2007/06/29

Muhammad Yunus


A noite entrava na hora da solidão. A casa dormia como um bicho manso. Pelas janelas abertas entravam os primeiros mosquitos da estação. Eu entristecia, deitada no sofá, com o comando na mão. Ele veio sem o esperar. Fez-me companhia durante uma hora. Não mais. Explicou-me o mundo de lá e de cá. Riu-se da cimitarra que utilizo para decepar a minha cabeça, os meus braços, as minhas pernas, às vezes, poucas vezes, só as falanges, as falanginhas ou as falangetas. Eu vi-lhe os dentes brancos e achei-o bonito. Perguntei-lhe se o podia abraçar. Ele fechou o cenho como que a dizer tenha juízo menina, não seja parva. Depois foi ter com as mulheres que respeita, aquelas que o seu banco ajuda a comprar uma vaca, uma máquina de costura, um tear, mulheres que amaciam os filhos com mãos crespas de trabalho.

Cortesãs

"- Atenção, senhor - preveniu-o o escudeiro – olhai que estas mulheres estão já sujas e empestadas que nem os turcos as quereriam como presa dos seus saques. Não só estão carregadas de piolhos, percevejos e carraças, como ainda fazem ninho dentro delas lagartos e escorpiões". Italo Calvino, O Visconde Cortado ao Meio
(Não gosto de gajas, mas gosto de cortesãs. Apesar dos escorpiões, dos lagartos, percevejos, piolhos e carraças. Tanta bicharia miúda fazendo dos corpos fartos das cortesãs, cheios de refegos e sujidade, a sua casa.)

2007/06/28

Gajas

Para além de blogues de mães, também não gosto de blogues de gajas. Os blogues de gajas são aqueles blogues escritos por tipas que se assumem como tal e, pior, falam de coisas que elas acham ser coisas de gajas: sapatos, vestidos, gajos, graus de eficácia de técnicas depilatórias, aulas de pilates e claro, como mulheres modernas que são, sexo. Não percebem, pobres gajas, que a modernidade é uma chatice. Procuram, volta e meia, derramar um bocadinho de erudição, que é para a gente não pensar que são umas gajas burras. Um bocadinho de jazz aqui, um nadinha de grego clássico acolá, muito sentido de humor à mistura, que é para dar a sensação que são felizes e devidamente fodidas. As gajas, quando falam de sexo, procuram fazê-lo da mesma forma que os gajos. E, então, são tristemente patéticas: escrevem como se estivessem possuídas pelas personagens do sexo e a cidade ou, então, como se lhes tivessem crescido testículos, bolas, tomates, colhões, enfim, uns enormes badalos nas partes baixas. As gajas, em regra, não são interessantes. São simplesmente ordinárias. Assim como as fibras de poliéster. Pior do que blogues de gajas, só os blogues de mães gajas.

Maria Madalena


Leonardo Da Vinci, 1515 (?)

2007/06/27

Agualusa

Embirro com o José Eduardo Agualusa. É um sentimento difuso que não sei explicar. Talvez seja a vaidade que me aborrece. Ou, então, a maneira como se faz, e o fazem, passar por grande escritor. Eu não o tenho por grande escritor. É assim-assim. Mas lá que é giro é. (Ainda há mexilhões saracoteando dentro de mim. Só pode. Estou que não posso.)

Mexilhões

Passei a noite sentada no bidé, com a cabeça enfiada na sanita, a vomitar. Desconfio que foi por causa de uns certos mexilhões que comi ao jantar. Nunca mais na vida toco em mexilhões. Fiquei exausta. Cada vez que um vómito se assomava à garganta, o meu corpo sacolejava. Parecia que as entranhas, as vísceras, as miudezas me queriam fugir pela boca. Quando deixou de ter comida para botar fora, o meu corpo começou a tentar arrancar pedaços esponjosos do seu avesso para se aliviar. Eu a assistir a tudo, incapaz de dominar o meu corpo, de lhe dar um par de tabefes para que sossegasse. Pela madrugada, os vómitos tornaram-se mais espaçados, mais dolorosos. O cheiro azedo misturando-se com os cheiros aprisionados dos champôs, dos detergentes, do sabonete, da pasta de dentes, do colutório dos miúdos, provocou-me nova náusea, desta vez acompanhada de uma ligeira quebra de tensão. Cai ao chão. Deixei-me ficar. E gemi uma infinidade de ais.

2007/06/25

Sari

Amanhã tenho um julgamento em Moimenta da Beira. É um bom dia para estrear o sari branco. Há-de o senhor oficial de justiça revirar os olhos quando, ao chamar pelo meu nome, me vir responder, de branco evanescente, com uma pinta na testa e os braços com pulseiras de mil cores.

Coelhinho

Olho para o cartaz do PP, vejo a cara do Nobre Guedes, espreitando-me com cara de coelhinho, e tenho dó do meu pai. Depois olho para os outros cartazes e tenho pena de mim.

Torre (3)

(Pequena Torre de Babel, Bruegel)

Torre (2)

Acordo com os movimentos da minha filha. Quis dormir comigo. Tento voltar a adormecer. Fecho os olhos. Quero retomar o sonho no ponto exacto em que foi interrompido. Não é todos os dias que os meus sonhos são povoadas por figuras do calibre do Zé Maria. Adormeço. Volto a sonhar. Agora, estou na Amadora. É um lugar mágico, medieval, pouco nítido. Como se fosse uma ilustração de um livro antigo. Sombrio, feito de ruas estreitas, sinuosas, esconsas, que desembocam num largo. Nesse largo há uma torre extraordinária, piramidal. Larga na base, vai afunilando até ao topo. Não está terminada. É feita de rectângulos de pedra enegrecida. Um baluarte com muitas varandas, arcos, ogivas, colunas. A torre assemelha-se a uma réplica da Pequena Torre de Babel, de Bruegel. Em frente da torre, há uma praia, muito pequena, de areia suja, cheia de vidros e de bocadinhos de tijolo. O mar é calmo, terroso, opaco, baço. Dispo-me. Não há ninguém por ali. Avanço. Por baixo da água há um tapete de pedras irregulares e conchas partidas. Ferem-me os pés. A água está morna. Dou um mergulho rápido e saio. Começo a subir a torre pela escada estreita que a serpenteia. Percebo, então, que a torre está apinhada de pessoas que, escondidas nas suas sombras, assistiram ao meu banho, à imersão do meu corpo nas águas sujas daquele mar. Riem. Continuo a subir as escadas. Volto acordar. Sei, porém, perfeitamente o que fiz quando cheguei ao cimo da torre.

Torre (1)

Sonho que sou enfermeira. Trabalho num hospício labiríntico. Um sítio triste, lúgubre, que faz lembrar a Roménia de Ceaucescu. Tenho a meu cargo um único doente. É alguém muito especial, que exige vigilância permanente. Um doido varrido.Trata-se do Zé Maria, o rapaz franzino e triste do Big Brother. Está numa camarata imunda, deitado numa cama de metal. Os membros, pernas e braços, estão presos com ligaduras às extremidades da cama. Tudo está sujo, coberto de sarro. Há bolas gigantescas de cotão nos cantos do quarto. Só a minha bata, os meus sapatos, o meu chapéu, que tem uma fita fininha de veludo azul, estão limpos. Sou, estou branca, alva, clara. Abeiro-me da cama. Apesar de preso, o Zé Maria sorri-me com aquele ar de imbecil que Deus lhe deu. Depois de me observar, enquanto verifico se está bem preso, diz, calmamente, na sua pronúncia barranquenha "A Sra. Enfermeira hoje não tirou o buço, pois não?".

2007/06/24

aishwarya rai

(faltam cinco meses para voltar, uma eternidade.)

2007/06/22

Rafaela

A Rafaela passou a manhã ao telefone com a mãe. Falou sobre a educação que dá à sua filha. A Tânia Patrícia vai, pela segunda vez, chumbar o ano. Segundo a Rafaela, a culpa é da professora de português, essa cabra, que obriga os alunos a conjugar verbos irregulares. E hoje traz uma sandálias-chocalho. Cada vez que passa no corredor a caminho da fotocopiadora, sempre apressada, bufando pelas ventas, simulando urgência e ocupação, ouvem-se pedrinhas, conchinhas. É o fundo do mar que tilinta nas suas patinhas de paquiderme. Vou ao cinema bisbilhotar a intimidade da Lady Chatterley, que uma pessoa não é de ferro.

2007/06/21

Mia Couto

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir. Terra Sonâmbula
(Tamanha serenidade, tamanha lucidez. E foi de África que ele falou.)

Anita


(Olho para esta fotografia da Anita Desai. É tão bonita. Tristes, as mulheres que não sabem envelhecer. )

2007/06/20

Dildos

Telefono à minha irmã. A propósito do baptizado dos nossos sobrinhos, como duas almas castas que somos, começamos a nossa conversa a falar sobre bíblias para crianças. Depois passamos para temas mais prosaicos. Falamos da tal feira erótica de Lisboa. Confesso-lhe que gostava de passar por lá. Nem que fosse só para ver um vibrador ao vivo. Nunca vi nenhum, facto que é quase inconfessável. É então que a mana me fala de dildos.
-Que raio é um dildo?
-Ó mana...
-Ó mana nada! Explica-me lá o que é um dildo!
-Nem penses!
-Ó pá, vá lá, explica-me!
-Mana, eu depois explico-te. Agora aqui não posso.
-Explica lá!
-Estou a trabalhar!
-Não me faças isto que já sabes que não aguento!
-Ó pá, é uma espécie de vibrador.
- Ai é?
-Sim, só que não vibra.
-É isso?
-É.
-Grande coisa... E para que serve um dildo se não vibra?
-É para não usares o dedo...
-Ai, que nojo!
-Ó mana, não te faças de santa...
Ainda não percebi bem o que é um dildo. Mas dildo não é nome de vibrador que não vibra. É nome de gnomo, de duende, de anão muito pequenino e esverdeado que anda aos pulinhos pelo bosque, apanhando bagas e cogumelos, e que tem um chapéu ridículo em forma de cone no cimo da cabeça.

Rama Yade

Primeiro escolheu Rachida Dati, de origem marroquina e argelina, para Ministra da Justiça. Agora, escolhe Rama Yade, de origem senegalesa, inteligente (basta ler a sua entrevista) e linda de morrer, para Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e dos Direitos Humanos. Há que reconhecer que este homem, o Sarkosy, é de uma habilidade política extrema.

Granada

Pela manhã, aconteceu-me uma coisa estranha. Não sei se por causa da posição em que estava sentada, inclinada sobre o teclado, com o torso levemente torcido para espreitar o homem da grua, senti o bater do meu coração. Um bater acelerado, como é próprio dos corações, mas mais intenso e doloroso. Parecia que alguém me batia com um martelo no peito. Fiquei quieta, imobilizada, a ouvi-lo. Foi então que percebi que o meu coração tem a forma de uma granada. A qualquer momento pode explodir.

2007/06/19

Lago Turkana

Ontem, depois de deitar os miúdos, sentei-me a ver “O Fiel Jardineiro”. Não gostei especialmente do filme. A protagonista, Rachel qualquer coisa, é linda. Põe a Scarlet não sei das quantas, sonsa e ordinária, a um canto. O filme não me entusiasmou. Nem me comoveu. É bonita, e desesperada, a imagem quase final da criança que corre sozinha para sítio nenhum. Gostei de ver os ocres e os brancos do lago Turkana, berço da humanidade. Não deixa de ser irónico que as pedras que assistiram ao nascimento dos primeiros homens, milhões de anos atrás, os vejam agora morrer de fome, de sede, de desespero. Pensei-me imune ao filme. E dormi. Hoje, porém, acordei com nojo do mundo. E pela manhã fora essa sensação manteve-se. Um nojo a crescer dentro de mim. Como um bicho. Ou um filho. Nojo dos passageiros do comboio. Nojo dos rostos que espreitam nas revistas e nos jornais. Nojo dos jornalistas, dos psicanalistas, dos psicanalisados, dos advogados, dos chefes, das secretárias, dos subordinados, dos obesos, dos cultos, dos analfabetos. Nojo dos homens ciganos que fumam sentados, enquanto as mulheres vendem filmes, camisolas e malas louis vuitton e distribuem estalos pelas crianças ranhosas que brincam na copa das suas saias. Nojo de mim. Sobretudo de mim. Que os outros pouco me importam. Hoje, se pudesse, fazia uma sabonária de sabão azul e branco e lixívia. Metia-me lá dentro e esfregava-me até ao tutano com uma escova de arame. Lá longe, nas margens do lago africano, as gretas secas e esboroadas continuam ensopadas de sangue.

2007/06/18

Marvin Gaye

(Tenho saudades de ver este filme.)