2007/09/07

Avante

Gostava de ir à Festa do Avante. Tenho atracção pelo grotesco.

Kacsinsky

Os irmãos Kacsinsky são sinistros. A gente olha para eles e imagina-os assassinos impiedosos, de cutelo nas mãos, esventrando corpos de rapazes jovens, de nádegas firmes. Ou então, vestidos de cabedal e pregos, sendo vergastados por uma dominadora de saltos altos e vagina pelada. Uma coisa é certa. Os gémeos polacos são homens complexados, de falos minúsculos. Só assim se compreende as questiúnculas que, de forma sistemática, têm levantado na União Europeia, e que funcionam como entrave à pretendida consolidação europeia. Agora, imagine-se, tiveram a ousadia de se opor à proposta de instituir simbolicamente um dia europeu contra a pena de morte. Os dias europeus valem o que valem. Nada. Mas, caramba, há um dia europeu dos vizinhos e um dia europeu para uma Internet segura. Porque não há-de haver um dia europeu contra a pena de morte? Eu acho que os gémeos polacos gostam de brincar ao faz de conta. Faz de conta que somos importantes. Alguém devia dar-lhes um valente pontapé no rabo e recambiá-los para a aldeia onde nasceram.

(E, depois, há quem tenha medo, medinho, da entrada da Turquia na União Europeia. Como se os países que cá estão fossem todos modelos de virtude democrata.)

2007/09/05

Vanessa da Mata/Ben Harper

(o que gosto desta canção.)

Livros

Em resposta, direi que sou incapaz de enunciar os livros que não mudaram a minha vida. Que interesse tem isso? São tantos. Quase todos. Sou capaz, porém, de enunciar alguns dos livros que mudaram a minha vida. São livros-cinzéis. Esculpiram o que sou: 1) Rosa, minha irmã Rosa, Alice Vieira; 2) O Diário, Anne Frank: 3) Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira; 4) Palomar, Italo Calvino; 5) Crime e Castigo, Dostoievski.

Anatomia de Grey

Acelero a rotina dos miúdos. Engrosso a voz. Tudo deitado. Rápido. Hoje a história é pequena e não há tempo para cantorias, nem para leitinhos, nem para conversas sobre isto e sobre aquilo. Eles estranham a minha pressa. A Dádá choraminga. Temo o pior. Dou-lhe um beijinho repenicado e prometo compensá-la com a história da sardinha Julieta. Ela acena a cabeça, aquiescendo. Respiro de alívio. Deito-me por fim em frente da televisão com o primeiro cigarro do dia na mão. Estou viciada na Anatomia de Grey. O mundo pode desabar que eu não perco um episódio. E tenho, admito, um fraquinho do Dr. Derek Sheperd. Tem ar de tudo menos de médico.

(A seguir, lá para a meia noite, passaram uma série sobre lésbicas. Parece que dá todos os dias. É a coisa mais deprimente e desinteressante que já vi. Uma catrefada de mulheres, todas boazonas, dadas às artes, claro está, lindas, magras e maquilhadas, soluçando traições, apregoando o desprezo dos malvados heterossexuais, vivendo entre elas, numa espécie de comuna de fufas contentinhas e orgulhosas por assumirem a sua orientação sexual. Não há pachorra. A série não é má. É péssima. Larguei logo um chorrilho de palavrões. Mais valia darem dois episódios da Anatomia de Grey.)

Madre Teresa

Por volta dos doze anos vi um documentário na televisão sobre a Madre Teresa e as Missionárias da Caridade. Ao vê-las percorrer as ruas da cidade-labirinto, tocando os moribundos, alimentando crianças, tratando dos que não têm nada nem ninguém, roendo a miséria da vida, chorei lágrimas sinceras de comoção. Nesse preciso instante decidi que quando crescesse havia de ser freira. Também eu queria dedicar a minha vida aos outros, levar-lhes alívio e alegria. Também eu queria alimentar, lavar, ajudar, ensinar, curar. Pareceu-me, naquela altura, que essa era a única maneira de viver a vida sem criar escaras. A minha vocação, porém, durou pouco tempo. Cedo percebi que nunca poderia ser freira. Era, e continuo a ser, de uma passividade absurda, incapaz de concretizar um projecto ou uma ideia. Depois, faltava-me um requisito essencial para o desempenho de tais funções: a fé. Não tenho fé. Nunca tive. E tenho pena de não a ter. É muito difícil viver sem fé. Vive-se com urgência e precipitação, com a inquieta sensação de desperdício da única oportunidade que temos para ser felizes. A fé faz falta. Por isso, volta e meia, procuro-a. Enfio a cabeça dentro do meu corpo e lanço um grito esganiçado lá para dentro. Ecoa a minha voz nos corredores das minhas pernas e dos meus braços, no salão do meu tronco, voa a minha voz até às clarabóias distantes por onde entram as sombras e a luz. Fico rouca de tanto chamar por ela. Ela, a fé, nunca me respondeu. Como se faz para ter fé? E como é possível ter fé num mundo tão amargo, de injustiça, frivolidade, sofrimento e miséria? Não consigo compreender. Não estranho, por isso, as dúvidas e inquietações que, durante 50 anos, a Madre Teresa sentiu. Difícil é ter fé. Falo de fé genuína, não da fé domingueira dos que abrem a boca para receber a hóstia sagrada e, depois, seguem vivendo regaladinhos e aliviados. Interessa-me pouco averiguar sobre se a fé da Madre Teresa era genuína ou não. Nem me interessa saber se aquilo que fez, durante a vida, foi por causa da fé. Só me interessa saber que o fez. E continuar a tê-la como exemplo.

2007/09/03

Tindersticks

Silêncio

Apetece-me o silêncio. Mas o silêncio é um bicho raro, em vias de extinção, não se encontra em sítio algum. Está fora de moda. O dia está cheio de ruído. Letras que copulam, furiosas, até formarem sílabas, sílabas que formam palavras, palavras que constroem espirais de frases, frases que alicerçam diálogos. Tamanho desperdício de palavras, escritas e faladas, desespera-me. As palavras são como a água. Como as jazidas de petróleo, urânio, carvão. Meios escassos não se desperdiçam. Sempre ouvi dizer. Gastamos tanto as palavras que elas correm o risco de perder o seu significado. É no silêncio e na ausência que as pessoas se encontram. Mas a noite também não traz silêncio. Vem com o frenesim dos pássaros nocturnos. Piam as aves em estranhas sinfonias, batem as asas, espalham o pó das árvores sobre o mundo. A noite vem com os murmúrios do desejo alheio. Quero-te. Abraça-me. Toca-me. Vem com o desaguar manso das lágrimas das mulheres traídas nas almofadas de poliéster. Vem com o barulho pesada das páginas que volto. Vem com o cri-cri dos grilos que habitam o jardim. Vem com os ruídos cansados das entranhas deste prédio. E com as gargalhadinhas lépidas das meninas dos anúncios de telemóveis que vivem nos sonhos dos homens. A noite é malvada. Má. Má. Má. Traz os ruídos dos sonhos. Os sonhos, os meus, com escadarias de musgo, corredores sombrios, palácios de papelão, cansam-me. Dão cabo de mim. Preciso, com a urgência tola dos tolos, de silêncio. Não o encontro.

(Voltei sem vontade de escrever. Os textos das últimas semanas são, quase todos, textos antigos, de outros diários, de outros cadernos, de outros blogs. Fica o desnecessário esclarecimento. Para que não se estranhe o silêncio quando ele, por fim, chegar.)

Mentol

Gosto de música. Oiço todo o tipo de música. Boa e má. Só não oiço música clássica. Mas já fiz um esforço para gostar. Quando andava na faculdade cheguei mesmo a ir a dois concertos na Gulbenkian, arrastada por um colega, redondo, ufano e pretensioso, que andava a tentar impressionar-me com os seus interesses intelectuais e elitistas. Se me conhecesse um bocadinho melhor, saberia que me impressionaria bem mais um convite para passar uma noite no Ritz Club, a dançar mornas e coladeras, ou se me tivesse oferecido um disco do Travadinha ou do Tito Paris. Durante o concerto, em vez de ficar quietinho na cadeira, como a imponência da música requeria, pôs-se a abanar a cabecinha e a bater os dedos gordos na cadeira para me dar a entender que conhecia bem a partitura. Ao terceiro convite tive que lhe dizer que não aguentaria outra investida ao mundo da música clássica. Expliquei-lhe que o problema era meu, que os meus ouvidos, infelizmente, eram incapazes de se deleitar com tais acordes. Que gostava de coisas banais e comezinhas. Ele não desistiu e, em alternativa, sabendo que eu gostava de cinema, convidou-me para ir ver o Imperdoável, do Clint Eastwood. Foi pior a emenda que o soneto. Antes de entrarmos para a sala, reconhecendo a sua gula, comprou um cartuxo de rebuçados de mentol. Quando nos sentámos, ofereceu-me um. Um mísero rebuçado. Depois, para meu espanto, comeu os outros todos de enfiada, fazendo um ruído ensurdecedor. Cada vez que comia um rebuçado, dava duas ou três chupadelas ruidosas, quase cavalares. Em seguida, utilizando todas as capacidades que os seus caninos lhe permitiam, trincava-os. Dilacerava-os, mastigava-os, deixando no ar um cheiro enjoativo a mentol. Quando o filme acabou, reparei que tinha a língua verde, coisa que me causou uma agonia imensa. Continuámos a ver-nos depois de terminar o curso. Ainda chegámos a almoçar algumas vezes. Ele, entretanto, tornara-se - na postura, no aspecto, na maneira com estava e como falava - num verdadeiro senhor doutor, coisa na qual eu não me tornara. Isso causava-lhe um certo incómodo. Aliás, lembro-me que, num desses almoços, teve a distinta lata de fazer um reparo à canadiana cinzenta, coçada, que eu levava vestida. Disse-me que já conhecia aquele casaco da faculdade e que o achava inadequado ao meu novo estatuto. Ele, pelo contrário, assumia, com empenho e alegria, o seu novo estatuto. Tinha um Alfa-Romeu preto e levava-me sempre a restaurante caros, cheios de homens engravatados e de mulheres com madeixas e nuances no cabelo. Passava os almoços a gabar-se de como era um profissional respeitado e de como todas as empresas o queriam para director de qualquer coisa. Comia com a boca aberta. Uma vez chegou mesmo a dizer-me quanto ganhava e a perguntar-me quanto é que eu, jurista de um instituto público, recebia no final do mês. Eu, atordoada com tal pergunta, disse-lhe. Olhou-me com um ar misericordioso, como quem diz, coitadinha. Tanta coisa, tanta merda, mas a verdade é que, no fim, dividíamos sempre a conta. Nunca mais lhe respondi aos convites. Deixei de lhe falar. Nesse dia, decidi que não voltaria a fazer fretes. Que não voltaria a aturar gente que não me diz nada. Gente que me é insuportável. E não aturo.

2007/09/02

Vivre Sa Vie - Nana's Dance

Martim Moniz (Buda)

Perguntei, então, ao senhor de uma das lojas se não tinha ilustrações de deuses indianos. Olhou-me com desdém como quem diz para que raio queres tu tal coisa, não te armes ao pingarelho, deves ser uma dessas tontas que renegam as heranças ancestrais. Depois de me olhar de alto a baixo, disse-me que divindades hindus não tinha, mas que, em compensação, tinha um buda. E apontou para um monstruoso buda, esférico, com ar maléfico e assustador. Saí da loja furiosa com a mana. Ainda por cima, à saída da loja, deparei com o corredor alagado de mijo. Aparentemente, uma das casas de banho do centro estava entupida e, por isso, uma água acastanhada inundava os corredores. Todavia, nenhum dos habituais frequentadores do centro parecia preocupado. Uma senhora chinesa continuou sentada à porta da sua loja, como se os dejectos dos outros não estivessem a dançar-lhe por baixo dos pés. Já eu fugi a sete pés. O cheiro a merda era de tal ordem que ainda o sinto. Mas, malograda a busca, continuo a desejar que Shiva habite a minha casa.

Martim Moniz (Shiva)

Decidi que quero uma imagem de Shiva em casa. Entre outras coisas, Shiva é o deus da destruição. E não se menospreze o poder da destruição. Só depois de se destruir se pode voltar a construir. Perguntei à mana onde é que nesta cidade podia encontrar Shiva. No Martim Moniz, é óbvio, disse ela com aquele ar insolente, de criança mimada. Pedi-lhe que me acompanhasse na busca. Que não podia, que tinha coisas a fazer. Resolvi, por isso, procurá-lo sozinha. Desci ao centro comercial da Mouraria, sob o olhar atento dos homens, de todas as raças e feitios, que se amontoam na escadaria central. Nas lojas dos meus patrícios - é como o meu pai chama aos indianos, a todos, mesmo que sejam siks de turbantes cor de açafrão - entre bugigangas, penduricalhos, lantejoulas, especiarias, cachecóis, lenços, procurei Shiva. Em vão. Nada. Nenhum sinal. Nem a serpente, nem o tridente, nem o rio que lhe nasce na cabeça, nem o objecto fálico que o costuma acompanhar e cujo nome não recordo.

2007/08/31

Janelas Abertas

Sim, eu poderia abrir as portas que dão para dentro
Percorrer, correndo, corredores em silêncio
Perder as paredes aparentes do edifício
Penetrar no labirinto
O labirinto de labirintos
Dentro do apartamento.

Sim, eu poderia procurar por dentro a casa
Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas
Na sala receber o beijo frio em minha boca
Beijo de uma deusa morta
Deus morto fêmea, língua gelada
Língua gelada como nada.

Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada um matar um membro da família
Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
O que aconteceria de qualquer jeito
Mas eu prefiro abrir as janelas
Pra que entrem todos os insectos.

Caetano Veloso

(Ccrta noite ouvi esta canção até de madrugada. Depois aconteceu o que tinha de acontecer. Deste esse dia, esta passou a ser a canção da minha morte.)

2007/08/30

SG

(amor primeiro, desde os onze anos, quando a Maria dos Anjos, professora de português, me deu a ouvir o Barnabé.)

Filhos

Deitado na cama, o barão trepador quis saber, ao certo, o que eu fazia no trabalho. Expliquei-lhe com aborrecimento. Que grande seca, mãe. Concordei e, mais uma vez, soprei-lhe ao ouvido que exigia que ele, quando crescesse, fosse médico ou cozinheiro. Aproveitei para, disfarçadamente, lhe cheirar o pescoço e, de raspão, beijar-lhe os lábios. Ele zangou-se com o beijo e disse, peremptório, que médico nunca. Tinha horror a sangue e ao estudo que a medicina exige. Mas cozinheiro, talvez. Sosseguei. No quarto ao lado, a estrelinha da tarde exigia atenções. Enfiei-me com ela na cama. Canta-me canções para adormecer, pediu. Cantei. Uma, duas, três, quatro, muitas. Ela acompanhou-me com um fiozinho de voz. Tão pequena e frágil. Tão feliz. Tão minha filha. Adormeceu no preciso instante em que me preparava para lhe cantar as aventuras de uma certa Etelvina que gostava de andar pela cidade, a semear ventos e a colher tempestades, a meter-se com ricaços, a dizer assim: você que passa de carro, pare aqui a ver se eu deixo, venha cá que eu já o agarro, dou-lhe um pontapé nos queixos. Adormeceu a estrelinha da tarde agarrada a um barbapapa vermelho e risonho. Fiquei só. O melhor de ser mulher é ser mãe.

Ratos

Duas ratazanas pastavam na relva. Quando anoitece sobre o rio, elas abandonam os juncos lamacentos e passeiam-se pelos relvados que, durante o dia, pertencem às meninas de crocs nos pés, aos rapazes que jogam futebol, aos namorados que soltam beijos nas copas das árvores. Uma terceira ratazana, vinda da escuridão, juntou-se ao grupo. Vinha, folgazã, com pezinhos ligeiros e vontade de aproveitar a frescura da noite. Viram-me os horrendos bichos passar, encolhida, largando gritos tolos, jurando a mim própria nunca mais na vida correr sozinha nos relvados. Muito menos de pernas ao léu. Não se mexeram. Ignoraram-me. Temi que me atacassem. Que desatassem a correr na minha direcção e me mordessem os tornozelos. Apressei-me em deixar os relvados. Atravessei, aliviada, a praça mais barulhenta e bonita do meu bairro. Perto dos caixotes do lixo, um cão vadio, muito magro, farejava os desperdícios. Um homem-breu fazia-lhe companhia. A cara preta de sujidade. O cabelo enfiado dentro de um barrete de cor indefinida. Mãos ferozes, vasculhando os caixotes, os restos, as sobras dos outros. Ignorou-me ostensivamente. Como as ratazanas dos relvados. O cão, porém, olhou-me com olhos doces de mágoa e abandono.

2007/08/28

Teresa Torga

(não há bandeira sem luta, não há luta sem batalha.)

Sul

Tenho um sul de casas rasteiras. Um monte com um moinho abandonado, um caminho de silvas e estevas secas, com um sobreiro e uma azinheira. As ruínas da minha infância vivem ali, entre as ervas altas da Primavera. O meu sul cheira a porcos. A noite traz um cheiro adocicado, excrementício, que entra pelas janelas e portas abertas. É um sul feito de uma só rua, habitada por gente que conheço e gosto. A tia Maria, com o cabelo já todo branco, sentada no alpendre da casa amarela, no meio de alguidares e bidões velhos, onde planta morangos, ervilhas, favas, tomates. A vizinha Bárbara, de olhos azuis que tem andorinhas nos corredores da casa. A vizinha Teresa, cada vez mais coxa, incansável na arte de falar. Remata cada frase com um “Pois então!”. Foi mãe de duas netas. A Dulce sempre pronta a contar-me as novidades das pessoas da aldeia, mesmo daquelas que não conheço.

O Luís de Vale de Armunha, que ganhou um prémio no totoloto. Comprou um Audi e uma Harley Davidson. Quando entardece conduz a motorizada, cruzando-se com tractores, camionetas cheias de cortiça e de gado, carros carregados da poeira e dos cheiros dos campos. Comprou também dez vacas, de excelente qualidade, numa feira de gado de Barcelona. De repente, apesar do olhar parado, dos dentes de coelho saídos, tornou-se no partido mais apetecível da aldeia. É assim a vida. Há também o Sebastião, a Patrícia, a Joana, irmãos redondos que sabem tocar acordeão. Inchados, fazem-me lembrar a fábula da rã que queria igualar, no tamanho e no porte, o boi. Tanto inchou que um dia rebentou. Qualquer dia os três irmãos também rebentam. Se lhes espetar um alfinete nas carnes gordas rebentarão como balões coloridos de feira.

Há, por fim, a prima Laura, perdida na loucura que herdou da sua mãe, oscilando entre a solidão, a tristeza e a euforia. Tenho sempre vontade de a abraçar. De lhe fazer festas nas mãos gordas, de unhas roídas, maltratadas. Umas mãos que, mesmo depois de lavadas, guardam o cheiro das coisas em que ela toca. O cheiro da terra, das laranjas, dos limões, das linguiças, dos coentros migados para a açorda, dos torresmos, da banha de porco e do pão. É o cheiro do sul e da planície que ela traz nas mãos. Os meus filhos enrodilham-se nas suas pernas, cabriolando. Mal chegam correm ao seu quintal. Eu, quando os vejo, sinto com uma dor no peito. Gosto mais deles por gostarem assim tanto dela. A prima Laura é a única pessoa que continua a tratar-me por Clarinha. Como se eu fosse, ainda, a menina que ali passava os verões, inquieta e desassossegada.

2007/08/27

Eduardo

Nunca gostei do Eduardo Prado Coelho. Encontrava nas suas palavras matinais a arrogância própria dos iluminados. Nele, ufano, todos os sinais de um insuportável diletantismo intelectual. Continuo a não gostar dele depois de morto. E, no entanto, para onde quer que olhe, dou de caras com epitáfios. Com pedras tumulares. Textos, todos ou quase todos, lacrimosos que leio e esqueço. A morte exige respeito, pudor e, sobretudo, brandura.

2007/08/10

Água

Acordei com corpo de água. Sou só chuvas mansas, rios, mar. A água presa nas garrafas de plástico também entrou em mim. Ping. Ping. Ping. Vou chorar-me até desaparecer.
(é tempo de sossego e silêncio.)

2007/08/09

Milton Nascimento

(também tenho um lado ocidental.)

Arte

A M. foi à bienal de Veneza e trouxe uns colantes para os miúdos. O da Dádá, como não podia deixar de ser, diz “I’m a dada piece of art”. O do João, em jeito de provocação, diz “I´m an abstract piece of art”. Fiquei a pensar. E eu?

Notas com Bolor

1) O Luís Felipe Menezes foi fazer política de proximidade para a Cova da Moura. E mais não digo. 2) A Márcia Rodrigues entrevistou o embaixador do Irão de véu e luvas pretas. Eu acho que a Márcia devia ser apedrejada em público. 3) Andam em polvorosa com a China e o não cumprimento das promessas de maior respeito pelos direitos humanos. Mas alguém acreditava que a China, por causa dos jogos olímpicos, deixaria de ser o que é? 4) Nem tudo na China é mau. Eu importava os pelotões de fuzilamento para exterminar certa e determinada jornalista, filha de uma autarca do norte muito ruim, que faz a cobertura do Mistério da Praia da Luz. 5) O Sean Pen esteve na Venezuela do Sr. Chavez e disse que a Venezuela do Sr. Chavez é um grande país. Coitadito. Embebedava-o com daiquiris e depois mandava-o fazer companhia à Márcia Rodrigues. 6) Em Timor, o presidente passou a ser primeiro-ministro e o primeiro-ministro passou a ser presidente. O partido que ganhou as eleições não foi chamado a formar governo. A democracia é uma coisa estranha. 7) Nem tudo é mau. Está cá o ministro dos negócios estrangeiros de Cabo Verde. Seja bem-vindo, senhor ministro. Dava tudo para saber dançar o funáná. Não quererá V. Exª levar-me ao Sarabanda (não é o do Bergman, que eu sou uma rapariguinha simples, uma triste pacóvia, pouca dada a profundezas melancólicas, mas o da EUA) e ensinar-me a abanar as ancas?

2007/08/08

Anna

Pierrot, le Fou

(Agradeço muitas coisas à minha mãe. Uma é ter-me chamado Ana.)


Sutura

Sento-me de pernas cruzadas na cama, bebendo o chá muito devagar e olhando as fotografias dos miúdos. O João sopra bolas de sabão. A Madalena, de amarelo, foge. Deito-me atravessada na cama. É a minha posição preferida. Os pés ficam de fora e eu, tão pequena, sinto-me maior. Fecho os olhos para que a dor passe. Procuro lembrar os sonhos dos dias anteriores. Primeiro sonho: estou em Maputo e rodo a cidade num carro. Os prédios são altos, estão pintados de branco. Há roupa colorida nos estendais. A cidade não é a cidade. Tem lagoas nos arrabaldes. Parecem tanques gigantes esculpidos na rocha. Dois meninos mergulham e os seus corpos desaparecem na água que é verde e amarela. Árvores gigantes largam flores vermelhas pelo chão. O lento leva-as para longe. Olho as lagoas na companhia dos meus irmãos. Quero mergulhar, digo. Eles riem. Segundo sonho: estou nas escadas rolantes de um centro comercial. O Nicolau Brayner espera por mim no piso de baixo, junto de uma loja de mercearias finas. Olho a montra, onde frascos de ovas rivalizam atenções com garrafas de vinho italianas. Alguém nos persegue. Quem será? Fugimos. Eu vou dar a uma casa de madeira na falésia. O mar é tão escuro e bonito, lá em baixo. Estou nisto durante muito tempo. A reconstituir sonhos como quem reconstitui cenas de crimes. Enquanto resonho os meus sonhos, levo as mãos ao nariz. Cheiram a cebola e a alhos. Adormeço com o barulho de uma explosão pequenina. Durmo a noite toda. Tenho um sono descansado que é coisa que nunca tenho. Nem com os comprimidos cor-de-rosa que a minha mãe me dá. Triticut. Tritifur. Triticon. Tritiqualquer coisa. Acordo com a voz do António Macedo. Levanto-me assustada. Sinto-me inesperadamente leve. Reparo então que tenha um buraco no torso. Estou vazia por dentro. Oca. Faltam-me vários órgãos. Estranho a ausência de dor e a calma de me ver assim. Olho em volta. Descubro os meus órgãos espalhados pelo quarto. Recolho os meus pedaços de corpo. Vasculho os cantos e as sombras. O coração está por baixo da cama, esquecido entre dois pares de sapatos velhos. Ainda bate. Encaixo-o dentro de mim. Suturo-me com a linha que utilizo para apertar os rolos de carne.

2007/08/07

Monstra

Fui comprar os livros que me faltam ler para o curso de literatura romena. No caminho de regresso, percebi uma coisa terrível: tal como a rapariga da fila do refeitório, também eu nunca fui devidamente, como dizê-lo?, fodida. O facto de ter algo em comum com a monstrenga bobadelense/mem-martiense/abobadense do refeitório aborrece-me.

Besouros

Estou na fila do refeitório, mesmo ao lado do balcão das sobremesas de plástico. Gelatinas de pêssego, bavaroises de morango, tartes de maçã, tortas de chocolate com cobertura de coco. Na televisão passa uma reportagem sobre as demolições na azinhaga dos besouros. É, então que, vinda de trás, chega uma voz. Estes pretos vêm para aqui fingir que trabalham, põem-se a construir onde não podem, depois levam com os catrapilers em cima. Azar! Viro-me. Quero ver as feições de quem, com tamanha jactância, se manifestou. Vejo uma rapariga de casaco azul escuro e blusinha cor-de-rosa. Tem feições duras. Feias e suburbanas. Tem feições de quem nasceu na Bobadela, em Mem Martins ou na Abóbada, de quem tirou o curso na Lusófona e chamará Beatriz à filha feiinha que terá daqui a meia dúzia de anos. É gestora quase de certeza ou economista ou informática ou qualquer coisinha assim. Tem ar de quem nunca foi devidamente fodida. De quem nunca será devidamente fodida. Enquanto a observo de alto a baixo, penso assim: vai para a puta, escancarada, enorme e malcheirosa que te pariu. Penso. Mas não digo. E tenho pena de não dizer. Gostava de ser capaz de verbalizar os meus insultos. Não me faz nada bem guardá-los para dentro.

Embuste

Embuste: mentira artificiosa; dolo, falsidade; velhacaria.

2007/08/04

PJ Harvey

Je m´en vais.

2007/08/03

Theo (4)

Há pouca gente a preocupar-se com isto. Há pouca gente a denunciar isto. Quase ninguém. As pessoas metem-se nos seus casulos, olham para as suas causas, desviam o olhar. Theo van Gogh, sendo homem, não olhou para o lado, não ignorou a realidade destas mulheres. Denunciou. E por isso morreu. Ainda que isso pouco ou nada signifique, merece o meu maior respeito, a minha maior admiração. Por esta razão, hoje, mais do que a possibilidade de um texano pouco hábil, quase burro, ser reeleito para a presidência dos EUA, inquieta-me que um homem, numa qualquer rua de Amsterdão, quando circulava de bicicleta, a caminho do estúdio onde trabalhava, tenha sido assassinado por ser livre e por reclamar, para os outros, exactamente a mesma liberdade.
(A propósito do Charrua e da liberdade de expressão lembrei-me deste texto que escrevi, em 2004, num outro blogue. A liberdade exige coragem e nós somos, quase sempre, cobardes.)

Theo (3)

A questão que se coloca é a de saber se os países do Ocidente, sob a perigosa capa da diversidade cultural, do respeito pela diferença, podem aceitar tais práticas, tais rituais. A liberdade religiosa, a liberdade cultural justifica tudo, até aquilo que é injustificável? Há um inegável confronto de ideias, de culturas, de civilizações. De um lado, temos a liberdade religiosa, a liberdade cultural. Do outro lado, temos os direitos fundamentais, património inalienável da humanidade. Perante este conflito, quem deve ceder? É obvio que tem de ceder a liberdade religiosa. Assim como a liberdade cultural só pode ser tolerada se não puser em causa os direitos fundamentais. Ora, as práticas acima descritas põem em causa, precisamente, os direitos fundamentais das mulheres. Obrigar uma mulher a usar um véu é o mesmo que aceitar que a uma mulher jovem se pode tirar num ritual macabro o seu clítoris, coser-lhe a vagina para gáudio do macho na primeira noite, que a rasgará como se rasga uma folha de papel. Obrigar uma mulher a usar um véu é a mesma coisa que aceitar que uma mulher pode ser apedrejada em público até à morte por adultério. E não digam que elas andam assim porque querem. Andam assim porque lhes é negado um direito fundamental, a liberdade. Andam assim porque foram educadas no pressuposto da sua indignidade, da sua infinita menoridade, porque, desde pequenas, lhes ensinam que são inferiores.

Theo (2)

Theo van Gogh foi capaz de denunciar o que se passa com as mulheres islâmicas. Fê-lo com uma mulher que, sendo muçulmana, se recusou a fechar os olhos perante a opressão a que as restantes são sujeitas. Este homem e esta mulher fizeram mais pelos direitos das mulheres do que as activistas de esquerda que, invocando tais direitos, se preocupam apenas, de uma maneira quase histérica, consigo próprias, com as suas barrigas, com a questão do aborto. Estas activistas, ululantes, detentoras de dois ou três neurónios, estão-se literalmente nas tintas para os direitos das mulheres islâmicas. Nunca vi nenhuma levantar a voz contra a obrigação de uma mulher usar um véu a cobrir-lhe o rosto. Assim como nunca vi nenhuma preocupada com esse ritual macabro, tribal, primitivo, inadmissível, indizível que é a excisão do clítoris feminino. Pelo contrário, estas mulheres enleiam-se no politicamente correcto e arranjam fundamentos antropológicos, culturais, para justificar o injustificável. Admitem a utilização do véu e a excisão do clítoris e falam, a propósito de tais práticas, em liberdade cultural e liberdade religiosa. Eu estou-me a borrifar para os sociólogos, para os antropólogos, para as justificações históricas e culturais. Reclamo para estas mulheres exactamente os mesmos direitos que reclamo para mim. Nem que isso signifique ter de deitar para o caixote do lixo, pela pia abaixo, uma cultura milenar, séculos de tradições.

Theo (1)

Nada de novo. As notícias sobre as eleições nos Estados Unidos são atrasadas, desactualizadas em relação ao que ouvi pela manhã na TSF. Atravesso os olhos pelas páginas. Sem grande atenção. Quase a chegar ao fim tomo conhecimento do assassinato do realizador holandês Theo van Gogh. Aqui está uma notícia que me assusta. Este homem foi morto por uma única razão: por expressar livremente a sua opinião. Realizou uma curta-metragem, a que deu o título adequado de "Submissão". Este pequeno filme fala sobre o Corão, mais especificamente sobre a opressão a que as mulheres estão sujeitas na religião islâmica. O argumento deste filme foi escrito por uma deputada liberal, oriunda da Somália e muçulmana, Ayaan Hirsi. Este realizador, segundo as autoridades holandesas, terá sido morto por um homem de 26 anos, com a dupla nacionalidade marroquina e holandesa, com ligações a movimentos radicais islâmicos. Ou seja, foi assassinado por quem não admite os princípios basilares da democracia, por quem luta contra a liberdade de expressão, por quem ignora, se bate contra os direitos fundamentais que, melhor ou pior, caracterizam apenas o Ocidente.

Charrua

Fazer do Charrua um herói da liberdade é o mesmo que tratar a Bárbara Guimarães como letrada. O Charrua não é um herói. É simplesmente um malcriadão. Não merecia, claro está, a suspensão a que a zelosa e subserviente directora regional do norte o votou. Mas também não merece ser tratado como um mártir da liberdade de expressão. Até quer pedir uma indemnização por danos morais ao Estado. Deus nos acuda quando a liberdade de expressão e a liberdade política se confundirem com uma graçola alarve de um funcionário subalterno qualquer. É tão fácil empregar mal as palavras.

Outros

Nestes últimos tempos, tem-se assistido a um levantamento de gente que, de repente, se lembrou de defender, com unhas e dentes, a imigração. De um momento para o outro, descobriram que a imigração é uma coisa boa. Descobriram que a Europa está envelhecida e cansada e que os imigrantes são cruciais para inverter a curva da evolução demográfica. Descobriram também que se não fosse o trabalho dos imigrantes a Europa parava. Não havia pontes. Não havia prédios. Não havia estradas. Nem centros comerciais para passearmos nos domingos de sol. Deixaria de haver quem nos servisse nos restaurantes. Não haveria quem cuidasse das nossas casas e dos nossos filhos. Não haveria ninguém para trabalhar no campo, nas colheitas de morangos, de tomate e sei lá do que mais. Esta gente também descobriu que se não forem os descontos que os imigrantes fazem para os regimes previdenciais, no futuro, não haverá dinheiro para pagar as nossas pensões de reforma.
Ou seja, de repente, esta gente descobriu que os imigrantes são parte da solução dos nossos problemas e que devemos, por isso, aceitá-los. Mas atenção! Devemos aceitá-los em função das nossas necessidades. Esta ideia enoja-me. Causa-me náuseas. Estabelecemos as vantagens e desvantagens da imigração em função das nossas necessidades. E então as necessidades deles? Poderá uma palermice politicamente correcta, sei que parece, mas acho que as portas da Europa deviam estar sempre abertas aos imigrantes. E isso mesmo que a Europa não tivesse os problemas que tem - o envelhecimento da população, a escassez de mão de obra, o facto de existir cada vez menos população activa a efectuar descontos para a segurança social. É que é muito bonito dizer-se que todos os homens nascem iguais em direitos. É muito bonito celebrar, com pompa e circunstância, os aniversários da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Mas a igualdade de direitos passa necessariamente pela igualdade de oportunidades. E essa só se alcança se aqueles que nascem no fim do mundo puderem lutar por uma vida diferente. Porque é que alguém que vive num país em guerra não pode sonhar com a paz? Porque é que alguém que vive num país com fome não pode sonhar com o pão? Porque é que as oportunidades se hão-de determinar em função do país em que cada um nasce? Não compreendo isto. E não aceito. Se as políticas de imigração adoptadas pelos países europeus, para além das suas próprias necessidades, não tiverem em consideração as dos imigrantes, ter-se-á de concluir que o princípio da igualdade de direitos, apesar de consagrado nos textos internacionais e nas constituições de todos os países, é desprovido de qualquer sentido útil, incapaz, consequentemente, de empreender qualquer tarefa de garantia contra as desigualdades e discriminações.

2007/08/02

Aznavour

Il faut savoir cacher sa peine sous le masque de tous les jours.

Benazir

Enquanto pico as cebolas para o refogado penso na Benazir Bhutto. Depois de anos de exílio, acusada de corrupção e nepotismo, vai voltar ao Paquistão. A Benazir tem ar de quem não sabe picar decentemente uma cebola. Há-de ter mãos longas, intermináveis, cuidadas. Mãos de cera, hábeis a executar gestos lentos e a repousar no regaço. Olho para as minhas mãos. São de terra.

Instrumentalina (2)

Corro. Canso-me. Olho para o relógio. Observo os transeuntes que passeiam pelo parque. Um casal jovem beija-se num varandim junto ao rio. O homem da bicicleta volta a aparecer. Quer saber se vou à meia maratona. Mentindo, para me cativar, volta a insistir que corro bem. Agradeço-lhe o elogio. Ele, porventura espantado com o meu inesperado rasgo de simpatia, sorri. Acelera na sua bicicleta. Desaparece numa vereda verde. Ladeada de pinheiros mansos e montes pequeninos. Fico a olhar para ele. Lembro-me, então, de um dos contos da Lídia Jorge. Instrumentalina. Antes de o ler, não sei bem porquê, associava-o a instrumentos musicais. Também à minha tia Adélia, durante muitos anos, enfermeira instrumentista em São José. Instrumentalina. Instrumento. Instrumentista. Volto a olhar o homem da bicicleta. É, agora, um ponto minúsculo e insignificante. Tem a precisa dimensão do que é. Quase nada. Percebo que usa umas calças de nailon. Daquelas brilhantes e justas que parecem colants. Numa cor mortiça e feia. Um verde-bolor a fazer lembrar uma lonjura de águas paradas, sombras e líquenes. Má opção. Um homem deve correr sempre, mas sempre, de calções azuis e t-shirt branca. Mesmo que o céu se enfureça e lhe atire bolas brancas de granizo, velozes como balas.

Instrumentalina (1)

Sinto alguém atrás de mim. Oiço o chiar de uma bicicleta que se move devagar, o rodado em cima da terra batida. Parece crepitar de madeira húmida. O ruído persegue-me durante alguns minutos. “Sabes que corres muito bem?”. Uma voz sussurra-me aquelas palavras. Ignoro. Não olho sequer. Correr exige-me total dedicação. É um homem quem me fala. Montando na sua bicicleta continua. “Também pedalas ou só corres?” Continuo a correr. Não me aborrece que alguém me persiga enquanto corro. Não me incomoda que esse alguém seja um homem montado numa bicicleta. Não me incomoda sequer que esse homem me interpele com tão pouca habilidade e engenho. Incomoda-me, porém, que alguém que não conheço me trate por tu. O tu como prenúncio de uma proximidade futura ou de uma intimidade desejada. Gosto do tu. Reservo-o para os que me são queridos. A única das minhas pessoas que não trato por tu é a Mila. Impaciento-me, por isso, quando o homem da bicicleta me volta a tratar por tu. “Importa-se de me deixar correr sossegada?”. O homem encolhe-se. Espanta-se com o meu pedido. Balbucia qualquer coisa. Afasta-se. Continuo a correr. Gostava de chegar até à galinha do Guimarães. Duvido que alguma vez lá chegue.

2007/08/01

Anna

Pierrot le Fou/Godard

Bruxa

Quero morrer em sossego, velha, velha, velha, encolhida como quando nasci, sem ninguém a chocalhar-me os ossos. Ouvir, por fim, o silêncio. Ai de quem se atrever a mexer-me no corpo! Ai de quem se atrever a quebrar a paz com lágrimas e gemidos! Virei, feita espectro de luz, uma bruxa hedionda, de cabelo desgrenhado e unhas compridas. Esbofetearei as noites de quem me chorar.

Santo Onofre

Rogério abre os olhos. Pelas frinchas dos estores entra uma luz amarela que faz dançar as partículas de pó. Rebola para lá. Depois para cá. Tacteia os lençóis com gestos lentos como se a cama fosse um gato dócil, merecedor de afectos e afagos. Sente-os ainda mornos. Para além do calor, Alberto deixou também o seu cheiro habitual. Um cheiro levemente adocicado, de mel e cânfora. O cheiro que lhe habita o corpo é o dos rebuçados que, com parcimónia, chupa ao longo do dia. É, por isso, por causa dos rebuçados de mel e cânfora, que o cheiro de Alberto é assim, doce e antigo. Rogério fecha os olhos e recorda a primeira vez que entrou ali, naquela casa, naquele primeiro andar de corredores frescos e escuros, com um convite para jantar. Quis ser simpático. Trouxe uma garrafa de vinho barata e, para agradar a Alberto, trouxe também um pacotinho de rebuçados de funcho, muito caros, comprados numa mercearia fina da Baixa, recomendados por uma colega do escritório. Entregou-lho e pacotinho pardo e, com um sorriso, disse-lhe “É para, de vez em quando, mudares de sabor!”. Alberto amofinou-se primeiro, depois deitou o pacote no lixo. Por fim, com a calma habitual, explicou-lhe a diferença abissal (foi mesmo esta a expressão que utilizou), entre os conhecidos rebuçados do Dr. Bayer, que abominava, as degenerescências modernas, carregadinhas de vitamina C e xilitol, com sabores ultra frescos de laranja, morango, os abastardamentos caramelizados estrangeiros e os seus queridos rebuçados peitorais do Santo Onofre. Rematou pedindo desculpa e explicando que não gostava sequer de funcho, erva de sabor enjoativo e propriedades essencialmente diuréticas. Rogério, que agora está deitado na cama, recorda a expressão grave que nessa ocasião marcou o rosto de Alberto, abrindo-lhe sulcos e gretas. Desde então aprendeu a não lhe acicatar hábitos e manias. Deixa-os em paz. Aprendeu também a não mais estranhar os pequenos rebuçados cor de âmbar, do tal Santo Onofre, que ressumando dias antigos, sente quando beija Alberto.

2007/07/31

Sérgio Godinho

(o meu primeiro blogue chamou-se Alice no País dos Matraquilhos. O segundo Pano-Cru. O terceiro 2º Andar Direito. Se o tivesse à mão dava-lhe um beijo na boca.)

Morte

Morreu um. Depois morreu outro. E andam todos, numa roda-viva, a prestar-lhes singelas e patéticas homenagens. Como se a morte e a velhice fossem coisas más. Não são. Há conforto na velhice e alívio na morte.

Moka

Também gosto de olhar as montras das pastelarias. Há em mim uma inexplicável e antiga atracção pelas decorações dos bolos de aniversário. Agora estão na moda coberturas de maçapão coloridas. Detesto. Gosto de bolos decorados com cerejas cristalizadas, canudos de chocolate, creme moka, florzinhas de açúcar.

Sofia

(gosto de olhar para pessoas bonitas e felizes.)

PSD

O PSD é um partido patético. A gente olha para o Marques Mendes ao lado do Alberto João, mendigando influências, e sente nojo, repulsa. A gente olha para o Luis Filipe Menezes, passeando pela praia de Matosinhos, sob o tórrido sol de Agosto, na companhia dos boçais da jota local, e sente pena. A gente olha para o Aguiar Branco, muito despeitado, cabelinho à marialva, amuado por não lhe terem dado troco e sente vontade de dizer “ó senhor, deixe de se armar aos cágados e vá a uma barbearia cortar decentemente o cabelo!”. E pensar que há coisa de quinze dias estive tentada a inscrever-me como militante. Os disparates que uma mulher faz por um homem.

2007/07/30

Otília

Não se chama Otília. Mas podia chamar-se. Otília é um nome redondo. Cilíndrico. Curvo. Gordo. Otília-Lua. Otília-Terra. Otília-Sol. Otília-Laranja. Otília-Bola. Otília-Berlinde. Otília-Melancia. Cruzo-me com ela quando, no final do dia, vou buscar os meus filhos. A hora da minha chegada coincide com a sua hora de saída. Trabalha num dos apartamentos do prédio dos meus pais. Não sei em qual. Tem um sorriso tímido. Escondido. Quase infantil. Parece uma menina grande. Vem sempre afogueada, cheia de sacos. O saco do lixo. O saco dos papéis, dos cartões. O saco dos vidros. O saco das embalagens. Deposita-os nos contentores coloridos que estão perto da porta da entrada. É nova. É bonita. Tem um tom de pele muito escuro. Deve ser guineense. Ou portuguesa, filha de guineenses. Tem a cor doce e amarga do chocolate para culinária. A cor das barras de chocolate Belleville que uso para fazer a mousse. É como se o seu corpo fosse feito de açúcar, pasta de cacau, manteiga de cacau e leite em pó. Apesar do corpo imenso, usa sempre roupas claras e decotadas. Roupas que lhe deixam a descoberto as formas. O seu corpo faz-me lembrar as antigas deusas da fertilidade que ilustravam o meu manual de História Universal do 7º ano. O meu olhar fixa-se sempre em dois pontos. Nas mamas e nos pés. Tem uns pés bonitos, inesperadamente pequenos. Os dedos muito certinhos, gordos, as unhas de um cor-de-rosa clarinho. As mamas, pelo contrário, são enormes, imensas. Parecem não ter fim, como se fossem florestas virgens, escuras, de vegetação cerrada, molhada, feitas de sombras, de sequóias, trepadeiras, arbustos espinhosos, musgos e fetos. Imagino-a a dar de mamar ao filho que, provavelmente, ainda não tem. Imagino-a com um namorado magrinho, de bigode ralo e olhos dengosos. Imagino-o a olhar para aquele peito, cheio de vontade de nele se afundar e, para sempre, se perder.

2007/07/29

2007/07/27

Ken

Tamborilo os dedos. Sinal de tédio. Vou correr. Agora toda a gente corre. Está na moda. O nosso primeiro-ministro, que faz lembrar o ken da barbie, tal é a artificialidade que lhe mina o corpo, também corre. É um homem estranho. Sobretudo, estranho. Parece feito de celulóide. Tento imaginá-lo na retrete ou a ter um orgasmo ou a chorar num funeral e não consigo.

Terra

«Ama-se um corpo como o êxtase de um terror paralítico. Ou como orientação ao impossível que não está lá. Com raiva desespero de quem já não pode mais e não sabe o quê. Como avidez insuportável não de o ter tido na mão, porque o podemos ter nela, sofregamente, boca seios o volume quente harmonioso da anca e tudo esmagar até à fúria, ter o que aí se procura e que é o que lá está, mas não o que está atrás disso e é justamente o que se procura e se não sabe o que é nem jamais poderemos atingir.»Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra
(Não é fácil viver dentro de um corpo morto.)

2007/07/26

Cécile

A Cécile, atirando para a sombra a comissária Benita Ferrero Waldner, colheu os louros da libertação das enfermeiras búlgaras. Eu mandava-a, sem demora, para a Colômbia para negociar com as FARC.

Pensão Imperial (2)

Não é fácil encontrar uma mulher cujo rosto não lembramos. Mesmo que seja a mulher que amamos. Adriano procurava Amélia. Sentia que era capaz de a encontrar pelo cheiro. Um cheiro estranho, bom, mas de coisas desconhecidas. Cheiro de chuva, talvez. A caminho da pensão imperial, no metro, nos cafés, nas ruas, andava sempre com o nariz no ar. Farejava como um cão de caça. Aqui e ali. Só lhe chegavam outros cheiros. Perfumes enjoativos. Gotas de suor cobrindo corpos cansados. O cheiro a ranço que, logo pela manhã, escapava do quarto da D. Alzirinha e se espalhava por toda a pensão, até pela praça. Nada nem ninguém cheirava a chuva. Teria Amélia perdido o seu cheiro? Nesse caso, pensava Adriano, nada mais lhe restaria para a encontrar. Lembrava-se da sua roupa. Dos acessórios que usava. De tudo o que é efémero e se confunde. Não se lembrava porém nem das mãos nem do rosto de Amélia. Tentava e não conseguia. À noite, antes de adormecer, fechava os olhos. Fixava-se num pormenor. Na boca. Ou nos olhos. A partir daí tentava construir-lhe um rosto. Raramente o conseguia fazer.

Medo

A montanha pariu um rato. O artigo do medo do Manuel Alegre tem honras de primeira página, direito a análise e comentários prolongados. O artigo não diz nada de novo nem de interessante. A gente já conhece aquela conversa de trás para a frente. Mas há quem, catapultando um artigo que nada diz, já se organize em abaixos-assinados, passeatas, manifestações para defender a democracia, a liberdade, a herança de Abril. É o caso do Jerónimo de Sousa, do Carvalho da Silva do camarada Saramago, gente que devia lavar a boca com lixívia antes de falar de liberdade.

2007/07/25

Kiarostami


Caril de caranguejo

Associo o passeio de ontem, por precipícios de betão, a uma memória antiga. De tão distante e inicial, não sei se é sonho ou realidade. Tenho quatro anos. Estou numa cozinha. Abro a porta do frigorífico, da geleira, como se dizia no país das planícies infinitas, dos bichos, grandes e pequenos, das cidades cor-de-rosa batidas pelo mar, das lagartas leitosas crescendo por baixo da minha pele. Procuro o boião azul celeste onde a minha mãe guarda o leite condensado. Está numa das prateleiras da porta. Abro a embalagem. Enfio o dedo no líquido fresco, de consistência grossa, a fazer lembrar um caramelo branco. Meto-o na boca. É um instante de prazer que se esgota rapidamente. O prazer, seja ele qual for, tem mesmo que ser efémero. Volto a guardar a embalagem no frio. Reparo então que, ali ao lado, em cima de uma mesa, está uma travessa com caril. Não é caril de frango. Nem de peixe. Nem sequer de vegetais. É caril de caranguejo. Por isso, passados tantos anos, o recordo. A estranheza que me causa tal caril resulta de os caranguejos cozinhados serem muito pequenos, daqueles que encontramos imóveis nas rochas da praia e se esgueiram, velozes, por grutas e fendas mal pressentem um movimento ou uma sombra. O que há de comum entre os telhados tristes de ontem, o leite condensado e os caranguejos anões de Lourenço Marques? Não sei. Calhando nesse dia distante, em que olhei os caranguejos pequeninos do caril da minha mãe, o tempo também estava assim. Um calor pesado, a fazer curvar os corpos, a empurrar-nos os olhos para o chão. Um céu, cinzento, ameaçando com trovões e relâmpagos.

Mauser TV

Ontem, não sei se por causa do calor e da chusma de insectos que o verão sempre traz à cidade, só consegui respirar no telhado do prédio dos meus pais. Não sei como lá fui dar. E, no entanto, foram as minhas mãos que, no elevador, marcaram o décimo andar. Foram os meus pés que subiram as escadas de sol ladeadas pelos vasos da D. Fernanda. Foram os meus braços que empurraram a porta que separa o interior do exterior. Foram os meus olhos que observaram as placas de zinco que cobrem os telhados e também o cinzento do céu a anunciar trovões e relâmpagos. Foram os meus ouvidos que escutaram os ruídos distantes vindos do mundo lá em baixo. Os carros e o resto. Os gritos das famílias ciganas nos prédios do bairro social. Foram as minhas pernas que treparam os muros e me levaram para perto das chaminés e das antenas parabólicas. Grandes como cogumelos venenosos gigantes. Com letras cor de laranja desenhadas. Mauser TV. (Muitas vezes, sinto as veias estranguladas, entupidas de lixo. Há moscas varejeiras que vivem dentro de mim, alimentando-se da impudicícia que por cá há. Voam até acima e falam-me ao ouvido. Dizem-me sempre o mesmo.)

2007/07/24

AKP

Há uma coisa boa em se ser frígida. Mas não vou explicar qual é.

(O que eu queria mesmo era escrever sobre a vitória do AKP na Turquia. O José Manuel Fernandes, porém, já disse tudo o que havia a dizer sobre o assunto.)

2007/07/23

Monção


Corpo (2)

Vou para a casa de banho dos meus filhos. Abro a torneira. Dispo-me. Em cima da bancada, um copo amarelo com as escovas de dentes do Whinny e do Mogli, um quadro que pintei para o quarto do João, mas que nunca pendurei, mil e um cremes, Klorane, Lâncome, Mustela, uma caixa de toalhetes. Olho-me novamente no espelho. Aquela que ali está, do outro lado, sou eu. Preferia que não fosse, mas sou. Um metro e meio de altura. Cinquenta quilos de carne, ossos, pele, cartilagens, órgãos, músculos, vísceras, líquidos. Cabelo preto, comprido, liso, à força de tanto o esticar. Alguns cabelos brancos, que não vejo. Olhos escuros. Um nariz grande, redondo. Uma pele de merda, cheia de poros abertos, pontos negros, vermelhidões. Umas mamas cada vez mais pequenas, cada vez mais caídas, como se fossem flores murchas dentro de uma jarra. Olho para a mancha castanha enorme na coxa esquerda, uma mancha estranha, irregular, que tem o recorte do mapa da Inglaterra. Onde ficará a Cornualha no mapa que tenho delineado no corpo? Sempre quis conhecer a Cornualha, as praias verdes e cinzentas, ventosas, o mar furioso, agreste, escuro. Só a minha irmã é capaz de perceber este desejo de conhecer a Cornualha. Tenho as pernas cobertas de cicatrizes. Estico os braços, vejo as minhas mãos pequenas, rodo-as para cima, em direcção do tecto. Vejo, no meu pulso direito, as marcas, quase invisíveis, de dois cortes. Ninguém dá por elas, ninguém as vê, é como se não existissem. Mas eu sei que estão lá e nunca as esqueço. Nunca as esqueço. É este o meu corpo. Tomai-o em nome de Deus. Às vezes, tenho vontade de o abandonar para sempre.

Corpo (1)

Acordo. Abro os olhos. Na mesa de cabeceira, dois livros, um deles nunca o lerei, uma revista, um copo de água vazio, o caroço do damasco farinhento que comi antes de adormecer, a minha aliança pousada em cima do despertador. Olho para o despertador. Marca sete horas. Na verdade, ainda não são sete horas. Adianto sempre o relógio um quarto de hora. São seis horas e quarenta e cinco minutos. Fico deitada na cama, naquela dormência própria do despertar, a olhar para o relógio. Deixo-me ficar até que passem quinze minutos, até que o relógio marque sete horas e quinze minutos. Esses minutos, que marcam a diferença entre a hora que realmente é e aquela que o despertador me mostra, alongam-se, esticam-se, prolongam-se, demoram muito tempo a passar. É como se dentro de cada minuto houvesse mais segundos, não sessenta, mas cem, duzentos, trezentos, segundos dentro de cada minuto. Todos os dias este ritual se repete. Fico parada a olhar para os números, direitos, levemente inclinados para a direita, feitos de tracinhos verdes, à espera que passem: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze. É um jogo, um jogo pateta, que gosto de jogar. Quando o despertador me mostra o número quinze, levanto-me. Sento-me na cama. Olho para o espelho; vejo os meus olhos inchados, a pele do rosto gordurosa, o cabelo despenteado, num desalinho. Assustadora, sinto-me assustadora. Sou especialmente feia quando acordo, o meu nariz parece maior quando desperto. Não gosto da imagem que o espelho me devolve. Levanto-me. Há um silêncio absoluto nesta casa. É o silêncio dos espaços amplos e vazios, das manhãs claras, dos sons calados, das fotografias antigas, amarelecidas, esquecidas dentro de gavetas de madeira carunchosa, com cheiro de cera e óleo de cedro. Apenas se houve, no rádio, baixinho, a voz da locutora da TSF.

2007/07/21

The Strokes

2007/07/20

General Tito

Durante o julgamento a Maria Odete chorou sempre. Os juízes a inquirirem as testemunhas e ela a fungar, a soluçar, a soltar gemidos prolongados que pareciam guinchos de ratos. Nas alegações finais, enquanto um dos advogados falava, começou a bater com as mãos no peito. Um despropósito, um exagero, parecia uma mulher cigana, não a esposa de um general. O juiz interrompeu a audiência e mandou-a sair. Ela olhou-o ofendida. Sr. Doutor, eu saio, mas não calo o amor que tenho ao meu marido!, disse ela. Mais valia estar calada. Nunca foi uma mulher muito inteligente. Ainda hoje me pergunto como consegui tirar o curso de enfermagem. Quando a conheci vivia num lar de freiras, na Rua da Sociedade Farmacêutica.

Eu ia buscá-la aos domingos para a matiné do cinema Condes. Nesses dias vestia sempre a farda e a Maria Odete usava um vestido rodado, de um verde profundo. Era um verde-musgo que me fazia lembrar os bosques de castanheiros da índia que ficavam por trás da casa dos meus pais. Com aquele vestido a Maria Odete ficava quase, quase, bonita. Tenho saudades dessas tardes mansas de cinema no Condes. Na audiência, quando o procurador a chamou a depor, ela jurou a pés juntos que não sabia de nada. Vinte anos a viver comigo e que não sabia nada, insistiu ela. Fez-se um silêncio na sala de audiências. Um silêncio de túmulo, prolongado que parecia não ter fim. Ninguém acreditou nela. O Procurador, como um cão esfaimado, raivoso, começou a questionar a Maria Odete e a pobre, encolhida, a responder-lhe, senhor doutor isto, senhor doutor aquilo, a desvendar-lhe a nossa intimidade, a explicar-lhe que eu não admitia poucas vergonhas lá em casa, que era um homem de respeito, muito conservador, um verdadeiro militar. Cada um tinha a sua casa de banho e à noite a casa mergulhava na mais completa escuridão. Toda a gente pensou que ela estava a mentir. Mas a Maria Odete não é capaz de mentir. A mentira exige inteligência e habilidade e ela é burra, burra que nem uma porta. Coitada. É uma boa mulher, a Maria Odete, limpa, boa cozinheira e muito obediente na cama. Por isso a escolhi. No dia da leitura da sentença, ficou sentada mesmo atrás de mim. Trazia um vestido verde-musgo. Eu lembrei-me outra vez dos bosques de castanheiros da índia que ficavam atrás da casa dos meus pais.

(O Público lembra hoje a extraordinária história da generala Teresinha ou do general Tito. Não sei como lhe chamar. Morreu na miséria e só numa casa forrada com placas de zinco.)

Castração

Com esse cabelo preto deves ter um bom grelo. Lambia-to todo! Ouvi isto às 9 da manhã, numa das ruas dos meus dias. Dito, quase aos berros, por um gordo, de bigode farto, fato escuro e a Bola debaixo do braço. Tentei fugir-lhe, mas, no semáforo, o gordo voltou a abordar-me. Acho absolutamente justificado o meu desprezo pelos homens em geral. Com excepção do meu filho, que tem a pilinha mais linda do mundo, deviam ser castrados. De forma dolorosa, se possível.

Anita


2007/07/19

Honte

Há duas coisas que me embaraçam frequentemente: uma é expelir ventosidades mal cheirosas no elevador antes de algum vizinho entrar, outra é dar erros gramaticais e de ortografia.

Ensaio sobre a parolice (5)

A parola genuína vai ao cinema com o parolo genuíno para ver os filmes do Van Damme. Os filmes preferidos da parola encoberta são aquelas imbecilidades insuportáveis, tipo “Chocolate”, com a Juliette Binoche. O marido da parola genuína veste-se de fato de treino durante o fim–de-semana. A parola encoberta exige que o marido, durante o fim de semana, use camisinhas às riscas, calça vincada de sarja, creme ou azul-escuro. A parola genuína não tem educação. Não completou sequer o ensino básico. A parola encoberta estudou. É quase sempre licenciada. Por vezes, tem uma pós-graduação ou um curso de especialização, tirado numa universidade privada qualquer. Algumas parolas encobertas têm mesmo mestrados e doutoramentos feitos em Badajoz. Olé. A parola genuína acha que a Zara e a Mango são boas marcas de roupa. A parola encoberta sonha trocar as lojas dos centros comerciais pelas lojas de marca da Avenida da Liberdade. A parola genuína come de boca aberta, arrota e mastiga com vigor. A parola encoberta come direitinha, como se tivesse sido empalada, e limpa os beicinhos com a ponta do guardanapo de papel que coloca no colo. O sonho da parola genuína é ser uma parola encoberta. O sonho da parola encoberta é ser igual à Bárbara Guimarães.

Ensaio sobre a parolice (4)

A parola genuína gostava de ter um carro qualquer (se pudesse, escolheria um Opel Tigra) para não ter de andar de comboio e de camioneta. A parola encoberta tem um Volkswagen Polo, que paga às prestações, mas sonha ter um Audi A2 ou A3. A parola genuína, por falta de alternativa, tem os filhos nas piores escolas públicas. A parola encoberta faz do cu três bicos para ter os filhos num colégio particular qualquer desconhecido. Gostava mesmo era de os ter no São João de Brito ou no Manuel Bernardes. A parola genuína sonha em deixar de passar o mês de Agosto nos parques de campismo da Costa da Caparica. Quer ir para Quarteira ou para Armação de Pêra. A parola encoberta quer trocar o apartamento arrendado, à quinzena, em Albufeira pelos resorts de Punta Cana ou Varadero. A parola genuína foi uma vez, numa excursão, ver a neve na Serra da Estrela. A parola encoberta vai todos os anos, com o marido e os filhos, fazer férias de neve à Serra Nevada e a Andorra. A sopeira genuína fala da Quinta das Celebridades e das telenovelas da TVI. A parola encoberta vê exactamente os mesmos programas (neste ponto são iguais, nada as distingue).

2007/07/18

Ensaio sobre a parolice (3)

A parola genuína lê a TV Guia, a Maria, a Mariana, a Ana, a TV Setedias. Já a parola encoberta lê a Caras, a Vogue e a Blue Living. A parola genuína, pura e simplesmente, não lê livros. Nunca entrou numa livraria. Nem quer. A parola encoberta lê livros do Paulo Coelho, da Margarida Rebelo Pinto, do Nicholas Sparks. Já leu, evidentemente, o Código Da Vinci, o Equador e o Codex não sei das quantas. Ficou satisfeita consigo própria por ter sido capaz de ler livros com tantas páginas. Entre toda a porcaria que lê, apenas se salvam, com alguma boa vontade, os cansativos, sempre iguais, romances da Isabel Allende. A parola genuína assume as suas banhas. Está a borrifar-se para a celulite e para as estrias. A parola encoberta quer ser linda. Besunta, pela manhã e à noite, o corpo com cremes anti-estrias e anti-celulite, caríssimos, esverdeados da Vichy e da Clarins. Gasta rios de dinheiro com produtos de perfumaria e de maquilhagem. Fez nuances para ficar com uns reflexos louros no cabelo. A parola genuína compra na Feira do Relógio, no Lidl, no Minipreço. A parola encoberta faz um ar de nojo quando se fala no Lidl. Diz que prefere fazer as suas compras nos supermercados do El Corte Inglês ou do Pingo Doce. O sonho da parola genuína é sair do Catujal, dos Unhos ou de Camarate e ir viver para um apartamento de quatro assoalhadas na Quinta da Piedade. O sonho da parola encoberta é ir viver para o Parque das Nações ou para o centro de Lisboa.

Ensaio sobre a parolice (2)

Depois, por muito que me custe, tenho que admitir que, por enquanto, as mulheres são mais parolas do que os homens. São. Não vale a pena negar. Está-lhes, está-nos, no sangue. No entanto, o número de espécimes masculinos parolos tem vindo a aumentar a um ritmo estonteante, fulgurante, preocupante. Cada vez há mais parolos. Daqueles que aparecem nas revistas cor-de-rosa, tipo Nuno Eiró, que participam nos concursos da TVI e da SIC, daqueles que se preocupam, obstinadamente, com a imagem, que usam gel na cabecinha oca, que abusam dos perfumes, que vão ao solário, que vão aos cabeleireiros da moda para ficarem com um ar despenteado, informal. Fazem cristas. Usam óculos escuros enormes. Parecem umas moscas varejeiras. Porém, apesar deste avanço, em matéria de parolice, as mulheres continuam a ganhar aos pontos. Adiante. Grosso modo, há duas categorias de parolas. A parola genuína e a parola encoberta. A parola genuína é o que é. A parola encoberta é aquela que, sendo parola, vive na ilusão de que o não é. Acha-se até uma mulher moderna, com um quê de sofisticação. Escusado será dizer que prefiro, de longe, a parola genuína à parola encoberta. Eu explico porquê.

Ensaio sobre a parolice (1)

Abordo o assunto da parolice. É matéria importante. Devia preocupar-nos enquanto nação, uma vez que, mais coisa menos coisa, somos um país de parolos e parolas. É uma espécie de flagelo nacional. Até as nossas crianças aprendem a ser precocemente parolas. O sonho de qualquer criança é fazer um casting e ser vedeta numa das telenovelas da TVI. As meninas com 11 ou 12 anos querem ser iguais à Britney Spears. Vêem os Morangos com Açúcar. Vêem todas as outras telenovelas da TVI e da SIC. Pintam as unhas com produtos baratos comprados em lojas chinesas. Fazem madeixas no cabelo. Vão passear para os centros comerciais, com mini-saias curtas, que escondem peidinhas virgens, cobertas de triângulos de penugem. Usam telemóveis. Vestem-se, muitas delas, como se fossem umas putas. Há tempos vi uma miúda que não devia ter mais de dez anos. Vestia uma t-shirt mínima, que lhe deixava a descoberto o umbigo e os ombros. A t-shirt tinha escrita uma frase qualquer que não recordo. Só sei que uma das palavras estampadas na t-shirt era “sexy”. Eu olhei para aquela miúda e imaginei-a a perder a virgindade aos doze anos. Uma miúda destas, que passa a infância, a ver as telenovelas e a sonhar ser igual à Luciana Abreu, a beata mais atarracada do mundo, está perdida. Irremediavelmente perdida. Quando crescer vai conseguir alcançar um feito inultrapassável: ser ainda mais parola do que a sua mãe.

Faustino Manso

Compreendam as razões pelas quais me desgosta o José Eduardo Agualusa. Esqueçam a estrutura narrativa confusa, as personagens levemente pretensiosas, as referências literárias forçadas. Tudo isso se perdoa e se esquece. Outros dislates, porém, não consigo esquecer. Primeiro chama velhas às canções do Jacques Brel. Segundo, utiliza a palavra defecar e defecadores. Acho que isto diz tudo. Agora que é muito giro, repito, lá isso é.

Mishima


2007/07/17

Tebaldo

Durante três horas o homem roncou. O bravo Tebaldo a agonizar no palco e ele ao meu lado a dormir profundamente, prolongando o ronco até ao insuportável, acordando volta e meia, engasgado, para dar uma tossidela ou duas, cof-cof, depois voltando ao seu sono ruidoso de homem velho. Durante três horas o homem roncou. As pessoas da fila da frente voltaram-se indignadas. A mulher, do outro lado, beliscou-o várias vezes. Do balcão chegou mesmo um chiu feroz. Mas nada incomodou o grande roncador. No intervalo, explicaram-me que é psiquiatra, uma sumidade na sua área. Parece que é um espectador assíduo. Vai, com frequência, a concertos de música clássica, a espectáculos de teatro e ópera. Ressona alarvemente em todos. Um fio de baba escorrendo-lhe da boca. Desejei ardentemente que o bravo Tebaldo, tão bonito, saltasse do palco e que, com um golpe certeiro, lhe enterrasse a lâmina na carne, calando-o para sempre. Mas nada. Nem Tebaldo, nem Mercúrio, nem o sonso do Romeu, se mexeram. Uns palermas. Durante três horas o homem roncou. Quando o espectáculo terminou acordou sobressaltado. Depois levantou-se e, com alarido, aplaudiu. Até gritou um bravo. Como é bom ir ao teatro.

Etiópia

Na Etiópia, país distante de gente esguia, 34 adversários do primeiro-ministro Zenawi, foram condenados a prisão perpétua. Há coisa de dez anos, um casal goês esteve, durante alguns dias, em casa dos meus pais. Ela chamava-se Belmira, pintava os lábios de vermelho escuro e tinha uma gargalhada fácil. Não me recordo do nome do marido. Era um homem titubeante, franzino, frágil. Eram afáveis. À despedida abraçaram-nos como se nos conhecessem há muitos anos. A minha mãe, tão portuguesa, estrangulada pelo abraço da D. Belmira, olhava-me de viés, como que a dizer ai filha, que exagero, salva-me desta mulher. Trabalhavam ambos nas Nações Unidas. Viviam em Addis-Abeba. Falavam, com orgulho, da sua vida, da sua cidade de areia. Eu escutava-os com atenção e inveja. Penso muitas vezes neles.

2007/07/16

PSD (2)

Percebo, agora, que, em sonhos, estive à beira de cumprir um desejo antigo de infância: casar com um médico. Sou filha de duas enfermeiras. Passei a infância e a juventude a ouvir falar no Dr. Lucas, cirurgião em São José e no Dr. Sá Couto, pediatra na Estefânia. Herdei, pois, das minhas mães o deslumbre bacoco pelos médicos. Mas contará o Luis Filipe Menezes como médico? Tenho dúvidas.

PSD

No rescaldo das eleições sonhei que era amante do Luis Filipe Menezes. Sou uma mulher muito politizada.

2007/07/15

Chico Buarque

Tenho muitas vezes vontade de morrer, assim devararinho, disse o meu amor.

2007/07/14

Fausto


2007/07/13

Mata-Bicho

Antes de adormecer penso em nomes. Nomes para livros, nomes para filhos, nomes para filhas, nomes para crónicas, nomes para contos. Há um certo masoquismo nesta tarefa de encontrar nomes para filhos que já não me nascerão, títulos para enxames de palavras que nunca escreverei. Encontro, sempre encontrei, alívio na dor. Se tivesse outra filha chamava-lhe Rosa. Se tivesse outro filho Gaspar. Se escrevesse um conto, uma história, qualquer coisa, usaria uma prosa açucarada e chamava-lhe “Mata-Bicho”.

Desabafo matinal

Se há coisa que me amofina são pessoas que lêem para depois mostrar que leram. Os livros feitos medalhas que enterramos nas nossas carnes. Pois que fique assente: também já li os clássicos russos.

2007/07/12

Mamma Roma

(Ontem dormi com a Anna Magnani. É triste ser-se mãe sem nunca se chegar a ser mulher.)

Quelimane

Todas as famílias têm segredos. A minha família é pródiga em histórias, incertezas, meias verdades, omissões, em calar a dor. Olho para os meus irmãos. Não vivo longe deles, sem as vozes dos filhos deles chamando-me tia. Um dia partiremos para Quelimane. Lá encontraremos o homem que engoliu o mar e, na sombra de uma árvore frondosa, enroscada numa capulana garrida, a menina que escutava canções do Roberto Carlos.

2007/07/11

Ferrugem (início)

A boca ficou a saber-me a ferrugem, disse Laura enquanto se vestia. Depois abriu a janela e cuspiu. Olhou as árvores do quintal. A nespereira estava carregada de frutos podres e, perto do muro, um limoeiro oferecia-se a quem passava na rua. Laura puxou a saliva e cuspiu outra vez antes de fechar a janela. O silêncio espalhava-se pelo quarto, tão denso e baço que parecia poder cortar-se às fatias. Virou-se para o espelho e começou a escovar os cabelos. Tinha-os longos, muito lisos e brilhantes. Sabes, o sangue é que costuma saber a ferrugem, continuou sem esperar resposta. Por cima da cómoda um gato de loiça olhava-a com olhos moles de preguiça. Só ele parecia escutar as palavras de Laura. A mulher apanhou o cabelo e prendeu-o com um elástico. Tirou da mala um desodorizante. Isso geralmente sabe-me a ervas frescas esmagadas, disse enquanto vaporizava as axilas com um cheiro mentolado. Olhou em redor à procura dos sapatos. Descobriu um por baixo do reposteiro e outro aninhado por baixo da cama, entre sacos de plásticos e bolas de cotão. Calçou-se. Os pés denunciavam-na sempre. Mais do que a voz ou a forma quadrangular do tronco. Por mais que pintasse as unhas, por mais que amaciasse a pele com cremes e óleos, tinha pés ossudos, pés de homem. O professor do 4º direito, para a arreliar, quando a ouvia queixar-se da masculinidade de tais membros, dizia-lhe que ela tinha pés de deus grego, pés de Hércules, de Jasão, de argonauta, de Ulisses, uns pés iguaizinhos aos de Cristo na cruz. Ria-se o professor e quando ria abria muito a boca e mostrava a glote (?) que tinha a forma perfeita de um sino. Laura não achava graça. Se pudesse entraparia os pés como as chinesinhas de antigamente. Ainda por cima calçava o 44. Era uma chatice para arranjar sandálias de salto alto.

Lichtenstein

( O Roy Lichtenstein não pintou só loiras.)

Anátema

Fui ao teatro. Fiquei sentada ao lado do vocalista dos Moonspell. O suor dele cheira a poejo.

2007/07/10

Uganda

Esta noite sonhei com o Uganda. Sonho já esboroado e distante. Na clareira de uma floresta, duas meninas correm. Devem ter dez ou doze anos. Vestem uma espécie de uniforme. Camisas brancas, desfraldadas, e saias azuis, pregueadas. Têm o cabelo entrançado. São bonitas e felizes como todas as meninas que conheço. Ouvem-se cigarras, outros barulhos de Verão. As meninas correm em liberdade. Oiço o eco das suas gargalhadas pequenas. De repente, a expressão dos seus rostos altera-se. O pânico e o medo tomam conta dos seus corpos. Fogem do que não se vislumbra. Fogem de sombras que se escondem entre as árvores que limitam a clareira. Sombras que têm a forma de homens velhos e gangrenados.

(Como explico este sonho? A Dra. D., em cujo divã nunca me deitei, com certeza, teria para ele uma interpretação de cariz sexual. O meu medo do sexo. Eu sou uma das meninas. As sombras que espreitam atrás das árvores representam o meu pai. Eu tenho medo do sexo porque no fundo, bem lá no fundo, tenho medo dos homens, os quais, de uma forma ou doutra, associo sempre à figura paterna. Sei lá. A semana passada, num final de tarde, entre um scone e uma meia de leite, li uma reportagem num suplemento de domingo que encontrei esquecido numa mesa de café. Falava das bolsas de castidade que o governo do Uganda atribui às meninas que recusam ser escravas sexuais e optam por se manter virgens até ao casamento. Acho que sonhei com as meninas do Uganda porque a miséria dos outros me conforta sempre. Dá-me a precisa dimensão da pequenez dos meus padecimentos. Mas esta explicação, simples e assexuada, a Dra. D. não aceitaria.)

2007/07/09

IC 19

Um homem novo conhece um homem mais velho. Tem um corpo seco e esguio. As suas mãos e os seus braços são grandes. Tão grandes que parecem poder estrangular o mundo. Tornam-se amantes. A primeira vez que dormem juntos, o homem mais velho confessa que é casado, pai de três rapazes adolescentes. Também conta que vive, com a mulher e os filhos, longe da cidade, numa moradia, em Sintra. Tenho uma piscina grande e dois setter irlandeses, diz com satisfação. Fala pausadamente. Afirma que nunca deixará a sua mulher. Explica que a ama, que a quer, que ainda a deseja. Mente. O homem mais velho sabe que a mentira é eficaz para se criar uma verdade. O homem novo não responde. Pede apenas que o abrace. Quer sentir os braços de gigante à volta do corpo. Continuam a encontrar-se, sempre ao entardecer, quando os seus corpos deixam de ter sombra. O homem novo decide vender a sua casa no centro da cidade. Uma casa feita de luz que acolhe os ruídos dos pássaros e os murmúrios do rio. Para estar perto do homem mais velho, compra um apartamento em Queluz. Um quarto estreito. Uma cozinha pequena de azulejos azuis com electrodomésticos Bosch.Uma sala com uma janela rectangular que dá para uma rua triste, inclinada, que desemboca numa rotunda. Ao fundo, vê-se a IC 19. Agora, todos os dias, o homem mais velho, antes de voltar à sua moradia, à sua mulher, aos seus três rapazes, aos seus setter irlandeses, passa por aquela rua. Nela estaciona o seu Audi cinzento. Sobe até ao 4º direito e, por breves momentos, com brusquidão, entra naquele outro homem que, por uma migalha do seu amor, prescindiu de viver.

Noite

Nunca aqui escrevi sobre o primo Renato, goês delicado, de infindável ternura. Nem sobre o Cristo falante que, numa tarde de mornidão, mandou o tio Rosário gastar o dinheiro da casa no jogo. Também nunca escrevi sobre a noite vista do terraço, o fio de palmeiras, indicando o caminho para Rachol, onde mil morcegos habitam as profundezas do claustro, matilhas de cães vadios roendo a escuridão, o pequeno arbusto de tulsi, com um pau de incenso ardendo em sinal de respeito. Durante a noite os deuses habitavam o quintal. Comiam chicus e limas. Brincavam com os lagartos e os esquilos. Escondiam as garrafas de vinagre e de feni entre as ervas altas. Só para arreliar a tia Maria.

2007/07/06

Hockney

Pool with Two Figures, 1971

Tango

Noite fora, na televisão, enquanto os outros dormem, deparo com um filme que sempre me suscitou curiosidade. Foi um dos primeiros filmes que a tia Dé viu depois da revolução. Vejo o Marlon Brando. Velho. Com o olhar toldado. Como se estivesse louco. Vejo a Maria Schneider. Cheia de caracóis. O cabelo macio. Feito de lã. Ou de bocadinhos de nuvem. Reparo nos seus seios duros, espetados, que assomam no decote em v da camisola de malha lilás. O filme corre sem interesse. Às tantas, deparo com a tal cena do pacote de manteiga. Sempre ouvi falar desta cena. Pensei que fosse erótica. Ou sensual. Enganei-me. É uma cena dolorosa. A Maria Schneider chora. O Marlon Brando grita-lhe ao ouvido. Fala-lhe de Liberdade e da Sagrada Família enquanto a cobre. Apago a televisão. O aparelho agoniza. Emite um gemido de ruídos pequeninos e electrizantes. Deixo os dois amantes dentro do televisor, tomando-se um ao outro como se fossem animais. É uma merda de filme. Não vale um caracol. Sento-me no chão da varanda. Fumo um cigarro. Descubro ao meu lado o tubinho para fazer bolas de sabão de um dos meus filho. Inalo o fumo. Depois expiro para dentro das bolas de sabão. Em vez da habitual transparência, as bolas ficam turvas e pesadas. Aguentam durante breves segundos. Depois, puf, explodem em fiozinhos de fumo. Volto a pensar nas tais palavras. Liberdade e Sagrada Família. São incompatíveis. Há que optar por uma ou por outra.

2007/07/05

Silêncio

O que aborrece nos tiques autoritários do regime é o silêncio. Não o silêncio dos jornalistas, dos colunistas, dos políticos, dos analistas. Esses falam. Mesmo os engajados, que preferiam olhar para o lado, se sentem na obrigação de falar. O que chateia é o silêncio das pessoas.

Lobo Mau

Enquanto pedia à D. Beatriz, que é baixa, gorda, de cabelos cor de cenoura e olhos verdes, muito pintados, a fazer-me lembrar guerreiros neozelandeses, um maço de cigarros e o jornal, uma rajada de vento enfunou-me a saia de pregas, despenteou-me o cabelo, levantando-o no ar, como se fosse um corpo único, e fez abanar, com indelicada brusquidão, a estrutura do quiosque. Estremeci. Não gosto de vento. Nada mesmo. Ao ouvir os tremores das placas, para esconder o pavor que tenho a ventanias, disse-lhe "Ó D. Beatriz, qualquer dia isto ainda lhe cai tudo em cima!". Ela olhou-me e não me respondeu. Estranhei. Guardei o troco devagar, à espera da resposta. Ela nada. Olhos muito parados. Vítreos. Um olhar imbecil a traçar-lhe o rosto. Como se tivesse fumado uma ganza ou estivesse na fase terminal de uma bebedeira. Não me disse nada. Vim-me embora. Deixei-a no seu pagode chinês, de olhos parados, entre jornais, revistas, isqueiros, fascículos, lenços de papel, pastilhas e meias. Muda. Calada. Com o tal olhar imbecil colado ao rosto. Atravessei a rua e lembrei-me, sei lá porquê, de uma certa noite num certo parque de campismo, perdido no norte de Espanha. Ventava furiosamente. Ao ponto de dobrar a estrutura da tenda, trazendo junto de mim, deitada, imóvel, petrificada, os fustigadores tecidos oleados. Senti pânico. O medo a entrar-me pelos orifícios todos do corpo, tomando conta das pernas, dos braços, do tronco, da cabeça, de tudo o que há lá dentro. Passei a noite em claro. Exausta. Sem conseguir dormir. Ao meu lado, o meu marido, que nessa altura ainda não era meu marido, ressonou a noite toda. Ruidosamente. Fazendo um coro sinistro com os assobios furiosos do vento. Odiei-os. A ambos. Ao vento, pela fúria, pelo medo que me provocava. Ao meu então namorado pela indiferença que tinha ao meu medo. Mas isso já foi há muito tempo. Há muitos anos. A verdade é que continuo a ter medo do vento. É um medo infantil de se ter. Porventura, digo eu, terá a ver com as histórias que ouvi em miúda. Porquinho, porquinho, deixa-me entrar! Pelas barbichas do meu focinho que não hei-de deixar! Então, o lobo mau soprou, bufou, gritou. E a casa foi pelos ares.

2007/07/04

Casas



Os Arcade Fire fazem-me lembrar, não sei porquê, os quadros do Hopper. Melhor, as casas que o E. Hopper pintou.

Festival

Dia de quietude e silêncio. Depois dos violinos e das concertinas. Estou de ressaca. Mal consigo abrir os olhos.

2007/07/03

Pantagruel

Não gosto de dar sugestões de leituras. Muito menos de partilhar livros. Ao contrário dos que alardeiam, com gritos de indignação, não me queixo de que se lê pouco e mal em Portugal. Na verdade, estou-me nas tintas para o que os outros gostam de ler. Mas detestaria que os meus livros, os que leio e me passam a habitar, resvalassem para as mãos de toda a gente. Tornar-se-iam banais. Deixariam de ser objectos únicos que se amam com as mãos. Tenho um amor táctil pelos livros. Mas, pronto, para demonstrar boa vontade, faço uma sugestão: Pantagruel, de Rabelais. É divertido, desbragado, mordaz, inventivo, muito fácil de ler, apesar de escrito há quinhentos anos. Há uma edição muito bonita da Frenesi com ilustrações do Gustave Doré.
(Obviamente, interrompo a cadeia. Era o que mais faltava dar confiança a esta gente.)

Acra

Quatro dezenas de chefes de estado africanos estão reunidos na nona cimeira da União Africana. Que fazem eles? Procuram soluções para a crise no Darfur? Discutem a situação do Zimbabwe? Não. Os tais chefes de estado estão, desde domingo, a debater a viabilidade dos planos megalómanos do líbio Khadafi e do zimbabweano Mugabe de fazer nascer uma administração conjunta de todo o continente africano. Querem os ditos assim criar uma espécie de país único, uma só Africa. Ora a gente olha para os países deles, Líbia e Zimbabwe, e pede a Deus que nunca, mas nunca, tal sonho se realize. Imagine-se o que bichos peçonhentos, hienas, kizumbas, como Khadafi e Mugabe poderiam fazer numa África unida. Uma pessoa lê estas notícias e não sabe se há-de rir ou chorar.

2007/07/02

The Arcade Fire

(coisa nunca vista: vou a um festival de verão)

Lebres

Passam velozes. Como se fossem gazelas ou lebres. Solitários ou bafejando em manada. Touros, bisontes, bois almiscarados. Olho-os. Um rapaz negro passa, correndo por cima do muro que nos separa do rio. Movimenta-se na perfeição. O seu corpo de ébano é uma máquina eficaz. Os homens têm elegância a correr. Quando correm, em passadas largas, e pesadas, quase sinto o rio tremer. Já as mulheres correm mal. A maior parte não sabe correr. Terão certamente corrido em meninas. Desaprenderam, depois. Metem os pés para fora. Enrijecem os braços, não sabendo o que lhes fazer. Abanam a cabecinha como se fossem aqueles cães articulados que, entre almofadas de renda, se colocavam na parte de trás dos automóveis. Bufam como vacas. Quando são gordas, abanam as mamas, as carnes flácidas, transpirando uma gordura quente e amarela que se espalha por todo o lado. Um homem gordo corre como um touro, um rinoceronte, um elefante até. Uma mulher gorda corre como uma perua imensa, soltando gorgolejos insuportáveis. Glu-glu-glu-glu. Por vezes, tento imitar os homens-lebre. Acelero um pouco o ritmo. Corro mais depressa. Aumento a passada. Dou balanço. Desisto pouco depois. Corro o risco de morrer junto ao rio. Nunca serei uma lebre. Sou uma tartaruga. Vagarosa. Velha. Tenho mais de cem anos. Corro com passos pequeninos. Mas corro muito. Olarila. E chego sempre à meta.

(ando desconfiada que sou uma pessoa amarga.)