2015/06/09

2015/06/08

Areal

Quando o negro das pulseiras passa no areal, serpenteando entre guarda-sóis, à procura de freguesas que queiram uma fitinha da nossa senhora do Bonfim, deixa no ar um cheiro intenso a suor. A rapariga de cabelo oxigenado, o biquíni branco, muito cavado, enfiado no rego do rabo, faz uma careta de nojo e, com exagero, abana a mão em frente do rosto. O namorado, musculado e tatuado, ri numa hilaridade forçada, tão boçal, que a argolinha que traz presa no mamilo esquerdo se solta e cai na areia da praia. Que aflição! Agora a rapariga do cabelo oxigenado anda ali, de rabo para o ar, à procura da argolinha de ouro. O namorado merece o esforço, não cheira a catinga, isso não, cheira a patchouli, a madeiras de sândalo, é tão bonito e um dia, se Deus quiser, há-de ter um Audi descapotável. A loira dá um grito estridente. Encontrou finalmente o pequeno tesouro. O namorado puxa-a para si e beija-a à vista de todos. Voltam a rir. Riem durante muito tempo, esquecidos do negro que passou no areal e deixou no ar um cheiro intenso a suor.

2015/06/04

Bravura

Na aldeia, para além do Luís, não há quem lá queira trabalhar. Os homens preferem ir gerindo os cursos de formação profissional e os subsídios de desemprego. As mulheres fazem sopas de tomate com peixe frito para o almoço e educam os filhos nos intervalos dos programas de televisão. Só os búlgaros e romenos aceitam trabalhar nas malhadas. Não são de dar confiança a ninguém, pouco sorriem, não frequentam o café da associação de moradores, mas a Mena diz que são bons trabalhadores. Trabalhar nas malhadas é duro: alimentar centenas de animais, medicá-los, pesá-los, manter as boxes limpas, suportar as mordeduras das parideiras, não temer os varrascos, enormes porcos de pêlo escuro e dentes afiados, que, parecendo pré-históricos, se destinam unicamente à cobrição. 

Por isso, quando o meu filho João, há quatro anos, me perguntou se podia trabalhar nas malhadas, expliquei-lhe que apreciava a sua iniciativa, mas que aquilo era trabalho para homens feitos, não para rapazinhos de doze anos. Perante a sua insistência, acabei por falar com a Mena. “Deixa-o vir. Só lhe faz bem. Arranjo qualquer coisa para ele fazer e no fim dou-lhe uma nota!”, disse a minha prima, sempre sorridente, sempre bonita. Nessas férias, durante duas semanas, o meu filho mais velho trabalhou nas malhadas. Disciplinado, levantava-se às seis da manhã, vestia o fato-macaco, tomava o pequeno-almoço sozinho. Às seis e meia já estava à porta da casa da Mena para irem buscar os búlgaros e os romenos às Minas do Lousal. Trabalhava só até ao meio-dia. Nunca percebi ao certo o que lá fazia, só sei que, à hora do calor, quando regressava a casa, subia a única rua da aldeia com ar satisfeito. Sujo, tisnado, largando um cheiro fétido a merda de porco, mas satisfeito. As vizinhas mais velhas, a Antónia, a Teresa e a Preciosa dos queijos, vendo-o passar, metiam-se com ele. O calor a pesar-lhe no corpo e ele, gentil, parava a conversar com as velhotas. As velhacas das velhas riam-se, gozavam um pouco o prato. “Ai João, ai mocinho, deixa lá os porcos, vai mas é para a praia com a mãe e os manos.”, diziam, incapazes de perceber por que razão um rapaz da cidade havia de querer experimentar um trabalho sujo, indigno, um trabalho que ninguém na aldeia se rebaixava a aceitar.

Nesses quinze dias, por volta do meio-dia, o João subiu sempre a rua muito devagar, parando a conversar com as velhas da aldeia. No último dia de trabalho, porém, ao contrário do que era habitual, subiu a rua numa passada acelerada. Vinha com pressa, com muita pressa, não parou para falar à vizinha Antónia nem apanhou uma flor para me trazer. Abrasava e, da varanda, enquanto o esperava, conseguia ver as ondas de calor. Pensei que viesse com vontade de ir à casa de banho, mas, quando chegou perto de mim, não trazia o ar aflito com que fica sempre que precisa de aliviar as tripas. Trazia, bem pelo contrário, um grande sorriso nos lábios. “Mãe, tenho uma coisa para te contar!” explicou e, sujo, o fato-macaco duro das lamas da pecuária, começou a falar aos atropelos. Antes que pudesse continuar, dei-lhe um grito, mandei-o tirar a roupa e tomar um banho. Já à mesa, enquanto lhe servia o almoço, contou por fim a sua história. Pela manhã, um dos búlgaros, o Yuri,  dera com uma cria doente. Magoara-se na grade da box e tinha uma pata partida. A Mena viera com a engenheira Sónia ver o bicho. Chegaram à conclusão de que não havia nada a fazer. Era preciso matar a cria e deitá-la ao lixo. O Yuri pegara imediatamente numa pá para realizar a tarefa. Foi então que ele, o meu filho, lhe arrancara a pá das mãos e reclamara para si a tarefa. “Quis ser eu a matá-lo, mãe! Bati-lhe com força quatro vezes e morreu num instantinho!”, contou sentindo um estranho orgulho que me assustou, me meteu até nojo. No final, o búlgaro deu-lhe uma palmadinha nas costas e disse “ Ah, João, foste valente!”. 

Nesse verão, entre primos e tios, avós, amigos, a façanha do João foi muito comentada por ser um exemplo de coragem e viril bravura adequadas ao seu género. Passaram quatro anos. O meu filho nunca mais voltou a falar da sua glória de infância. Espero que a tenha esquecido. Já eu não a esqueço. Às vezes, quando menos espero, surgem à minha frente as imagens que construí a partir do relato que me fez naquela tarde. De tão vivo e entusiasta, consigo pairar, como um pequeno pássaro, nas traves dos barracões das malhadas. Vejo tudo. O meu filho, ainda criança, matando à pazada um pequeno leitão. O seu rosto, redondo e bonito, torcido de fúria. A pequena cria caída na berma escura do esgoto. O búlgaro Yuri acicatando o João como se fosse um cão de fila. A Mena e a engenheira Sónia, sorridentes, batendo palmas.

David Bowie



(Corridas nocturnas; é bom cansar o corpo.)

2015/06/03

Kamikaze

O problema, como lhes costumo dizer, é deles, não meu. Não tenho compromissos, sou livre como uma borboletinha. Não traio ninguém. Três homens casados, mas muito diferentes. Conheço o Alexandre há dez anos, encontramo-nos em quartos de hotel quando nos apetece. Os nossos corpos conhecem-se de outras vidas, encaixamos perfeitamente, tocamo-nos como bichos, sem filtros, sem inibições. Ele sabe o que me dá prazer. Sei o que lhe dá prazer. Gosta, por exemplo, que lhe lamba os testículos. Nunca me fala da mulher ou dos filhos. A última vez que estivemos juntos explicou-me o que era uma didascália e, depois de me beijar as mamas, disse que eu era uma mulher-kamikaze. É o amante perfeito. Não trocamos mensagens, não falamos ao telefone, não nos encontramos para almoçar. O segundo amante, recente, novato, é muito diferente. Encontrei-o por acaso na fila do pão. Bonito e escultural, mas um pouco parvo. Empolga-se, diz que os meus olhos castanhos são lindos e que a minha boca tem a cor das framboesas maduras. Que tédio, que miserável tédio! Chama-se Miguel e acho que o vou deixar. Fala-me de amor, um amor aborrecido e previsível, mas depois, pobre coitado, partilha comigo histórias sobre a mulher e as duas filhas. Na semana passada, depois de me oferecer um livrinho de merda que naturalmente não lerei, disse que a mulher, empregada bancária, é a rocha que sustenta a sua vida. Não vou para a cama com um homem para o ouvir falar da sua mulher. O terceiro homem casado com quem me deito é o homem que amo. Um homem inteligente, bonito, o mais bonito do mundo, não há homem igual, mas pelo qual não tenho qualquer tipo de entusiasmo sexual. Deito-me com esse homem quando ele quer, sou dissimulada, detestável, finjo orgasmos, simplesmente porque preciso de senti-lo perto de mim.

2015/05/30

Seis andares (1)

Depois do último internamento, há cerca de seis meses, passei a sofrer de insónia. Demoro muito tempo a adormecer. Acordo várias vezes durante a noite e fico às voltas na cama, à espera que o sono volte. Sonho recorrentemente com a enfermaria onde estive internada. É um sonho estranho. As chapas do telhado, enferrujadas, têm buracos por onde entram pássaros e outros bichos. Os degraus da entrada, de madeira apodrecida, estão cobertos de urtigas. As paredes, manchadas de tinta azul escura, parecem esboroar-se em caliça. Nas janelas há grades de ferro. O soalho é pardacento e áspero. As camas da enfermaria estão pregadas ao chão e, nos lençóis, manchados de urina, passeiam-se lindos percevejos verdes. Na verdade, a enfermaria com que sonho é muito diferente daquela em que estive internada, limpa e arejada, mas, não sei por quê identifico aquele lugar com a enfermaria da Clínica de São Lázaro. Desperto cansada, como se tivesse caminhado durante muito tempo, o corpo transpirado e moído, a cabeça a latejar, a boca seca, a língua encortiçada. Já experimentei comprimidos, mezinhas, chás para dormir. Já fiz tratamentos alternativos. Nada resulta. 
Há algumas semanas, Eduardo convidou-me para ir lanchar a uma pastelaria antiga, com paredes de espelho e mesas cobertas de toalhas de pano. Queria saber de mim, como me sentia, se estava melhor. Enquanto comia um lindo duchesse coberto de frutas, confessei-lhe que estava melhor, muito melhor, não alucinava há muito tempo, mas não conseguia dormir. Expliquei-lhe que não aguentava continuar assim, sentia um cansaço extremo, o meu desespero era de tal ordem que ponderava mesmo consultar um bruxo, um exorcista, enfim alguém que, dotado de dons místicos, me ajudasse a dormir uma noite sossegada. Eduardo, o meu amigo, também é doente dos nervos. Não é esquizofrénico como eu, nunca esteve internado, mas sofre de fobia social e ocasionalmente tem ataques de ansiedade. Escutou as minhas queixas e, com gargalhadas ruidosas, riu-se do meu desespero. Depois contou que, apesar dos picos de ansiedade, não tinha qualquer problema em adormecer.
- Deitas-te e o sono chega? – perguntei-lhe com despeito. 
Não era bem assim. Tinha um truque para adormecer. Arregalei-lhe os olhos, quis imediatamente saber que truque era aquele, talvez funcionasse também para mim. Eduardo não tardou em revelar-mo. Todas as noites recordava um sonho que tivera. Não era um sonho alucinatório ou enigmático, desses que estimulam o pensamento e nos fazem procurar respostas para a vida. Tratava-se apenas de um lugar, um lugar tranquilo, que lhe trazia paz. Bastava fechar os olhos, imaginar-se nesse lugar e era imediatamente inundado por uma sensação de bem-estar. Pouco depois adormecia completamente relaxado e dormia a noite inteira. Quis saber como era o tal lugar. O meu amigo hesitou durante alguns segundos, depois, levando a sua enorme mão às barbas grisalhas, falou calmamente:
- Estou debruçado no muro do terraço do meu prédio. Lá em baixo, em vez da confusão habitual das ruas, abre-se um oceano de águas azul-turquesa, onde o sol embate com tal intensidade que me fere um pouco os olhos; no meio do mar, um mar brando, claro e fresco, há uma ilha muito bela. Nas encostas da ilha, vislumbram-se veredas solitárias que serpenteiam entre pomares e jardins perfumados. Nos recantos da costa, as praias são de areia dourada e fina. São praias pequenas e desertas, nas águas transparentes notam-se as sombras velozes dos cardumes de peixes. Quero ir para aquela ilha, para aquele mar, mas para lá chegar, não te sei explicar por que razão, tenho de atravessar uma estufa degradada, um pouco suja e com vidros partidos. Na estufa, há um banco de pedra antiga, polvilhada de musgo negro e muito seco. É nesse banco que me costumo sentar antes de adormecer, fixando o horizonte onde parece terminar o mar, olhando a pequena ilha, entorpecido por memórias quentes e indefinidas.

2015/05/26

Fausto

2015/05/25

Dois dedos de testa

Não quero ruído, nem gargalhadas, nem conversas lúbricas, nem convites para jantar em restaurantes onde se servem carnes maduras. Não quero amar e não quero ser amada. Isso não. Quero apenas a vulgaridade, mas a vulgaridade silenciosa, invisível, a que jamais se confessa, a vulgaridade das casas de banho-públicas, dos quartos de hotel e dos carros parados à beira-rio. E, como no poema, não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.


2015/05/17

Cristina Branco



(dei-me a outros braços, mas nada que preste.)

2015/05/15

Arcas

É um cheiro bafiento, velho, de naftalina e humidade, parecido com aquele que se sente quando se abrem as arcas das casas das nossas avós. Arcas de madeira, ornamentadas com desenhos embutidos de gueixas submissas, levemente idiotas, passeando entre pinheiros, pagodes e riachos. Por cima dessas arcas há sempre um naperão de linha grossa e uma jarra com rosas de plástico. As avós guardam nessas arcas a roupa branca dos seus enxovais. Peças bordadas com infinito vagar, à espera de serem usadas em ocasiões especiais que nunca acontecem. É o cheiro dessas arcas e dessas roupas que encontrei ao entrar hoje nesta casa. Saio e fecho a porta. Não volto a entrar aqui. 

2015/05/12

Danzon nº 2

Nado morto

No sábado, depois de deixar o Joaquim na natação, enquanto alagartava na esplanada, bebendo um café e lendo o jornal, dei de caras com a fotografia da criança escondida dentro de uma mala de viagem.  Encolhido, em posição fetal, a boca silenciada com uma fita adesiva, o menino parece um nado morto boiando no ventre materno. Senti o que qualquer pessoa sente perante uma imagem de miséria e injustiça: comoção, vontade de chorar, também raiva. À noite, depois do jantar, mostrei a fotografia aos miúdos e pedi-lhes que lessem a notícia. Falámos sobre o assunto. 

O domingo passou, morno, bucólico, entre árvores, passarinhos e águas mansas. Os algodões dos freixos voavam pelo ar e, no cimo da serra, entre o arvoredo, a torre de uma velha capela transportava-me constantemente para um tempo antigo. O bolo de laranja da Marina estava uma delícia, molhadinho e pouco doce, os meus rissóis de carne nem por isso. À noite, depois de orientar as rotinas dos meus filhos, depois de telefonar à Marina e lhe dizer “Os teus olhos verdes são bonitos, a tua pele é macia, dá vontade de dar uma trincadela na tua pele”, telefonei ao Augusto e pedi-lhe que me levasse a dançar. Abraçada ao imperador baiano, magro, sorridente, dancei até de madrugada. Nem uma vez, ao longo do dia,  ao longo da noite, me lembrei da criança encolhida dentro de uma mala de viagem, do seu pai entretanto “detido”. É assim a minha revolta, inconsequente, breve, sórdida, absolutamente miserável.

2015/05/03

2015/04/29

Violeta

Todas as noites, antes de rezar, pego na bíblia e leio as passagens que o padre aconselha na missa de domingo. Uma passagem para cada dia da semana. Deito-me tranquila, sabendo que Deus me ama e protege. Mas, quando há lua cheia, não sei o que acontece, transformo-me numa qualquer. Não quero ser amada por Deus, quero ser amada por indigentes, velhos, bichos e, se bonitas e asseadas, também por putas. Nessas noites, abro a bíblia e procuro a página da passagem do dia. Arranco-a com cuidado e meto-a na boca. As folhas da bíblia mastigam-se muito bem. São finas, translúcidas e sabem a essência de violeta.

2015/04/25

Abril

O meu avô carpinteiro. A minha avó mondadeira. As velhas de lenço preto na cabeça, os montes pequenos e as casas feias. Eu, menina, encostada ao corpo morno da tia Dé, olhando, maravilhada, os postais da URSS. O meu pai, cheio de raiva, gritando comigo, batendo-me com o punho fechado na cabeça, sem suportar a minha traição. A dor da minha mãe. O José a beber uma cerveja pelo gargalo, a meter um arroto para dentro e a explicar-me a urgência de uma nova revolução. As noites passadas na Rua da Palma, no casarão da Rua da Palma, ébria, bêbada, trôpega, tentando esquecer a faculdade de direito. O Ricardo, na escadaria da biblioteca, a gozar o prato, a perguntar “Ó Ana, e então o Alexandre O'Neill?”. O Joaquim, batendo as teclas da psp, pedindo que volte a pôr o Charlatão. A Dá, hoje no desfile, de casaco cor-de-rosa, orvalhada pela chuva, etérea, olhando em redor e perguntando pela peça da Mila. Eu na multidão, vendo passar ao longe o velho da boina, imaginando-me ao lado do João Pedro,  passeando de mãos dadas, com um cravo preso na lapela do casaco.  

2015/04/23

Insectos

2015/04/22

Ernesto

Sabia fazer sarapatel, chacuti e balchão de peixe. Vivia num anexo da casa do Caniçado com o filho Ananias, um menino de carapinha azul que tinha a mania de atirar pedras ao meu irmão. Era um cozinheiro talentoso. Foi com ele, vendo-o trabalhar, que a minha mãe aprendeu os segredos da cozinha goesa. No Caniçado todos conheciam a sua história. Nascera numa aldeia perto do lago Niassa, mas, por ter matado a mulher, fora degradado para o sul da colónia. Apesar desse passado de violência, era um homem gentil, prestável, de modos educados. É assim que a minha mãe o recorda. Toda a gente gostava dele. Um dia, quando brincava na margem do rio Limpopo, Ananias ouviu um estranho canto e mergulhou nas águas lamacentas. Foi comido por um crocodilo. Ernesto, ao saber da notícia, manteve-se impassível, não verteu uma lágrima pela morte do filho. Continuou os seus afazeres. Como era seu hábito, limpou bem a cozinha e deitou-se cedo. Nunca mais apareceu.

2015/04/21

Pietá

Pensei na mão de dedos esguios entrando lentamente pela janela do carro. Masturbei-me como nunca antes o fiz, sem me fechar, sem sentir vergonha, sem sufocar, aceitando o meu corpo no seu vagar e mistério.  Tive um orgasmo e depois outro. Senti-me pura, iluminada por um sol novo. Levantei-me e fui fumar para a varanda. Um sorriso tolo parecia estar colado à minha cara, tentei uma expressão séria, mas o sorriso continuava preso aos maxilares. Como se tivesse fumado um charro. Voltei para o quarto e deitei-me. Pela primeira vez depois do divórcio, em vez de acantonada a um canto, adormeci bem no meio da cama. 

Ontem, depois do apartamento sossegar, deitei-me a ler. Lia, mas era como se não lesse, as personagens andavam pelas páginas como espectros, incapazes de captar a minha atenção. A lembrança da noite anterior não me largava. Ansiava pelo momento em que, apagada a luz, na penumbra, o meu corpo renascesse. Foi então que escutei passos familiares no corredor. Soube logo que era o mais pequeno, tem um modo de caminhar característico, a sua passada é acelerada e saltitante, parece um anãozinho torto a pisar um chão de cinzas incandescentes. Mal chegou mostrou os braços cheios de babas de mordedura de um mosquito. Peguei no meu filho ao colo e sentei-o na bancada da casa de banho. Coloquei-lhe fenistil nas pequenas borbulhas, dei-lhe beijos, falei-lhe com ternura. “Posso dormir contigo, mãe?”, acabou por perguntar, sabendo de antemão a resposta. Levei-o para a minha cama e esperei que adormecesse. Enquanto o observava, acantonada a um canto, recordei a pietá que encontrei na Igreja de São Domingos.

Beirut



(O Joaquim é o único filho que, como eu, gosta de chupar ossos de carneiro.)

2015/04/20

Seda libanesa

Marina desapareceu. Não a vejo há mais de um mês. Durante o último ano, com pequenos períodos de ausência, encontrei-a diariamente no semáforo da Av. Estados Unidos da América. Ao final do dia, no meio da rua, lá estava ela, magra, ossos salientes, um pouco vagarosa. Apesar da magreza, tinha um rosto cheio, redondo, de pele branca, leitosa e virginal. Usava sempre um ridículo barretinho vermelho enfiado na cabeça. Marina tinha ar de menina e lançava os malabares com pouca graça. Deixava-os cair frequentemente, não se atrevia a atirá-los muito alto. Outras vezes, enquanto os lançava, dava uns passinhos para a direita e para a esquerda, numa dança triste que me comovia. O seu número durava pouco tempo, talvez trinta segundos, mas era suficiente para me deixar com os olhos rasos de água. Ando meio sentimental desde que o cão morreu. Pouco antes do semáforo passar a verde tirava o barretinho da cabeça e, saltitante, caminhava entre o trânsito, pedindo uma pequena contribuição.

Marina, com os seus malabares dourados, apesar de me emocionar, alegrava-me. Cheguei a sonhar com ela. Estranha, bela e triste, a sua presença no tumulto da cidade parecia suspender a realidade. No semáforo da Av. Estados Unidos da América, por sua causa, a minha vida ganhava outra dimensão, infindável beleza. Esquecia o cão, os filhos, o trabalho. Às vezes, o seu rosto redondo espreitando pela janela do carro, eu apalpava desajeitadamente os bolsos do casaco, a mala, o saco do ginásio, fingindo não encontrar a carteira. Queria prolongar o nosso encontro. Espiava-a então pelo canto do olho. É diferente observar uma pessoa a certa distância e observá-la de perto, mas a proximidade, em vez de revelar Marina, tornava-a num enigma maior. Um dia, não sei de onde veio a coragem, não resisti a falar-lhe. Como te chamas? Que idade tens? Marina não disse nada. Recebeu a moeda e, num sorriso aberto, mostrou os dentes brancos e certinhos. A última vez que a vi, estava sentada de cócoras no passeio, junto à sua bicicleta. Contava o dinheiro amealhado. Sem que nada o fizesse prever, levantou-se e aproximou-se do meu carro. Enfiou a mão pela janela, uma mão de dedos esguios, macia como se estivesse enluvada, e, com delicadeza, abriu um pouco o lenço que nesse dia eu trazia enrolado ao pescoço, um lenço de seda libanesa que o meu marido me ofereceu pouco antes da separação. Tocou-me no rosto e esse gesto breve deu-me grande prazer. “Mi nombre es Marina, soy de Huelva”, disse numa voz clara, alegre e provocadora. Depois virou costas.