2009/03/11

Pastoral Portuguesa

Desconfio que a quase totalidade dos bloggers que costumo ler, e que estão na coluna do lado, teve um chilique quando deparou com o súbdito desaparecimento. Neste preciso momento, agonizam em frente dos seus computadores e preparam, com afinco, textos sobre a indispensabilidade do estilo casanoviano na blogosfera portuguesa. Já eu admiro o gesto. Não há nada mais deprimente do que escrever num blogue.

Deus

A minha filha anda na catequese. Anda na catequese e acredita em Deus. Ontem foi a Fátima com a sua catequista e veio de lá maravilhada com os pastorinhos, a devoção popular, o sol que bailou sobre um campo de margaridas, as pagelas de oração com a imagem da nossa senhora, tão linda, boazinha, seráfica, as lojas onde se vendem velas com forma de pernas, mãos, braços, o casinhoto miserável onde a santa família vivia, cheia de catres e bilhas de barro. À noite fui dar com ela, enfiada na cama, a rezar o terço. Olhou-me de soslaio. Custa-lhe que eu não acredite em Deus. Sente nisso, nessa total incapacidade de aceitar o divino, uma incompetência materna.

Aravind Adiga


2009/03/10

Japão

O Japão é um lugar estranho. Comprei o livro por duas razões. A primeira: descobri, há pouco tempo, que o meo oferece um canal que passa exclusivamente filmes de animação japonesa. Chama-se Animax e seduz com todas aquelas histórias fantásticas de espíritos, vampiros, guerreiras, shimigamis, princesas de olhos redondos e heróis andróginas. A segunda razão: a capa do livro é magenta e eu tenho dificuldade em resistir a objectos de tal cor. Acontece-me o mesmo com o amarelo-torrado.

MEC

Antigamente, quando abria o Público, procurava ler em primeiro lugar a coluna do Eduardo Prado Coelho. Salvas raras excepções, abominava tudo o que escrevia. Gostava de começar o dia assim, com esse frémito de irritação, buscando em cada parágrafo um cliché esquerdista, em cada palavra um vestígio de insuportável pedantismo intelectual. Quando morreu o coro de elogios foi unânime e ruidoso. Acanhei-me perante tamanha homenagem e passei a folhear o Público sem método, desregradamente. Percebo, porém, que isso mudou. Agora, mal abro o jornal pela manhã, procuro a coluna diária do Miguel Esteves Cardoso. Leio-o com assumido deleite. Fale ele do seu neto António, das cancerígenas sardinhas esturricadas ou das subtis variações com que os intelectuais nortenhos pronunciam certas palavras, Mac e Apple, os seus textos mostram como é arguto, mordaz e sincero, absolutamente indispensável. Lê-lo passou a ser um gesto diário como o primeiro cigarro que fumo no estendal depois de deitar, e calar, a canalha pequena.

2009/03/06

Brilliant Histoire d’Amour

Depois de uma paixão, assolapada e imbecil, uma mulher, quando finalmente deixa de gostar de um homem, passa por várias fases. Há a fase da surpresa. Há a fase do alívio. Há a fase do nojo. Há, por fim, a fase do vazio. Maria Viegas estava na fase do nojo. Dava por si a lembrar-se de olhares, palavras, gestos e a sentir-se ligeiramente nauseada. Com vontade de abrir a boca e vomitar. Pela manhã, no carro, em pleno túnel, enquanto pintava os lábios com o brilliant histoire d’amour da lâncome, veio-lhe à cabeça uma palavra. Uma única palavra. Uma palavra escrita. Uma palavra corriqueira. Banal até, mas que odiava. Que era incapaz de utilizar. Esgalhado. Esgalhar. Esgalho. Deu um grito e fez um esgar de repulsa. A palavra em questão não lhe fora sequer dirigida. Esborratou-se. Na falta de um lenço de papel, limpou a boca a um dos muitos bilhetes de parquímetro amarelecidos que se acumulavam no tablier. Começou de novo. Foi então que olhou para o lado. Viu um homem grande e gordo. Um urso gigante. Ou um hipopótamo vagaroso. Percebeu, nesse preciso instante, que, relativamente ao seu marido, apesar de tudo o que acontecera, apesar de tudo o que estava para vir, nunca passara, nunca passaria por uma fase de nojo.

2009/03/05

Ler

(Tenho um fraquinho pelo António Barreto. Qualquer mulher de bom gosto tem.)

Desejos

O Público de hoje conta que os homens árabes procuram mulheres israelitas para casar. As israelitas têm fama de inteligentes e bonitas. O Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita recebe por ano dezenas de cartas de árabes solicitando que lhes arranjem uma noiva judia, estando muitos dispostos a pagar o respectivo dote, em camelos ou cabras. Pobres árabes que se deixam seduzir pelo mundo ocidental, tão decadente, tão desregrado, tão livre, tão desejado. Li a notícia e lembrei-me dos homens indianos. Todos os dias, chega às praias de Goa uma chusma de gente vinda do interior indiano. Querem ver o mar. Uma pessoa caminha pelo areal e tropeça em famílias inteiras, pais, mães, filhos, avós, cunhados, primos. Deixam-se deslumbrar pelo mar e experimentam-no. Os homens despem-se e, de roupa interior, cuecas e camisolas de alças, sentem a mornidão das águas. As mulheres, até as mais velhas, chapinham de saris ou de churidas. Fica o mar manso empapado com tanta cor. As mulheres jovens mergulham nas águas de t-shirt e calças de ganga. Aos homens é permitido o ridículo de se passearem com as trousses encardidas pelas praias. Às mulheres, por imbecil decoro, querem-nas longe do meretrício e da devassidão, é imposto o desconforto pesado das gangas molhadas coladas ao corpo. Os homens indianos gostam de passear, em grupo, pela praia. Olham, boçais, para as turistas que usam biquínis e fatos de banho. A ocidental nudez paralisa-os ao ponto de parecerem autênticos bois a olhar para um palácio. Muitos têm erecções por baixo das cuecas molhadas. A gente olha e vê-lhes as pilas esticadinhas num arrepio tolo de prazer.

Os portugueses não são assim. Passaram há muito os patamares civilizacionais em que se encontram os árabes e indianos. Não querem uma mulher israelita. Não se embasbacam por ver mulheres nuas, passeando nádegas celulíticas, nas praias caparicanas. Porém, não são assim tão diferentes. Apreciam o recato das suas mulheres, que tomam com aborrecimento de quinze em quinze dias. Gostam, no entanto, do atrevimento das soraias chaves que se despem nas revistas. No fundo, no fundo, sejam os árabes ricos que desejam comprar uma mulher israelita, sejam os indianos magricelas que se excitam com os corpos semi-despidos das turistas, sejam os portugueses que alardeiam aos quatro ventos que a não sei quantas é muito boa, assegurada que esteja a decência doméstica, os homens gostam é daquilo que não podem ter.

2009/03/01

Embalar

(... e agora é a vez de a mulher se impacientar/essa conversa já começa a tresandar.)

2009/02/27

Idade

Não sei mentir. Sou inábil, incompetente na mentira. Até quando me interessei por outra pessoa, fui a correr contar ao meu marido o que se passava. Não conseguia estar com ele enquanto a minha cabeça fugia para outro sítio qualquer. Não tenho estofo para ser adúltera. O que é triste porque os clássicos que leio e releio estão prenhes de adúlteras magnificas, esplendorosas, radiosas, luminosas, felizes. Maria Eduarda, Luísa, Anna Karenine, Madame Bovary, Margarida. Vem esta conversa a propósito dos homens que mentem sobre a idade. É socialmente aceite que as mulheres mintam sobre a idade. A idade pesa-lhes demasiado. As mulheres devem ser eternamente jovens, mesmo quando já não o são, mesmo quando já se cansaram de o ser. Por isso se enchem de cremes, de maquilhagens, fazem lifts, vão a aulas de aerobica, coloram o cabelo de cores risíveis. Acobreado e ameixa. Diga-se o que se disser uma mulher que mente sobre a idade tem o seu encanto. Aliás, uma mulher que mente sobre a sua idade está a cumprir, e bem, o seu papel social de tonta. É diferente com os homens. Um homem que mente sobre a idade é outra coisa qualquer. É patético. É o mesmo que um homem pintar o cabelo, rapar os pêlos das pernas e do peito, ir à manicure, usar meias transparentes de nailon, como um certo professor de direito, muito velho, salazarento e incompetente, que me deu aulas. É mais do que patético. É triste. Desolador. Um homem que mente sobre a idade não é homem. É um pozinho burlesco de enganar, um desenho fruste e garrido, desenhado a giz numa calçada que, mais cedo ou mais tarde, se apagará com o vento e com a chuva.

2009/02/25

Canibais

Li a notícia há dias: uma tribo amazona atraiu à sua aldeia um rapaz que vivia num povoado vizinho. Depois comeu-o. Quando os familiares procuraram o rapaz, deficiente mental, por sinal (era assim que o chamavam na notícia), encontraram apenas os restos do macabro festim: ossos roídos, o tutano chupado, um cheiro acre a carne esturricada. Os índios, de pança cheia, marimbando-se nos civilizados conceitos de integração e aculturação, arrotavam satisfeitos na sombra das palhotas. Lembro esta história cada vez que oiço os contestatários da legalização do casamento entre homossexuais argumentar que a mesma abrirá a porta a formas de organização familiar indesejáveis, como por exemplo, a poligamia.
O argumento da poligamia é rasteiro, ordinário mesmo. Sinceramente, custa-me vê-lo ser utilizado por quem tenho consideração e admiração. É o caso da Helena de Matos. É que se compara o que não é comparável. O casamento polígamo, ao contrário do casamento entre homossexuais, não assenta nem na igualdade, nem no respeito pela liberdade de cada um. Muito pelo contrário: é tradicionalmente um casamento que explora a mulher. A mulher é menorizada, vista como um objecto que se adquire, usa e deita fora. Não é por acaso que o casamento polígamo quase só existe nos países muçulmanos. Ainda recentemente o Curdistão aprovou uma lei a favor da poligamia que permite aos homens casar-se com uma segunda mulher, caso a primeira seja estéril ou tenha uma doença grave. Se o objecto adquirido for defeituoso, tem sempre o macho, esse magnífico e superior ser dotado de um falo, a possibilidade de o trocar.
A verdade é que não se conhecem em Portugal, nem na Europa, nem nos Estados Unidos, nem na Austrália, nem em nenhum país ocidental, associações que reivindiquem a legalização dos casamentos polígamos. Percebe-se que assim seja. Bem ou mal, as sociedades ocidentais já assimilaram a base dos direitos fundamentais e percebem que o reconhecimento da poligamia contende com uma série deles. Ora, ao contrário dos casamentos polígamos, o casamento entre homossexuais vem sedimentar o respeito pelos direitos fundamentais: reafirma-se a defesa da liberdade individual de cada um e, sobretudo, consagra-se a proibição de se ser descriminado em função da orientação sexual que se tem. Querer, de forma maliciosa, confundir uma coisa com a outra é intelectualmente desonesto. Não tarda nada, os contestatários do casamento entre homossexuais, tresloucados na sua homofóbica missão, estão a acenar-nos com o canibalismo das tribos indígenas. É ridículo. É.

Slumdog Millionaire

(fui ao cinema com o meu filho mais velho.)

2009/02/22

Alcibíades

Vou descansar aqui. Aqui é um bom sítio para descansar. Comprei bilhete para a última paragem e tomei o comprimido que a doutora do centro de saúde me receitou para dormir. A minha filha está sempre a dizer que a bebé dela adormece mal o carro começa a andar. O mais certo é que me aconteça o mesmo. Ainda a camioneta não saiu da gare e já eu hei-de estar a dormir profundamente. O senhor do guichet disse que a viagem até ao Montijo dura cerca de duas horas. Tanto tempo, disse-lhe eu toda contente, já a imaginar-me com a cabeça encostada ao vidro a dormir durante duas horas. É que a camioneta dá a volta por Alcochete, por causa do centro comercial, e vai parando pelo caminho, explicou o senhor do guichet. Duas horas é muito tempo. Dá para descansar o corpo e a cabeça. Hei-de dormir descansadinha. Sem ouvir os ruídos do prédio e a respiração pesada do meu Alcibíades. É engraçado, mas só depois de morto é que lhe comecei a sentir a respiração pesada. Quando era vivo dormia que nem um anjinho. Não tugia nem mugia. Quietinho e silencioso como uma estátua de pedra. Depois de morto é que começou a ressonar tão alto que não me deixa dormir. E dá umas bufas mal cheirosos que empestam o quarto todo. Diz que é próprio dos mortos, dar assim bufas com cheiro de enxofre. Coitadito do meu Alcibíades! Quem o viu e quem o vê. Quando estava vivo dormia como se estivesse morto, nem o notava na cama, agora que está morto dorme como se estivesse ainda vivo! Sempre foi um homem muito complicado. Como o nome que tinha. Alcibíades. Agora vou fechar os olhos. Depois vou adormecer. Depois vou esperar que alguém me toque no ombro, me diga, olhe, senhora, psssst, acorde, chegámos ao terminal

2009/02/18

Il Faut Savoir

Compaixão (2)

Atrás, apoiada no ombro do homem, segue a mulher. Deixa-se por ele guiar. Como se também ela fosse uma passageira. Leva a bengala pendurada no braço e deixa-a arrastar pelo chão. Foi o barulho da sua bengala que me fez levantar os olhos do profeta que vive nos milheirais do sul. A mulher é feia. Usa o cabelo branco num alvoroço como se fosse uma medusa medonha e tem um buço escuro por cima de uma boca desdentada. Ao contrário do homem não esconde os olhos. Melhor seria se o fizesse. Os olhos dela assustam. São duas covas. As pálpebras parecem ter sido cozidas com linha preta por alguém demasiado egoísta, que lhe quis roubar o mundo, sobretudo, a luz.

Percebe-se, por alguns detalhes, que a mulher cuida do que veste. Busca uma certa harmonia, um certo atrevimento. Procura não ser diferente das mulheres com quem se cruza. Usa uma saia de veludo preto, justa e curta. Pela racha, que é grande, vê-se um pedaço da combinação branca. Calça uns botins de salto, já descambados, que acentuam o seu mancar. Caminha com as botinhas descambadas que lhe apertam os pés. É-lhe doloroso caminhar. Tola, a cega que quer ser igual às outras, é o que penso. Tola e ordinária. Tenho a certeza de que se a cega, de repente, pudesse abrir os olhos cozidos e olhar em volta se deslumbraria, em primeiro lugar, com o estilo porno star de algumas mulheres da plataforma: unhas quadrangulares de gel, calças enfiadas em botas de montar, extensões capilares, maquilhagem vistosa, a ondulação bamboleante dos rabos e mamas acentuada pela roupa demasiado justa. Só, depois, repararia no azul do céu e no verde das árvores da avenida. A cega também segura com a mão um cigarro que não fuma.

Mais do que o homem, é ela que prende o olhar de quem espera na plataforma. O doloroso mancar, o chiar da bengala, os olhos cozidos a linha preta, a combinação encardida espreitando naquela greta medonha, a sujidade encoberta, o cigarro ardendo nos dedos, tudo a torna repelente. Causa nojo e não piedade. O que incomoda e se estranha. Estamos habituados a dedicar aos cegos, como aos desgraçadinhos em geral, os pernetas, os manetas, os tolinhos, os imbecis, apenas a nossa compaixão. Dizemos “coitadinhos” e sentimos alívio.

Compaixão (1)

Ouve-se um chiar que vem de longe. Levanto os olhos dos milheirais do sul, onde vivem profetas, vendedores de tubagem de plástico, meninos selvagens. Varro com um olhar lento a plataforma. Há raparigas de calças de cintura descaída que esperam, em grupo, os comboios suburbanos. Voltam aos bairros de papelão onde o bafio das casas se disfarça com pauzinhos de incenso comprados nas lojas chinesas. Dois homens conversam animadamente sobre o jogo de futebol de ontem. Os pombos cor de chumbo trazem as penas sujas da fuligem da cidade. Ao fundo, junto ao terminal poente, um casal de cegos caminha. Conheço-os de outros dias, de outras esperas. São eles que trazem consigo o chiar.

O homem usa óculos escuros para esconder o negrume dos olhos. Veste um pulôver velho, demasiado coçado e sujo. Carrega aos ombros uma mochila que parece rebentar. Não sei o que o cego leva dentro da mochila. Alguma comida, pacotes de bolachas e iogurtes líquidos, agasalhos para quando a noite chegar. A mão livre segura a beata de um cigarro que nunca leva à boca. Caminha com segurança, desbravando o caminho da plataforma. A bengala é manuseada com perícia e movimenta-se sempre na mesma cadência. Vai de lá para cá. De cá para lá. Por vezes, bate num objecto, quase sempre são os bancos da estação, e o cego é obrigado a dar um passo pequenino para a direita. Afasta-se apenas o suficiente para se desviar do obstáculo. Passa rente aos bancos, tão perto, que espero a qualquer momento uma queda, um tropeção. A proximidade com que os cegos passam incomoda os passageiros que aguardam sentados. Encolhem os pés para baixo dos bancos a fim de lhes dar passagem. Mal podem voltam a esticar as pernas. Sentem-se aliviados com a eficácia dos seus corpos: pernas que andam, bocas que falam, ouvidos que ouvem, braços que mexem, olhos que olham.

2009/02/16

Maria Adosinda

Só ao domingo o filho parecia despertar daquele torpor que desde sempre lhe tomava conta dos dias. Sempre que o Benfica jogava o rapaz procurava um cachecol que Maria Adosinda lhe tricotara há muitos anos, era ainda pequenino, e sentava-se em frente ao televisor. O cachecol não era sequer vermelho. Era cor-de-laranja, tricotado com agulhas grossas, o ponto laço e irregular. Ainda assim, na sua tolice, o filho tomava o cachecol por vermelho e enrolava-o à volta dos pulsos ao jeito dos adeptos mais novos que via nas bancadas do estádio. Quando o jogo não dava na televisão, puxava uma cadeira para perto do rádio da cozinha e, muito direito, escutava o relato. Sempre que o Benfica marcava um golo, gritava de alegria. Dizia goloooooooooo, assim mesmo, prolongado a palavra durante vários segundos. Às vezes, a alegria era tanta que o rapaz se levantava e abraçava a mãe. Dava-lhe beijos babosos que a deixavam secretamente feliz. Para lá com isso, Ricardo Jorge, e aproveitava o intervalo para lhe limpar a boca com a fralda avental.

2009/02/14

Toilet

Let’s start a publishing house
to hell with small literature
we want something redblooded
lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene
but really clean

get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious
something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet
graced with guts and gutted
with grace

(e. e. cummings, 1935)

2009/02/12

Embalar


2009/02/11

Confissão

Não percebo a ponta de um corno dos artigos que o Rogério Casanova escreve na Ler. Triste sina, esta a de gostar de ler sem cuidar das teorias, enquadramentos, movimentos e correntes. Como eu gostava de perceber as graçolas, as subtis facécias que o dito derrama nos seus textos.

Ponto G

Dei mais duas voltas ao quarteirão para ouvir o resto da entrevista. Falavam sobre a elevação do ponto G. Um entrevistador atrapalhado, soluçando perguntas abruptas, procurava saber junto de um médico francês os procedimentos da pequena intervenção que procura salvar as mulheres do embaraço da algidez. Injecta-se, ao que parece, um ácido qualquer na zona do ponto G. O tal ponto incha, incha, incha, como a rã da fábula. Torna-se mais saliente e rugoso. Aumenta a sua sensibilidade. Proporciona-se assim à mulher mais prazer devido à pressão feita durante o coito. Foi o que o senhor doutor explicou. Na cabeça do entrevistador, desconfio, estava também a fábula de La Fontaine. Embaraçado, atordoado com a visão dessas orgásticas mulheres, que hão-de finalmente lançar guinchos sinceros de satisfação durante a penetração, perguntou várias vezes sobre a possibilidade de rebentamento do ponto G. Credo. Os homens são parvos que se fartam.

2009/02/06

Roda Viva - Chico Buarque

(ai, ai...)

Fanfarra

Também me acontece o contrário: imaginar uma voz para quem não a tem. Por exemplo, ao Luís Januário ponho-lhe a voz do Eduardo Barroso, o insuportável epicurista dos charutos e das feijoadas, o cirurgião que, com a sua voz de trombone, faz chocalhar os tímpanos de qualquer mortal. É escusado. Por mais que tente imaginá-lo com outra voz, uma coisa assim mais limpa, mais maviosa e cristalina, sai-lhe sempre da boca uma fanfarra, uma charanga cheia de cornetas e cornetões.

2009/02/05

Rãs e Sapos

Os dias estão cheios de acontecimentos importantes, daqueles que foram feitos para nos inquietar. São acontecimentos vaidosos que, à força, querem ser protagonistas únicos das notícias nas televisões, rádios, jornais e das conversas de café. Tenho os acontecimentos desta estirpe por aborrecidos. Toda a gente fala deles, dá a sua opinião, vaticina sentenças. Uma maçada. Repetem-se teorias, congeminam-se explicações, procuram-se análises lúcidas e certeiras. Há, por outro lado, acontecimentos, factos pequeninos, insignificantes que dão conta de mim, entranham-se cá dentro e fazem-me querer escrever sobre eles. Ultimamente não me saí da cabeça a fontanela do meu filho mais novo. Um dia, pela manhã, quando o fui espreitar ao berço, reparei que a fontanela pulsava. Parecia que era ali, e não mais abaixo, que o seu coração se encontrava couraçado. Afligi-me. Imaginei uma rã miniatura saltitando, histérica, no crânio do meu benzinho, alimentando-se dos seus sonhos, atrapalhando-lhe as ligações neurológicas, destruindo a estatística das sinapses. Desde então procuro o bicho que vive dentro do meu filho. Não mais apareceu. Há-de estar aninhada num canto qualquer, tremelicando as patinhas. Também o desajuste que existe entre o rosto e a voz do Carlos Vaz Marques me tem apoquentado. Durante anos, conheci apenas a voz do Carlos Vaz Marques. Vinha pelo crepúsculo, na rádio, e trazia o mundo consigo. Escutava-o e imaginava-lhe a fisionomia. Um homem jovem, pensava eu, magro, seco, esguio, com um rosto miudinho de garoto irrequieto. Até que, há pouco tempo, coisa de um mês, descobri o rosto daquela voz. Tive um baque. Um desapontamento profundo. Pareceu-me, e não quero ser injusta, um sapo. Esfreguei os olhos. O espanto foi tamanho que não mais me largou. Até imaginei uma história, com um final trágico, sobre o assunto. Esta coisa de só conhecermos uma parte de alguém tem muito que se lhe diga.

2009/02/04

Pietro


La Bella Italia

Um dia após três jovens italianos terem pegado fogo a um imigrante indiano que dormitava numa estação ferroviária perto de Roma - por puro divertimento, explicaram os rapazes às autoridades - o ministro do interior italiano, veio dizer que é preciso ser “mau” com os imigrantes ilegais. Mais do que a barbárie dos jovens italianos (a juventude de hoje é assim, move-se pelos arrabaldes das cidades, em manadas, sem eira, nem beira, sem valores ou princípios, passeando pitbules e rotvaileres, achincalhando os miseráveis e proscritos) espanta a falta de sentido de oportunidade do ministro. É que, por estes dias, trabalhadores italianos, legais, são expulsos por hooligans ingleses que reclamam para si os empregos no sector petrolífero da Grã-Bretanha. Não fora o assunto tão série e triste e não deixaria de ser irónico.

2009/02/01

La grande Jatte

Corro na margem de cá. Imagino na margem de lá, entre flamingos, pernas-longas, cegonhas, rãs, enguias, laibeques, fanecas e garças, a floresta de betão de que todos falam. Embelezada com lagos de ladrilhos azuis e caramanchões frescos, há-de ser um sítio limpo, ordenado, aprazível. As famílias passeiam a molenga dos domingos em lojas que vendem desperdícios e piquenicam hambúrgueres, pitas shoarma, pizas de carbonara e bocadinhos de sushi e sashimi. Ficam a arrotar o resto da tarde as minúcias da nova cozinha internacional. Voltam à cidade no final do dia. Vêm satisfeitos. Atravessam a ponte nos seus monovolumes de cor antracite que pagam com créditos pessoais

2009/01/22

Flannery O'Connor

(não gosto de pavões.)

2009/01/19

Chispe

Vou ao supermercado com os meus filhos. O mais velho desliza pelos corredores com as mãos enfiadas nos bolsos e as calças descaídas. A do meio saltita como se fosse uma libelinha, uma borboletinha, um bichinho delicado e frágil. O mais novo entretém-se a chupar os dedos, enterrado no carrinho que parece um trono. As pessoas que connosco se cruzam lançam sorrisos cheios de enlevo, como se, dessa forma, quisessem partilhar a nossa felicidade. A imagem de uma mãe com os seus filhos é sempre agradável, conforta-nos do vazio da vida, trata todas as maleitas do mundo, ameniza as quezílias do dia-a-dia. Há quem se meta com o bebé que, encantador, retribui com um sorriso baboso. Rejubilo com as minhas crias que me dão corpo e me tornam especial no corredor dos enlatados, na fila da peixaria, no açougue asséptico onde escolho embalagens de peru, galinha, coelho e, num devaneio incontrolável, um pedaço de chispe para fazer cachupa. Na caixa registadora, depois das pastilhas, chocolates e sacos de gomas, enquanto limpo o nariz da minha filha, topo com um escaparate cheiinho de revistas femininas, dessas revistas que toda a vida fiz questão de desprezar. Uma das revistas prende a minha atenção. Na capa, ao lado da imagem de uma miúda desgrenhada, magra e feia, oferecem-nos o kamasutra do sexo oral. O assunto interessa-me. Fosse eu uma mulher da má vida e seria conhecida, nos bordéis e lupanares desta cidade, pela exímia competência da minha boca. Faço deslizar a revista para o carrinho das compras e sorrio à menina da caixa, uma mulata bexigosa, que elogia os olhos dos meus filhos.

2009/01/12

30 anos

Esgotou-se-me a verve. Acontece. Não sou capaz de escrever. Nem sobre a Palestina. Nem sobre o cão do senhor presidente. Nem sobre os autocarros de Barcelona. Nem sobre os meus filhos. Nem sobre a dieta que me deixa a boca a saber a aipo. Nem sobre as prostitutas do primeiro andar. Nem sobre o canibal da Brandoa. Nem sobre o livro em que habito dois parágrafos. Nem sobre o frio. Nem sobre canções de embalar. Nem sobre este país que me aborrece. Nem sequer, e é isto que me custa, sobre a libido bacoca dos homens de trinta anos.

2009/01/05

Amos Oz

(Nunca li nenhum livro do Amos Oz. E devia.)

2009/01/04

Seguidores

De há uns tempos para cá, cada vez que abro a aplicação do blogger aparece-me uma lista, pequena é certo, de seguidores. É-se seguidor de uma seita, de uma religião, de quem alardeia profecias e promete a resolução da disfunção eréctil com a mesma facilidade que promete a felicidade eterna. Ser seguidor de um blogue é, desculpem-me a sinceridade, uma coisa um bocado parva.

Ganges

Voltei ao ginásio. No balneário vi-me rodeada de rabos cheios de celulite enfiados em cuecas fio dental. Compadeci-me daqueles pobres rabos agrilhoados. Há o rabo descaído da jurista sénior que tem focinho de doninha. Há o rabo da histérica, apreciadora de pratos de tofu, que faz os exercícios todos, os esquemas todos, as séries de abdominais todas, que nunca se engana em nenhum passo. Há o rabo empinado, lisinho e bonito da professora. Conheço bem estes rabos. Já quase consigo encará-los sem fazer um esgar de nojo profundo. Hoje, porém, ia morrendo. Estava eu a vestir-me, calmamente, e a topar os movimentos das outras mulheres quando saiu do chuveiro uma rapariga que também frequenta a minha aula de ginástica. É uma rapariga cujos traços anunciam uma castidade genuína. Tudo nela é virginal. A pele leitosa. O sorriso beato. O cabelo claro e ondulado. Os pelos púbicos ralos. Os mamilos feios. Eu olho para ela e tenho a certeza de que tem filhos, pertenceu, quando nova, ao grupo de jovens da paróquia, é fiel e feliz com um marido calvo e magrinho. Estava eu a olhar para ela e a compadecer-me do seu rabo, cheiinho de celulite, uma autêntica gigantesca casca de laranja, quando a vejo puxar de umas cuecas pretas. Estranhei, confesso, o preto. Ela vestiu as cuecas e passou ao sutian. Para meu espanto, em vez de as esconder, deixou as horríveis nalgas, cheias de buuraquinhos, à mostra. Descri. Pensei, juro que imaginei, que ela tinha umas cuecas normais e só que, por descuido, as deixara enfiadas no rego do rabo. Mas não. Percebi que ela estava a usar um fio dental quando lhe olhei para o rosto e vi o ar satisfeito que tinha. Quando uma mulher assim, uma mulher que sabe o acto de contrição, cede à ordinária tentação de usar uma cueca fio dental é sinal evidente de que o mundo está perdido. Saí desanimada do balneário. Com vontade de mergulhar nas águas sujas do Ganges para me livrar desta imundície.
(Fevereiro 2007)

2009/01/01

Nojoud

(Qual Obama, qual carapuça. A figura internacional do ano de 2008 é Nojoud Mohammed Nasser, a menina iemenita de oito anos que, ao pedir o divórcio do marido, trinta anos mais velho, mostrou ao mundo que a liberdade individual está ao alcance de todos.)

2008/12/30

Sushileblon

O blogue da Mónica Marques é a excepção que confirma a regra. Invejo-a por uma série de razões que, naturalmente, me abstenho de explicar. É o blogue que destaco no ano de 2008.

2008/12/28

Pretinha

É aquela pretinha com bom aspecto, explicou o homem à sua jovem esposa. Falava da condoleezza rice. A mulher sorriu com desinteresse e beberricou de um copo de vinho. Não deu gargalhadinhas tolas. Mas poderia tê-las dado. Afinal, uma pretinha com bom aspecto é algo que suscita espanto no seu mundo de pechisbeque e baquelite. Preparei-me para lhe lançar um olhar de piedade. Um olhar fugaz que não provocasse estragos de maior e que pudesse ser confundido com outra coisa qualquer. Os almoços em família não se prestam a insultos e eu acho, acho mesmo, que no Natal devemos mostrar piedade, que é um sentimento tão cristão, pelos tristes de espírito. Porém, antes que eu pudesse olhá-la de tal modo, a mulher alisou a saia plissada, curta, curtíssima, mostrou umas impecáveis pernas torneadas e começou a falar de outra coisa qualquer. Acanhei-me no canto da mesa e procurei o olhar do meu filho João. O João traz o mundo no olhar. Aninho-me lá com frequência.

2008/12/21

Rosie

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.

Fausto, Madrugada dos Trapeiros

2008/12/19

2008/12/17

PSL

O problema da anunciada candidatura do PSL à câmara municipal de Lisboa não é o de vir revelar o quanto é frouxa, e pouco consistente, a liderança da Manuela Ferreira Leite à frente do PSD. Mais coisa, menos coisa, estou habituada a ser sistematicamente desiludida pelo partido com o qual me identifico. Os políticos que julguei sólidos e sérios mostram-se, à primeira oportunidade, pífios, reles, do mais ordinário que há. Veja-se o caso do Durão Barroso. O dito fez-me, pela primeira vez na vida, votar no PSD. Depois, metendo os seus interesses pessoais à frente dos interesses do país, fugiu. O problema da candidatura do PSL à câmara municipal de Lisboa não é, pois, o de vir mostrar que o maior partido da oposição não é uma opção credível para o governo do país. Isso já se sabe. O problema da candidatura do PSL, e é o que me assusta, é o risco, sério, do homem ganhar as eleições e, no seu estilo tão característico, novamente se instalar no poder. Nem quero pensar em tal hipótese.

2008/12/16

Ana Bacalhau

Mandamentos

Esta noite não fumarás. Cigarro atrás de cigarro. Até ficares com a boca com gosto e cheiro de estrebaria. Um odor acre de mijo de caprinos ao acordar. Esta noite não beberás. Nem martinis. Nem copos de uisqui com água gaseificada. Nem copos de vinho. Nem cervejas pretas. Esta noite não lerás. Nem a Bíblia dos Capuchinhos. Nem o livro de capa amarela e letras azuis. Com frases e pessoas inacabadas lá dentro. Nem o outro de capa castanha e letras bege que um colega de escritório te ofereceu no Natal. Esta noite não ligarás o pc. Personal computer. Deixa-o dormir na quietude fria da noite que é animal de estimação como outro qualquer. Esta noite não escreverás. Em sítio nenhum. Só deve escrever quem sabe. Ignorarás a Domitília Vento, a Rosa Maria, a Guiomar, a Judite, a Maria Adozinda e a mulher albina, de olhar simiesco, da estação de comboios. São mulheres que vivem dentro da tua cabeça. Esta noite não tomarás os comprimidos que escondes numa caixinha de cartolina roxa por baixo das cuecas e sutians. Estás demasiado cansada para morrer. Às vezes, é menos cansativo viver do que morrer. (Dezembro de 2006)

2008/12/15

Supari

Numa das gavetas do louceiro, entre as toalhas de linho que a minha mãe comprou para o enxoval, guardo pacotinhos de supari, caixas velhas de incenso, sabonetes de açafrão e sândalo, quadrados negros de kajal, masala tea bags, fiadas de flores de jasmim, já secas e esboroadas. Quando tenho saudades da Índia, o que acontece frequentemente, enfio o nariz na gaveta e deixo-me inundar pelos cheiros do mercado de Margão. O meu filho João faz o mesmo. Não sei, juro que não sei, o que faço aqui. Qualquer dia fujo.

Pecado

Sou tão invejosa. Sempre fui. Hei-de arder nas labaredas do Inferno.

2008/12/13

Anna Karina


2008/12/11

Bach

Percebo o poucochinho que sei sobre cultura erudita, quando, deambulando pelos corredores da fnac, me espanto, e encanto, com o cravo bem temperado de Bach.

2008/12/09

Laurinda

Ao que parece a Laurinda Alves será candidata ao Parlamento Europeu pelo MEP, o partido da boa vontade, dos cidadãos empenhados, dos puros de coração, dos que acreditam num futuro melhor. Uma graça de partido. Tenho pena dos deputados europeus. Se a Laurinda for eleita, o que não parece fácil, levarão com uma catadupa de propostas de legislação sobre cuidados paliativos.

Guilherme

O Guilherme Silva veio sugerir que o plenário da Assembleia da República deixe de se realizar à sexta-feira. Para evitar o constrangimento e a vergonha dos deputados faltarem às votações. Eu acho bem e não me importo que o meu director siga o exemplo e determine que, à semelhança dos deputados, à sexta-feira, não façamos a ponta de um corno: não há análises de propostas de lei, não há elaboração de articulados, não há idas a tribunal. Nada. Nadinha.

2008/12/07

Notas Domésticas

1) João, o primogénito, entra na casa de banho e pergunta se alguma vez apanhei uma bebedeira. Depois senta-se na sanita à espera da resposta. Digo-lhe que não, que nunca na vida apanhei uma bebedeira. Nem um pifo pequenino. Ele sai em silêncio. Não gosto de mentir aos meus filhos. Gosto ainda menos que eles percebam que lhes minto. 2) Há tanto a dizer sobre sutiãs de amamentação. Depois das mamadas, naquela atrapalhação de gestos, por querer rapidamente retomar a compostura, esqueço-me muitas vezes de fechar as portinholas. Quando, antes de deitar, me dispo e dou de caras com as guaritas em baixa, os mamilos flácidos espreitando nos triângulos gordos, sinto-me uma porno star de trazer por casa, velha e patética. 3) Lembro, volta e meia, a tarde em que fomos a uma sessão de terapia conjugal. A psicóloga, bonita, tinha um ar aborrecido e usava uma camisola branca de angorá. Atrás dela, como que a emoldurá-la, via-se uma tela com gomos de laranja. Não me lembro das ponderadas palavras que a senhora doutora disse. Mas lembro, com detalhe, a camisola de angorá e a pavorosa tela laranja. 4) Madalena, a bela, toca violino com a insegurança própria de tudo o que começa. E, no entanto, quando me ensina a ler as pautas põe uma voz segura e adopta uma postura de pedagoga. É bom aprender com os filhos. 5) Oiço, vezes sem conta, o amor Clandestino dos Deolinda. Há muito tempo que não escutava uma canção tão bonita. E cantada em português que é a língua mais bonita do mundo. Quando a escuto fico com vontade de apanhar um pifo pequenino.

2008/12/04

La Frontière de l'Aube


(Filme insuportável. Nem o maravilhoso seio descoberto da Laura Smet o salva.)

Pasolini

Quase todas as casas, à beira da ruína, têm à frente um pequeno portal: e aqui…eis-me diante de um dos factos mais impressionantes da Índia.

Todos os portais, todos os passeios transbordam de corpos adormecidos. Estão deitados no chão, contra as colunas, contra as paredes, contra as ombreiras das portas. Os seus panos envolvem-nos por completo, encardidos de sujidade. O seu sono é tão profundo que parecem mortos embrulhados em sudários esfarrapados e fétidos. São jovens, rapazes, velhos, mulheres com os seus filhos pequenos. Dormem enrolados ou deitados de costas, às centenas. Alguns estão ainda acordados, especialmente entre os rapazes: param vagueando em redor ou falam baixo sentados à porta de uma loja fechada, nos degraus da entrada desta ou daquela casa. Há os que estão a deitar-se neste momento, a envolver-se no seu lençol, tapando a cabeça. A rua toda está cheia do seu silêncio: e o seu sono é semelhante à morte, mas a uma morte, por sua vez, doce como o sono.


Pier Paulo Pasolini , O Cheiro da Índia

2008/12/02

Goa

Nunca aqui escrevi sobre o primo Renato, goês delicado, de infindável ternura. Nem sobre o Cristo falante que, numa tarde de mornidão, mandou o tio Rosário gastar o dinheiro da casa no jogo. Também nunca escrevi sobre a noite vista do terraço, o fio de palmeiras, indicando o caminho para Rachol, onde mil morcegos habitam as profundezas do claustro, matilhas de cães vadios roendo a escuridão, o pequeno arbusto de tulsi, com um pau de incenso ardendo em sinal de respeito. Durante a noite os deuses habitam o quintal. Comem chicus e limas. Brincam com os lagartos e os esquilos. Escondem as garrafas de vinagre e de feni entre as ervas altas. Só para arreliar a tia Maria.

2008/11/29

Irene Némirovsky

Leio diariamente o Público e, ao fim de semana, o Expresso. Procuro ler os colunistas que gosto, mas, por vezes, dou por mim, a prestar mais atenção àqueles que detesto. No pódio das minhas embirrações estão a Laurinda Alves (estou-me nas tintas para os cuidados paliativos), o Kalaf não sei das quantas (o tal rapaz do chapéu de coco) e a Clara Ferreira Alves. Não posso com a mulher. É superior às minhas forças. E, confesso, aqui há uns anos rejubilei com a apreciação demolidora, ao que parece não totalmente fiável, mas tão certeira do Vasco Pulido Valente.

2008/11/28

Trivial Matters

(passo a vida a rapinar imagens deste blogue.)

2008/11/27

Kanchanganga Bldg.

A primeira vez que fui a Bombaim fiquei em casa da minha prima Melinda. Vive na parte ocidental de Andheri, num apartamento pequeno com o marido e duas filhas. Uma das meninas chama-se Elaine e será, como já expliquei ao meu filho João, a minha futura nora. Os prédios em Bombaim têm nomes e aquele onde a Melinda vive chama-se Kanchanganga Bldg. Por ser tão alto e ter gradeamentos nas janelas - todos diferentes, todos ferrugentos, cada um ao gosto do seu proprietário - fez-me lembrar, ao primeiro olhar, uma torre medieval fortificada. Olhando para cima, vislumbrei, nesse primeiro dia, silhuetas de águias, gralhas, abutres. São aos milhares nos céus de Bombaim. Rondam os pássaros soturnos as torres de apartamentos no intuito de comer os desperdícios dos seus habitantes. São, simultaneamente, sinistros e belos. O Kanchanganga Bldg. tem um porteiro sorridente que assegura que a torre não é invadida pela amálgama de miseráveis que vive nos passeios da cidade. Usa uma farda puída e um boné que deve ter herdado do seu antecessor. Fica-lhe demasiado largo. Pela manhã abre as portas aos moradores que saem para os seus empregos e aos meninos que vão para a escola. Esvazia-se depois a torre. Ficam apenas algumas mulheres e as crianças mais jovens. Em cada piso os apartamentos desembocam num átrio circular que não serve apenas de passagem para a rua. O átrio é uma parte comum e funciona como prolongamento dos apartamentos. É aí, no átrio, que os habitantes deixam os sapatos antes de entrar nas suas casas e as mulheres conversam sobre assuntos domésticos. As portas dos apartamentos não são maciças. Têm uma espécie de portinhola que, se abrindo pela manhã, deixa antever o miolo dos apartamentos e os movimentos dos seus habitantes. A torre é habitada por católicos, hindus e muçulmanos. No átrio misturam-se os odores intensos das suas cozinhas. Ao lado das portas há pequenos oratórios com imagens de cristo, placas com luas crescentes e altares coloridos às divindades hindus. É uma miscelânea de deuses e de fés, convivendo de forma inesperadamente harmoniosa. Quando chega a tarde as mulheres dormitam e as crianças, sentadas no chão, sonham em ser iguais aos meninos prodígio que aparecem nos concursos televisivos. O porteiro aproveita o sossego da tarde. Sentado junto das caixas do correio olha gulosamente uma revista onde as actrizes da cidade aparecem seminuas. Na Índia, as mulheres vestem com decência, não usam decotes, não mostram as pernas, banham-se no mar vestidas. Ao anoitecer, quando a cidade fervilha em todo o seu esplendor, o porteiro volta a abrir as portas aos habitantes do prédio que regressam. Lá fora, os vendedores de tabaco e areca desmontam as suas bancas. Chegarão então os habitantes dos passeios, os corpos-sombra, quase invisíveis, quase mortos, os intocáveis que nascem, vivem e morrem na rua. O porteiro observa-os através dos vidros da entrada do Kanchanganga Bldg e agradece aos deuses a sua sorte.

2008/11/26

Mumbai

Não é a minha Índia. A minha Índia, ou o que dela resta, é rural, de campos abertos e igrejas brancas. E, ainda assim, apesar de não ser a minha Índia, arrepio-me por vê-la sangrar.

2008/11/25

Agustina


Puérpera

Ontem sonhei-me vestida de branco, descalça, passeando numa avenida de casas coloridas. Era a Avenida da República, eu sabia-o, mas em nada se parecia com a Avenida da República. Talvez a largueza das faixas e o desembocar numa praça ruidosa aproximassem a avenida do meu sonho à que atravessa a cidade. O sol estava baixo e a sua luz, tão branca e quente, fazia-me piscar os olhos. Eu andava sem preocupações e sentia-me leve e esguia, quase, quase bonita. Entristeci quando acordei e me confrontei com o meu corpo de pós puérpera, flácido e volumoso e as minhas mamas imensas, gotejando leite nos lençóis de florinhas violeta. E não havia sol.

Ler

Enquanto embalo o berço folheio a última Ler. Tenho-as empilhadas em cima da mesinha de cabeceira. Gosto da ideia de adormecer na companhia de escritores e poetas. Leio a entrevista ao Dinis Machado e, depois, escarafuncho a ficha técnica. Entre colaboradores e colunistas, conto vinte e quatro homens e apenas cinco mulheres. Já desconfiava da masculinidade da revista. Pode não ser intencional. Certamente não será. Mas chateia. Aborrece. Solto um palavrão que faz estremecer o Joaquim.

2008/11/21

Caos Calmo

(tenho um fraquinho pelo Nanni Moretti.)

2008/11/19

Veludo cotelê

Passo a vida a tropeçar no Gonçalo M. Tavares. Vejo-o amiúde, de mochila às costas, perto da rua onde trabalho. Não sei de onde vem. Não sei para onde vai. Tem uma passada larga e firme, característica de quem anda muito a pé. Ontem, perto do Poço do Borratém, voltei a cruzar-me com o escritor andarilho. Usava calças de veludo cotelê.

Laranja

À porta do edifício, encontrei um menino com lábio leporino. Chupava uma laranja na sombra da saia da mãe, uma negra imensa que, com gestos largos, falava com outra mulher. Gargalhavam as duas africanas enquanto o menino do lábio leporino procurava passar despercebido para que ninguém notasse a feiura da sua fissura labial. Chupava a laranja com recato e evitava as momices próprias das crianças da sua idade. Passei devagarinho e olhei-o descaradamente, com vagar, como que a querer fixar-lhe os traços disformes do rosto. A desgraça e a miséria dos outros consola-me sempre. É terrível mas é mesmo assim. O menino sentiu-se olhado e sorriu-me com timidez. Tinha uns olhos lindos. Apeteceu-me trincá-lo como a um gomo de laranja.

João das Regras

Desde menina que me lembro de ver mulheres paradas naquela esquina da cidade. Quando, por alturas do Natal, a minha mãe nos pegava pela mão e nos levava pelas lojas mais baratas da Rua dos Fanqueiros, eu desejava, sem o confessar, que ela prolongasse o passeio até ao Martim Moniz. Desse modo, obrigava-nos a atravessar a Praça da Figueira e a passar pela Rua João das Regras. Era certo e sabido que numa das esquinas dessa rua eu encontraria uma ou duas mulheres paradas. Aconchegadas pelo ruído da praça, olhando a montra do Paraíso do Calçado, ali se deixavam estar à espera. Eu sabia bem o que esperavam mas estranhava que algum homem as procurasse. O sexo pago, pensava eu, dependia da verificação de certos requisitos: higiene, juventude, alguma harmonia de traços e formas. Aquelas mulheres, porém, não estavam limpas, não eram jovens e, quase sempre, eram feias. Gordas, desleixadas, os cabelos ásperos num desalinho, as carnes flácidas e esponjosas enfiadas em fibras baratas de poliéster. O cheiro de muitos homens entranhado nos refegos dos corpos. Ainda hoje, quando vou à Baixa, e faço-o muitas vezes, procuro as mulheres que esperam, como estátuas grotescas, na esquina da Rua João das Regras. Continuo a achá-las feias. Mas já não estranho que haja quem as procure.

(gosto da decadência da Baixa e detesto a modernidade asséptica, limpinha, do Chiado.)

2008/11/11

Asnières


2008/11/05

Saramago

O José Saramago é uma besta. Não fica atrás da cavalgadura da Damaia.

Rafeiro

Já tudo se disse sobre o assunto. Dos entusiastas aos cépticos já todos botaram faladura e elaboraram acertadas análises sobre o novo presidente americano. Limito-me - que a maternidade não deixa tempo para mais - a frisar um pormenor irrelevante: em rigor, o Obama não é negro. É mestiço ou, como diria o meu irmão quando fala das nossas raízes, é rafeiro. Ana Clara, escuta, tu não tens raça. És uma cadela rafeira!, diz ele pausadamente. Depois ri e mostra aquela soberba dentadura de caninos desenhados a lápis de carvão. O Obama é, pois, um mestiço. Viva os mestiços. É, como eu própria, um rafeiro. Jeitoso e janota, é certo. Tanto que até parece branco. Tal facto influenciou muita gente. É que, como em tudo, também a negritude tem vários graus. Muitos dos que votaram no Obama jamais votariam num preto retinto de narinas colossais, unhas amarelas e lábios negros.

(Ontem, um senhor da Damaia, num desses fóruns matinais, explicava que não queria que o Obama ganhasse porque isso tornaria os nossos pretos muitos arrogantes. Sossegue doce cavalgadura da Damaia que os pretos, os nossos pretos, continuarão subservientes, obedientes, trabalhando nas obras, construindo centros comerciais e bairros periféricos, fazendo limpezas, cuidando das nossas casas e dos nossos filhos. Sempre em silêncio. Como convém.)

2008/11/03

Trabalhos de casa

As meninas trazem os seus cadernos para o alpendre e na sombra da mangueira fazem os trabalhos de casa. Vêm descalças e trazem tacinhas de alumínio com rodelas de banana frita. Comem enquanto estudam. Os cadernos enchem-se de pequenas nódoas de gordura cor de açafrão. Não têm estojos da Hello Kitty, nem lapiseiras perfumadas que escrevem a lilás e azul-turquesa. Não têm manuais apelativos com ilustrações coloridas. Nunca pesquisaram na internet para fazer os trabalhos de casa. Não têm disciplinas que moldam a cidadania e aguçam a curiosidade. Têm de saber de cor as tabuadas até à do vinte. Aprendem a ler e a escrever em inglês, concanim e hindi. Em breve, falarão na perfeição três línguas, dominarão dois alfabetos, o devanagari e o latino. Saberão fazer cálculos matemáticos elaborados. Observo-as. Pego nos cadernos de folhas ásperas e lembro-me do meu avô José que, já velho, aprendeu sozinho a escrever em cadernos semelhantes.
(O Conselho Nacional de Educação aconselha que deixe de haver chumbos até ao nono ano de escolaridade. É o que se faz na Finlândia, país com o qual alguns gostam de nos comparar. O Conselho Nacional de Educação propõe tal disparate e, naturalmente, o Ministério da Educação pondera experimentar tal medida. Entretanto, o Primeiro-Ministro, tão triste na sua arrogância, foi para a cimeira ibero-americana gabar o Magalhães, o portátil anão que, segundo ele,resgatará as nossas crianças do analfabetismo e da estupidez. Somos um país de merda. Melhor, somos uma merdinha de país.)

2008/11/01

2008/10/27

Valéria

O Rui Tavares, o mais empenhado obamista português, voltou hoje a escrever no Público sobre as eleições americanas. Li-o com atenção, como sempre faço, mas acho tão enfadonho que a Valéria Pansini (sua amiga? conhecida? colega?) seja doutorada em História da Ciência. Ainda se fosse doméstica ou metalúrgica.

2008/10/26

EUA

Faltam poucos dias para as presidenciais americanas. A esquerda europeia esqueceu-se do seu anti-americanismo primário e anda numa roda-viva convencida de que a vitória de Obama será também sua. Andam numa antecipação de folguedos e sorrisos. É quase constrangedor vê-los tomar partido por um candidato americano. O que a esquerda europeia não compreende é que a tal esquerda americana, que Obama representa, está longe, muito longe, de partilhar a sua visão do mundo. Mais coisa, menos coisa, pouco difere de uma certa direita moderada que a esquerda tanto despreza.

2008/10/21

Variações Goldberg

Parou de chover. A praça ilumina-se e há estrelas caídas no chão. Passa o primeiro autocarro da manhã. Vem ainda vazio. Não tarda nada trará homens e mulheres de mãos ásperas. Os homens trabalham nos prédios. Encavalitam-se em andaimes e tocam o vento. As mulheres trabalham nos apartamentos. Pela manhã, aproveitam o sol quente para passear meninos que não são seus. Vejo-as junto ao rio, esse rio manso, onde cardumes de tainhas e medusas gigantes se preparam para engolir o primeiro menino que cair ao rio.

2008/10/16

Índia


Rastreio Auditivo

Gosto de discutir aos gritos, sem razoabilidade, recorrendo ao insulto gratuito, aos argumentos desleais. O efeito intenso dos insultos alivia-me do resto. Sem contar com as discussões conjugais, a última vez que discuti com alguém foi com um atrasado mental que se atreveu a dar um tabefe no meu filho João. Recentemente também insultei a menina do ginásio, belfa e loira, que, burra que nem uma porta, duvidou das minhas capacidades parentais quando lhe disse que o João frequentaria as aulas de natação sem acompanhamento dos pais. Se me cruzo com alguém que me enerva e não discuto com ela devidamente fica-me um amargo de boca. Sou durante muito tempo atormentada pela imagem da pessoa que me irritou até ao tutano dos ossos. Adormeço a pensar nela. Vivo na esperança de me cruzar com tal pessoa para corrigir o mal feito. Por exemplo, há cerca de dois anos que sou atormentada pela voz da médica que me assistiu no Curry Cabral. Eu, deitada na maca, trôpega, infeliz, miserável, e ela, nova, bonita, com uns cosmopolitas ténis nike enfiados nos pés, a mandar-me levantar. Os hospitais, como fez questão de explicar, não são hotéis, não servem para as pessoas descansarem. Grande cabra. Actualmente, para além da médica do Curry Cabral, sou perseguida pela imagem da velha que, durante o internamento do Joaquim, lhe fez o rastreio auditivo. Falou-me sempre num tom benevolente e várias vezes repetiu que o meu bebé era mais molinho que os outros. Como já deve ter reparado, o seu bebé é diferente dos outros. É mais molinho… E dava-me insuportáveis pancadinhas de apoio no ombro, sem notar que as suas palavras marcavam o meu filho a ferro quente. Não sei se o Joaquim é diferente dos outros miúdos. Ainda não sei. Só sei que me arrependo amargamente de não ter mandado a velha do rastreio auditivo para o caralho.

(Gosto da diferença. Sempre gostei.)

2008/10/15

Banksy


Folículos

Quando soube da iminente bancarrota do país mais feliz do mundo, a Islândia, abri a boca e soltei um ahhhh prolongado de genuíno espanto e absoluta surpresa. Os ahhhs prolongados de genuíno espanto e absoluta surpresa, aparecendo amiúde nos desenhos animados e nas comédias de Hollywood, não são, como se sabe, muito frequentes na vida real. Antes do desaire islandês, a última vez que soltei um desses ahhhs foi quando topei com o novo penteado do Nuno Rogeiro. Tive de me beliscar para enfrentar o tom levemente nacarado que o dito escolheu para rejuvenescer os folículos capilares.

2008/10/10

Tricot

Usava umas camisolas de lã coloridas, tricotadas à mão, e escrevia poemas doridos sobre o peso dos dias. Uma vez, já não sei a que propósito, falámos sobre política. Com comedimento que o ambiente de trabalho não permite grande alarido. Fiquei a saber que era uma dessas comunistas empenhadas, de punho erguido, admiradoras do socialismo cubano e saudosas do progresso soviético. Enchia o peito para falar de liberdade e do 25 de Abril. Certo dia, cruzando-me com ela no corredor do refeitório, perguntei-lhe pela neta que, naquela altura, devia ter a idade da minha filha. Respondeu-me com o entusiasmo habitual das avós, que a menina era linda e, claro está, muitíssimo esperta, quase, quase sobredotada. Rematou a conversa, dizendo que, graças a deus, não era virada para o outro lado, uma vez que apreciava sobretudo a companhia do pai e do avô. Engoli em seco e, num rasgo de lucidez, mudei de assunto. Perguntei-lhe que ponto de tricot usara na medonha camisola que vestia naquele dia.

(sempre me fez espécie o conservadorismo dos comunistas.)

Miasma

Há um novo miasma na sociedade portuguesa. São os fóruns de opinião das rádios e das televisões. Querendo ser espaços de cidadania e liberdade, lançam nas manhãs um cheiro putrefacto a sovacos mal lavados. É um fedor que não se pode. Dão voz aos reformados e às donas de casa de Massamá Norte. Dão voz aos bancários e aos funcionários públicos. Dão voz aos professores, aos comerciais, aos desempregados. Dão voz aos que não trabalham ou trabalham pouco. Podem, por isso, ocupar as manhãs a ser cidadãos activos, opinando sobre os temas da actualidade. Os fóruns de opinião são um retrato do país que somos. Um país onde grassa a boçalidade, a indignação, a ignorância e a estupidez.

2008/10/08

Glenn Gould

(gemidos da madrugada.)

Riso

E, no entanto, até a alma mais depressiva e sombria, habituada a usar o sorriso com frugalidade e o riso com parcimónia, solta gargalhadas inesperadas.

Vício

O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se num vício. Eu percebo bem o que ele queria dizer. Sou depressiva há muitos anos e não sei como me livrar da tristeza que toma conta de mim. Já tentei psicoterapeutas e psiquiatras. Já tentei o suicídio. Já tive filhos para que a responsabilidade da maternidade soterrasse a tristeza. Já tentei preencher o tempo com merdas e merdinhas para experimentar a felicidade dos gestos rotineiros. Até já tentei tomar decisões ridiculamente fracturantes que espantassem dos meus dias a solidão que neles se instalou. Nada resulta. É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu não a tenho. A tristeza serve para desculpar a inércia e, sobretudo, a mediocridade.

2008/10/06

Vasantotsav





Festival da Primavera, Bengal (Índia)

2008/10/04

Confissões nocturnas

Doem-me os mamilos, apetece-me fumar e já não aguento ouvir a miniatura russa correr na sua roda.

2008/10/03

Mário

Acordei com uma sensação estranha de confinamento. Como se estivesse a sufocar devagar. Cada vez que respirei fundo - sentado na cama, ainda estremunhado, fi-lo várias vezes - senti que o ar que entrou no meu corpo ficou a meio caminho. Não atingiu os seus objectivos: chegar ao final do aparelho respiratório, aos alvéolos pulmonares. Perdeu-se nos brônquios ou nos bronquíolos. Levantei-me e na penumbra do quarto, com freixos de luz entrando pelas frinchas dos estores, lembrei-me da minha professora da quarta classe. Chamava-se Vitória. Entre outras coisas, ensinou-me o aparelho respiratório. Boca, nariz, faringe, laringe, traqueia, pulmões, brônquios, bronquíolos, alvéolos pulmonares. Era militante comunista e foi a primeira paixão da minha vida. No verão usava decotes ousados e camisolas justas. Quando levantava os braços para apagar o quadro mostrava uma penugem que me fazia estremecer. Gozava com a bandeira e o hino. Odiava o Salazar. Nas aulas obrigava-nos a ouvir canções do José Afonso e lia-nos, com uma voz doce, poemas sobre a revolução. Eu amava-a em silêncio. Um dia, porém, ao chegar à escola, encontrei-a perto do portão. Beijava um homem com paixão. Era um preto. Um desses pretos retintos que, com esforço, tentam disfarçar o cheiro a catinga e os traços simiescos. Nesse dia o meu amor pela professora Vitória, tão grande e assolapado, acabou. Passei a odiá-la com igual intensidade. Não sei por que me lembro dela precisamente no dia em que vai ser lida a sentença.

(O líder do grupo de extrema-direita Hammerskins em Portugal, Mário Machado, foi hoje condenado a 4 anos e 10 meses de prisão efectiva. Continua a achar-se um preso político. Para além de feio, é- como dizê-lo? - uma besta delirante.)

2008/10/01

Vermelho


(Só sou do Benfica por causa da cor. Não há cor que se compare ao vermelho.)

Bola

Nunca percebi os benfiquistas que, invocando bacocos sentimentos de patriotismo, afirmam apoiar as outras equipas nas competições europeias. Para mim, que nem gosto muito de futebol, ver o FCP ser humilhado, espezinhado, reduzido à sua insignificância, é quase tão bom como ver o SLB ganhar.

2008/09/29

2008/09/26

As cabras capadas (2)

O problema das cabras inférteis é serem cabras inférteis e analfabetas. Muitíssimo carolas. Umas aventesmas dotadas de uma carolice quase alvar, digna de piedade. Porém, se a gente pensar bem no assunto percebe que há nisto a mão divina. Aliás, quanto mais penso, mais sou levada a crer que Deus, Nosso Senhor, Pai de todos as criaturas terrestres, existe mesmo. Porque se Deus não dotou de fertilidade estas caprídeas mulheres (cujos balidos ecoam, em bando, furiosos, pela blogosfera, fazendo béééé) é porque, munido da sua grandiosa perspicácia, percebeu que as suas lanosas vaginas serviam para ser penetradas por apelativos caralhos, de glandes refulgentes e escrotos cheios, mas nunca, jamais, para franquear a chegada de crianças a este mundo. Há mulheres que não têm condições para educar uma criança. Deus, Nosso Senhor, percebendo isso, capou-as. E capou-as muito bem. Coitaditas. Tão desesperadas para ter um filhinho, pequenino e ranhoso, para amar e Deus, Nosso Senhor, esse malandro, esse monstro impiedoso, a não deixar.
(andei a ler os meus arquivos e descobri esta pérola de acrimónia. credo.)

As cabras capadas (1)

A minha irmã foi vilipendiada, no seu berloque, por um bando de cabras inférteis. É digno de se ler. É o que dá ter comentários no blog. Ter comentários num blog é o mesmo que deixar aberta a porta da nossa casa e deixar entrar no nosso espaço, mexer nos nossos objectos, gente que vai ao teatro ver espectáculos da Teresa Guilherme, gente que lê livros da Margarida Rebelo Pinto e afins, gente que gosta da Rita Ferro Rodrigues e da Margarida Pinto Correia, gente que participa em eventos como a mais bela bandeira do mundo, gente que vive em Agualva-Cacém e vai para Quarteira e Armação de Pêra passear, debaixo do ordinário sol algarvio, nalgas esturricadas, cheias de celulite e estrias. Eu não vou sequer ao blog da mana que é para não me irritar. Já me bastam as outras ralações da vida. O problema das cabras inférteis não é serem cabras. As cabras são até bichos engraçados, do meu agrado, dotados de uma altivez própria e genuína. Não é, claro está, serem inférteis. Infelizmente, como se sabe, a infertilidade é mal de que padecem muitas outras mulheres. É uma maleita injusta, tão pesada, dos nossos dias.

2008/09/25

Raiva

Muitas vezes, durante o verão, a propósito dos assaltos, sequestros e roubos, do insuportável pânico geral, do esperado gesto de sempre acusar o outro, lembrei-me deste brilhante filme de Mathieu Kassovitz. O que fazer quando a raiva nos consome?

2008/09/23

Lembrete

Tópicos: Pires, o braço direito do tio Vitalino, ex-pide, prestável, incomodamente simpático; negra albina da estação de Entrecampos; antigos prédios da Quinta do Mocho, descarnados, com as vísceras à mostra; Dean, o meu primo marinheiro de Nova-Deli que tem um filho chamado Ulisses; neuro-pediatras; as insuportáveis teorias que todos têm para explicar o olhar espantado do Joaquim.

2008/09/16

Chatice

Uma pessoa passa dois meses longe da blogosfera e quando volta percebe que nada mudou. Continua a mundana chatice, como diria o meu querido Fausto. Há blogs tão merdosos. Principalmente, e digo-o com pesar, os que são escritos por mulheres.

2008/09/15

Celacanto

O Joaquim chegou com as primeiras chuvas de Setembro. Chuvas ainda frágeis, tenras. Trouxe-me uma palavra medonha, uma palavra-pedra que me faz lembrar, não sei porquê, peixes pré-históricos, daqueles pesados que nadam rasteiros no fundo do mar. Deitado no berço da ucern, gigante entre as meninas prematuras que deslizam pelas mãos seguras das enfermeiras, olha o mundo com absoluto desinteresse.

2008/07/12

Luxor

Fouad el Khoury, Luxor - 1990

Chuva

Estou de abalada para o Alentejo. Volto à metrópole em Agosto para dar à luz o Alfredo Miguel (era o que mais faltava compartilhar convosco o nome do meu filho). Se for como os irmãos, há-de ser um bebé ruim, malino, como usava dizer a minha avó Felicidade, insuportável, daqueles que esgota a paciência a qualquer mãe. Até às mais entusiastas que pingam amor maternal por todos os poros e olham com desvelo para os estafermos pequenos. Prevejo, por isso, estar arredada da blogosfera durante algum tempo. Dois ou três meses. Volto com as primeiras chuvas.

2008/07/10

Magno

Aqui há uns anos, quatro ou cinco, no já desaparecido programa da TSF, “Freud e Maquiavel”, o Carlos Magno apresentava ao país o Paulo Rangel como um ilustre jurista da cidade do Porto, arguto, combativo e dotado de uma inteligência acima da média. Mais coisa, menos coisa, era isto que ele dizia. Rematava, naquele ar de profeta que tanto gosto de utilizar, dizendo que o tal jurista desconhecido ainda daria que falar na estafada cena política portuguesa. Detesto quando o Carlos Magno tem razão.

Boceta

Queria escrever um texto, denso e longo, sobre bocetas. Parece nome de pão italiano, daquele que se corta às fatias, enche de ervas e queijos e depois se leva ao forno a gratinar. Não é. Queria também escrever sobre como é difícil uma mulher grávida masturbar-se. O ventre dilatado dificulta o acesso à boceta. Uma pessoa lê de supetão dois ou três livros do Rubem Fonseca e sente-me confortável para abordar tais temáticas. É uma coisa um bocado parva. Ainda bem que ando com os dedos inchados e perros. Mal os consigo mexer. Poupam-me o embaraço de ter de enfrentar o olhar do meu pai depois confessar rotinas sexuais. Obrigam-me à doméstica decência.

2008/07/05

Ler

A propósito da entrevista à Margarida Rebelo Pinto, a capa da Ler fala dos livros das pessoas comuns. Gostava de saber o que são as pessoas comuns.

2008/07/02

Curtains

(fecham-se as cortinas.)

Estendal

Chega-se um homem ao pé de mim e diz assim: a menina tem um cigarro? Reparo-lhe nos olhos encovados de espectro, na pele tisnada do sol, na barba emaranhada, na boca sem dentes. Empurra um carrinho de supermercado. Deve viver na rua. Espanta-me que saiba falar. Acho sempre que quem vive na rua acaba, mais cedo ou mais tarde, por perder o dom da fala. A solidão seca-lhes a voz. Desaprendem a linguagem dos homens. Aprendem a dos bichos. Grunhem como animais. A voz deste homem, porém, é limpa. Ele sabe falar. E está a falar comigo. Não lhe respondo. Continuo a andar. O homem continua atrás de mim. O carrinho que empurra chia. Está cheio de sacos de plástico velhos. Em cima dos sacos há um urso de peluche branco e preto. Está imundo. Já não tem olhos. Da boca sai-lhe uma linguazinha de feltro cor-de-rosa. O homem repete a mesma frase. A menina tem um cigarro? Há gentileza na sua voz. Não sou menina. Trago escondido, no bolso interior da mala, um maço de cigarros que fumo às escondidas dos meus filhos. Durante a noite, quando adormecem, cansados de tanto jogarem às escondidas, sento-me junto ao estendal da varanda e fumo um cigarro. É o melhor momento do meu dia. A roupa estendida cheira bem e está fresca. Podia dar um cigarro ao homem do carrinho. Assim livrava-me dele, da sua sujidade, da sua imundície, da sua voz límpida. Mas uma mulher grávida não fuma. Não posso dar-lhe um cigarro. Continuo a andar.

Paro na montra do talho. Tenho uma atracção antiga por talhos. Gosto de ler os letreiros que certos talhos, sobretudo nos bairros pobres das periferias, ostentam. Procuro sempre os que anunciam pezinhos de porco, miudezas, testículos, bofes. Também gosto de observar os mapas que mostram como se divide o corpo de uma vaca. Aqui a alcatra, ali a pá, acolá o acém, o pombinho, o ganso. Como se retalhará o corpo de um homem? Que parte de nós será mais tenra? Mais saborosa? Observo a montra deste talho. Não me agrada a sofisticação da oferta. Num quadro preto anuncia-se que hoje há lombo de porco recheado com frutos secos e espinafres e picanha argentina. Ando devagar. Sinto-me uma tartaruga vagarosa. Daquelas que têm mais de cem anos e chegam às praias de águas tépidas para se livrarem de centenas de ovinhos. Detesto estar grávida. Sempre detestei. Perder o controlo do meu corpo. Passar a ser um mero invólucro. Uma cabaça. Um casulo. O homem do carrinho continua ao meu lado. Chia o carrinho de supermercado como se fosse um lamento. Continua a perguntar: a menina tem um cigarro? Paro. Digo-lhe Não fumo. Ele olha para mim. Escarafuncha o nariz com as unhas sujas. Fuma. A menina fuma, diz com lentidão. Depois vai-se embora.