Dia de festa. Havia bacalhau com grão no refeitório. Pedi à D. Rosa, a goesa dos olhos tristes, o prato grande. Estranhou o pedido. O prato grande, filha? E tu vais comer tudo?, perguntou-me antes de começar a servir. Todos os dias, lhe peço o prato pequeno. Geralmente deixo metade. Ela lastima sempre o meu desperdício diário. Ralha. Que é pecado deitar comida fora, que estou doente porque não como em condições, que bem se vê que nunca passei necessidades na vida, que ela era incapaz de deitar, assim como eu faço, meia posta de pescada para o lixo. Amuei. Que se deixasse de coisas e me desse a posta do rabo que é a que mais gosto. Expliquei-lhe que bacalhau com grão é a minha comida portuguesa favorita. Ela serviu-me com vagar e perguntou pelo meu prato goês favorito. Hesitei entre o sarapatel e o balchão de cação. Esclareci que a minha mãe alentejana me sacia a gula oriental. Confecciona bem qualquer prato goês. Lembrei as chamuças gordas e as bojés de grão que compro nas ruas de Margão, pelo crepúsculo, embrulhados em papel de jornal, muito picantes e quentinhas. Ela sorriu e fez duas covinhas no rosto. Depois, contou que já pagou a passagem de avião para Moçambique. Um dinheirão. Vai no Natal. Sozinha. Volta, depois de tantos anos e de tanta solidão, para rever o pai que não quis vir para Portugal na altura da independência. Parece que está doente e lhe disse que não queria morrer sem voltar a ver a sua única filha. A sua Rosa. Que é como eu. Um triângulo equilátero. Temos ambas três lados. E são iguais. Um lado europeu, um lado africano, um lado asiático. Amanhã, imagina tu, vão servir caril de frutos do mar! disse, entregando-me o bacalhau com grão. E fez um esgar de nojo. Doidos, estes portugueses. E rimo-nos as duas.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2009/09/17
2009/09/16
Menina Elsa
Desligou o telefone para atender a mulher que naquele instante entrava no consultório. A sala de espera estava já cheia. Dois homens grandes, musculados e de braços bronzeados, falavam junto de uma janela onde um cóleo vermelho crescia em altura, muito delgadinho e espigado. Uma rapariga nova, vestida com descuido, chinelos enfiados nos pés, o cabelo hirsuto, num desalinho, folheava revistas cor-de-rosa. Um casal velho aguardava imóvel. Era o homem que estava doente. A pele tinha-a macilenta, baça. Tremia-lhe o olhar e as mãos. A mulher estava de olhos fechados. Parecia descansar. Um rapaz, muito gordo, o rego do rabo peludo a espreitar nas calças de ganga, dormitava no colo da mãe. O televisor, colocado num canto do tecto, parecendo um enorme olho, mostrava imagens da campanha. Candidatos sorridentes. Comícios cheios de velhas sem dentes, chegando de passeio nas camionetas dos partidos para verem os senhores doutores e almoçarem no pavilhão da câmara municipal. Bandeiras agitadas por obrigação, sem entusiasmo ou alegria. A menina Elsa verificou o nome da mulher na sua agenda. Vinha com um atraso de meia hora. Não fazia mal. As consultas estavam atrasadas. Tinha cinco pessoas à sua frente. Estas consultas não são como as outras, explicou. Podem durar cinco minutos ou cinco horas, e soltou uma gargalhada pequenina satisfeita com o seu exagero.
Voltou a pegar no auscultador e a marcar o número do ministério onde a irmã trabalhava. Espreitou o televisor da sala de espera. Lá estava o senhor primeiro-ministro. Sempre elegante e distinto. E muito sensível. Explicara numa entrevista que gostava de poesia. Lia o Pessoa e o Camões. Ficara deslumbrada com tal confissão. Só as pessoas muito cultas gostavam de poesia. A menina Elsa só lera o Camões no liceu e achara a sua obra longa e aborrecida. Ao Pessoa só lhe conhecia o chapéu, a figura franzina, o bigodinho ridículo. Poemas, nem um. Tinha, porém, uma admiração grande e sincera por toda a gente que lia poesia. Também por quem ia ao teatro e a concertos de música clássica. Só gente de muita classe frequentava esses círculos de elegância e snobismo cultural aos quais não pertencia mas que olhava com espantosa veneração. Ficara tocada com a sensibilidade do primeiro-ministro. Um homem assim, culto e sofisticado, capaz de citar poemas do Fernando Pessoa numa conversa, capaz mesmo de, no final de um dia de trabalho, depois da estafa da política, do cansaço das decisões, calçar as pantufas e ler a lírica camoniana, merecia a sua imensa admiração. Melhor, merecia o seu voto. De certeza absoluta que a outra candidata não lia poesia. Era um estafermo. E tão feiinha. E tão mal vestida. Coitadita.
Pousou o auscultador. A irmã não lhe atendia o telefonema. Olhou as marcações daquele dia. A senhora doutora tinha um acordo com a polícia e com o sindicato dos bancários. Os polícias e os bancários eram muito dados a doenças do foro psiquiátrico. Percebera isso mal começara a trabalhar no consultório. Deviam ser profissões de grande desgaste. Fraqueja-lhes amiúde o espírito. Vinha-lhes depois uma astenia, uma prostração generalizada, ficavam muitas vezes com um olhar estranho, ausente. Era sempre um corrupio, de manhã à noite, naquele consultório. A menina Elsa via-se aflita para gerir a agenda. Tinha os seus truques e regras. Em frente do nome de cada paciente colocava, com uma letra redonda, as suas notas pessoais. Eram apontamentos breves que a ajudavam a gerir com justiça a agenda da senhora doutora. Por exemplo, as mulheres com filhos tinham prioridade na marcação das consultas. Os homens e as solteiras que ficassem com as consultas do final do dia. A menina Elsa não tinha filhos mas sabia, pela vida das irmãs, que a maternidade era muito trabalhosa. Exigia permanente assistência. Telefonava na véspera a confirmar as marcações. Usava de diplomacia para justificar atrasos e urgências. Conseguia encaixar sempre mais um paciente. Conhecia-os pelo nome próprio e pelo apelido. Bastava que lá fossem uma vez que, na volta, já os cumprimentava com um enorme sorriso.
A senhora doutora era diferente. Sorria pouco. Sempre distante e fria. A menina Elsa, pelo contrário, era uma mulher de afectos, com um coração muito açucarado e uma voz envolvente. Mesmo os agentes da polícia, habituados à aspereza da vida, a princípio, estranhavam aquela voz meiga e aqueles modos familiares e gentis. Acabavam por se acostumar e com ela partilhar alguns dos seus padecimentos. As noites mal dormidas, os pesadelos, os tremeliques, os efeitos da medicação. Ela tinha sempre uma palavra de conforto e alento. Já se habituara aos nomes das doenças, dos medicamentos, das marcas. O triticum e o lexotan tratavam depressões levezinhas. Os doentes bipolares tomavam sempre lítio e ácido valpróico. Os esquizofrénicos tinham de se tratar com anti-psicópicos, por causa dos delírios, e às vezes, com tranquilizantes. O valuim e o zoldipem eram muito eficazes. A verdade é que a medicina psiquiátrica já tinha poucos segredos para a menina Elsa. Se um dia acontecesse alguma coisa à senhora doutora, que deus nosso senhor o não permitisse e a mantivesse por cá, distante e fria, por muitos mais anos, ela conseguiria assegurar o bem estar dos agentes maníacos, dos bancários deprimidos, das mães de família exaustas, escutando-lhe os desabafos e prescrevendo-lhes com a sua letra muito redonda os remediozinhos com nomes esquisitos.
(Fui ontem à psiquiatra nova que acertou, logo à primeira, na minha medicação. Não me reconheço. Ando moderadamente feliz. Um mês inteiro e só chorei duas vezes. Não sonho com pulsos cortados. Nem encontro alívio nas janelas abertas. Quando lá cheguei tinha 15 pessoas à minha frente. Não fui sequer capaz de insultar a menina Elsa.)
2009/09/14
Judite
A Judite de Sousa, instada, na semana passada, por um jornal qualquer a se pronunciar sobre os atributos físicos do PM, disse laconicamente que o achava um homem interessante. É o mesmo que dizer que o acha giro. Não a censuro. Também o acho giro. Gosto sobretudo da acidez que tantos lhe criticam. Vai bem com o cabelo grisalho, bem cortado, com os fatinhos janotas, os sapatos irrepreensíveis. Nos debates, quando o vejo a fazer aquele ar enjoado, baixando as pálpebras com aborrecimento, enquanto o Jerónimo de Sousa perora sobre a situação dos trabalhadores da autoeuropa, suspiro. Que lindo homem. Uma estampa. Aprecio a sobranceria, a arrogância, aqueles modos que roçam quase a má educação. As mulheres gostam de homens assim. Um bocadinho maus. A virilidade não se mede só pelo número de pêlos no peito ou pela aptidão para ficar durante várias horas a falar sobre as maravilhosas pernas do Pablito Aimar. Mede-se muito pela capacidade de rosnar. Fico enjoada quando topo com um político muito delicado, muito educado, muito falso, muito dialogante, sem sangue nenhum na venta, sorrindo sempre, sorrindo a todos, tipo António José Seguro. Aprecio nos políticos as qualidades que aprecio nos homens. O PM sorri e a gente percebe que o faz com esforço. Algum assessor, antes do debate, lhe explicou que era importante sorrir. O PM pode ter muitos defeitos, mas é sempre, sempre, sempre genuíno. Porque mesmo quando é falso, isso acontece muitas vezes, aquilo é tudo tão de pechisbeque, de fancaria, que não engana ninguém. Acaba por ser genuíno.
De resto, para além da total incapacidade para disfarçar a petulância, não lhe aprecio mais nada.
De resto, para além da total incapacidade para disfarçar a petulância, não lhe aprecio mais nada.
2009/09/06
Alentejo
Estive, pelo meio do mês Agosto, dois dias no Algarve. Depois fugi. Odeio o Algarve. Até tive vómitos. Ainda pensei que viesse aí o quarto filho. Gostava de ter outro filho. Contigo que me deste os outros. Os filhos são uma desculpa tão boa para o resto. Principalmente para aquilo que se deixa de fazer. Adiante com o andor. Como dizia, não há nada que se aproveite no Algarve. Nem a alfarroba. Nem o mar. Nem a proximidade com África, que mal se nota, tantos são os bifes e as bifas. Só sosseguei quando voltei à planície e ao mar de São Torpes com a central eléctrica, gigante e feia, espreitando atrás e, na minha cabeça, a lembrança da prostituta anã que, noutros verões, costumava, esperar na rotunda os clientes que a levavam para o meio dos pinhais. O Alentejo põe o Algarve a um canto. No Algarve não há prostitutas anãs. Com excepção da minha querida Maria Emília e respectiva família, só os parolos vão para o Algarve.
2009/08/29
Mau Tempo no Canal
Mais do que a minha gripe, a otite da Dá, a bronquiolite do Joaquim, mais do que o Alentejo deixado assim de supetão, as flores de papel desabrochando das mãos da Maria da Luz, o circo que chegou ao largo da aldeia numa noite de vento, o homem comendo lacraus mansos no café do Leandro, os canteiros com cristas de galo e cravos tunicos, a vizinha Antónia descansando pela tardinha na soleira da porta com um mata-moscas no regaço, os cartazes anunciando a feira de Grândola, a prima Laura apertando os meus filhos nos braços e comprando vestidinhos às tendeiras,
- Gostas Clarinha?
- Gosto prima.
- Pareço uma baleia.
- Não parece nada. Parece uma menina.
mais do que isso tudo, que é tanto, aborreceu-me ter deixado o livro esquecido em cima da arca do quarto da minha avó. O fantasma da minha avó nem sequer sabe ler. Sabe contar histórias de mulheres vaidosas e de bichos falantes, mas não sabe ler. Já não me lembrava dos Dulmo, dos Clark, dos Garcia, de como é bom voltar aos livros que são assim, melhores do que qualquer companhia, qualquer conversa, qualquer amigo.
Funguei de raiva quando dei conta do meu esquecimento. Um pingo de ranho escorreu-me do nariz. Desdenhei o filho da mãe e todos os livrinhos que merda - bons, mas, ainda assim, livrinhos de merda - que tenho lido nas últimas semanas. Exigi à minha mãe, que vinha tratar de mim e da minha prole, que me trouxesse a caras, a lux, a tv guia. Não podendo voltar ao romance do Nemésio decidi, numa espécie de harakiri literário, entupir-me das histórias das carolinas patrocínios e das alexandras lencastres desta vida. Se era para ler merda que fosse merda a sério. Ela estranhou o pedido e chegou a casa carregadinha de antibióticos e comprimidos efervescentes de vitamina C. Folheei as revistas com exagerado nojo, insultando cada loira que me aparecia pela frente e levantando a máscara para lhes tossir para cima. Antes de adormecer, engoli o Clavamox Dt. Um comprimido que parece um torpedo, um míssil, uma bomba. A minha cunhada avisou-me que o tomasse de 12 em 12 horas e não estranhasse o desarranjo intestinal provocado.
Tratei os meus filhos com cansaço. Agradeci à minha mãe a ajuda e adormeci-lhe no colo. Tão bom ter uma mãe. A meio da noite acordei sem conseguir respirar. Enquanto punha os pingos no nariz veio-me outra vez à cabeça o livro esquecido no Alentejo. Entristeci e recordei a tareia que Diogo Dulmo dá a Margarida logo nas primeiras páginas. Há tantas maneiras de um homem sovar uma mulher. Tenho um ódio miudinho aos homens. Está-me entranhado no corpo. Desprezo-os com benevolência e sinceridade. O meu filho mais velho acha-me injusta quando lhe explico que os homens não valem um caracol. Havia de ter nascido lésbica. Foi então, assim do nada, enquanto meditava nas vantagens do feminismo/lesbianismo, enfim, nas enormes vantagens de um mundo livre de falos, que me lembrei que tenho o hábito de comprar edições antigas de bolso. Faço-o quando gosto das ilustrações das capas. Levantei-me, trôpega, mas feliz, salva. Acendi a luz do corredor e ali, no meio da estante, encontrei um rabo gigante de baleia mergulhando no mar dos Açores.
2009/07/29
2009/07/28
Ponto Final
Escrever sobre o real. Sobre o irreal. Sobre os sonhos. Sobre o que imagino. Sobre o que é. Sobre o que não é. Sobre o que nunca será. Sobre a Pensão Imperial. Sobre passadeiras de linólio acastanhadas. Sobre a mulher de bata azul que se move numa cozinha onde há um aparador de madeira nacarada, com naperões de fio grosso e fruteiras de plástico colorido, dispostas como se fossem troféus de coisa nenhuma. Escrever sobre o homem novo, de calções e chinelos, que, entre vasos de plantas de folhas largas, sob uma clarabóia de luz, repara o lambril de uma escadaria. Uma poalha de gesso cobre-lhe as mãos e os pés.
Escrever sobre o homem indiano que no bulício quente, efervescente, da cidade, numa cabine telefónica, gritou num linguajar que se assemelhava a inglês: "you won´t fuck her again!". O amor transformado em cólera. A raiva a sair-lhe da boca em forma de palavras. A raiva a pairar sobre a cidade. "You won´t fuck her again!". A espalhar-se pela praça como se fosse leite derramado. Ferve. Transforma-se em espuma. Sobe. Transborda. Cobre a placa e os bicos do fogão. Transforma-se, depois, numa nata pegajosa e amarelada. O amor transformado numa nata pegajosa e amarelada. A raiva do homem indiano a perder-se avenida fora, tocando os transeuntes que saem dos bancos, das companhias de seguros, dos escritórios de advogados, das lojas caras, das repartições públicas, das correctoras.
Escrever sobre a mulher que às segundas-feiras, pelo crepúsculo, se cruza comigo no metro do Marquês. Os lábios finos pintados de vermelho escuro. A cara coberta por uma base escura para esconder as nódoas e imperfeições do rosto. O olhar incerto. Inseguro. O cabelo muito comprido. Preso com um gancho amarelo. Uma mulher-homem. Ou um homem-mulher. Ainda não sei. Ainda não descobri. Tenho sempre vontade de lhe tocar. Ou de lhe falar. Escrever sobre a outra mulher que ontem se sentou ao meu lado no comboio. As pernas cobertas de pelos pretos como se não fosse gente. Como se fosse um animal, um primata, um macaquinho qualquer. Fiquei incomodada com a visão terrífica das pernas peludas da mulher que se sentou ao meu lado.
Escrever, ainda, sobre a rapariga com um brilhante no canino superior que, sorridente, me mostrou uma casa. Inchada de tanto profissionalismo. Dizendo-se jurista, especialista em arrendamento, abriu portas. E janelas. Correu persianas. Disse-me onde o sol nascia e onde, pela tarde, desfalecia. Elogiou o prédio e a vizinhança. Escrever sobre essa casa. Velha. Um quadrado serôdio de luz. As janelas perras a darem para o arvoredo e para o casario baixo. Lá longe, o rio. A cozinha de armários altos e castanhos, com uma celha de madeira podre para lavar roupa. Os quartos pequenos com móveis escuros. Camas com cabeceiras ovais. Cadeiras com espaldares altos e rendilhados a fazerem lembrar tronos de gente pequena. Escrever sobre essa casa que nunca foi minha.
2009/07/26
2009/07/23
António Augusto de Aguiar
Vou a um psiquiatra novo. Aborrece-me mudar de psiquiatra. É o sexto que conheço desde os dezoito anos. Há quem coleccione maridos. Eu colecciono psiquiatras. Preferia coleccionar maridos. A primeira vez com um psiquiatra novo custa sempre. Tenho de explicar a razão pela qual estou ali. Não é fácil fazê-lo em meia dúzia de minutos. Exige capacidade de síntese e assertividade. Mal o senhor doutor disser “Então, o que é que a traz por cá?” sairão da minha boca frases em catadupa, tudo ordenado, clarinho como a água, a vida em meia dúzia de linhas sem brilho, o resto escondido atrás das palavras. Tenho sempre a sensação de que não estou a falar de mim. Tristeza, ansiedade, frustração, cansaço, solidão, morte. Toda a gente fala do mesmo. Todos os deprimidos que consultam os psiquiatras da rua António Augusto de Aguiar falam do mesmo. Ser deprimida é coisa que há muito me consome e, sobretudo, humilha. Tenho vergonha de padecer de tal maleita. A depressão é uma doença tão fútil como a anorexia. É um luxo de sociedades onde impera a abundância e o desperdício. As anoréxicas querem ser magras. Os deprimidos querem ser felizes. Uns e outros deviam ser sovados até que a estultícia lhes saísse das entranhas. A Mónica Sintra é anoréxica e depressiva. Fala disso, amiúde, com ar pesaroso e sério, na televisão. Acho que até escreveu um livro sobre o assunto. Mais coisa, menos coisa, estou no mesmo patamar da Mónica Sintra. Não se pode descer mais baixo.
(acabei de ler “A Morte Feliz”.)
2009/07/22
2009/07/21
Notas com bolor
Já se esperava que a esquerda tratasse a tal proposta de revisão constitucional do PSD Madeira com o desprezo habitual. A esquerda é esclarecida e não perde tempo com minudências. Por exemplo, na televisão, a Ana Drago explicou que, por uma questão de higiene, estabeleceu para si a regra de nunca comentar os dislates do Dr. Jardim. A Clara Ferreira Alves foi pelo mesmo caminho. Mexeu na madeixa loira, encolheu os ombros e tratou o assunto com nojo. Depois faiscou os olhos azuis e fez um ar bestialmente inteligente e culto. Talvez estivesse a pensar escrever outra crónica sobre os croissants que se comem nos cafés dos bairros típicos de Paris.
O que se estranha é que também a direita, em geral, se tenha demarcado do Alberto João Jardim. E, no entanto, ele trouxe para a discussão pública uma questão interessante. É insustentável que uma constituição democrática, nascida da liberdade, assente na liberdade, proíba determinada ideologia por esta colocar em risco a sua essência. Se, decorridos trinta anos sobre o 25 de Abril, o texto constitucional opta por continuar a proibir ideologias deve fazê-lo com isenção, excluindo todas as ideologias totalitárias, as de direita e as de esquerda. É o que se espera de uma constituição democrática e viva.
Os comentadores de direita, porém, têm horror a ser confundidos com o Dr. Jardim, que é trauliteiro, boçal e bebe poncha. Eles, os comentadores de direita, são polidos. São de direita mas, em rigor, podiam ser de esquerda. Utilizam expressões como “boutades”. Escutam o Leonard Cohen. No fundo, no fundo, também gostam de comer croissants sentados nas mesas minúsculas dos cafés dos bairros típicos de Paris. Em relação ao presidente do governo regional da Madeira fazem sempre o mesmo. Começam por esclarecer-nos que não concordam com o que o dito disse. Distanciam-se. Demarcam-se. Depois, quando nos explicam a sua opinião sobre o assunto, seja ele qual for, dão-lhe quase sempre razão. É um bocadinho ridículo.
Paralelepípedo
Passeava, pela manhã, na avenida, um estranho casal: uma rapariga gorda, que trazia nos braços um cão minúsculo, seguia lentamente, abraçada por um rapaz alto e magro, de rosto delicado e dedos longos. Quem com eles se cruzava achava bizarra aquela parelha: o rapaz bonito, de uma beleza feminina, e por isso excessiva, a rapariga muito matrona, muito pesada, uma deusa da fertilidade pré-histórica tão sossegada e serena, o cão minúsculo nos braços, aninhado nas sua peitaça, latindo de prazer. O rapaz olhava para a rapariga com devoção. Estava apaixonado. Muitos transeuntes voltavam a cabeça para trás procurando perceber a atracção que os unia. Um homem, mais distraído, tropeçou num paralelepípedo solto da calçada e bateu com o joelho numa banca de jornais que caiu com estrondo e espantou os pardais que dormitavam no parapeito de uma janela.
Somos conservadores no que respeita às características físicas dos nossos parceiros. Mais do que em relação ao resto. Procuramos nos nossos parceiros o prolongamento do nosso corpo, dos nossos braços, das nossas pernas. Queremos quem nos complete, quem em nós se encaixe na perfeição, como uma peça de um puzzle. A felicidade, ou parte dela, está nessa harmonia. A adequação física dos corpos é essencial. Um homem bonito com uma mulher bonita. Um homem gordo com uma mulher gorda. Um homem negro com uma mulher negra. Um homem cego com uma mulher cega. Um homem velho com uma mulher velha. Conheço um casal em que o homem e a mulher são de tal modo fisicamente parecidos - baixos, atarracados, rosto quadrado, o cabelo branco e esgrouviado, duas toupeiras andando com passos pequenos – que, durante muitos anos, eu, que os espiava nos corredores do supermercado da D. Rosa, os tomei por irmãos. Dois irmãos comprando cem gramas de fiambre da perna, cortado muito fino, e dois queijos frescos. Quando percebi que eram marido e mulher olhei-os com condenação. Achei-os incestuosos. A atracção dos opostos é coisa que acontece no mundo paralelo dos livros e dos filmes, esse mundo que nunca nos toca, mas sempre paira sobre nós, mostrando-nos a monotonia dos dias. A diferença, ao contrário do que se diz, raramente atrai. Quando a diferença atrai é de forma passageira, uma coisinha absurda que se esgota num instante.
2009/07/16
Última Página
Na última página do jornal, em jeito de anúncio ao suplemento de sexta-feira, uns olhos muito azuis e uma pergunta absurda: o que é que o Chico tem? Tem tudo, ora essa. Basta ler o seu último livro para perceber que não lhe falta nada.
Guardiães
Só há uma coisa mais deprimente do que publicar em livro as crónicas que se escrevem em revistas e jornais. É publicar em livro os textos que se escrevem em blogues. Os livros, entre outras coisas, passaram a ser guardiães da filosofia de pacotilha, da merdologia em geral, da análise gajológica do mundo, sapatos e namorados, namorados e sapatos, do escalpe frenético e detalhado de cada notícia, da opinião efémera, perecível, descartável. Tudo devidamente impresso em folhas de boa qualidade, com uma capa catita e uma cinta com uma frase de efeito. As pessoas que compram colectâneas de crónicas e afins fazem-no porque, em regra, apreciam os autores. Porém, quando chegam a casa, arrumam o livro num lugar esconso da estante e nunca mais lhe tocam. Ninguém, mas mesmo ninguém, lê colectâneas de crónicas e de posts. Felizmente. As crónicas devem ler-se nos jornais. Os posts nos blogues. Os livros deviam servir para outra coisa qualquer.
2009/07/15
Ana
Embirro solenemente com a mãe adolescente que reclama o seu filho Martim. É um sentimento que, de início, não fui capaz de perceber. Desconfio que a toleraria se ela fosse uma tolinha, incapaz de um discurso articulado e racional, uma pobre coitada cheia de lágrimas gordas nos olhos inchados, as mãos no peito, um português de frases mal amanhadas saindo-lhe da boca. Sou muito boa a derramar comiseração pelos pobres de espírito. O que nela me enerva, percebo agora, é a desenvoltura, a determinação, a lucidez e a coragem. Custa-me olhar para aquela miúda, que vem de um passado dorido, e reconhecer que há nela a força necessária para tomar as rédeas da sua vida e ser feliz.
2009/07/10
Ombro
Toquei no ombro do professor de ginástica acrobática da minha filha. De raspão, ao cumprimentá-lo, não sei como foi, os meus olhos estavam postos na espargata lateral de uma menina muito morena e, por descuido talvez, o meu corpo aproximou-se mais do que o esperado, a minha mão pousou inadvertidamente no seu ombro. Notei-lhe a rigidez do corpo e estremeci. Nunca tal me tinha acontecido. Parecia feito de mármore, mas de um mármore vivo, o corpo delineado a escopo e cinzel, burilado por um escultor renascentista qualquer, nas proporções exactas, sem mácula, ou falhas, um autêntico discobulus moderno. Tem vinte anos, é simpático e estuda medicina. Há dias, encontrei-o, pelo crepúsculo, numa esplanada perto de casa. O sol morria sobre a linha do rio, que ali é tão próximo, e ele lia um romance do Murakami. Achei a leitura apropriada à sua idade. Cumprimentei-o e lembrei-me do seu ombro. Podia ser meu filho. Fiz as contas e podia. Trinta e sete menos vinte dá dezassete. Aos dezassete, o meu corpo estava, há muito, maduro, capaz de inchar como um balão de feira. Cada vez que o vejo tento esquecer o seu ombro e convencer-me de que é o filho que gostaria de ter. Ainda bem que o Renato Manuel só lê blogues sobre o Benfica.
2009/07/08
Home
Fui ver Home, o filme da Ursula Meier. Alguém, nos esconsos labirintos da entidade pública responsável pela legendagem dos títulos dos filmes estrangeiros, manteve o Home original, acrescentando-lhe Lar Doce Lar. Ficou Home, Lar Doce Lar. Um mimo. Parece o título de uma comédia americana, daquelas que passam na televisão, repetidamente, nas tardes de domingo. Não é. É um filme sufocante e doloroso. Mostra-nos como as famílias são seres frágeis e como uma mãe pode ser, ao mesmo tempo, o seu pilar e o seu carrasco. A Isabelle Hupert, na sua magreza anóretica, com as suas saias floridas e os seus botins de bruxa, é, como sempre, magnifica. Os campos dourados fazem lembrar o Alentejo da minha infância. Entre os girassóis secos vivem gafanhotos pequeninos e pássaros pardacentos. Há melancias, melões e abóboras plantados nos terrenos mais arenosos. O sol queima. Home é um filme, mas também é um quadro, onde, como alguém já disse, são evidentes as influências de Edward Hooper e Jaques Tati. É um filme imperdível.
Abraça-me
O Cláudio Ramos escreveu um romance. Chama-se "Abraça-me" e tem honras de destaque nas vitrines das livrarias Bertrand. Gosto do Cláudio Ramos porque ele me faz lembrar o meu sobrinho Eduardo que é muito católico e maricas. Estuda comunicação social, nunca leu um livro na vida e acha que a vida se resume às telenovelas da tvi e às parangonas das revistas cor-de-rosa. Não sei se o romance do Cláudio Ramos é bom ou mau, mas tenho a certeza de que o Cláudio Ramos faria uma capa da Playboy mais interessante e apelativa do que a tal Rita Mendes.
Triste singularidade de uma rapariga loira
A revista Playboy traz este mês na capa uma rapariga loira, muito desenxabida, com um ar tristonho e encolhido. A rapariga loira olha-nos sem sedução ou provocação. Observa-nos de frente e, com um gesto forçado, tapa as maminhas com o braço. Levanta o outro braço a querer imitar, sem sucesso, a pose típica das pin-ups americanas. Usa uma maquilhagem discreta, o cabelo está penteado com volume, mas cai-lhe sem graça. Esboça um sorriso amarelo de quem não se sente bem naquela pele. A Playboy portuguesa, ao quarto número, demonstrou que não vale a ponta de um corno. Alguém devia explicar a quem lá manda que é suposto a gente olhar a capa da Playboy, pendurada nos quiosques e nos escaparates das tabacarias, e sentir uma vertigem pequenina de prazer, uma mornidão no corpo, o enrubescimento do rosto. A rapariga loira da capa deste mês (chama-se Rita Mendes) dá pena. Olho-a e fico com vontade de ir aprender a confeccionar pastéis de bacalhau com a Maria de Lurdes Modesto. Sempre é mais excitante. A Ana Malhoa, cuja capa do mês anterior foi tão criticada, pelo menos, tem uma aura assumidamente pornográfica, apela ao sexo óbvio, carnal, porcalhão, onde tudo se lambe e engole. A tal Rita, pobrezinha, não apela a nada.
2009/07/06
Coincidência Dominical
Domingo é um bom dia para se dançar o tango. Domingo é o dia do Senhor. Amém. À hora a que a aula começa, estará a minha sogra, do outro lado da cidade, a sair da missa. Quando ela estiver a sair do templo, muito consoladinha, regaladinha de papar tantas missas, de lacrimejar em frente do altar, tão devota à nossa senhora de fátima, que é feia, branca e seráfica, igualinha, no devaneio beato e na sabujice paramental, à titi do Raposão, estarei eu a entrar no Milonga Rubia para aprender a dançar o tango. Assim pensava Ângela Maria enquanto depilava as pernas com a máquina de barbear do marido. Não sabia explicar porquê mas agradava-lhe essa coincidência temporal entre a hora da saída da missa da sua sogra e a hora do início da aula de tango.
Cão Raivoso
O Partido Socialista, após o desaire nas eleições legislativas, resolveu proibir as candidaturas simultâneas às legislativas e autárquicas. Como explica, e bem, o Paulo Ferreira, no editorial do Público, é a decisão certa tomada pelas piores razões. O PSD aproveita para criticar a oportunidade da decisão. O partido parece um cão raivoso e esfaimado, já se avistam os dentes aguçados, cai-lhe um fio de baba, lambe os beiços, rebola de riso, convence-se de uma vitória que está longe de ser certa. Há muitos sociais-democratas que já sonham com um lugar de adjunto, assessor, chefe de gabinete. Mais valia ao PSD engolir os comentários acintosos. Portar-se com recato e ponderação. É que, se bem me lembro, a mais lamentável traição feita aos eleitores portuguesas veio das suas fileiras, foi levada a cabo por um social-democrata. Quando Durão Barroso se candidatou às legislativas de 2002 ninguém contava com a possibilidade de o dito vir a aceitar o convite para a presidência da Comissão Europeia. Quem nele votou acreditou no seu empenho pessoal, na sua vontade de mudar e de se distanciar do lamentável estado despesista que Guterres nos legou.
Que passado pouco tempo das eleições tenha trocado o seu país por um prestigiante cargo internacional, foi algo inesperado, nunca visto, digno de um país terceiro mundista. De repente, os portugueses, sobretudo os que nele votaram, viram-se confrontados com um primeiro-ministro que colocou, de forma descarada, os seus interesses pessoais à frente do interesse do país e que nos deixou entregues a quem não sabia sequer distinguir descentralização de desconcentração. O gesto de Durão Barroso foi a atitude política mais infame do Portugal democrático. Nunca ninguém desrespeitou tanto o voto dos portugueses como Durão Barroso. É, por isso, que me parece que, ao contrário do que se diz, as duplas candidaturas de Ana Gomes e de Elisa Ferreira são honestas. Pelo menos, os eleitores sabem com o que contam. Sabem, de antemão, que, caso sejam eleitas nas autárquicas, deixarão de cumprir o seu mandato europeu. É uma atitude mais transparente do que a de alguém que nunca explicou aos seus eleitores que estava ali de passagem, à espera de qualquer coisa melhor.
2009/07/02
Benfica
O Renato Manuel gosta mais do Benfica do que gosta de mim. Sobre isso não tenho quaisquer dúvidas. Apesar de negar, eu sei que um golo marcado pelo Simão ou um bom passe do Petit lhe causam sensações mais intensas do que os orgasmos que tem quando está comigo na cama. O amor dele pelo Benfica é tão grande que o impede de pisar qualquer outro estádio que não seja o da Luz. O Benfica pode ter um jogo decisivo contra o Sporting, em Alvalade, que ele, fidelíssimo à Luz, se recusa a pisar o estádio dos leões. É faccioso até ao tutano dos ossos. Na perspectiva dele, o Benfica é a única equipa que é intencionalmente roubada, prejudicada em todos os jogos do campeonato. É como se houvesse uma espécie de complot nacional contra o Benfica. Até na playstation o Benfica é roubado. Cada vez que o oiço falar das arbitragens penso em teorias da conspiração. O ódio dele pelo Porto é quase tão grande como o amor que tem pelo Benfica. Detesta, de um modo visceral, o Pinto da Costa. Compreendo-o neste ponto: o Pinto da Costa é um monstro provinciano e detestável, só comparável ao outro, de nome Jardim, que existe na ilha da Madeira.
Ora, eu nunca liguei muito à bola, mas, em miúda, era do Sporting. O meu pai era do Sporting, o meu irmão era do Sporting, praticava boxe em Alvalade, eu própria cheguei a andar na ginástica rítmica. No entanto, depois de começar a namorar com o Renato Manuel, acabei por mudar para o Benfica. Às tantas, dei conta que, apesar de não ligar nenhuma à bola, conhecia toda a equipa de Benfica: o Paulo Madeira, o Kennedy, o Helder, o Canigia e muitos outros. Achei que, assim como assim, já que conhecia alguma coisa sobre as gloriosas águias de fogo, era melhor ser do Benfica. Sempre podíamos falar sobre o assunto. Há outras coisas que me fizeram mudar de clube. O Benfica é vermelho e quem me conhece sabe bem que se eu fosse uma cor só poderia ser o vermelho. O Renato Manuel também me explicou que o Benfica é o clube do povo e que o Sporting é o clube dos betinhos. Foi tiro e queda. Eu sou pelo povo. Sempre fui. Se há coisa que eu detesto são betinhos. Por isso, como vêem, não tive alternativa. Há pessoas que me gozam e dizem, meio a brincar meio a falar a sério, que não sou íntegra e tal e coisa. Até já me disseram que se pode mudar de partido, mas de clube nunca. Discordo. Primeiro, porque me estou a borrifar para o futebol. Segundo, porque acho que, na vida, podemos sempre mudar. De clube, de partido, de marido, de mulher, de estilo de vida, de opinião, de religião, de gostos, de amigos, de cidade, de país, de forma de vestir, de convicções, de corte de cabelo, de feições, de estilo. Tudo. A mudança não nos torna incoerentes ou menos íntegros. Significa apenas que reflectimos e interagimos com o mundo.
(Texto antigo, escrito no primeiro blogue, que recordo a propósito das eleições de amanhã. O Benfica, desde então, tornou-se num clube tristemente patético e moribundo. A gente apercebe-se dos últimos estertores quando vê como os benfiquistas rejubilam com a vitória no campeonato de futsal. Não tarda nada estão a celebrar os campeonatos de matraquilhos e de ping-pong.)
2009/07/01
Lisboa
E, entretanto, não obstante termos um bom presidente, ainda por cima de ascendência goesa, facto que não é despiciendo, corremos o risco de ver na Câmara de Lisboa um basbaque que já lá esteve e tratou o município como o seu reino de brincar ao faz de conta. O Pedro Santana Lopes, com as devidas distâncias, que são muitas, é o nosso Sílvio Berlusconi. Apesar da mediocridade já demonstrada, há sempre quem lhes admire a beleza alvar dos traços, a virilidade própria dos fodilhões serôdios, a oratória brilhante, a demagogia dos discursos, a megalomania dos projectos, o amor aos pobrezinhos e às velhinhas, a saudade pelos tempos de antanho onde tudo era decente e genuíno. Não havia cá pretos, castanhos e chineses e os teatros de revista estavam cheios de coristas anafadinhas e obedientes. Outros tempos. Comia-se um bom bife na Portugália e podia passear-se na Baixa sem preocupações. A verdade é que o nosso menino guerreiro segue, com sucesso, as pegadas do il cavalieri, imitando-lhe o charme e o populismo. São tantas as qualidades e os atributos, que os eleitores, cansados de políticos cinzentos e sisudos, votam neles. A democracia tem destas coisas. Há um certo apreço pelo que é grotesco e imundo. A falta de vergonha compensa quase sempre.
Cidades
“Isto não tem que se fazer forçosamente com o TGV, ou apenas com ele. As cidades, se forem interessantes, atrairão gente. Por isso, repito, a prioridade deveria ir para a recuperação urbana, para os transportes públicos de proximidade e para as indústrias criativas e culturais.”, foi o que o Rui Tavares escreveu hoje, no Público, a propósito de qualquer coisa. Não sei o que são ao certo as indústrias criativas e culturais. Tenho uma vaga ideia. A sugestão de se apostar (com os dinheiros públicos, claro está!) nas tais indústrias culturais e criativas é tão tenebrosa que prefiro não a comentar. Respiro, porém, de alívio por, no momento de desenhar a cruzinha, o meu lado direito ter sovado com fúria o meu lado esquerdo. Deixou-o, ao meu lado esquerdo, de rastos, tortinho, cambaleando de lá para cá, cuspindo perdigotos, dentes e gotas escuras de sangue. Impediu-me, assim, de votar no BE nas últimas eleições e contribuir para a eleição do Rui Tavares. Só tenho a agradecer-lhe. Não o faço, porém. O meu lado direito é um bocado arrogante. Não se lhe pode dar grandes confianças.
2009/06/30
Kindle
Comprei um telemóvel quando saí de casa. Por necessidade. Quando voltei, passados três meses, arrumei-o numa gaveta. Uso-o com parcimónia. Em certas e determinadas ocasiões. Tenho uma agenda de papel para guardar números de telefone. Não sei ler mensagens de voz. Tenho uma máquina fotográfica digital. Tiro muitas fotografias. Só preciso de carregar num botão. Não sei tirá-las de lá. Tenho um ipod e não sei carregá-lo com músicas novas. Há dois anos que corro a ouvir o David Byrne e as tocatas de Bach. Não sei programar electrodomésticos, televisões, leitores de dvds. Não leio blogues. Atravesso os olhos, de viés, pelos dois ou três do costume. Imprimo sempre o que quero ler ou preciso ler. Receitas de bolos, acórdãos, leis, recensões simples de alguns livros que leio. Não consulto sites de jornais, rádios ou televisões. Tenho um computador portátil que me ofereceram pelos anos. Abri a caixa por insistência dos meus filhos passados muitos meses. Está colocado em cima da mesa da sala de jantar. Imóvel. Sou incapaz de o levar para a cama, para o sofá, para uma mesa de esplanada. Tenho um e-mail associado a este blogue e não respondo a quem tem a amabilidade de me escrever. Por acanhamento, mas também por estranheza. Nunca entrei, nunca entrarei, numa rede social, no hi-5, no Twiter, no Facebook. Que se possa gostar de ler livros num suporte que não se sente, não se cheira, não se tacteia, que não serve para guardar fotografias velhas, que não se enche de manchas de café, de lágrimas e migalhas, que é nada, é coisa que me transcende.
Mimetismo
Descia as escadas de serviço quando uma sombra se atravessou à minha frente. Uma mancha de tamanho incerto, veloz, correu pelos degraus abaixo, movendo-se com perícia, sem estranhar o espaço, sem temer o confronto. Ouvi uns passitos leves e um chiar que parecia um riso. Fiquei paralisada. À escuta. Até que os ruídos pequenos cessaram. Percebi que a mancha me esperava mais abaixo. Imaginei-a monstruosa, gorda, uma cauda enorme, uns dentes a arreganhar-me o descaramento. Senti palpitações, falta de ar, o medo amarinhando pelo corpo acima, como se fosse uma osga, um lagarto, uma centopeia. Saí das entranhas do edifício. Abri a porta de par em par. Com um certo dramatismo. Entrei no átrio onde duas rapariguinhas das companhias de seguros aguardavam o próximo elevador. Traziam a roupa muito justa ao corpo, unhas de gel pintadas com duas cores, sandálias de cunha baratas que hão-de soltar um cheiro nauseabundo ao final do dia. Uma delas, percebendo o meu desdém, arreganhou-me uma dentola medonha. Pareceu-me que chiava. Olhei para a outra. Vi-lhe uma cauda agrilhoada nas cuecas fio dental que se mostravam através da transparência de umas calças brancas. Abafei o grito que me saiu das goelas. Sustive um vómito que me veio à boca. Voltei a entrar nas escadas de serviço.
2009/06/29
2009/06/25
Tia
Não tenho o privilégio da raça pura. Sou mestiça. Certa vez, contei à tia Amália a confusão que a indefinição dos meus traços provoca. Já me tomaram por brasileira, cubana, uruguaia, argentina, cabo-verdiana, moçambicana, marroquina, paquistanesa, indiana e até espanhola. Uma mixórdia de origens e lugares. A minha tia abanou a cabeça, rejeitando tais hipóteses. No crepúsculo vermelho, e fresco, da casa de Pondá, assegurou que pareço parsi. Perante a minha surpresa, buscou concordância na Joaninha, sua empregada de longa data que, nesse instante, entrava com um tabuleiro cheio de pastelinhos recheados de baji de batata. Habituada, porventura, a nunca contrariar a minha tia, a pobre mulher anuiu sem sequer me olhar. A minha tia fez-me uma festa no rosto que me soube às coisas boas que existem no mundo. Olhei-lhe para dentro dos olhos e vi, nesse preciso instante, a menina que o meu pai levava todos os dias para a escola, numa bicicleta que cruzava veredas de lama e nuvens fofas de insectos. Explicou-me que os parsis, mais claros, são indianos originários da antiga Pérsia, actual Irão, um povo influente, que vive sobretudo nos estados do Maharastra e Gujarat. O tom da minha pele, o recorte dos olhos, a ondulação do cabelo, continuou a minha tia, são características dos parsi. Beberricou, de seguida, um sumo de uva muito escuro e ofereceu-me uns doces enjoativos de grão. Engoli um quadrado esboroado que sabia a flores e especiarias. Engoli também as origens imaginárias que a minha tia, nesse dia, me traçou. Ontem, no segundo canal, vi um documentário sobre Teerão. Dei por mim a achar-me parecida com as iranianas, a imaginar como ficaria linda com um lenço a cobrir-me os cabelos, eu que sempre me insurgi contra o uso do véu. Pergunto: quão tola se pode ser? Muito. Dezembro de 2007
(Reciclo. Por preguiça e cansaço.)
2009/06/24
2009/06/23
Rosa (epílogo)
Rosa, se soubesses o cansaço que trago no corpo não me olhavas assim, não me chamavas senhor doutor, não me perguntavas pelo dia no hospital, não trazias os cafés queimados que me deixam gosto de cinza na boca. Sobretudo, Rosa, evitavas preencher a agenda até às 9 da noite. Varrias a mundana chatice que roça o traseiro pelas paredes dos meus dias. Livravas-me do miúdo das 8 horas, aquele quezilento, cheio de mimo, que veio cá há pouco tempo por causa de um furúnculo no braço. O que o miúdo gritou. Lembras-te? A mãe, uma baixinha com focinho de porco, a estupidez espalhada pelo rosto suíno, soluçava em voz baixa, como se o filho, um tirano de sete anos, estivesse às portas da morte. Podias inventar-me uma doença, Rosa, qualquer coisa, talvez uma hiperplasia prostática. Tem um nome pomposo, eu sei, mas é um padecimento ligeiro, adequado aos homens da minha idade. O senhor doutor encontra-se doente, havias de explicar com cortesia profissional aos pais, não pode dar consultas nas próximas três semanas. E distribuías os miúdos pelos colegas do consultório. O miúdo do furúnculo podia ficar com o médico novo. Ainda deve ter paciência para aturar os rapazinhos que antecipam para a meninice a boçalidade macha da idade adulta. Se gostasses de mim, Rosa, pegavas-me na mão, levavas-me para tua casa, que cheira à alfazema dos pout-pourris que espalhas pelos móveis de pinho e pelas bancadas de moleano, abrias a cama, corrias os estores, ligavas o rádio naquela estação que passa tangos e canções antigas. Depois, deitavas-te ao meu lado e adormecíamos. Outubro 2007
(Pensei no Luís quando escrevi este texto.)
2009/06/17
Necrofilia
Um rapaz beijava uma rapariga, ontem, pela tarde, na estação do Rossio. Um beijo longo e egoísta. A rapariga, muito alta, de ancas largas, vestida de preto, deixava-se beijar. Tinha os olhos fechados, os braços caídos, a boca aberta para que a língua do rapaz entrasse e a habitasse. Parecia feita de basalto. O corpo rijo, imóvel, abandonado. Uma morta de boca aberta, ausente, pensando no último fim-de-semana, de sol e mar, ou na próxima frequência de psicofisiologia e genética (tinha ar de caloira de psicologia). O rapaz, pelo contrário, empenhava-se naquele beijo. Agarrava a rapariga com ambas as mãos. Parecia temer que lhe fugisse. Procurava encaixar-se no seu corpo de pedra. Queria encontrar uma posição que fosse cómoda, adequada, confortável. Para, então, desfrutar os efeitos colaterais do beijo: o coração acelerado, os arrepios de prazer, a leve intumescência do pénis, a alforria dos desejos mais secretos, jamais declarados, a doce certeza do amor correspondido. Estiveram naquilo durante muito tempo. O rapaz beijando a rapariga. A rapariga deixando-se beijar. Quando o comboio chegou, a rapariga entrou. Cá fora, o rapaz acenou-lhe e lançou um olhar comovente, muito meloso e patético. A rapariga sorriu-lhe do outro lado do vidro e respirou de alívio.
(As mulheres são falsas e parvas. Os homens são só parvos. Acreditam em tudo. Nunca lhes passa pela cabeça o óbvio: são, quase sempre, incompetentes para amar.)
2009/06/16
Purgante
Cássia. Sempre tive um certo orgulho neste meu nome. Por o associar à Santa Rita de Cássia e também àquela actriz brasileira muito gira, a Cássia Kiss. Sucede que esta semana comprei um chá, cuja composição é cem por cento folhas de cassia angustifolia. Rejubilei. Um chá com o meu nome (cássia) e com o meu desequilibrado estado espírito (angustia + folia = angustifolia). Achei-me merecedora de tal homenagem. Estive vai não vai para bater palminhas no corredor das infusões e dos outros produtos dietéticos igualmente desinteressantes. Chegada a casa quis saber que propriedades teria aquele chá, já que o pacotinho, de forma lacónica, apenas dizia que consistia num bom complemento a uma alimentação saudável e à prática regular de desporto. Imaginei, juro que imaginei, a cassia angustifolia com propriedades maravilhosas, rejuvenescedoras do espírito e do corpo. Uma espécie de elixir da juventude. Qualquer coisa entre o ginseng e a cannabis. Qual quê! Bastou uma busca pelo google para descobrir que cassia angustifolia é nome de um pequenino arbusto da Índia, cujas folhas - imagine-se ! -, são, desde a antiguidade, utilizadas para preparar infusões para quem sofre de constipação intestinal ou cujo bolo fecal se encontra há vários dias empedernido. Ou seja, para falar claro, a tal cassia angustifolia apenas tem poderes laxativos. Descobrir-se, aos trinta e muitos, que se tem nome, não de santa, mas de purgante é coisa odiosa.
(chamo-me Cássia e não Cássio.)
2009/06/15
Mousavi (2)
Ouvindo os comentadores, lendo os jornais, vendo as imagens dessas jovens iranianas envoltas em lenços verdes, exercendo o seu direito de voto, reclamando a sua liberdade, é quase impossível não sentirmos também nós uma simpatia profunda por Mousavi. Porém, tenho dúvidas que seja merecedor de tamanho aplauso. É que ninguém fala dos telhados de vidro do novo messias da liberdade. E, surpreendentemente, parece que tem muitos. Dois anos depois da revolução, foi nomeado primeiro-ministro por Khomeini. Foi responsável, como presidente do Conselho da Revolução Cultural, pelo fecho de universidades, por uma revisão constitucional que permitiu a concentração de todos os poderes no líder supremo. Na época, conduziu uma política económica estatizante com declarada inspiração soviética. Foi responsável pela perseguição e morte de muitos presos políticos. Consta que apoiou a fatwa de Khomeini contra Salman Rushdie. No ano de 1988, quando ainda era primeiro-ministro, foram ordenadas execuções maciças de milhares de opositores do regime. Foram enterrados em valas comuns e convenientemente esquecidos pelo Irão e pela comunidade internacional. Não se sabe o número exacto de quantos iranianos morreram no Verão de 1988. A Amnistia Internacional aponta entre 4000 e 5000 mortos. Há quem assegure que nesse Verão sangrento 30 000 iranianos morreram.
Mousavi não é um democrata. Ao contrário do que parece. É certo que, nos últimos tempos, mudou de lado. Hoje defende uma economia de mercado e mais liberdade. Porém, bem vistas as coisas, só pode ser considerado moderado e reformista quando comparado com o ultraconservador Ahmadinejad. O que faz toda a diferença. Eu também posso ser considerada um torpedo de mulher se me compararem com a Susan Boyle. Isso não faz de mim propriamente uma beleza. O mesmo se passa com Mousavi. A sua moderação, o seu alardeado reformismo, têm muito que se lhe diga. Aliás, por alguma razão, a sua candidatura foi uma das aprovadas pelo Conselho dos Guardiães. A verdade é que Mousavi traz as mãos muito manchadas de sangue. Estranho é que ninguém fale disso.
Mousavi (1)
Chamam-lhe reformista. E moderado. Durante a campanha fez-se acompanhar pela mulher, uma politóloga de olhos carregados e lenço de ramagens na cabeça. Reivindicou o direito das mulheres. Preocupou-se com a condição feminina. Reclamou o fim da humilhante discriminação a que são sujeitas. Apontou o dedo aos péssimos resultados económicos alcançados pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad. Afirmou querer trabalhar na construção de um clima de confiança internacional. Explicou a natureza pacífica das ambições nucleares iranianas. Também defendeu a imprensa livre. Com brandura, porém, já que nunca prometeu liberdade para os prisioneiros políticos. As mulheres, os estudantes, os habitantes das grandes cidades apoiaram-no abertamente, reclamando a reforma do regime teocrático dos aiatolás. Depois das eleições, apontou irregularidades eleitorais, reclamou a vitória com 65% dos votos. É arquitecto e pintor. O que tem a sua importância. Há sempre quem se deixe fascinar pelos artistas, poetas e intelectuais. Mesmo quando são uns estupores. Tem também boa figura, é bem apessoado, faz lembrar o Siza Vieira. Fisicamente supera, em muito, o Ahmadinejad, pequenote, quezilento, com cara de mau. São, pois, muitos os motivos que tornam Hossein Mousavi numa espécie de super-herói, merecedor da admiração de todos por ser o rosto visível da oposição no Irão. Há quem compare as represálias que entretanto ocorrem nas ruas de Teerão, com espancamentos e prisões, aos massacres que ocorreram na praça de Tianamen em 1989. Mousavi tem a imprensa ocidental, os comentadores, o mundo livre e esclarecido do seu lado. Ainda hoje, o sempre atento Rui Tavares descreve-o assim “Mousavi, um homem educado que já foi primeiro-ministro e se dedica à pintura e arquitectura, representava a Pérsia que deseja se respeitada e detesta ser conhecida pelos piores motivos”. Palavras para quê? Melhor apresentação é impossível.
2009/06/13
Cipralex (3)
Meti-me num táxi e rumei à primeira farmácia de serviço que encontrei. O mundo continuava a girar à minha volta, tremelicando por todos os lados, bruxuleando como a luz de um pedaço de vela. E as formigas malditas, essas não me largavam os lábios. Uma sensação, grande, de desconforto e insegurança tomava pois conta de mim. Para minha irritação, quando entrei tinha duas mulheres à minha frente. Sentei-me. A primeira pediu trifene. Bufei. Resfoleguei como os búfalos que conheceram o meu pai pequenino, lá longe, nos prados de Goa. Uma dor menstrual tem lá comparação com a ressaca provocada pela falta prolongada de um anti-depressivo? Já tive dores menstruais. Até já tive filhos sem anestesia. Não custa nada. É uma dor física que o corpo aguenta. A segunda mulher pediu palmilhas de silicone anti derrapantes para os sapatos. Aí não aguentei e reclamei que aquilo era uma farmácia de serviço, não uma para-farmácia. A farmacêutica, do outro lado do balcão, insolente, disse-me para esperar. Tive saudades, tantas, da empregada do senhor doutor, a tal Cristina, tão simpática, tão subserviente, tão senhora doutora para ali, senhora doutora para acolá. Encolhi-me. A empregada demorou imenso tempo a mostrar palmilhas de silicone à velha que estava à minha frente. Eu a morrer devagarinho. Por fim, lá se dignou a atender-me. Quando viu a minha receita, olhou-me em silêncio. Eu olhei-a de volta, prestes a desfalecer. Mal saí da farmácia meti um cipralex à boca. Passados poucos minutos o mundo parou de tremer.
(Setembro 2006)
Cipralex (2)
Estava eu a observar as ondulações da avenida quando entrou um homem que conheço vagamente. Trabalha num ministério qualquer. É advogado. Ou jurista. Ou coisa que o valha. Ele bem tentou esquivar-se, mas não teve como me fugir. Deu-me dois beijinhos e, claro está, passados dois ou três minutos, estava a justificar a sua presença na sala de espera de um psiquiatra. Eu ouvi e nada lhe disse. Bico calado. Era o que mais faltava explicar-lhe a minha triste depressão, a minha confrangedora frigidez, as minhas ideias suicidas, as minhas inseguranças e efabulações flatulentas. Deixei-o falar. Até porque o dito colega é uma daquelas pessoas, narcísicas, que gosta de se ouvir a si próprio. Só me aborreci quando começou a falar de trabalho e, em tom displicente, criticou determinadas orientações tomadas pela direcção do instituto público onde trabalho. Tenho a impressão de que gritei porque uma mulher gorda de olhar bovino deixou de fixar o ecran de televisão, onde a Floribella sorria imbecilmente, e me olhou de viés como quem diz “coitadita!”. Por fim, a empregada chamada Cristina, solícita, desfazendo-se em desculpas pelo atraso, chamou-me. Salvou-me daquele inferno. Entrei na consulta. Depois de meia dúzia de insignificâncias, muitos sorrisos, frases curtas, sai de lá com a abençoada receita
Cipralex (1)
O cipralex acabou-se antes do esperado. Eu deixei andar. Dois ou três dias sem tomar o dito medicamento não faz mal a ninguém. Foi o que eu pensei. Sucede que ao terceiro dia sem cipralex comecei a sentir tonturas e náuseas. Leves, levezinhas, como um manto de gaze diáfano pairando sobre mim. Ao quarto dia, para além das tonturas e das náuseas, já evidentes, comecei a sentir tremores, tremeliques e um formigueiro que se iniciava nos dedos dos pés e, coisa estranha, estranhíssima, me saía pela boca. De imediato percebi o que se passava. Era o meu corpo que se ressentia da falta do medicamento. Telefonei, de imediato, para o consultório. A empregada, que julgo chamar-se Cristina, alarmou-se. “Ó doutora, não pode estar tantos dias sem tomar a sua medicação!”, disse ela. Nota: estou-me nas tintas para o meu quase inexistente grau académico, qualquer gato-pingado da Brandoa tem uma licenciatura em direito. Porém, confesso que, nos consultórios médicos, gosto que me tratem por doutora. Sabe-me bem a deferência. Adiante. A Cristina, empregada do senhor doutor, lá fez das tripas coração e por fim, conseguiu marcar-me uma consulta para esse mesmo dia. Fui. Esperei que tempos. Espreitei a avenida, lá fora, tão desinteressante. As pessoas muito certinhas, endinheiradas, assépticas, sem pecados, nem máculas, a sair, em magotes, dos escritórios, dos bancos, das lojas, rumando aos arrabaldes chiques da cidade ou às suas casas do centro com tectos de estuque recuperados e peças de design muito caras compradas nas lojas do bairro alto e do príncipe real.
2009/06/10
2009/06/08
Barroco Tropical
Resisti-lhe durante uma semana. Rondei as livrarias do costume de olhos baixos. Agarrei-me à letra encarnada, escrita pelo Nathaniel, traduzida pelo Fernando, escolhida pelo António, sempre elogiado por todos, citado pelo cânone. Sei que o desenlace há-de ser trágico, Hester não pode ser feliz, o amante é um canalha, um fraco, os homens são assim, merdosos, aquela menina há-de ser a sua desgraça. Ontem, porém, sucumbi-lhe. Abri a contracapa displicentemente e topei logo com aqueles olhos escuros vasculhando vá-se lá saber o quê. Trouxe-o comigo. Quem resiste a quem nos olha assim? À noitinha, enfiada na cama, a letra encarnada esquecida dentro da mala, a minha filha apanhou-me a dar um beijinho na contracapa do livro. Ela está habituada a ver-me beijar livros e discos. Até a televisão eu beijo nas raras ocasiões em que o Fausto aparece a cantar. Mesmo assim quis a minha filha ver o objecto do meu entusiasmo. Expliquei-lhe que era angolano, escritor e, sobretudo, giro. Para justificar o meu entusiasmo, disse-lhe que o achava parecido com o Vasquinho, o menino cor de café com leite e caracóis despenteados, que ela ama desde os quatro anos. Não se convenceu. “O Vasco é de primeira qualidade, mãe, este…”, e apontou para a fotografia, “…é para aí de terceira”. Espantei-a do meu quarto. Ímpia. Não aprecio a assertividade da minha filha. Gostos não se discutem.
(Textozinho imbecil onde se demonstra o acerto das palavras alheias.)
(Textozinho imbecil onde se demonstra o acerto das palavras alheias.)
2009/06/05
2009/06/04
Lista
Há um movimento. Há um propósito. E há, pelos vistos, uma lista de gente que apoia o dito propósito. São actores, jornalistas, juristas, biólogos, comentadores, deputados, escritores, cantores, estilistas, fotógrafos, encenadores, curadores de museus, bloggers, ensaístas, poetas, sociólogos, investigadores. A lista vai por aí fora e tem o mérito da extensão. São muitos. Mas a lista é também previsível e imensamente aborrecida. Está lá, como sempre acontece quando se fala das tais questões fracturantes da sociedade, a nata bem pensante, a elite dos iluminados, os privilegiados que opinam, as vedetas de fancaria que tratam estes assuntos com a mesma vacuidade que imprimem às suas vidas. Eu, que sempre defendi o casamento entre pessoas do mesmo sexo e que, no dia da mãe, até mereci uma canção feita pelo meu filho sobre o assunto (tal é a lavagem cerebral a que o pobre é submetido), torço o nariz, o monumental nariz que deus me deu, a um ajuntamento tamanho de gente tão ilustre. Perdoem-me a franqueza, não levem a mal o meu enfado, sei que o assunto é sério e merece elucubrações com mais tino, mas a lista é assustadora. Desconfio que, pelo meio, também há-de lá estar a Bárbara Guimarães e o Luis Represas. É verdade que há muitos anónimos na lista, mas a esses ninguém liga. Não merecem uma referência, muito menos uma categorização. Gostava de uma lista mais terra a terra, feita de gente comum: pedreiros, padeiros, empregados de balcão, coveiros, trabalhadoras do sexo, operadores de call-center, posticeiros, canalizadores, empregadas domésticas, bancários, gestores de condomínios, motoristas da carris, instrutores de artes marciais, revisores de comboios, analistas informáticos, calistas, manicuras, auxiliares protésicos. Isto é que era uma lista. Uma lista assim e seria inegável a robustez e a força do movimento. Uma lista assim e seria inegável que a sociedade de carne e osso quer e aceita o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
(Entretanto, a Ana Zanatti, na sessão de apresentação do movimento, assumiu-se como lésbica. Sem querer menorizar o gesto, parece-me que o mesmo era desnecessário. Ainda eu não sabia bem o significado da palavra lésbica e já sabia que a Ana Zanatti o era. Via-a na Vila Faia e escutava a minha mãe bichanar ao ouvido da minha tia que ela e a Lara Li tal e coisa. Toda a gente sabe, há muito tempo, que a Ana Zanatti gosta de mulheres. O ter-se assumido como lésbica é uma novidade com cheiro a mofo. A ranço.)
(Entretanto, a Ana Zanatti, na sessão de apresentação do movimento, assumiu-se como lésbica. Sem querer menorizar o gesto, parece-me que o mesmo era desnecessário. Ainda eu não sabia bem o significado da palavra lésbica e já sabia que a Ana Zanatti o era. Via-a na Vila Faia e escutava a minha mãe bichanar ao ouvido da minha tia que ela e a Lara Li tal e coisa. Toda a gente sabe, há muito tempo, que a Ana Zanatti gosta de mulheres. O ter-se assumido como lésbica é uma novidade com cheiro a mofo. A ranço.)
2009/06/03
Mascarados
Gosto da língua que falo, o português. Gosto de a ouvir. Acho-a bonita. Por gostar tanto do português causa-me arrepios que grande parte das novas bandas portuguesas cante em inglês. É constrangedor. É um sinal triste deste país pequeno e medonho. Desde que o bonitinho do David Fonseca teve sucesso a cantar umas cantiguitas menores em inglês, salvo raras e agradáveis excepções, as novas bandas portuguesas, como se tivessem descoberto uma fórmula mágica, desataram a cantar para nós - que os outros estão a borrifar-se para eles - numa língua que não é a nossa. Agora há para aí uns mascarados, que parecem saídos de um episódio dos power ranger, a quem a rádio e os jornais têm dado destaque. Em que língua cantam os ditos mascarados? Em inglês. Um horror. Quando os vejo na televisão ou os oiço na rádio tenho vontade de ter uma metralhadora à mão para lhes rebentar os miolos. Mas mais ridículo do que haver tanta gente a cantar em inglês é o facto de haver tantos idiotas a promover os que cantam em inglês e tantos atrasados mentais que compram os respectivos discos.
Escrever
Este blog, como outros que criei, é um diário. Há qualquer coisa de insólito, incongruente, patético, em criar um diário, que é suposto ser uma coisa secreta, íntima, e, depois, dar a lê-lo a quem queira. Há qualquer coisa de Big-Brother doentio e exibicionista nisto tudo. Mas, por ser um diário, é que escrevo com despudor. Chamando nomes à pobre D. Anabela, admitindo a irritação que me provoca a felicidade dos outros, falando das agruras do meu casamento, confessando as disfunções sexuais de que julgo padecer. Sei que escrevo o que devia guardar para mim. Alivia-me escrever. Por enquanto, por agora, vai servindo de válvula de escape. É que os dias correm, velozes, sucedem-se em catadupa, sem que eu lhes tome o freio.
2009/05/28
Campanha
“Os jornalistas são semi-intelectuais, semi-educados, impreparados e partidários”, explicou há tempos, em entrevista ao Público, Daniel Dylan, investigador francês. Verdade tão pura. Bastaram dois ou três dias de campanha para perceber como é desonesta a cobertura que as televisões dela fazem. O PSD é tratado sempre em tom jocoso. Segundo os jornalistas, tudo se faz com esforço, sem empenho, a contragosto, como se os candidatos tivessem uma arma apontada à cabeça. O PCP é tratado como um bando de velhos caquécticos, uma espécie de espectros anacrónicos que se limita a balbuciar a conversa do costume. O CDS é reduzido ao paulinho das feiras, às velhotas de Ponte de Lima, de lenço na cabeça e bigode hirsuto, que se agarram aos candidatos com beijos babosos. Em contrapartida, o BE, claro está, é tratado como a terceira força, pujante de energia, vitalidade, capaz de surpreender na noite das eleições com um resultado histórico. Vivam as arruadas, os candidatos dançando, os trompetes e as pandeiretas! O PS, por sua vez, não obstante as limitações evidentes do seu cabeça de lista - a história do imposto europeu é apenas a cereja que faltava no bolo das propostas inesperadamente inconsistentes que tem feito - é tratado com a brandura do costume. A gente sabe que os jornalistas são, em regras, socialistas ou bloquistas. Está-lhes no sangue. Faz parte do seu código genético. Os jornalistas têm direito de ser o que muito bem quiserem. Não têm é o direito de nos tomar por parvos.
Natália
Encontrei a minha empregada, logo pela manhã, muito chorosa e ranhosa. Enfiada atrás da tábua da roupa, manejando com pouca destreza o ferro de engomar, lá me confessou que o marido, depois de trinta e cinco anos de casamento, se queria divorciar. "Até já me pediu o bilhete de identidade!", disse, passando com fúria a única camisa branca que me sobra. "Deve estar caidinho por alguma russa ou brasileira”. Silêncio breve. “ São todas umas putas!". Eu, tirando as remelas dos olhos, com pouca paciência para a justificadíssima xenofobia matinal da D. Anabela, cumpri o meu triste papel de patroa licenciada em direito e esforcei-me por lhe explicar as diferenças entre os divórcios litigiosos e os outros, as consequências no que respeita a bens e pessoas, os trâmites e procedimentos que hão-de ocorrer. Ela agradeceu a minha disponibilidade para a ajudar e continuou a passar, com fúria, as t-shirts do João. Invejei-a de um modo estulto mas sincero. Por breves instantes, desejei que uma ucraniana leitosa, de olhos verdes, bem formada, boa pessoa, carinhosa, amiga das crianças, inteligente e tudo o mais, aparecesse no caminho do meu marido.
(Já expliquei em tempo: nem tudo o que aqui se escreve é verdade. Por exemplo: nunca uso camisas brancas.)
2009/05/27
2009/05/26
Chelas
O comboio atravessa o vale de Chelas onde, no meio das torres coloridas, há hortas e quintalejos. As ervas rompem por toda a parte, selvagens, e as nespereiras enchem-se de frutos manchados. Há papoilas e tufos brancos de marcelas. Velhos, de boina e pulôveres muitos coçados, entretêm-se pela tarde a regar, a apanhar os caracóis que rendilham as folhas das faveiras, a fazer sulcos na terra seca. Nos bidões velhos plantam morangueiros, salsa e hortelã. Os coelhos, de pêlo castanho, saltitam perto dos carris. Quando a noite cai solta-se um cheiro adocicado e fresco das hortas que perfuma o bairro de Chelas.
(Gosto de Chelas porque não vivo lá. Vivesse eu numa dessas torres de papelão e não encontraria beleza, nem poesia no bairro. Passeio por Chelas com o mesmo sentimento com que desço a Almirante Reis e entro no Centro Comercial da Mouraria. Fico inebriada com um mundo que não é meu.)
2009/05/24
Afectos
Votarei no Bloco de Esquerda nas próximas eleições europeias. Por uma razão simples. É o único partido que tem, sobre a questão da imigração, a posição que sempre defendi. É uma posição ingénua, dirão alguns, irresponsável e politicamente correcta, gritarão outros e, hoje em dia, eu sei, não se pode ser politicamente correcto. As pessoas tomam-nos por criaturas primitivas. Fazem um esgar de repulsa. Tratam-nos com embaraço. Aliás, hoje em dia, e isso é que é ridículo, é politicamente correcto ser-se politicamente incorrecto. Adiante. Sobre os motivos da minha escolha, acho que, numa altura em que a Itália de Berlusconi é, por muitos, sentida como um exemplo de coragem é importante dar voz a quem não tem da Europa a ideia de uma fortaleza que admite os imigrantes (melhor chamar-lhes escravos) apenas e tão só na medida das suas próprias necessidades. Não me canso de perguntar: então, e as necessidades deles? Se as políticas de imigração adoptadas pelos países europeus, para além das suas próprias necessidades, não tiverem em consideração as dos imigrantes (e não têm tido!), ter-se-á de concluir que o princípio da igualdade de direitos, tão bonito, tão citável a propósito disto e daquilo, apesar de consagrado nos textos internacionais e nas constituições de todos os países, é desprovido de qualquer sentido útil, incapaz de empreender qualquer tarefa de garantia contra as desigualdades e discriminações. Gosto, depois, genuinamente do Miguel Portas e os afectos também são importantes quando escolhemos um candidato. De resto, em pouco ou nada, concordo com o Bloco de Esquerda. Porém, para quem, como eu, vive dilacerada entre o seu lado direito e o seu lado esquerdo, nem sempre é fácil encontrar critérios e definir parâmetros para tomar decisões.
2009/05/21
Pénis Tatuado
Pela manhã, no comboio que vem de Alverca, uma mãe gabava a duas companheiras de viagem a tatuagem que o seu Leandro Miguel fizera no pénis. Linda, assegurava, assim tribal a fazer lembrar aquelas tribos da Indonésia, Polinésia ou lá o que é que é. As outras davam gargalhadinhas nervosas. A mulher devia ter uns quarenta e cinco anos e falava com entusiasmo do seu filho Leandro Miguel. Também tinha um piercing na língua. Usava as calças muito largas. Só queria roupa de marca. O boné custara-lhe quarenta e cinco euros. Os últimos ténis quase cento e vinte. Tinha dois brilhantes nas orelhas. Às vezes, para desenjoar, tirava os brilhantes e colocava umas argolas de ouro branco. Não era bom aluno. Isso, porém, não parecia preocupar a mãe. Que o filho fosse medíocre como ela própria era algo que parecia quase confortá-la. Por fim, em jeito de remate, para mostrar que era uma mãe modernaça, muito prá-frentex, que comungava dos interesses do filho, mostrou a tatuagem que fizera no tornozelo. Um golfinho saltando nas águas do mar. Uma beleza.
(Custa-me reconhecê-lo, mas o CDS tem muita razão naquilo que diz em relação à polémica da distribuição de preservativos. Compete às família, pobres, ricas, remediadas, e não à escola educar os filhos. Compete às famílias e não à escola assegurar que os miúdos tomam as precauções necessárias quando iniciam uma vida sexual activa. Compete às famílias explicar que o sexo não se inicia aos doze, nem aos treze, nem aos quinze anos e que quem o pratica corre riscos. Quem não quer educar os filhos, quem não está para os acompanhar, não os deve ter. Se o Leandro Miguel quiser foder, com o seu pénis tatuado, as feiosas todas do 10º ano da escola secundária da Arrentela que o faça. Se engravidar uma Bruna ou uma Micaela Cristina, cujo sonho secreto é participar numa novela da TVI ou ser capa da Maxmen, que engravide. Se apanhar uma doença infecto-contagiosa e morrer antes dos vinte e cinco é uma sorte para todos nós.)
(Custa-me reconhecê-lo, mas o CDS tem muita razão naquilo que diz em relação à polémica da distribuição de preservativos. Compete às família, pobres, ricas, remediadas, e não à escola educar os filhos. Compete às famílias e não à escola assegurar que os miúdos tomam as precauções necessárias quando iniciam uma vida sexual activa. Compete às famílias explicar que o sexo não se inicia aos doze, nem aos treze, nem aos quinze anos e que quem o pratica corre riscos. Quem não quer educar os filhos, quem não está para os acompanhar, não os deve ter. Se o Leandro Miguel quiser foder, com o seu pénis tatuado, as feiosas todas do 10º ano da escola secundária da Arrentela que o faça. Se engravidar uma Bruna ou uma Micaela Cristina, cujo sonho secreto é participar numa novela da TVI ou ser capa da Maxmen, que engravide. Se apanhar uma doença infecto-contagiosa e morrer antes dos vinte e cinco é uma sorte para todos nós.)
2009/05/19
Kuduro
Dispensaram a Laurinda Alves. Rejubilei. Acendi até duas velas a Nossa Senhora de Fátima. Substituíram, não sei se temporariamente, o Paulo Moura pelo Vitor Belanciano. Aquiesci. Hoje, topei com o Jorge Marmelo em vez do Desidério Murcho. Consolei-me. O primeiro, parece-me, é mais dado à vida mundana. A vida contemplativa que se lixe. Não compreendo a lógica das mudanças, mas, aproveitando a maré, peço a quem de direito que pondere substituir o Kalaf Ângelo, o negro do chapéu de coco, que escreve às quintas-feiras no P2. Era uma caridade que faziam a uma leitora fidelíssima. Os lugares comuns são em catadupa, as ideias previsíveis, banais, o deslumbre pela modernidade dos restaurantes japoneses e dos produtos biológicos constrangedor. A mim provoca-me arrepios, brotoeja, urticária, nascem-me aftas na língua, incham-me as mãos, enfurece-se o joanete do pé direito. O homem é chato. Terá, admito, habilidade para o kuduro, para alardear aos quatro ventos a beleza dos musseques e a fúria dos subúrbios, mas não tem a vocação da crónica escrita.
(Aviso já que deixo de comprar o Público se, neste corrupio de alterações, abrir o jornal à quarta-feira e lá não estiver o Paulo Varela Gomes. Exijo que a Índia continue a chegar-me, matinal, todas as quartas-feiras.)
(Aviso já que deixo de comprar o Público se, neste corrupio de alterações, abrir o jornal à quarta-feira e lá não estiver o Paulo Varela Gomes. Exijo que a Índia continue a chegar-me, matinal, todas as quartas-feiras.)
Menina-Balão
Na Índia, ao contrário de cá, os jornais não trazem mensagens eróticas. Shiva, sempre entretido em cabriolices eróticas com as suas consortes, de lingam erecto, não o permite. Em contrapartida, há em cada jornal uma longa secção de matrimonial. Trata-se, como o nome indica, de uma secção de anúncios de quem procura parceiro para casar. As mensagens são de uma especificidade impressionante. Nunca tinha visto nada igual. As brides e os grooms descrevem-se com rigor e exactidão. Num quadradinho de papel condensam a informação necessária para despertar o interesse de um potencial parceiro: idade, casta, religião, habilitações -desengane-se quem pensa que na Índia são todos uns desgraçadinhos analfabetos, na maior parte dos casos, principalmente nas cidades, o que está em causa é saber se se tem uma especialização ou um doutoramento -, região, profissão, salário e, claro, o tom da pele. Fiquei viciada na leitura daquela secção dos jornais indianos. Por isso, quando a tarde caía sobre a casa de Maina e os esquilos se escondiam nos ramos da mangueira, eu arrastava a cadeira de baloiço para a varanda e entretinha-me a ler os anúncios dos casamentos, tentando encontrar naquelas listas infindáveis correspondências que assegurassem aos noivos um casamento feliz para a vida. Um dia, a Ria, a menina-balão, veio sentar-se perto de mim. Espreitou o jornal e chamou, com a sua voz de trovão, as outras crianças da casa que, entretidas a chupar limas, correram para perto de nós. “Ana Clara is reading the matrimonial! She is looking for an indian groom!”. Ri-me do descaramento da menina-balão e belisquei-a. Depois, passámos o resto da tarde à procura de um noivo indiano para mim.
(Tenho saudades da Índia. Nunca mais chega o Natal para por fim voltar.)
2009/05/15
2009/05/13
Feira
Os debates quinzenais na Assembleia da República, que escuto pela tarde, na volta para casa, mostram que a casa da democracia, como alguns gostam de lhe chamar, mais parece uma feira. Tudo se permite. Há a vozearia habitual, o bruá dos deputados arregimentados, que batem palmas enquanto tuitam, os urros, os insultos gratuitos, as estocadas finais, o cinismo das interpelações. Nada se discute. Pouco se esclarece. Servem os debates para a oposição acicatar o Primeiro-Ministro e para este mostrar que a elegância dos seus fatos armani não joga com o acinte e com a arrogância das suas explicações. Os debates quinzenais servem para mostrar outra coisa. Que o tempo corre depressa. Espanto-me pela manhã quando percebo que é dia de debate na Assembleia da República. Ainda não estou refeita dos dislates do debate anterior e já outro se anuncia para alegrar o meu fim de tarde.
Marias
Escutei na rádio, entrevistada pelo Carlos Pinto Coelho, a Maria Teresa Horta falar da sua poesia solar e da sua ficção nocturna. Caracterizou a sua obra com a mesma naturalidade com que eu adjectivo os meus filhos. O João é folgazão, a Dádá é açucarada, o Joaquim é, por enquanto, incerto. Invejei-a apesar de nunca lhe ter lido nada. Deve ser bom ter uma poesia solar e uma ficção nocturna.
2009/05/11
Ferrugem
A boca ficou a saber-me a ferrugem, disse Laura enquanto se vestia. Depois abriu a janela e cuspiu. Olhou as árvores do quintal. A nespereira estava carregada de frutos podres e, perto do muro, um limoeiro oferecia-se a quem passava na rua. Laura puxou a saliva e cuspiu outra vez antes de fechar a janela. O silêncio espalhava-se pelo quarto, tão denso e baço que parecia poder cortar-se às fatias. Virou-se para o espelho e começou a escovar os cabelos. Tinha-os longos, muito lisos e brilhantes. Sabes, o sangue é que costuma saber a ferrugem, continuou sem esperar resposta. Por cima da cómoda um gato de loiça olhava-a com olhos moles de preguiça. Só ele parecia escutar as palavras de Laura. A mulher apanhou o cabelo e prendeu-o com um elástico. Tirou da mala um desodorizante. Isso geralmente sabe-me a ervas frescas esmagadas, disse enquanto vaporizava as axilas com um cheiro mentolado. Olhou em redor à procura dos sapatos. Descobriu um por baixo do reposteiro e outro aninhado por baixo da cama, entre sacos de plásticos e bolas de cotão. Calçou-se. Os pés denunciavam-na sempre. Mais do que a voz ou a forma quadrangular do tronco. Por mais que pintasse as unhas, por mais que amaciasse a pele com cremes e óleos, tinha pés ossudos, pés de homem. O professor do 4º direito, para a arreliar, quando a ouvia queixar-se da masculinidade de tais membros, dizia-lhe que ela tinha pés de deus grego, pés de Hércules, de Jasão, de argonauta, de Ulisses, uns pés iguaizinhos aos de Cristo na cruz. Ria-se o professor e quando ria abria muito a boca e mostrava a glote que tinha a forma perfeita de um sino. Laura não achava graça. Se pudesse entraparia os pés como as chinesinhas de antigamente. Ainda por cima calçava o quarenta e quatro. Era uma chatice para arranjar sandálias de salto alto.
(Julho de 2007)
2009/05/07
Testosterona
Cheguei a uma conclusão: a Ler é uma revista feita por homens, sobre homens e para homens. Poucas são as mulheres que colaboram com a revista: a Felipa Melo, a Inês Pedrosa, a Carla Maia de Almeida que, como convém, escreve sobre livros de criancinhas. Desde que renasceu apenas duas mulheres mereceram a capa da Ler. A Margarida Rebelo Pinto e a Agustina Bessa Luís. A gente percebe, através destas escolhas, que há, em quem faz a Ler, uma certa imagem do que são as mulheres e do que é a escrita no feminino. Olha-se, por exemplo, para a capa do número de Maio e descobrimos, entre escritores, bons, maus e muito maus, cronistas e afins, o José Eduardo Agualusa (que é lindo, absolutamente lindo), o Siza Vieira, o Rui Ramos, o Carmac McCarthy, o Henrique Raposo, o Domingos Amaral, o Pedro Mexia, o Rogério Casanova, o Eduardo Pitta, o Abel Barros Baptista, o Filipe Nunes Vicente, um tal de John Cheerver, o António Câmara, o Mário de Carvalho, o senhor provedor, o Fernando Sobral. Há apenas uma mulher no meio de tanta testoterona, de tamanha confusão de testículos, escrotos e prepúcios: a Teresa Caeiro. E mais não digo.
(entretanto, e isso é que importa, o Álvaro chegou.)
(entretanto, e isso é que importa, o Álvaro chegou.)
2009/05/04
Castanheiro das Índias
Ando cansada para escrever. E triste. Uma tristeza miudinha percorre-me o corpo. Conheço-a de outras guerras. Procura, como sempre acontece, entrar pelos poros da minha pele para depois se instalar cá dentro. Quando a tristeza se entranha nas vísceras pouco há a fazer. Geralmente espero que se sacie e me abandone. Não fosse o cansaço e a tristeza e escreveria hoje sobre um homem que conhece os nomes das árvores e dos peixes.
Eva
Entra uma rapariga na carruagem. Olho-a. Tem umas sandálias calçadas, tipo colibri, de plástico bege, daquelas baratas que se compram no Paraíso do Calçado e cheiram a cholé quando se descalçam. Morena, com umas covas nos olhos e a sombra do buço a marcar-lhe o rosto, a rapariga não terá mais de vinte anos. O cabelo é enorme, escuro, exageradamente comprido. Deve chegar-lhe ao rabo. Faz lembrar uma Eva ignota. Vê-se que tem orgulho no seu cabelo. Não pára de lhe mexer. Faz nós nas pontas. Pouco depois, desmancha-os para logo de seguida fazer outros. Quando se cansa dos nós, começa a enrolar o cabelo em volta do pescoço. Como se fosse um lenço. Ou um colar. Ou uma corda para se enforcar. Ou uma serpente de língua bífida que, sibilante, lhe oferece uma maçã. Por fim, deixa de brincar com o cabelo e arremessa-o para trás das costas. Olha em redor e dá um estalido com a pastilha elástica que mastiga. Tem noção de que o seu cabelo dá nas vistas e isso alegra-a. O que a rapariga não percebe é que é a feiura do seu cabelo-serpente que prende o olhar de quem com ela se cruza. É um cabelo baço, sem brilho, sem volume, com uma ondulação incipiente. Tenho pena da Eva que masca pastilha elástica na carruagem do metro que vai para Odivelas. Se tivesse uma tesoura à mão cortava-lhe o cabelo, tornava-a banal, livrava-a dos olhares alheios.
(Novembro 2007)
2009/04/27
A Casa dos Budas Ditosos
Interrompo o silêncio para um desabafo: a cadeia de supermercados Auchan baniu das suas prateleiras A Casa dos Budas Ditosos do João Ubaldo Ribeiro. Dizem os senhores que por lá mandam que o livro é pornográfico. Gesto tacanho, de imbecilidade necessariamente viril. Tive os melhores orgasmos da minha vida a ler o dito livro. Trouxe-o a minha irmã Susana de Brasília. Li-o às escondidas, com o coração acelerado, quando a casa paterna repousava de todos os seus outros habitantes. À conta dessas prazenteiras tardes de verão tenho até uma fotografia do escritor colada na porta do frigorífico. Perguntam-me os meus filhos quem é este senhor de bigode que aqui está? Não lhes respondo. Eu sei porque ele lá está. É, pois, absurda a atitude dos senhores do grupo Auchan. Em vez de banirem o livro do João Ubaldo Ribeiro das suas castas prateleiras, deviam encará-lo como um trunfo promocional, oferecê-lo, por exemplo, a todas as mulheres que fizessem compras superiores a cinquenta euros. Os senhores do grupo Auchan talvez não saibam mas um bom orgasmo, secreto, inesperado, proibido, dá mais felicidade a uma mulher do que os trocos que poupa comprando iogurtes de marca branca ou fraldas por atacado.
2009/04/23
Mr. Biswas
Estou em época de contenção. Poupo palavras. Fervilha o mundo e eu calo-me. Não escreverei sobre a insuportável Mísia, nem sobre o JP Simões (suspiro profundo), nem sobre o não sei quantos tiger man, nem sobre os quiosques da Catarina Portas, nem sobre a cimeira de Genebra, nem sobre as eleições na Índia e na África do Sul, nem sobre a Ilda, o Miguel, o Paulo, o Nuno e o Vital, nem sobre o Jardim Constantino, nem sobre a rua Pascoal de Melo, nem sobre o cheiro dos jardins de buxo e das petúnias floridas, nem sequer sobre o arquitecto desconhecido, Álvaro, que chega para a semana. Nos próximos dias, aviso os estimados leitores, as minhas palavras serão escassas. Evitam por cá passar. Nesta baiuca reinará o silêncio e o vazio. Tudo por causa de um tal Mr. Biswas que requer todas as minhas atenções.
(Explicaram-me um dia, já não sei quem, que ler é mais importante do que escrever. É bem verdade. Perco demasiado tempo a escrever tolices aqui.)
2009/04/17
Arranca Corações (2)
Os escritores de hoje não têm sentido do decoro. Não percebem que quem escreve deve mostrar-se com parcimónia. Esta exposição é sobretudo uma falta de respeito pelos leitores. Exijo, aos meus escritores, recato e clausura! Só assim poderei amá-los pelo que escrevem. De outra maneira, arriscam-se a ser apreciados pelo acessório. Eu explico com um exemplo concreto. O José Eduardo Agualusa esta semana deixou-se fotografar para a revista do expresso. As fotografias publicadas são a preto e branco, soturnas e envolventes. Fazem suspirar. Ora, eu não gosto particularmente dos livros que escreve. É uma embirração antiga que vem do tempo em que escreveu sobre a minha Índia. No entanto, acho-o um homem muito bonito, moreno, o cabelo rebelde, os olhos pequenos e escuros, a pronúncia do lado de lá (o que eu gosto daquela voz que tem no timbre os entardeceres mornos do sul). Compro sempre os livros do Agualusa. Leio-os, em parte, porque aprecio o invólucro do escritor. Acho, sinceramente acho, que não os leria se nunca lhe tivesse conhecido o rosto e se nunca lhe tivesse ouvido a voz. Se o Paul Auster fosse um gordalhufo, boçal e seboso, não teria a horda de fãs que tem por esse mundo fora. As trintonas tardias e as quarentonas adoram-no. Se em vez daquele olhar tresloucado, mas cativante, o Lobo Antunes fosse zarolho e belfo quem se interessaria por lhe ler a obra mais recente, indecifrável e neurótica? Tivesse o tal Paolo Giordano, o rapaz que escreveu o romance sobre os números primos, lábio leporino e orelhas de abano, em vez daquela beleza serena que suscita sentimentos concupiscentes, e nenhum editor o publicaria. Os tempos que vivemos são assim. Os escritores, como toda a gente, querem cativar-nos com todas as armas que possuem, as literárias e as outras.
(Estive quase tentada a comprar a lire, tal foi o matinal encanto que o arranca corações trouxe à minha sexta-feira. Só depois me lembrei que não sou capaz de ler duas linhas de francês.)
Arranca Corações (1)
Abriu uma tabacaria nova perto do banco onde trabalho. Tem uma boa oferta de publicações estrangeiras. Entretive-me, pela manhã, no escaparate das revistas francesas. A paris match, a magazine littéraire, os cahiers du cinéma, a fígaro, todas lá estão, apelando à minha alma francófila e levemente imbecil. Interessei-me pela lire que traz na capa uma fotografia do Boris Vian. Não o imaginava assim, delicado, frágil, com um ar núbil, quase pueril. Os escritores de antigamente têm destas coisas: surpreendem-nos. Apaixonamo-nos por eles por causa dos livros que escreveram e, depois, assim do nada, descobrimos que poderíamos amá-los por razões bem mais prosaicas. Aconteceu-me o mesmo com o Albert Camus. Descobri, há tempos, depois de lhe ler alguns livros, a fotografia que o Bresson lhe tirou. Desejei, de imediato, que saísse da tumba e me levasse para a Argélia, onde eu, de bom grado, passaria o tempo a preparar-lhe pratos de cuscuz e a cativá-lo com danças eróticas usando apenas um tarbuche. Lê-los, aos escritores de antigamente, é assim uma espécie de blind date (hei-de me vergastar, com fúria, por utilizar uma expressão inglesa). Quase sempre, não lhe conhecemos o rosto, a voz, as expressões, os interesses, as miudezas da vida privada, amores, filhos, loucuras domésticas. O mesmo não acontece com os escritores contemporâneos. A gente quer-lhes fugir e não consegue. Eles deixam-se fotografar, entrevistar, opinam sobre isto e sobre aquilo, escrevem em revistas, blogues, jornais, maçam-nos com opiniões e desabafos, integram júris variados, promovem encontros, aparecem em colóquios e seminários dissecando obras e personagens. Na verdade, os livros que escrevem parecem, muitas vezes, ser um mero acidente de percurso nas suas vidas literárias.
2009/04/14
Orangotangos
Tenho mais estima pelos orangotangos do Bornéu do que pelos terapeutas familiares. Infelizmente são os primeiros que estão em vias de extinção.
2009/04/13
Paquiderme
Sentei-me estrategicamente atrás de uma das colunas do refeitório de modo a poder observar a mulher paquiderme sem ser vista. Tenho gosto em observar tudo o que é diferente, esquisito, grotesco. Dos miseráveis às pessoas com deficiências várias, aleijões, chagas, deformidades, angiomas, todos despertam o meu interesse e me fazem arranjar estratagemas para observá-los, com detalhe, na sua estranheza e indigência. Um simples coxear me faz virar a cabeça. Enquanto mastiguei os lombinhos de garoupa tratei de olhar a mulher paquiderme. Deve pesar perto de duzentos quilos. É um monte monumental de carne flácida e gelatinosa. Só o rabo dela, colossal, há-de pesar mais do que eu. Tem, porém, um rosto bonito, uma pele lisinha, o cabelo penteado com preceito. Hoje usava, enrolado ao pescoço, um lenço com bolinhas de cor que lhe dava uma certa graça. Às vezes, o marido vem almoçar com ela ao refeitório. É miudinho. Ciranda à sua volta, mimando-a, fazendo-lhe festas no rosto, colocando-lhe o bracito por cima do ombro. Levanta-se muitas vezes para lhe trazer sobremesas de plástico, bavaroises de ananás e semi-frios de frutas vermelhas. Ela, lambona, tudo devora com prazer. O marido tem evidente orgulho no corpo da mulher. Desconfio que é um desses maravilhosos tarados que só sentem tesão chafurdando nas nalgas e nos refegos das mulheres gordas. Não consigo tirar os olhos de tão estranha parelha.
2009/04/11
2009/04/08
2009/04/07
Hemisfério Sul
Aprecio a franqueza dos países do hemisfério sul. Lá, tudo é claro, transparente. São países que, em muitos assuntos, estão mais avançados do que nós. A sério. Por exemplo, assumem com naturalidade a corrupção, o clientelismo, a utilização do poder público para alcançar benefícios pessoais, a promiscuidade entre poder político e judicial. A corrupção é uma coisa assumida. É a engrenagem que tudo faz funcionar. Se não houvesse corrupção tais países entrariam em colapso. Todos, cada um à sua medida, corrompem e são corrompidos. Com transparência. Sem temer consequências ou represálias. Isso é bom. Uma pessoa sabe com o que contar. Evita a vergonha, o embaraço, o constrangimento do gesto. Ninguém hesita se quiser subornar alguém porque todos são subornáveis, negociáveis. Recordo, a este propósito, a primeira vez que visitei o seminário de Rachol, em Margão. Ouvira falar do altar da capela e queria conhecer de perto os anjos de olhos amendoados e cabelos negros que por lá vivem. O padre que me franqueou a visita ao altar era um velhinho goês, um santo padre, de batina branca e óculos de aros grossos, tímido e frágil como uma papoila. Cheirava a mirra, a turíbulo, enfim, às coisas santas desta vida. Para meu espanto antes de me deixar entrar estendeu-me a mão a pedir qualquer coisa. Balbuciou um português antigo e correcto. Explicou que só me deixava visitar a capela, que não está aberta ao público, mediante uma pequena contribuição pessoal. Não me fiz rogada. Com certeza senhor padre, tome lá cem rupias e deixe-me apreciar os anjos de cabelos negros em paz. Ficámos ambos satisfeitos.
(O que amofina em Portugal é a ilusão de que as coisas não são assim.)
2009/04/06
2009/04/03
Cagarlax
Sabe deus nosso senhor o trabalho que me dá passar vinte e quatro horas por dia trombuda, maldisposta, enfadada. Hoje, porém, ri, com gosto, sozinha. Por duas vezes: logo pela manhã, com o cagarlax do Miguel Esteves Cardoso e, no metro, com a maravilhosa fotografia do Nuno Costa Santos, o recém-empossado provedor do leitor da revista Ler. É muita risota para um dia só. Não estou habituada a tanta galhofa.
Boca
Um dia, quando o engenho chegar - tenho fé que chegará na quarta década da minha vida -, hei-de escrever um romance sobre as altas classes médias de Lisboa. Personagens de sexualidade ambígua, caçadores e caçados, gente intelectualmente superior, noites que desaguam no Lux. Uma coisa assim original e verdadeiramente interessante.
(que feia é a boca do Fernando Pinto do Amaral.)
2009/04/02
Olé
Escutei este fim-de-semana, na telefonia, a entrevista do grão-mestre. Esmerou-se por defender a sua ordem, atafulhada de princípios e homens livres. Notei-lhe a voz pouco firme, bruxuleante. Pareceu-me que a dentadura lhe sacolejava. Como se tivesse castanholas dentro da boca. Olé. Ele a falar de assuntos sérios e importantes para o futuro da humanidade. Eu a picar cebolas para as pataniscas de bacalhau e a pensar na mulher que lhe papou a amantíssima esposa. Feia, uma dessas lésbicas matulonas e tronchudas, incapaz de usar um rímel, um vestido, um colarzinho de pérolas de água. Apesar de tudo o que se passava, tinha o grão-mestre em grande consideração. Para além da esposa, apreciava-lhe os ideais de liberdade e fraternidade, gabava-lhe a filantropia e o humanismo.
2009/04/01
Pão
Na última reunião do G8, em Julho, depois de uma manhã a discutir a crise alimentar no mundo, os poderosos deleitaram-se com dezanove iguarias preparadas por um chefe japonês. Comeram, entre outros pratos, milho recheado com caviar e ouriços-do-mar, enguias avinagradas e cordeiro aromatizado com trufas negras. Para a refeição inaugural da reunião do G20, Jamie Oliver, o delicioso cozinheiro que me acompanhou nas manhãs molengonas da terceira licença de maternidade, fará um menu mais frugal: espargos ingleses, peixe fresco e borrego temperado com alhos selvagens. Convém ter algum comedimento, alguma consciência social nestas ocasiões. Para não parecer mal. Entretanto, na costa da Líbia, continuam desaparecidos trezentos imigrantes. O número não é certo. Vinham da Somália, da Etiópia, da Nigéria. Queriam chegar a um sítio onde houvesse pão.
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