Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2008/04/09
Maria Eulália
Às vezes, quando o frio da madrugada lhe arrepiava o corpo, Maria Eulália abandonava as lonas e adormecia perto da fogueira. Era um fogo mortiço, de horas tardias, aquele que encontrava, um fogo molengão feito de brasas que já só palpitavam corações frágeis de quentura. Bastava, porém, a Maria Eulália a lembrança das labaredas iniciais para logo começar a sentir o corpo morno. Mal se levantava do colchão sentia os movimentos das crianças esticando as pernas, ajeitando-se no escuro, preenchendo o vazio que deixara. No tempo em que Pedro ainda estava dormiam todos naquela tenda. Dois adultos e cinco crianças. Os pais deitavam-se num colchão enquanto os filhos se ajeitavam pelo espaço que sobrava. Fabiana, a mais pequena, tinha um jeito estranho de dormir. Enroscava-se nas pernas do pai, agarrando-as como um náufrago se agarra ao mastro de um barco que se afunda. Adormecia sempre com uma expressão desesperada.
Quando Pedro estava com o clã Maria Eulália não sentia frio. Era um homem muito gordo e talvez por isso o seu corpo exalava ondas de calor que se espalhavam pela tenda. Mas agora, que Pedro não estava, custava-lhe adormecer. Por mais que se encolhesse, por mais que se encostasse aos filhos, o corpo não aquecia. Por isso fugia para perto da fogueira. Pegava numa manta, enfiava a pagela de Santa Sara na algibeira do avental e deitava-se lá fora, junto do fogo. Quando o velho acordava e a encontrava ali começava, de imediato, desfiando uma torrente de insultos. Aos gritos, para que as outras mulheres o ouvissem, dizia-lhe que não podia deixar as crianças sozinhas, que era seu dever cuidar dos filhos de Pedro, que ainda um dia acontecia uma desgraça, que quando essa desgraça acontecesse havia de a arrastar pelos cabelos e de a matar como uma cadela. O velho abria muito boca e os gritos que de lá saíam misturavam-se com um hálito podre de entranhas e morte. Maria Eulália escutava-o em silêncio. Não lhe explicava que apenas trazia o corpo para perto da fogueira. Não lhe explicava que, durante a noite, a sua sombra continuava nas lonas, deitada no meio dos filhos. Ao lado da sombra de Pedro.
(Ontem foi o Dia Internacional do Cigano. Lembrei-me dos ciganos dos filmes do Kusturica. Distantes e alegres. Lembrei-me do grupo de mulheres ciganas que, certa vez, se sentaram ao meu lado no comboio e me elogiaram as arrecadas. Lembrei-me da cigana mais bonita que conheci. O irmão retalhou-lhe o rosto depois de ter descoberto que ela dormira com um preto. Lembrei-me da menina espaventosa que subia a estrutura de madeira e me disse chamar-se Shakira Isabel. Lembrei-me da cigana da vista vazada que me persegue na rua mais feia da cidade para ler a sina. Lembrei-me dos rapazes do bairro social Alfredo Bensaúde, que se vestem como as estrelas do futebol. Movimentam-se em bando, para aterrorizar, assaltar e insultar os outros. Lembrei-me da minha tia Dé, olhando-os da janela e dizendo entre dentes “Lá vai a ciganagem!”)
Quando Pedro estava com o clã Maria Eulália não sentia frio. Era um homem muito gordo e talvez por isso o seu corpo exalava ondas de calor que se espalhavam pela tenda. Mas agora, que Pedro não estava, custava-lhe adormecer. Por mais que se encolhesse, por mais que se encostasse aos filhos, o corpo não aquecia. Por isso fugia para perto da fogueira. Pegava numa manta, enfiava a pagela de Santa Sara na algibeira do avental e deitava-se lá fora, junto do fogo. Quando o velho acordava e a encontrava ali começava, de imediato, desfiando uma torrente de insultos. Aos gritos, para que as outras mulheres o ouvissem, dizia-lhe que não podia deixar as crianças sozinhas, que era seu dever cuidar dos filhos de Pedro, que ainda um dia acontecia uma desgraça, que quando essa desgraça acontecesse havia de a arrastar pelos cabelos e de a matar como uma cadela. O velho abria muito boca e os gritos que de lá saíam misturavam-se com um hálito podre de entranhas e morte. Maria Eulália escutava-o em silêncio. Não lhe explicava que apenas trazia o corpo para perto da fogueira. Não lhe explicava que, durante a noite, a sua sombra continuava nas lonas, deitada no meio dos filhos. Ao lado da sombra de Pedro.
(Ontem foi o Dia Internacional do Cigano. Lembrei-me dos ciganos dos filmes do Kusturica. Distantes e alegres. Lembrei-me do grupo de mulheres ciganas que, certa vez, se sentaram ao meu lado no comboio e me elogiaram as arrecadas. Lembrei-me da cigana mais bonita que conheci. O irmão retalhou-lhe o rosto depois de ter descoberto que ela dormira com um preto. Lembrei-me da menina espaventosa que subia a estrutura de madeira e me disse chamar-se Shakira Isabel. Lembrei-me da cigana da vista vazada que me persegue na rua mais feia da cidade para ler a sina. Lembrei-me dos rapazes do bairro social Alfredo Bensaúde, que se vestem como as estrelas do futebol. Movimentam-se em bando, para aterrorizar, assaltar e insultar os outros. Lembrei-me da minha tia Dé, olhando-os da janela e dizendo entre dentes “Lá vai a ciganagem!”)
2008/04/07
Barreiro (2)
No passeio, em frente do restaurante e da loja, há quatro acácias. O sol incide sobre a folhagem e a luminosidade do dia torna-as especialmente bonitas. Sei que são acácias porque lhes reconheço a forma espraiada dos ramos. Fazem lembrar um postal que a minha mãe jovem mandou de África. Mostra um caminho de terra vermelha, ladeado por acácias enormes, cheias de flores roxas. Na parte da frente do postal, o roxo das acácias e o vermelho alaranjado da terra. Na parte de trás, a letra redonda, quase infantil, da minha mãe, dando conta da sua vida em África. Volto à praça que hoje encontrei no Barreiro. No meio da praça há um jardim. Um pequeno quadrado verde, bem tratado, com poucas árvores e muitos bancos, onde estão sentados vários homens velhos. Estão sozinhos apesar de estarem tão perto uns dos outros. Não falam, não jogam às cartas ou ao dominó. Estão completamente sós. É tão fácil estarmos sós no meio da multidão. Um fuma um cigarro, outro faz festas na cabeça de um cão amarelo que, tal como ele, tem também olhos tristes, outro coça a virilha, outro tem as mãos pousadas num jornal que não lê, outro observa as pessoas que passam. A praça tem um ar decadente. Faz parte de uma cidade onde já ninguém quer viver. Tem também um ar triste de abandono. É como se as pessoas com vida dali tivessem fugido, deixando para trás apenas os velhos moribundos de olhar triste e as velhas que fumam à janela. Esta praça faz-me lembrar um sítio onde já estive. Um sítio que guardo na memória, sem saber se o sonhei ou se o vivi. Se calhar é por causa das acácias banhadas de luz. Acontece-me muitas vezes. Lembro-me de locais, de ambientes, mas depois não sei se estive lá ou se apenas sonhei ter estado lá. A praça que vi aqui, no Barreiro, por uma razão que não sei explicar, fez-me lembrar Moçambique. Senti uma sensação estranha, um nó na garganta, como se já ali tivesse estado ou vivido.
(Começou a chover. As acácias do Barreiro já não estão banhadas de luz.)
Barreiro (1)
Estou no Tribunal do Barreiro. Enquanto espero que o Sr. Dr. Abílio acabe o julgamento do 1º Juízo, escrevo este texto. Abílio é nome de bicho, não de juiz. Se tivesse um lagarto, uma salamandra, uma iguana, um sapo comedor de moscas, chamava-lhe Abílio. Estou sentada numa mesa redonda, virada para uma janela que me mostra o rio e, ao fundo, um vislumbre pouco nítido de Lisboa. É a primeira vez que venho ao Barreiro. Calhou bem. Cheguei por volta das duas horas. Estacionei o carro num parque quase deserto. Dois homens de bigode, com gestos vagarosos, espreguiçando-se ao sol como lesmas, limpavam com flanelas amarelas o tablier dos respectivos carros. A caminho do tribunal, passei por uma praça que chamou a minha atenção. É uma típica praça dos subúrbios de Lisboa. Feia e pequena. De um dos lados da praça, os prédios têm cerca de três andares. Do outro lado, são maiores e têm uma cor indefinida, pardacenta, uma mistura de cinzento e amarelo. Em quase todos os andares os moradores optaram por fechar as varandas e fazer marquises com janelas de vidro martelado e caixilhos de alumínio. Vejo pessoas à janela. No quarto andar, está um rapaz, de robe, o cabelo em desalinho, a comer uma laranja. Deita, com descaramento, as cascas para a rua. Mais acima, uma mulher de cabelos cinzentos fuma. Do outro lado, no primeiro andar, uma velha debruça-se no parapeito para gritar com uma criança que passa na rua. Chama-se Fábio e a mulher que assim o chama é, quase de certeza, sua avó. Há roupa a secar nas cordas: calças, camisas, meias, cuecas, toalhas, lençóis. Num dos primeiros andares está estendido um cobertor verde alface que, pela exuberância da cor, dá nas vistas. Nas arcadas dos prédios mais altos, há um restaurante chinês e, mesmo ao lado, uma loja de bugigangas orientais, com duas lanternas de papel vermelho na entrada. Nos vidros da loja anuncia-se a pequenez dos preços. À porta, dois homens chineses conversam. Estão ambos de cócoras e, de vez em quando, abanam a cabeça. Dão gargalhadinhas nervosas e mostram fileiras de dentes feios. Estranho que estejam de cócoras. Na China, no Norte de África, na Índia, é habitual ver as pessoas naquela posição. Mas eles não estão China. Estão numa praça do Barreiro. O facto de estarem sentados sobre o próprio corpo, numa posição fetal, torna-os assumidamente diferentes, desenraizados do resto da praça.
2008/04/03
Rua
Trabalho na rua mais feia da cidade. É sombria. Comprida como uma serpente. Os homens usam fatos baratos, compram revistas de automóveis e comem de boca aberta. As mulheres aproveitam as horas de almoço para arranjar as unhas. Pintam-nas de vermelho sangue de boi ou branco estrela-do-mar. Também gostam de passear nas lojas de utilidades domésticas onde escolhem molduras baratas fabricadas na China. Há muitos escritórios, repartições públicas, bancos, consultórios. Nunca chega o Verão a esta rua. Nem sequer quando se ouvem os sinos das igrejas. Nem quando a rapariga velha, de olhos feios, atravessa a passadeira ajeitando a saia de ganga. As árvores têm copas densas e lançam sombras que escurecem os prédios. De tão feia que é, a rua onde trabalho torna a minha pele baça, os meus dentes amarelos, os meus cabelos brancos, enchem-se as entranhas do meu corpo de musgo, verdete, bolor, líquenes, as minhas pernas incham, as veias estrangulam-se em nós invisíveis. Morro quando chego pela manhã e morro quando parto pela tardinha. Morro por saber que voltarei no dia seguinte. É lá, na rua mais feia da cidade, que me cruzo com o poeta. Traz sempre um jornal ou um livro por baixo do braço. O olhar é incerto e inseguro. Fixa as pedras da calçada. Não olha os homens, nem as mulheres, nem os automóveis, nem o renque medonho de árvores sombrias. Não levanta sequer os olhos para ver a rapariga velha, de olhos feios, atravessar a passadeira, ajeitando a saia da ganga, num gesto desastrado de sedução. Passa o poeta apressado, mal tocando com os pés no chão, para que a rua mais feia da cidade não o entristeça.
(sou tão depressiva que até irrita.)
2008/04/02
Navegador Solitário
Por culpa dele torci um pé. Tinha 18 anos. Era altura do Natal. Andava muito excitada por aqueles dias. Pela primeira vez, os meus pais autorizavam-me a passar o fim do ano sozinha, com um grupo de amigos. Uns dias antes, uma amiga oferecera-me uma cassete, preciosa, que ainda hoje guardo. De um lado gravara várias canções do "Escritor de Canções" do Sérgio Godinho. Do outro lado, outras tantas do "Por este Rio Acima". Ouvi esta cassete vezes sem conta, centenas de vezes, milhares talvez. As canções do Fausto punham-me num estado de euforia e felicidade. Despertavam em mim uma vontade desenfreada de dançar. Ignorando os olhares trocistas do meu pai e os gritinhos preocupados da tia Dé - ó filha, olha que tu cais! - punha-me a dançar as canções do Fausto, bem no meio da sala, sob o olhar severo das divindades hindus, trazidas da Índia. Mulheres serpentes. Homens com quatro braços e rosto de elefante. Ganesh, Shiva, Krisna, com os corpos esculpidos na madeira perfumada do sândalo, olhavam-me com espanto, não reconhecendo aquele dançar tão diferente do das suas terras longínquas. Era um dançar não contido. Não me limitava a abanar a anca ou a mexer os pezinhos. Não. Aquela música mágica entrava dentro de mim e fazia mexer todas as partes do meu corpo. Cheguei mesmo a aprender alguns passos de folclore que se adequavam perfeitamente ao ritmo daquelas canções. Foi num desses devaneios pela dança tradicional, entre saltos e pulos, com os bracinhos no ar, a dar uma pirueta, que torci um pé. Ainda me lembro das gargalhadas da mana, da aflição das minhas mães, do meu pânico perante a eminência de, por causa de um entorse, voltar a passar o fim de ano entalada entre os meus pais.
(Portugal não merece o Fausto. Merece a Marisa, insuportável, intragável, feia de morrer, sempre a fazer beicinho, a pôr-se humilde, a agradecer o reconhecimento, o sucesso, os discos de platina, os prémios, os poetas portugueses e sei lá que mais. Não posso com a mulher. É superior às minhas forças. Odeio-a.)
2008/04/01
Mulher-Bomba
Com um sorriso nos lábios, a mulher vai relatando a sua história. As adúlteras, as divorciadas, as mães solteiras palestinianas são convidadas a se fazerem explodir para minimizar a vergonha que provocaram nas suas famílias. Explica que o martírio lava a vergonha imensa do adultério e do divórcio. Ela, mãe de uma menina, quis tornar-se mártir do seu povo e, por isso, ofereceu-se para morrer. Deram-lhe um cinto de explosivos, explicaram-lhe como funcionava o engenho e deixaram-na escolher a cidade onde queria morrer. Escolheu a sua cidade preferida. A mulher tem lábios dourados e usa um véu cor de areia que a põe feia. Continua a falar. O que nela mais espanta é o sorriso com que conta a sua história. Parece uma criança que confessa uma travessura: um chocolate de amêndoas roubado num supermercado, uma mentira contada para justificar um disparate. Quando o jornalista lhe pergunta pela razão que leva uma jovem mulher a se fazer explodir, ela volta a sorrir. Se aos homens prometem setenta e duas virgens, às mulheres nada se promete de concreto. É normal que assim seja. As mulheres não merecem a atenção de deus. Ela, confessa, pensou vir a ser uma das setenta virgens.
Amoníaco
A Marta Crowford, apresentada como sexóloga, escreveu um livro sobre o prazer feminino. Numa linguagem simples e acessível, era o que o Público dizia, dá dicas às mulheres portuguesas para que estas possam tirar mais prazer do coito. Por exemplo, para a prática do sexo anal aconselha a utilização prévia de um clister. Ajuda a limpar a tripa. Já no sexo oral, para evitar o odor indesejável a urina, que se acumula nos refegos do prepúcio e torna a glande pouco apetecível, aconselha a limpeza do falo do companheiro. Não sei. Mas acho que a Marta Crowford tem uma visão um bocadinho amoniacal do sexo.
2008/03/30
Turíbulo
O diácono foi um comunista feroz. Depois, não sei que lhe deu, converteu-se. Passou a ser um católico feroz. Tem um vozeirão grave que, por vezes, me assusta. E quando, muito sério, se envolve nas nuvens perfumadas do turíbulo parece um boi bafejante, resfolegando ruidosamente no altar. Acha-me bonita. Disse um dia que eu tinha uma beleza exótica. E enterrou-me os olhos na carne. Agradeci-lhe o elogio com um sorriso amarelo, amarelinho, e enfureci-me por dentro. Prefiro ser feia a ter uma beleza exótica.
Avenida do Uruguai
Tive uma tia, chamada Lucília, que se matou. Atirou-se do sétimo andar de um prédio de Benfica. Era uma mulher apagada, de silêncios prolongados, com uma vida aparentemente calma. Enviuvou cedo de um funcionário das finanças e, por isso, vivia com uma filha na Avenida do Uruguai. Tratava da casa, ajudava na educação dos netos, fazia as compras na praça, preparava o jantar. Sempre em silêncio. Coleccionava a teleculinária e deitava-se depois de ver a telenovela. As manhãs de domingo, passava-as no cemitério, tratando da campa do marido. Levava-lhe flores frescas. Cravos aninhados em nuvens fofas de gipsófila. Lavava o verdete do mármore com um paninho embebido em vinagre. Gostava muito de frutas cristalizadas. Quando a visitávamos no apartamento da Avenida do Uruguai, a minha levava-lhe um cartucho de frutas comprado numa mercearia de Moscavide. No dia em que se matou, fez uma canja de galinha e deixou os anéis em cima da cómoda, para que ninguém lhos tirasse. Sempre estranhei a sua morte por ser uma mulher simples, com uma vida simples, de hábitos simples. Não sei porquê, há em mim o sentimento absurdo de que a infelicidade e o desespero são prerrogativas dos sensíveis, daqueles que se ocupam da espuma, do supérfluo. Suicidam-se os escritores, os pintores, as poetisas. Os que esperam demais da vida. O suicídio exige um grau de sensibilidade, discernimento e sofisticação que a minha tia Lucília não tinha.
2008/03/26
Magenta
O Gustavo fez-me comprar um casaco magenta cintado que, com sorte, usarei depois da desova. Pôs-me também a ler “A Casa Grande de Romarigães”, do Aquilino Ribeiro. Gosto do Gustavo. Tenho um fraquinho por homens fracos, ainda mais desesperados do que eu, que se besuntam com a vergonha do falhanço, que choram, com lágrimas grossas, a amargura das suas vidinhas e que se amedrontam perante a liberdade e o alívio. Não tomam comprimidos suficientes. Erram a veia que cortam. Não enchem os bolsos de pedras quando se atiram aos rios e às lagoas. Gosto do Gustavo por, em tudo, sobretudo na tolice e diletantismo, ser parecido comigo. Só me aborrece que beba.
Cérbero
Durante a adolescência interessei-me pelo Tibete. Li tudo o que me apareceu pela frente. Tirei notas num caderno de capa quadriculada que, mais tarde, no ramerrão das limpezas dominicais, perdi. Gravei os poucos documentários que passaram na RTP. Mostravam sempre caminhos de lama e janelas embaciadas que guardavam silêncios. Sublinhei, a lápis, a enciclopédia “Raças do Mundo”, comprada a prestações pela minha mãe no Círculo de Leitores. Os volumes, muito grossos, tinham lombadas verdes e destoavam, pela sobriedade, no meio do esparrame de memórias das viagens dos meus pais. Loiças de barro coloridas trazidas de Marrocos. Uma terrina de Limoges cheia de ramalhetes primaveris. Vidros coloridos de Itália. Latões cinzelados da Índia. Uma imitação de presa de elefante, minuciosamente trabalhada, comprada pelo meu pai a um guineense retinto na Baixa, ocupava lugar de destaque do móvel escuro da sala. Com o passar do tempo o meu interesse pelo Tibete desvaneceu-se. Ficou-me na lembrança o chá de manteiga de iaque, a poliandria fraternal e um sentimento vago de tristeza e desespero. A China aparecia-me, já nessa altura, nos primórdios da minha adolescência, como um monstro. Continua a sê-lo. Tornou-se, porém, numa criatura ainda mais medonha, um monstro de duas cabeças, que alia, num só corpo, o pior dos dois mundos.
2008/03/19
Yumeji's Theme
(dois homens aborrecidos falavam de livros na antena 2 e esta música surgia, atrás das palavras, como um murmúrio breve.)
Esmola
Um homem tira moedas de um saco de plástico e enfia-as nas caixas de esmola que se espalham pela igreja. As caixas são antigas, de madeira escura, com letras brancas a indicarem o propósito do gesto caridoso. Há-as para todos os fins. Para o culto. Para os irmãos necessitados. Para seminários. Para o jornal paroquial. Para a casa sacerdotal. Para o contributo penitencial. Há, também, uma caixa para as almas. É o que está lá escrito. Mesmo por baixo da ranhura onde se depositam as moedas e as notas, ao lado do cadeado, está escrito, a branco, “Almas”. Cada vez que o homem enfia uma moeda, os anjos dos vitrais largam as liras, as harpas, os violinos, e estremecem com o ruído que quebra o silêncio tumular da igreja. O homem pára. É então que um som cavo e arrastado surge das profundezas e fica a retinir nas paredes do templo. Ninguém parece estranhar. As mulheres que rezam o terço continuam a sua ladainha. O homem de bigode texano continua a rondar as velhotas de cabelo azul e violeta. A senhora da mantilha de renda branca, que se senta sempre na primeira fila, continua a contar a Deus as minudências da sua vida. Veio do mercado e as laranjas que traz no saco de plástico deixam no ar o cheiro invernoso dos laranjais do Arealão. As laranjas eram sumarentas, pouco doces e deixavam-me as mãos tisnadas. Olho, quieta, o anjo verde dos vitrais e lembro-me da prima Matilde, de lenço preto na cabeça, o xaile cruzado sobre a bata florida. Vivia perto dos laranjais, que cresciam em terrenos areentos, trazia no corpo entranhado o cheiro do fumo da lareira e tinha um filho, o Luis Carlos, rapaz moreno e bonito, dado a angústias profundas que, volta e meia, passava temporadas no hospital Júlio de Matos, em Lisboa. Chamava-me priminha e eu gostava que ela me tratasse assim. Deixo os laranjais do Alentejo e volto à igreja onde habitam todos os anjos da cidade. O som cavo, medonho, arrasta-se por mais alguns segundos. São as almas penadas que lançam gritos desesperados das profundezas do purgatório. Exigem que o homem deposite algumas moedas na sua caixa. Só assim Deus poderá requisitar os seus processos ao celestial arquivo e reavaliá-los com vista a lhes franquear, ou não, a entrada no Paraíso.
(Na sua mensagem para a quaresma de 2008, o santo padre convida os católicos à ascética prática da esmola. E fala dos pobres. Ai, os pobres…)
(Na sua mensagem para a quaresma de 2008, o santo padre convida os católicos à ascética prática da esmola. E fala dos pobres. Ai, os pobres…)
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