2008/05/20

África do Sul

Na África do Sul, pelo menos 24 imigrantes morreram, desde sexta-feira, na sequência de ataques de gangs de jovens. No sábado, no bairro de Cleveland, espancaram até à morte cinco imigrantes e queimaram vivos, outros dois. Os imigrantes chegam de Moçambique, do Malawi e, sobretudo, do Zimbabué. Procuram na África do Sul uma esperança de vida. Espera-os a desconfiança e a violência. Há, sobre o assunto, dois ou três pontos que retenho. Primeiro, como dizem por estes dias os editoriais dos jornais sul-africanos, Thabo Mbeki está a colher os frutos da sua cobardia. Incapaz de criticar Mugabe, o triste Che Guevara africano, é, em parte, também ele responsável pela ruína de um país que, até há alguns anos atrás, tinha níveis de desenvolvimento satisfatórios. Os imigrantes zimbabueanos, que agora são mortos, fugiram do país que o silêncio do presidente sul-africano ajudou a criar. Em segundo lugar, há quem queira ver no sistema do Apartheid a origem da xenofobia sul-africana. O Apartheid, dizem, teria afastado a África do Sul do resto do continente, criando nos sul-africanos sentimentos xenófobos. Cá está, mais uma vez, a pior forma de racismo: a visão paternalista do outro, a desresponsabilização do outro. Os negros sul-africanos não matam os imigrantes moçambicanos e zimbabueanos por distantes sentimentos de isolamento incutidos pelo Apartheid. Os negros sul-africanos matam os negros moçambicanos e zimbabueanos por motivos mais prosaicos. Acham que estes ficam com as suas casas e usurpam os seus empregos. Por fim, resta dizer que, comparada com a brutalidade dos ataques na África do Sul, a xenofobia europeia, que se disfarça com discursos, que se artilha de argumentos, que usa botões de punho, que muitas vezes tem representação parlamentar, que mói, mas raramente mata, parece aceitável, quase inócua. Não é.

Cuscuz

A cor do canário que não canta. Os brincos de Rym. A cafeteira de alumínio riscado. O olhar de Slimane. As mãos que se enterram nos montes de deserto que os pratos trazem. Que escolhem as espinhas. Que levam à boca pimentos, pedaços de abóbora e de batata. As mãos que limpam o peixe.

Pudor

Admiro, sem saber porquê, as mulheres que escondem a sua intimidade. Nunca se deixam ver totalmente nuas, gerem a nudez com inteligência, sabendo que o desejo se acicata com a insinuação e esmorece com a certeza das formas. Trancam a porta quando vão à casa de banho. Não deixam pêlos púbicos no ralo da banheira. Nunca cortam as unhas dos pés em frente dos maridos.

2008/05/15

Gilbert Becaud - Nathalie

(que ma vie me semble vide.)

Pretérito Imperfeito

Quando as tardes de domingo se punham de breu, chuvosas, pingando lágrimas grossas sobre o bairro, corríamos para a cozinha. A minha mãe fazia churros madrilenos, fritava rodelas de batata-doce, amassava biscoitos de laranja. A minha tia fazia o bolo pic-nic, fritava argolinhas de massa lêveda e sonhos de abóbora. Arredavam-se os pequenos electrodomésticos da bancada de mármore, recolhia-se a fruteira e os naperões de linha grossa matizada. A bancada era limpa com um pano húmido. Imaculada, acolhia as massas que se estendiam, os bolos que se batiam. Eu e a minha irmã observávamos os gestos das nossas mães. Ríamos quando a massa dos churros se enchia de grumos e a minha mãe, bufando, jurava a pés juntos que nunca mais na vida faria tal receita. Competia-nos pôr a mesa para o lanche e polvilhar de açúcar e canela o que houvesse a polvilhar. Quando tudo estava pronto, a toalha de ramagens azuis estendida, as chávenas viradas de borco, as travessas lançando espirais de mornidão que embaciavam os azulejos de flores castanhas, a minha mãe mandava chamar o meu pai que passava a tarde enfiado no escritório, lendo, de fio a pavio, os jornais semanais. Chegava sempre embrulhado no roupão de flanela azul. Raramente sorria. Um homem no meio de tantas mulheres: duas filhas, uma esposa, uma cunhada, uma sogra vestida de negro. Sentava-se no topo da mesa e, em silêncio, comia. Nunca o ouvi gabar os lanches da minha mãe, esses lanches maravilhosos, de doçuras mornas, que tornavam ensolaradas as nossas tardes de chuva. Lembro-me, isso sim, de o ouvir ralhar por o chá já não estar suficientemente quente. Cada vez que o ouvia, a beiçola estendida, a dura masculinidade da sua voz, a incapacidade de ser gentil para a mulher que amava, ficava com vontade lhe enterrar uma faca no peito.

(o meu pai tem um modo estranho de amar.)

2008/05/13

Alentejo



Janela, José M. Rodrigues

Vergílio Ferreira

Ao ler o Da Literatura fiquei a saber que a Bertrand alterou as capas dos livros do Vergílio Ferreira. Tenho, por alguns dos romances do Vergílio Ferreira, um amor maior do que a vida. Passei a gostar do nome Mónica, nome grave, que tem o som do oboé lá dentro, por causa de um livro do Vergílio Ferreira. Percebi a solidão de Deus por causa de outro. O amor que tenho pelos livros deste escritor é também um amor sensorial, táctil. Para além de os ler, gosto de os tocar e de os olhar. Durante décadas, a Bertrand manteve inalteradas as capas da obra do Vergílio Ferreira. Simples, de uma simplicidade absurda, faziam-se apenas do nome do autor e do nome da obra. Só a cor do livro, por vezes, mudava. E mudava para melhor. Quando a capa da Aparição abandonou o verde seco e passou a mostrar um amarelo luminoso não resisti a comprar outro exemplar. Como resistir a um amarelo daqueles, tão morno, tão alentejano, tão meu? As capas da obra do Vergílio Ferreira eram um sinal de sobriedade e extremo bom gosto no panorama das capas que hoje povoam os escaparates das livrarias. Os livros tornaram-se objectos menores. Pouco interessa o conteúdo. Interessa, isso sim, que tenham uma cinta a apregoar vendas fantásticas, de preferência com a fronha do autor, e uma capa repolhuda, sofisticada, de pechisbeque. As capas da obra do Vergílio Ferreira eram perfeitas. Para quê alterá-las?

2008/05/12

Juventude

O Presidente da República anda preocupado com o alheamento da juventude em relação à política. Hoje, recebeu os líderes de várias associações de juventude, incluindo as velhas associações juvenis partidárias. Com tal iniciativa pretende perceber as razões pelas quais os jovens portugueses não se interessam pela política. O Presidente começou a preocupar-se com este assunto nas efemérides do 25 de Abril. Ora, salvo o devido respeito, há na preocupação do PR um grande equívoco. É que o problema não reside na juventude portuguesa. Se se fizerem inquéritos a outros grupos da sociedade portuguesa, facilmente se verá que, à semelhança dos jovens, os resultados são desastrosos. Perguntem aos mais velhos se se interessam pelos assuntos de política nacional e se sobre eles sabem alguma coisa. Hão-de deparar-se com um cenário lamentável. O problema não é pois da juventude portuguesa. O problema é da sociedade portuguesa que, dos jovens aos velhos, dos ricos aos pobres, dos analfabetos aos literatos, não liga um caracol à governação do país. Aqui chegados podemos ser levados ao segundo grande equívoco, o de que os portugueses não ligam à política porque estão desiludidos com o discurso político, com as promessas políticas, com a prática política em Portugal. Ou seja, o desinteresse nacional residiria nos políticos, essas criaturas que usam a política para cuidar, não do interesse público, mas dos interesses próprios. É mentira. Os nossos políticos não são brilhantes. É verdade. Temos muitos maus exemplos. Porém, mesmo que nunca tivessem ouvido falar de políticos como o Pedro Santana Lopes, o Luis Filipe Menezes, o António José Seguro, o Armando Vara, o Narciso Miranda, a Fátima Felgueiras, tantos outros, os portugueses continuariam alheados da política. Os portugueses querem é saber se as mamas da Diana Chaves são de silicone ou se o novo treinador do Benfica é estrangeiro. O resto, incluindo a política, é uma maçada. Os portugueses são um povo medíocre, analfabeto e desinteressado. A juventude portuguesa limita-se a imitar, e bem, mediocridade dos mais velhos.

(Há algumas semanas, perguntava o Jorge Gabriel a uma funcionária pública, mãe dois adolescentes, o nome do líder do CDS-PP. A senhora, apresentável, bem falante, sorridente, amável, não sabia. Tal facto, e era isso que chocava, sobretudo isso, não lhe provocava embaraço ou vergonha. Sacudiu a cabeça, ajeitou os óculos quadrangulares e pediu uma ajuda.)

2008/05/11

Verdes Anos

Moçambique

Ele: Levas-me a ver aquele filme?
Eu: Qual?
Ele: Acho que se chama Terra Submersa.
Eu: Terra Sonâmbula?
Ele: Sim.
Eu: Não é um filme para a tua idade.
Ele: Mas eu quero vê-lo.
Eu: Porquê?
Ele: Fala do teu país. É como se falasse sobre ti.

2008/05/10

Cidades

Fui a Coimbra e percebi que as cidades são como os homens.

Elmer

O meu irmão, pai dos meus sobrinhos, não sabe quem é o Elmer, o elefante de todas as cores. Disse-mo enquanto me passava o pato à pequim e os miúdos, muitos, cavalgavam pelo restaurante fora, atormentando a menina Mei Fong, sempre tão amável e sorridente. Eu ia tendo um chilique.

2008/05/07

Iguana

The Night of the Iguana, John Huston (1964)

Caídos

Debruço-me sobre o poço do quintal. As águas escuras, imóveis, parecem guardar outros mundos. Escuto, ao longe, a voz da minha prima Filomena. Cuida do grilo perneta que apanhámos ontem perto dos tomateiros. Guardado numa caixa de fósforos, o bicho desconhece as intenções da minha prima. Quer fazer um barquinho de cana e pô-lo a navegar no regato do moinho. Tenho os lábios rebentados de comer nozes verdes. Trago as mãos peganhentas das ameixas maduras. Grito para dentro do poço. A minha voz ricocheteia nas paredes circulares como uma bala perdida. Lembro-me dos caídos e dos enforcados das histórias da minha avó. No Alentejo, conta ela, quando alguém se quer matar, atira-se a um poço ou enforca-se num sobreiro. Os que se atiram aos poços são os Caídos. Os que se deixam balançar nas árvores são os Enforcados. Sempre foi assim. A minha mãe manda-a calar quando a apanha a contar-me tais histórias. Também não gosta que me conte a história do fantasma que se deitou certa noite junto dela. O que eu gosto dessa história! Assusta-me o silêncio do poço, mais do que o silêncio das árvores ou dos fantasmas. Os Caídos fazem-me lembrar bosques adormecidos. Imagino-os sossegados, tranquilos, de boca aberta, o estômago inchado como um balão, rãs esverdeadas pastando sobre os seus corpos.

4

Descobri que a gravidez, para além de retardar o crescimento das pilosidades indesejáveis e de melhorar o estado da cútis, me desperta a libido. Já não me lembrava das maravilhas da prenhez. É uma descoberta extraordinária para quem, como eu, se tem por frígida. Ando a ponderar seriamente ter o quarto filho.

2008/05/05

Masurca Fogo

Eminência

Procuro memórias embaraçosas. Elas aparecem sem que faça grande esforço. A vez em que os meus sogros me apanharam na cama do filho. Foi um modo estranho de os conhecer. A queda que dei em frente do advogado da outra parte depois de um julgamento miserável. Aquela vez em que o juiz me mandou calar durante uma audiência. A outra queda que dei na estação de comboios. Rebolei pelas escadas abaixo. Fui amparada por um homem de bigode e unhas sujas, um proletário barrigudo, que ralhou comigo por andar de saltos altos. Recordo também certo almoço de trabalho durante o qual me caiu uma prótese dentária. Caiu-me o segundo molar superior direito para o meio do arroz de pato. Há o ranger da cama, os suspiros e os gemidos que a vizinha de cima escutará em certas noites. Sei que os escuta. Eu escuto os dela. Há, depois, os gases, as bufas, os arrotos, os burriés, todas essas coisas que teimam em nos mostrar a matéria-prima de que somos feitos e que, por vezes, se soltam e nos enxovalham publicamente. Há tantas situações que me fazem corar de vergonha. Poucas, porém, me embaraçam como os erros de ortografia que dou.

Erosão

Enchi o primeiro blogue de asneiras. Utilizava tais palavras para confrontar os outros, para marcar uma posição, para derramar pela blogosfera certa imagem de frontalidade e irreverência. Tinha piada, achava eu, utilizar tais palavras e arremessá-las como pedras a torto e a direito a quem as não esperava. De há uns tempos para cá, porém, tenho assistido a um fenómeno estranho, o da banalização do calão, das asneirolas mais grosseiras. Escrevem os romancistas com empenho e utilizam amiúde as palavras foder, caralho, foda. Até a Mafalda Ivo Cruz, de escrita tão pedante, utiliza tal linguajar. Escrevem os blogers mais estimados, se preciso for, sobre coninhas, ratinhas e outras coisinhas. Escrevem as blogers mais badaladas emancipadamente e enchem os seus virtuais diários de palavreado que faria corar as suas mães. Certa estirpe procura mesmo, através da vernaculidade da linguagem, mostrar-se descomplexada e actual. Como se a modernidade se medisse também pelo à vontade com que se escreve a palavra foder. É uma coisa um bocado parva. As palavras gastam-se com facilidade. Se as usarmos com desregro, sem comedimento ou pudor, ficam ocas, esvaziam-se do seu sentido, perdem o seu significado. As asneiras, mais do que qualquer outra categoria de palavras, são permeáveis à erosão semântica. Se eu disser, e escrever, foda, cona, caralho, com o à vontade com que digo mar, filho, rua, tais palavras deixam de ter sentido. Deixam sobretudo de ter utilidade.

2008/04/29

Sylvia

Sylvia Plath, 1962

Confeitaria Nacional

Entro na confeitaria mais bonita da baixa lisboeta. Fica perto de uma mercearia antiga, cujo nome não recordo, que vende chouriças cozidas da beira-alta e cacholeiras brancas do alentejo. Peço um café e um duchesse. Entretenho-me a olhar os bolos das vitrinas e a maquilhagem das empregadas que servem ao balcão. Uma das mulheres usa uma sombra azul e um baton cor-de-rosa que faz lembrar cetins de festa. Havia de não haver noites, penso, só manhãs luminosas como esta. As pastelarias estariam sempre abertas e eu encontraria sempre conforto junto dos bolos axadrezados, dos ratinhos de laranja, dos russos, dos quadrados de moka. Reparo, então, numa das mesas do fundo. Um homem da minha idade come um folhado de salsicha enquanto lê atentamente o rótulo de uma embalagem de lixívia. Estilhaça-me a manhã.

Ler

Comprei a Ler. Descobri que o Billy Corgan é um mariquinhas que gosta de mimos. Também sou assim. Descobri que o José Mário Silva é parecido com o vendedor do círculo de leitores que, uma vez por mês, tocava à campainha da casa dos meus pais. Usava peúgas brancas com sandálias de couro. Era um homem aborrecido, de maxilares vincados e pronúncia nortenha. Descobri também que o António Lobo Antunes, que lê livros da Jackie Collins e do Harorld Robbins, nunca leu um romance do Saramago. Descobri, por fim, a capa do novo romance do Vasco Graça Moura. É linda. Alfreda, impecável na sua nudez, deitada sobre uma manta de musgo.

2008/04/25

Madrugada


2008/04/23

PSD

Cada vez que penso que, num passado próximo, considerei a hipótese de me filiar no PSD, fico com vontade de me esbofetear até sangrar.

Brutal

A Ana Lourenço entrevistou ontem o Paulo Teixeira Pinto. Falaram do BCP, do PSD e da editora Guimarães. Sempre num tom monocórdico, de cansativa serenidade, o Paulo Teixeira Pinto assegurou a excelência dos critérios literários da editora, confessou que lia, com frequência, entre outros, o Boris Vian e o Saint Exupéry e sossegou-nos: explicou que não seria um dos autores publicados pela Guimarães. Fiquei pasmada com tanta franqueza. Até o miúdo saracoteou dentro de mim. A avaliar pelos poemas que li no Bibliotecário de Babel, o Paulo Teixeira Pinto é um poeta miserável, medíocre mesmo. Há palavras que se devem usar com parcimónia. Brutal é uma delas. Porém, independentemente dos dotes literários do dono, é bom saber que a Guimarães, ao contrário da maior parte das editoras, não cederá aos ditames da procura massificada dos livros merdosos.

Serebriakov

Fui à outra margem ver “O Tio Vânia” de Howard Barker. Saí de lá com um gosto azedo na boca. Se, naquele instante, me escarafunchassem o avesso, haviam de descobrir flâmulas de desconforto e irritação. Quem me olhasse com atenção ver-me-ia coberta com uma peculiar sobrepeliz feita de fios torcidos de neuroses várias. Ao cruzar a ponte, procurei despir a frustração, a dor, o desalento, a raiva, sei lá que mais, das personagens. Basta-me a minha tristeza. E o resto. Quis livrar-me delas, das personagens, atirá-las ao rio. Quis vê-las desaparecer na noite, afundarem-se nas águas da Trafaria, ali, onde há esqueletos de sardinhas, cascas de tremeço, latas de coca-cola, vidros partidos, algas verdes e lodo, ali, onde as águas são sujas e os peixes, celacantos monstruosos, devoram tudo, até o medo e a melancolia. Ao chegar a casa não sei o que me fez procurar “O Tio Vânia” de Tchekov. Reli o texto com sofreguidão. É uma maneira inadequada, estúpida, de se ler. Adormeci durante o terceiro acto. Noite fora, sonhei com um bosque de plástico negro. As árvores, redondas, pareciam macieiras desenhadas por crianças, mas eram pretas. As personagens, Helena, Teleguin, Vânia, Astrov, Sonia, passeavam-se entre as árvores mortas. Eram felizes porque eram egoístas. Serebriakov também lá estava. Tinha o cabelo branco e uma barba aparada. Usava uma sobrecasaca riscada de branco. Era um velho janota, distinto, arrogante, insuportável. Disse-me ao ouvido que, apesar de velho, era ainda um homem potente, capaz, por isso, de cativar as mulheres jovens como Helena e dar-lhes prazer. E depois deu uma gargalhada. Um ah-ah-ah assustador. Acordei aos gritos.

(Tenho queda para o bovarismo. Sempre tive.)

2008/04/20

Roda Viva

Bifidus Activo (2)

Olhou-se ao espelho. Todos os dias, agradecia ao seu médico assistente o facto de lhe ter recomendado a colocação da banda gástrica. Perdera já cinquenta quilos. Era um milagre, uma magia, uma coisa maravilhosa que não sabia bem como explicar. Olhou o rabo imenso, cheio de covinhas e borbulhas, e achou-o quase bonito. Decidiu que, se conseguisse tonificar o corpo, se o conseguisse tornar rijo, se se livrasse da borbulhagem e das pregas flácidas, havia de fazer uma tatuagem. As tatuagens estavam na moda e agora que voltara a usar o xxl podia sonhar em fazer uma. Uma amiga tatuara há tempos, na bochecha do rabo, uma sereia para agradar ao namorado que trabalhava no economato da marinha. Rafaela invejava tal gesto de afecto e ternura. Na praia, a amiga costumava usar um biquíni com cuequinha fio dental. Quando corria a silhueta da sereia mostrava-se magnifica mergulhando nas nalgas morenas da Carla Isabel. Era esse o nome da sua amiga. Vestiu o robe e escovou os dentes. A escova era nova e as cerdas, demasiado rijas, magoavam-lhe as gengivas. Escovou apenas o suficiente para se livrar do mau hálito nocturno. Saiu da casa de banho, envolta no cheiro enjoativo do gel exótico e oriental. Sentiu-se exótica e oriental como a rapariga que aparecia no anúncio da televisão. Vislumbrou na penumbra do quarto, o corpo do marido adormecido. Ressonava, o porco. Achou-o insignificante, assim deitando sobre os lençóis. Detestava a maneira como ele adormecia. Encolhido, parecia ainda mais pequeno.

Bifidus Activo (1)

Rafaela acordou cedo. Com um passo pesado dirigiu-se à casa de banho. Quando acendeu a luz os bichinhos, que tomam conta da escuridão, esgueiraram-se pelas frinchas do rodapé. Sentou-se na sanita de olhos fechados e boca aberta. Sornou baixinho enquanto um jacto de mijo amarelo, muito quente, afogou os seus sonhos nocturnos e a fez despertar. Enfiou-se na cabine do duche e lavou-se com um gel de banho cujo aroma era anunciado na televisão como sendo exótico e oriental. Era o cheiro das cerejeiras do Japão que o anúncio prometia. Rafaela não resistia à poesia da publicidade. Por mais que o marido a incitasse a comprar marcas brancas, enchia sempre o carrinho do supermercado com os produtos mais caros que a televisão aconselhava. Dos cereais de fibra com frutos secos aos toalhetes hidratantes para limpar o rabo, das águas minerais com sabores a fruta às bolachas maria com antioxidantes, a sua despensa era um regalo para os publicitários, técnicos de vendas, especialistas em promoções e talões de desconto. Rafaela era um alvo fácil. Muitas vezes imaginava-se a ser abordada na rua para falar das propriedades do último iogurte com bifidus activo. Havia de falar com segurança das melhorias que notara no trânsito intestinal e também no desaparecimento da sensação de inchamento.

2008/04/19

Ayaan Hirsi Ali


(A inveja é um pecado feio. Eu sei.)

Nojoud Nasser

Os holofotes estão virados para a crise interna do maior partido da oposição. Correm os comentadores às televisões e às rádios para nos dar a conhecer os seus palpites. São feitas listas de putativos candidatos. Este, aquele, aquele outro. Desmontam-se as intrigas palacianas que os baronetes urdem contra a arraia-miúda. E vice-versa. Todos têm uma opinião. Um supetão de remoques, vindos daqui e dali, dar-nos-á conta dos últimos desenvolvimentos. Os blogues enchem-se dos habituais comentários e de intermináveis discussões sobre o líder cessante e o líder vindouro. Num dia de tal afã na vida política portuguesa, ninguém se lembrará de Nojoud Nasser, a menina iemenita e da sua história. Aos oito anos foi entregue pelo pai para casar com um homem de trinta anos. Viveu um inferno. Foi constantemente espancada e violada. Pediu ajuda às tias, aos tios, primos, primas. Pediu ajuda à mãe. Viraram-lhe as costas. Foi sozinha ao tribunal onde expôs o seu caso. O juiz conta que se comoveu quando a viu chegar só ao seu gabinete. Acabou por decretar a anulação do casamento. Incomoda muita coisa nesta história. Não é tanto o vir mostrar, uma vez mais, o modo como o Islão trata as mulheres. Incomoda, sobretudo, o silêncio que se sobre ela se abate.

Red Shoes

Há qualquer coisa nos sapatos vermelhos do Papa que me perturba. Não sei bem o que é, mas, ao vê-lo de vestes brancas e sapatões encarnados, dou por mim a tentar adivinhar que tipo de roupa interior usará. Parece que estão muito na moda os slips Robert Cavalli. Acho que a Laurinda Alves podia escrever sobre tal assunto. É um tema aliciante. Mais interessante do que aqueles que costuma abordar. As crianças, os idosos, os doentes, as reclusas, os retiros, os doentes, a fé, a esperança.

2008/04/15

Mrs. Robinson


Senhorita

A menina da caixa, uma brasileira de pele leitosa, sardenta e sorridente, chamou-me senhorita. Quer café, senhorita?, foi assim que ela disse. E continuou, freneticamente, dedilhando a caixa registadora. Uma mulher, de óculos quadrangulares vermelhos e cabelo cor de palha, a quem a brasileira sorridente, momentos antes, chamara senhora, olhou-me com desprezo. Havia de ter cinquenta anos, por aí, e via-se, pela maneira de vestir e maquilhar, pelo cheiro do perfume que usava com parcimónia, que era uma mulher bem sucedida. Usava uma mala Furla cor de laranja e trazia o Currier Internacional debaixo do braço. O desprezo do seu olhar ficou a pairar durante vários segundos no ar. Depois enfiou-se pelos buraquinhos dos meus poros e preencheu o vazio que trago nos ossos.

(As mulheres não gostam mesmo nada de envelhecer).

2008/04/14

Democracia

Em Itália, um aldrabão, que pinta o cabelo de preto asa de corvo, useiro em subverter os princípios mais básicos da democracia, está prestes a ganhar as eleições legislativas. Em Portugal, um monstrengo de olhos esbugalhados, alucinado, trata os deputados regionais sem um pingo de respeito, chamando-lhes tudo o que lhe apetece. Há quem ache graça. Na Venezuela, um demente, aclamado por tantos, acha perniciosos os Simpsons e resolve substitui-los pelo mamalhame siliconesco da Pamela Anderson. A democracia é o melhor dos sistemas políticos. Mas presta-se a cada vexame.

Refém

A Manuela Ferreira Leite, em entrevista à Renascença, veio defender que o PSD, se ganhar as próximas legislativas, deve revogar a futura lei do divórcio apresentada pelo PS, aquela que acaba com o divórcio litigioso. Ainda bem que o PSD, anda moribundo, autofágico e, por isso, nem em sonhos ganhará as próximas legislativas. Confesso que não percebo o empenhamento de tantos na oposição à proposta do PS. A lei vigente prevê duas modalidades de divórcio, o amigável e o litigioso. Há casos, porém, que não se enquadram em nenhuma das duas situações. Não são carne. Não são peixe. São situações de indefinição, nas quais o cônjuge que pretende pôr fim ao casamento, quase sempre, atura o intolerável. O outro não assume que não se quer divorciar. Porém, escudado na tacanhez da lei, dificulta ao máximo a resolução do problema. Pior, muito pior, faz refém o cônjuge que se quer divorciar. O cônjuge-refém, digo-o com clareza e sem alarde feminista, é, quase sempre, mulher. Esta não sai de casa para que, em situação de litígio, não a acusem de abandono dos filhos e da morada de família. Esta não assume outra relação para que não a acusem de infidelidade. Esta continua, muitas vezes, a franquear a intimidade e a cama para que, na sala de audiências, não a acusem disto e daquilo. A não alteração da lei prejudica, penaliza, mói, maltrata, sobretudo, as mulheres. Não tenho dúvidas sobre isso. Que os homens o não compreendam, ainda vá que não vá. Os homens são como são. Agora que as mulheres assobiem para o lado ou adoptem um argumentário bolorento, é coisa que me chateia profundamente.

2008/04/09

Gatos Pretos

Gato Preto, Gato Branco / Emir Kusturica

Maria Eulália

Às vezes, quando o frio da madrugada lhe arrepiava o corpo, Maria Eulália abandonava as lonas e adormecia perto da fogueira. Era um fogo mortiço, de horas tardias, aquele que encontrava, um fogo molengão feito de brasas que já só palpitavam corações frágeis de quentura. Bastava, porém, a Maria Eulália a lembrança das labaredas iniciais para logo começar a sentir o corpo morno. Mal se levantava do colchão sentia os movimentos das crianças esticando as pernas, ajeitando-se no escuro, preenchendo o vazio que deixara. No tempo em que Pedro ainda estava dormiam todos naquela tenda. Dois adultos e cinco crianças. Os pais deitavam-se num colchão enquanto os filhos se ajeitavam pelo espaço que sobrava. Fabiana, a mais pequena, tinha um jeito estranho de dormir. Enroscava-se nas pernas do pai, agarrando-as como um náufrago se agarra ao mastro de um barco que se afunda. Adormecia sempre com uma expressão desesperada.

Quando Pedro estava com o clã Maria Eulália não sentia frio. Era um homem muito gordo e talvez por isso o seu corpo exalava ondas de calor que se espalhavam pela tenda. Mas agora, que Pedro não estava, custava-lhe adormecer. Por mais que se encolhesse, por mais que se encostasse aos filhos, o corpo não aquecia. Por isso fugia para perto da fogueira. Pegava numa manta, enfiava a pagela de Santa Sara na algibeira do avental e deitava-se lá fora, junto do fogo. Quando o velho acordava e a encontrava ali começava, de imediato, desfiando uma torrente de insultos. Aos gritos, para que as outras mulheres o ouvissem, dizia-lhe que não podia deixar as crianças sozinhas, que era seu dever cuidar dos filhos de Pedro, que ainda um dia acontecia uma desgraça, que quando essa desgraça acontecesse havia de a arrastar pelos cabelos e de a matar como uma cadela. O velho abria muito boca e os gritos que de lá saíam misturavam-se com um hálito podre de entranhas e morte. Maria Eulália escutava-o em silêncio. Não lhe explicava que apenas trazia o corpo para perto da fogueira. Não lhe explicava que, durante a noite, a sua sombra continuava nas lonas, deitada no meio dos filhos. Ao lado da sombra de Pedro.

(Ontem foi o Dia Internacional do Cigano. Lembrei-me dos ciganos dos filmes do Kusturica. Distantes e alegres. Lembrei-me do grupo de mulheres ciganas que, certa vez, se sentaram ao meu lado no comboio e me elogiaram as arrecadas. Lembrei-me da cigana mais bonita que conheci. O irmão retalhou-lhe o rosto depois de ter descoberto que ela dormira com um preto. Lembrei-me da menina espaventosa que subia a estrutura de madeira e me disse chamar-se Shakira Isabel. Lembrei-me da cigana da vista vazada que me persegue na rua mais feia da cidade para ler a sina. Lembrei-me dos rapazes do bairro social Alfredo Bensaúde, que se vestem como as estrelas do futebol. Movimentam-se em bando, para aterrorizar, assaltar e insultar os outros. Lembrei-me da minha tia Dé, olhando-os da janela e dizendo entre dentes “Lá vai a ciganagem!”)

2008/04/07

Julien Clerc - Ce n'est rien

(Ao ouvir esta canção, que adoro, percebo que nasci na década errada.)

Barreiro (2)

No passeio, em frente do restaurante e da loja, há quatro acácias. O sol incide sobre a folhagem e a luminosidade do dia torna-as especialmente bonitas. Sei que são acácias porque lhes reconheço a forma espraiada dos ramos. Fazem lembrar um postal que a minha mãe jovem mandou de África. Mostra um caminho de terra vermelha, ladeado por acácias enormes, cheias de flores roxas. Na parte da frente do postal, o roxo das acácias e o vermelho alaranjado da terra. Na parte de trás, a letra redonda, quase infantil, da minha mãe, dando conta da sua vida em África. Volto à praça que hoje encontrei no Barreiro. No meio da praça há um jardim. Um pequeno quadrado verde, bem tratado, com poucas árvores e muitos bancos, onde estão sentados vários homens velhos. Estão sozinhos apesar de estarem tão perto uns dos outros. Não falam, não jogam às cartas ou ao dominó. Estão completamente sós. É tão fácil estarmos sós no meio da multidão. Um fuma um cigarro, outro faz festas na cabeça de um cão amarelo que, tal como ele, tem também olhos tristes, outro coça a virilha, outro tem as mãos pousadas num jornal que não lê, outro observa as pessoas que passam. A praça tem um ar decadente. Faz parte de uma cidade onde já ninguém quer viver. Tem também um ar triste de abandono. É como se as pessoas com vida dali tivessem fugido, deixando para trás apenas os velhos moribundos de olhar triste e as velhas que fumam à janela. Esta praça faz-me lembrar um sítio onde já estive. Um sítio que guardo na memória, sem saber se o sonhei ou se o vivi. Se calhar é por causa das acácias banhadas de luz. Acontece-me muitas vezes. Lembro-me de locais, de ambientes, mas depois não sei se estive lá ou se apenas sonhei ter estado lá. A praça que vi aqui, no Barreiro, por uma razão que não sei explicar, fez-me lembrar Moçambique. Senti uma sensação estranha, um nó na garganta, como se já ali tivesse estado ou vivido.

(Começou a chover. As acácias do Barreiro já não estão banhadas de luz.)

Barreiro (1)

Estou no Tribunal do Barreiro. Enquanto espero que o Sr. Dr. Abílio acabe o julgamento do 1º Juízo, escrevo este texto. Abílio é nome de bicho, não de juiz. Se tivesse um lagarto, uma salamandra, uma iguana, um sapo comedor de moscas, chamava-lhe Abílio. Estou sentada numa mesa redonda, virada para uma janela que me mostra o rio e, ao fundo, um vislumbre pouco nítido de Lisboa. É a primeira vez que venho ao Barreiro. Calhou bem. Cheguei por volta das duas horas. Estacionei o carro num parque quase deserto. Dois homens de bigode, com gestos vagarosos, espreguiçando-se ao sol como lesmas, limpavam com flanelas amarelas o tablier dos respectivos carros. A caminho do tribunal, passei por uma praça que chamou a minha atenção. É uma típica praça dos subúrbios de Lisboa. Feia e pequena. De um dos lados da praça, os prédios têm cerca de três andares. Do outro lado, são maiores e têm uma cor indefinida, pardacenta, uma mistura de cinzento e amarelo. Em quase todos os andares os moradores optaram por fechar as varandas e fazer marquises com janelas de vidro martelado e caixilhos de alumínio. Vejo pessoas à janela. No quarto andar, está um rapaz, de robe, o cabelo em desalinho, a comer uma laranja. Deita, com descaramento, as cascas para a rua. Mais acima, uma mulher de cabelos cinzentos fuma. Do outro lado, no primeiro andar, uma velha debruça-se no parapeito para gritar com uma criança que passa na rua. Chama-se Fábio e a mulher que assim o chama é, quase de certeza, sua avó. Há roupa a secar nas cordas: calças, camisas, meias, cuecas, toalhas, lençóis. Num dos primeiros andares está estendido um cobertor verde alface que, pela exuberância da cor, dá nas vistas. Nas arcadas dos prédios mais altos, há um restaurante chinês e, mesmo ao lado, uma loja de bugigangas orientais, com duas lanternas de papel vermelho na entrada. Nos vidros da loja anuncia-se a pequenez dos preços. À porta, dois homens chineses conversam. Estão ambos de cócoras e, de vez em quando, abanam a cabeça. Dão gargalhadinhas nervosas e mostram fileiras de dentes feios. Estranho que estejam de cócoras. Na China, no Norte de África, na Índia, é habitual ver as pessoas naquela posição. Mas eles não estão China. Estão numa praça do Barreiro. O facto de estarem sentados sobre o próprio corpo, numa posição fetal, torna-os assumidamente diferentes, desenraizados do resto da praça.

2008/04/04

Coeurs


2008/04/03

Rua

Trabalho na rua mais feia da cidade. É sombria. Comprida como uma serpente. Os homens usam fatos baratos, compram revistas de automóveis e comem de boca aberta. As mulheres aproveitam as horas de almoço para arranjar as unhas. Pintam-nas de vermelho sangue de boi ou branco estrela-do-mar. Também gostam de passear nas lojas de utilidades domésticas onde escolhem molduras baratas fabricadas na China. Há muitos escritórios, repartições públicas, bancos, consultórios. Nunca chega o Verão a esta rua. Nem sequer quando se ouvem os sinos das igrejas. Nem quando a rapariga velha, de olhos feios, atravessa a passadeira ajeitando a saia de ganga. As árvores têm copas densas e lançam sombras que escurecem os prédios. De tão feia que é, a rua onde trabalho torna a minha pele baça, os meus dentes amarelos, os meus cabelos brancos, enchem-se as entranhas do meu corpo de musgo, verdete, bolor, líquenes, as minhas pernas incham, as veias estrangulam-se em nós invisíveis. Morro quando chego pela manhã e morro quando parto pela tardinha. Morro por saber que voltarei no dia seguinte. É lá, na rua mais feia da cidade, que me cruzo com o poeta. Traz sempre um jornal ou um livro por baixo do braço. O olhar é incerto e inseguro. Fixa as pedras da calçada. Não olha os homens, nem as mulheres, nem os automóveis, nem o renque medonho de árvores sombrias. Não levanta sequer os olhos para ver a rapariga velha, de olhos feios, atravessar a passadeira, ajeitando a saia da ganga, num gesto desastrado de sedução. Passa o poeta apressado, mal tocando com os pés no chão, para que a rua mais feia da cidade não o entristeça.
(sou tão depressiva que até irrita.)

2008/04/02

Figueiras


(O meu alentejo, de montes pequeninos, cheira à folha da figueira.)

Navegador Solitário

Por culpa dele torci um pé. Tinha 18 anos. Era altura do Natal. Andava muito excitada por aqueles dias. Pela primeira vez, os meus pais autorizavam-me a passar o fim do ano sozinha, com um grupo de amigos. Uns dias antes, uma amiga oferecera-me uma cassete, preciosa, que ainda hoje guardo. De um lado gravara várias canções do "Escritor de Canções" do Sérgio Godinho. Do outro lado, outras tantas do "Por este Rio Acima". Ouvi esta cassete vezes sem conta, centenas de vezes, milhares talvez. As canções do Fausto punham-me num estado de euforia e felicidade. Despertavam em mim uma vontade desenfreada de dançar. Ignorando os olhares trocistas do meu pai e os gritinhos preocupados da tia Dé - ó filha, olha que tu cais! - punha-me a dançar as canções do Fausto, bem no meio da sala, sob o olhar severo das divindades hindus, trazidas da Índia. Mulheres serpentes. Homens com quatro braços e rosto de elefante. Ganesh, Shiva, Krisna, com os corpos esculpidos na madeira perfumada do sândalo, olhavam-me com espanto, não reconhecendo aquele dançar tão diferente do das suas terras longínquas. Era um dançar não contido. Não me limitava a abanar a anca ou a mexer os pezinhos. Não. Aquela música mágica entrava dentro de mim e fazia mexer todas as partes do meu corpo. Cheguei mesmo a aprender alguns passos de folclore que se adequavam perfeitamente ao ritmo daquelas canções. Foi num desses devaneios pela dança tradicional, entre saltos e pulos, com os bracinhos no ar, a dar uma pirueta, que torci um pé. Ainda me lembro das gargalhadas da mana, da aflição das minhas mães, do meu pânico perante a eminência de, por causa de um entorse, voltar a passar o fim de ano entalada entre os meus pais.

(Portugal não merece o Fausto. Merece a Marisa, insuportável, intragável, feia de morrer, sempre a fazer beicinho, a pôr-se humilde, a agradecer o reconhecimento, o sucesso, os discos de platina, os prémios, os poetas portugueses e sei lá que mais. Não posso com a mulher. É superior às minhas forças. Odeio-a.)

Dalida and Alain Delon - Parole

2008/04/01

Mulher-Bomba

Com um sorriso nos lábios, a mulher vai relatando a sua história. As adúlteras, as divorciadas, as mães solteiras palestinianas são convidadas a se fazerem explodir para minimizar a vergonha que provocaram nas suas famílias. Explica que o martírio lava a vergonha imensa do adultério e do divórcio. Ela, mãe de uma menina, quis tornar-se mártir do seu povo e, por isso, ofereceu-se para morrer. Deram-lhe um cinto de explosivos, explicaram-lhe como funcionava o engenho e deixaram-na escolher a cidade onde queria morrer. Escolheu a sua cidade preferida. A mulher tem lábios dourados e usa um véu cor de areia que a põe feia. Continua a falar. O que nela mais espanta é o sorriso com que conta a sua história. Parece uma criança que confessa uma travessura: um chocolate de amêndoas roubado num supermercado, uma mentira contada para justificar um disparate. Quando o jornalista lhe pergunta pela razão que leva uma jovem mulher a se fazer explodir, ela volta a sorrir. Se aos homens prometem setenta e duas virgens, às mulheres nada se promete de concreto. É normal que assim seja. As mulheres não merecem a atenção de deus. Ela, confessa, pensou vir a ser uma das setenta virgens.

Amoníaco

A Marta Crowford, apresentada como sexóloga, escreveu um livro sobre o prazer feminino. Numa linguagem simples e acessível, era o que o Público dizia, dá dicas às mulheres portuguesas para que estas possam tirar mais prazer do coito. Por exemplo, para a prática do sexo anal aconselha a utilização prévia de um clister. Ajuda a limpar a tripa. Já no sexo oral, para evitar o odor indesejável a urina, que se acumula nos refegos do prepúcio e torna a glande pouco apetecível, aconselha a limpeza do falo do companheiro. Não sei. Mas acho que a Marta Crowford tem uma visão um bocadinho amoniacal do sexo.

2008/03/30

Turíbulo

O diácono foi um comunista feroz. Depois, não sei que lhe deu, converteu-se. Passou a ser um católico feroz. Tem um vozeirão grave que, por vezes, me assusta. E quando, muito sério, se envolve nas nuvens perfumadas do turíbulo parece um boi bafejante, resfolegando ruidosamente no altar. Acha-me bonita. Disse um dia que eu tinha uma beleza exótica. E enterrou-me os olhos na carne. Agradeci-lhe o elogio com um sorriso amarelo, amarelinho, e enfureci-me por dentro. Prefiro ser feia a ter uma beleza exótica.

Avenida do Uruguai

Tive uma tia, chamada Lucília, que se matou. Atirou-se do sétimo andar de um prédio de Benfica. Era uma mulher apagada, de silêncios prolongados, com uma vida aparentemente calma. Enviuvou cedo de um funcionário das finanças e, por isso, vivia com uma filha na Avenida do Uruguai. Tratava da casa, ajudava na educação dos netos, fazia as compras na praça, preparava o jantar. Sempre em silêncio. Coleccionava a teleculinária e deitava-se depois de ver a telenovela. As manhãs de domingo, passava-as no cemitério, tratando da campa do marido. Levava-lhe flores frescas. Cravos aninhados em nuvens fofas de gipsófila. Lavava o verdete do mármore com um paninho embebido em vinagre. Gostava muito de frutas cristalizadas. Quando a visitávamos no apartamento da Avenida do Uruguai, a minha levava-lhe um cartucho de frutas comprado numa mercearia de Moscavide. No dia em que se matou, fez uma canja de galinha e deixou os anéis em cima da cómoda, para que ninguém lhos tirasse. Sempre estranhei a sua morte por ser uma mulher simples, com uma vida simples, de hábitos simples. Não sei porquê, há em mim o sentimento absurdo de que a infelicidade e o desespero são prerrogativas dos sensíveis, daqueles que se ocupam da espuma, do supérfluo. Suicidam-se os escritores, os pintores, as poetisas. Os que esperam demais da vida. O suicídio exige um grau de sensibilidade, discernimento e sofisticação que a minha tia Lucília não tinha.

2008/03/26

Maria Bethânia - Reconvexo

Magenta

O Gustavo fez-me comprar um casaco magenta cintado que, com sorte, usarei depois da desova. Pôs-me também a ler “A Casa Grande de Romarigães”, do Aquilino Ribeiro. Gosto do Gustavo. Tenho um fraquinho por homens fracos, ainda mais desesperados do que eu, que se besuntam com a vergonha do falhanço, que choram, com lágrimas grossas, a amargura das suas vidinhas e que se amedrontam perante a liberdade e o alívio. Não tomam comprimidos suficientes. Erram a veia que cortam. Não enchem os bolsos de pedras quando se atiram aos rios e às lagoas. Gosto do Gustavo por, em tudo, sobretudo na tolice e diletantismo, ser parecido comigo. Só me aborrece que beba.

Compulsivos

Pior do que os leitores compulsivos só os leitores compulsivos de blogues.

Cérbero

Durante a adolescência interessei-me pelo Tibete. Li tudo o que me apareceu pela frente. Tirei notas num caderno de capa quadriculada que, mais tarde, no ramerrão das limpezas dominicais, perdi. Gravei os poucos documentários que passaram na RTP. Mostravam sempre caminhos de lama e janelas embaciadas que guardavam silêncios. Sublinhei, a lápis, a enciclopédia “Raças do Mundo”, comprada a prestações pela minha mãe no Círculo de Leitores. Os volumes, muito grossos, tinham lombadas verdes e destoavam, pela sobriedade, no meio do esparrame de memórias das viagens dos meus pais. Loiças de barro coloridas trazidas de Marrocos. Uma terrina de Limoges cheia de ramalhetes primaveris. Vidros coloridos de Itália. Latões cinzelados da Índia. Uma imitação de presa de elefante, minuciosamente trabalhada, comprada pelo meu pai a um guineense retinto na Baixa, ocupava lugar de destaque do móvel escuro da sala. Com o passar do tempo o meu interesse pelo Tibete desvaneceu-se. Ficou-me na lembrança o chá de manteiga de iaque, a poliandria fraternal e um sentimento vago de tristeza e desespero. A China aparecia-me, já nessa altura, nos primórdios da minha adolescência, como um monstro. Continua a sê-lo. Tornou-se, porém, numa criatura ainda mais medonha, um monstro de duas cabeças, que alia, num só corpo, o pior dos dois mundos.

2008/03/19

Yumeji's Theme

(dois homens aborrecidos falavam de livros na antena 2 e esta música surgia, atrás das palavras, como um murmúrio breve.)

Esmola

Um homem tira moedas de um saco de plástico e enfia-as nas caixas de esmola que se espalham pela igreja. As caixas são antigas, de madeira escura, com letras brancas a indicarem o propósito do gesto caridoso. Há-as para todos os fins. Para o culto. Para os irmãos necessitados. Para seminários. Para o jornal paroquial. Para a casa sacerdotal. Para o contributo penitencial. Há, também, uma caixa para as almas. É o que está lá escrito. Mesmo por baixo da ranhura onde se depositam as moedas e as notas, ao lado do cadeado, está escrito, a branco, “Almas”. Cada vez que o homem enfia uma moeda, os anjos dos vitrais largam as liras, as harpas, os violinos, e estremecem com o ruído que quebra o silêncio tumular da igreja. O homem pára. É então que um som cavo e arrastado surge das profundezas e fica a retinir nas paredes do templo. Ninguém parece estranhar. As mulheres que rezam o terço continuam a sua ladainha. O homem de bigode texano continua a rondar as velhotas de cabelo azul e violeta. A senhora da mantilha de renda branca, que se senta sempre na primeira fila, continua a contar a Deus as minudências da sua vida. Veio do mercado e as laranjas que traz no saco de plástico deixam no ar o cheiro invernoso dos laranjais do Arealão. As laranjas eram sumarentas, pouco doces e deixavam-me as mãos tisnadas. Olho, quieta, o anjo verde dos vitrais e lembro-me da prima Matilde, de lenço preto na cabeça, o xaile cruzado sobre a bata florida. Vivia perto dos laranjais, que cresciam em terrenos areentos, trazia no corpo entranhado o cheiro do fumo da lareira e tinha um filho, o Luis Carlos, rapaz moreno e bonito, dado a angústias profundas que, volta e meia, passava temporadas no hospital Júlio de Matos, em Lisboa. Chamava-me priminha e eu gostava que ela me tratasse assim. Deixo os laranjais do Alentejo e volto à igreja onde habitam todos os anjos da cidade. O som cavo, medonho, arrasta-se por mais alguns segundos. São as almas penadas que lançam gritos desesperados das profundezas do purgatório. Exigem que o homem deposite algumas moedas na sua caixa. Só assim Deus poderá requisitar os seus processos ao celestial arquivo e reavaliá-los com vista a lhes franquear, ou não, a entrada no Paraíso.

(Na sua mensagem para a quaresma de 2008, o santo padre convida os católicos à ascética prática da esmola. E fala dos pobres. Ai, os pobres…)

Bacorinho

Lembro-me bem dele. Era sobrinho ou afilhado de um professor qualquer e isso conferia-lhe um estatuto diferente. Vinda dos subúrbios, debutando numa esquerda militante, muitas vezes levemente etilizada, olhava-o com certa distância e despeito. Nunca troquei com ele uma palavra. Sentava-se sempre nas primeiras filas do anfiteatro. Distante, calado, levemente seráfico, enfiado num pulôver vermelho, tirando notas. Loiro, de um loiro penugento, e anafado, fazia-me lembrar, já naquela altura, um bacorinho tenro, grunhindo para dentro as angústias de uma vida infeliz. Acho que escrevia com a mão esquerda. Não sei porquê. Imaginava para ele, como para todos os meus colegas, um futuro jurídico, brilhante e insuportavelmente monótono, e uma vida familiar regular onde não se confessariam afectos, não se admitiriam excentricidades sexuais, lambidelas genitais e outros devaneios, e os filhos se entregariam aos cuidados de uma empregada zelosa. Compadecia-me dele cada vez que o via atravessar os lúgubres corredores da faculdade de direito. Mais valia compadecer-me de mim.

(O Pedro Mexia foi, por sugestão do Bénard da Costa, o que, por si só, revela o seu merecimento e valor, nomeado sudirector da Cinemateca.)

2008/03/17

Bafio

Abro a porta. Apesar de terem passado poucos dias, sinto um cheiro estranho. É um cheiro bafiento, velho, de naftalina e humidade, parecido com aquele que o tempo deixa nas roupas que estão guardadas nas arcas de madeira que existem nos corredores das casas das nossas avós. Arcas ornamentadas com desenhos embutidos de gueixas submissas, levemente idiotas, que passeiam entre pinheiros e riachos mansos. Por cima dessas arcas há sempre um naperon de linha grossa e um mostrengo, em forma de jarra, cheio de camélias ou rosas de plástico. As avós guardam nessas arcas a roupa branca dos seus enxovais: toalhas de linho com aplicações em croché, lençóis bordados a ponto pé de flor, toalhas de rosto com monogramas e raminhos de azevinho bordados a ponto cruz. São peças que bordaram com infinito vagar quando eram novas e que guardam para ocasiões especiais que nunca acontecem. É o cheiro dessas arcas e dessas roupas que encontrei ao entrar hoje aqui. Sinto esse cheiro nas palavras que escrevi, alinhavos dos meus dias. Deambulo pelas divisões. Leio alguns textos. Salvo uma ou outra excepção, acho-os insuportavelmente pretensiosos, maus até. Uma merda. Como este que agora escrevo. Graças a Deus sempre fui boa na arte da auto comiseração. É um facto. Volto a sair. Fecho a porta.

Sombra

Estou numa casa que não é minha. É uma casa muito grande. Fica no coração da cidade. Deambulo por uma sala rectangular feita de recantos e nichos. Os candeeiros de mesa têm abajours de franjinhas. Lançam pedaços de luz frouxa pela sala. Caminho até uma estante que cobre, de alto a baixo, uma das paredes. Olho para os livros que se amontoam nas prateleiras. Invejo esta sala, esta casa e esta imensidão de livros. Caminho na direcção do terraço. Há algumas cadeiras e espreguiçadeiras espalhadas. A cidade espalha-se em casas baixas que se encavalitam umas nas outras como peças indisciplinadas de um dominó. O casario é branco. Aqui e ali, vejo abóbadas. As ruas são sinuosas e esconsas como as de uma medina árabe. Ao longe, recortado pela cidade, obediente e manso, vê-se o mar. Já vi este mar noutros sonhos. Até já o experimentei. Já entrei nele. Como se entrasse dentro de alguém. No meu sonho Lisboa tem mar. O caudal do rio aumentou. Inchou. Furioso, galgou a outra margem. De um trago, engoliu as terras do sul. Transformou-se em mar. Encheu-se de sal. Serenou. Deixou-se habitar por sardinhas, medusas, cavalos marinhos, carapaus, robalos. Há uma quietude morna derramada por todo o lado. Não se ouve nada nem ninguém. O dia morre. O crepúsculo tem cor e cheiro. É alaranjado. Cheira a hortelã, a peixe seco e a fruta madura. Melancias, figos e laranjas. Lisboa é o que não é. Ou é o que já foi. Ou o que poderia ter sido. Uma cidade de deserto e mar. Preenchida por abóbadas, cata-ventos, minaretes, fontes de água fresca e praças de sombras. Estou dentro do sonho, no terraço desta casa, que não é minha, e penso: quero ficar aqui, para sempre, suspensa neste tempo e neste lugar.

2008/03/14

3


La Donna Gravida, Rafael

Mar

Já me apanhei várias vezes a afagar a barriga e a escrever o nome completo da criança que nunca viu o mar. Sou uma grávida velha e patética.

Corações na Penumbra

Ao serão, vi o Corações na Penumbra, filme baseado numa peça do Tenesse Williams. Às tantas, grogue de paixão, o Paul Newman diz que o mundo se divide entre as pessoas que sentem prazer quando fazem amor e as que não sentem prazer quando fazem amor. É um chavão insuportável.

2008/03/12

SG- Lisboa que amanhece

(as dádivas da noite nunca são eternas.)

PSD

O caldo entornou-se. Os cavalheiros tiraram as luvas e dão tabefes com a mão aberta. Os dedos ficam marcados no rosto. As críticas feitas pelo Rui Rio, pelo Pacheco Pereira, pelo António Capucho são graves, fundamentadas e directas. Responderam, do outro lado, com sobranceria e a falta de educação própria dos que chegam ao poder sem saber muito bem como ou porquê. A guerra foi declarada. É melhor assim. É preferível a guerra aberta às guerrilhas partidárias que se fazem em surdina, por corredores e bastidores, manipulando este e aquele, congregando esforços, pedinchando apoios. O confronto, aberto, permitirá clarificar posições, definir estratégias, gizar alternativas. Nada poderia ser pior para o PSD do que continuar a viver num clima de paz podre em que a mediocridade do líder, e dos seus cães de fila, se desculpa, a cada disparate, pelo facto de ter sido legitimamente eleito. É um embaraço cada vez que o Luís Filipe Menezes abre a boca. É um mal-estar constrangedor cada vez que o Santana Lopes aparece nos telejornais em périplos pelo interior do país. O clima de paz podre, em mim, fazia crescer o medo de ver o PSD tomado por um exército de Marcos Antónios, todos iguais, de óculos rectangulares de massa, barba de três dias, corte de cabelo duvidoso, insuportáveis na sua falácia política.

Folhado de salsicha

Logo pela manhã, ainda os bolos se apresentavam frescos nas vitrinas, falava a Lurdes da cafetaria com a menina Fátima da farmácia sobre a situação interna do Benfica. Dizia a Lurdes, que tem a voz baça, engrossada pelo fumo de milhões de cigarros, que o problema não é o treinador, até podia vir o Mourinho, nem os jogadores, o problema é a cambada de dirigentes que não tem uma política de rigor para o clube. Enquanto falava, a Lurdes manuseava com uma pinça os folhados de salsicha, dispondo-os em pirâmides, mesmo ao lado das empadas de galinha e das meias-luas de legumes. Via-se, pela tensão acumulada nos cantos da boca, rija, tesa, como um pedaço de cortiça, que a crise do Benfica a perturbava ao ponto de a fazer trocar os pedidos. Trouxe-me uma torrada aparada em vez do pão com manteiga que lhe pedi. A menina Fátima, que é belfa, escutava-a em silêncio, tão feia na sua bata branca, admirando o conhecimento profundo da outra sobre os assuntos da actualidade desportiva. Eu, se fosse uma mulher de coragem, saltava para o outro lado do balcão, amarrava a Lurdes com o fio cor-de-rosa que usam para atar as caixas dos bolos de aniversário e enfiava-lhe um folhado de salsicha pelos gorgomilos abaixo.

2008/03/09

Cansaço


Lucien Freud, Ib and her Husband (1992)

8 de Março

Pela vida, habituara-se a ver mulheres cansadas, estava farto de mulheres cansadas, até por não compreender a assustadora capacidade de se concentrarem em várias ocupações simultâneas e de violentarem o corpo até à exaustão”.

A Sala Magenta, Mário de Carvalho

Supérfluo

“No quarto, cortei uma franja rala na testa. Saiu torta. Fiquei me examinando no fundo amarelado do espelho. E se casasse? Seria uma forma de me libertar, mas no lugar da avó, ficaria o marido. Teria então de me livrar dele. A não ser que o amasse. Mas era muito raro os dois combinarem em tudo, advertira a minha avó. Nesse em tudo estava o sexo. “Raríssimas mulheres sentem prazer, filha. O homem, sim. Então a mulher precisa fingir um pouco, o que não tem essa importância que parece. Temos que cumprir nossas tarefas, o resto é supérfluo. Se houver prazer, melhor, mas e se não houver? Ora, ninguém vai morrer por isso.”

O Espartilho, Lygia Fagundes Telles

(Havia de ter tido uma avó assim, que me explicasse, sem rodeios, o meu papel na vida, no casamento e na cama. Teria evitado os pregos que trago enterrados na carne. Isso de uma mulher se achar no direito de ser feliz na vida, no casamento e na cama é uma tolice, uma modernice, uma palermice. Melhor abrir as pernas, arfar ligeiramente, receber o esperma conjugal, lavar os despojos, dar um beijinho de boa noite, virar para o lado, adormecer. Melhor viver no apartamento-prisão-labirinto, percorrer as divisões, distribuindo sorrisos, fazendo sopas, lavando copos e pratos, ajeitando as jarras de frésias e rainúnculos, estendendo cuecas, meias, lençóis, varrendo os cantos, sem nunca olhar para as grades que estão em toda a parte. Melhor ser uma deusa morta do que uma mulher viva.)

2008/03/06

007

Acordei sobressaltada com um barulho de rua. Não consegui voltar a adormecer. Pus-me a puxar para fora o sonho interrompido. É uma tarefa delicada. A partir da última imagem consigo reconstruir um sonho. É preciso paciência. Ir puxando o sonho delicadamente com uma pinça, roubá-lo às catacumbas escuras onde dormita e trazê-lo para a luz. São animais estranhos, os sonhos. Deitada na cama, vou olhando as imagens com atenção, procurando pormenores e detalhes, cheiros e cores. A certa altura aparece-me a imagem do meu pai. É normal o meu pai aparecer-me nos sonhos. Só que, desta vez, o meu pai é o James Bond. Eu estou apaixonada pelo meu pai. Não é bem paixão. Sinto-me, isso sim, sexualmente atraída pelo meu pai. Este sonho não tem nada de especial. É banal. Por isso mesmo me aborrece. Tem um significado comezinho: projecto nos homens, por causa da pila, do falo, do pénis, a imagem do meu pai. E é por essa razão que sinto culpa durante o acto sexual. Que miséria. Que falta de originalidade. Pelo menos, podia sonhar-me sexualmente atraída pela minha mãe, pelo meu hamster soviético ou pelo abominável António José Seguro. Mas não. Tinha de me sonhar sexualmente atraída pelo meu pai. É triste ser-se em estereótipo psicológico.

2008/03/05

Paul Simon - You can call me Al

Estearina

O Mariano Rajoy diz que reza quase sempre à noite e tem permitido a vergonhosa intromissão da igreja na campanha eleitoral espanhola. O Sarkozy pretende dar protagonismo às religiões, dizendo que “uma moral laica corre o risco de se esgotar quando não está apoiada na esperança que colmate a aspiração do homem ao infinito”. Quem é este palerma para falar de moral? O nosso Paulo Portas ainda não entrou nesta cruzada dos homens de bem, que confessam papar missas dominicais e ficar consolados com o cheiro a estearina das igrejas. Porém, volta e meia, também faz um ar compungido e finge que crê em Deus. Acredita quem quer na fé de pechisbeque destes homens. Perante a ameaça de um conflito civilizacional, em que um Ocidente laico se confronta com um Islão fanático, certa direita empenha-se em defender os valores matriciais europeus. Fá-lo, como sempre, da pior forma. Abdicando dos princípios basilares que, até ver, nos tornam melhores do que o resto do mundo: a laicidade do Estado e a defesa incondicional dos direitos do homem.

Pacheco Pereira

O Pacheco Pereira foi director do Público por um dia. Tenho um fraquinho pelo Pacheco Pereira há muitos anos. Gosto da inteligência e da frontalidade com que escreve e fala. Gosto sobretudo do uso que faz da liberdade. Há poucos homens livres. Gosto também de certa arrogância, do modo como encolhe os ombros e sorri quando o Jorge Coelho, sibilando as palavras, justifica cada gesto, cada política, cada opção, cada traque que o primeiro-ministro dá. Gosto do Pacheco Pereira mesmo quando discordo dele. E gosto da barba, do cabelo revolto, da gargalhada certeira, da pancinha, do olhar irrequieto. Se eu não fosse uma mulher de respeito, casada e mãe de dois filhos, atirava-me aos pés dele e jurava-lhe amor eterno.

Natureza

Nos jardins da fundação ouvem-se rãs. Há colmeias nas colinas de Chelas. Vejo uma fiada delas quando o comboio atravessa o vale. As hortas que ficam na beira da linha enchem-se de faveiras e ervilheiras. As alfaces desabrocham como rosas gigantes entre ruínas de gente e prédios de papelão. Os pássaros do meu bairro acordam de madrugada, numa algazarra primaveril que me faz chorar ao acordar. Acontece-me o mesmo com o som dos sinos. As manhãs são bonitas e claras. O rio enche-se de medusas e tainhas que se alimentam do lixo das águas. A natureza é linda.

Escápulas

Uma mulher de casaco azul, que escolhia laranjas, fez-me parar em frente da frutaria da avenida. O casaco era de um azul profundo, muito intenso, e envolvia-a da cabeça aos pés, aconchegando-lhe o corpo pequeno. Velha, usava os lábios finos esborratados de vermelho e o cabelo era fofo e branco como enchimento de almofadas. Nos pés trazia uns sapatos rasos de verniz branco. Um homem assomou-se de dentro da loja e cumprimentou-a. Reparei que tinha a pele muito vermelha e que o couro cabeludo estalado lançava pedaços de dermatite seborreica pelo pulôver azul-escuro. Pesou as laranjas e continuou a falar com a mulher do casaco azul. Olhei-os com a certeza de que seria incapaz de comprar e comer aquelas laranjas. Cada vez que metesse à boca um gomo havia de me lembrar das caspas gigantes do homem da frutaria. Despediram-se. Quando a mulher do casaco azul começou a andar ouviu-se um chocalhar de ossos. Um ruído estranho, de ossos secos, ocos, sem tutano, ossos mortos, batendo uns nos outros. Reparando no meu espanto, a mulher abriu o casaco azul e mostrou-me um esqueleto de ossos quase translúcidos, rendilhados e porosos, muitos certinhos e ordenados. Disse que ainda tinha medula nos ossos planos, sobretudo nas escápulas. Pronunciou a palavra “escápulas” muito devagar. Mastigou cada sílaba, mostrando-me os dentes certinhos da dentadura. Estavam manchados de baton vermelho. Es-cá-pu-las. Depois sorriu, fechou o casaco e continuou a andar.

2008/03/02

2008/02/29

Marjane Satrapi

Também fui ver o filme da Marjane Satrapi. A sala estava cheia. Apinhada de gente. Fiquei sentada ao lado de duas lésbicas. A lésbica inteligente passou o tempo a explicar à lésbica burra as minudências do filme. Até lhe explicou que Teerão era a capital do Irão. Insuportável, a lésbica inteligente. E riam muito, as parvalhonas. Com o seu riso exagerado, gargalhadas alarves em catadupa, queriam mostrar aos restantes iluminados que ali estavam que também percebiam a subtileza das piadas, a ironia do humor simples e inteligente. Esclareço: não sou homofóbica. Longe disso. Sou só muito democrática nas minhas embirrações.

Darjeeling Limited

Fui ver o Darjeeling Limited. A sala estava vazia. Eu e a minha solidão numa sala vazia. Coisa tão triste. Lembrei-me do atropelamento do João a caminho de Corturim perto da Roxane´s laundry. Procurávamos um riquexó que nos levasse a Benaulim. Íamos na beira da estrada, o João saltitando aos meus pés, como os gafanhotos dos verões da minha infância. E depois foi atropelado. Apesar de tudo, apesar de me ter morto por breves instantes, a Índia continua linda. O Adrien Brody também. Tem uns pés maravilhosos. Pés do herói indiano Sri Rama. Vi-o banhar-se nas águas verdes de Banganga e tinha uns pés assim.

Público

Vão perguntar ao Miguel Esteves Cardoso o que odeia no Público. Eu não sou o Miguel Esteves Cardoso. Mas respondo à mesma. Odeio as crónicas da Laurinda Alves à sexta-feira. Não percebo como é que lhe dão uma página inteira para discorrer sobre cuidados paliativos e grupos de oração. Odeio também um dos novos cronistas do P2, um tal de Kalaf Ângelo, que usa chapéu de coco. É um chato que acha que ser moderno e cosmopolita é sair à noite no bairro alto, jantar em restaurantes japoneses, fazer compras em mercados biológicos e frequentar lojas gourmet em busca de vinagres balsâmicos. Odeio, por fim, o facto do Público não ter uma secção de mensagens eróticas decente. Uma miséria. O Diário de Notícias bate aos pontos o Público nesta matéria. Lá se encontram as brasileiras com peitão XXL do Barreiro e os travestis, activos e passivos, da Ameixoeira. Uma variedade geográfica e descritiva invejável.

Sacavém

Houve um homicídio em Sacavém. Um toxicodependente matou os pais e depois suicidou-se. Vinha no jornal. Sacavém é terra de inquilinos comunistas que pagam rendas de 20 euros por casas que já não habitam - uns porcos, uns porcalhões, no dizer da minha sogra senhoria - e de gente sanguinolenta. Até a guarda é violenta em Sacavém. E também lá vive um serial-killer. Ainda há-de dar que falar. Noite fora, quando não está a retalhar corpos, escreve contos bukowskianos, monótonos, cheios de palavrões e africanas boazonas. Não gosto de Sacavém. Perdi lá a virgindade.

2008/02/26

Alaúde

Descia eu a avenida entretida a olhar os plátanos jovens, que já se cobrem das primeiras folhas, quando topei com uma colega do liceu. Estuguei o passo. Tudo nela continuava a transpirar a tristeza da sua adolescência: a permanente feita para dar corpo ao cabelo ralo, os dentes encavalitados a afunilarem-lhe o rosto, a insuportável monotonia dos castanhos no vestir, o castanho-escuro da saia a destoar do castanho-azeitona do casaco e do castanho outonal dos sapatos, o mesmo olhar de bicho assustado, que se esbofeteia sem remorsos e sem piedade. Tinha um pai autoritário que deixava papelinhos amarelos espalhados pela casa a lembrar as obrigações de recato, decência e empenho, próprias de uma rapariga da sua idade. Deixei-me ficar a olhá-la. Pouco depois, ainda eu me aninhava no conforto da maldicência, vi passar, do outro lado da avenida, um magnifico rabo com forma de pêra, descomunal, enorme, farto em carnes descaídas. A dona do rabo bamboleava apressadamente as nalgas, espartilhadas numas calças de ganga muito justas, afastando-as para longe de mim. Atraem-me os rabos grandes em forma de pêra, em forma de alaúde. É a atracção pelo grotesco do corpo. Acontece-me o mesmo com a magreza extrema das anoréticas e a feiura excessiva de certos pés. Hesitei entre seguir o rabo em forma de pêra ou deixar-me ficar ali a olhar a minha colega do liceu, tão pindérica no seu sobretudo castanho-azeitona. Tanto hesitei que, quando olhei em busca do rabo gigante, já não o vi. A vida está cheia de decisões difíceis que, muitas vezes, nos exigem rapidez e segurança. Sou incapaz de tomar tais decisões. Fogem-me os rabos em forma de pêra e o resto também.

2008/02/24

Charles Aznavour-Il faut savoir

Il faut savoir

Depois de jantar, deixámo-nos ficar à mesa a beber uma garrafa de vinho tinto e a fumaçar os gauloises do Manuel. Ela colocou o Charles Aznavour no leitor de cds. Obriguei-a a repetir vezes sem conta o “Il faut savoir”. Quando o Manuel chegou, enfiado no anorak de forro xadrez, que conheço dos tempos em que ele era apenas meu patrono, sorriu. Disse qualquer coisa do tipo “as manas já estão alegrotas!”. Estávamos. A alegria da minha irmã deu-lhe para dizer, com ar pateta, que adorava o Sr. Frazão, colega de trabalho. A minha alegria deu-me para falar de sexo anal com o meu cunhado enquanto ele comia fatias de pão besuntadas de um queijo amanteigado. Gosto do Manuel. E eu nem sou muito de gostar de pessoas. Desprezo, genuína e autenticamente, quase toda a gente a conheço. O Manuel é a única pessoa que conheço que é capaz de falar, com interesse, sem dissimulação ou pedantismo, com qualquer pessoa e sobre qualquer assunto. Não há muita gente assim. Tanto fala sobre as guerras púnicas e a Anna Magnani como fala sobre futebol e técnicas de masturbação.

(Ainda bem que não fui ao concerto. Estava lá o Herman José com uma camisa cheia de tachas douradas.)

Domingo

Aos domingos, enchem-se os centros comerciais de homens sós e tristes. Trazem pelas mãos crianças que olham em silêncio. Dão-lhes sandes, gelados, gomas, copos de coca-cola, compram-lhes baldes de pipocas, levam-nas ao cinema. Às vezes, quase nunca, abraçam-nas para sentir de novo a mornidão dos seus corpos tenros. Entregam-nas ao final do dia às mães que as esperam para por fim à solidão que chega de quinze em quinze dias.

Geni e o Zepelim

As pessoas vivem amorfas e tristes por serem incapazes de questionar as três relações importantes das suas vidas. A relação com a morte. A relação com os filhos. A relação com a sexualidade. Mas coisa, menos coisa, foi isto que ele disse. Quanto ouvi tal panaceia, estremeci. É que eu questiono tais relações e nem por isso sou mais feliz. Quando o faço percebo que falho em todas elas. Falho na relação com a morte por cobardia e intermitência. Falho na relação com os filhos por excesso. Falho na relação com a sexualidade por tudo. E também dá-se amiúde aos velhinhos sem saúde e às viúvas sem porvir… Quem assim sabiamente falou foi o Eduardo Sá, o homem da voz feita de coisinhas boas, que, ao final da tarde, vira os dias do avesso com a Isabel Stillwel na Antena 1. Uma outra vez, já há algum tempo, dei por eles a discorrer sobre sexo e prazer. Segundo o Eduardo Sá, só há prazer, verdadeiro prazer, quando, numa relação de total confiança e comunhão, se penetra da superfície da pele ao fundo da alma. Desliguei o rádio e deixei-me ficar em silêncio a roer as unhas até o sabugo rebentar. Depois corri à cozinha em busca der uma faca de serrilha, suficientemente afiada e dolorosa, para cortar os pulsos. Escorreu sangue por todo o lado. Vi-me aflita para limpar as nódoas do tapete que está por baixo do lava-loiças.

2008/02/22

2008/02/19

Paquistão

Há, entre os Bhuttos, uma mulher de que pouco se fala. Chama-se Fátima. Jovem, extraordinariamente bonita, com um rosto longo, tem a altivez própria das rainhas antigas. Neta de Zulfikar Ali Bhutto e sobrinha de Benazir, critica abertamente o sistema de dinastia política que impera no partido da sua família, o PPP. Diz, e com razão, que nenhuma democracia se pode construir com tão frágeis fundações.

Cuba

Quando se reformou do banco a primeira viagem que o meu tio Alberto fez foi a Cuba. Veio de lá maravilhado. Não eram só as praias, as mulatas, os mojitos e a música. Gabava sobretudo as maravilhas de um socialismo consolidado: o nível de instrução da população, os cuidados médicos, as escolas, o espírito solidário das pessoas. Quando me atrevi a falar-lhe da miséria do povo cubano, tratou de me olhar com a displicência própria da sua geração - que, como não se cansa de lembrar, fez o 25 de Abril - e logo a imputou ao embargo americano. A verdade é que a esquerda nunca escondeu a sua admiração pelo regime cubano. Atribuiu ao seu líder carisma e fez dele um herói da luta anti-americana. Assobiou, vergonhosamente, para o lado cada vez que apareceram notícias sobre os presos políticos, a censura, sobre os ataques à liberdade de expressão, sobre o sistemático desrespeito pelos direitos humanos. Os povos oprimidos só merecem a solidariedade da esquerda se a sua desgraça puder, de alguma forma, ser atribuída aos americanos. Os outros povos esquecem-se. A esquerda é perita em gerir solidariedades e apoios. Veja-se o caso do nosso José Saramago, homem tristemente preso no seu redil, incapaz de apertar a mão ao presidente Cavaco, mas tão fiel ao amigo Fidel. Só descobriu que Cuba era uma ditadura quando o regime não conseguiu esconder a execução sumária de três homens que procuraram na incerteza do oceano a liberdade que não podiam encontrar no seu país. Esta esquerda, bacoca e senil, sente hoje uma mágoa, um aperto no peito, um não-sei-quê de sincera ternura, perante a anunciada retirada de Fidel Castro da chefia do Estado e das Forças Armadas de Cuba. E continua a gritar “Socialismo ou morte! Hasta siempre comandante!" É estranho. E profundamente triste.

2008/02/18

Chuva

1) Esta noite, enquanto lá fora ribombavam trovões e o céu se desfazia em pingos grossos de chuva, sonhei com o Francisco José Viegas. Tinha carapinha de caracol solto, o que o favorecia, mas não sabia fazer filhós. Punha-lhes demasiada farinha, era avaro na aguardente e, decididamente, não sabia sovar uma massa. 2) Anda um carro de bombeiros na minha rotunda. A mulher do quarto andar do prédio em frente ligou outra vez o gás. Há um bombeiro empoleirado numa escada gigante. Os transeuntes formam pequenos grupos. Hoje, porém, é um péssimo dia para se suicidar. O aparato é menor. Da última vez, vieram três carros de bombeiros, dois da polícia e vários do instituto nacional de emergência médica. 3) Espero que a chuva tenha arrastado o serial killer de Sacavém. Dizem que as águas se amotinaram por lá, galgaram ruas e passeios, esbulharam estabelecimentos comerciais e casas, deixando um mar de lama por todo o lado.

2008/02/14

Fausto Bordalo Dias

Feira Nova

Vivemos numa época em que a vida se leva como se fosse um anúncio de telemóvel. É obrigatório estar preenchida com conversas animadas e com muitos amigos circunstanciais, com quem jantamos ocasionalmente para falar de filhos e viagens a países distantes, recomendáveis pelos spas dos hotéis e também pelos nativos risonhos e subservientes. Num tempo assim, atafulhado de alegrias e encontros, a tristeza não se confessa. Não se murmura sequer. A tristeza embaraça. Gosto do meu marido por ser a única pessoa a quem posso ligar a meio da tarde só para dizer que estou triste. Estou triste, digo-lhe e o bocal do telefone enche-se de papoilas, flores efémeras, e de borboletas negras que adejam, frágeis, antes de morrer. Ele consola-me com silêncio e um alfarrábio agustiniano que encontra numa venda de rua e me entrega quando chego a casa. O livro, bafiento, cheira ao restolho húmido dos campos de inverno, aos toros de oliveira queimando devagar nas fogueiras, aos rios caprichosos do norte. Cheira à vida e à morte dos outros. Vem o livro embrulhado num saco de plástico do feira nova e esse pormenor, sei, não o hei-de esquecer. Entre as folhas, traz dois postais amarelos do Rio de Janeiro, escritos, numa letra inclinada, por uma mulher chamada Maria Adelaide.

Gesto

Haviam de decepar as grávidas que passam a vida a afagar as barrigas. É um gesto de insuportável lamechice. Pensam as pobres que o amor a um filho nasce assim, num instantinho, de repente, por dá cá aquela palha, só porque a cópula foi bem sucedida e um feto lhes saracoteia no ventre. Só amei os meus filhos, só tomei consciência de que era amor que lhes tinha, muito depois de os expulsar do corpo.

2008/02/11

Teresa Torga

Mandela

Tive o primeiro diário aos doze anos. Tinha uma chave pequenina, de dentes muito recortados, uma capa nacarada, feiíssima, com uma princesa barroca, dançando alegremente num jardim de arbustos. Lá confessei os pecados de criança, a noctívaga compulsão masturbatória, a chatice rotineira do ciclo preparatório, as precoces discussões com o meu pai que, volta e meia, me enchia de sopapos por eu falar mal do Salazar. Um dia, já não sei a que propósito, resolvi fazer uma lista dos meus heróis. Lá estão: Jesus Cristo, Bryan Adams, Luther King e Nelson Mandela. A ordem, suponho, foi aleatória. Sempre que releio aquele diário, o primeiro, sinto um certo constrangimento, uma vergonha miudinha que me cobre o corpo e me faz enrubescer as faces. Não tenho, porém, vergonha dos dislates juvenis que lá escrevi. Nem sequer renego o amor pelo Bryan Adams. O que me embaraça é a caligrafia redonda de adolescente. A letra de imprensa em detrimento da letra manuscrita, que aprendi a desenhar, elegante e cuidada, com a professora da primária. Pior, em cima do cada “i”, a fazer de pinta, uma enorme bola, muito redonda, muito gorda, muito insuportável. Uma vergonha.

(Em 1990 um dos meus heróis, de menina e de sempre, foi libertado. Descobri nesse dia que se podia chorar de emoção e de alegria e que era bom. Faz hoje 18 anos.)

Obamamania

O meu pai é indiano, a minha mãe é portuguesa, o meu irmão é negro. Eu sou tricolor, branca, castanha, negra, porque herdei também o breu do meu irmão. As questões da raça e da discriminação sempre as senti na pele como minhas. Vem este intróito a propósito do crescente e histérico frenesim que se tem gerado à volta da candidatura do Barak Obama. Dizem os seus apoiantes que ele é uma lufada de ar fresco, que herdou os dotes de oratória do Luther King, que é capaz de galvanizar as multidões, que recolhe o apoio do clã Kennedy, que é negro e, por ser negro, a sua eleição poderá significar um sinal de mudança e tolerância no mundo. Tamanho disparate dá-me cabo dos nervos. Não gosto de dinastias, desconfio sempre da eloquência dos discursos e acho que escolher um presidente por ser negro é pior do que rejeitá-lo pela sua cor.

2008/02/06

Under My Thumb-The Rolling Stones

Ácido Muriático

Expliquei o meu problema à senhora da drogaria: o cheiro que fugia dos canos e se espalhava pelo apartamento como uma gaze invisível, o cheiro que, logo pela manhã, me afagava o nariz, com mãos pútridas, e me fazia correr à casa de banho para vomitar os sonhos da noite. Escutou-me a senhora da drogaria em silêncio e aconselhou-me ácido muriático. Muito velha, falando de olhos fechados, explicou as vantagens do ácido em relação à soda cáustica. Atrás dela, que me pareceu uma feiticeira cheia de sabedoria, uma pitonisa capaz de resolver os mais intricados enigmas do mundo, prateleiras carregadas de detergentes e diluentes. Mal cheguei a casa corri à casa de banho. Abri o ralo e deitei o líquido para matar o bicho dos canos. Ouvi gemidos de agonia. Tal como avisara a pitonisa da drogaria o cheiro desapareceu imediatamente. Milagroso, pensei. E meti a garrafa do ácido à boca. Fervilharam-me as goelas e o corpo ardeu-me por dentro.

Melena

A direita despreza o seu estilo, a sua pronúncia, os tiques chavianos de apontar o dedo aos ricos e poderosos. Colhe os aplausos de certa esquerda, que aprecia o estilo trauliteiro, truculento e inconsequente. O Carlos Magno, que é seu amigo (mas de quem é que o Carlos Magno não é amigo?) assegurou no Contraditório da Antena 1 que o novo bastonário pensa muito no que diz. Fiquei mais sossegada. Há, porém, duas coisas que me inquietam. Uma é que o homem que acusa a justiça de ser fraca com os fortes e forte com os fracos diga que a investigação levada a cabo no caso Casa Pia pretendeu a decapitação do partido socialista. Parece que, no caso Casa Pia, o bastonário, como quase toda a gente, está mais preocupado com os fortes do que com os fracos. A outra é o penteado. Agora que é bastonário, em vez do lustro untuoso da brilhantina, que lhe dava uma certa graça de merceeiro, cai-lhe, revolta, uma melena sobre a testa. Estremece a melena cada vez que levanta a voz.

2008/02/05

Swarovski

A Rafaela fez extensões e colocou unhas de gel. Foi a prenda de Natal que pediu ao marido. Agora, para além da banda gástrica, tem um mar de coisas postiças pelo corpo. Hoje, pela manhã, caiu-lhe uma unha perto da fotocopiadora. Foi uma aflição. A gente ouvia-lhe os gritos pelo corredor, pedindo que ninguém pisasse a sua rica unhinha. Quando finalmente a encontrou, voltou para a secretária, tomou um calmante e ligou para a manicura, uma brasileira chamada Débora, que mora na Brandoa. A Débora, pelo que percebi, é especialista, não só na colocação de unhas de gel, mas também na decoração das mesmas. Explicou que era normal o decesso das unhas de gel, que, mais cedo ou mais tarde, as marotas partiam e davam lugar às verdadeiras, tão insignificantes, autênticas e rosadas. A Rafaela acalmou-se e disse, juro que disse, que já não podia viver sem unhas de gel. Fez marcação para colocar novas unhas, desta vez incrustadas com cristais swarovski. Eu estremeci. Mal posso esperar.
(não suportaria o tédio da minha vida sem esta mulher.)

2008/02/02

La Saraghina-Fellini's 8½

Candidaturas bicéfalas

Com as devidas distâncias, a Hillary Clinton, ao permitir os empolgamentos do seu marido Bill na campanha eleitoral, faz lembrar a Cristina Kirschner, habilidosamente utilizada pelo seu Nestor para continuar à frente da presidência da Argentina. Estas mulheres, padecentes do síndrome evita peron, fazem-me espécie.

Mãe

Via passar os carros funerários, quando era pequenina, e achava-os lindos. Eram pretos e compridos. Passavam por mim, lentos, sempre envoltos num halo de sofisticação e cerimónia. Através dos vidros fumados via coroas de flores, colchas debruadas a fio dourado e mulheres pesarosas, tão bonitas nos seus vestidos de luto. Um dia, enquanto esperávamos na paragem de autocarro perto do hospital onde trabalhava, expliquei à minha mãe que gostava daqueles carros. Ela olhou-me com horror durante longos segundos e depois largou um Ai filha, não digas disparates! Em surdina, disse que aqueles carros levavam os mortos aos cemitérios. A minha mãe falou da morte como se a morte não fosse coisa dos vivos. A morte acontecia aos outros, aos indigentes, aos doentes, aos muito velhos, inevitavelmente, aos quase mortos. A atitude da minha mãe, em relação à morte, foi de tal distância que, na minha cabeça de menina, me convenci de que ela, tão viva, nunca me morreria. Aos trinta e cinco anos continuo convencida de que a minha mãe nunca me morrerá.

(Começam a morrer as mães da minha geração.)