e o marido, embevecidos, abraçados, entrançados, como se fossem só um corpo, escutavam-na. As mãos gordas e sapudas da Carla a fazerem festas nas costas do marido. Porra. Fiquei logo enjoada com aquilo. Como é possí­vel que, passados tantos anos, ainda façam as mesmas figuras que faziam no liceu? De certeza que ela continua a fazer beicinho e a tratá-lo por "mor" que é a maneira mais – como dizê-lo?- merdosa de se dizer "amor". Como é possí­vel que continuem a comportar-se como se fossem as pessoas mais felizes do mundo? Enervou-me, já me enervava no liceu, tanto amor, tanta compreensão, tanta cumplicidade. Não há pachorra para quem é feliz. Detesto a felicidade dos outros, principalmente a felicidade cor-de-rosa choque, feita de sorrisos babosos, de lugares comuns, de frases feitas, repetidas, previsí­veis. Imaginei-os na cama. Ele, muito excitado, com uma pila pequena e fina, muito direita, o cabelo penteadinho, com as cãs já grisalhas, a cavalgar, furioso, como se fosse uma pulga frenética, em cima daquele corpo imenso, branco, paquidérmico, insuportavelmente níveo, cheio de banhas e de celulite. Pior, imaginei a Carla a ter um orgasmo, aquela boca de beiços grandes a gemer, a arfar, os olhos a revirarem-se como espirais e a dizer baixinho "oh...mor...anda... anda…vem...". Estou mal disposta desde então. Com essa terrível imagem. E com a hipótese da rainha de copas, ao contrário da minha álgida pessoa, ter orgasmos de jeito. Grandessíssima puta.

Rainha de Copas (1)

Por baixo das arcadas do edifí­cio onde trabalho, ao longe, reconheço o perfil de uma antiga colega de liceu. Já não me recordo do seu nome. Acho que é Carla. Ela tem cara de Carla. Tem mesmo. Detesto o nome Carla. Se a minha mãe tivesse tido a infeliz ideia de me chamar Carla, eu, assim que completasse 18 anos, mudava de nome. Desculpem-me as poucas Carlas que conheço e também as muitas que não conheço, mas Carla é nome de mulher de 40 anos, com permanente no cabelo, que passeia, aos domingos, nos centros comerciais de mão dada com um marido de bigode, fio de ouro ao pescoço e fato de treino brilhante. A dita colega, a quem chamarei Carla, está com o antigo namorado. Passado tanto tempo, o dito já deve ter subido de estatuto. Agora deve ser cônjuge, marido, de papel passado e aliança no dedo. Devem ter filhos. Dois no máximo. Um Tomás e uma Carolina. Devem viver num apartamento na Bobadela, no Prior Velho u na Quinta da Piedade. A Carla é grande e gorda. Parece uma vaca leiteira. É feia. Tem um ar, como hei-de dizer, bovino-suí­no. Tem mesmo. Já o marido é miudinho, pequeno, murcho, mí­nimo. Parece um anão imbecil ao pé dela. O cabelo muito penteado. Quando os vi lembrei-me imediatamente da insuportável Rainha de Copas e do seu soberano marido, do filme "Alice no Paí­s das Maravilhas". Vi este filme centenas de vezes, até à exaustão, quando o João era pequeno. Para além de se parecer fisicamente com a dita personagem, a Carla tinha, e deve continuar a ter, um feitio detestável. Invejosa. Era tão invejosa. Era daquelas estúpidas que tinha inveja das notas dos outros. Podia ter uma nota razoável, um 15 ou 16, mas ficava visivelmente transtornada com o facto de alguém ter melhores notas do que ela, o que, aliás, acontecia quase sempre.

2007/04/17

Sina

Com um olho vazado, medonha, mancando como um pirata, perseguiu-me aos gritos. Queria impingir-me uns óculos de mosca ou, então, ler-me a sina. Há-de passear-se nos meus sonhos de braço dado com o Eduardo Prado Coelho.

Eduardo

Ainda agora o Eduardo Prado Coelho voltou às páginas do Público e já eu ando agoniada com o que escreve. Hoje fala da RTP. Insurge-se contra o matinal Praça da Alegria e também contra as entrevistas da Judite de Sousa ao Valentim Loureiro e ao Tony Carreira. Para o Eduardo Prado Coelho a televisão pública havia de nos massacrar apenas com as entrevistas da Ana Sousa Dias ou com documentários sobre o cinema realista italiano. O que ele queria era que a televisão fosse a grande educadora do povo. Era o que mais faltava! Eu, por mim, não deixo que televisão alguma me eduque! Vi a entrevista ao Valentim Loureiro e, para além do evidente interesse jornalístico, foi dos momentos mais divertidos em televisão dos últimos tempos. Já a Praça da Alegria tem como colaborador residente aquele padre que canta a canção do senhor da Galileia. Ele canta e, com o público, participa nas coreografias da palhacinha Picolé, dando graças a deus por estar ali pertinho dos decotes da sonia qualquer coisa. Eu gosto de ver. Quanto à entrevista do Tony Carreira só não a vi porque naturalmente não a apanhei. Não gosto do que o Tony canta, mas encanto-me com o frenesim à sua volta. O Tony Carreira com as suas virolas de cetim, o seu capachinho, a sua trupe de fãs, quase todas mulheres entre os 35 e os 50 anos, o seu filho Micael, é uma personagem incontornável na cultura popular portuguesa. Só um palerma como o Eduardo Prado Coelho, um intelectual que abomina a cultura popular e o povo, não percebe isso.

Guaxinim

No comboio, um homem negro, escuro como breu, um preto retinto como a minha mãe costuma dizer, lê um dicionário de inglês-português. Está vestido de branco dos pés à cabeça. Calças brancas, camisola branca, anorak da adidas branco, sapatilhas branca, boné branco. O branco que o envolve acentua a sua negritude. O homem é a noite e tem, reparo agora, uma cicatriz em forma de estrela no rosto. Ao seu lado, uma mulher grande, de cabelos longos e encaracolados, dorme com a cabeça tombada para trás. Traz os olhos exageradamente pintados de preto e branco e, no pescoço assim esticado, uma linha incerta mostra até onde espalhou uma base cor de argila. Parece um guaxinim adormecido. Um movimento brusco do comboio e a cabeça da mulher guaximim resvala para o ombro do homem negro. Ele levanta os olhos e, por breves segundos, fixa os meus. Quer, parece-me, compartilhar comigo a estranheza daquele corpo de mulher branca encostado em si que é a noite. Depois continua a ler o dicionário da verbo editora.

2007/04/16

Leite

Um homem indiano, no bulício quente da praça, grita num linguajar que lembra inglês: "you won´t fuck her again!". Tem muitos sacos de plástico aos seus pés e fala de uma cabine telefónica. Gesticula com uma mão. Segura com a outra o bocal. "You won´t fuck her again!". O amor transforma-se em cólera. Em raiva. A raiva sai da boca do homem em forma de palavras. A raiva paira sobre a cidade. Espalha-se pela praça como se fosse leite derramado. Ferve. Transforma-se em espuma. Sobe. Transborda. Cobre a placa e os bicos do fogão. “You won´t fuck her again!” O amor transforma-se numa nata pegajosa e amarelada. A raiva do homem indiano perde-se na avenida. Toca os transeuntes amanuenses que saem dos bancos, das companhias de seguros, dos escritórios de advogados, das lojas caras, das repartições públicas, das correctoras. Lá em baixo, na praça, o homem indiano pega nos seus sacos e apanha o autocarro que vai para a Apelação.

2007/04/15

Mar

Passo e amo e ardo.
Água? Brisa? Luz?
Não sei. E tenho pressa:
levo comigo uma criança
que nunca viu o mar.

Eugénio de Andrade

2007/04/13

The case continues

(gosto muito desta canção.)

Varejeira

Já o disse com a certeza que sempre se confere às afirmações insignificantes. A blogosfera é uma coisa medonha. Aborrece-me a maneira como a gente nela se escancara, de perna aberta, tal qual uma puta fácil, de lábios esborratados de baton carmim, partilhando intimidades, esculpindo a imagem que queremos que os outros tenham de nós. Eu, pelo menos, minto descaradamente, com os dentes todos, que é para me imaginarem interessante, escarnecer dos outros e sentir-me, insana que sou e me quero, diferente. Aborrece-me, sobretudo, a democraticidade da coisa. Qualquer intelectual de meia tigela armado ao pingarelho tem um blog. Qualquer pretenso comentador político escalpeliza, numa diarreia de textos ilegíveis, factos, histórias, notícias. Qualquer rocinante, que zurra aos quatro ventos a sua equídea natureza, largando cagalhões gigantes cor de palha, tem um blog. Qualquer miúda fantástica da Reboleira, daquelas que usam óculos escuros gigantes e, por isso, se assemelham a moscas de olhos metalizados, tem um blog. Enfim, qualquer bardamerda tem um blog. Coisa triste, escrever num blog.

(Hoje, confesso, estou especialmente bem disposta. Há sol. Eu sou do sul. Alimento-me de luz e de sol.)

2007/04/12

Roedores

No refeitório, enquanto deslizo na cadeira, observo as bocas dos que comem. Há bocas que se abrem ao mastigar, mostrando caninos e incisivos furiosos que transformam em papa os alimentos. Outras bocas mal se mexem. São bocas rijas que interiorizaram os ditames da boa educação. Não se leva a boca ao prato, não se mastiga com a boca aberta, não se apoiam os cotovelos na mesa. Ao meu lado um homem sozinho sorri para o prato gigante de tomate, beterraba cozida e juliana de cenoura que trouxe do bufet das saladas. A gratuitidade das saladas do refeitório alegra-o. Ao final do dia, quando a mulher lhe perguntar o que almoçou, dirá que comeu feijoada de chocos e um grande prato de salada. Alertará, como todos os dias, para o facto da salada - milho, alface, tomate, rabanetes, couve roxa, couve lombarda, pepino, cebola, pimento, cenoura, tudo o que tu possas imaginar filha !- ser de graça. O homem começa a comer. A sua boca mastiga a salada com movimentos energéticos de pura satisfação. É então que vejo passar a Mafalda com a sua nova namorada. Não é nada gira. Já desconfiava pelas palavras da M. Tem corpo e feições de porquinho da Índia. Já estou a vê-la a correr por uma pradaria, enfiando-se em tocas, alarmada com o voo planado das águias e dos falcões. Consta, porém, que é muito boa rapariga. Isso é que importante. O que eu gostava de ser uma boa rapariga.

Náusea

Há quem diga, há quem assegure que o governo cai hoje – imagine-se!- por causa do inglês técnico e que, não tarda nada, o Paulo Pedroso vai voltar a este país para ser presidente de uma fundação qualquer. Tenho vontade de vomitar. Sou uma rapariga muito dada a enjoos e náuseas.

Sombra

Confesso. Até ver não me rendo ao novo romance da Lídia Jorge, depois de, maravilhada, escutar o vento assobiando nas gruas. E não percebo o seu fascínio pela palavra hipóstila. Credo.

Baratas

Sonhei com baratas num apartamento. A sujidade cor de ferrugem acumulava-se pelos cantos. As paredes do apartamento estavam cobertas de papel amarelecido onde rosas cor de chá choravam as memórias de dias antigos. As janelas tinham portadas de madeira nacarada. Lá fora, gruas e contentores de várias cores acenavam com destinos longínquos e promessas de felicidade. Quis assomar-me à janela. Para respirar fundo e fugir da caliça suja daquela casa. Porém, no parapeito, nos caixilhos amarelos, várias baratas comiam por mim a bruma leitosa que pairava sobre o porto.

2007/04/11

Barão Trepador

Desato-lhe os cordões das botas. Tiro-lhe as meias. Estão transpiradas. Pego-lhe nos pés. São já do tamanho dos meus. Cheiro-lhos. Como se ele fosse um cristo ignoto e eu uma virgem mãe. Beijo-lhe o sinal que tem no dedo mais pequenino do pé esquerdo. Digo Gosto tanto do cheiro dos teus pés. Ele não responde. Limita-se a sorrir, mostrando os dentes novos, definitivos, enormes, que lhe estão a crescer na boca. Pergunto Achas que sou maluquinha por gostar do cheiro dos teus pés? Ele volta a sorrir. Atira-se para trás. Suspira. Depois responde. Um pouco. Acho que és uma mãe um pouco louca. São estas as exactas palavras que lhe saem da boca. Volto a pegar-lhe nos pés. Esfrego-os no meu rosto. Às vezes, muitas vezes, tenho a sensação de o sufocar com os meus gestos. Não sou capaz de não lhe tocar. Tantas vezes que desejo ter um ventre enorme elástico onde ele novamente se aninhe e sossegue. Tenho por ele, mais do que por ela, um amor táctil, quase obsceno.Chegará um dia em que ele não me deixará cheirar-lhe os pés, nem me contará os sonhos, nem me pedirá ajuda para colar cromos na caderneta. Estranhará a minha nudez, esconder-me-á a sua. Abrirá assim fissuras irreparáveis na nossa intimidade. Deixarei de me reconhecer no seu corpo, nos olhos, na boca, nas mãos, na sua pele de maltês e andarilho, escura como a de um cigano. O seu corpo deixará de ser o meu corpo. (Acho indecente que os filhos cresçam.)

2007/04/10

Lembrete

Tópicos: voz da Conceição, fuzilamento de utilizadores de óculos rectangulares.

2007/04/09

In the Mood for Love

(vous pensez vraiment connaître votre femme?)

Verão Quente (2)

Estávamos, pois, naquela calma morna de verão, olhando pelas frestas das persianas a ver se o sol baixava, quando um barulho estridente rompeu pela casa. Um som prolongando como a vibração de um insecto, um besouro ou um grilo. Era a campainha da entrada no prédio. A minha mãe, ensonada, levantou-se. Atendeu o intercomunicador. Ao desligá-lo esboçou um sorriso amarelo. Depois, contrariada, anunciou em voz alta, como que em jeito de aviso, Vem aí o Botelho! O Sr. Botelho é o goês mais bonito que conheço. Tem o cabelo muito fino, totalmente branco, feições perfeitas. Com aquele rosto havia de ter sido prelado de gabarito, núncio, bispo, arcediago. Não o que foi, contabilista. O meu pai, que lhe inveja a delicadeza dos traços, volta e meia, a brincar, como quem não quer ofender, tira-lhe com a casta à cara. A casta é uma coisa estranha. Não se apaga. É pior que um sinal de nascença. Não há maneira de um homem dela se livrar. Só pela morte. Um homem pode mudar de mulher, de identidade, de cor de cabelo, educar-se, enriquecer, viajar, alterar o nariz, implantar próteses mamárias, mudar de sexo até. Só há uma coisa que não pode mudar: a casta. Aquela com que nasceu é aquela com que morrerá. Por isso, até no meu pai, há tantos anos longe da Índia, o apego à estratificação que casta impõe se faz notar. Adiante. A mulher do Sr. Botelho, por sua vez, é uma réplica nortenha da minha mãe. São iguais. Até fisicamente são parecidas. É das poucas pessoas que ainda me trata por Clarinha. A porteira do prédio da minha mãe também me tratou sempre por Clarinha. Mesmo durante a faculdade, mesmo quando terminei o curso, sempre me tratou assim. Para ela só passei a ser a Ana Clara quando me casei. A D. Fernanda, é esse o nome da porteira da casa dos meus pais, deve ter entendido que o estatuto de mulher casada não se adequava a tal chamamento. É pena. Gosto de diminutivos. Sugerem pequenez, a minha, e uma docilidade que não me pertence.

Vicks

Irrita o bem que me conheço. Mais cedo que tarde a minha faceta de berloques serial killer virá ao de cima. Com excepção do primeiro, aniquilo-os, com espalhafato e frenesim, antes que completem um ano. Matar palavras, como quem esmaga uma beata ou um carreiro de formigas gordas, é forma de mutilação. Expiação, também. Alivia. Descongestiona. Como a cânfora e o óleo de agulhas de pinheiro.

Lembrete

Tópicos: progenitor suicida, mira nair, abacates, santanete, sonhos de cego, cabrito morto, cravos túnicos, excrescências, danados (ou de como a gente se pode assim apaixonar pelas palavras de um homem, querendo-me, asseguro-te, sou tua, até fecho os olhos ao anel brasonado que usas no mindinho.)

Opilca

Manhã cedo, na aula de ginástica, ao levantar os braços durante o aquecimento, reparei que o Adelino, único homem da sala, muito simpático, cheio de meneios e galanteios, a fazer lembrar uma crisálida gigante, tem menos pêlos nos sovacos do que eu. Aliás, em rigor, não tem nenhum. Tirou-os com opilca. Quase de certeza. A minha auto estima, tão arredia nestes dias, olhou-me horrorizada. Encolhi-me. No final da aula, ao ver-me afogueada, o rímel derretido escorrendo o rosto, os poros dilatados, os pêlos a espreitar dos sovacos, as varizes marmoreando a minha perna direita, inchadas de azul, recusou-se uma vez mais a acompanhar-me. Ficou no ginásio a arremelgar os olhos para o Adelino, a borboleta impecavelmente depilada do ginásio. Não voltou ainda. Sumiu-se. Não sei para onde foi.

2007/04/04

Cabra-Cega

Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá.

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.~

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira pra lá.

Chico Buarque

Cream Kiss

À saída da pastelaria Cream Kiss, fiquei com o salto preso na grelha de uma sarjeta. Larguei um “foda-se, caralho” e entrei novamente para pedir ajuda à D. Clara, que tem um filho chamado Fábio André e vende bolas de berlim a pingar gordura às velhas da avenida. Experiente, a D. Clara libertou o salto, enquanto ofendia a edilidade, acusando-a de incompetente e corrupta. Anui e agradeci-lhe o resgate do meu sapato italiano. Ela voltou satisfeita para dentro e, sem lavar as mãos, continuou a aviar as suas freguesas, servindo-lhes galões em copos estalados e croisants maçudos que deixam na boca uma sensação fugaz de conforto. Corri para a estação. A minha auto estima, essa, não quis acompanhar-me. Ficou a escutar as conversas das velhas de Moscavide. Falam dos netos, das noras, das compras nas lojas chinesas, das filas no centro de saúde, da artrite, do preço da pescada na praça, do programa matinal que o Jorge Gabriel apresenta na companhia daquela rapariga loira, muito bonita, que escancara a boca e o decote.

2007/04/03

Verão Quente (1)

Era Verão e estava quente. Movíamo-nos moles pela casa, espreguiçando-nos pelas divisões como se fossemos gatos, ursos pardos, outros animais indolentes. O meu pai enfiado no escritório relia os jornais da manhã. Ocupava o tempo inteirando-se do mundo, catástrofes, guerras, roubos, discursos, sem perceber que o mundo nunca se inteirava dele. Duas ventoinhas furiosas, expeliam um ar cheio de pó para cima do tampo da secretária que ele mantinha, e continua a manter, meticulosamente arrumada. As duas mães dormitavam nos sofás puídos, de ramagens largas. Sonhavam o mesmo sonho. Um médico de bata branca, sorrindo por cima de um corpo aberto, dizia “Senhora enfermeira, passe-me um espéculo, por favor”. Eu e a minha irmã, ainda meninas, esparramadas nas camas que chiavam como ratos, líamos livros da Enid Blyton. O meu irmão Roberto ausente. Ou por ali, em qualquer sítio, a espreitar revistas do Mandrake, do Fantasma ou do Super-Homem. Ou então enfiado no quarto dele, com a porta fechada, baboso, o pénis erecto, a devorar revistas de banda desenhada erótica. Ele, com astúcia, sempre tentou esconder tais revistas nos esconderijos mais secretos do apartamento. Por baixo da mesa-de-cabeceira. Entre os livros de química e física que ninguém espreitava. Porém, eu descobria-as sempre. Por isso, como ele, experimentava nas tardes moles de verão vertigens de prazer para depois, logo a seguir, sentir culpa, nojo, estranheza.

2007/04/02

Reptilia

(Canção que a fêmea de caimão gosta de ouvir enquanto, imóvel, vigia a vida nas margens.)

Poudre Prodigieux

A fêmea de caimão emergiu das águas. Percorreu o areal estreito da margem, embrenhou-se nas raízes aéreas do mangue. Andou durante muito tempo. Por fim, alcançou a cidade. Entrou numa perfumaria onde uma mulher de lábios finos escolhia um baton. Ao vê-la tão feroz, arreganhando uma boca cheia de dentes afiados, a mulher gritou com uma voz feita de estilhaços e caiu desmaiada. A fêmea de caimão sorriu enquanto contornava o corpo desmaiado. Pediu um blush. Experimentou na sua pele áspera, rugosa como um tronco velho, poalhas de mil cores. Mate. Brilhante. Bronzeado. Acabou por escolher um poudre eclat prodigieux que aplicou com um pincel de pelos macios. A fêmea de caimão saiu da perfumaria. O corpo verde. O rosto levemente rosado. Procurou sorrir à empregada que a ajudara. Parecia tremer. Da sua boca feia de mil dentes saiu um bafo quente e vermelho, um cheiro de talho, de carne retalhada. No seu passo lento deixou a cidade. Olhou a caliça suja dos prédios antigos. Olhou as pinturas rupestres, de sprays coloridos, que cobriam muros, paredes, carruagens de comboio também. Aliviada, a fêmea de caimão entrou novamente no mangue. Procurou um lugar confortável ao sol e adormeceu.

Caimão

Tanta competência no mundo. Tão pouca em mim. A secretária, de uma diligência absurda, não se cansa de falar ao telefone com tribunais, advogados, utentes. Às vezes, confesso, gostava que o seu coração parasse. Tantas ameaças, tantas operações e nada. Só para a assustar. É cedo e já estou cansada. Volto a sentir-me uma fêmea de caimão. Saio daqui vagarosamente. Arrasto o meu corpo baço e áspero. As minhas patas movimentam-se num langor pesado. A lentidão toma conta de mim. Os meus olhos quietos, raiados de amarelo, parecem berlindes de criança. Só a cauda quebra o silêncio. Bate na água, com movimentos circulares, quando mergulho num rio de águas turvas.