(Os meus pais reencontram-se sábado, em Goa. Esta é uma das canções da minha infância.)
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2014/12/04
2014/12/02
2014/11/26
2014/11/06
2014/11/03
Luz
Não tenho vontade de escrever. Desconfio mesmo que já não sei escrever. Desaprendi. Salto valados durante a noite, encontro apóstatas e duendes, limpo o rosto a um lenço sujo de escarros da minha mãe, deito-me sozinha num chão de musgo e adormeço. Tenho quarenta e dois anos; na vida, procuro sobretudo o silêncio. Não o silêncio da solidão e da angústia, dos dias em que vivi morta e chorei. É um outro silêncio. Retiro das coisas mais simples um prazer genuíno e intenso : ouvir o fervilhar dos passarinhos nas árvores, ler o jornal de uma ponta à outra, ligar a telefonia no instante em que se escuta o primeiro acorde daquela canção antiga. Leio como outros vêem televisão, para ocupar os serões, para adiar o momento em que apago a luz e o ruído começa.
2014/10/19
Sexta-feira
Custa-me levar o dia de trabalho até ao fim. Sinto uma desconcentração cada vez maior (o facto de não dormir uma noite seguida há muito tempo, talvez dois anos, não ajuda), mas sobretudo o que passou a ser-me intolerável é o entusiasmo dos meus colegas em relação ao mundo jurídico. Ontem, ao final do dia, os dois colegas do gabinete ao lado (competentes juristas, bons colegas) discutiam acaloradamente o teor de uma sentença. Os comentários sobre a impreparação de magistrados e advogados distraíram-me. Levantei os olhos do ecrã (tentava terminar uma contestação) e olhei fixamente a grande janela que dá para a empena lateral de um hotel de luxo e para um céu sempre triste. Suponho que o céu que os prisioneiros vêem através das grades seja igual. Fixei o canto da janela onde a madeira está apodrecida por causa da água que pinga nos dias de bátegas pesadas. Notei os desenhos da sujidade no vidro. Os comentários alegres dos meus colegas continuavam; quanto mais falavam maior a minha paralisia. Sei para onde me leva a paralisia que, por vezes, chega enquanto trabalho: um canto escuro, abafado, com cheiro a mofo. Para contrariar essa paralisia, peguei na gabardina e saí para a rua. O céu ameaçava com um horizonte escuro, o vento frio eriçou-me a pele. Respirei fundo e, aos poucos, senti o meu corpo ganhar de novo destreza, agilidade. Caminhei lentamente até à livraria, passei pela pequena janela do canário amarelo. Pedi um chá de menta ao livreiro (acho que se chama Carlos) e levei para a mesa o novo livro do José Luís Peixoto e também o da Felipa Martins. Não gostei nem de um nem de outro. Também folheei sem interesse o livro do Frederico Pedreira. Li durante quinze minutos, apenas o tempo necessário para o chá arrefecer. À saída, perguntei ao livreiro se tinham “O quarto de Jacob”. Ando a ler, há já algum tempo, o diário da V.W. Com calma e vagar, não tenho pressa, aliás, antecipo que sentirei um certo vazio quando acabar de o ler. Decidi ir lendo os romances à medida que Virgínia Woolf os vai escrevendo. Estou a ler as entradas de 1922, ano em que Virgínia terminou “O quarto de Jacob” e, no seu espírito, como fiapos de luz, começam a delinear-se os contornos de “Mrs. Dalloway”. É muito interessante descobrir a extraordinária crítica literária que esta mulher foi. Sobre o “Ulisses”, escreveu: “Um livro ignorante e malcriado, é o que este livro me parece ser: o livro de um trabalhador autodidacta, e todos sabemos como eles são aflitivos, como eles são egoístas, insistentes, crus, impressionantes e em última análise nauseantes. Se se pode comer a carne cozinhada, porquê comer carne crua?”. Mas, confesso, o que mais gosto é de a acompanhar no seu dia-a-dia. No dia 7 de Julho, Virgínia arrancou três dentes e, no dia 3 de Agosto, passeando pelos campos de Richmond, encontrou uma colónia de cogumelos.
2014/10/07
Aretha Franklin
(Comprei, por dois euros, o diário da Khaterine Mansfield, edição de 1944, tão bonita, colecção dirigida por António Ferro, prefácio de John Midleton Murry, seu companheiro. Enquanto tratava do jantar dos miúdos, escutei a Aretha Franklin e bebi dois copos de vinho tinto. Estou feliz.)
2014/10/06
Ontem
Sentada na sanita, estico o braço para abrir a porta do armário onde guardo cremes, loções, pensos higiénicos, escovas, os sabonetes de açafrão e sândalo que a minha mãe trouxe do mercado de Goa. Tiro um penso higiénico. Está dobrado em três, dentro de um rectângulo de plástico azul-escuro. É um penso bastante comprido, reforçado, com abas largas; quando o aproximo do nariz larga um leve cheiro asséptico. Há já alguns meses que tenho de usar estes pensos enormes. Passei a ter um fluxo abundante, hemorragias torrenciais, diluvianas, causadas, segundo me explicou a médica bailarina, por um mioma com três centímetros de diâmetro. Durante o duche, se estou menstruada, escorrem de mim grandes coágulos escuros, cor de amora, que se assemelham a lagartas e rapidamente desaparecem pelo ralo da banheira. Com um gesto brusco arranco o penso sujo das cuecas e enrolo-o no plástico azul-escuro.
Leio durante algum tempo, depois adormeço.
Leio durante algum tempo, depois adormeço.
Acordo a meio da noite para ir comer (há cerca de dois anos que sofro desta estranha forma de parassónia; acordo três, quatro, cinco vezes durante a noite e, num estado semi-inconsciente, devoro alimentos calóricos de sabor excessivo: os cereais dos miúdos, a nutela dos miúdos, as bolachas dos miúdos). Ao abrir a luz reparo nos lençóis tingidos de vermelho. São várias manchas de um vermelho aberto, muito vivo. Fico durante alguns instantes a olhar para a cama, sem saber muito bem o que fazer. Parece que alguém entrou no quarto e, sem eu dar por isso, de forma eficaz e indolor, me esfaqueou várias vezes. Atordoada, apalpo o corpo à procura de uma qualquer ferida que justifique aquele sangue todo derramado nos lençóis brancos da minha cama. Só depois me lembro de que estou menstruada. Continuo a olhar para os lençóis da cama. Não sinto repulsa, nem nojo, nem sequer estranheza. Afinal, é apenas o meu sangue.
2014/10/02
2014/10/01
Amor maternal
Há muitos lugares-comuns acerca da maternidade; a maior parte deles, por inércia ou simples cobardia, vai-se sedimentando até se tornar verdade absoluta. Nenhum desses equívocos é, por assim dizer, tão falso e absurdo como a imediata emergência do amor filial. É certo que muitas mulheres, com propensão para o drama, choram de emoção mal vislumbram o ser que lhes escorre das entranhas. Ainda os meninos, olhos inchados das conjuntivites neonatais, sonham com o aconchego nacarado do ventre materno, e já essas mulheres lhes chamam meu docinho, meu amorzinho, meu queridinho, amor da minha vida, como se, em vez de um filho, estivessem a chamar por um amante. Essas mulheres, apesar do ridículo a que se sujeitam, sossegam por cumprir o papel de mães dedicadas que lhes compete. A liberdade escapa-lhes, a lucidez também. Porque não se ama quem não se conhece. Um filho acabado de nascer, tal como o sentiu Maria, é um desconhecido. Ainda que uma excrescência solta do seu corpo, não deixa de ser um estranho que de repente invade a vida de uma mulher. Uma mãe precisa de tempo para se acostumar a um filho, mais tempo ainda para o amar. Muitas mulheres levam vários anos até finalmente sentirem amor a um filho. Outras nunca chegam a senti-lo.
2014/09/26
Prócida
O João vai ser pai. Contou-me no dia em que fui ter com ele à Biblioteca Nacional, no preciso instante em que me entregou “A ilha de Arturo”. Dei-lhe os parabéns, tive vontade de o abraçar longamente e meti o livro no cacifo. À noite, já no meu quarto, tirei o livro da mala. Olhei-o, passei as mãos pela capa, e, lembrando-me que as mãos do João o tinham tocado, levei-o aos lábios. Depois, já sentada na pequena secretária de pau-preto que herdei da minha avó Aninhas, abri o livro, senti a leve rugosidade do papel e, como sempre faço, escrevi o meu nome e a data na primeira página. A caligrafia saiu ligeiramente inclinada para a direita. Continuei a olhar para a primeira página e, não sei porquê, senti que o meu nome e a data eram insuficientes para marcar aquele livro. Alguns livros precisam de ser marcados. Peguei novamente no marcador preto e, numa caligrafia diferente da que usei para assinar, escrevi “Almocei hoje com o João Pedro na Biblioteca Nacional, contou-me que vai ser pai; em Novembro nascerá a sua segunda filha, uma menina muito desejada que se chamará E. Fiquei verdadeiramente feliz por ele e novamente lhe confessei o meu amor. “. Reli a frase, uma, duas, três vezes, de forma mecânica, à espera de sentir qualquer coisa. Não senti nada. Deixei o livro pousado na secretária, junto dos papéis da segurança social. Durante alguns dias esqueci-o. Porém, quando finalmente lhe peguei para o ler senti um leve frémito interior, formiguinhas passeando pelo meu avesso, uma sensação vaga de perigo. Temi que a leitura de tal livro pudesse fazer desaparecer a minha serenidade. “A ilha de Arturo” é um dos livros que o João mais gostou de ler nos últimos tempos, por diversas veze me falou da ilha de Prócida, sobretudo, da ilha de Prócida. Temi que a leitura de tal livro reacendesse a angústia que senti quando o perdi. Amo o João por várias razões, uma delas é por o considerar um leitor excepcional. Por breves instantes, passou-me pela cabeça não voltar a tocar no livro, mas, depois de pensar no assunto, recordando a nossa conversa no refeitório da Biblioteca Nacional, percebi que o meu receio não tem qualquer fundamento. O meu amor é tranquilo, paciente, sossega-me, faz-me feliz, é um amor que nada exige, que nada quer. De tão puro talvez o amor que sinto não chegue a ser amor ou talvez seja a sua forma mais sublime. Um amor assim não magoa. Peguei no livro, voltei a levá-lo aos lábios e entrei na ilha de Prócida.
2014/09/12
Teresa Torga
(Escutei vezes seguidas esta canção, li um conto do João de Correia Araújo, comprei o último livro do Miguel Martins, encontrei o imperador baiano no café do largo, jantei duas vezes: primeiro, um desenxabido caril de legumes, depois uma fumegante sopa vietnamita. Caminhei pela Rua do Benformoso e, no instante em que o Ricardo me fez olhar para um prédio esguio, lembrei a Mariana das sete saias. Mulher na democracia não é biombo de sala.)
2014/09/11
Manhãs
Desliguei-lhe o telefone (dormia à uma da tarde enquanto os mais novos esperavam pelo almoço) e murmurei entredentes: “ É igualzinho ao pai. Não se pode contar com ele para nada.” Pus creme nas mãos e, durante algum tempo, enquanto as amaciava, olhei a fotografia que está em cima da minha secretária –foi tirada pouco antes dele partir o dente da frente na piscina; sorri, abraçado à irmã que veste a canadiana vermelha e usa os brincos das libelinhas. Saí para a consulta de psiquiatria e, no caminho, já mais calma, apercebi-me de que não tinha, não tenho, qualquer autoridade para censurar o meu filho mais velho. Como posso recriminar o João? Durante as férias, sábados e domingos, durmo sempre até tarde. Deixo muitas vezes a Madalena a tomar conta do Joaquim que, sensata, responsável, lhe dá o pequeno- almoço e o obriga a lavar os dentes. Eu fico na cama, meio acordada, meio adormecida, num mundo paralelo, insólito, ao mesmo tempo próximo e distante. “É dos comprimidos que tomo para dormir”, justifico-me aos miúdos para não parecer mal, intimamente sabendo que os comprimidos já não fazem qualquer efeito, servem apenas para esconder a minha vontade de adiar um pouco o momento em que terei de voltar a ser mãe e cuidar deles. Fico a preguiçar na cama. Às vezes, imagino-me com os homens com quem me deitei, às vezes, toco-me, às vezes, venho-me. Já a chegar ao consultório, pouco antes do Areeiro, senti-me a pior mãe do mundo. Má por, languescente, passar as manhãs na cama. Má por ter desligado o telefone ao João. Telefonei-lhe a pedir desculpa. “Desculpa filho”, disse-lhe e a voz dele logo se animou.
2014/09/09
Mulher
Estou completamente bêbada. Queria reflectir sobre o meu dia e não sou capaz. Há dezasseis anos fui mãe pela primeira vez. A maternidade não me realiza, nem me tranquiliza. Quero sentir-me húmida, mulher, gritar quando o orgasmo chega.
Elisabeth Badinter
( Sou feminista, da ponta dos meus cabelos à ponta dos meu pés.Não sei ser mulher sem ser feminista. Ser feminista é o que melhor me define.)
2014/08/29
Hora de almoço
Sento-me a ler o livro que ontem encomendei. Ao ler o prefácio e as primeiras páginas, facilmente percebo a razão pela qual me sugeriram tal leitura. Volto a ter a sensação - nos últimos meses cada vez mais frequente - de que devia abandonar de vez a mania da escrita e dedicar-me apenas à leitura. Ler é tão bom e as s histórias que gostaria de escrever já foram escritas por mulheres incrivelmente talentosas. Continuo a ler, bebo cada palavra, cada frase; a cada página, sinto uma espécie de vibração, de morno sossego, uma alegria íntima por estar aqui, sozinha, na minha livraria preferida, a ler o livro da Elena Ferrante. Hoje, ao contrário do que é habitual, a livreira não pôs música de fundo, de modo que, apesar de estar concentrada na leitura, consigo ir escutando as conversas de quem passa na rua. Em rigor, não são bem conversas, são apenas fragmentos de frases soltas. Duas ou três palavras: “Fiz almôndegas de bacalhau e…. “ ou “ …telefone-me assim que o Dr. Saraiva…” ou ainda, numa voz alta, de adolescente“…pagas onze euros e podes comer…”. Continuo a ler até que uma nova frase se escuta. “Deixa-me, por favor, deixa-me…”, escuto, dito numa voz febril, angustiada, de quem está à beira do precipício. Levanto os olhos do livro. Uma mulher parou junto à montra da livraria e, com gestos tensos, continua a falar alto. “Não quero, percebes? Não consigo continuar a viver contigo…”. Finjo continuar a ler, mas faço um esforço de concentração para perceber o contexto da conversa. Por que está a mulher tão desesperada? Que carrasco a deixa naquele estado? Baixo os olhos e lembro as discussões com o Reinaldo no tempo em que eu queria sair de casa e ele não deixava. “Sais de casa, mas sais sozinha, sem os miúdos.”, dizia-me e eu ficava sem saber o que fazer. Até que chegou o dia em que dois jovens polícias chegaram e eu pude sair com os meus filhos. Passaram-se apenas alguns anos, mas esse tempo, violento e trágico, parece-me longínquo como se tivesse sido vivido por outra mulher. Já não sinto medo, nem raiva, nem nojo. Serei eu uma mulher diferente? Não sei, mas gosto de acreditar que, se voltasse a passar pelo mesmo, em vez da loucura, dos gestos trágicos, do desespero, saberia agora fazer escutar a minha voz.
2014/08/27
João
Vou feliz, o meu coração bate acelerado. Sei que o João não está no fim do caminho perfumado, nem está, como sempre o imaginei, sentado a uma mesa do Longuinhos, provando um prato de kishmor, não está sequer na Índia, está no outro lado do mundo, deitado com uma mulher jovem, uma mulher sem passado, sem prole, uma mulher que lhe dará dois filhos e o tratará até ser velho por “amor”. No entanto, é para ele que caminho e isso faz-me sentir viva, dolorosamente feliz.
(Sonho frequentemente com o homem que amo. Às vezes, como ontem, sonho com a sua ausência e é bom na mesma.)
2014/08/26
Sombra
A Madalena veio ter à minha cama. Não sei como lá fomos dar, mas acabámos a falar da memória. Expliquei-lhe como funciona a minha memória, como sempre funcionou, como é estranha, ineficaz, tudo esquece, assimila apenas pormenores, insignificâncias, quase sempre imagens sem possibilidade de interpretação ou análise. Para exemplificar, disse-lhe que me lembrava perfeitamente dos ténis que usei no funeral do meu avô (tinha onze anos). Uns ténis vermelhos, da Adidas, comprados na Suíça. Recordo que caminhava no meio do cortejo fúnebre - velhas de lenço na cabeça, envoltas em xailes com cheiro a fumo, homens de rugas fundas e mãos calejadas - sem experimentar propriamente angústia ou sofrimento. Até que uma mulher olhou com censura para os meus ténis vermelhos. Acrescentei que também me recordava, com nitidez, ainda em Maputo, do exacto tom de azul do copo de plástico que um menino segurava no refeitório. Não me lembro do rosto dessa criança, não sou capaz de dizer se era magro, gordo, bonito ou feio, só me lembro das suas mãos segurando o copo de plástico azul. A minha filha escutou-me, depois fechou os olhos como se procurasse uma memória que pudesse acompanhar as minhas. Pouco depois, abriu os olhos e falou: “Lembro-me do dia em que os treinadores trouxeram o praticável. Fiz vários saltos de mãos para experimentar os tapetes novos. Lembro-me perfeitamente da minha sombra projectada no chão do ginásio”. Beijei-lhe os cabelos e mandei-a para a cama. Muito bela, a memória da minha filha, aliás, não consigo imaginar memória mais bela do que a dela, a da sua própria da própria sombra.
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