2007/10/07

Cabaças

As mulheres que passam a gravidez a afagar os ventres dilatados como cabaças deviam ser açoitadas. Como se pode amar o que não se conhece?

Insónia

Não sei como aconteceu. Tal nunca me tinha acontecido. Senti o carro bater em qualquer coisa. Num corpo, talvez. Uma espécie de gemido entrou pelas frestas do vidro e segredou-me qualquer coisa ao ouvido. Fiquei à espera. Quando saí do carro percebi que havia uma poça de sangue no alcatrão. O sangue era espesso. Imaginei-o de uma mornidão confortável. Olhei em redor e para cima. Os prédios dormiam sossegados e o vento da madrugada restolhava nas árvores feias do bairro. Olhei em redor e não vi ninguém. Voltei para casa e adormeci. Dormi como há muito não dormia. Não sonhei com caminhos de poeira. Nem com compotas de amoras. Nem com o corpo que ficou na estrada de Sacavém.

2007/10/06

Ornatos Violeta - Chaga

(a falta que me fazem os Ornatos Violeta.)

Wittgenstein

Não me tenho em grande consideração. Tal deve-se, em parte, ao facto de ser frígida. Ser frígida é como ser maneta ou perneta. Um aborrecimento. Por muito que uma pessoa encare com normalidade a deficiência que tem, sente sempre que lhe falta qualquer coisa. Todavia, há momentos em que a minha estima se descontrola e galopa, num trote desenfreado, estrada acima. Como, por exemplo, quando faço um bóbó de camarão decente, quando corro dez quilómetros ou quando percebo que não sei, nem quero saber, quem foi o Wittgenstein.

Deus

Ainda não percebi se o meu filho acredita em Deus. Ter um pai crente e uma mãe descrente, que disfarça, sem habilidade, a ausência de fé, não ajuda a assentar ideias sobre o assunto. Ando a ganhar coragem para chegar perto dele e, de chofre, como se fosse a coisa mais natural do mundo, lhe perguntar se acredita em Deus. Não sei que resposta me dará. Mas sei a pergunta que me fará (e tu, mãe? acreditas?).

2007/10/04

Judite


(Caravaggio, 1571-1610)

Gardel

Algerozes, peanha, sótão, Chelas, leques, charola, Benfica, rio, silêncio, bruma, gelosia, pagela, viço, discjoquei, bailis, canja, nardos, plátanos, faias, olmos, loendros, limoeiro, terrina, copos, cristal, Cláudia, Graça, Álvaro, Nuno, Cristiana.

(Os livros, os que interessam, sangram como gente. São farpas que se enterram na carne.)

Cuba

A embalagem do Cipralex faz-me lembrar Cuba. O Minipreço, com as suas prateleiras tristes, que pingam desconsolo, também.

Pontuação

Não sou capaz de utilizar pontos de exclamação. Cada vez que escrevo uma frase e a faço terminar num ponto de exclamação, fico a olhar para ela. Ela também me olha. Muitas vezes, penso “Se esta frase terminar num ponto de exclamação nunca poderá ser dita por mim”. Por isso, quase sempre, acabo por substituir o ponto de exclamação pelo ponto final. De vez em quando, releio o texto e, em determinada frase, arrisco utilizar, de novo, o ponto de exclamação. Esta batalha entre pontos - o final e o de exclamação - dura, por vezes, muito tempo. Quase sempre sai vitorioso o ponto final que, triunfante, retira toda a emoção que determinada frase poderia ou quereria transmitir.

Há, no entanto, quem use e abuse do ponto de exclamação. As pessoas querem mostrar vidas cheias de emoções, boas e más, e por isso usam e abusam do ponto de exclamação. Mas quantas destas pessoas não terão vidas desinteressantes tal qual a minha? Há até quem utilize mais do que um ponto de exclamação na mesma frase. Isso enerva-me tanto! (agora tinha mesmo de utilizar um ponto de exclamação. É que não me enerva muito. Enerva-me muitíssimo). Para exprimir surpresa, excitação, seja lá o que for, basta utilizar um ponto de exclamação. Quando leio uma frase que termina numa sequência, por vezes, interminável, de pontos de exclamação, penso logo em gente histérica, a quem, se pudesse, administraria doses cavalares de sedativos e tranquilizantes. Ou, então, esbofetearia até sangrarem o entusiasmo pelas fissuras da pele. Se eu fosse um ponto, um sinal, seria, definitivamente, as reticências. Tal como as reticências nas frases, também eu estou sempre a marcar uma interrupção na vida, sem coragem para lhe completar o sentido.

2007/10/03

Aretha Franklin

Nojo

Uma colega perguntou-me, há tempos, se conhecia um bom dentista para miúdos. Dei-lhe indicação do médico que trata da boca dos meus filhos. Ela marcou uma consulta para a filha de cinco anos. Hoje, em conversa, perto da máquina dos cafés, já não sei a que propósito, voltei a gabar o médico. Avisei-a que não lhe estranhasse os modos, era um homem muito feminino, uma borboleta delicada, com infinita paciência para as lamechices das criancinhas. A minha colega quase que se engasgou com o capucino de fingimento que a máquina lhe depositara nas mãos. Perguntou-me se o médico era homossexual. Expliquei-lhe que não sabia, mas que já o encontrara no teatro duas vezes com um homem que parecia ser o seu companheiro. A minha colega soltou um espontâneo “ai, que nojo!”, depois disse que ia desmarcar a consulta. Tive pena da minha colega. Deve ser profundamente triste ser-se assim.

Eduardo Sá

Nunca poria os meus filhos nas mãos de um psicólogo que usa um penteado patético para esconder a careca.

2007/10/01

Hana-bi

Mamã, o que é uma vagina?, pergunta de rajada, sem me olhar, enquanto traga com sofreguidão os pedaços que farinheira que encontra no prato de cozido. É um outro nome que se dá ao pipi das mulheres, digo-lhe, consciente do ridículo da minha resposta. Enfio uma colher de sopa de espinafres na boca da estrela da tarde. Que sorri, maravilhada, ao ouvir a palavra pipi. Ele dá uma gargalhada. Daquelas que só ele sabe dar. Uma gargalhada que parece fogo de artifício a rebentar. Da boca, saem-lhe fogos de benguela, petardos e foguetes. Que nome tão estúpido!, diz, cansado de tanto rir. Eu, mãe e mulher, consciente do valor primordial da vagina, defensora da superioridade vaginal, riposto. Digo-lhe que pénis é um nome tão estúpido como vagina. Confiante, continuo a alimentar a estrela da tarde. Ele parece não me ouvir. Continua interessado no prato de cozido. Já comeu toda a farinheira. Dedica-se, agora, a procurar os pedaços de chouriço. Olha-me com olhos de desafio. Por fim, pergunta-me o que é um pénis.

(Era tão querido quando era pequenino. Agora, está à beira de se tornar num adolescente imbecil.)

Menezes

Há uma arrogância muito grande na elite social-democrata que agora vaticina o descalabro do PSD. No Luis Filipe Menezes vêem um monstro populista. Nos seus apoiantes uma matilha esfaimada prestes a enterrar o dente no primeiro naco de carne que encontrarem. Nas bases, que elegeram democraticamente um líder, uns tolos ignorantes e dementes. A coisa não andará muito longe da verdade. É certo. Porém, o que não se suporta é que os que agora apregoam loas ao Marques Mendes sejam os mesmos que nunca o apoiaram abertamente. Concederam-lhe o apoio como quem dá uma esmola. Trataram-no com displicência, como um mal menor. Petulantes, convenceram-se de que bastaria um pequeno esforço, uma pequena indicação, um breve sinal, para que o povo laranja, obediente, reelegesse o candidato por eles escolhido. Enganaram-se. Bem-feito.

2007/09/30

Prédio

O prédio onde os meus pais moram, a pouco e pouco, começa a ser um prédio de viúvos e viúvas. A vizinha do 6º direito disfarça a solidão com copinhos de licor de café. O coronel do 1º direito esperou que a mulher morresse, tanto que demorou, para casar com uma loira de rugas fundas e voz nasalada. O Sr. Ribeiro passa os dias a caminho do supermercado. Vejo-o chegar, carregado de sacos. A D. Lúcia sempre que me apanha no elevador gaba-me a beleza do marido. Era um belo homem, era um grande homem, diz ela, enquanto eu baixo os olhos. O marido dela era muito pequeno, quase anão, mirrado, encolhido como um roedor. A D. Odete, que fez arranjos de costura a vida toda, educa os netos à medida que as filhas se divorciam e arranjam novos companheiros. Entristeço ao vê-los. Sou mais filha que mãe.

Dilema

De duas uma: ou deixo de fumar ou deixo de correr. O problema é que gosto de correr e gosto de fumar. A vida está cheia de decisões difíceis.

2007/09/28

Danado

(Esta noite sonhei com o Lobo Antunes. Ele olhava-me com merecido desprezo.)

2007/09/27

Chuinga

No quiosque da estação peço uma pastilha. Apetece-me uma chuinga. É assim que a minha mãe chamava, e continua a chamar, às pastilhas elásticas. Quando era pequena ficava a olhar-lhe para a boca e a pensar na estranheza da palavra que de lá fugia. Chuinga? Só mais tarde percebi a origem da palavra que, volta e meia, bailava na boca da minha mãe. Chewing-gum. Olho para as prateleiras das pastilhas. Uma panóplia de sabores. Ananás, azul explosivo, coca-cola, maçã, algodão doce, melão, morango, laranja, amora e por aí fora. Assusto-me com tanta variedade. Reparo, então, num daqueles boiões que antigamente se usavam nas mercearias para guardar rebuçados e caramelos. Está cheio de pastilhas, melhor dizendo, de chuingas maçadoras, de forma rectangular. Têm um rótulo pouco colorido, pouco apelativo. Estão definitivamente remetidas ao esquecimento. Ora, eu não gosto de discriminações. E nestas coisas sou sempre pelas minorias. Mesmo quando a minoria é imbecil, torpe, composta pelos proscritos, pela escumalha. É um defeito meu. Peço, por isso, à senhora do quiosque uma pastilha daquele frasco. Uma pastilha diferente da maioria alegre e explosiva de babulicious, gorilas e boomers. Desembrulho-a e meto-a à boca. Primeiro, estranho-lhe o sabor. Tem um sabor antigo, levemente decadente, que identifico depois. Sabe a circo, à feira popular, a Setúbal, aos gelados de cone que um velho espanhol, de olhar lascivo, vendia nos portões do ciclo preparatório.

Los Hermanos - Cara estranho

2007/09/26

Umbigo

O umbigo é uma coisa muito feia. Acumula bocadinhos de cotão, cria crostas pequeninas e quando a gente enterra nele um dedo traz um cheiro sujo, levemente azedo. Nem os mais atentos conseguem mantê-lo limpo e asseado. É a cova que esconde o nosso corpo. É um ponto que se esquece. Faz lembrar a cratera de um vulcão. É uma costura. Um remate. Um ponto final cheio de interrogações.

Aninhas (lembrete)

Aninhas aplicava-se no engano, na dissimulação, no engodo, na traição. Não praticava o adultério com leviandade ou despropósito. Pelo contrário. Esforçava-se. Nunca desperdiçava oportunidades. Estava sempre atenta e disponível. Empenhava-se em iludir o marido como outras mulheres se empenham em ser boas esposas, boas mães, boas cozinheiras, boas profissionais. Quanto mais conhecia outros homens mais gostava do seu.

PSD

Há duas coisas que me atormentam no PSD: a primeira é o corte de cabelo dos seus barões, a segunda é a mediocridade dos seus candidatos a líder. Eu, confesso, até gostava de me empenhar na vida partidária, discutir, vestir a camisola, militar, participar no debate político, assumir, de uma vez por todas, depois de tantos anos de vagabundagem, que sou social-democrata. Não consigo. Acanho-me, envergonho-me. Nos dias que correm é-me mais fácil assumir a algidez do que a simpatia partidária.

2007/09/24

Barso Re

(gosto desta canção.)

Goa

Não sei explicar a noite. Não gosto da noite. Só as noites em Goa me trouxeram sossego e felicidade. Assim que o meu pai adormecia, corria a buscar uma cerveja ao frigorífico e fugia para o terraço. Arrastava uma cadeira para a beirinha do estendal, afastava as roupas tesas que a Caetaninha deixava estendidas pela manhã e acendia um cigarro. Esse era o instante preciso em que a noite se transformava. Tornava-se mais intensa, ficava com corpo de mulher e eu encostava-me nela. Passei as noites ali, no terraço, olhando a linha da estrada que leva ao Seminário de Rachol. Escutava os ruídos: pássaros, matilhas de cães passando nas várzeas, o vento afagando as folhas do tamarindo, chupando-lhe o azedo dos frutos, o sacolejar da cerveja dentro da garrafa, os deuses brincando junto do tulsi, a ventoinha no quarto do meu pai. Pelas frestas do telhado chegava-me, por vezes, o ressonar da tia Maria e os soluços do Cristo falante. Chora o Cristo falante noites inteiras porque tem saudades do tio Rosário. Eu sei que tem. À noite, o mundo reduzia-se aos seus sons e na sua penumbra só eu existia.

Murakami

A rapariga diz para o amigo que o seu escritor preferido é o Murakami. Fez, por causa dele, um curso de escrita criativa durante o Verão. Depois de o frequentar, diz, sente-se apta a escrever um romance e a tornar-se escritora. Eu ouço-a em silêncio e esbofeteio-a em silêncio. Sou muito discreta. Uso as luvas de silicone que trago sempre dentro de uma bolsinha juntamente com um penso higiénico. Nunca se sabe quando nos pode aparecer o período menstrual. Também nunca se sabe quando podemos dar de caras com um novo candidato a romancista. O melhor é prevenir e andar sempre com um par de luvas de silicone. É para não deixar rasto. Impressões digitais e coisas de género. Volto a sovar a rapariga que gosta do Murakami. Também lhe arranco vários tufos de cabelo. E vazo-lhe uma vista com o salto dos sapatos novos de camurça.

Praça do Comércio

Amanheci na Praça do Comércio. Uma praça fechada ao trânsito, por ser domingo, vazia de gente e de vida, com um palco triste lá ao canto, um balão de ar quente murcho e um carrinho de pipocas. Não há nada como prometer imbecilidades durante as campanhas eleitorais.

2007/09/22

Kate Bush - Wuthering Heights

(quando chega o Outono volto ao Monte dos Vendavais, livro com cheiro de urze.)

Anis

Mudei de mesa convencida de que o cheiro que me entrava pelas narinas, intenso e insuportavelmente doce, provinha da velha que, sentada na mesa de trás, bebia um galão pingado e comia um pastel de nata. As senhoras velhas têm muitas vezes cheiros assim, doces e intensos. Tomam banho em perfumes e águas-de-colónia das lojas chinesas. Usam roupas que cheiram a estrelas de anis. Sentada na outra ponta do café preparei-me para retomar a leitura do jornal. Preciso de ler pela manhã o jornal em sossego, sem distracções visuais ou olfactivas. Passado pouco tempo o cheiro voltou. Olhei em redor. Funguei. Farejei. Abri e fechei as minhas narinas caninas. Inalei o ar. Insultei baixinho a pobre senhora que, na outra ponta, continuava a comer o seu pastel de nata com lentidão. Desejei que lhe caísse a dentadura para dentro do copo de leite. Uma vingança por largar aquele cheiro nauseabundo de loja dos trezentos pelo café, um cheiro que começava a entrar-me no corpo, que já se colara à minha roupa e ao meu cabelo. Quando cheguei à página da necrologia percebi que era o jornal que largava aquele cheiro. Era. Fui à tabacaria reclamar. Exigi que me trocassem o jornal, que não o conseguia ler, que era uma vergonha venderem um jornal com um cheiro daqueles. A menina da tabacaria, muito recta, escutou-me em silêncio, mostrando-me as suas magníficas unhas de gel com brilhantes incrustados. Depois disse que não se trocavam jornais. Se fosse uma revista, ainda fechava os olhos, agora um jornal não podia aceitar. Peguei no jornal com as pontas dos dedos e sai da loja. Deitei-o fora no primeiro caixote do lixo que encontrei. Entrei no elevador que dá acesso ao parque de estacionamento para fugir daquele cheiro. Antes das portas se fecharem entrou a velha senhora que minutos antes eu fuzilara com o olhar no café. Sorriu-me, depois deu uma bufa ruidosa e saiu no menos dois.

2007/09/21

Nadia Comaneci (1)


Nadia Comaneci

O ginásio é antigo, de madeiras escuras, tectos altos com estuque trabalhado. Há retratos dos primeiros presidentes da colectividade pendurados nas paredes. Senhores gordos, com bigodes retorcidos e cabelo puxado com brilhantina. Em Cuba, imagino, deve ainda haver muitos ginásios como este, com cheiro de óleo de cedro. Só que, em vez de praças cheias de autocarros, hão-de dar para praças com jacarandás e rosas-da-china e mulheres velhas que vivem em prédios descarnados e usam medalhas com la virgen de la caridad. Ao fundo, um palco, guardado por reposteiros pesados de veludo cor-de-vinho, acumula o pó das memórias e dos mortos. Um grupo de meninos ensaia saltos do trampolim sobre o plinto. Outro grupo faz exercícios de tapete. Pinos. Rodas. Cambalhotas. Quatro janelas largas deixam entrar a luz serôdia do final do dia. É uma luz amarela que ameaça com trovoadas. Reparo nas argolas e nas barras paralelas, nos colchões já velhos, cansados de tantos saltos, tantas acrobacias. A minha filha, aninhada aos meus pés, calça as sapatilhas em silêncio. Não se amedronta por ser a sua primeira aula. Tem corpo de ginasta. É pequena e esguia. Depois de receber as indicações do professor avança para o fim da fila e espera a sua vez. Espanta-me o desembaraço dos meus filhos. Donde lhes vem a confiança e a calma para enfrentar o mundo e os outros? Duas meninas mais velhas falam com ela. Uma pega-a ao colo. A minha filha sorri. Quando chega a sua vez faz três cambalhotas seguidas. É o único exercício que sabe fazer. Depois arrebita o rabo e levanta os braços. Tal como lhe ensinei. Parece uma Nadia Comaneci pequenina, cabriolando no ginásio cubano que fica no Poço do Bispo.

(no y de hoje uma reportagem sobre as power mun, ou lá como é que lhes chamam, as mães bloguers, artesãs, informadas, licenciadas, pós-graduadas, citadinas, que gostam de tricotar cachecóis e de cozer pão. Odeio-as. O que não é de estranhar porque eu desprezo quase toda a gente. Com excepção da Rosa e da Ana, acho-as todos uma parolas, muito dadas ao retro, ao vintage, ao feltro, aos sabonetes ach brito, à amamentação de longa duração e a concertos de música alternativa para bebés.)

Pavão

Só os ingénuos acreditaram na reacção do pavão. As mãos postas em concha, o olhar para cima, como que a pedir perdão por ter marcado um golo em Alvalade. O C. Ronaldo está-se nas tintas para o Sporting e para os sportinguistas. Não o censuro. Eu também estou. Agora é claro como a água que aquela atitude foi encenada, foi pensada, foi desejada, foi estudada. Ficou bem nas primeiras páginas dos jornais. Vê-se logo que o tipo quis imitar o Rui Costa, quando, jogador do Fiorentina, chorou por ter marcado um golo ao Benfica. Só que o Rui Costa é o Rui Costa, nele tudo é genuíno e verdadeiro. Desde as malas Louis Vuitton até às lágrimas e às palavras. Os olhos dele são meigos e pingam o amor que tem pelo Benfica. Eu gosto do Rui Costa.

(também gosto do Petit, mas por razões completamente diferentes.)

2007/09/19

Radiohead - Knives Out

Sócrates

Continuo a encontrar ratazanas do rio quando a noite cai. São sempre três e estão sempre no mesmo local. Já me lembrei que, se calhar, são sempre as mesmas ratazanas que, num gesto de cortesia, me querem cumprimentar. Se tivesse coragem aproximava-me das terríveis bichas e dizia-lhes assim “Em vez de me atazanarem os treinos ide para a zona ocidental da cidade. Lá atentai num homem de plástico, que parece quase humano, de boa figura, que corre sempre com dois seguranças. Quando o virdes, mordei-lhe as canelas com fúria, tasquinhai-lhe as carnes macias, que é para ver se perde aquele sorriso de tolo e deixa de fazer corridinhas para aparecer nos jornais.”

Kaczynski

Acreditem ou não, eu sei que parece anedota, mas a Polónia obrigou a UE a desistir do dia europeu contra a pena de morte. Assim se mede a força de um país. Continuará a existir um dia europeu para os vizinhos (é no dia 29 de Maio) mas não um dia europeu contra a pena de morte. Grandes gémeos Kaczynski. Assim é que é.

Kouchner

Andam, numa roda-viva, a tentar ler na entrevista de Kouchner, MNE da França, aquilo que o homem não disse. Ele não apelou à guerra contra o Irão, nem defendeu uma atitude belicista, de assumida agressividade unilateral, inspirada na política americana. Limitou-se a alertar para o perigo concreto que representa o Irão (só os tontos, muito tontos, desvalorizam esse facto) e num plano abstracto, a colocar a hipótese da guerra. A guerra ou a intervenção militar, como alguns preferem chamar-lhe, é uma hipótese que deve ser equacionada como qualquer outra. Mas, enfim, a esquerda estava à espreita. Era necessário, quanto antes, crucificar Kouchner, esse malandro traidor que cedeu aos encantos da direita populista (é como a esquerda, a chique e a moribunda, chama ao governo francês).

2007/09/18

Amanhecer (2)

Não sou capaz de me olhar nas vitrinas das lojas, nem nas vidraças das entradas dos prédios. Invejo cada pessoa que passa. Invejo a mulher de cabelos compridos, bem penteada, bem maquilhada, com cheiro de luxo. Desce a rua e leva pela mão uma menina feia, que usa sapatos azuis de fivela. Invejo também o homem, de fato escuro, que, ainda com o cabelo molhado, sai de um prédio que tem uma porta de ferro. Deve ser advogado, gestor, auditor, director de qualquer coisa. Também tem cara de dentista. Cruzo-me com duas mulheres de bata branca e lenços brancos. Falam alegremente. As palavras fogem-lhes, felizes, da boca. Entram num restaurante. Devem ser cozinheiras. Também gostava de trabalhar com as mãos. Não são umas mãos muito hábeis, as minhas, mas gostava que desempenhassem outra tarefa que não bater as teclas de um computador. Podia ser cozinheira. Eu gostava. Ou jardineira. Ou mulher-a-dias, usar um avental branco, trabalhar num apartamento de luxo para um casal de sucesso. Trabalhar nas obras, colocar tijolo, cimento, estucar, ladrilhar, rebocar, pintar. Gostava de acabar o dia com o corpo fisicamente cansado e saber porquê. Continuo a andar. Sinto que é tarde. Tarde de mais. Esta frase – é tarde de mais – é fatalista, tão pouco bonita; é frase de folhetins, frase comum nos romances cor-de-rosa. Que se lixe. É o que sinto. Olho para o viaduto da Avenida da República. Por baixo das estruturas de betão cor-de-rosa, os carros, que vão para Entrecampos, passam apressados. Quem dali saltar tem uma morte santa, imediata, aparatosa, quiçá até com direito a uma notícia pequena nas páginas do Correio da Manhã ou do 24 Horas. Ao chegar à minha rua, no semáforo, cruzo-me com caras, rostos, traços que reconheço dos meus dias. São as pessoas que, como eu, apanham o comboio das nove e seis. Entro no meu edifício. Passo o cartão pela máquina. Aparece o meu nome, escrito em letras de luz vermelha. O torniquete abre-se. Entro.

Amanhecer (1)

Chego cedo à estação. Apanho o comboio das oito e cinquenta. Vem cheio. No Oriente, esvazia-se de gente. Sento-me perto da janela. A mulher, sentada à minha frente, dorme profundamente. Tem a cabeça encostada ao vidro. Da boca sai-lhe um bafo morno que embacia o vidro. As pernas dela tocam as minhas. Tem os dois pés em cima do degrauzinho que fica por baixo da janela. As colunas do comboio vomitam baixinho uma música de feira. É bonita, distante, fantasmagórica até. Lembra-me outros tempos. Parece o som de um realejo. Um carrossel, uma pista de carrinhos de choque, maçãs caramelizadas, algodão doce, uma máquina de ler a sina, o poço da morte, o comboio fantasma, pipocas, um palhaço com balões coloridos, outro que faz malabarismos com bolas amarelas e vermelhas. Vejo o rio cinzento, espelho de transparências e luz. Marvila. Chelas. O cemitério do Alto de São João assoma-se do alto de uma colina. Ciprestes e lápides brancas. Ao lado, erguem-se uns prédios amarelos, novos, altos, feios. Parecem feitos de papelão. Se chover muito, se vier aí uma tempestade, daquelas que uivam e ribombam, o papelão ensopar-se-á e os prédios tornar-se-ão numa papa mole, castanha, que desaguará nas águas e servirá de alimento às tainhas e às medusas brancas do rio. Não me apetece ir trabalhar. Também não me apetece continuar dentro do comboio. Saio na estação anterior. Quero andar. Sempre gostei de andar. O frio da manhã morde-me mansamente as carnes do rosto. Ando rapidamente. Penso. Questiono-me, também. Não me compreendo. Os gestos, os silêncios, o enfado, as omissões, a posição inadequada, fazem de mim um ser estranho, alguém que propositadamente se coloca à margem da vida e dos outros.

2007/09/17

Paris Texas

Notas Soltas

1) A Ana Sousa Dias apresenta no RCP, pelo final da tarde, um programa que se chama Janela Aberta. A Ana, que encontro por vezes no talho e na charcutaria da D. Rosa a pedir cento e cinquenta gramas de queijo fatiado, não tem jeitinho nenhum para apresentar programas generalistas de rádio. 2) O Luis Filipe Borges tem qualquer coisa de Pedro Abrunhosa. Tento imaginar como são os olhos do Abrunhosa. Também tento imaginar como será o cabelo do rapaz da boina. Desconfio que ou é careca ou sofre de problema capilar grave, tipo dermatite seborreica. 3) A Fátima Lopes escreveu o seu segundo romance. As montras da Bertrand estão cheias de pirâmides do seu livro. No comboio, já apanhei duas senhoras, quase febris, em estado de alienação, bebendo as suas palavras. Folgo em saber-nos um país de tantos e tão bons romancistas. 4) A RTP está, ao que parece, a fazer uma retrospectiva dos filmes do Nanni Moretti. Não avisaram ninguém. No sábado, ia tendo uma síncope cardíaca quando percebi que perdi meia hora de um dos seus primeiros filmes “Bianca”. Não se faz. 5) Fui à bola ver o Benfica. O Benfica ganhou e o Rui Costa é o melhor jogador do mundo. Só tenho pena de não ter provado uma sandes de coirato. 6) Consta que os Led Zeppelin vão voltar. Odeio-os. Insisto: são uma prova inquestionável da inferioridade dos homens. Não conheço uma única mulher que goste dos tipos. 7) A Paula Moura Pinheiro voltou de férias. É, de longe, a mulher mais gira da televisão portuguesa. Se fosse homem ou lésbica apaixonava-me perdidamente por ela. É linda.

2007/09/16

Desabafo

Há blogs chatos. Insuportavelmente chatos. São os blogs-masturbatórios. Não tenho nada contra a masturbação. Aliás, pratico-a, com regularidade e sofisticação, desde que me conheço. Sou uma grande defensora da masturbação. A sério. Mas uma pessoa deve masturbar-se com recato. Os blogs-masturbatórios são insuportáveis porque, para além do infundado onanismo que suscitam em quem os escreve - escrevo bem, sou culto(a), atento(a), emprego palavras difíceis, leio tanto, escuto tanto, vejo tanto -, querem dar nas vistas. Fazem lembrar aqueles exibicionistas que andam nus de gabardina nos corredores do metro. Volta e meia abrem o casaco e, com espavento, mostram-se. A gente olha e reolha. Fecha os olhos e torna a abri-los. Porém, apesar do aparato, só vê uma pila murchinha, triste e insignificante.

Outono

Sento-me junto da vitrina do café e observo. Naquela janela, entre dois vasos de gerânios, um velho muito velho come devagar uma laranja e atira, descarado, as cascas para a rua. Em jeito de provocação, lança a quem passa um sorriso trocista. Ali, uma mulher, que fala ao telemóvel, passeia um cão branco, atarracado, de orelhas pontiagudas. Agacha-se o bicho mesmo em frente da entrada de uma loja de utilidades domésticas. Deixa uma espiral de fezes mole no meio do passeio. A dona continua a falar ao telemóvel. O animal vai agora mais ligeiro. Nota-se pela maneira como corre. Trota como se fosse um cavalinho anão e orgulhoso. Como são burros os animais. Quase tanto como a maior parte dos homens. Acolá, uma mulher traz o corpo cansado. Os pés inchados enfiados nuns chinelos de corda. A criança que se aninha no seu colo atrasa-lhe o passo. A mulher quer andar mais depressa para apanhar o autocarro que vem apinhado de gente. Não consegue. Sentam-se as duas, mãe e filha, no banco da paragem. Ali ficam. A mulher descansa por breves instantes. Sabe-lhe bem aquela paragem no dia. A menina, de mil tranças, come um chocolate e atira o papel para o chão. Aquelas pessoas, as que estão do lado de lá do vidro, sem saber, fazem-me companhia.

(Caíram os primeiros dias outoniços. Trouxeram trovoadas e chuvas.)

2007/09/15

José

Estava triste, tão triste, com vontade de morrer, depois escutei-o e renasci. Ouvi-lo é, em mim, infinitamente mais eficaz do que tomar um victan ou um xanax.

A Morte Saiu à Rua

O peso dos dias

rotina: s. f., caminho já trilhado e sabido; hábito de fazer as mesmas coisas ou sempre da mesma maneira; fig., uso geral; prática constante; índole conservadora ou oposta ao progresso; aversão às inovações; norma estabelecida e fixada por escrito, existente em empresas e no funcionalismo público, que regula as relações departamentais e hierárquicas; fluxo de informação e actuações gerais a levar a cabo sempre que se apresenta determinada situação.
Pesa-me a rotina dos dias iguais. É como se os dias da minha vida tivessem sido produzidos em massa. Em fábricas assépticas, reluzentes. Todos com o mesmo peso, a mesma forma, o mesmo rótulo, as mesmas cores pardacentas. Inodoros, com um sabor indefinido, aguado. Pouco apetecíveis. Como uma chávena de chá morno. Não gosto de chá. Nada mesmo. Água quente sem sabor, sem cor, sem cheiro. Dias iguais. Sempre iguais. Iguais como os pacotes de leite, de farinha, de açúcar, que se enfileiram, aprumados, nas prateleiras dos supermercados. Pesam-me os silêncios, as ausências. Às vezes, tenho a sensação que dentro do meu corpo habita um bicho voraz que se alimenta da minha tristeza. Uma espécie de tumor que cresce à medida que os dias passam iguais. E se um dia o bicho-tumor tomar conta de mim? E se um dia ele rebentar dentro de mim, espalhando, pelos meus órgãos, tecidos, artérias, pedaços putrefactos dos meus dias?

2007/09/14

O sabor da melancia

(é a minha fruta preferida.)

2007/09/13

Cimeira

O Ministério dos Negócios Estrangeiros anda preocupado com a cimeira UE-África. O primeiro-ministro inglês já avisou que não põe cá os pés se o presidente Mugabe vier. Faz bem. Este, por gostar de provocar as ocidentais democracias, quer vir. Os nossos diplomatas, para evitar embaraços, andam que nem umas baratas tontas a tentar convencer Angola e a África do Sul a congregar esforços para que, em substituição do presidente do Zimbabué, venha um qualquer ministro. Eduardo dos Santos, essa pérola negra, tão rara, tão polida, tão distinta, e Thabo Mbeki, já recusaram tal tarefa. Mugabe é um herói africano e os heróis nunca se afrontam. Eu leio e pasmo. Gostava de saber para que serve uma cimeira UE-África. Para que serve? Que propósitos se procuram alcançar? A dúvida não é só minha. Segundo o Público ainda não está definida a agenda e o conteúdo das discussões da dita cimeira. Dá a sensação que a presidência portuguesa faz finca-pé numa cimeira mas não sabe muito bem para que serve a mesma. Até ver só servirá para meia dúzia de ditadores africanos vir pingar o sangue dos seus povos nos copos de cristal dos banquetes que o estado português lhes servirá nos palácios da cidade. Entretanto, em Cabo-Verde a primeira universidade pública iniciou o segundo ano lectivo. Oferece mais de vinte cursos, grande parte de componente tecnológica. É uma boa notícia. A mim, que sou uma tonta, enche-me de esperança e alegria. É mais uma prova de que Cabo-Verde merece, tal como vem reclamando, uma parceria privilegiada com a UE. A presidência portuguesa, em vez de perder tempo a organizar cimeiras da treta com gente que não vale um chavo, devia trabalhar nesse sentido.

2007/09/12

Chico Buarque - Meu Caro Amigo

(a única coisa que me aborrece nesta canção é ele referir o nome da única mulher que foi sua, Marieta.)

Paris

Não demorou muito. A mana foi passar uns dias a Paris. Em vez de me trazer uma daquelas reproduções do louvre ou do museu d’orsey, muito deprimentes, que se encaixilham numa moldura barata e colocam por cima de uma mesinha com fotografias de família, trouxe-me duas ilustrações de Shiva. Numa das ilustrações Shiva está acompanhado por Ganesh e Kali, sua parceira preferida nos jogos sexuais (é o que diz num livro que consultei) e tem o tridente, o Ganges em forma de repuxo a nascer-lhe da cabeça, a pérfida serpente e vários falos de pedra à sua volta. Na glande dos ditos falos de pedra nascem flores cor-de-rosa. Parecem camélias. As ditas flores devem ter um significado qualquer importante. O esperma que representa o florescimento da vida. Qualquer disparate assim. Na outra ilustração, Shiva transfigura-se e assume a forma de um flautista jovem que, num bosque de um dourado verdejante, nos olha inocente e puro. Perguntei-lhe onde as encontrou, tão magnificas, tão coloridas, tão kitch. Explicou-me que, num dos seus passeios, por um qualquer bairro parisiense, tropeçou numa loja de místicos artefactos indianos e deu de caras com a família de divindades hindus. Olhei-a. Com espanto. Andei eu, por sugestão dela, no Martim Moniz, de saltos altos e meias de vidro, metida num lago de mijo e merda, para encontrar Shiva e ela, tão cosmopolita, tão cidadã do mundo, tão viajada, foi encontrá-lo num pacato bairro parisiense. É mesmo insolente. Insuportável.

2007/09/10

Nanni Moretti

Maria José

Esqueci-me de falar da Maria José e do seu assumido propósito de banir as lojas chinesas da Baixa. Não se esqueça a Maria José de também expulsar os africanos que param no largo de São Domingos, os mendigos que dormitam nas arcadas do Teatro Nacional e os drógados que pedincham na Rua Augusta. É preciso não deixar o trabalho pela metade e voltar a ter uma Baixa limpa, asseada, sorridente, ajuizada como qualquer mulher de bem.

Notas com bolor

1) No Expresso desta semana, a Clara Ferreira Alves, para além de dissertar sobre umas camisolas (?) feitas com a lã de umas cabrinhas que estão em vias de extinção, fala sobre o Rajastão. Remata com um daqueles lugares comuns que tanto aprecia: são poucos os sítios capazes de nos mudar e o Rajastão é um deles. Eu digo: bem aventurados os desgraçados que vivem na Brandoa e apanham o 49 para o Cacém. Bem aventurados os que só foram até Ayamonte comprar caramelos e galhetas espanhuelas. Bem aventurados os que sonham com uma viagem até Pipa, Porto-Galinhas, Cancun ou Varadero. Deles é o reino dos céus. Amem. 2) Consta que o governo português não receberá oficialmente o Dalai Lama, prémio Nobel da Paz. Em contrapartida, receberá, aquando da Cimeira EU-Africa o presidente do Zimbabué, o grande herói da luta anti-colonialista, o algoz que nos últimos anos se tem empenhado, perante a indiferença de quase todos, a destruir um país e um povo. Se eu fosse o Luis Amado fazia como a avestruz. Enfiava a cabeça na areia. Nunca mais de lá a tirava. 3) A Suiça andou entretida, antes do Verão, a discutir uma proposta que possibilitava o voto das crianças. Indignou-se meio mundo. Que as criancinhas não podem votar. Falta-lhes maturidade e discernimento. Não percebo por que não há-de votar o meu filho de nove anos e a sua trupe de ruidosos amigos se gente como o Cinha Jardim, o Cláudio Ramos e outros que tais o podem fazer.

Chefe Silva (3)

Para além de me avivar estas lembranças, o Chefe Silva é uma espécie de guardião de dias preciosos e distantes, dias em que nos maravilhávamos, sem saber, com o encanto das coisas simples. Um estufado de vaca era um estufado de vaca. Um bolo de leite era um bolo de leite. Uma sopa de peixe era uma sopa de peixe. Não havia artifícios ou engodos. São patéticas as revistas de culinária de hoje (que continuo a comprar por vício) e os nomes sofisticados que se utilizam. Queijo de cabra acamado em plataforma caramelizada de figos secos com espargos selvagens salteados. Trilogia de três chocolates com nougat de nozes e xarope de hortelã. Tudo tão pedante, tão insuportavelmente pedante. Os pratos de fusão, cheios de ervas italianas e frutos vermelhos, mirtilos, casis, framboesas, são um sinal evidente da vacuidade em que vivemos. É pelo sabor genuíno do peru recheado da tia Dé, pelo leveza do bolo pic-nic, tão doméstico nas nossas vidas, pela mousse de chocolate consistente que todas fazemos, pelas tardes frias de Inverno aquecidas pelo chá e pelos churros da minha mãe, por tantos outros sabores, por tantas outras lembranças, que este ano quase me senti tentada a ir à feira do livro.

Chefe Silva (2)

Uma vez, lembro-me agora, o meu irmão desafiou-me para fazer pastéis de nata. Ignorava, pobre aprendiz, a perícia de mãos que a massa folhada exige. Disse-lhe que sim e corremos a ver a receita nos livros do Chefe Silva. Passámos uma tarde na cozinha. Os pastéis ficaram comestíveis, mas com uma aparência distante da dos que se perfilam nas vitrinas das pastelarias. O meu irmão, porém, rejubilou com o nosso feito culinário. Obrigou toda a gente a provar os ditos e procurou conforto nos elogios forçados. Por fim, sorrindo, com uma solenidade que lhe é muito própria, que lhe está entranhada no corpo, rematou dizendo “Da próxima vez, vamos fazer bolas de Berlim!”. Nunca chegámos a fazê-las. Aliás, felizmente, nunca mais cozinhámos juntos. A cozinha, salvo honrosas excepções, como o Chefe Silva, é coisa para as mulheres. Fico enervada quando vejo homens na minha cozinha, quando me dão conselhos, quando opinam, faz assim, faz assado. A cozinha, mais do que delicadeza, ponderação, imaginação, exige esforço e os homens, é sabido, não estão para isso.

Chefe Silva (1)

Deixei há muito de ir à feira do livro. A feira deixou de ser a festa que era quando, na nossa meninice, trazíamos sacos cheios de livros da Enid Blyton e da Agatha Christie. Deixou há muito de ser a aventura que foi, durante a adolescência, quando roubava livrinhos das edições avante sobre a luta de classes na China de Deng ou sobre o Maio de 68. Depois, a idade aburguesou-me. Gosto de comprar livros, ainda que mais caros, em livrarias (apesar de Lisboa ser uma cidade de poucas e más livrarias). Por tudo isto, por preguiça sobretudo, deixei de ir à feira do livro. Este ano, porém, a minha irmã soube que em determinado dia o Chefe Silva estaria lá a autografar os seus livros. Ora, todas as mulheres da minha família reverenciam o Chefe Silva. O Chefe Silva faz parte das melhores memórias de minha infância. Passei tardes a folhear os volumes da teleculinária, apreciando os pudins, as gelatinas, as galantines, os estufados, os profiteroles, os biscoitos, os fritos de Natal. Menina ainda, de cabelo muito curto, suspirava com o bolo de noiva no número 29 do volume I. Um bolo em escada, coberto de glacé branco e florzinhas pequenas. Em cima, os noivos, de mãos dadas, tão bonitos, augúrio de felicidade. Passei outras tardes experimentando doces e compotas, licores, bolos e bolinhos, biscoitos.

2007/09/08

Annie Hall

Ontem, num dos muitos canais manhosos da Cabovisão, vi, de uma ponta à outra, um dos meus filmes preferidos: Annie Hall. Até aqui nada de estranho. Sou capaz de ver os mesmos filmes várias vezes. Assim como gosto de ler várias vezes os mesmos livros. Acontece que o filme estava dobrado em brasileiro. Ora, a minha obstinação pelo Brasil é notória e pública. No entanto, ouvir o Woody Allen, com voz de falsete, dizer “pôxa” em cada frase e a Diane Keaton, a maravilhosa Diane Keaton, com uma voz igual à das personagens dos filmes da Disney que são dobrados no Brasil, tipo a fada pequena e gorducha da Cinderela ou a empertigada Rainha das Flores da Alice no País das Maravilhas, é uma tortura. Não duvidem. É uma verdadeira tortura. No entanto, vá-se lá saber como e porquê, aguentei-a, estoicamente, até ao fim. Eu não ando bem. Decididamente não ando. É a loucura, a desfaçatez de espírito que, de mansinho, pé ante pé, se aproxima. Qualquer dia, ainda dou por mim, especada em frente do televisor, a ver um qualquer programa da Bárbara Guimarães. Credo. Acho que, mesmo louca, totalmente inerte e imbecil, não me sujeitaria a tamanho sofrimento.

2007/09/07

Chico Buarque - O Meu Amor

Cornichons

Ando viciada em cornichons. Como seis a sete por dia. É um vício deplorável. Vou ao frigorífico. Abro o frasco, bojudo e largo, comprado, baratíssimo, no lidl, enfio as mãos dentro do vinagre frio e escolho dois ou três pepinos anões. Coloco-os em cima da bancada. Olho-os. Tão pequenos. Sinto um ligeiro desconforto por comê-los. Acontece-me o mesmo com as cenouras bebés, as petingas, os jaquinzinhos e também com as ervilhas tortas. Não consigo evitar. Comer uma petinga é o mesmo que “comer” uma criança. Comer um pepino anão é o mesmo que “comer” um deficiente. Tais inquietações depressa passam. Uma vez ultrapassado o complexo de culpa, enfio os cornichons na boca. Um de cada vez. Gosto do sabor do vinagre. É um sabor excessivo, mas limpo. Sempre gostei. Em miúda, esgueirava-me para dentro da despensa, esticava-me e, assim, em bicos de pés, procurava a garrafa do vinagre na segunda prateleira. Quando a encontrava, entre os mil e um frascos de especiarias da minha mãe, mesmo ao lado da garrafa de azeite, certificava-me de que ninguém me via. Principalmente, a tia Dé, sempre tão atenta, capaz de armar um pé de vento se encontrasse a sua sobrinha mais velha, ajuizada e exemplar, a beber vinagre. Se não visse ninguém, enfiava o gargalo da garrafa na boca e bebia goles pequeninos. Sentia-me reconfortada com aquele excesso de sabor. Tenho uma explicação de cariz sexual para a minha adição a pepinos anões, mas abstenho-me de a enunciar.

Avante

Gostava de ir à Festa do Avante. Tenho atracção pelo grotesco.

Kacsinsky

Os irmãos Kacsinsky são sinistros. A gente olha para eles e imagina-os assassinos impiedosos, de cutelo nas mãos, esventrando corpos de rapazes jovens, de nádegas firmes. Ou então, vestidos de cabedal e pregos, sendo vergastados por uma dominadora de saltos altos e vagina pelada. Uma coisa é certa. Os gémeos polacos são homens complexados, de falos minúsculos. Só assim se compreende as questiúnculas que, de forma sistemática, têm levantado na União Europeia, e que funcionam como entrave à pretendida consolidação europeia. Agora, imagine-se, tiveram a ousadia de se opor à proposta de instituir simbolicamente um dia europeu contra a pena de morte. Os dias europeus valem o que valem. Nada. Mas, caramba, há um dia europeu dos vizinhos e um dia europeu para uma Internet segura. Porque não há-de haver um dia europeu contra a pena de morte? Eu acho que os gémeos polacos gostam de brincar ao faz de conta. Faz de conta que somos importantes. Alguém devia dar-lhes um valente pontapé no rabo e recambiá-los para a aldeia onde nasceram.

(E, depois, há quem tenha medo, medinho, da entrada da Turquia na União Europeia. Como se os países que cá estão fossem todos modelos de virtude democrata.)

2007/09/05

Vanessa da Mata/Ben Harper

(o que gosto desta canção.)

Livros

Em resposta, direi que sou incapaz de enunciar os livros que não mudaram a minha vida. Que interesse tem isso? São tantos. Quase todos. Sou capaz, porém, de enunciar alguns dos livros que mudaram a minha vida. São livros-cinzéis. Esculpiram o que sou: 1) Rosa, minha irmã Rosa, Alice Vieira; 2) O Diário, Anne Frank: 3) Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira; 4) Palomar, Italo Calvino; 5) Crime e Castigo, Dostoievski.

Anatomia de Grey

Acelero a rotina dos miúdos. Engrosso a voz. Tudo deitado. Rápido. Hoje a história é pequena e não há tempo para cantorias, nem para leitinhos, nem para conversas sobre isto e sobre aquilo. Eles estranham a minha pressa. A Dádá choraminga. Temo o pior. Dou-lhe um beijinho repenicado e prometo compensá-la com a história da sardinha Julieta. Ela acena a cabeça, aquiescendo. Respiro de alívio. Deito-me por fim em frente da televisão com o primeiro cigarro do dia na mão. Estou viciada na Anatomia de Grey. O mundo pode desabar que eu não perco um episódio. E tenho, admito, um fraquinho do Dr. Derek Sheperd. Tem ar de tudo menos de médico.

(A seguir, lá para a meia noite, passaram uma série sobre lésbicas. Parece que dá todos os dias. É a coisa mais deprimente e desinteressante que já vi. Uma catrefada de mulheres, todas boazonas, dadas às artes, claro está, lindas, magras e maquilhadas, soluçando traições, apregoando o desprezo dos malvados heterossexuais, vivendo entre elas, numa espécie de comuna de fufas contentinhas e orgulhosas por assumirem a sua orientação sexual. Não há pachorra. A série não é má. É péssima. Larguei logo um chorrilho de palavrões. Mais valia darem dois episódios da Anatomia de Grey.)

Madre Teresa

Por volta dos doze anos vi um documentário na televisão sobre a Madre Teresa e as Missionárias da Caridade. Ao vê-las percorrer as ruas da cidade-labirinto, tocando os moribundos, alimentando crianças, tratando dos que não têm nada nem ninguém, roendo a miséria da vida, chorei lágrimas sinceras de comoção. Nesse preciso instante decidi que quando crescesse havia de ser freira. Também eu queria dedicar a minha vida aos outros, levar-lhes alívio e alegria. Também eu queria alimentar, lavar, ajudar, ensinar, curar. Pareceu-me, naquela altura, que essa era a única maneira de viver a vida sem criar escaras. A minha vocação, porém, durou pouco tempo. Cedo percebi que nunca poderia ser freira. Era, e continuo a ser, de uma passividade absurda, incapaz de concretizar um projecto ou uma ideia. Depois, faltava-me um requisito essencial para o desempenho de tais funções: a fé. Não tenho fé. Nunca tive. E tenho pena de não a ter. É muito difícil viver sem fé. Vive-se com urgência e precipitação, com a inquieta sensação de desperdício da única oportunidade que temos para ser felizes. A fé faz falta. Por isso, volta e meia, procuro-a. Enfio a cabeça dentro do meu corpo e lanço um grito esganiçado lá para dentro. Ecoa a minha voz nos corredores das minhas pernas e dos meus braços, no salão do meu tronco, voa a minha voz até às clarabóias distantes por onde entram as sombras e a luz. Fico rouca de tanto chamar por ela. Ela, a fé, nunca me respondeu. Como se faz para ter fé? E como é possível ter fé num mundo tão amargo, de injustiça, frivolidade, sofrimento e miséria? Não consigo compreender. Não estranho, por isso, as dúvidas e inquietações que, durante 50 anos, a Madre Teresa sentiu. Difícil é ter fé. Falo de fé genuína, não da fé domingueira dos que abrem a boca para receber a hóstia sagrada e, depois, seguem vivendo regaladinhos e aliviados. Interessa-me pouco averiguar sobre se a fé da Madre Teresa era genuína ou não. Nem me interessa saber se aquilo que fez, durante a vida, foi por causa da fé. Só me interessa saber que o fez. E continuar a tê-la como exemplo.

2007/09/03

Tindersticks

Silêncio

Apetece-me o silêncio. Mas o silêncio é um bicho raro, em vias de extinção, não se encontra em sítio algum. Está fora de moda. O dia está cheio de ruído. Letras que copulam, furiosas, até formarem sílabas, sílabas que formam palavras, palavras que constroem espirais de frases, frases que alicerçam diálogos. Tamanho desperdício de palavras, escritas e faladas, desespera-me. As palavras são como a água. Como as jazidas de petróleo, urânio, carvão. Meios escassos não se desperdiçam. Sempre ouvi dizer. Gastamos tanto as palavras que elas correm o risco de perder o seu significado. É no silêncio e na ausência que as pessoas se encontram. Mas a noite também não traz silêncio. Vem com o frenesim dos pássaros nocturnos. Piam as aves em estranhas sinfonias, batem as asas, espalham o pó das árvores sobre o mundo. A noite vem com os murmúrios do desejo alheio. Quero-te. Abraça-me. Toca-me. Vem com o desaguar manso das lágrimas das mulheres traídas nas almofadas de poliéster. Vem com o barulho pesada das páginas que volto. Vem com o cri-cri dos grilos que habitam o jardim. Vem com os ruídos cansados das entranhas deste prédio. E com as gargalhadinhas lépidas das meninas dos anúncios de telemóveis que vivem nos sonhos dos homens. A noite é malvada. Má. Má. Má. Traz os ruídos dos sonhos. Os sonhos, os meus, com escadarias de musgo, corredores sombrios, palácios de papelão, cansam-me. Dão cabo de mim. Preciso, com a urgência tola dos tolos, de silêncio. Não o encontro.

(Voltei sem vontade de escrever. Os textos das últimas semanas são, quase todos, textos antigos, de outros diários, de outros cadernos, de outros blogs. Fica o desnecessário esclarecimento. Para que não se estranhe o silêncio quando ele, por fim, chegar.)

Mentol

Gosto de música. Oiço todo o tipo de música. Boa e má. Só não oiço música clássica. Mas já fiz um esforço para gostar. Quando andava na faculdade cheguei mesmo a ir a dois concertos na Gulbenkian, arrastada por um colega, redondo, ufano e pretensioso, que andava a tentar impressionar-me com os seus interesses intelectuais e elitistas. Se me conhecesse um bocadinho melhor, saberia que me impressionaria bem mais um convite para passar uma noite no Ritz Club, a dançar mornas e coladeras, ou se me tivesse oferecido um disco do Travadinha ou do Tito Paris. Durante o concerto, em vez de ficar quietinho na cadeira, como a imponência da música requeria, pôs-se a abanar a cabecinha e a bater os dedos gordos na cadeira para me dar a entender que conhecia bem a partitura. Ao terceiro convite tive que lhe dizer que não aguentaria outra investida ao mundo da música clássica. Expliquei-lhe que o problema era meu, que os meus ouvidos, infelizmente, eram incapazes de se deleitar com tais acordes. Que gostava de coisas banais e comezinhas. Ele não desistiu e, em alternativa, sabendo que eu gostava de cinema, convidou-me para ir ver o Imperdoável, do Clint Eastwood. Foi pior a emenda que o soneto. Antes de entrarmos para a sala, reconhecendo a sua gula, comprou um cartuxo de rebuçados de mentol. Quando nos sentámos, ofereceu-me um. Um mísero rebuçado. Depois, para meu espanto, comeu os outros todos de enfiada, fazendo um ruído ensurdecedor. Cada vez que comia um rebuçado, dava duas ou três chupadelas ruidosas, quase cavalares. Em seguida, utilizando todas as capacidades que os seus caninos lhe permitiam, trincava-os. Dilacerava-os, mastigava-os, deixando no ar um cheiro enjoativo a mentol. Quando o filme acabou, reparei que tinha a língua verde, coisa que me causou uma agonia imensa. Continuámos a ver-nos depois de terminar o curso. Ainda chegámos a almoçar algumas vezes. Ele, entretanto, tornara-se - na postura, no aspecto, na maneira com estava e como falava - num verdadeiro senhor doutor, coisa na qual eu não me tornara. Isso causava-lhe um certo incómodo. Aliás, lembro-me que, num desses almoços, teve a distinta lata de fazer um reparo à canadiana cinzenta, coçada, que eu levava vestida. Disse-me que já conhecia aquele casaco da faculdade e que o achava inadequado ao meu novo estatuto. Ele, pelo contrário, assumia, com empenho e alegria, o seu novo estatuto. Tinha um Alfa-Romeu preto e levava-me sempre a restaurante caros, cheios de homens engravatados e de mulheres com madeixas e nuances no cabelo. Passava os almoços a gabar-se de como era um profissional respeitado e de como todas as empresas o queriam para director de qualquer coisa. Comia com a boca aberta. Uma vez chegou mesmo a dizer-me quanto ganhava e a perguntar-me quanto é que eu, jurista de um instituto público, recebia no final do mês. Eu, atordoada com tal pergunta, disse-lhe. Olhou-me com um ar misericordioso, como quem diz, coitadinha. Tanta coisa, tanta merda, mas a verdade é que, no fim, dividíamos sempre a conta. Nunca mais lhe respondi aos convites. Deixei de lhe falar. Nesse dia, decidi que não voltaria a fazer fretes. Que não voltaria a aturar gente que não me diz nada. Gente que me é insuportável. E não aturo.

2007/09/02

Vivre Sa Vie - Nana's Dance

Martim Moniz (Buda)

Perguntei, então, ao senhor de uma das lojas se não tinha ilustrações de deuses indianos. Olhou-me com desdém como quem diz para que raio queres tu tal coisa, não te armes ao pingarelho, deves ser uma dessas tontas que renegam as heranças ancestrais. Depois de me olhar de alto a baixo, disse-me que divindades hindus não tinha, mas que, em compensação, tinha um buda. E apontou para um monstruoso buda, esférico, com ar maléfico e assustador. Saí da loja furiosa com a mana. Ainda por cima, à saída da loja, deparei com o corredor alagado de mijo. Aparentemente, uma das casas de banho do centro estava entupida e, por isso, uma água acastanhada inundava os corredores. Todavia, nenhum dos habituais frequentadores do centro parecia preocupado. Uma senhora chinesa continuou sentada à porta da sua loja, como se os dejectos dos outros não estivessem a dançar-lhe por baixo dos pés. Já eu fugi a sete pés. O cheiro a merda era de tal ordem que ainda o sinto. Mas, malograda a busca, continuo a desejar que Shiva habite a minha casa.

Martim Moniz (Shiva)

Decidi que quero uma imagem de Shiva em casa. Entre outras coisas, Shiva é o deus da destruição. E não se menospreze o poder da destruição. Só depois de se destruir se pode voltar a construir. Perguntei à mana onde é que nesta cidade podia encontrar Shiva. No Martim Moniz, é óbvio, disse ela com aquele ar insolente, de criança mimada. Pedi-lhe que me acompanhasse na busca. Que não podia, que tinha coisas a fazer. Resolvi, por isso, procurá-lo sozinha. Desci ao centro comercial da Mouraria, sob o olhar atento dos homens, de todas as raças e feitios, que se amontoam na escadaria central. Nas lojas dos meus patrícios - é como o meu pai chama aos indianos, a todos, mesmo que sejam siks de turbantes cor de açafrão - entre bugigangas, penduricalhos, lantejoulas, especiarias, cachecóis, lenços, procurei Shiva. Em vão. Nada. Nenhum sinal. Nem a serpente, nem o tridente, nem o rio que lhe nasce na cabeça, nem o objecto fálico que o costuma acompanhar e cujo nome não recordo.

2007/08/31

Janelas Abertas

Sim, eu poderia abrir as portas que dão para dentro
Percorrer, correndo, corredores em silêncio
Perder as paredes aparentes do edifício
Penetrar no labirinto
O labirinto de labirintos
Dentro do apartamento.

Sim, eu poderia procurar por dentro a casa
Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas
Na sala receber o beijo frio em minha boca
Beijo de uma deusa morta
Deus morto fêmea, língua gelada
Língua gelada como nada.

Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada um matar um membro da família
Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
O que aconteceria de qualquer jeito
Mas eu prefiro abrir as janelas
Pra que entrem todos os insectos.

Caetano Veloso

(Ccrta noite ouvi esta canção até de madrugada. Depois aconteceu o que tinha de acontecer. Deste esse dia, esta passou a ser a canção da minha morte.)

2007/08/30

SG

(amor primeiro, desde os onze anos, quando a Maria dos Anjos, professora de português, me deu a ouvir o Barnabé.)

Filhos

Deitado na cama, o barão trepador quis saber, ao certo, o que eu fazia no trabalho. Expliquei-lhe com aborrecimento. Que grande seca, mãe. Concordei e, mais uma vez, soprei-lhe ao ouvido que exigia que ele, quando crescesse, fosse médico ou cozinheiro. Aproveitei para, disfarçadamente, lhe cheirar o pescoço e, de raspão, beijar-lhe os lábios. Ele zangou-se com o beijo e disse, peremptório, que médico nunca. Tinha horror a sangue e ao estudo que a medicina exige. Mas cozinheiro, talvez. Sosseguei. No quarto ao lado, a estrelinha da tarde exigia atenções. Enfiei-me com ela na cama. Canta-me canções para adormecer, pediu. Cantei. Uma, duas, três, quatro, muitas. Ela acompanhou-me com um fiozinho de voz. Tão pequena e frágil. Tão feliz. Tão minha filha. Adormeceu no preciso instante em que me preparava para lhe cantar as aventuras de uma certa Etelvina que gostava de andar pela cidade, a semear ventos e a colher tempestades, a meter-se com ricaços, a dizer assim: você que passa de carro, pare aqui a ver se eu deixo, venha cá que eu já o agarro, dou-lhe um pontapé nos queixos. Adormeceu a estrelinha da tarde agarrada a um barbapapa vermelho e risonho. Fiquei só. O melhor de ser mulher é ser mãe.

Ratos

Duas ratazanas pastavam na relva. Quando anoitece sobre o rio, elas abandonam os juncos lamacentos e passeiam-se pelos relvados que, durante o dia, pertencem às meninas de crocs nos pés, aos rapazes que jogam futebol, aos namorados que soltam beijos nas copas das árvores. Uma terceira ratazana, vinda da escuridão, juntou-se ao grupo. Vinha, folgazã, com pezinhos ligeiros e vontade de aproveitar a frescura da noite. Viram-me os horrendos bichos passar, encolhida, largando gritos tolos, jurando a mim própria nunca mais na vida correr sozinha nos relvados. Muito menos de pernas ao léu. Não se mexeram. Ignoraram-me. Temi que me atacassem. Que desatassem a correr na minha direcção e me mordessem os tornozelos. Apressei-me em deixar os relvados. Atravessei, aliviada, a praça mais barulhenta e bonita do meu bairro. Perto dos caixotes do lixo, um cão vadio, muito magro, farejava os desperdícios. Um homem-breu fazia-lhe companhia. A cara preta de sujidade. O cabelo enfiado dentro de um barrete de cor indefinida. Mãos ferozes, vasculhando os caixotes, os restos, as sobras dos outros. Ignorou-me ostensivamente. Como as ratazanas dos relvados. O cão, porém, olhou-me com olhos doces de mágoa e abandono.

2007/08/28

Teresa Torga

(não há bandeira sem luta, não há luta sem batalha.)

Sul

Tenho um sul de casas rasteiras. Um monte com um moinho abandonado, um caminho de silvas e estevas secas, com um sobreiro e uma azinheira. As ruínas da minha infância vivem ali, entre as ervas altas da Primavera. O meu sul cheira a porcos. A noite traz um cheiro adocicado, excrementício, que entra pelas janelas e portas abertas. É um sul feito de uma só rua, habitada por gente que conheço e gosto. A tia Maria, com o cabelo já todo branco, sentada no alpendre da casa amarela, no meio de alguidares e bidões velhos, onde planta morangos, ervilhas, favas, tomates. A vizinha Bárbara, de olhos azuis que tem andorinhas nos corredores da casa. A vizinha Teresa, cada vez mais coxa, incansável na arte de falar. Remata cada frase com um “Pois então!”. Foi mãe de duas netas. A Dulce sempre pronta a contar-me as novidades das pessoas da aldeia, mesmo daquelas que não conheço.

O Luís de Vale de Armunha, que ganhou um prémio no totoloto. Comprou um Audi e uma Harley Davidson. Quando entardece conduz a motorizada, cruzando-se com tractores, camionetas cheias de cortiça e de gado, carros carregados da poeira e dos cheiros dos campos. Comprou também dez vacas, de excelente qualidade, numa feira de gado de Barcelona. De repente, apesar do olhar parado, dos dentes de coelho saídos, tornou-se no partido mais apetecível da aldeia. É assim a vida. Há também o Sebastião, a Patrícia, a Joana, irmãos redondos que sabem tocar acordeão. Inchados, fazem-me lembrar a fábula da rã que queria igualar, no tamanho e no porte, o boi. Tanto inchou que um dia rebentou. Qualquer dia os três irmãos também rebentam. Se lhes espetar um alfinete nas carnes gordas rebentarão como balões coloridos de feira.

Há, por fim, a prima Laura, perdida na loucura que herdou da sua mãe, oscilando entre a solidão, a tristeza e a euforia. Tenho sempre vontade de a abraçar. De lhe fazer festas nas mãos gordas, de unhas roídas, maltratadas. Umas mãos que, mesmo depois de lavadas, guardam o cheiro das coisas em que ela toca. O cheiro da terra, das laranjas, dos limões, das linguiças, dos coentros migados para a açorda, dos torresmos, da banha de porco e do pão. É o cheiro do sul e da planície que ela traz nas mãos. Os meus filhos enrodilham-se nas suas pernas, cabriolando. Mal chegam correm ao seu quintal. Eu, quando os vejo, sinto com uma dor no peito. Gosto mais deles por gostarem assim tanto dela. A prima Laura é a única pessoa que continua a tratar-me por Clarinha. Como se eu fosse, ainda, a menina que ali passava os verões, inquieta e desassossegada.

2007/08/27

Eduardo

Nunca gostei do Eduardo Prado Coelho. Encontrava nas suas palavras matinais a arrogância própria dos iluminados. Nele, ufano, todos os sinais de um insuportável diletantismo intelectual. Continuo a não gostar dele depois de morto. E, no entanto, para onde quer que olhe, dou de caras com epitáfios. Com pedras tumulares. Textos, todos ou quase todos, lacrimosos que leio e esqueço. A morte exige respeito, pudor e, sobretudo, brandura.

2007/08/10

Água

Acordei com corpo de água. Sou só chuvas mansas, rios, mar. A água presa nas garrafas de plástico também entrou em mim. Ping. Ping. Ping. Vou chorar-me até desaparecer.
(é tempo de sossego e silêncio.)

2007/08/09

Milton Nascimento

(também tenho um lado ocidental.)

Arte

A M. foi à bienal de Veneza e trouxe uns colantes para os miúdos. O da Dádá, como não podia deixar de ser, diz “I’m a dada piece of art”. O do João, em jeito de provocação, diz “I´m an abstract piece of art”. Fiquei a pensar. E eu?

Notas com Bolor

1) O Luís Felipe Menezes foi fazer política de proximidade para a Cova da Moura. E mais não digo. 2) A Márcia Rodrigues entrevistou o embaixador do Irão de véu e luvas pretas. Eu acho que a Márcia devia ser apedrejada em público. 3) Andam em polvorosa com a China e o não cumprimento das promessas de maior respeito pelos direitos humanos. Mas alguém acreditava que a China, por causa dos jogos olímpicos, deixaria de ser o que é? 4) Nem tudo na China é mau. Eu importava os pelotões de fuzilamento para exterminar certa e determinada jornalista, filha de uma autarca do norte muito ruim, que faz a cobertura do Mistério da Praia da Luz. 5) O Sean Pen esteve na Venezuela do Sr. Chavez e disse que a Venezuela do Sr. Chavez é um grande país. Coitadito. Embebedava-o com daiquiris e depois mandava-o fazer companhia à Márcia Rodrigues. 6) Em Timor, o presidente passou a ser primeiro-ministro e o primeiro-ministro passou a ser presidente. O partido que ganhou as eleições não foi chamado a formar governo. A democracia é uma coisa estranha. 7) Nem tudo é mau. Está cá o ministro dos negócios estrangeiros de Cabo Verde. Seja bem-vindo, senhor ministro. Dava tudo para saber dançar o funáná. Não quererá V. Exª levar-me ao Sarabanda (não é o do Bergman, que eu sou uma rapariguinha simples, uma triste pacóvia, pouca dada a profundezas melancólicas, mas o da EUA) e ensinar-me a abanar as ancas?

2007/08/08

Anna

Pierrot, le Fou

(Agradeço muitas coisas à minha mãe. Uma é ter-me chamado Ana.)


Sutura

Sento-me de pernas cruzadas na cama, bebendo o chá muito devagar e olhando as fotografias dos miúdos. O João sopra bolas de sabão. A Madalena, de amarelo, foge. Deito-me atravessada na cama. É a minha posição preferida. Os pés ficam de fora e eu, tão pequena, sinto-me maior. Fecho os olhos para que a dor passe. Procuro lembrar os sonhos dos dias anteriores. Primeiro sonho: estou em Maputo e rodo a cidade num carro. Os prédios são altos, estão pintados de branco. Há roupa colorida nos estendais. A cidade não é a cidade. Tem lagoas nos arrabaldes. Parecem tanques gigantes esculpidos na rocha. Dois meninos mergulham e os seus corpos desaparecem na água que é verde e amarela. Árvores gigantes largam flores vermelhas pelo chão. O lento leva-as para longe. Olho as lagoas na companhia dos meus irmãos. Quero mergulhar, digo. Eles riem. Segundo sonho: estou nas escadas rolantes de um centro comercial. O Nicolau Brayner espera por mim no piso de baixo, junto de uma loja de mercearias finas. Olho a montra, onde frascos de ovas rivalizam atenções com garrafas de vinho italianas. Alguém nos persegue. Quem será? Fugimos. Eu vou dar a uma casa de madeira na falésia. O mar é tão escuro e bonito, lá em baixo. Estou nisto durante muito tempo. A reconstituir sonhos como quem reconstitui cenas de crimes. Enquanto resonho os meus sonhos, levo as mãos ao nariz. Cheiram a cebola e a alhos. Adormeço com o barulho de uma explosão pequenina. Durmo a noite toda. Tenho um sono descansado que é coisa que nunca tenho. Nem com os comprimidos cor-de-rosa que a minha mãe me dá. Triticut. Tritifur. Triticon. Tritiqualquer coisa. Acordo com a voz do António Macedo. Levanto-me assustada. Sinto-me inesperadamente leve. Reparo então que tenha um buraco no torso. Estou vazia por dentro. Oca. Faltam-me vários órgãos. Estranho a ausência de dor e a calma de me ver assim. Olho em volta. Descubro os meus órgãos espalhados pelo quarto. Recolho os meus pedaços de corpo. Vasculho os cantos e as sombras. O coração está por baixo da cama, esquecido entre dois pares de sapatos velhos. Ainda bate. Encaixo-o dentro de mim. Suturo-me com a linha que utilizo para apertar os rolos de carne.

2007/08/07

Monstra

Fui comprar os livros que me faltam ler para o curso de literatura romena. No caminho de regresso, percebi uma coisa terrível: tal como a rapariga da fila do refeitório, também eu nunca fui devidamente, como dizê-lo?, fodida. O facto de ter algo em comum com a monstrenga bobadelense/mem-martiense/abobadense do refeitório aborrece-me.

Besouros

Estou na fila do refeitório, mesmo ao lado do balcão das sobremesas de plástico. Gelatinas de pêssego, bavaroises de morango, tartes de maçã, tortas de chocolate com cobertura de coco. Na televisão passa uma reportagem sobre as demolições na azinhaga dos besouros. É, então que, vinda de trás, chega uma voz. Estes pretos vêm para aqui fingir que trabalham, põem-se a construir onde não podem, depois levam com os catrapilers em cima. Azar! Viro-me. Quero ver as feições de quem, com tamanha jactância, se manifestou. Vejo uma rapariga de casaco azul escuro e blusinha cor-de-rosa. Tem feições duras. Feias e suburbanas. Tem feições de quem nasceu na Bobadela, em Mem Martins ou na Abóbada, de quem tirou o curso na Lusófona e chamará Beatriz à filha feiinha que terá daqui a meia dúzia de anos. É gestora quase de certeza ou economista ou informática ou qualquer coisinha assim. Tem ar de quem nunca foi devidamente fodida. De quem nunca será devidamente fodida. Enquanto a observo de alto a baixo, penso assim: vai para a puta, escancarada, enorme e malcheirosa que te pariu. Penso. Mas não digo. E tenho pena de não dizer. Gostava de ser capaz de verbalizar os meus insultos. Não me faz nada bem guardá-los para dentro.

Embuste

Embuste: mentira artificiosa; dolo, falsidade; velhacaria.

2007/08/04

PJ Harvey

Je m´en vais.

2007/08/03

Theo (4)

Há pouca gente a preocupar-se com isto. Há pouca gente a denunciar isto. Quase ninguém. As pessoas metem-se nos seus casulos, olham para as suas causas, desviam o olhar. Theo van Gogh, sendo homem, não olhou para o lado, não ignorou a realidade destas mulheres. Denunciou. E por isso morreu. Ainda que isso pouco ou nada signifique, merece o meu maior respeito, a minha maior admiração. Por esta razão, hoje, mais do que a possibilidade de um texano pouco hábil, quase burro, ser reeleito para a presidência dos EUA, inquieta-me que um homem, numa qualquer rua de Amsterdão, quando circulava de bicicleta, a caminho do estúdio onde trabalhava, tenha sido assassinado por ser livre e por reclamar, para os outros, exactamente a mesma liberdade.
(A propósito do Charrua e da liberdade de expressão lembrei-me deste texto que escrevi, em 2004, num outro blogue. A liberdade exige coragem e nós somos, quase sempre, cobardes.)

Theo (3)

A questão que se coloca é a de saber se os países do Ocidente, sob a perigosa capa da diversidade cultural, do respeito pela diferença, podem aceitar tais práticas, tais rituais. A liberdade religiosa, a liberdade cultural justifica tudo, até aquilo que é injustificável? Há um inegável confronto de ideias, de culturas, de civilizações. De um lado, temos a liberdade religiosa, a liberdade cultural. Do outro lado, temos os direitos fundamentais, património inalienável da humanidade. Perante este conflito, quem deve ceder? É obvio que tem de ceder a liberdade religiosa. Assim como a liberdade cultural só pode ser tolerada se não puser em causa os direitos fundamentais. Ora, as práticas acima descritas põem em causa, precisamente, os direitos fundamentais das mulheres. Obrigar uma mulher a usar um véu é o mesmo que aceitar que a uma mulher jovem se pode tirar num ritual macabro o seu clítoris, coser-lhe a vagina para gáudio do macho na primeira noite, que a rasgará como se rasga uma folha de papel. Obrigar uma mulher a usar um véu é a mesma coisa que aceitar que uma mulher pode ser apedrejada em público até à morte por adultério. E não digam que elas andam assim porque querem. Andam assim porque lhes é negado um direito fundamental, a liberdade. Andam assim porque foram educadas no pressuposto da sua indignidade, da sua infinita menoridade, porque, desde pequenas, lhes ensinam que são inferiores.

Theo (2)

Theo van Gogh foi capaz de denunciar o que se passa com as mulheres islâmicas. Fê-lo com uma mulher que, sendo muçulmana, se recusou a fechar os olhos perante a opressão a que as restantes são sujeitas. Este homem e esta mulher fizeram mais pelos direitos das mulheres do que as activistas de esquerda que, invocando tais direitos, se preocupam apenas, de uma maneira quase histérica, consigo próprias, com as suas barrigas, com a questão do aborto. Estas activistas, ululantes, detentoras de dois ou três neurónios, estão-se literalmente nas tintas para os direitos das mulheres islâmicas. Nunca vi nenhuma levantar a voz contra a obrigação de uma mulher usar um véu a cobrir-lhe o rosto. Assim como nunca vi nenhuma preocupada com esse ritual macabro, tribal, primitivo, inadmissível, indizível que é a excisão do clítoris feminino. Pelo contrário, estas mulheres enleiam-se no politicamente correcto e arranjam fundamentos antropológicos, culturais, para justificar o injustificável. Admitem a utilização do véu e a excisão do clítoris e falam, a propósito de tais práticas, em liberdade cultural e liberdade religiosa. Eu estou-me a borrifar para os sociólogos, para os antropólogos, para as justificações históricas e culturais. Reclamo para estas mulheres exactamente os mesmos direitos que reclamo para mim. Nem que isso signifique ter de deitar para o caixote do lixo, pela pia abaixo, uma cultura milenar, séculos de tradições.

Theo (1)

Nada de novo. As notícias sobre as eleições nos Estados Unidos são atrasadas, desactualizadas em relação ao que ouvi pela manhã na TSF. Atravesso os olhos pelas páginas. Sem grande atenção. Quase a chegar ao fim tomo conhecimento do assassinato do realizador holandês Theo van Gogh. Aqui está uma notícia que me assusta. Este homem foi morto por uma única razão: por expressar livremente a sua opinião. Realizou uma curta-metragem, a que deu o título adequado de "Submissão". Este pequeno filme fala sobre o Corão, mais especificamente sobre a opressão a que as mulheres estão sujeitas na religião islâmica. O argumento deste filme foi escrito por uma deputada liberal, oriunda da Somália e muçulmana, Ayaan Hirsi. Este realizador, segundo as autoridades holandesas, terá sido morto por um homem de 26 anos, com a dupla nacionalidade marroquina e holandesa, com ligações a movimentos radicais islâmicos. Ou seja, foi assassinado por quem não admite os princípios basilares da democracia, por quem luta contra a liberdade de expressão, por quem ignora, se bate contra os direitos fundamentais que, melhor ou pior, caracterizam apenas o Ocidente.

Charrua

Fazer do Charrua um herói da liberdade é o mesmo que tratar a Bárbara Guimarães como letrada. O Charrua não é um herói. É simplesmente um malcriadão. Não merecia, claro está, a suspensão a que a zelosa e subserviente directora regional do norte o votou. Mas também não merece ser tratado como um mártir da liberdade de expressão. Até quer pedir uma indemnização por danos morais ao Estado. Deus nos acuda quando a liberdade de expressão e a liberdade política se confundirem com uma graçola alarve de um funcionário subalterno qualquer. É tão fácil empregar mal as palavras.

Outros

Nestes últimos tempos, tem-se assistido a um levantamento de gente que, de repente, se lembrou de defender, com unhas e dentes, a imigração. De um momento para o outro, descobriram que a imigração é uma coisa boa. Descobriram que a Europa está envelhecida e cansada e que os imigrantes são cruciais para inverter a curva da evolução demográfica. Descobriram também que se não fosse o trabalho dos imigrantes a Europa parava. Não havia pontes. Não havia prédios. Não havia estradas. Nem centros comerciais para passearmos nos domingos de sol. Deixaria de haver quem nos servisse nos restaurantes. Não haveria quem cuidasse das nossas casas e dos nossos filhos. Não haveria ninguém para trabalhar no campo, nas colheitas de morangos, de tomate e sei lá do que mais. Esta gente também descobriu que se não forem os descontos que os imigrantes fazem para os regimes previdenciais, no futuro, não haverá dinheiro para pagar as nossas pensões de reforma.
Ou seja, de repente, esta gente descobriu que os imigrantes são parte da solução dos nossos problemas e que devemos, por isso, aceitá-los. Mas atenção! Devemos aceitá-los em função das nossas necessidades. Esta ideia enoja-me. Causa-me náuseas. Estabelecemos as vantagens e desvantagens da imigração em função das nossas necessidades. E então as necessidades deles? Poderá uma palermice politicamente correcta, sei que parece, mas acho que as portas da Europa deviam estar sempre abertas aos imigrantes. E isso mesmo que a Europa não tivesse os problemas que tem - o envelhecimento da população, a escassez de mão de obra, o facto de existir cada vez menos população activa a efectuar descontos para a segurança social. É que é muito bonito dizer-se que todos os homens nascem iguais em direitos. É muito bonito celebrar, com pompa e circunstância, os aniversários da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Mas a igualdade de direitos passa necessariamente pela igualdade de oportunidades. E essa só se alcança se aqueles que nascem no fim do mundo puderem lutar por uma vida diferente. Porque é que alguém que vive num país em guerra não pode sonhar com a paz? Porque é que alguém que vive num país com fome não pode sonhar com o pão? Porque é que as oportunidades se hão-de determinar em função do país em que cada um nasce? Não compreendo isto. E não aceito. Se as políticas de imigração adoptadas pelos países europeus, para além das suas próprias necessidades, não tiverem em consideração as dos imigrantes, ter-se-á de concluir que o princípio da igualdade de direitos, apesar de consagrado nos textos internacionais e nas constituições de todos os países, é desprovido de qualquer sentido útil, incapaz, consequentemente, de empreender qualquer tarefa de garantia contra as desigualdades e discriminações.

2007/08/02

Aznavour

Il faut savoir cacher sa peine sous le masque de tous les jours.

Benazir

Enquanto pico as cebolas para o refogado penso na Benazir Bhutto. Depois de anos de exílio, acusada de corrupção e nepotismo, vai voltar ao Paquistão. A Benazir tem ar de quem não sabe picar decentemente uma cebola. Há-de ter mãos longas, intermináveis, cuidadas. Mãos de cera, hábeis a executar gestos lentos e a repousar no regaço. Olho para as minhas mãos. São de terra.

Instrumentalina (2)

Corro. Canso-me. Olho para o relógio. Observo os transeuntes que passeiam pelo parque. Um casal jovem beija-se num varandim junto ao rio. O homem da bicicleta volta a aparecer. Quer saber se vou à meia maratona. Mentindo, para me cativar, volta a insistir que corro bem. Agradeço-lhe o elogio. Ele, porventura espantado com o meu inesperado rasgo de simpatia, sorri. Acelera na sua bicicleta. Desaparece numa vereda verde. Ladeada de pinheiros mansos e montes pequeninos. Fico a olhar para ele. Lembro-me, então, de um dos contos da Lídia Jorge. Instrumentalina. Antes de o ler, não sei bem porquê, associava-o a instrumentos musicais. Também à minha tia Adélia, durante muitos anos, enfermeira instrumentista em São José. Instrumentalina. Instrumento. Instrumentista. Volto a olhar o homem da bicicleta. É, agora, um ponto minúsculo e insignificante. Tem a precisa dimensão do que é. Quase nada. Percebo que usa umas calças de nailon. Daquelas brilhantes e justas que parecem colants. Numa cor mortiça e feia. Um verde-bolor a fazer lembrar uma lonjura de águas paradas, sombras e líquenes. Má opção. Um homem deve correr sempre, mas sempre, de calções azuis e t-shirt branca. Mesmo que o céu se enfureça e lhe atire bolas brancas de granizo, velozes como balas.

Instrumentalina (1)

Sinto alguém atrás de mim. Oiço o chiar de uma bicicleta que se move devagar, o rodado em cima da terra batida. Parece crepitar de madeira húmida. O ruído persegue-me durante alguns minutos. “Sabes que corres muito bem?”. Uma voz sussurra-me aquelas palavras. Ignoro. Não olho sequer. Correr exige-me total dedicação. É um homem quem me fala. Montando na sua bicicleta continua. “Também pedalas ou só corres?” Continuo a correr. Não me aborrece que alguém me persiga enquanto corro. Não me incomoda que esse alguém seja um homem montado numa bicicleta. Não me incomoda sequer que esse homem me interpele com tão pouca habilidade e engenho. Incomoda-me, porém, que alguém que não conheço me trate por tu. O tu como prenúncio de uma proximidade futura ou de uma intimidade desejada. Gosto do tu. Reservo-o para os que me são queridos. A única das minhas pessoas que não trato por tu é a Mila. Impaciento-me, por isso, quando o homem da bicicleta me volta a tratar por tu. “Importa-se de me deixar correr sossegada?”. O homem encolhe-se. Espanta-se com o meu pedido. Balbucia qualquer coisa. Afasta-se. Continuo a correr. Gostava de chegar até à galinha do Guimarães. Duvido que alguma vez lá chegue.

2007/08/01

Anna

Pierrot le Fou/Godard

Bruxa

Quero morrer em sossego, velha, velha, velha, encolhida como quando nasci, sem ninguém a chocalhar-me os ossos. Ouvir, por fim, o silêncio. Ai de quem se atrever a mexer-me no corpo! Ai de quem se atrever a quebrar a paz com lágrimas e gemidos! Virei, feita espectro de luz, uma bruxa hedionda, de cabelo desgrenhado e unhas compridas. Esbofetearei as noites de quem me chorar.

Santo Onofre

Rogério abre os olhos. Pelas frinchas dos estores entra uma luz amarela que faz dançar as partículas de pó. Rebola para lá. Depois para cá. Tacteia os lençóis com gestos lentos como se a cama fosse um gato dócil, merecedor de afectos e afagos. Sente-os ainda mornos. Para além do calor, Alberto deixou também o seu cheiro habitual. Um cheiro levemente adocicado, de mel e cânfora. O cheiro que lhe habita o corpo é o dos rebuçados que, com parcimónia, chupa ao longo do dia. É, por isso, por causa dos rebuçados de mel e cânfora, que o cheiro de Alberto é assim, doce e antigo. Rogério fecha os olhos e recorda a primeira vez que entrou ali, naquela casa, naquele primeiro andar de corredores frescos e escuros, com um convite para jantar. Quis ser simpático. Trouxe uma garrafa de vinho barata e, para agradar a Alberto, trouxe também um pacotinho de rebuçados de funcho, muito caros, comprados numa mercearia fina da Baixa, recomendados por uma colega do escritório. Entregou-lho e pacotinho pardo e, com um sorriso, disse-lhe “É para, de vez em quando, mudares de sabor!”. Alberto amofinou-se primeiro, depois deitou o pacote no lixo. Por fim, com a calma habitual, explicou-lhe a diferença abissal (foi mesmo esta a expressão que utilizou), entre os conhecidos rebuçados do Dr. Bayer, que abominava, as degenerescências modernas, carregadinhas de vitamina C e xilitol, com sabores ultra frescos de laranja, morango, os abastardamentos caramelizados estrangeiros e os seus queridos rebuçados peitorais do Santo Onofre. Rematou pedindo desculpa e explicando que não gostava sequer de funcho, erva de sabor enjoativo e propriedades essencialmente diuréticas. Rogério, que agora está deitado na cama, recorda a expressão grave que nessa ocasião marcou o rosto de Alberto, abrindo-lhe sulcos e gretas. Desde então aprendeu a não lhe acicatar hábitos e manias. Deixa-os em paz. Aprendeu também a não mais estranhar os pequenos rebuçados cor de âmbar, do tal Santo Onofre, que ressumando dias antigos, sente quando beija Alberto.