2015/08/06

Lagarto preto

Focada na cintilação do ecrã e nos papéis espalhados pela secretária, nem uma vez levantei os olhos para espreitar o azul na janela do gabinete. Reli o parecer, pareceu-me  bem escrito, juridicamente fundamentado. Ao fim do dia, quando atravessei a 5 de Outubro, a caminho do cinema, senti-me tranquila. Dá-me prazer cumprir os meus deveres: fazer bem o meu trabalho, pagar as contas no início do mês. Parei na livraria. Comprei vários livros do Petzi. Para o Joaquim e para os meus sobrinhos mais pequenos. Vão abraçar-me e, felizes, dizer “Obrigado, tia Ana!” quando no sábado lhos oferecer. Amorzinhos do meu coração. O livreiro, coisa estranha, não conhecia “ Os três mal-amados”. Ficou de o tentar arranjar. O Carlos é o melhor livreiro de Lisboa e continua a roer as unhas. Quando cheguei ao cinema tive um desgosto. O filme com a Juliette Binoche já não está em exibição. Contrariada, bufando, acabei por ir ver um filme espanhol bastante mau. É uma merda, mas descobri uma canção tão bonita. La ninã de fuego. Que maravilha! A determinada altura, quando Bárbara entra na porta do lagarto preto, para o sacrifício, também se escuta uma das Gnossiennes de Satie, acho que a primeira. Lembrei-me de Nosferatu, da sua sombra assustadora projectada numa parede e de como nunca me meteu medo. Voltei a atravessar a 5 de Outubro para ir buscar o carro. A meio da avenida, perto de uma porta de ferro forjado, muito linda, toda aos arabescos, cruzei-me com um homem e uma menina que levava preso por um cordelinho um balão azul. De súbito, olhando-os, deu-me vontade de chorar. Chorei. Quando entrei no edifício da Caixa, o segurança reparou nos meus olhos cansados, velhos, cada vez mais pequenos, borrados de rímel, mas não disse nada. Voltei para casa em silêncio, na cabeça, um torvelinho de pensamentos sombrios. Aqueci o feijão guisado que sobrou do jantar de ontem. Fumei dois cigarros. Bebi dois copos de vinho. Tomei banho. Ainda pensei em ligar ao Ricardo para falar um pouco, não estou habituada a estar sozinha à noite, mas não fui capaz. Telefonei aos meus filhos. 

2015/08/04

Lâmpada

Esta noite, nunca tinha acontecido, acordei para escrever uma frase. Não propriamente uma frase, mas a sua estrutura, a sua forma. Uma frase composta, interminável, com sentido, sem sentido, morfologicamente pobre, despida do seu corpo, adjectivos, substantivos, mas com as vírgulas exactas, as pausas exactas, a cadência certa. Uma frase para ser lida em voz alta. De manhã, quando acordei (de um pulo porque, por causa do vinho e dos comprimidos, não escutei o despertador), fui lê-la. Pareceu-me ultrapassada, antiquada, aborrecida, sobretudo pretensiosa. Já não se escreve assim. Hoje em dia, a forma pouco interessa. Diz-se muito, mas tão pobremente, tão desconsoladamente, faz-se uma literatura que não cuida da elegância e da beleza. Por exemplo, há palavras que, de tão feias, nunca utilizarei. Javardo. Esgalhado. Reverberação. Prefiro ter pouco ou nada a dizer, mas fazê-lo de forma a embalar quem me lê. A música de um texto é importante. A frase que escrevi era sobre um nariz. Encontrei também, junto do caderno, a lâmpada do candeeiro da mesinha de cabeceira. Não me lembro de a ter tirado.  

2015/08/03

Noite



(1:37:30)

2015/07/30

Passinho de dança

Jogamos futebol na cozinha enquanto ouvimos o Frank Sinatra. Baliza a baliza. O combinado é, antes de cada remate, cada um ensaiar um passinho de dança. O Joaquim joga bem à bola e é um excelente dançarino. Fica o menino contente e eu também. Nos intervalos dos remates, danço agarrada ao meu filho, sinto-me feliz, e lembro o homem que amo. É um homem bonito. Parece que é feliz com uma mulher dez anos mais nova do que eu. Falava-me dos Cantos de Maldoror, de Lautréamont e eu, tola, deslumbrada, amava-o mais e mais e mais. Antes de o conhecer não gostava do Frank Sinatra e agora gosto. O João nunca me amou e, no entanto, estupidamente, sinto que me deu tudo, que nenhum outro homem me poderá dar o que ele me deu. Puta que o pariu. 

2015/07/23

Caminho da manhã

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto, 1962

2015/07/22

Santa Luzia

Viana do Castelo vista de Santa Luzia, elefantes do circo banhando-se no rio Lima, as nossas sombras na álea de plátanos, gente melancolicamente louca, Sherlock Holmes e a mulher bonita, canteiros de begónias e petúnias, o prato de cavalas grelhadas na casa de pasto, raparigas espanholas fotografando-se junto do dinossauro de bucho na Calle Urzaiz. A muleta do gerúndio. Estar longe, sozinha com os meus filhos, fez-me sentir diferente. Aos poucos, quase sem dar por isso, espantei o vício de me banquetear com a minha própria dor. Partimos sem planos. E correu tudo bem. Senti-me invencível. Ouvimos o Benjamim Clementine, os Arcade Fire e comemos arandos secos. Tomámos banho na foz do rio Minho. Jogámos ao olho do cu, espojados na relva de um jardim. O Tiago expulsou o João Pedro e, durante duas noites, habitou os meus sonhos. Dormi sem acordar para fumar ou comer. Regressámos saciados, entontecidos de tanto amor, felizes por nos termos uns aos outros.

Na volta, a Graça e o Jorge, um romeno de dentes de ouro, tinham pintado a casa. O apartamento pareceu-me outro, luminoso, maior, limpo. A viagem pelo Minho fez-me largar a Teresa Veiga e voltar à Agustina. Ontem, enquanto a Madalena e o Joaquim viam a telenovela (o mais velho andava a monte), deitei-me com o Pedro Lumiares e a Semblano. Ema, muito linda e tola, debruçou-se na varanda do Romesal e deixou cair uma flor. Carlos adormeceu no baile das Jacas, as meias com baguete, de elásticos laços, descaíram, deixando-lhe à mostra os pêlos das pernas. Triste figura, a de um corno. Sublinhei palavras. Himeneu. Gineceu. Hissope. Palavras estranhamente belas. Diverti-me com as conhecidas contradições da narrativa agustiniana. Afinal, Ema é frígida ou sente prazer? Ou é uma frígida que busca o prazer? E Tomásia de Fafel é muito feia ou apenas moderadamente feia? Perguntas sem respostas. Nada disso interessa. Adormeci com a certeza de que desperdiço tempo que não tenho. Ver séries na foxcrime é bom, mas ler é decididamente o melhor remédio para me sentir viva.

Arcade Fire

2015/07/01

Dá-me

dá-me algo mais que silêncio ou doçura
algo que tenhas e não saibas
não quero dádivas raras
dá-me uma pedra

não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz

dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
e se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!

Carlos Edmundo de Ory


2015/06/30

À fresquinha

Fui à pastelaria comprar um palmier coberto. Sentei-me cá fora, no muro do hotel Barcelona, à fresquinha, a comê-lo. O grande leopardo vermelho do reclamo luminoso olhou-me com os seus olhos coruscantes. Passaram pessoas à minha frente. Passaram também táxis, camionetas, autopullmans cheios de turistas. Passou o cão coxo e passou o poeta. Ao vê-los passar, nem sei bem por quê, tentei recordar o poema preferido do João. Não consegui. Só sei que fala de amor, de uma pedra e de uma faca. A minha vida começa a ser apenas esquecimento. Penso nisso, no esquecimento, assusto-me e não sossego. Tentei então recordar o grito abafado do João quando certa vez lhe fiz uma mamada na casa de banho da Biblioteca Nacional. A minha memória não é sensível à poesia, nem ao amor, mas é perita em guardar o que é sórdido, vulgar, ordinário. Foi um esforço em vão. Deu-me vontade de chorar. Desfiz-me em lágrimas, ali no muro do hotel Barcelona, sentada à fresquinha enquanto comia um palmier coberto. Chorei durante muito tempo. As lágrimas escorreram e formaram um grande lago no cruzamento da Avenida de Berna com a  5 de Outubro. Felizmente, o grande leopardo vermelho, aturdido com o meu choro, saltou do reclamo luminoso. Lambeu docemente a minha cara e, depois de lançar um extraordinário rugido, engoliu-me. É um bicho bondoso.

2015/06/22

Mãos

Todas as segundas-feiras, à hora do almoço, na quietude do gabinete, quando apenas se escuta o ronco do ar-condicionado e, ao longe, por vezes, os passos pesados da Rosalina, pego na tesoura do papel e corto as unhas bem curtas. Recolho as que caem na mesa e meto-as no caixote do lixo. Fico depois a admirar as minhas mãos de dedos curtos, grossos, unhas de menina, limpas, com pequenas manchas brancas, sem saber o que fazer a seguir. Às vezes, tiro um livro da mala e leio. Outras vezes, como hoje, fico simplesmente paralisada, a olhar o azul do céu. Gosto muito das minhas mãos. Com mãos tudo se faz e se desfaz. 

Azul



(o amor é uma merda.)

2015/06/20

Líbido

Na altura, a revelação da verdadeira razão da vinda para Portugal da Maria de Lurdes caiu como uma bomba e cobriu de vergonha a minha família goesa. Passados alguns anos, a história está quase esquecida, ninguém fala do assunto. “Acabou por ter sorte, casou com um veterinário de Benaulim, tem um filho e uma filha, muito bonitos, quase brancos, mas continua completamente louca…”, explica o meu pai e, quando pronuncia a palavra “louca”, faz uma cara de nojo que acentua a sua fealdade. “Louca?”, pergunto-lhe, divertida com a conversa. O meu pai parece hesitar, olha fixamente Parvati, a segunda consorte de Shiva, enquanto calça os ténis que comprámos há dois anos em Nova Deli. “É tarada. Só pensa em sexo”, acaba por responder e explica os contornos da vergonhosa líbido da sobrinha. Dotada de um desejo insaciável, uma fogosidade intensa, parece que a minha prima não dá descanso ao marido. O veterinário, de tanto lhe acudir, sente-se esgotado, tão esgotado que até já pediu ajuda ao Marlindo. O Marlindo, também meu primo, psiquiatra numa plataforma no mar do Dubai, receitou-lhe uns comprimidos e, beato, baboso, devoto, mandou-o rezar o terço logo de manhã. Nada fez efeito. “O marido da Maria de Lurdes nem parece o mesmo. Encontrei-o na festa da tia Maria e, de tão chupado, está irreconhecível.”, remata o meu pai e, sem mais, sai para a sua caminhada. Corro atrás dele, custa-me acompanhar a sua acelerada passada. O meu pai é um velho mau e formidável. Ao lado dele, sou feliz; miserável, mas feliz. Caminho e, na noite que cai, sinto-me afortunada pela família que tenho. Há de tudo: ninfomaníacas, deprimidos, maníaco-depressivos, mitómanos e até um primo esquizofrénico. Assim é que é bom. Detestaria ter uma família onde só houvesse gente estupidamente sã, insuportavelmente feliz. 

Benjamin Clementine




2015/06/18

Jói de laranja

O psiquiatra diz que devo contrariar a solidão. Aconselha-me a estar com outras pessoas, conhecer outras pessoas, falar com outras pessoas. Inscrevi-me por isso num clube de leitura. É organizado por uma associação recreativa que funciona num palacete em Xabregas. Servem bolinhos secos de pacote, jói de laranja e chá preto. No primeiro encontro, foi hoje, falei com uma rapariga ruiva e uma outra, de caracóis largos, que se atrapalhou a dizer o nome de um dos livros do Italo Calvino. A ruiva cheira a suor, tem os dedos dos pés gordos e enclavinhados,  mas é simpática, ri-se bastante. A dos caracóis nem por isso, parece uma monja, tem um ar pesado, circunspecto, próprio de quem considera a literatura um assunto sério, intocável, essencial. “Nunca deixo um livro a meio”, disse com voz enfadonha quando lhe expliquei que cada vez tenho mais dificuldade em acabar uma história. Até dia 4 de Julho tenho de ler “O Baile”, da Irene Nemirovsky. Li-o há coisa de um ano, sei que gostei de o ler, e, no entanto, não me lembro da história, nem sequer de uma personagem, de uma frase ou de uma palavra. Pergunto-me: leio para quê?

2015/06/17

Mother's Little Helper



(O meu pequeno comprimido amarelo.)

Sainete

No Festival Literário da Gardunha, conheci o João Ricardo Pedro que, ao almoço, enquanto comíamos, desconsolados, um bacalhau desfeito numa cama de puré, explicou ter a certeza de que na vida apenas escreverá três ou quatro romances. Lembrei-me do Albert Cossery, escritor egípcio que fez a apologia da preguiça e do ócio. Cossery viveu até aos 90 anos e deixou apenas oito romances escritos. Foi um escritor de uma qualidade singular, raríssima, original. Se fazia a apologia da preguiça e do ócio não era por ser madraço, ou desprendido, mas por ver nestas atitudes o veículo essencial para uma actividade interior intensa de reflexão sobre a vida e o mundo. Numa das suas entrevistas, estranhava aqueles escritores que escrevem cinco páginas por dia. Referindo-se a esses escribas, explicou: “Não escrevem, apenas redigem um texto qualquer. Eu escrevo uma frase. Simplesmente, reviro-a vinte vezes para conseguir dizer alguma coisa.”  Às vezes, passeando pelas livrarias, folheando este e aquele livro, fico com a sensação de que são poucos os autores que reflectem sobre aquilo que escrevem e amadurecem as suas obras. Têm competência narrativa e pouco mais. Talvez muitos desses escritores sejam pressionados pelas suas editoras para publicar, não sei, talvez outros tantos procurem na escrita um certo prestígio social. Ser escritor dá muito sainete. Se me perguntarem o que sou e eu disser que sou bancária, ninguém me ligará, mas se disser que sou escritora, todos arremelgarão os olhos de admiração, pouco ou nada importando se o meu trabalho é bom ou mau. Acontece que os leitores, os verdadeiros leitores, não são tolos, são exigentes e inteligentes. Percebem quando um livro é um grande embuste. O que mais para aí há são livros que são grandes embustes. Quando falo de embustes não me refiro a esses livros que enchem as montras e os escaparates das livrarias. Esses, sendo o que são, pelo menos são autênticos, não aspiram à qualidade que a literatura, a verdadeira literatura reclama. Falo de um outro tipo de escrita, que se demarca dessa primeira, que goza até essa outra, a tal que é ligeira, light, mas que, bem vistas as coisas, muitas vezes, tantas vezes, não é muito diferente. Poderia enunciar uma mão cheia de autores, premiados, lidos, consagrados que melhor fariam em estrangular a voz e manter-se calados. E se não digo nomes é apenas por cobardia. Ser cobarde faz parte da minha natureza. Ao ouvir o João Ricardo Pedro dizer que apenas escreverá três ou quatro romances senti-me envergonhada por, cedendo à minha própria vaidade, miserável vaidadezinha, ter publicado uma colectânea de textos de um blogue, mais ainda por ter ficado magoada com a apreciação que a Lúcia fez do romance que escrevi.

2015/06/16

Feijão-frade

Faltam-me os dois últimos molares da arcada superior. Apodreceram há alguns anos e tive de os arrancar. A sua falta, não me desfeando o sorriso, dificulta a mastigação de certos alimentos. Para além de me faltarem esses dois dentes, aos quarenta e três anos, já tenho um implante e uma coroa. Hoje, à hora do almoço, enquanto chupava uma casca de feijão frade dos dentes, fui novamente assaltada pelo medo de ficar desdentada. É um medo relativamente recente. A Virginia Woolf aos trinta e poucos anos arrancou três dentes de uma assentada. Esse facto, chegado ao meu conhecimento através da leitura do seu diário, impressionou-me muito. Até então, sempre que a convocava aparecia-me pela frente uma rapariga vestida de branco, sorriso quase imperceptível, olhos plácidos, caídos para o chão, o cabelo escuro apanhado sem preocupação. É assim que Virginia aparece  na sua fotografia mais famosa. Já não consigo imaginá-la assim, etérea, ausente, como um espectro. Se penso nela, e penso muitas vezes, vejo apenas um corpo doente, apodrecido. Uma mulher velha, enlouquecendo devagar, cada vez mais triste, cada vez mais feia.

2015/06/15

Lava

A Madalena está no treino, os rapazes estão no pátio a jogar à bola com o miúdo que se mudou para o apartamento do lado. Deambulo pelos quartos, pela sala. Tudo nesta casa está velho, gasto, há azulejos partidos, tacos levantados, as paredes estão sujas, precisam de pintura nova. Gostava de mudar de casa, de começar noutro sítio qualquer, mas não tenho nem dinheiro nem energia. Pego no livro que ando a ler. Memento Mori, da Muriel Spark. Não estou a gostar muito. Sinto uma picada por baixo do braço. Apareceu-me a menstruação esta manhã. Dói-me, como sempre, a mama esquerda. Volto à cozinha, espreito o bolo de banana que prometi fazer ao Joaquim. Leva bicarbonato de sódio em vez de fermento. Talvez por isso esteja tão bonito, a forma cheia. O dia termina, lá fora já quase não há luz. É a hora da solidão e do silêncio. A hora da metamorfose. Passo a ser nada, apenas o vazio. Gostava de me transcender pela escrita. Ser mais qualquer coisa através da escrita. Na semana passada, enquanto corria, surgiu-me uma ideia para um livro. É uma ideia boa, cheia de força, mas tenho medo de me sentar em frente do computador e de começar a escrever. O Deniz disse-me um destes dias que a sua amiga T. pontua melhor do que eu. Fiquei a pensar no assunto. Pontuar bem um texto é muito importante. Já não há quem pontue bem um texto. Quem escreva uma frase com absoluta correcção. Sinto-me triste, sozinha, a solidão pesa-me, estranhamente, porém, não quero estar com ninguém. Quero apenas abrir uma garrafa de vinho e beber dois ou três copos. Bebo demais. O vinho dá-me paz, adormece-me. Tenho comichão na mão. Acho que estou novamente com escabiose. 

2015/06/09

2015/06/08

Areal

Quando o negro das pulseiras passa no areal, serpenteando entre guarda-sóis, à procura de freguesas que queiram uma fitinha da nossa senhora do Bonfim, deixa no ar um cheiro intenso a suor. A rapariga de cabelo oxigenado, o biquíni branco, muito cavado, enfiado no rego do rabo, faz uma careta de nojo e, com exagero, abana a mão em frente do rosto. O namorado, musculado e tatuado, ri numa hilaridade forçada, tão boçal, que a argolinha que traz presa no mamilo esquerdo se solta e cai na areia da praia. Que aflição! Agora a rapariga do cabelo oxigenado anda ali, de rabo para o ar, à procura da argolinha de ouro. O namorado merece o esforço, não cheira a catinga, isso não, cheira a patchouli, a madeiras de sândalo, é tão bonito e um dia, se Deus quiser, há-de ter um Audi descapotável. A loira dá um grito estridente. Encontrou finalmente o pequeno tesouro. O namorado puxa-a para si e beija-a à vista de todos. Voltam a rir. Riem durante muito tempo, esquecidos do negro que passou no areal e deixou no ar um cheiro intenso a suor.