No centro a da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua.
A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela
Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala.
Dizem que se chama Teresa
Seu nome e Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga.
Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que a diga António Capela.
T'resa Torga T'resa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha.
José Afonso
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2007/05/31
Pingue-Pongue
Alguém devia explicar ao Rui Tavares e à Helena Matos que os leitores do Público estão-se nas tintas para as suas picardias diárias. Começam a roçar o insulto gratuito. Eu até aprecio a arte do insulto. Faço mesmo questão que a cultivar neste blog. E não gosto de discussões cordatas, em que todos se respeitam e escutam. Mas tudo o que é demais cansa. Às tantas, o Rui Tavares e a Helena Matos já não estão a discutir ideias ou argumentos. Estão apenas armados em parvos. Se querem andar à traulitada, vistam umas tangas, besuntem-se de lama e vão para um ringue qualquer da Brandoa.
Helena
A Helena Roseta apoiou o Manuel Alegre. O Manuel Alegre apoia, ainda que não formalmente, a Helena Roseta. Quando os oiço, na defesa um do outro, por mais que tente, não consigo separar as águas e neles distinguir a vida pública da vida privada. Porque quando se apoiam, quando sorriem, quando ela diz “o Manuel Alegre”, quando ele diz “a Helena Roseta”, há nos olhos deles um brilho que transborda para fora do ecran e me faz chegar o amor que viveram.
2007/05/30
Pré-História
Resolvi ir a uma aula de Pré- História. Foi a primeira a que fui. O professor começou por falar da matéria do teste da próxima semana. Indignei-me. Teste? Depois, continuou, falando do homem acheulense e mostrando triedros, machados e seixos truncados. No final da aula resolvi socorrer-me de alguém. Bati nas costas do rapaz da frente, que me pareceu aplicado, atento. Fiz-lhe um sorriso encantador. E cruzei as pernas. Perguntei-lhe se me emprestava o programa e a bibliografia da cadeira. Ele corou. Muito branquinho, muito anafadinho, muito novinho, luzidio. Fez-me lembrar um carneiro. Daqueles lãzudos, que se passeiam, aos saltos, por pastos verdes, balindo méés atrás de méés. Perguntei-lhe o nome. Felipe. Olá Felipe. Eu sou a Ana. E pestanejei. Simpático, o Felipe. Emprestou-me cadernos e apontamentos. Resolvi aproveitar a sua boa vontade e perguntei-lhe pelas outras cadeiras que ia tentar fazer. Antiguidade Grega e Roma Antiga. Ele pôs-me ao corrente de tudo. Entretanto, outro colega, daqueles de olhar oblíquo, que nunca nos olham de frente, meteu-se na conversa e resolveu ajudar-me, também ele, em relação aos métodos de avaliação das disciplinas. Às tantas, começou a falar de um trabalho para outra cadeira qualquer. Foi então que o Felipe, o rapaz-ovelha, lustroso, exclamou “Ó Hugo, está calado que a senhora não vai fazer Métodos Quantitativos!”. Engoli em seco. Senhora? Senhora? Eu não sou ainda uma senhora. Senhora é a minha mãe. E a minha tia. E a D. Susy, a secretária da direcção que usa cinta. Foi nesse momento que percebi o que sou. Não tarda nada estou na meia-idade. Tenho cerca de vinte cabelos brancos. Tenho dois filhos, um dos quais já usa o mesmo número de sapatos que eu. Já me separei. Já me reconciliei. O que significa que já passei a fase do casamento e do nascimento dos filhos. Comovo-me como não me comovia. Pior, gosto de fumar cigarros e sentir-me miserável, junto dos cravos túnicos e dos morangueiros, noite fora, enquanto oiço o Charles Aznavour ou a Elis Regina. Em resumo, sou pré-histórica. Como os seixos truncados.
(Texto extraído de berloque já exterminado. O ano passado, imagine-se tamanho devaneio, resolvi voltar a estudar. Nem uma cadeira fiz. Desisti. Sou muitíssimo boa no corajoso acto da desistência.)
(Texto extraído de berloque já exterminado. O ano passado, imagine-se tamanho devaneio, resolvi voltar a estudar. Nem uma cadeira fiz. Desisti. Sou muitíssimo boa no corajoso acto da desistência.)
Io
“Imediatamente a minha forma e o meu espírito se desfiguraram, e, com cornos, como estais a ver, e, picada por um moscardo de ferrão agudo, em dança louca, me precipitei para o manancial de Cercneia de tão boa água e para a fonte de Lerna”, assim diz Io, a virgem-novilho que se cruza com o Prometeu agrilhoado. Chamam-lhe virgem-novilho. Eu chamar-lhe-ia virgem-vaca.
2007/05/29
Malaguetas
Releio-me e, em surdina, digo todos os palavrões que conheço. Não são muitos. Mas são poderosos como o cheiro das malaguetas vermelhas. Embaraça-me ser depressiva. Os depressivos, os deprimidos, os asténicos, os cansados, os sempre tristes e sós, os suicidas (só os que efectivamente se conseguem finar merecem respeito), os lacrimosos, são tão estúpidos como os anorécticos. A depressão é doença de gente fútil e eu tenho horror à estupidez e à frivolidade. Devia existir um grupo de jovens voluntários, daqueles empenhados, sonhadores e gadelha hirsuta, que se organizasse em ongs e nos enchesse, aos depressivos e aos anorécticos, de pancadaria. Que nos esbofeteasse até ganharmos de novo um pingo de lucidez. Era um favor que faziam à sociedade.
Dálias
Herdei da minha mãe o feminino deslumbre pelas jarras com arranjos barrocos, pelas plantas que crescem em vasos, pelos arbustos com cheiro de infância, pelas estufas, pelas floreiras com gerânios descarnados nas varandas, pelas árvores, pelos jardins, pelas mãos enterradas na terra. Gosto de ter a casa florida. Por isso, de quinze em quinze dias, vou ao cemitério dos Olivais comprar flores. A florista dá-me sempre um raminho de vivaz para compor as jarras dos cravos. Estranha que compre apenas um gladíolo e, também, o horror que tenho à maior parte das flores que vende. Margaridas, coroas imperiais, gerberas. Impacienta-se quando me queixo da ausência total de dálias nas floristas de Lisboa. Não há filha! As dálias não crescem em estufa!, explica enquanto ajeita as pequenas coroas de flores de plástico em forma de coração. Aquelas coroas de plástico, contou-me certa vez, têm muita saída. São mais baratas, resistem ao sol, à chuva e ao vento. Às vezes atravesso o portão. Passeio entre túmulos e campas. Espreito as fotografias em tom sépia dos defuntos. Leio os dizeres cheios de amor e eterna saudade dos familiares. É fácil amar os mortos.Os ciprestes que, se perfilam junto ao muro, guardam o silêncio do cemitério.
Bombay Shapire
Entra um homem novo no café. Veste um casaco de cabedal. Usa óculos escuros demasiado grandes para o seu rosto pequeno. Parece um insecto. Uma varejeira de olhos esverdeados. Tem um corte de cabelo moderno. Levemente comprido atrás. Espetado em cima. Pela conversa, percebo que conhece os empregados. Fala sobre o Benfica e sobre o euromihões. Espia-me pelo canto do olho. Ri. Pergunta a uma das empregadas quando é que ela se despacha a levar o frio. Diz que tem saudades do calor, da praia da Caparica, das miúdas de camisolas de alças. Sacode levemente o corpo. Dá uma gargalhada pequena. Está contente consigo próprio. A mulher também ri. Para esconder o riso feio levanta uma mão muito vermelha e tapa a boca. O homem insecto pede um café. Cala-se por breves instantes. Estranho-lhe o silêncio. É inesperado. Escuto. Bzzzz, bzzzz, bzzz, faz o silêncio do homem-insecto. Volta a olhar-me. Mexe num telemóvel prateado. Olho para o escaparate espelhado que está à minha frente. Vejo-me do outro lado do espelho. Ali estou eu. Aquela sou eu. Tenho o cabelo solto. Estou velha e feia. Vivo rodeada de semi-deuses, de gente que não confessa uma infâmia, nem sequer uma amargura, jamais a solidão (como é bom plagiar os poetas). Ao meu lado um insecto gigante sorve uma chávena de café. Somos ambos grotescos. Desvio o olhar. Fixo-o numa garrafa quadrangular que contém um líquido azulado. Bombay Shapire.
2007/05/28
2007/05/26
2007/05/25
Guiomar (3)
Guiomar ri. Continua: Sabe, as horas tardias não são sempre iguais. Por vezes, são violentas. Precipitam-se. Transformam-se em palavras arremesso. Cavalgam sem cabresto sobre mim. Outras vezes, são pacíficas. Quase mornas e confortáveis. Como um casaco velho de lã. Ou o cheiro da roupa lavada. Sabe porquê? Porque quem me quer nada exige de mim. Não tenho de demonstrar afecto, nem interesse. Só tenho que estar ali. Disponível. Passo a ser um corpo que se consome por hábito. Quando as horas tardias são assim, mansas, consigo sair do meu corpo e ver-me. Vejo-me. Tenho quase sempre os olhos enxutos.
Guiomar (2)
Guiomar cala-se. Continua: Uma vez foi diferente. Nem sei bem o que foi. Ou como foi. Ou porque foi. Senti qualquer coisa. Regressava a casa. O comboio estava cheio. Os passageiros comprimiam-se, formando um corpo único. Uma amálgama de gente. Um homem tocou-me na perna. Com ligeireza e propósito. Senti um frémito. Um estremecimento. Uma poeira branca de luz pairou sobre mim. Depois, senti um carreiro de formigas subir pelas minhas pernas e tocar-me por dentro. O homem encostou-se. Eu deixei. Ficámos assim, imóveis, durante alguns minutos. O homem saiu, por fim, em Massarelos. Levou as formigas consigo. Não sei para onde foram. Fugiram. Nunca mais voltaram. O meu desejo tem corpo de insecto pequenino e vive perdido em Massarelos. Não acha engraçado? Eu acho. Acho até muito engraçado. Fiquei só.
Guiomar (1)
Guiomar abre a boca e diz: Amedrontam-me as horas tardias e tudo o que elas têm dentro. São intermináveis e espessas, as horas tardias. Nelas cabem muitos minutos e segundos. As horas tardias formam cassiopeias feias, cegas de escuridão. Trazem dentro delas mãos, sombras, vultos. Trazem a urgência dos outros. De quem me quer. Eu deixo que me queiram. Deixo que me tomem. Deixo até que me toquem. Mas não sinto nada. Nunca senti nada. Não acredita?
Homem-aranha
Também conheço um homem com nome de anjo que, amiúde, morre por amar. Cada vez que ama morre. É como a aranha macho que, quase sempre, morre depois do coito. Fecunda a fêmea tecelã. Esta, depois de o prender na sua teia, devora-o. O homem-aranha, o tal que conheço, ama com abnegação. É a pior forma de se amar. Inocente, espera sempre que os outros homens o amem da mesma maneira.
Evidência
Já o disse. Os homens dividem-se entre os que usam botões de punho e os que não usam botões de punho. As mulheres, por sua vez, dividem-se entre as que usam sapatos de cunha e as que não usam sapatos de cunha. A Bárbara Guimarães, apesar de tentar disfarçar com um toque de sofisticação amarela a sua ignorância, quase de certeza que gosta de sapatos de cunha.
2007/05/24
Biafra
Conheci, em tempos, uma mulher que morria por amor. É exactamente esta a palavra que quero empregar: morrer. Porque, assim como se pode morrer com uma crise aguda hemorroidal ou um ataque de flatulência, pode morrer-se por amor. É igualmente risível. Definhava a olhos vistos. Magérrima, chupada como uma criança do Biafra. Consumia-se por causa de um jeitoso que gostava de ópera, que lia Wittgenstein e, jantava, ao final do dia, em restaurantes de degustação. Um tédio de homem. Um homem-tédio. Os seus olhos tinham sempre uma névoa de tristeza que me desesperava e desamparava. Por osmose também eu, quando estava com ela, me sentia assim, a morrer devagar, a vasculhar nos cantos da minha vida razões para ser infeliz. Fazia terapia há 5 anos. Anunciava-o com alívio, assegurando que as sessões de terapia a ajudavam a enfrentar a vida, a estruturar-se como pessoa, a perceber as suas atitudes e opções. Eu achava aquela conversa estranha. Ainda acho. Como se aguenta um psicanalista durante cinco, dez, doze anos? A maior parte das relações não dura tanto tempo.
2007/05/23
Menina-balão
Na Índia, ao contrário de cá, os jornais não trazem mensagens eróticas. Shiva, sempre entretido em cabriolices eróticas com as suas consortes, de lingam erecto, não o permite. Em contrapartida, há em cada jornal uma longa secção de matrimonial. Trata-se, como o nome indica, de uma secção de anúncios de quem procura parceiro para casar. As mensagens são de uma especificidade impressionante. Nunca tinha visto nada igual. As brides e os grooms descrevem-se com rigor e exactidão. Num quadradinho de papel condensam a informação necessária para despertar o interesse de um potencial parceiro: idade, casta, religião, habilitações -desengane-se quem pensa que na Índia são todos uns desgraçadinhos analfabetos, na maior parte dos casos, principalmente nas cidades, o que está em causa é saber se se tem uma especialização ou um doutoramento -, região, profissão, salário e, claro, o tom da pele. Fiquei viciada na leitura daquela secção dos jornais indianos. Por isso, quando a tarde caía sobre a casa de Maina e os esquilos se escondiam nos ramos da mangueira, eu arrastava a cadeira de baloiço para a varanda e entretinha-me a ler os anúncios dos casamentos, tentando encontrar naquelas listas infindáveis correspondências que assegurassem aos noivos um casamento feliz para a vida. Um dia, a Ria, a menina-balão, veio sentar-se perto de mim. Espreitou o jornal e chamou, com a sua voz de trovão, as outras crianças da casa que, entretidas a chupar limas, correram para perto de nós. “Ana Clara is reading the matrimonial! She is looking for an indian groom!”. Ri-me do descaramento da menina-balão e belisquei-a. Depois, passámos o resto da tarde à procura de um noivo indiano para mim.
(Tenho saudades da Índia. Nunca mais chega o Natal para, por fim, voltar.)
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