2015/02/13

Meu amor



(Passei o dia a trautear esta canção. Pensei, enquanto caminhava, no meu amor. Tem mãos grandes, mas não sabe abraçar-me.)

2015/02/12

URSS

Sentados no velho sofá da sala, folheamos o grande livro vermelho. Observamos construções extravagantes, estádios, piscinas, prédios de apartamentos, museus, teatros, palácios de casamentos e de rituais fúnebres. Imagens de uma arquitectura insólita, bela, onírica, vanguardista. O meu filho aponta para uma luminária que, cacheada de lâmpadas, se assemelha a uma gigantesca medusa, depois ajeita o edredão que lhe tapa as pernas. É um edredão bonito, trouxe-o de Jaipur. Pintado manualmente com carimbos de madeira, talvez tenha sido feito por mãos do tamanho das suas. Leio-lhe em voz alta nomes de cidades: Minsk, Chisinau, Vilnius, Baku, Erevan, Talin. 

2015/02/10

1979



Comprei uma camisa de flanela cor-de-rosa e um casaco preto, mas as compras não me alegraram. Sinto-me triste. Vou deitar os meus filhos, beijá-los muito. Depois vou fumar, beber e ouvir o Billy Corgan até chegar o sono. 

2015/02/07

Semáforo

Em frente do centro geriátrico “Haja Deus” há um semáforo. Todos os dias, quando volto para casa, apanho-o fechado. O centro geriátrico fica numa das poucas vivendas da Av. Gago Coutinho que ainda não sofreram obras para se transformar em colégios bilingues, escolas profissionais, sedes de empresas. As paredes, de tinta estalada, com manchas de bolor, têm uma cor suja, indefinida. Há dois grandes toldos amarelos nas janelas do primeiro andar e um toldo em forma de lagarta que vai do portão do jardim até à porta de entrada. As janelas, de caixilhos de madeira podre, estão sempre fechadas e as persianas corridas. Nunca se vê uma luz acesa. Parece que ninguém ali mora. Já o jardim, decadente, excessivamente preenchido, é habitado por uma multidão de figuras de pedra: cavaleiros, trovadores, lavadeiras, anões, sereias, fidalgos. Por todo o todo se vêem pesadas floreiras rectangulares. Nas duas floreiras que ficam por cima do pequeno portão de entrada, em forma de concha, crescem dois pés delgadinhos de rosas-de-pedra. Na sombra de um salgueiro-chorão, há uma pequena fonte de águas musgosas. Suportes de corda entrelaçada pendem dos ciprestes e balouçam quando há vento. As iluminações de Natal nunca são tiradas e, no crepúsculo do meu regresso a casa, lançam um fulgor triste. Estou certo de que, se as visse,  o Sr. Inácio gritaria à sua filha Solange: “Solange, no próximo Natal, também vou deixar as luzes postas. Poupo muito trabalhinho.” Quem, como eu, tiver uma natureza contemplativa, nunca se cansará de olhar para o jardim do centro geriátrico. Todos os dias descubro um detalhe, um novo habitante de pedra. 

Hoje, parada no semáforo, enquanto tentava a todo o custo vislumbrar o interior do centro geriátrico (uma luz estava acesa e, pela janela, consegui ver uma cabeça de cabelos muitos brancos), recordei a última vez que estive com o Alexandre. Foi pouco antes do Natal. Estivemos juntos durante duas horas. Acabámos cansados, muito transpirados. Descansámos em silêncio e, durante o tempo em que sosseguei nos seus braços, o amante intermitente, num gesto de afecto inconsequente, afagou-me docemente os cabelos. Nesse dia, recordei-o hoje, precisamente no instante em que, em frente do centro geriátrico “Haja Deus” aguardava que o sinal ficasse verde, senti que o corpo me doía. Não uma parte do corpo, mas todo o corpo. O meu corpo estava dorido como se tivesse caminhado durante muito tempo ou alguém me tivesse batido. Lembrei-me do sexo febril em “ A vida de Adéle”. Quando o sinal passou a verde, ri-me, feliz, e acelerei. 
           

2015/02/01

Olho

Depois de dar o almoço aos miúdos, fui ao Pingo Doce fazer as compras da semana. Comprei bolachas e pacotinhos de leite com chocolate para os lanches, esparguete, macarrão, arroz, azeite, lixívia, listerine, duas garrafas de vinho, ervilhas, batatas, cebolas, tofina, comprei borrego, frango e carne de vaca para estufar com cenouras e nabo. Esta semana não trouxe peixe. O meu luxo foi trazer um gel de banho da le petit marseillais. É caro, muito caro para a minha carteira, mas a minha filha gosta do cheiro a leite de baunilha. Compro com cuidado, comparando preços, procurando sempre as promoções e o que é mais barato. Quando pago a conta penso sempre na sorte que tenho em ter um ordenado mensal, fixo, que me permite alimentar, cuidar dos meus filhos. Quando cheguei a casa, depois de poisar os sacos na cozinha, corri aos quartos. O João esmerava-se nas cábulas para o teste de Geografia, a Madalena e o Joaquim, cabeças debruçadas sobre os livros, escreviam. “Já sei escrever olho”, disse-me o mais pequeno. Senti uma alegria genuína, intensa, única. Coisa tão parva. Aproximei-me, beijei-lhe os caracóis e disse baixinho “Meu amor, gosto tanto de ti.”Arrumei as compras, organizei a despensa e o frigorífico. Desfiz o tomilho-limão sobre a carne de vaca que deixara já temperada com alho. Depois, cônscia de que a minha liberdade é sempre efémera, deitei-me atravessada na cama a ler a Adília Lopes. Entrava um sol morno pela janela e a minha rua, de prédios altos, pareceu-me bonita, ampla. Li a nota que a Adília escreveu para o seu livro: “Acho que era a Sylvia Plath que estava convencida, por volta de 1950, que para escrever romances era preciso ter amantes e fazer viagens. É um mito, isso dos amantes e das viagens. Pode-se ser feliz e escrever romances sem ter amantes e se fazer viagens. Mais importante que amantes e viagens é ter um espaço próprio, um domínio, um território, uma casa, pelo menos um quarto com privacidade, como muito bem viu Virgínia Woolf”. Continuei a ler, li dois ou três textos, depois peguei em “ A Letra Escarlate” que ando a reler e onde, ontem, já tão tarde, descobri a palavra “cônscio”

2014/12/04

Dalida



(Os meus pais reencontram-se sábado, em Goa. Esta é uma das canções da minha infância.)

2014/12/02

Beauvoir

2014/11/26

Beirut




2014/11/06

Mabel

Li, reli e sublinhei "O vestido novo".

2014/11/03

Luz

Não tenho vontade de escrever. Desconfio mesmo que já não sei escrever. Desaprendi. Salto valados durante a noite, encontro apóstatas e duendes, limpo o rosto a um lenço sujo de escarros da minha mãe, deito-me sozinha num chão de musgo e adormeço. Tenho quarenta e dois anos; na vida, procuro sobretudo o silêncio. Não o silêncio da solidão e da angústia, dos dias em que vivi morta e chorei. É um outro silêncio. Retiro das coisas mais simples um prazer genuíno e intenso : ouvir o fervilhar dos passarinhos nas árvores, ler o jornal de uma ponta à outra, ligar a telefonia no instante em que se escuta o primeiro acorde daquela canção antiga. Leio como outros vêem televisão, para ocupar os serões, para adiar o momento em que apago a luz e o ruído começa. 

Cry me a river

2014/10/19

Sexta-feira

Custa-me levar o dia de trabalho até ao fim. Sinto uma desconcentração cada vez maior (o facto de não dormir uma noite seguida há muito tempo, talvez dois anos, não ajuda), mas sobretudo o que passou a ser-me intolerável é o entusiasmo dos meus colegas em relação ao mundo jurídico. Ontem, ao final do dia, os dois colegas do gabinete ao lado (competentes juristas, bons colegas) discutiam acaloradamente o teor de uma sentença. Os comentários sobre a impreparação de magistrados e advogados distraíram-me. Levantei os olhos do ecrã (tentava terminar uma contestação) e olhei fixamente a grande janela que dá para a empena lateral de um hotel de luxo e para um céu sempre triste. Suponho que o céu que os prisioneiros vêem através das grades seja igual. Fixei o canto da janela onde a madeira está apodrecida por causa da água que pinga nos dias de bátegas pesadas. Notei os desenhos da sujidade no vidro. Os comentários alegres dos meus colegas continuavam; quanto mais falavam maior a minha paralisia. Sei para onde me leva a paralisia que, por vezes, chega enquanto trabalho: um canto escuro, abafado, com cheiro a mofo. Para contrariar essa paralisia, peguei na gabardina e saí para a rua. O céu ameaçava com um horizonte escuro, o vento frio eriçou-me a pele. Respirei fundo e, aos poucos, senti o meu corpo ganhar de novo destreza, agilidade. Caminhei lentamente até à livraria, passei pela pequena janela do canário amarelo. Pedi um chá de menta ao livreiro (acho que se chama Carlos) e levei para a mesa o novo livro do José Luís Peixoto e também o da Felipa Martins. Não gostei nem de um nem de outro. Também folheei sem interesse o livro do Frederico Pedreira. Li durante quinze minutos, apenas o tempo necessário para o chá arrefecer. À saída, perguntei ao livreiro se tinham “O quarto de Jacob”. Ando a ler, há já algum tempo, o diário da V.W. Com calma e vagar, não tenho pressa, aliás, antecipo que sentirei um certo vazio quando acabar de o ler. Decidi ir lendo os romances à medida que Virgínia Woolf os vai escrevendo.  Estou a ler as entradas de 1922, ano em que Virgínia terminou “O quarto de Jacob” e, no seu espírito, como fiapos de luz, começam a delinear-se os contornos de “Mrs. Dalloway”. É muito interessante descobrir a extraordinária crítica literária que esta mulher foi. Sobre o “Ulisses”, escreveu: “Um livro ignorante e malcriado, é o que este livro me parece ser: o livro de um trabalhador autodidacta, e todos sabemos como eles são aflitivos, como eles são egoístas, insistentes, crus, impressionantes e em última análise nauseantes. Se se pode comer a carne cozinhada, porquê comer carne crua?”. Mas, confesso, o que mais gosto é de a acompanhar no seu dia-a-dia. No dia 7 de Julho, Virgínia arrancou três dentes e, no dia 3 de Agosto, passeando pelos campos de Richmond, encontrou uma colónia de cogumelos. 

2014/10/07

Aretha Franklin



(Comprei, por dois euros, o diário da Khaterine Mansfield, edição de 1944, tão bonita, colecção dirigida por António Ferro, prefácio de John Midleton Murry, seu companheiro. Enquanto tratava do jantar dos miúdos, escutei a Aretha Franklin e bebi dois copos de vinho tinto. Estou feliz.)

2014/10/06

Ontem

Sentada na sanita, estico o braço para abrir a porta do armário onde guardo cremes, loções, pensos higiénicos, escovas, os sabonetes de açafrão e sândalo que a minha mãe trouxe do mercado de Goa. Tiro um penso higiénico. Está dobrado em três, dentro de um rectângulo de plástico azul-escuro. É um penso bastante comprido, reforçado, com abas largas; quando o aproximo do nariz larga um leve cheiro asséptico. Há já alguns meses que tenho de usar estes pensos enormes. Passei a ter um fluxo abundante, hemorragias torrenciais, diluvianas, causadas, segundo me explicou a médica bailarina, por um mioma com três centímetros de diâmetro. Durante o duche, se estou menstruada, escorrem de mim grandes coágulos escuros, cor de amora, que se assemelham a lagartas e rapidamente desaparecem pelo ralo da banheira. Com um gesto brusco arranco o penso sujo das cuecas e enrolo-o no plástico azul-escuro.

Leio durante algum tempo, depois adormeço.

Acordo a meio da noite para ir comer (há cerca de dois anos que sofro desta estranha forma de parassónia; acordo três, quatro, cinco vezes durante a noite e, num estado semi-inconsciente, devoro alimentos calóricos de sabor excessivo: os cereais dos miúdos, a nutela dos miúdos, as bolachas dos miúdos). Ao abrir a luz reparo nos lençóis tingidos de vermelho. São várias manchas de um vermelho aberto, muito vivo. Fico durante alguns instantes a olhar para a cama, sem saber muito bem o que fazer. Parece que alguém entrou no quarto e, sem eu dar por isso, de forma eficaz e indolor, me esfaqueou várias vezes. Atordoada, apalpo o corpo à procura de uma qualquer ferida que justifique aquele sangue todo derramado nos lençóis brancos da minha cama. Só depois me lembro de que estou menstruada. Continuo a olhar para os lençóis da cama. Não sinto repulsa, nem nojo, nem sequer estranheza. Afinal, é apenas o meu sangue.

2014/10/02

Satyajit Ray / Kapurush



(Estava uma luz tão bonita quando saí do cinema. Anoitecia devagar.)

2014/10/01

Amor maternal

Há muitos lugares-comuns acerca da maternidade; a maior parte deles, por inércia ou simples cobardia, vai-se sedimentando até se tornar verdade absoluta. Nenhum desses equívocos é, por assim dizer, tão falso e absurdo como a imediata emergência do amor filial. É certo que muitas mulheres, com propensão para o drama, choram de emoção mal vislumbram o ser que lhes escorre das entranhas. Ainda os meninos, olhos inchados das conjuntivites neonatais, sonham com o aconchego nacarado do ventre materno, e já essas mulheres lhes chamam meu docinho, meu amorzinho, meu queridinho, amor da minha vida, como se, em vez de um filho, estivessem a chamar por um amante. Essas mulheres, apesar do ridículo a que se sujeitam, sossegam por cumprir o papel de mães dedicadas que lhes compete. A liberdade escapa-lhes, a lucidez também. Porque não se ama quem não se conhece. Um filho acabado de nascer, tal como o sentiu Maria, é um desconhecido. Ainda que uma excrescência solta do seu corpo, não deixa de ser um estranho que de repente invade a vida de uma mulher. Uma mãe precisa de tempo para se acostumar a um filho, mais tempo ainda para o amar. Muitas mulheres levam vários anos até finalmente sentirem amor a um filho. Outras nunca chegam a senti-lo. 

2014/09/26

Prócida

O João vai ser pai. Contou-me no dia em que fui ter com ele à Biblioteca Nacional, no preciso instante em que me entregou “A ilha de Arturo”.  Dei-lhe os parabéns, tive vontade de o abraçar longamente e meti o livro no cacifo. À noite, já no meu quarto, tirei o livro da mala. Olhei-o, passei as mãos pela capa, e, lembrando-me que as mãos do João o tinham tocado, levei-o aos lábios. Depois, já sentada na pequena secretária de pau-preto que herdei da minha avó Aninhas, abri o livro, senti a leve rugosidade do papel e, como sempre faço, escrevi o meu nome e a data na primeira página. A caligrafia saiu ligeiramente inclinada para a direita. Continuei a olhar para a primeira página e, não sei porquê, senti que o meu nome e a data eram insuficientes para marcar aquele livro. Alguns livros precisam de ser marcados. Peguei novamente no marcador preto e, numa caligrafia diferente da que usei para assinar, escrevi “Almocei hoje com o João Pedro na Biblioteca Nacional, contou-me que vai ser pai; em Novembro nascerá a sua segunda filha, uma menina muito desejada que se chamará E. Fiquei verdadeiramente feliz por ele e novamente lhe confessei o meu amor. “. Reli a frase, uma, duas, três vezes, de forma mecânica, à espera de sentir qualquer coisa.  Não senti nada. Deixei o livro pousado na secretária, junto dos papéis da segurança social. Durante alguns dias esqueci-o.  Porém, quando finalmente lhe peguei para o ler senti um leve frémito interior, formiguinhas passeando pelo meu avesso, uma sensação vaga de perigo. Temi que a leitura de tal livro pudesse fazer desaparecer a minha serenidade.  “A ilha de Arturo” é um dos livros que o João mais gostou de ler nos últimos tempos, por diversas veze me falou da ilha de Prócida, sobretudo, da ilha de Prócida. Temi que a leitura de tal livro reacendesse a angústia que senti quando o perdi. Amo o João por várias razões, uma delas é por o considerar um leitor excepcional. Por breves instantes, passou-me pela cabeça não voltar a tocar no livro, mas, depois de pensar no assunto, recordando a nossa conversa no refeitório da Biblioteca Nacional, percebi que o meu receio não tem qualquer fundamento.  O meu amor é tranquilo, paciente, sossega-me, faz-me feliz, é um amor que nada exige, que nada quer. De tão puro talvez o amor que sinto não chegue a ser amor ou talvez seja a sua forma mais sublime. Um amor assim não magoa. Peguei no livro, voltei a levá-lo aos lábios e entrei na ilha de Prócida.

2014/09/12

Teresa Torga



(Escutei vezes seguidas esta canção, li um conto do João de Correia Araújo, comprei o último livro do Miguel Martins, encontrei o imperador baiano no café do largo, jantei duas vezes: primeiro, um desenxabido caril de legumes, depois uma fumegante sopa vietnamita. Caminhei pela Rua do Benformoso e, no instante em que o Ricardo me fez olhar para um prédio esguio, lembrei a Mariana das sete saias. Mulher na democracia não é biombo de sala.)

2014/09/11

Manhãs

Desliguei-lhe o telefone (dormia à uma da tarde enquanto os mais novos esperavam pelo almoço) e murmurei entredentes: “ É igualzinho ao pai. Não se pode contar com ele para nada.”  Pus creme nas mãos e, durante algum tempo, enquanto as amaciava, olhei a fotografia que está em cima da minha secretária –foi tirada pouco antes dele partir o dente da frente na piscina; sorri, abraçado à irmã que veste a canadiana vermelha e usa os brincos das libelinhas. Saí para a consulta de psiquiatria e, no caminho, já mais calma, apercebi-me de que não tinha, não tenho, qualquer autoridade para censurar o meu filho mais velho.  Como posso recriminar o João? Durante as férias, sábados e domingos, durmo sempre até tarde. Deixo muitas vezes a Madalena a tomar conta do Joaquim que, sensata, responsável, lhe dá o pequeno- almoço e o obriga a lavar os dentes. Eu fico na cama, meio acordada, meio adormecida, num mundo paralelo, insólito, ao mesmo tempo próximo e distante. “É dos comprimidos que tomo para dormir”, justifico-me aos miúdos para não parecer mal, intimamente sabendo que os comprimidos já não fazem qualquer efeito, servem apenas para esconder a minha vontade de adiar um pouco o momento em que terei de voltar a ser mãe e cuidar deles. Fico a preguiçar na cama. Às vezes, imagino-me com os homens com quem me deitei, às vezes, toco-me, às vezes, venho-me. Já a chegar ao consultório, pouco antes do Areeiro, senti-me a pior mãe do mundo. Má por, languescente, passar as manhãs na cama. Má por ter desligado o telefone ao João. Telefonei-lhe a pedir desculpa. “Desculpa filho”, disse-lhe e a voz dele logo se animou.

2014/09/09

Mulher

Estou completamente bêbada. Queria reflectir sobre o meu dia e não sou capaz. Há dezasseis anos fui mãe pela primeira vez. A maternidade não me realiza, nem me tranquiliza. Quero sentir-me húmida, mulher, gritar quando o orgasmo chega.