(já vou tarde.)
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2007/11/28
Vatim
Há um homem que não me sai da cabeça. Entrou pela manhã no meu corpo e aninhou-se num lugar menos sombrio, onde há luz e medusas de gelatina e os frutos nunca apodrecem. Trata das dálias melancólicas que não encontro nas floristas da cidade. Há um homem que vive dentro de mim. É o jardineiro-canibal de Almoçageme.
Clausura
Se a gente abrir o dicionário e lhe procurar o significado há-de lá encontrar os seguintes sinónimos: recinto, espaço fechado, reclusão, prisão, internamento, vida claustral, monástica ou conventual, recolhimento, convento. Lido o significado da palavra, ficamos com a sensação de que é um conceito distante, alheio, que não nos respeita. E respiramos de alívio. Enclausurados estão os homicidas, os traficantes, os ladrões, os violadores, os maus desta vida que prevaricam, que não respeitam os preceitos, as leis e as ordens. Enclausuradas, privadas da liberdade e do convívio dos outros, estão as monjas, tão lindas com as suas vestes puras, hábitos e escapulários, nos dedos virgens, um aro simples como sinal da sua consagração esponsal. Por opção decidem viver no silêncio das paredes antigas, murmurando orações e salmos. Enclausurados estão os que vivem nos países onde a liberdade não se apregoa. Enclausurados estão os loucos, os dementes, os tolos, que se amontoam como coisas em manicómios, em casas de repouso, em hospitais psiquiátricos. Pensamos em clausura e temos por adquirido que nunca a experimentaremos. A clausura é um conceito distante, que impomos aos outros ou que associamos a realidades longínquas. Porém, a clausura não é uma palavra simples. As palavras nunca são simples. Porque o nosso corpo pode ser uma clausura, uma prisão, um túmulo anunciando uma morte.
(Estou deprimida. Acontece-me muitas vezes.)
(Estou deprimida. Acontece-me muitas vezes.)
2007/11/26
Judite
O líder da JC acusou o Bernardino Soares de ser um dos principais protagonistas dos distúrbios revolucionários do Verão quente de 1975. Claro que o Pedro Moutinho, é o líder da JC, na altura de tais acontecimentos, ainda não era nascido. Era apenas um espermatozóide marreco, tortinho, coitadinho, que, anos mais tarde, conseguiu ganhar a corrida no acto sagrado da cópula. Nesse preciso instante seu pai terá tentado suster uma bufa mal cheirosa para não se embaraçar diante da fêmea se abria à sua frente como um fruto maduro. A bufa, em vez de ser expelida pelo olho do cu, soltou-se para dentro das entranhas e matou, de supetão, os espermatozóides concorrentes, os fangios que, serpenteando em espirais frenéticas, agonizaram aos molhos. Ficou apenas o espermatozóide marreco e tolinho e dele nasceu um promissor líder partidário. Adiante. Ora, o Bernardino Soares tem a minha idade. Se, com quatro anos, já era um perigoso revolucionário, também quero inventar para mim um qualquer passado revolucionário. O Verão Quente diz-me pouco, poucochinho. Podendo escolher, escolho uma coisa assim a modos que mais elevada, com um quê de sofisticação: quero ser uma escritora exilada, exímia na descrição da solidão dos que vivem no meio das multidões, casada com um professor comunista também ele exilado. E já agora posso ser gira, cheia de pinta e chamar-me Maria Judite de Carvalho.
2007/11/25
Fim
Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Fausto, Madrugada dos Trapeiros
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Fausto, Madrugada dos Trapeiros
2007/11/24
Charneca
O João entrou no quarto no preciso instante em que eu chamava cabrão ao Octávio Teixeira que, na antena 1, logo pela manhã, se masturbava publicamente a falar do Hugo Chávez. Lançava o homem jactos espasmódicos de esperma bolorento, louvando a revolução venezuelana, os índices de alfabetização, a reforma agrária e a diminuição da pobreza. O meu filho olhou-me de viés, censurando-me a linguagem. Expliquei-lhe que metade do meu corpo é alentejano, metade do meu corpo gosta de açorda, coentros, poejos e beldroegas, metade do meu corpo sabe jogar ao jangro, metade do meu corpo vive na charneca de terras arenosas onde as alcagoitas ainda crescem entre os tomateiros e uma menina já morta penteia os cabelos longos de uma mãe que se chama Umbelina. Metade do meu corpo, disse-lhe eu, exausta, é alentejano e no Alentejo cabrão não é asneira. “E eu? Também sou um bocadinho alentejano? Também posso dizer cabrão?”, perguntou. Respondi-lhe que nem pensar, que nunca, mas nunca, se atrevesse a dizer cabrão à minha frente. Ter apenas um quarto do corpo alentejano, uma insignificância, não dá direito a tais liberdades linguísticas.
Labirinto
podias ser o cigarro ultra-longo
que arde até queimar os dedos
podias ser o ar do ditongo
que aquece por dentro os segredos
podias ser o baque que esmaga
o olhar obsceno que assanha
o toque de anca que alaga
a unha diamante que arranha
serias o meu livro de areia
que traz a Maomé a montanha
a linha de vida que enleia
como na estratégia da aranha
serias o objecto perdido
que me faz sentir sempre pobre
o fio de Ariane escondido
cuja ponta o amor descobre
podias ser a vela cansada
o dia que eu apenas pressinto
podias ser a cera dourada
à espera no fim do labirinto.
Fio de Ariane, Clã
que arde até queimar os dedos
podias ser o ar do ditongo
que aquece por dentro os segredos
podias ser o baque que esmaga
o olhar obsceno que assanha
o toque de anca que alaga
a unha diamante que arranha
serias o meu livro de areia
que traz a Maomé a montanha
a linha de vida que enleia
como na estratégia da aranha
serias o objecto perdido
que me faz sentir sempre pobre
o fio de Ariane escondido
cuja ponta o amor descobre
podias ser a vela cansada
o dia que eu apenas pressinto
podias ser a cera dourada
à espera no fim do labirinto.
Fio de Ariane, Clã
2007/11/22
Pirliteiro
Lembro-me bem dessa árvore. Dos ramos espinhosos nasciam folhas enceradas e pequenas que faziam lembrar asas frágeis de insecto. Na Primavera a árvore cobria-se com umas flores de tule branco, muito tolas e perfumadas. Durante o Outono, a árvore vestia-se com uma sobrepeliz de frutos pequeninos, vermelhos, que pareciam romãs e cresciam em cachos. Quis muitas vezes trincar aquelas maçãs liliputianas. Tomar-lhes o gosto. Porém, a tia Dé, quando me via perto de tal árvore, as mãos fechadas escondendo as bagas, abria muitos os olhos. Adivinhando a vontade que eu tinha de as trincar, corria a gritar que tais frutos eram altamente venenosos, que certa vez lhe aparecera no hospital um menino, coitadinho, tão pequenino, muito, muito doente por ter comido umas bagas daquelas. Os médicos, contava ela em alarido, tiveram de lhe enfiam um tubo duro de plástico até ao estômago para o livrar de uma morte certa. Depois dava-me palmadas nas mãos até eu as abrir e largar os frutos vermelhos. Nunca soube o nome de tal árvore. Encontrava-a no jardim do Campo de Santana, talhada em sebes vivas. Também a encontrava nos jardins do Seminário dos Olivais onde o cheiro estival das amoras maduras e o crocitar dos grilos tornavam as tardes de Agosto muito mais quentes. Sempre que via tal arvorezinha vinha-me de dentro uma vontade urgente de lhe trincar os frutos. Mas logo me lembrava dos avisos da minha tia. Imaginava, então, que se trincasse uma daquelas bagas vermelhas cairia redonda no chão tal qual a branca de neve quando provou a luzidia maçã. Se provasse as bagas de tal árvore, era certo e sabido, que passaria o resto da vida enfiada num esquife frio de cristal. Por isso, em obediência à minha tia, nunca mastiguei os pequenos frutos. Apertava-os nas mãos até os esmagar. Uma decepção profunda tomava conta de mim quando lhes via o interior grumoso e pálido. Queria que tivessem um corpo rubro, sinal de doçura, como o dos diospiros. Hoje, quando cruzo o parque da fundação, ignoro os avisos civilizados que aconselham a não pisar a relva e a não apanhar flores, folhas, frutos. Apanho meia dúzia de bagas das árvores que crescem junto do centro de arte moderna. Enfio-as nos bolsos. As bagas continuam sem cheiro. A superfície polida, nacarada, faz-me lembrar um tempo incerto em que fui feliz. Apodrecem nos meus bolsos até ao dia em que resolver metê-las à boca.
(Ontem, lendo certo livro, para além de merovíngios castelos, descobri que a arvorezinha da minha infância se chama pirliteiro e que os seus frutos se chamam pirlitos. Fiquei esfuziante com a descoberta. Como se um sol pequenino nascesse das páginas do livro. É tão importante conhecer o nome das coisas. E, hoje, vagabundeando pela net, descobri que se pode fazer marmelada de pirlitos. Tamanha revelação deixou-me atordoada. Hei-de fazer uma marmelada de pirlitos e dá-la a provar à minha pobre tia.)
(Ontem, lendo certo livro, para além de merovíngios castelos, descobri que a arvorezinha da minha infância se chama pirliteiro e que os seus frutos se chamam pirlitos. Fiquei esfuziante com a descoberta. Como se um sol pequenino nascesse das páginas do livro. É tão importante conhecer o nome das coisas. E, hoje, vagabundeando pela net, descobri que se pode fazer marmelada de pirlitos. Tamanha revelação deixou-me atordoada. Hei-de fazer uma marmelada de pirlitos e dá-la a provar à minha pobre tia.)
2007/11/21
Cupido
A minha filha apareceu em casa com piolhos. Desconfio que também os apanhei. E cresceu-me, no lábio superior, uma pústula herpial que está prestes a dar-me cabo da curva do cupido. O joanete do pé direito dói-me que se farta e não me deixa usar sapatos de salto. O pior é o corrimento vaginal, inodoro, mas de consistência duvidosa, que insiste em fugir do meu interior. Apodreço.
2007/11/20
Guebuza
Certo dia chegou um papelinho oficial a comunicar que o meu pai tinha quinze dias para abandonar o país. Se ficasse, avisavam, corria o risco de ser preso por traição, por infame conivência com a anterior potência colonizadora. A ordem de expulsão era assinada, numa letrinha femininamente redonda que sugeria certo recato, por um tal Armando Guebuza. Ficou a minha mãe sozinha no apartamento de Lourenço Marques, na Avenida Central, com três filhos, o trabalho no dispensário, uma vida inteira para despachar em caixotes e contentores. Como se embalam as memórias, os hipopótamos descansando nos lagos, as nuvens taurinas abatendo-se na baía, o chão encerado da casa de Tete? Como se encaixota o cheiro doce das mulheres, a brancura fosforescente dos dentes do meninos? A minha mãe teve apenas ajuda de um amigo, o Gomes, um homem pequenino, com uns dentes muito salientes, a fazer lembrar um esquilo gigante, que se desfazia em diligências, ia buscar um papel ali, carimbava outro acolá, dizia Solange é preciso você fazer isto ou tratar daquilo.
Contudo, pobre esquilo, era incapaz de um gesto arriscado, de um suborno, de mover uma influência, de dar uma palavrinha a um chefe de repartição para acelerar o caso da minha mãe. Cumpria escrupulosamente as regras estabelecidas pela administração do recém-nascido país que desprezava com dissimulação. Apesar da catadupa de dificuldades, a minha mãe consegui embalar tudo. Ficou só a Vitória, empregada-menina, chorando a um canto da cozinha amarela, dizendo que também queria vir para a metrópole. Por muito que a minha mãe lhe explicasse que a nossa vida futura era uma incerteza, que não se podia responsabilizar por ela, a Vitória derramava lágrimas grossas, violáceas como a noite. Assegurava que, se preciso fosse, cruzaria os mares enfiada num contentor, sentada na cadeira de palhinha onde costumava dar de mamar à minha irmã.
Tratados os papéis, a minha mãe preparou-se para voltar. Vestiu-nos as melhores roupas. O meu irmão calçou os sapatos de verniz com fivela e penteou os caracóis com um pente de dentes largos. Porém, uma mulher branca, sozinha, com duas meninas e um menino mulato, que não era seu filho, levantava sérias inquietações aos zelosos guardas do aeroporto. Para seguir viagem, disseram, a minha mãe teria de arranjar uma autorização da mãe biológica do meu irmão. Nunca soubemos como a minha mãe conseguiu trazer o meu irmão, como evitou essa perda irreparável, como garantiu que continuássemos para sempre a ser três. Ela não conta. Mas eu desconfio que, ao contrário do Gomes, o ajudante-esquilo, a minha mãe sabia como as coisas funcionam em Moçambique. Nessa tarde, os guardas do balcão de embarque do aeroporto celebraram o dia. Tiveram com que pagar o amor ordinário das ruas esconsas da cidade. Comeram travessas róseas de camarão tigre. Beberam até os corpos adormecerem de cansaço. E não reparam na abóbada celeste que, nessa noite, se cobriu de estrelas violáceas, iguais às lágrimas grossas de uma menina que nunca chegou a cruzar o mar.
(O melhor dos jantares de família são as memórias laurentinas que desfiamos com descontida emoção até ao momento em que o meu pai, já bebido, começa a chamar filho da puta ao Armando Guebuza. Grandessíssimo filho da puta, é como ele diz. Nós calamo-nos, embaraçados. Não se ofende assim, por dá cá aquela palha, o presidente da república de um país.)
Contudo, pobre esquilo, era incapaz de um gesto arriscado, de um suborno, de mover uma influência, de dar uma palavrinha a um chefe de repartição para acelerar o caso da minha mãe. Cumpria escrupulosamente as regras estabelecidas pela administração do recém-nascido país que desprezava com dissimulação. Apesar da catadupa de dificuldades, a minha mãe consegui embalar tudo. Ficou só a Vitória, empregada-menina, chorando a um canto da cozinha amarela, dizendo que também queria vir para a metrópole. Por muito que a minha mãe lhe explicasse que a nossa vida futura era uma incerteza, que não se podia responsabilizar por ela, a Vitória derramava lágrimas grossas, violáceas como a noite. Assegurava que, se preciso fosse, cruzaria os mares enfiada num contentor, sentada na cadeira de palhinha onde costumava dar de mamar à minha irmã.
Tratados os papéis, a minha mãe preparou-se para voltar. Vestiu-nos as melhores roupas. O meu irmão calçou os sapatos de verniz com fivela e penteou os caracóis com um pente de dentes largos. Porém, uma mulher branca, sozinha, com duas meninas e um menino mulato, que não era seu filho, levantava sérias inquietações aos zelosos guardas do aeroporto. Para seguir viagem, disseram, a minha mãe teria de arranjar uma autorização da mãe biológica do meu irmão. Nunca soubemos como a minha mãe conseguiu trazer o meu irmão, como evitou essa perda irreparável, como garantiu que continuássemos para sempre a ser três. Ela não conta. Mas eu desconfio que, ao contrário do Gomes, o ajudante-esquilo, a minha mãe sabia como as coisas funcionam em Moçambique. Nessa tarde, os guardas do balcão de embarque do aeroporto celebraram o dia. Tiveram com que pagar o amor ordinário das ruas esconsas da cidade. Comeram travessas róseas de camarão tigre. Beberam até os corpos adormecerem de cansaço. E não reparam na abóbada celeste que, nessa noite, se cobriu de estrelas violáceas, iguais às lágrimas grossas de uma menina que nunca chegou a cruzar o mar.
(O melhor dos jantares de família são as memórias laurentinas que desfiamos com descontida emoção até ao momento em que o meu pai, já bebido, começa a chamar filho da puta ao Armando Guebuza. Grandessíssimo filho da puta, é como ele diz. Nós calamo-nos, embaraçados. Não se ofende assim, por dá cá aquela palha, o presidente da república de um país.)
2007/11/17
She's Lost Control
Confusion in her eyes that says it all.
She's lost control.
And she's clinging to the nearest passer by,
She's lost control.
And she gave away the secrets of her past,
And said I've lost control again,
And a voice that told her when and where to act,
She said I've lost control again.
And she turned around and took me by the hand and said,
I've lost control again.
And how I'll never know just why or understand,
She said I've lost control again.
And she screamed out kicking on her side and said,
I've lost control again.
And seized up on the floor, I thought she'd die.
She said I've lost control.
2007/11/16
Alcaçuz
Bebi um café pela manhã e veio-me à boca um sabor desconhecido. Senti-o na língua, lá atrás onde ela nasce. Um sabor adocicado, perfumado, a fazer lembrar o da flor de anis. Bebi um café e veio-me à boca o sabor das pastilhas de alcaçuz que um dia a minha mãe comprou por engano. Meti uma à boca e logo se espalhou um sabor de antibiótico que nunca esqueci. Bebi um café e senti no corpo a mornidão dos lugares da minha primeira infância. O jardim do Torel e o do Campo Santana, a pastelaria Tarantela, os corredores e o refeitório do Hospital D. Estefânia, a entrada austera do Hospital de São José, a frontaria triangular do Instituto de Medicina Legal, a praça do Dr. Sousa Martins, carregada de mortos e padecentes. Bebi um café e veio-me, não sei de onde, uma vontade grande de chorar.
Brasília
Ele: Mãe, posso ler o teu caderno dos sonhos?
Eu: Não.
Ele: Porquê?
Eu: Está cheio de pesadelos.
(Uma velha pequenina, curva, de cabelo muito curto, pêlos pretos no nariz, passeia por uma cidade que, em tudo, faz lembrar Brasília. Uma arquitectura depurada, branca, luminosa, de formas redondas e escadarias intermináveis. Não se vê ninguém. Só a velha se movimenta com lentidão, apoiada numa bengala. Veste uma saia cor-de-vinho. Sobe uma escadaria de pedra e o seu corpo afunda-se devagar nos degraus. Há muito tempo que não tinha um sonho como o desta noite, que me assustasse tanto.)
Eu: Não.
Ele: Porquê?
Eu: Está cheio de pesadelos.
(Uma velha pequenina, curva, de cabelo muito curto, pêlos pretos no nariz, passeia por uma cidade que, em tudo, faz lembrar Brasília. Uma arquitectura depurada, branca, luminosa, de formas redondas e escadarias intermináveis. Não se vê ninguém. Só a velha se movimenta com lentidão, apoiada numa bengala. Veste uma saia cor-de-vinho. Sobe uma escadaria de pedra e o seu corpo afunda-se devagar nos degraus. Há muito tempo que não tinha um sonho como o desta noite, que me assustasse tanto.)
2007/11/15
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