2011/03/24

O livreiro é um homem alto, tímido, pouco dado a cortesias. Nunca se ri. Fala pouco e não se alonga em conversas com os clientes. Diz apenas o que julga indispensável a uma transacção transparente e rápida. Só lhe notei uma alegria breve quando lhe pedi o auto de natal pernanbucano e, numa outra ocasião, quando comprei uma edição muito velha, estafada, das palavras poupadas. Eu, tão contente, por ter encontrado aquele exemplar, todo escrevinhado por uma sara teotónio, depressiva quase de certeza, que encheu de poemas lacrimosos os espaços em branco, folhas de plátano e de amieiro secas entre as páginas, bilhetes de cinema e de comboio também lá guardados, um livro assim, vivido, é difícil de encontrar, que os livros chegam-nos mortos e somos nós que lhes damos vida, eu, tão feliz por encontrar aquele livro e ele, o livreiro, a dizer “ela é óptima, não é?”, eu a perceber a pergunta, mas a topar-lhe os olhos muito frios, gelados, totalmente inexpressivos, a boca dizia uma coisa e os olhos não diziam nada, como se boca e olhos pertencessem a pessoas diferentes. Acho que não lhe respondi. Paguei-lhe e fugi. Vê-se que o livreiro é um homem que gosta de livros, há-de ter um rol de leituras invejável, sólido, mas, coisa estranha, não o consigo imaginar a falar com entusiasmo daquilo que lê. Hoje, não sei que se passou, o livreiro pareceu-me outro homem. Continuava de poucas palavras, mas movimentava-se de um modo diferente como se se tivesse libertado de qualquer coisa que lhe pesava no corpo. Quando lhe pedi o livro da Lídia Jorge, veio comigo até à bancada, ligeiro. Quando lhe pegou, percebi-o, afagou-o, sentindo a maciez da capa aveludada. E, durante aquele tempo, cantarolou alto uma canção do Ney Matogrosso. Os olhos continuam a ser um poço, mas, lá no fundo, atrás da escuridão, há um ninho de musgo onde vive um pássaro azul.
(havia de falar do país e tal e coisa, que anda tudo numa azáfama de comentários e brilhantes dissecações, mas o país interessa-me pouco e o livreiro interessa-me muito.)

Marisa

Marisa entrava no banco, picava o ponto, abria o computador e ia tomar o pequeno-almoço ao snack-bar do centro comercial. O pedido era sempre igual. Um galão morno e um bolo que escolhia na altura, de acordo com o humor e o apetite. Se acordava com desejo, o corpo quente, a vulva levemente inchada, pedia um jesuíta. Se a noite fora de insónia, os olhos postos nas horas do despertador, pedia um mil-folhas. Se acordava murcha, tristonha, como lhe acontecia tantas vezes, o amanhecer tão desgraçadinho visto do apartamento da Bobadela, pedia uma bola de berlim recheada. Era um consolo, um regalo, uma satisfação.

(o resto, querendo, podem ler aqui.)

2011/03/19

Reptilia



(música de correr.)

2011/03/18

Ocidente

O doutor Sanjay pergunta-me pelos métodos anti-concepcionais. Explico-lhe o costume. Não os utilizo porque não preciso. O médico levanta os olhos da folha de papel, esboça um sorriso, pega-me nas mãos e, com ternura, diz-me “Ana Clara, não se preocupe, há-de encontrar o seu príncipe encantado!”. Fico melindrada com a conversa, mas não lho posso mostrar que um bom ginecologista é muitíssimo difícil de encontrar. Vou ali para me inspeccionarem o aparelho reprodutor, para me apalparem as mamas, para me vistoriarem a vagina, os ovários, o útero. Dispenso os votos de um futuro radioso, feliz, monogâmico, ao lado de um homem. Observo-lhe as mãos. É um velho com mãos de criança. Merece uma resposta. “Só se for uma princesa encantada. Estou farta de príncipes”, digo para o provocar. O doutor Sanjay revira os olhos e afaga a pêra grisalha. Percebo, pelo olhar, que lamenta, profundamente, a decadência do ocidente.

Jardim de São Lázaro

Atravesso o jardim de são lázaro e sinto o olhar dos velhos que jogam às cartas pousado em mim. Há uma japoneira florida e vários estudantes da escola de belas artes desenham à vista perto do coreto. Têm cabelos despenteados, barbas ralas, vestem com descuido. Nenhum deles levanta os olhos do papel para me olhar. Sou velha e invisível para os estudantes da escola de belas artes. Só os idosos largam a sueca para me ver atravessar o jardim. Levo o corpo firme, o vestido justo, o cabelo caído pelas costas. Tenho pressa de chegar à estação para apanhar o comboio que parte para Lisboa. O olhar dos velhos, devasso, atrevido, faz-me desacelerar a passada, caminhar mais devagar, prolongar o momento. Sou nova, desejável, para eles. Os velhos do jardim de são lázaro gostam de me olhar e eu gosto que eles me olhem.

2011/03/12

2011/03/10

Primo Renato

O primo Renato vive em Margão nunca casa antiga com telhado de telha vã. A casa é um amontoado de móveis escuros, desirmanados, estragados pela humidade. Na entrada, como em todas as casas goesas católicas, há um altar com uma imagem de Cristo. O primo Renato tem a doença de Parkinson há muitos anos e vive com a mulher e a filha numa casa que está cheia de fotografias de um homem que parece o Amitabh Bachchan dos filmes dos anos setenta. Explicaram-me que era um amigo muito chegado. Não tendo casado, viveu com o primo Renato e a mulher a vida toda. Dizem que o primo Renato e o amigo estavam sempre juntos. Eram inseparáveis e felizes, unidos por uma amizade muito forte, nunca vista. Sentado no balcão da sua casa antiga, o primo Renato parece alheio a tudo, como se continuasse a viver num tempo cristalizado, numa Goa portuguesa. Não percebe que a sua casa antiga, de telha vã, esmaecida pelo tempo, foi engolida pela feiura da modernidade ordinária de Margão. Ao contrário da família mais chegada de Corturim, todos à imagem do meu pai, muito ruidosos, faladores, de gargalhadas fáceis, maldizentes, o primo Renato tem um ar distinto, é um verdadeiro goês. Parece ter nascido assim, educado, incapaz de um gesto feio, uma dignidade imensa, todas as qualidades dentro dele, sem ter de provar nada a ninguém. Tem delicadeza que é coisa que não existe na casa de Corturim, onde se grita e chora, onde se levam as mãos ao peito e se arrepelam cabelos. O primo Renato vive com a mulher e a filha que o tratam com a generosidade do amor que lhe têm. No balcão da sua casa antiga, o primo Renato só desperta do mundo em que vive quando se fala do amigo. Os seus olhos cinzentos enchem-se de lágrimas que a mulher, dedicada, limpa com um lenço de algodão. O primo Renato não a vê. Acho que não a viu a vida inteira, que o seu olhar, cinzento, aguado, sempre se fixou no seu amor.

2011/03/08

Manhã



(Levanto-me às seis da manhã para correr dez quilómetros.)

2011/03/07

Memórias

Não sei o que deu à minha irmã para emprestar o livro da Isabela Figueiredo ao nosso pai. No sábado, quando entrei no escritório, reparei no livro em cima da secretária de fórmica que veio de Lourenço Marques. Perguntei-lhe se estava a gostar de o ler. Enfiado no roupão, as pernas encostadas ao aquecedor a óleo - um goês velho nunca se acostumará ao frio lisboeta - fez um esgar de nojo e disse que não. Não estava a gostar mesmo nada. Não se pronunciou sobre as memórias partilhadas, não explicou se as aceitava ou rejeitava. O que o enojava no livro eram as asneiras. Cona. Foder. Palavras proscritas, escritas vezes sem conta, até à náusea. A minha filha, que viera comigo cumprimentá-lo, assim que ouviu falar do asneiredo, arregalou os olhos e sorrateiramente pegou no livro. Pôs-se a lê-lo à socapa. Não vais ler este livro, pois não, mãe?, perguntou indignada. Não, claro que não, expliquei-lhe. Era lá capaz de ler um livro cheio de asneiras. Ou de ver um filme pornográfico. Ou de apanhar uma bebedeira. Ou de dormir com um estranho. Jamais. Sou uma mulher seríssima. Sou a tua mãe. À noite, mal deitei os miúdos, larguei a menina Cunegundes (cada vez que lhe leio o nome, imagino uma orgia de cunilínguos, profundos e certeiros, no melhor dos mundos possíveis) e peguei no caderno de memórias coloniais. A Isabela Figueiredo escreve muito bem, sem pretensões ou artifícios, desfiando memórias dolorosas sem tornar a dor banal. Mas, lido o livro numa noite, de uma assentada, percebi uma coisa. A minha África é diferente da África dela. Não encontro, nas memórias da minha família, desprezo ou ódio. Nenhum. Só culpa. A minha África é uma história que cada um de nós carrega em silêncio, sem nunca lhe mexer. Porque magoa. É uma história com apenas quatro personagens: o jovem goês; a negra, menina-mulher, sozinha na beira de um caminho de poeira vermelha a chorar, sem homem e sem filho; a enfermeira, a mais bonita do lar da rua da Sociedade Farmacêutica, que se casou com o goês e fez seu o filho da negra; o menino sem memória, mulato, que se aninha no colo da enfermeira portuguesa e lhe pede “mamã, faz-me cabelo de branco”.

Pai

Nunca fui ao cinema com o meu pai. No domingo, assim do nada, convidou-me para ir ver o discurso do rei. A minha mãe aceitou ficar com a minha ruidosa prole, mas, como quem não quer a coisa, lá foi dizendo que passa a vida a pedir ao meu pai para a levar ao cinema e que ele arranja sempre mil desculpas para nunca a levar. Dei-lhe um beijinho e um abraço. A minha mãe é como uma criança pequena, precisa de mimo, atenção, muito colo. Depois olhei-lhe nos olhos e expliquei-lhe que é tempo de desistir: por mais que ela se esforce sou eu a mulher da vida do pai.

2011/03/06

Garbatella

2011/03/04

Marta

Era sempre igual. Cada vez que lhe nascia um filho, fugiam-lhe as palavras e chegava-lhe uma tristeza muito grande. Andava naquilo que tempos. O corpo branco como um cadáver. Não se levantava. Alimentava-se de gemadas muito doces e chás de carqueja que a vizinha lhe trazia para a curar da anemia. Violante, e isto custa a explicar, não se preocupava muito com a tristeza que lhe comia as entranhas, nem com a mudez que lhe selava a boca. Sabia haver naqueles seus padecimentos um carácter transitório. A tristeza vinha, instalava-se nela, levando-a a uma agonia profunda, a um mutismo absoluto. Porém, assim como chegava, partia. Uma manhã, quando menos o esperava, acordava e as palavras estavam todas dentro de si, readquiria o dom da fala e o resto: a alegria de viver. Tinha vontade de beijar os filhos, de lhes mexer nos seus rostos de porcelana com as suas mãos de barro. Arrumava a casa de ponta a ponta. Saltava da cama, prostrava-se de joelhos em frente da imagem de nossa senhora a agradecer o milagre. Depois ia à sua vida, tratava dos filhos, do marido e da casa. Pedia à vizinha que não lhe trouxesse mais gemadas. Tinha a língua encortiçada de tanta doçura. Só uma vez as coisas não se passaram assim e as palavras custaram a entrar-lhe de novo no corpo. Foi quanto nasceu a sua sétima filha: Marta.

2011/03/02

Honra

Na Alemanha, karl-Theodor zu Guttenberg – o jovem ministro da Defesa, dado como provável sucessor de Ângela Merkel por ser um político talentoso - demitiu-se. Foi acusado de plagiar uma tese de doutoramento. É um comportamento censurável, mas poucochinho. Vivemos numa época em que a informação circula veloz; é de toda a gente e não é de ninguém. Toda a gente plagia. Em França, a Ministra dos Negócios Estrangeiros, Michèle Alliot-Marie, também apresentou a sua carta de demissão. Cometeu o crime hediondo de ter estado de férias na Tunísia durante os protestos populares. Consta, por outro lado, que a sua família (os pais, não ela) tem negócios com governantes magrebinos. Mais uma vez, é um comportamento censurável, mas pouco. Em Portugal, o primeiro-ministro, ao longo desta penosa travessia que tem sido o seu último governo, foi acusado de coisas bem piores – burla, caciquismo puro e duro, clientelismo, falsidade - e nada se passou. É que, em Portugal, ao contrário do que sucede nos países do norte da Europa, não existe responsabilidade política. Os cidadãos não se importam de viver numa democracia meramente formal. Existe, isso sim, para conveniência de quem a invoca, uma coisa que se chama responsabilidade criminal. Em Portugal, os políticos podem prevaricar, podem passar à frente dos velhinhos nos centros de saúde, podem ser desonestos, amorais, podem ser totalmente inaptos para desempenhar os cargos para os quais foram eleitos, podem prescindir com descaramento da ética pública, podem ser, no fundo, uns autênticos filhos da puta, porque sabem que, no final, a justiça cumprirá o seu papel e, sob o manto respeitável do despacho de arquivamento, apagará desonras, limpando chagas e feridas.

2011/03/01

Melancolia

Verdes Anos

Acordo ao som da canção.
Deitada na cama, a claridade da manhã a entrar pelas frinchas dos estores, com um nó a estrangular-me a garganta, uma tristeza a entrar-me devagar pelos orifícios do meu corpo, recordo. Ilda, Júlio. O tio de Júlio, sapateiro. A entrada da reitoria com os painéis do Almada Negreiros. O céu cinzento a ameaçar com nuvens espessas. O chão do café coberto de beatas e serradura. As avenidas novas da cidade, rasgadas em paralelas e perpendiculares. Os prédios altos, tão altos, quase a tocar o céu. A casa onde Ilda trabalha. O senhor, a senhora, a sobrinha dos senhores. O passeio de domingo até ao aeroporto por entre caminhos poeirentos, quentes, de pinheiros, arbustos, gargalhadas, cumplicidades. Ilda e Júlio felizes. Os aviões, lá ao fundo. A cidade, a preto e branco. Os seus limites visíveis, palpáveis como se tivessem sido traçados a lápis por um guardião gigante. Aqui acaba a cidade, o alcatrão, o fumo, as paredes, os muros, a confusão. E aqui começa o campo, o verde, o azul, as hortas, o regato, ali uma casa, animais, árvores. Recordo, sobretudo, o baile nesse local mágico e único que reconheci mal o vi através dos olhos do Paulo Rocha. O tecto pintado, por mim, imaginado em tons de ocre e laranja, os desenhos indefinidos, esboroados, a escadaria da entrada com os degraus gastos, as arestas de mármore arredondadas pelo uso, o pátio interior, por cima, um rectângulo branco de céu. As janelas enormes por onde, naquela tarde, distante e melancólica, entrava uma luz fraca, crepuscular. Naquela tarde, ouvia-se esta canção. Esta canção, infinitamente bela e triste, que anunciava o fim.

2011/02/25

Roda Viva

Static Man

Março, o meu mês, trará o novo romance da Lídia Jorge. Enquanto não chega, releio O Jardim Sem Limites, leitura recorrente porque tenho uma paixoneta antiga pelo static man. Por causa deste livro, há alguns anos, passei uma tarde em Alfama à procura da Rua da Tabacaria e da Travessa das Gáveas. As ruelas estavam cheias de brasileiros, mestiços de camiseta e calções curtos, e uma morrinha caía de um céu muito escuro e fechado. Havia turistas italianos, extasiados, muito tolos como sempre costumam ser, que fotografavam o rio visto de Santa Luzia. Descobri a Travessa das Gáveas num instantinho e tive uma desilusão. Das maiores da minha vida. Não era nada como a imaginara a partir do romance. Um muro alto, uma casa branca de cortinas rendilhadas, uma nespereira de frutos oxidados. Esperei pela rapariga cachalote enquanto mordisquei uma nêspera. Ela nunca chegou. Eu nunca descobri a Rua da Tabacaria.

Mal-amanhados

O Rui Lagartinho, no Público, escreve sobre o romance de estreia do Paulo Ferreira. Termina assim: “impressiona-nos que subsistam editoras que se dão ao luxo de se demitir da sua função mais nobre, deixando chegar às livrarias esboços mal-amanhados de romance como este”. Não conheço o Paulo Ferreira nem li o livro que escreveu. Sou incapaz de avaliar o acerto da crítica do Rui Lagartinho. Porém, o que diz em relação às editoras é bem verdade. Há editoras, a Quetzal é uma delas, que catam autores da blogosfera como se fossem piolhos, não percebendo que à blogosfera se vão buscar as pipocas doces e demais apreciadoras de sapatos de saltos compensados. Não se encontram na blogosfera bons escritores e boas escritoras. E não se encontram por uma razão simples. Não estão lá. O tempo da escrita literária é diferente do tempo da escrita blogosférica, corrida, desabrida, concreta, para consumo imediato. O tempo da escrita literária exige entrega e disponibilidade. É um tempo de solidão e angústia. É constrangedor encontrar esses livros mal-amanhados, como lhes chama o Rui Lagartinho, nos escaparates das livrarias. Até porque, quase sempre, são escritos por homens e mulheres interessantes, que, sendo bons bloggers, são maus escritores. Tais livros, no entanto, são sempre bem promovidos pelas editoras, as capas são catitas, os autores vão à televisão, dão entrevistas nos suplementos literários e os críticos amigos cumprem o seu papel, fazendo críticas jeitosinhas. De que vale escrever um mau livro?

Beco

Gritei a primeira vez e a chinesa largou o fresco do interior da loja de quinquilharia e assomou à porta. Gritei a segunda vez e dois rapazes do bairro, vestidos de preto, boné na cabeça, o corpo arrumado à parede suja de um prédio, entreolharam-se. Gritei a terceira vez e as freguesas da mercearia - uma velha de xaile e uma negra indolente de refegos -, largaram as compras e vieram postar-se na calçada, à espera de um espectáculo que as livrasse do tédio. Quanto mais eu gritava, mais o homem me apertava os pulsos, imobilizando-me à porta do restaurante indiano. Olhei-lhe para dentro dos olhos cada vez que gritei. Só quando gritei a quarta vez e o meu grito percorreu o beco, estilhaçando vidros, açoitando os gatos, matando baratas, é que o homem me largou.

2011/02/16

Baltazar Abelha

O operário desceu os sete lances de escadas. Chegou cá abaixo e explicou ao encarregado da obra que o morador do 7º-A se recusava a tirar os seus pertences da varanda: vasos, colchões velhos, cadeiras, até um armário de madeiras podres. Também se recusava a apanhar a roupa que se encontrava a secar nos dois estendais da janela da cozinha. O encarregado da obra era um homem sábio. Escutou em silêncio. Conhecia muitos axiomas e teorias. Sabia, por exemplo, que, sempre que nos aparece um problema pela frente, o melhor a fazer é torná-lo no problema de outra pessoa e esperar que ela o solucione. Olhou para a janela do 7º-A. Viu um homem de olhar alucinado; era Baltazar Abelha que os espreitava com um olhar ameaçador. Nem por um momento lhe passou pela cabeça subir os sete lances de escada e tentar convencer o morador do 7º-A a retirar todos os seus pertences da varanda e estendais. Explicou ao operário que deveriam esquecer o sétimo andar e começar, desde já, a pintura do oitavo andar. Ligaria para a câmara ao final do dia. Eles que mandassem algum técnico da divisão administrativa tratar do assunto. Por ele, o edifício C do bairro camarário podia ficar assim: fachadas tratadas com aprumo, raspadas, reparadas, banhadas com impermeabilizantes anti-musgo e anti-bolores, pintadas a rolo com a cor escolhida pelos arquitectos da câmara, um rosa chá muito clarinho, a fazer lembrar vivendas à beira-mar com floreiras perfumadas; as paredes exteriores do 7º-A mantendo para sempre a sua cor original, azul tempestade, esboroado, estalado, furioso, cheio de manchas de salitre.

Dr. Spock

A Joana Amaral Dias arranjou as sobracelhas.

Fecha-te Sésamo

O marido está finalmente despachado. Odete afasta-o com as mãos. Levanta-se com cuidado. Veste o robe que está aos pés da cama. Contrai os músculos do períneo a ver se fecha a abertura vaginal. Fecha-te Sésamo. Caminha até à casa de banho para se lavar. O percurso é longo. Os seus passos tornam-se leves, os pés mal tocam no chão para que o impacto não provoque um derrame inesperado. À cautela, não vá escapar-se uma gota e salpicar o soalho que lhe dá tanto trabalho a encerar nas manhãs de sábado, coloca sempre a mão por baixo da vagina. Vai pelo corredor, o robe aberto, pisando a passadeira de linólio, os músculos do pavimento pélvico contraídos, as mãos rebentadas de picar alhos e cebolas a amparar qualquer fuga. Duas andorinhas de loiça esvoaçam nas paredes e, no seu nicho, uma nossa senhora de fátima padece numa luz triste, vermelha de lupanar. Quando finalmente se senta no bidé, suspira de alívio. Nem uma gota se perdeu. Sacoleja o corpo a ver se lhe arranca os resquícios que o marido lá deixou. Depois de lavada, veste umas cuecas de algodão e a camisa de noite. Volta para o quarto. Deita-se à bordinha da cama. Adormece.

2011/02/07

No cars go

Chuva

Era o tempo dos cisnes, dos patos, das folhas da árvore de borracha que cheiravam a manteiga, do Jardim do Torel onde viviam todos os bichos-da-seda da cidade, enrolados sobre si, alheios ao ruído e ao frenesim. Era o tempo dos sonhos. Adormecia e, na escuridão, apareciam árvores com copas cor de cobre, milheirais, precipícios, gigantes que tinham sempre o rosto meigo de um primo afastado que estava internado no Júlio de Matos. Também eu, por vezes, aparecia na escuridão da noite e dos sonhos. Usava socas e tinha as unhas roídas. Nesse tempo não percebia ainda o meu corpo. Sabia apenas que se apertasse as coxas com muita força, durante algum tempo, até ao limite da exaustão, o meu avesso, o meu lado de dentro, seria invadido por uma crescente onda de calor que, pouco depois, se transformava numa sensação única, a melhor que até então experimentara. Aquela sensação durava pouco, era um arrepio, uma vertigem, uma explosão, mas era de uma intensidade tal que valia bem o esforço físico que exigia de mim. Depois da exaustão e do prazer chegava um cansaço morno, muito bom, que me deixava o corpo adormecido e apaziguado. Fazia-o em segredo porque era uma coisa boa e, naquele tempo, todas as coisas verdadeiramente boas - mascar pastilhas elásticas, beber coca-colas, brincar no pátio, experimentar os sapatos de saltos altos da minha tia, enterrar as mãos na terra, pegar na minha irmã recém-nascida ao colo - eram proibidas. Fi-lo durante a infância e a adolescência. Sempre em segredo. Partilhava o quarto com a minha irmã. Esperava que ela adormecesse. Na escuridão, em vez dos gigantes e das árvores com copas cor de cobre, apareciam então mãos que percorriam o meu corpo com vagar e urgência. Nunca percebi se a minha irmã, aconchegada no seu sono, escutava o restolhar dos lençóis e os gemidos quase inaudíveis que, volta e meia, não conseguia calar. Só sabia que a minha escuridão era diferente da dela.

Durante muito tempo, uma eternidade, achei que era a única rapariga do mundo que me masturbava. Sabia que os rapazes o faziam. Falavam entre eles sobre o assunto, vangloriando-se, de modo um pouco absurdo, das raparigas que imaginavam enquanto se tocavam freneticamente. A masturbação (palavra proscrita naquela altura no universo feminino e agora também) era permitida aos rapazes porque era uma inevitabilidade da sua natureza. Revelava virilidade e mostrava o lugar que homens e mulheres tinham na ordem do mundo. Os homens masturbavam-se, as mulheres não. Ponto. O prazer que uma mulher sozinha arrancasse do seu corpo era pecado, era uma coisa muito suja, muito porca, sinal de desvario, de transvio. Cabia aos homens inaugurar a vida sexual das suas namoradas e esposas. Na verdade, devia ser assim porque eu não conhecia uma única rapariga que se masturbasse. As minhas amigas nunca falavam do assunto e faziam um esgar de sincero nojo se a palavra “masturbação” fosse pronunciada. Convenci-me, pois, que era a única rapariga do mundo que pensava em sexo. Esse sentimento de orfandade, de pária, de indigente, deixava-me num estado de inquietude e incerteza. Por um lado, cedia aos ditames dos bons costumes e achava que estava perdida. Lastimava a minha pouca sorte. Queria ser como as outras raparigas que viviam dentro de corpos mortos. Essas raparigas, já mortas, morriam todas as noites um bocadinho mais. Era assim que eu queria ser. A vida de uma mulher morta é um sossego. Às vezes, porém, dava por mim a achar que o meu segredo tinha um lado bom: a prática de tantos e tantos anos de masturbação havia de me tornar mais tarde numa amante eficiente e competente.

Percebi que era uma mulher normal, alguns anos mais tarde, quando vi o primeiro filme do Steven Soderbergh. Foi uma revelação. Afinal havia mulheres como eu, mulheres que gostavam de sexo e que não esperavam pelos homens para cumprir os seus desejos. Suspirei de alívio. Ainda por cima, as mulheres desse filme, são só duas, eram muito mais bonitas e interessantes do que aquelas com quem me cruzava no bairro e na universidade. Tal facto consolou-me. Apaixonei-me naturalmente pelo James Spader, o impotente. Ainda hoje, quando penso no assunto, acho que o parceiro ideal para mim devia ser assim, impotente. Mas isso são conversas que ficam para outra ocasião. Nesse verão pedi à minha mãe que me costurasse um vestido largo, tipo bata, com botões à frente, igual aos que a Andie MacDowell usa no filme. Acreditei que um dia havia de amanhecer perto de alguém a quem pudesse dizer “parece que vai chover” e que esse alguém saberia ler tudo o que essas palavras não dizem. Hoje, passados tantos anos, lido bem com o meu onanismo. Faz parte de mim. É uma competência. Uma espécie de qualificação.

Março 2010

(O meu filho João utiliza a palavra masturbação com uma naturalidade que me dasarma.)

2011/01/31

Sábado

Levo o Joaquim pela mão e percorro os corredores que, em criança, percorria com a minha mãe. A praça mudou de sítio. Antigamente, há muito tempo, ficava no meio do bairro, era um amontoado de toldos de lona e lagos de água suja. Depois, veio o progresso e a praça foi instalada num pavilhão que a câmara municipal construiu. A praça passou a ser o mercado municipal. Vou sempre à banca da D. Maria que gere o negócio com a ajuda dos dois filhos. O rapaz é um gordalhufo, mal disposto, um senhor patrão, de boina à banda, olhar ressentido. Descarrega a raiva que tem ao destino quando pega no facalhão para cortar talhadas de abóbora. A Sónia, a filha, é bonita e simpática. Uma jóia de rapariga. Há depois uma ajudante. Viúva, miudinha, é parenta, mas por afinidade. Vê-se pela magreza, pelo ar murcho. Trata das hortaliças. Avia as freguesas que querem nabiças, grelos, espinafres, agriões. Às vezes, aparece o Corneta, meio pateta, o cabelo oleoso colado à testa, óculos de fundo de garrafa. Anda às ordens da D. Maria, fazendo o que for preciso. Coça constantemente os testículos e gosta de contar anedotas ordinárias. Na semana passada, o Corneta fazia anos, não sabia quantos ao certo, e, em vez de responder às ordens da D. Maria, entretinha-se a oferecer galões, bicas e copinhos de bagaço a toda a gente. Acabei por ir com a Sónia ao café da praça. A dona do café tem um ar sujo e chora a ouvir o Tony de Matos. Agradeci o galão ao Corneta que arreganhou uma boca de dentes podres e escutei, durante cinco minutos, a Sónia queixar-se do ex-marido, que nunca pagou a pensão de alimentos ao filho, é um parasita, um autêntico estafermo. Ela a falar, eu a concordar com cada palavra, que sou muito boa no amparo. Despedi-me. Ela enfiou as mãos nos bolsos da bata, gritou um palavrão ao filho que por ali andava, e correu para a sua banca.

2011/01/28

Cancro

Air Pegasus

O juiz gosta de passear pelo bairro. Caminha devagar, não pondo na sua passada qualquer aceleração ou intuito saudável. Não pretende definir o seu corpo, torná-lo mais resistente, mais forte. Gosta de caminhar. Apenas isso. Nessas caminhadas, cruza-se muitas vezes com uma mulher. A mulher passa por si sempre a correr, vestida de licra negra, levíssima, ténis com amortecedores, o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Corre depressa e deixa um cheiro característico. Não é bom nem mau. É apenas o seu cheiro. O juiz olha-a. Um dia, a mulher levanta os olhos do chão. Também ela o observa. O juiz passa a desejá-la. Esse desejo consome-o, deixa-lhe o corpo dormente. Lembra-se constantemente dela, durante as audiências de julgamento, nas filas de trânsito, pela noite fora. Quanto mais pensa na mulher, mais se convence de que a não pode ter. Há entre eles um fosso intransponível. Ele caminha devagar. Ela passa sempre a correr. Essa discrepância parece-lhe insuperável. Uma mulher que corre não quer um homem que caminha.

Está quase a habituar-se à ideia de perder aquela mulher - é perito em perder o que nunca foi seu -, quando, certo noite, se cruza novamente com ela. A princípio, não a reconhece. Traz o cabelo solto, veste calças de ganga, calça umas sabrinas de cabedal. Caminha. O juiz percebe que ainda vem trôpega, como um vitelo acabado de nascer, as pernas bambas habituam-se ao peso de um corpo que se movimenta devagar. Em breve, caminhará como ele. Nessa noite, o juiz não consegue dormir. Qualquer coisa que o atormenta. No dia seguinte, mal sai do tribunal, compra uns ténis de corrida com nome de cavalo alado, uma camisola sem mangas, uns calções justos com forro térmico. Volta a cruzar-se com a mulher nos dias seguintes. Ela caminha. Cada vez mais segura. Ele corre. Cada vez mais depressa. As suas passadas continuam a ser incompatíveis. Uma mulher que caminha não quer um homem que corre.

2011/01/13

Branca

Branca não sentia prazer. Nunca sentira. Durante muito tempo achara-se diferente das outras mulheres. A idade, porém, trouxera-lhe serenidade. Apaziguara-lhe a frustração. Não só aprendera a aceitar a morte do seu corpo, como fazia questão de a usar em seu proveito. Cada vez que se envolvia com um homem apressava-se a contar-lhe o seu segredo. Depois de um estremecimento inicial, os homens compadeciam-se da sua sorte. Olhavam-na com pena. Branca revirava os olhos, batia as pestanas, alargava disfarçadamente o decote, pousava as mãos de cera no regaço, suspirava com brandura. Parecia uma santa. Sabia que a frigidez do seu corpo acicatava o desejo dos homens. Mesmo aqueles que a princípio pareciam não se interessar por ela, quando sabiam do seu padecimento, encontravam-lhe predicados e atributos.

Todos queriam salvar Branca daquele destino trágico e cada um deles, no seu íntimo, achava-se capaz de o fazer, cumprindo a sua vocação natural, usando de uma virilidade que julgavam eficaz e irresistível. Salvar Branca era a única oportunidade que tinham na vida de praticar o bem sem que lhes fosse exigida uma pontinha de sacrifício. Ela, porém, não tinha quaisquer expectativas em relação aos homens com que se envolvia. Dormia com eles para os observar. Desenvolvera capacidades apuradas de observação. Estudava-os como se de bichos se tratassem. Agrupava-os em categorias. Os homens davam-lhe sempre o seu melhor. Esmeravam-se no acto da cópula, esforçavam-se por a tocar nos sítios certos, faziam uso das mãos, suspiravam-lhe palavras ao ouvido. Falhavam sempre. Quando davam conta da sua derrota, ficavam inertes. Olhavam o vazio. Para muitos, era a primeira vez que o fracasso lhes aparecia tão nítido pela frente. O estremecimento inicial voltava. Sofriam. Não por Branca, mas por si próprios. No fim da noite, era sempre ela que os consolava.

Neighbourhood 1 (Tunnels)

(voltei a correr.)

2011/01/11

Aninhas

Amava o marido sem esforço ou preocupações. Ao amante, pelo contrário, estimava-o. Esmerava-se por lhe agradar. Acarinhava-o como se fosse uma criança pequena. Trazia-lhe as primeiras cerejas da época e comprava-lhe cigarros importados que largavam um fumo azul, adocicado, nos quartos de hotel onde se encontravam. Aninhas aplicava-se na traição. Sabia que o seu casamento dependia da estabilidade daquela relação. Quanto mais conhecia o amante, o romantismo insuportável que o fazia chamar-lhe meu amor, mais se consolava com a sobriedade do marido, a ausência total de afecto, o modo frio como lhe beijava o rosto.

2011/01/08

Saltykov-Shchedrin

Comprei um livro. Fui lê-lo para a igreja onde vivem os anjos da cidade. Não há melhor sítio para ler. A luz é suficiente, o ruído do mundo chega abafado e longínquo, cheira a madeira encerada. A companhia também é boa: a senhora que usa uma mantilha na cabeça e sapatos brancos, o homem que reza de olhos fechados e mãos abertas, a mulher que caminha na pontinha dos pés em sinal de respeito, abraão imolando o filho com um cutelo. Não lia há muitas semanas. O regresso à leitura encheu-me o coração de alegria. Até chorei. Coisa mais parva. É bom ler os clássicos.

Arkansas

Só alguns dias mais tarde apareceram as primeiras explicações nos jornais. O barulho dos fogos de artifício assustara os pássaros que descansavam nos ninhos. O rebentar simultâneo de milhares de foguetes, celebrando o novo ano, fizera-os despertar do seu sono palpitante. Segundo um especialista, as aves teriam tido um choque profundo, a explosão de ruído e luz provocara-lhes desorientação e cegueira. Alguns pássaros explodiram por dentro, sangraram pelos olhos; outros puseram-se a voar num descontrolo absurdo, batendo em chaminés, paredes, postos de iluminação, placards publicitários. Naquela noite, porém, ninguém encontrou razão que explicasse a chuva de pássaros e a multidão, que viera ao cais assistir ao fogo de artifício, emudeceu quando as aves começaram a cair.

Até que um homem se pôs a gritar que aquilo era um sinal divino, deus, zangado, anunciava o fim do mundo. Estava no livro sagrado. Uma mulher deu uma gargalhada, mangando da ignorância do crente. Desviou a objectiva das cascatas de luz e começou a fotografar o fenómeno, procurando o melhor ângulo para uma documentação credível. Um homem bonito, de olhos espessos, aproveitou a primeira agitação da multidão. Protegeu o rosto com as mãos e começou a abrir caminho na multidão. E se alguma ave, ao cair, lhe acertasse de bico, rasgando-lhe o rosto, marcando-o para sempre? Uma mulher gorda, que morava perto do cais, gritou ao marido que, na manhã seguinte, apesar de ser dia de ano novo, teriam de varrer o telhado e inspeccionar os algerozes. Só uma rapariga se comoveu com aquela mancha de morte. Apanhou um tordo que caiu aos seus pés e sentiu-lhe o corpo morno.

Noite

Durante a noite, a beira-rio enche-se de homens. Sentam-se nos bancos listrados junto ao rio a olhar a neblina que paira sobre as águas. Passeiam lado a lado. Raramente se tocam. O desejo, bicho nocturno, fica encoberto nas sombras. É preciso estar atento, olhar com muita atenção, para se dar conta dele. Os homens que andam aos pares gostam de se sentar ao lado dos outros homens que bebem gins tónicos nas esplanadas à beira-rio. Às vezes, sentam-se no restaurante francês que tem guardanapos de pano e onde se come batatas fritas e bifanas de porco à média luz. Ontem, um desses casais estava posto na vitrina do restaurante francês. Um homem jovem e gordo bebia vinho de um copo de pé alto como se fosse mulher, pondo a boca no rebordo, deixando-a estar nesse parapeito por breves instantes, humedecendo depois os lábios no líquido. O outro homem, esguio e careca, olhava-o e entumecia. Ao cruzar-me com esses homens que amam outros homens, que desejam outros homens, sinto sempre estranheza. Percebo o desejo de uma mulher por outra, mas estranho que um homem possa desejar fisicamente outro homem.

2011/01/01

Rebellion

2010/12/28

Arena

Aos domingos as famílias sentavam-se à volta da mesa da cozinha para comer uma feijoada, um cozido à portuguesa, às vezes, um frango assado. O sol entrava pelas vidraças das marquises, tornava o ambiente morno, fazia desabrochar os lírios dos azulejos. Eles chegavam sempre à mesma hora, quando o relógio se aproximava das duas, marcando o final da refeição, no momento em que as mulheres arranjavam a fruta para as crianças, descascando maçãs e peras, tirando os caroços das laranjas, quando as cafeteiras italianas já estavam em cima dos bicos dos fogões, prestes a chiar. Vinham em grupo e tocavam melodias de tempos antigos, cantiguinhas com mofo, fados amarelecidos. Cantavam mal, alto, esganiçando a voz ao limite do suportável. As crianças, mal os ouviam, levantavam-se da mesa e precipitavam-se para as janelas. Levavam a boca cheia de maçã. As mulheres, de avental, seguiam as crianças. Os maridos deixavam-se ficar sentados à mesa, a palitar os dentes, a olhar os restos nos pratos, à espera da chávena de café. Escutavam os músicos, mas não os viam. Eram as mulheres e as crianças que não resistiam ao apelo de os ver e se punham à janela a escutá-los. Lá estavam eles. Um gordo, muito gordo, de uma gordura doente, imensa, que tocava melódica. Uma cega que trazia os olhos remendados e provocava nas crianças um arrepio. Tocava ferrinhos e tinha um rosto áspero, levemente malévolo. Havia também um mulato que mancava. Não tocava nenhum instrumento. Não cantava. Estava ali a mostrar o seu aleijão. O chefe dos músicos era desempoeirado, usava um boné, tinha a pele do rosto muito brilhante e vermelha, como se tivesse sido encerada. O bigode retorcido, grisalho, conferia-lhe um ar distinto. Era maneta. Trazia o braço deficiente preso com um lenço.

Ficavam os quatro a tocar e a cantar no meio da rua. Aquilo durava um instante. Quando se calavam, as pessoas que estavam à janela começavam a atirar moedas. O chefe, o tal que era maneta, deixava então os companheiros. Ficavam desamparados. O gordo, muito gordo, olhava para o chão e a cega de olhos remendados apoiava-se no ombro do mulato. O chefe ia de pátio em pátio apanhar as moedas que as pessoas dos apartamentos atiravam. Às vezes, uma moeda fugia para baixo de um carro, obrigando o homem a baixar-se para a apanhar. Os miúdos das janelas ficavam a vê-lo, apoiando-se apenas numa mão, agachando-se com dificuldade, esticando o corpo todo para alcançar a moeda. A sua altivez, que se percebia pela voz, pela agilidade que punha no andar, era posta de parte. Erguia-se, ajeitava a boina, olhava para cima a agradecer a moedinha. Às vezes, uma criança soltava uma gargalhada de gozo e não era contrariada. Era uma gargalhada de criança e as crianças não têm maldade, são puras, imaculadas, virginais.

Também eu e a minha irmã corríamos à janela a ver os músicos. A minha mãe dava-nos sempre uma moeda, a tia Dé, generosa, engordava a esmola. Todos os domingos, pedia à minha mãe para nos deixar atirar as moedas pela janela da cozinha. Todos os domingos, a minha mãe enrijecia a voz perante o meu pedido. Se queríamos dar a moeda tínhamos de descer à rua e depositá-la numa das caixinhas de esmolas que os músicos traziam ao pescoço. Que aprendêssemos de uma vez por todas: não se atiram coisas às pessoas como se fossem animais. A explicação da minha mãe era tão simples, correcta, sensata. Não tinha argumentos para a contrariar. Não podia confessar-lhe que o que mais queria era atirar a moeda pela janela, fazer pontaria a ver se deslizava para baixo de um carro, ver o maneta esforçar-se para a agarrar. Não podia explicar-lhe que queria vê-lo gritar-nos um obrigado perante a plateia de vizinhos. Todos os domingos, descia no elevador, contrariada, com as moedas fechadas no punho. Queria tanto fazer parte da casta dos atiradores de moedas e a minha mãe não deixava. A minha mãe não percebia que a sua proibição tinha consequências devastadoras. Mal saia do prédio, batendo a porta pesada de vidros e alumínio, sentia-me observada. Também eu passava a fazer parte do espectáculo dos aleijadinhos. Deixava de estar nos camarotes confortáveis dos prédios, na plateia dos remediados misericordiosos, descia à arena dos proscritos, dos desgraçados, mil olhos postos em mim, a diferença muito próxima, a miséria podendo contagiar-me.


(A minha mãe alentejana está na Índia há dois meses. O meu pai goês também. Fazem-me muita falta.)

2010/12/24

Almada

2010/12/18

Tatuagem

A Ler de Outubro continua em cima da minha mesa-de-cabeceira. Para além das tatuagens nos braços do escritor, não traz nada de verdadeiramente interessante para ler. Um intelectual tatuado tem muito encanto.

Tabacaria

Numa tabacaria do metro do Campo Grande apareceu-me, pela frente, na capa de uma revista de bem-estar e lazer, aquela anã que escreveu um livro e que grita aos quatro ventos que é muito feliz. Está por todo o lado. Revistas, programas da tarde e da manhã, as perninhas bambas, o cabelo às madeixas, aconchegada na sua cadeira de rodas, mexendo as mãos de unhas arranjadas, explicando sempre o mesmo. Vai a discotecas, namora, faz tudo o que os outros fazem, é independente e feliz. A anã (em rigor, segundo apurei, não é anã, padece de uma doença congénita que lhe atrofia os membros, a doença dos ossos de vidro) fala e delicia as velhotas de cabelo lilás e azul que assistem aos programas. É mulher realizada, apaziguada com o seu corpo minguado, exemplo de determinação e força de vontade. O que não tem em corpo, dizem, tem em grandeza de espírito. Detesto-a. Eu aqui, balzaquiana, de corpo inteiro, sólido, pernas, braços, peito, boca, ventre para esmagar, moderadamente bonita, esforçadamente interessante, sempre infeliz e miserável, e a anã, a parva da anã, grotesca, metade de um corpo, com a sua voz de apito, de palhaço de circo, ossos de vidro, de poeira, nas capas da revista, no ecrã da televisão a gritar a sua felicidade, desperdiçando razões válidas para depressões e angústias. Não posso com a mulher.

Culto

Ontem, ao deitar, a minha filha encontrou no livro que anda a ler uma palavra que não conhecia. O que é um culto? perguntou com voz nasalada, as narinas emparedadas. A tia Dé, que veio para me ajudar com a prole doente, enquanto lhe desentupia as narinas com neo-sinefrina, explicou-lhe. Um culto é o mesmo que uma seita. Assim como as seitas dos árabes! Eu andava ali pelo quarto a preparar o aerossol para o Joaquim. Ao escutar a explicação da minha tia, arregalei-lhe os olhos. Estou a dizer alguma mentira? respondeu-me. Com as suas mãos ágeis de enfermeira instrumentista, muito lisas, quase transparentes, continuou a tratar a minha filha. Calei-me.

Bola de Berlim

Tive uma colega – agora é juíza – que se gabava das esmolas que dava aos pobres que encontrava à porta do pingo doce de Massamá. Uma vez, lembro-me bem, pagou uma bola de berlim a um desgraçado qualquer. Passou a semana a vangloriar-se do seu gesto. Nunca mandei a tal colega à merda. Arrependo-me profundamente de não o ter feito. Vem a conversa a propósito do Fernando Nobre. O Fernando Nobre, sempre a puxar dos seus galões -, esteve em Beirute em 82, viu crianças a lutar com galinhas por um pedaço de pão - fez-me lembrar a minha colega. Alguém devia mandá-lo à merda.

Estabilidade Matrimonial

Vinha no Público: há uma ala nova no PS. Por um Futuro Decente, num Portugal Novo, assim se chama o manifesto que apresentaram. O manifesto tem tom moralista, o que calha bem nos dias que correm. Subscrito por muita gente, foi um tal de Cândido Ferreira que o apresentou. Escreveu já três romances e, segundo currículo entregue pelo próprio aos jornalistas, tem um casamento estável com uma médica. Umn futuro decente e um casamento estável. Li a notícia. Apeteceu-me rir e chorar por ver o meu destino nas páginas do jornal.

2010/12/09

Ler

A nave central do tribunal é lugar inóspito, frio, sem inspiração. Ampla, despida de móveis, habitada apenas pelo eco das vozes e dos passos dos que chegam: magistrados, funcionários, testemunhas, agressores, vítimas. Há várias portas na nave principal. Algumas são de acesso condicionado. Levam às entranhas do tribunal, a corredores labirínticos de madeiras enceradas. As outras portas, de vidro, estão abertas ao público em geral. São as entradas das secretarias dos juízos criminais, dos serviços do ministério público, das salas de audiência. A porta da sala dos advogados também está aberta. Lá dentro, três mulheres conversam sobre uma mesa redonda onde repousam códigos e processos. A mais velha usa um decote acentuado e uma saia muito justa que marca a curva da anca e o volume dos glúteos. Tresanda a profanação. A segunda advogada traz o cabelo num desalinho por causa da chuva. Tem o corpo enfiado numa canadiana cor de chumbo. É feia, desleixada, desinteressada e desinteressante. A primeira e a segunda mulher amortecem o entusiasmo da terceira mulher, uma jovem advogada que acabou de sair da sala de audiência. Conta o que se passou durante a diligência. Fala com uma confiança que desconhecia ter, rindo, mexendo as mãos, alisando o cabelo. Foi o seu primeiro julgamento e toda a gente a tratou por senhora doutora. Nunca pensou que lhe soubesse tão bem tratarem-na assim. A um canto da nave principal, junto das vidraças que dão para um jardim de arbustos, quatro homens jovens conversam. São polícias. Percebe-se pelo cabelo muito curto, os blusões, as botas de cordões. Os jovens polícias falam ruidosamente e têm nomes como Vítor e Mário. De tempos a tempos a nave central do tribunal é atravessada por uma oficial de justiça que, de capa preta, deixa um rasto sombrio, pesado, de bosque assombrado.

Penso assim: que bem me sabe ler este livro neste lugar. Leio durante três horas. Depois levanto-me e vou-me embora.

2010/12/05

Ma Liberté

Alvéolo Pulmonar

O Abílio está apaixonado. Vinda de um serviço regional, chegou, há pouco mais de um mês, uma colega de cabelo muito curto, pintado de um loiro quase branco, brilhante. Usa sapatos de saltos altos e fuma de um modo desesperado, chupando o cigarro a intervalos curtos, em silêncio. Inspira profundamente para se certificar que o fumo faz o percurso completo, sem desistências até chegar à meta final. Passa pela boca, pela traqueia, pelos brônquios, enche cada alvéolo pulmonar. O fumo, vê-se bem, enriquece-lhe a hematose pulmonar. Leva-lhe alívio que é coisa tão importante como o ar que se respira.

O Abílio também fuma. Com um vagar engraçado que parece preguiça. De hora a hora, arrasta o corpo, aprimora a pronúncia alentejana, ó chefe vou lá abaixo fumar um cigarrinho, pega no maço de cigarros, passa pela máquina a tirar um café e vai fumar para a entrada do edifício. Encosta-se a uma parede para aliviar o cansaço e, enquanto fuma, entretém-se a observar a saída ruidosa das enfermeiras pelo portão do hospital. Foi na entrada dos funcionários, perto dos torniquetes, durante as pausas que se instituíram para alimentar o vício do tabaco, que o Abílio se apaixonou pela colega do cabelo branco. Tal paixão provocou uma enorme revolução na sua vida. Explico-a sem pinga de sarcasmo ou ironia que o assunto é sério e comove-me. O Abílio sempre saiu às quatro horas. Dez minutos antes das quatro, começava os preparativos: arrumar a secretária, fechar as gavetas do módulo e do armário, alinhar o computador, ir à casa de banho. Às quatro horas, picava o ponto, vestia o blusão de sarja, se fosse verão, o de fazenda, se fosse inverno, pegava no maço de cigarros e despedia-se. Espreitava por cima dos biombos azuis. Abanava a cabeça ao passar pelas secretárias dos colegas mais novos, quase todos contratados a prazo ou a recibos verdes. O Abílio lamenta profundamente a precariedade dos outros e é sindicalizado.

Mas, agora, desde que se apaixonou, já não sai às quatro horas. Fica até mais tarde. Sai por volta das seis. Quanto mais tarde sair, mais cigarros fuma na companhia da mulher de cabelo curto. No beco dos funcionários, nas traseiras da rua mais feia da cidade, o Abílio olha a colega e fala-lhe com o embaraço próprio dos apaixonados. Continua a fumar devagar. Encontra beleza no entardecer.

(Desde a quarta classe que tenho fascínio pelo sistema respiratório, sobretudo, pelos alvéolos pulmonares. Imaginava-os, na altura, como os cachos de uvas de vidro que a Cila, minha madrinha, tinha por cima da mesa da sala de jantar. Translúcidos, semi-preciosos, feitos de feldspato.)

2010/11/28

2010/11/15

Sapo

Entrei numa pequena loja de brinquedos didácticos por causa de um enorme globo que estava na montra. Ofuscava o resto das brincadeiras. Gigante, colorido, confortável; os mares, os oceanos, os continentes, toda a superfície terrestre – litosfera, hidrosfera - muito fofa, costurada em feltro de cores vibrantes. Quis o globo para o quarto do meu filho mais novo. O pobre herdou as sobras dos irmãos mais velhos, tem um quarto de refugo, sem grande gosto ou harmonia, um berço branco do ikea, uma cómoda de pinho, uma estante de faia desengonçada. Achei que o globo resgatava o meu desleixo decorativo para com o quarto do Joaquim. A bola mundo estava coberta de figuras pequeninas. Representavam os povos de todo o mundo, índios, muçulmanos, negros, esquimós, todos com corpo de feltro e uma fitinha de velcro nas costas para os meninos se entreterem a fazer corresponder os povos com os continentes. O objectivo do brinquedo era ensinar a paz, a harmonia, o respeito pela diferença.

A dona da loja (percebia-se pela modo como se vestia e pelo entusiasmo que punha nas explicações) era uma simpatia. Falou dos brinquedos que vendia. Madeiras coloridas, marionetas, jogos, lápis de cera gordos, puzles, bonecas que pano, nem um corpo de plástico se assomava naquele mundo maravilhoso de imaginação e criatividade, tinha tudo o que era necessário para estimular e motivar as crianças; os seus brinquedos despoletavam milhões de sinapses nas cabecinhas dos meninos. Torceu o nariz às grandes superfícies, aos corredores de brinquedos, aos plastificados cancerígenos das lojas chinesas. Eu calada, muito calada, sorrindo, que ando uma lástima, não me posso enervar, a lembrar-me do Joaquim a tratar dos nenucos da irmã, agarrado ao action man do mano João, a chamar-lhe senhor Zé, encantado com os a pistola que lhe comprei no hiperchina, a matar-me cada vez que me apanha na cozinha a descascar batatas.

A mulher disse-me o preço do globo terrestre. Arregalei-lhe os olhos e expliquei que ia pensar melhor no assunto, que é uma maneira cobarde de dizer nem penses que pago o que me pedes. A dona sorriu. Era muito simpática. Mas é que era mesmo. Preparei-me para sair. Reparei, então, que, atrás da porta de vidro, um enorme sapo de loiça me observava desconfiado. Espojado, viscoso, gordalhufo, fitava-me com olhos muito esbugalhados, ciente do papel fulcral que desempenhava no estabelecimento. Procurava o bicho perceber se a minha pele escura, os meus cabelos pretos, compridos, me incluíam em determinada categoria de indigentes. Ao passar, o horrendo bicho coaxou na sua linguagem batraquial qualquer coisa que me pareceu um mau-olhado. Levantei o pé, preparada para o pontapear. Mas o sapo fugiu, aos saltinhos, e foi prostrar-se no meio da montra, mesmo por baixo do globo de feltro. Fiquei a olhá-lo, estarrecida por a loja de brinquedos didácticos, a loja onde eu me preparava para comprar um globo para ensinar ao meu filho mais novo a paz entre os povos da terra, ter à entrada um sapo para escorraçar a ciganagem, esses malandros que não assimilam a decência da pobreza: compram playstations aos filhos e bolicaos com o rendimento mínimo social. Olhei a dona da loja pela última vez. Continuava a sorrir-me. Sempre a sorrir. Posso estar enganada, estou-o muitas vezes, mas tinha pinta de ser uma daquelas mães de esquerda – punha as mãos no fogo em como vota no bloco de esquerda - e tem os filhos, motivadíssimos, estimuladíssimos, espertíssimos, no colégio moderno.

2010/11/13

Outubro

Morri no princípio de Outubro. Enterraram-me num cemitério com vista para a auto-estrada do sul. Passei os primeiros dias entretida, inteirando-me da minha nova condição, descobrindo como é estar morta. Escutei o restolhar das folhas dos eucaliptos e pude fazê-lo durante longos minutos, concentrando-me apenas no ruído das copas, isolando-o do resto do mundo até se tornar insuportável. Vagueei por alamedas, paralelas e perpendiculares, olhando as campas, lendo inscrições, observando a estatuária: gárgulas, anjos, cristos lacrimosos, conchas de mãos piedosas. Cheirei as flores frescas das coroas fúnebres e desfiz com as minhas mãos invisíveis corolas frágeis. No princípio da noite, quando a escuridão era ainda clara, os portões do cemitério eram sempre fechados com estrondo. As mulheres vestidas de preto voltavam para os seus apartamentos de marquises de alumínio e sentavam-se sozinhas em frente do televisor.Uma quietude insuportável abatia-se sobre o lugar e eu voltava então ao meu corpo, deitado num caixão de cetim branco. Encaixava perfeitamente nele. Uma noite, porém, senti desconforto ao voltar a mim. O corpo inchara e eu sobrava dentro dele. Aninhei-me no canto esquerdo e procurei adormecer. Um reco-reco pequeno, um barulhinho persistente, fez-me despertar. Pensei que fossem térmitas alimentando-se do pinho do caixão. Abri os olhos. Vi duas lagartas gordas, brancas, cegas, sorrindo-me. Uma das lagartas tinha boca de ventosa e mordiscava a ponta esquerda do meu coração. Enervei-me. Não vivo sem corpo. Mesmo morta, preciso dele. Não encontro conforto na imaterialidade, só compreendo o que é concreto, comum, palpável. Enxotei as lagartas que fugiram como toupeiras. Decidi partir. Tentei ressuscitar que é a única maneira que conheço de largar a morte. Não consegui. É muito difícil. É preciso ser deus, filho de deus, parente de deus, amigo de deus, para o conseguir. Na manhã seguinte, estava eu entretida a observar o namoro de dois pardais, vi chegar pela alameda os meus três filhos. Não traziam flores. Vinham com olhos líquidos de abandono. Nessa noite, deitei-me nas ruínas do meu corpo, era já só ossos, os malares cavados, a carne ressequida. Ventava na arcada das costelas e o ruído desse vento perpétuo não me deixou adormecer. A morte pesou-me mais do que a vida.

2010/10/24

PCP

O pcp, em cartazes que por aí andam espalhados, reclama ser a esquerda patriótica. Estranhei. As palavras, como as pessoas, também se catalogam, colam-se a realidades, têm um passado, uma história. Há palavras da direita e palavras da esquerda. Toda a gente sabe que a palavra pátria pertence à direita saudosista, nacionalista, aos salazaristas que levam coroas de crisântemos e gerberas a Santa Comba Dão. Nem o PP usa a palavra pátria nas suas campanhas.Qualquer pessoa associa a palavra pátria aos manuais escolares do antigo regime. É a nossa mãe protectora. Dócil, humilde, casta. É a pátria do império, dos heróis, dos santos, do povo obediente, da ordem, do senhor presidente do conselho e da governanta. Não há outra pátria. Que o pcp se assuma como esquerda patriótica (aquela que ama a pátria) é coisa bizarra. Sei que os entendidos explicam que o pcp sempre foi um partido patriótico, mas a utilização daquela expressão, apelando a um imaginário que, à primeira vista, é precisamente o oposto do do pcp, tem um propósito claro. A esquerda patriótica do pcp é como a fé debochada da Dilma Rousseff, a marioneta polida pelo Lula.Serve para conseguir votos, mesmo que seja à custa dos ideais que sempre defenderam.

2010/10/21

Domingo (2)

Quando o marido alterou os seus procedimentos, passando a procurá-la apenas nas noites de domingo, Odete aborreceu-se. Agradecia o sexo agendado, era ao domingo, sempre ao domingo, mas não suportava que os lençóis mudados ao sábado, imaculados, cheirando tão bem, a sabão de marselha, a aloé vera, a flores orientais, se sujassem no dia seguinte. Era o suor, eram os derrames ocasionais de esperma, era o cheiro animal de corpos, coxas, nádegas, o pénis do marido, a sua vagina nua, esfregando-se no tecido dos lençóis! Na noite seguinte, à segunda, deitava-se e sentia que não se deitava na sua cama. Era uma enxerga imunda. Um catre de asilo que roda de dono todas as noites. Um dia, puxando a roupa para trás, encontrou mesmo dois pelos púbicos do marido, muito pretos, encaracolados, aninhados em espiral como vermes. Analisou o problema. Percebeu que havia apenas uma solução: deixaria de mudar a roupa da cama ao sábado, passaria a fazê-lo à segunda-feira. Fazia-o, porém, com sacrifício. Sendo um dia de semana, a segunda-feira não lhe deixava muito tempo livre. Na altura, ainda os filhos eram pequenos, desde que entrava em casa até à hora do jantar, andava num corrupio: vigiava os trabalhos de casa, fazia o jantar, preparava as marmitas para o colégio, varria quartos, corredores, a sala, limpava as casas de banho, tratava da roupa. Por mais que tentasse, e tentou-o várias vezes, não conseguia desempenhar aquela tarefa antes do jantar. A mudança da roupa da cama ficava sempre para depois. Apressava a limpeza da cozinha, muitas vezes, não tinha sequer tempo para arear os bicos do fogão. Deixava a loiça a secar em cima do balcão e corria para o quarto. Perdia quase sempre o início da telenovela. O marido a chamá-la, Odete, anda, já está a dar a novela, ela no quarto a esticar lençóis, a enfiar o bico de pato nos cantos da cama, a zelar pela higiene do lar. Mas o sacrifício valia bem a pena! Aos domingos, o marido passou a sujar o que já estava sujo. Podia esfregar o corpo nos lençóis, soltar líquidos, impar, guinchar, cuspir se quisesse, podia esvair-se em sangue, derramar as entranhas, soltar mucos, esvaziar os testículos! Ela não se importava. No dia seguinte, mudava os lençóis, aspirava com o bico de pato os bichos que comiam pó, adormecia numa cama limpa. Na verdade, nas noites de domingo, nas tais noites que se tornaram ruma rotina inalterável, já lá vão tantos anos, o que menos custa a Odete é o sexo propriamente dito. O sexo é uma obrigação que cumpre como outra qualquer. Num instantinho a vida passou e uma mulher acostuma-se a tudo. Não sente dor. Não sente tristeza. Não sente nada. Não a aborrece o sexo que se pratica com hora marcada, muito pelo contrário, só tem a agradecer ao marido ter tornado o sexo numa rotina. Poupou-a à imprevisibilidade da coisa, evita-lhe a ansiedade, a angústia da incerteza. É ao domingo, sempre ao domingo. Ficaram os restantes dias da semana libertos, pode dormir descansada, adormecer em sossego: o sono não será interrompido para o cumprimento das obrigações conjugais.

Domingo (1)

Se pudesse, trocaria de imediato os lençóis da cama, porém o marido adormece rapidamente nas noites de domingo. É o tempo de ir à casa de banho lavar-se. Na volta, encontra-o sempre a dormir, ressonando baixinho, a culpa e a vergonha fugindo-lhe pela boca e pelo nariz, ficam os lençóis reféns daquele corpo, presos às suas carnes, com o cheiro da noite entranhado. Por causa dos lençóis Odete alterou a sua agenda doméstica. Nos primeiros tempos de casada, quando a prática dominical ainda não estava instituída - o marido tanto a procurava na cama ao domingo, como à quarta-feira, como à quinta-feira, montava-a sem agendamento prévio, em qualquer altura da semana, às vezes, duas noites seguidas, causando-lhe sobressalto, mialgias várias -, trocava a roupa da cama ao sábado de manhã. Gostava daquela tarefa doméstica mais do que qualquer outra. Encarava-a com um zelo especial. Começava por colocar os cobertores a arejar no parapeito da janela durante toda a manhã. Aspirava o colchão com cuidado, enfiando o bico de pato em todas as ranhuras e frestas da cama, expurgando assim o leito conjugal dos bichos que se alimentam do pó. Fazia a cama com movimentos vigorosos e precisos; os lençóis eram abertos com um gesto largo, sacudidos com rapidez, às vezes estalavam, ficava aquela brancura enfunada, a planar por instantes sobre o colchão. Esticava depois os lençóis muito bem, até não se ver um vinco, um engelho, uma ruga. Fazia pequenos nós nas extremidades do lençol de baixo para não se soltar. Tal técnica, sabia-o bem, trazia certas desvantagens: esgaçavam-se as fibras dos cantos do lençol e a engomagem tornava-se mais difícil, tinha de borrifar o tecido, encharcá-lo várias vezes até desaparecerem os vincos. Odete não se importava. Os nós asseguravam uma semana descansada, sem lençóis fugitivos. Depois, entalava bem os cobertores e fazia uma dobra perfeita com o lençol de cima, nem muito grande, nem muito pequena, o quadrilé bordado a ponto de cruz ficava sempre simetricamente colocado ao meio. Estendia, por fim, a colcha, dispunha os almofadões de folhos, olhava para a cama no meio do quarto limpo, o sol da manhã entrando pelas janelas abertas. Experimentava um momento de deleite e conforto.

2010/10/16

Domingo

Está acostumada às noites de domingo. Já nada lhe custa nas noites de domingo. As noites de domingo são previsíveis como os almoços de feijoada ao sábado. Desenrolam-se sempre da mesma maneira, nunca trazem surpresas ou sobressaltos. Só lhe custa, nas noites de domingo, certa falta de asseio. Não é que o marido não seja um homem limpo. Pelo contrário, os cuidados de higiene fazem parte da disciplina que julga essencial para se viver com decência. O marido exerce as rotinas com método e precisão. Toma sempre banho depois do pequeno-almoço. Escova os dentes durante um minuto. Muda de meias, cuecas e camisa todos os dias. Apara frequentemente os pêlos das narinas e das orelhas com uma tesourinha retorcida que guarda num estojo de couro. Vai ao barbeiro uma vez por mês cortar o cabelo. Usa a piaçaba para limpar a sanita. Nunca se esquece de puxar o autoclismo. Corta as unhas das mãos e dos pés com regularidade sem as deixar espalhadas pelo chão do quarto. Odete sabe que teve sorte com o companheiro que a vida escolheu para si. É trabalhador, cumpridor, reservado, bom pai, bom marido, muito poupado, trata da declaração anual de rendimentos e oferece-lhe um ramo de cravos no dia da mulher. Porém, quando, nas noites de domingo, se transforma noutro homem e exerce a sua prerrogativa conjugal, agarrando-a com brusquidão, abrindo-lhe as pernas, enterrando-se dentro dela, exigindo o que é seu por direito, traz entranhados no corpo os cheiros que se acumularam ao longo do dia: fezes, suor, urina, a aguardente que bebe depois do jantar, o tabaco que fuma enquanto vê o domingo desportivo, às vezes, até o cheiro gorduroso do peixe frito que comeu ao jantar. É essa mistura de cheiros, individualmente suportáveis, que a deixa um pouco nauseada. O marido, é assim que pensa Odete, podia fazer um esforço para a agradar. Tudo seria diferente se, nas noites de domingo, antes de vir ter com ela, se lavasse no bidé e passasse uma esponja por baixo dos braços. Não lhe custava nada. Perdia um minuto. Se fosse um homem romântico, podia até borrifar-se com um bocadinho da água-de-colónia que os filhos lhe ofereceram pelo aniversário.

Mas pior do que os cheiros que o marido traz no corpo são os líquidos que segrega e, no momento oportuno, liberta. Por mais que lhe recomende atenção, já lá vão tantos anos, precipita-se muitas vezes a soltar o pénis da sua vagina. O marido, nos breves momentos que se seguem ao orgasmo, antes de vestir de novo o seu corpo, a sua vida, a respeitabilidade e o bom senso, viaja até um mundo de desnorte e indisciplina. Ainda atordoado, zonzo de prazer, os olhos revirando em espirais frenéticas, parece não a escutar. Apesar dos gritos aflitos de Odete – Cuidado, filho! Olha que sujas os lençóis!- , respinga muitas vezes gotas leitosas de esperma para cima da roupa da cama. Quando isso acontece, e acontece muitas vezes, Odete pega num toalhete perfumado, tem-nos sempre à mão numa caixinha de plástica em cima da mesa-de-cabeceira, e esfrega o exacto local que o marido sujou.

2010/10/11

Justine

Recordo. Encontrei, certa vez, uma sem-abrigo que lera o Quarteto de Alexandria. Muito magra, de cabelo crespo, baço, tinha os dentes podres da heroína consumida durante de muitos anos. Na altura, tive a tentação de escrever sobre aquela mulher que dormia na rua, mas tinha um passado de leituras, interesses, sonhos. Recordo com precisão o seu aparecimento: o restaurante argentino, as sobremesas montadas com aparato em pratos de faiança colorida, quatro mulheres desconhecidas falando das suas sessões de psicoterapia, o empregado servindo copinhos de licor de rosas, eu, farta de ali estar, a pensar nos meus filhos, na falta que me fazem, a fazer um esforço para articular palavras, para mostrar interesse naquilo tudo. Foi então que uma mulher se aproximou da nossa mesa e ofereceu a revista cais. Notando o livro que tirei da mala para alcançar o porta-moedas, a mulher explicou que lera há muitos anos o romance de Lawrence Durrel. Confessou que, dos quatro livros, gostara mais, muito mais, do primeiro, Justine. Os olhos brilharam-lhe com saudade de um passado há muito esquecido. Percebi, naquele instante, que aquela mulher era a protagonista da noite. Nós, as quatro desconhecidas, que dissecávamos relações e beberricávamos copinhos de licor, éramos meras figurantes. Tínhamos tudo – problemas, angústias, sofrimento, também - mas faltava-nos densidade dramática. Senti-me inexistente ao lado daquela mulher. Nunca fui capaz de escrever sobre ela. Não sei explicar bem porquê. Senti que se o fizesse estaria a retirar-lhe a dignidade que lhe restava, a comer-lhe a sua individualidade, a reduzi-la a uma categoria, a um estereótipo. Isso pareceu-me monstruoso.

Onésimo

O Onésimo Teotónio Almeida encontrou, em São Miguel, um gasolineiro que lê Guimarães Rosa, Saramago, Eduardo Lourenço, outros que não recordo. Teve uma epifania tal que correu a escrever duas páginas sobre o assunto na revista Ler. Pouco mais faz do que elencar as obras que o gasolineiro de S. Miguel leu. É uma lista longa que tem tanto interesse como a lista que faço antes de ir às compras. Farinha, pensos higiénicos, leite, iogurtes, toalhetes, fraldas. Não me espanta que o gasolineiro, com a quarta classe ou coisa que o valha, leia o Guimarães Rosa. Assim como não me espanta que outros, com elevados conhecimentos, cargos digníssimos, nunca o tenham lido. O que me espanta é que o Onésimo Teotónio Almeida, com tanto saber, tantos graus, cátedras, tantos livros lidos, escreva um texto tão mau sobre alguém que é mais do que a lista dos livros que leu.

2010/10/09

Malick Sidibe


Lobo

Carla rodava no átrio da escola secundária, mal pousando os pés no chão encerado, evitando o ruído, escondendo-se atrás dos placares de informações da secretaria para não chamar a atenção. Comia pacotinhos de bolachas de água e sal nos intervalos. Parecia um esquilo. Não havia rapariga mais feia no liceu. Nem os olhos claros a salvavam. Era, por outro lado, desinteressante, muito aborrecida, chata. Tal carácter acentuava-lhe a feiura, tornando-a grotesca. Gostava de bordar a ponto cruz e encontrava conforto na aprendizagem da culinária. Certo dia, do nada, assim como que a querer meter conversa, explicou que sabia fazer rissóis, esclarecendo que o segredo estava na massa cozida e não no recheio. Ninguém lhe ligou. Ela lambeu os beiços e foi esconder-se atrás de um vaso a comer bolachas de água e sal.

Vestia fatos de treino de algodão. Sonhava soltar o seu primeiro beijo ao som das canções do Glen Medeiros. Miudinha, a voz fanhosa, muito irritante, fazia estremecer a alma mais bondosa. Quando falava, havia uma produção excessiva de saliva que se acumulava nos cantos da boca. Ficava aquela babugem de cuspo pairando ali, humedecendo-lhe os cantos, evitando as fissuras do cieiro. Carla aplicava-se no estudo com afinco, lia muito, fazia resumos que sublinhava com marcadores fluorescentes de várias cores. Até aí falhava. Nunca conseguiu ir além da mediania. Era fraca em quase todas as disciplinas, menos nas línguas estrangeiras, onde era assim-assim. Tinha um irmão efeminado, um ano mais velho, que dava ao rabinho escola fora. Chamavam-lhe Repolho, porventura por causa do tom esverdeado que, em dias de chuva, a pele do seu rosto tomava. Era uma cruz que Carla carregava contrariada.

Passaram exactamente vinte anos. Não voltei a vê-la. Soube que seguiu a sua fraca vocação. Tirou um curso de línguas. Ontem, encontrei-a na rua onde trabalho, a rua mais feia de Lisboa. Borriscava e a Carla passeava de mãos dadas com um marido muito magrinho, precocemente envelhecido. Atravessaram a rua perto do novo restaurante japonês que tem um letreiro cor-de-laranja torrado. Bufete de almoço a nove euros e cinquenta, incluindo café, uma bebida, sobremesa, e a Carla, à chuva, olhando com amor, tanto amor, o seu companheiro. Vestia um casaquinho de malha azul-escuro e calças vermelhas. Trazia um colar de contas, vermelho coral, rente ao pescoço. O colarzinho, de bom gosto, dava-lhe um certo sainete e, estranhamente, tornava a minha rua menos feia. Deve ter usado aparelho nos dentes. Nos tempos do liceu, os caninos encavalitados não a deixavam fechar a boca. Agora, sorri, confiante. Mostra uma fileira de dentes certinhos, grandes, brancos. Apesar do colarzinho e da dentadura nova, continua feia, com as ancas muito largas, obscenas e maternais. Parece feliz.

(Como sempre acontece, a inveja galgou sobre mim. Tornou-me num bicho de dentes aguçados, num lobo das estepes, faminto, passeando na rua mais feia da cidade. Olhei a Carla e quis ferrar-lhe os dentes, apossar-me do seu corpo, da sua vida, do seu marido de rosto esquálido e dedos amarelos de nicotina.)

2010/10/06

Mambo

El Sistema

No início do ano, passou no segundo canal um documentário sobre o sistema nacional de orquestras na Venezuela. El Sistema, como lhe chamam os venezuelanos, é a concretização do sonho de José António Abreu, economista e pianista amador, que, através do ensino da música clássica, criou um projecto único de inclusão social. Existem na Venezuela cerca de 125 orquestras juvenis que integram cerca de 250 mil crianças e jovens. A maior parte destas crianças vem de famílias pobres e muito pobres. No documentário, acompanhamos a história de Raul. Vive com a mãe, numa torre clandestina, de tijolos, cimento e grades, na periferia de Caracas. Levanta-se às seis e meia da manhã para comer tortilhas caseiras que a mãe lhe prepara. Raul vai à escola de manhã. Passa as tardes numa orquestra juvenil a tocar trompete. Fá-lo com uma alegria contagiante.

Tem um amigo gordo, caboclo de cabelo lustrado, que toca tuba. Tem uma amiga desdentada, de totós floridos, que toca flauta. O maestro é um jovem mulato, muito bonito, que anda de mota e cresceu num orfanato. As orquestras juvenis da Venezuela, criadas na década de 70, são um mecanismo precioso de integração. No documentário, José António Abreu explica que o sucesso, em parte, se explica pela miséria em que a maior parte dos alunos vive. A miséria traz-lhes abnegação, disciplina, força. Os meninos venezuelanos vêem nas orquestras do seu bairro, na aprendizagem da música clássica, uma maneira de se salvarem do gueto. Ao contrário, as crianças dos países desenvolvidos, as nossas, experimentam o tédio do excesso. Vivem na triste miséria da abundância. Se lhes derem um clarinete ou uma trompa olham com desprezo e correm para o facebook onde inventam, para si, uma vida de alegrias breves e amigos virtuais.

Não percebo um corno de música clássica. Gosto das tocatas de Bach, pouco mais. Porém, quando vejo as imagens do Gustavo Dudamel, o mais célebre aluno do sistema de orquestras venezuelanas, com os caracóis aos cachos, sorridente, dirigindo uma orquestra de brancos, negros, mestiços, fico arrepiada. Mais encantada fico quando, no fim dos concertos, a música clássica dá lugar aos ritmos populares caribenhos e os músicos se levantam para dançar. Os meninos do público, Raul e o seu amigo gordo, aplaudem. Gustavo Dudamel canta e dança. É maravilhoso. Há dois anos que tendo comprar um bilhete para o ver. Há dois anos que sou excluída do circuito feroz dos melómanos que açambarcam tudo. O próximo concerto é em finais de Janeiro na Gulbenkian. Os bilhetes estão esgotados há muito tempo. Vai a Gulbenkian encher-se de empalados para o ouvir. Os empalados, para quem não sabe, são aquelas pessoas que têm um pau enfiado pelo cu acima e se movimentam, muito sérios, muito direitos, digníssimos, sorrindo aqui e ali, pelos corredores dos teatros e auditórios. Em todo caso, se algum empalado - impossibilitado de ir ao concerto ou apertadinho com a crise instalada - quiser, mediante preço a acordar, dispensar-me um bilhete, eu aceito.

2010/10/05

Cemitério

Foi uma alegria quando o sexto esquerdo do prédio dos meus pais foi comprado. Finalmente, o último apartamento seria ocupado. Acabava, assim, o corrupio de potenciais compradores, gente que entrava e saia, examinando cada recanto, mexendo em tudo, olhando-nos, seus potenciais vizinhos, com a mesma frieza com que olhavam os mármores da entrada e os alumínios dos caixilhos. O prédio seria, por fim, poupado ao embaraço desses estranhos que pareciam fazer troça do nosso lar. Podia repousar na tranquila alegria de uma família completa. Logo se soube que o apartamento fora comprado por um casal de professores aposentados. Tinham apenas um filho que acabara há pouco tempo o curso de medicina. As características do novo agregado familiar agradaram a toda a gente. Num prédio de funcionários públicos, donas de casa, militares de pequena patente, retornados, um casal de professores proporcionava a decência escolástica que o exercício do professorado ainda gozava naquele tempo. Um jovem médico exerceria, por outro lado, uma boa influência nos miúdos que cresciam naquele bairro dos arrabaldes de Lisboa. Feita a mudança, o casal instalou-se. Os professores aposentados eram muito educados. Nunca estacionavam o carro no lugar dos vizinhos e traziam o patim da escada impecavelmente limpo. Já o filho, o jovem médico, logo na sua primeira aparição, provocou nos habitantes do prédio um desconforto miudinho. Era uma sensação estranha que não sabiam explicar. Parecia um bicho cocegando a pele.

Convidaram-me para escrever aqui durante o mês de Outubro. Nunca desperdiço a oportunidade de escrever. Convido-vos, estimados leitores, a ir espreitar o cemitério. Hão-de encontrar o resto do texto, bem como as respostas que dei a meia dúzia de perguntas. Durante o mês, haja tempo e inspiração, conto escrever mais qualquer coisita.

2010/09/27

Fausto


Brilhante

De vez em quando, muito de vez em quando, sou contagiada pelo entusiasmo vibrante dos críticos, dos jornalistas, dos analistas. Aconteceu-me com o Brillante Mendonza. No último DocLisboa, o cineasta filipino mereceu uma retrospectiva. Os entendidos teceram, na altura, elogios maravilhosos ao tarantino asiático. Chamaram a atenção para a beleza crua, para a coreografia da câmara, para a estética única. Não resisti e comprei bilhetes para a tal retrospectiva. Vi-me enfiada num fim de tarde no auditório da culturgest, com um entrapado sentado ao meu lado que procurava intelectualizar as imagens que passavam no ecrã. Era um filme assumidamente pornográfico, passado numa casa de massagens de Manila. Um homem triste, acossado pela vida, era besuntado por rapazes miseráveis, uns magrinhos, outros entroncados, que falavam sempre alegremente. O filme não tinha grande história e a alegria despreocupada dos massagistas, pareceu-me, sinal de insuportável resignação. A resignação é um meio adequado para calar o desespero. Detestei, pois, o filme e arrependi-me amargamente de desperdiçar o meu tempo livre, tão escasso, com aquele documentário. O homem ao meu lado, pelo contrário, quando as luzes se acenderam, virou-se para um amigo da fila de trás, também ele entrapado, e iniciou uma maravilhosa conversa sobre o maravilhoso filme que tinha acabado de ver. Na altura, irritei-me com as trivialidades que os dois entrapados diziam embevecidos um ao outro. Porém, agora, quando penso melhor no assunto, não tenho dúvidas de que o homem apreciou o filme. Gemeu ruidosamente - juro, por tudo o que há de mais sagrado, que é a mais pura das verdades - durante a exibição. Tenho certeza que fez um esforço enorme para controlar as erecções do pénis. A verdade é que no fundo, bem lá no fundo, todos gostamos de pornografia.

2010/09/21

Quarteto Alverquense

Apresso as rotinas matinais para não perder as conversas do quarteto alverquense. São quatro mulheres que viajam na primeira carruagem do comboio que vem de Castanheira do Ribatejo. Que seria de mim sem a animação dessas mulheres que apanham o comboio em Alverca e fazem a viagem até Entrecampos em amena cavaqueira, partilhando experiências, dando conselhos sobre a lide doméstica, roendo nas vizinhas, nas colegas de trabalho, comentando a factologia política e social?

A Maria Augusta é a deã do grupo. Tem uma neta a seu cargo a que chama menina. A menina isto, a menina aquilo, ai a minha menina, vai ela dizendo, como se a pobre criaturinha não tivesse nome. A voz sai-lhe da boca, estrondosa, aos borbotões. A Fátima é a mãe do Telmo Miguel e do Bruno. Os rapazes trabalham como seguranças num supermercado. A Fátima costuma gabar-se das tatuagens, dos piercings e da roupa de marca dos filhos. A Lurdes é a coquete. Loira, cheia de pulseiras de pechisbeque, tem um smart e já leu quatro vezes o livro da Carolina Salgado. Tais factos, o carro da moda e o gosto pela leitura, conferem-lhe certo ascendente sobre as outras. Bem vistas as coisas, é uma intelectual. A Carla, a mais nova do grupo, anda embevecida com a vida familiar. Fala constantemente do marido – o meu Rui, diz ela - e da filha. Bonita, de lábios carnudos, cheios, usa sombras prateadas, que parecem poeiras cósmicas e lhe dão um ar ligeiramente futurista. Um dia, voltava eu mais cedo para casa, apanhei a Carla no comboio da tarde com um homem. Era verão e o fresco da carruagem climatizada tornava a tarde menos penosa. A carruagem vinha deserta. A Carla sorria com os olhos ao homem e, nos silêncios, falava-lhe com o corpo todo. Naquela tarde, esqueceu o marido e a filha. Lembrou-se dela.

Conheço estas quatro mulheres há cerca de dois anos. Falam sempre ruidosamente, como se estivessem em cima de um palco. Projectam a voz para que as suas palavras se escutem de uma ponta a outra da carruagem. Esse protagonismo parece-lhes agradar. Nós, os restantes passageiros, somos um público assíduo e fiel. Hoje, depois de furar a multidão compacta - tive de empurrar a mulher da cicatriz coloidal no peito e pedir licença ao rapaz que lê sonetos numa língua cirílica - consegui instalar-me perto delas. Pus-me à escuta. A Fátima vinha aborrecida. Queixava-se da namorada do Telmo Miguel. A rapariga, pelos vistos, instalou-se lá em casa. Come, dorme, fornica e joga playstation. Chama-se Flávia. Não aborrece à Fátima que a namorada do filho durma lá em casa. Os tempos são outros e a decência é um luxo. Foi-se há muito. O que a chateia é que a rapariga não faça nada. Não levanta o prato depois de jantar. Nunca ajuda na lida da casa. Não tira sequer a loiça da máquina. Nunca lhe perguntou se quer ajuda para descascar batatas para o jantar. Desde Moscavide até Roma-Areeiro, a Fátima foi sempre a queixar-se da futura nora. Até que disse assim: “Olhem que ela nem sequer arranca os pensos higiénicos das cuecas. Sou eu que lhos tiro!”. O beicinho tremeu-lhe.

Fez-se um silêncio na carruagem. Por instantes breves, o tempo parou e os corpos dos passageiros cristalizaram. A própria Fátima se calou, tomando consciência do que dissera. A imagem da mulher, agachada sobre a tulha de roupa suja, num apartamento de Alverca, arrancando o penso encharcado de sangue menstrual das cuecas da Flávia, não comovia ninguém. Provocava, isso sim, uma náusea colectiva, de tal ordem intensa, tão profunda, arranhando as entranhas, que parecia tomar corpo, tornando-se numa massa plúmbea, fétida, visível. Nojo da Flávia, nojo do Telmo Miguel e da Fátima. Em Entrecampos, quando as portas da carruagem se abriram, todo aquele nojo escorreu para fora. A plataforma encheu-se de águas densas e castanhas, sujas de dejectos. Formaram-se pequenos charcos de putrefacção. Os passageiros tiveram de saltitar para não sujar os sapatos. Os pombos voaram para longe.

2010/09/19

Dalida



(adoro esta canção.)

Levitra

Há anúncios de televisão sobre disfunção eréctil. Um casal serôdio ronrona numa cama asséptica. A mulher alegra-se por poder finalmente ser penetrada pelo seu companheiro. No início do verão apareceram pela cidade uns cartazes gigantes sobre ejaculação precoce. As farmacêuticas gastam rios de dinheiro a desenvolver medicamentos que ajudem a erguer os falos moles, uns velhos, outros não, que por aí andam, acabrunhados, encolhidos e tristonhos. A Pfizer inventou o famoso Viagra e a Bayer o Levitra. As disfunções sexuais masculinas merecem a preocupação de muitos. Ainda bem. Desprezo os homens em geral mas não lhes quero mal. Estranho é que pouco se fale das disfunções sexuais femininas. Parece que não existem. Nem as próprias mulheres se preocupam com tal assunto. Para elas o sexo é sempre uma experiência maravilhosa, uma explosão de sensações espectaculares, onde o prazer lhes jorra do corpo, os orgasmos rebentam como petardos e boquinhas em flor, sensuais e jeitosinhas, soltam pequenos gemidos agradecidos. Ter sucesso na cama é requisito essencial para se ser moderna, desempoeirada, bem-sucedida. As mulheres falam de sexo como falam dos filhos, dos jantares de degustação em restaurantes da moda e das viagens que fazem às ilhas gregas. Tudo troféus que demonstram o bem-estar que atingiram na vida. Não há dor na penetração. Nunca há falta de desejo. Não há cansaço. Não há frustração. Não há obrigação. Nem humilhação. No sexo, como em tudo, as mulheres que aguentem.

2010/09/17

Christine

A mulher escancara uma boca vermelha na página 15 do Público, numa expressão caricatural que lhe alonga o rosto ao limite. Chama-se Cristine O´Donnel, é membro do Tea Party, admiradora da Sarah Palin e derrotou um congressista qualquer muito importante nas eleições primárias do Partido Republicano. O jornal explica, entre outras coisas, que a Christine tem a fundação de um grupo contra a masturbação no seu currículo de activista política. Ena, pensei eu, e recortei a notícia com a tesoura da cozinha.

2010/09/16

José

O meu avô materno chamava-se José. Apenas José. Não teve outro nome, apelido, alcunha, diminutivo, até se casar com a minha avó. Só se casou com ela quando a minha mãe veio estudar para a escola de enfermagem. A decência obrigou-o ao casamento. A filha que vinha estudar para Lisboa, resgatando a família da miséria do campo, merecia solidez familiar. A rapariga merecia a respeitabilidade que o casamento sempre traz.

A minha mãe e a tia Dé, lembro-me bem, tratavam-no muitas vezes por paizinho. Era impossível não gostar dele. Era um velho grande e desdentado. Aprendeu a ler sozinho, estudando nos manuais velhos das filhas, à luz pardacenta dos candeeiros de petróleo, exausto depois de um dia de trabalho. Um dia, elas chegaram de Lisboa e foram dar com ele, sentado na mesa da cozinha, junto das bilhas de água, muito concentrado, enchendo cadernos de folhas finas com uma caligrafia perfeita. Trovejava nessa tarde. As gotas, grossas, muito cheias, batiam nas vidraças da cozinha e transformavam-se nas letras cor de chuva que se soltavam do lápis de carvão do meu avô.

Gostava dos netos e nós gostávamos dele. Levava-nos muitas vezes a passear no campo. Se a aldeia já era um espaço único, uma rua inteirinha de casas rasteiras, para brincar em liberdade, cumprimentando as vizinhas, espreitando quintais, o campo aberto provocava em nós uma espécie de êxtase, sem fronteiras, sem limites, infindável como um deserto, misterioso como um labirinto. Atravessávamos a linha dos caminhos-de-ferro que marcava o fim da aldeia (era o fim e não se confundia com o princípio); subíamos ao monte do moinho, a aldeia ficava lá em baixo, muito pequenina, uma mancha indistinta, o depósito da água pairando como um óvni sobre sobreiros e azinheiras; caminhávamos por veredas e caminhos que só o meu avô conhecia, revelando-nos um mundo secreto e imaculado. Mexíamos nas folhas todas, nos bichos todos, cheirávamos cada flor, cada bolota. Foi num desses passeios, um passeio de Outono para apanhar cogumelos, que, sem saber, ao soltar a sua gargalhada desdentada, o meu avô mostrou que a felicidade não precisa de grande sofisticação. De nenhuma.

O meu avô tinha um porte distinto apesar de ser um simples carpinteiro de aldeia. Nunca foi ao cinema, nem ao teatro. Nunca leu um jornal. Entretinha-se a tomar conta da horta e das capoeiras. Gostava de jogar às cartas na taberna. Era um homem amável e bondoso e, do muito que recordo, toda a gente gostava dele. Só a minha avó parecia não o achar merecedor de tanto afecto. Isso incomodava-me. Tratava-o com ressentimento. Era brusca. Biliosa. Faiscava-lhe os olhos pequeninos. Cumpria as suas obrigações conjugais: tratava-lhe da roupa, dava-lhe almoço e jantar, mantinha a casa asseada, o chão encerado, a cozinha limpa, andorinhas de plástico esvoaçando no corredor. Fazia-lhe até migas para o lanche, enrolando num fio de gordura o pão duro, tornando, com paciência, os pedacinhos numa massa homogénea, dourada e perfumada. Tratava do meu avô, é certo, mas era por obrigação, revoltada com qualquer coisa que lhe pesava no corpo e que nunca contou. Atirava-lhe o prato das migas para a frente como se fosse um cão. Ele sentava-se à mesa e comia em silêncio, moendo para dentro, porventura, culpas e remorsos. Eu observava o desdém da minha avó e não encontrava justificações para aquele comportamento. Achava-a medonha, má. Era uma velha, mas parecia um lacrau. Se se olhasse com atenção, e eu olhava-a!, podia-se ver as garras que lhe saiam da boca. Os olhos não enganavam ninguém. Eram olhos de lacrau.

Até que o meu avô morreu. Durante o funeral, reparei que a minha avó o chorou, amparada nos braços da prima Laura, desesperada. Lembro-me de lhe estranhar a reacção. Se não gostava dele, e tudo nela mostrava um ódio latente, reprimido, por que o chorava, por que não sorria de alívio? Durante muito tempo achei que a minha avó só chorou a morte do meu avô por obrigação, encenando dor e tristeza no cortejo fúnebre. Como no resto, como toda a gente, ela limitava-se a cumprir o seu papel de esposa amantíssima, ensaiando os gestos que dela se esperavam.

Depois da morte do meu avô, passou a vestir-se de preto, sapatos, meios, bata, lenço, cada vez se parecendo mais com um insecto gigante. Deixou, contudo, de parecer um lacrau. Parecia uma borboletinha negra, desamparada, frágil, sempre à janela, sempre só. Passou a falar muitas vezes do meu avô. Com saudade. Convenço-me, cada vez mais, da genuidade dos seus sentimentos. Acho que a minha avó só passou a amar o meu avô depois da morte. É muito fácil amar um morto. Um morto nunca nos magoa, nunca nos bate, jamais nos desilude.

2010/09/11

A vendedora de figos

Na rua mais feia da cidade, na sombra cor de ferrugem de um castanheiro das índias, uma velhinha vende figos. Trá-los num alguidar cor-de-rosa forrado com folhas perfumadas de figueira. A velhinha, quieta com o seu alguidar de figos, no ramerrame da rua mais feia da cidade, é uma imagem de inesperada beleza. Provoca a quem por ali passa, a princípio, estranheza, depois, curiosidade, por fim, conforto. Aproximo-me. Espreito para dentro do alguidar. Os figos maduros parecem passarinhos com lágrimas de doçura, escorrendo-lhes do bico. Peço-lhe um quilo e esclareço que não quero figos amassados. A proximidade mostra-me as feições da velhinha. Tem um rosto quadrangular, de nariz largo, bochechas caídas, lábios finos. Devia ser feia em nova. A velhice amaciou-lhe a feiura, a masculinidade dos traços, porém, mantém-se. Tem olhos tristes. Veste uma bata de flores, os pés de dedos encavalitados repousam, inchados, numas sandálias ortopédicas. Começa a tirar os meus figos para um saco. Escolhe-os com vagar, pegando-lhes com mestria, ensaiando com as mãos uma dança de movimentos precisos. As suas mãos parecem as de um mágico. Sabem como se movimentam as mãos dos mágicos, separando os dedos, rodando no vazio, parecendo não tocar os objectos? As mãos da velhinha são assim. Soubesse eu pintar e pintá-la-ia com pinceladas largas de cores intensas.

A velhinha porém não dá conta da sua singularidade e, sobretudo, não percebe a perfeição que o silêncio proporciona. Fala. Queixa-se de três ciganas que descansam ali perto. Olho-as. Também elas aproveitaram a sombra do castanheiro das índias para repousar da sua jornada de mendicidade. A velhinha conta que, desde que ali se instalou, as mulheres ciganas não a largam. Rondam o alguidar dos figos, com olhares gulosos, agitam o copo de plástico, pronunciam sempre as mesmas palavras: fome, filhos, deus. Olham as moedas que guarda no bolso da bata. As ciganas parecem hienas, querem rilhar-lhe os ossos, comer-lhe a carne dura, velha e seca. Escuto-a em silêncio. Contrariada. Não quero saber das ciganas, vestidas de trapos, lenços à cabeça, uma carapaça de sujidade na planta dos pés descalços. Não quero saber das ciganas, manchadas de miséria que arreganham as suas bocas hediondas de dentes podres e carregam crianças de colo que choram a sua solidão. Quero levar para casa apenas a imagem dela, da velhinha com o seu alguidar de figos, perfumando a rua mais feia da cidade.

(Quando, pela tardinha, cheguei a casa, coloquei o saco dos figos em cima da balança. Não por desconfiança. O prato da balança pareceu-me apenas um sítio seguro para proteger os figos do Joaquim que insiste em tocar tudo o que é desconhecido. Foi, então, que percebi que a velhinha dos figos me roubou. Descaradamente, enquanto se queixava das ciganas, das malandras das ciganas, é tudo uma ladroagem, dizia ela, entregou-me apenas oitocentos gramas de figos. Roubou-me a velhinha, a puta da velha.)

JL

Nunca compro o JL. Aborrece-me. Dedico a minha embirração mensal à revista Ler e aos textos de alguns dos seus cronistas. Esta manhã, porém, quando vi o JL pendurado por baixo da fiada dos jornais desportivos, não lhe resisti. Será, não duvido, interessante o artigo sobre a Clarice Lispector e reveladora a entrevista da ministra, sorridente, educada, disponível. Sempre enrolada nos seus lenços de cachemira. No entanto, foi a fotografia do José Eduardo Agualusa, na capa, que me levou a comprar o JL. A pose, vê-se, é ensaiada. O olhar é deliberadamente duro. Revela certo desdém. Os braços cruzados, tensos, grossos, mostram que a literatura é uma opção. Se quisesse poderia dar um pontapé nos romances e explorar o corpo. Trabalhar nas obras. Acarretar baldes de cimento. Assentar tijolo. Encontrar poesia nos andaimes e nas gruas. Qualquer coisa do tipo. Só deus sabe o quanto me embaraça fazer o papel da trintona desiludida, que se entusiasma com o que não existe. Antes o papel da suicida crónica. O desespero da tristeza pelo menos é um sentimento selecto. Exige sofisticação. Não é para todos. Já a felicidade é um sentimento pobre. Tem mesmo, parece-me, qualquer coisa de ordinário. Está ao alcance de toda a gente. Toda a gente é bestialmente feliz. Toda a gente vive num anúncio de telemóvel. Não conheço gente infeliz. Enfim, como dizia, aborrece-me ser um estereótipo de estafada banalidade, mas tenho de reconhecer aquilo que é óbvio: o José Eduardo Agualusa é giro que se farta. Até a minha frigidez, inquilina do meu corpo há tanto tempo, já bolorenta, bafienta, se encolhe quando o homem aparece. Uma mulher quer estar deprimida, deixar-se engolir pelo desespero, ser levada pela soturnidade - inesperada, mas bonita – deste Outono precoce, e não consegue…

2010/09/05

Ceuta

Cheguei com o propósito de engolir todos os comprimidos que a minha mãe guarda no armário dos medicamentos. Escrevi até a nota de despedida. Tão tola e desesperada. Começa assim, Ele disse outra vez que não sai de casa. Quando lhe peço para o fazer, ele deita-se no sofá, de comando na mão e diz não ter paciência para os meus devaneios. Sou a louca, a instável, a marginal, aquela que não é capaz de enterrar os seus sentimento em prol da felicidade conjugal, da harmonia familiar. Depois de escrever a nota, ri-me dela e deambulei pelo apartamento dos meus pais. Sou tão feliz aqui. Chorei ao olhar as fotografias dos meus filhos: João, Madalena, Joaquim. Depois, soluçando sempre muito, preparei o meu túmulo. Fechei os estores do quarto dos meus pais e pensei Quero morrer na cama deles, o lugar mais confortável do mundo, na cama de pau preto, que veio de Moçambique, num contentor.. . Fiquei no escuro, com a minha dose letal na mão, olhando o relógio electrónico e lembrado os comprimidos para impotência sexual, encontrados, era eu tão pequena, na gaveta da cómoda, mesmo por baixo da roupa interior do meu pai. Amo o meu pai como se fosse uma mendiga. Peço-lhe amor como se pede uma esmola. É um modo tão errado de amar alguém. Andei pelo apartamento, como num labirinto, apalpando paredes, cheirando tecidos, olhando as minhas fotografias de criança, tão bonita, morena, de sorriso transparente, a minha mãe, muito magra e esguia, amparando-me na Lagoa de Santo André. O futura à minha espera. Gosto do Alentejo e das minhas velhas de lenço na cabeça. Estive nisto, revisitando a minha vida, os meus fracassos, os meus amores, para dela me despedir, quando dei de caras, na vitrina iluminada da cozinha, com o serviço de café que a minha mãe comprou em Ceuta. Seis chávenas de loiça ordinária. Não têm selo, nem carimbo de fábrica. Mas são de um azul nocturno, muito intenso e fresco. São tão bonitas. Amo-as, mais do que a muitas pessoas, desde os meus treze anos. Imaginei até uma história – chama-se Quinta-Feira- sobre estes serviço de café. Decido ficar. Não pelos meus filhos, nem pelos meus pais, nem pela vida, tão linda e insuportável, mas pelo serviço de café que a minha mãe trouxe de Ceuta.

2010/09/04

Léna

Chorei do princípio ao fim. Nunca poupei os meus filhos ao meu sofrimento. Partilho com eles, para horror de muitos, a solidão e a angústia.

Fissura Anal

É cedo. O sol espalha sobre a estação uma claridade da cor da clara do ovo. Duas mulheres conversam. A mais velha, uma negra cheia de pulseiras que chocalham, explica as razões do mau feitio do seu marido. A voz delicada e as unhas pintadas de rosa chá dão-lhe um ar cuidado, quase requintado. Sabes, é que lhe custa muito evacuar, diz, referindo-se ao marido. A outra mulher, magra, tisnada do sol, um pouco ordinária no seu macacão lilás de malha de algodão, ligeiramente borbotado, escuta-a em silêncio. Não é fácil, logo pela manhã, apanhar com confidências daquelas. Os padecimentos do canal anal, as ralações obstipantes, a incapacidade de relaxamento do esfíncter alheio, são assuntos melindrosos. Revelam a nossa natureza mais primitiva. São assuntos que, a todo o custo, se devem evitar em conversas sociais. Mas a negra é muito segura de si própria. O tema não a embaraça. Depois grita comigo. Não imaginas a gritaria de ontem só porque lhe disse para por vaselina antes de ir à casa de banho. Chamou-me tudo. E continua por aí fora, desvalorizando o mau feitio do marido, as injúrias, os palavrões, o rosto carregado e furibundo. Está nisto muito tempo. Elenca as características das fezes do marido com uma lucidez médica, de escatologista experiente, encartada. São fezes duras, empedernidas, de cor baça por estarem tanto tempo na ampola rectal. A mulher branca vai concordando com a cabeça. Eu sei como é…Também tive hemorróidas quando a minha filha nasceu, atreve-se, por fim, a dizer com um fiozinho de voz. A negra das pulseiras fuzila-a com os olhos. Por breves instantes, perde a compostura. Não lhe admite tal comparação. Ele não tem hemorróidas. O que ele tem, coitado, é uma fissura anal crónica. Olha para a outra com superioridade e dá uma gargalhadinha forçada, agradecida por o marido a poupar ao constrangimento daquela palavra. Uma fissura anal é um padecimento razoável, uma justificação boa para o desprezo que o marido lhe dedica, para o fracasso da sua vida conjugal.