2016/04/25

Pedras



Poema da Maria Teresa Horta, voz da Teresa Paula Brito, a mulher de olhos claros que cantou "Verdes Anos". Os quatro poemas do disco pertencem ao livro "Minha Senhora de Mim" da Maria Teresa Horta, proibido pela PIDE. Pergunto-me: somos herdeiras dignas das mulheres de Abril? Respondo por mim. Não sou. 

2016/04/22

Ingénua Manuela



(hora de almoço.)

Futuro radioso

Encontro o meu pai já de pijama, sentado em frente da televisão. Beijo-lhe o cabelo, sinto o aroma da loção capilar que usa há muitos anos e sento-me no sofá. O que estás a ver?, pergunto. Não responde. Olha a televisão como se o aparelho fosse uma feiticeira capaz de encantamentos e canções mágicas. O meu pai está hipnotizado. Olho à procura da razão de tal pasmo. Imagens de abandono e desolação. Uma piscina coberta, um tanque profundo, vazio, descarnado, o fundo de ladrilhos soltos. Blocos habitacionais, ruas e ruas, alamedas, avenidas, de blocos de apartamentos, todos iguais, casas que parecem clones, umas atrás de outras, numa arquitectura assexuada, traçada em linhas paralelas e perpendiculares. Ninguém caminha por aquelas ruas. Ninguém habita aqueles apartamentos. Uma floresta rompe os espaços abertos, as raízes grossas tomam conta dos passeios, das estradas e dos cruzamentos. Árvores frondosas, de folhagem brilhante e frutos envernizados, impedem as ruas de receber luz. A cidade é azul e sombria. Centáureas gigantes, carnívoras, mostram os seus cardos roxos. A câmara passa depois para o interior dos apartamentos dos blocos habitacionais. Paredes de tinta estalada, objectos esquecidos. Um cadeirão de braços forrado a napa vermelha, uma cadeira de espaldar tombada. Posters gigantes: Brejnev, Chernenko, Gorbatchov. No parapeito de uma janela estão dois peixinhos de borracha amarela. Pelo chão desses apartamentos, em nichos de lixo e entulho, há bonecas de corpo rijo, pose estática, pernas abertas. Dormem de olhos abertos um sono eterno. Um parque de diversões. A roda gigante tem cabines folheadas de chapa amarela. Campânulas solitárias balouçando ao vento. Há também um carrossel de cavalos que sorriem, mostrando a beleza da sua dentadura equídea. Percebo tratar-se de uma cidade abandonada, uma pompeia soviética. Que cidade é esta, cristalizada no tempo e no espaço, que mostra a beleza do silêncio e do vazio? 

Uma voz explica, por fim, a história daquele lugar. Trata-se de Pripyat, situada a 30 quilómetros de Chernobyl, cidade planeada para acolher cientistas, engenheiros, operários. Tinha um cinema, um teatro com uma grandiosa escada de caracol, várias piscinas, um hotel, muitas escolas e hospitais, possuía todas as infra-estruturas que o regime soviético considerava necessárias para o bem-estar do povo. Habitada por quem trabalhava na central nuclear, a média de idade dos cerca de quarenta mil habitantes da cidade rondava apenas os 26 anos. Para o regime todas as cidades deviam ser como Pripyat, planeadas, organizadas, assépticas, sem espontaneidade ou liberdade, regras claras de distribuição dos habitantes, edifícios para casados, edifícios para solteiros, procedimentos claros sobre a utilização dos espaços públicos. Só se é feliz com regras. Pripyat, cidade modelo, onde o futuro se cumpria no presente.

No dia a seguir ao acidente, a cidade despertou na sua rotina, ignorando a dimensão da tragédia. Um homem pediu à mulher que lhe preparasse um borsch com natas azedas para o jantar; uma rapariga levou para a fábrica uma merenda de conservas de pepino escuro; dois amigos planearam uma pescaria no rio, num recanto fresco, perto de um bosque de abetos, onde nadavam as trutas mais gordas; uma mulher apanhou o comboio para Kiev na estação de Yanov e, ao olhar a cidade sentiu, sem a saber explicar, a tristeza dos espaços vazios. Nessa manhã, a vida continuou como se nada fosse, porém, o bicho invisível já se havia espalhado por toda a cidade, entrara nas casas, gotejara pelos algerozes, penetrara nos solos, espreitara pelas frinchas, procurara o coração dos objectos, dos animais e das pessoas para aí se instalar. A catástrofe chegou à tarde: foram afixados em todos os blocos, em todas as portas, em cada espaço público, avisos de evacuação. Explicavam que a cidade teria de ser evacuada. Era uma evacuação temporária, os habitantes deveriam levar pouca coisa, elementos de identificação, qualquer coisa para comer, deixassem tudo como estava, trancassem os seus apartamentos, voltariam em breve. Depois, chegaram autocarros, mais de mil, vindos de toda a república. Os habitantes de Pripyat nunca voltaram. Ficou a cidade deserta, quieta, envelhecendo. A floresta boreal avançou e cobras radioactivas treparam pelas paredes, aninhando-se dentro do corpo das bonecas que as meninas não puderam levar. Pripyat, cidade modelo, onde o futuro radioso nunca se cumpriu.

O documentário está quase a terminar, o meu pai já tem o comando na mão, prepara-se para mudar de canal. A última imagem que vejo é a de um homem jovem que fala num inglês truncado, próprio dos eslavos. Entra num apartamento, era ali que morava numa perpendicular à Avenida Igor Kurchatov. Aos domingos, explica, entrando num quarto, a minha irmã ia com a minha mãe ao Hotel Polissia preparar o desfile do 1º de Maio, eu ia com o meu pai à piscina e passava horas a nadar. Caminha pelas divisões em silêncio. Fui feliz em Pripyat, diz, por fim. Levanto-me. Volto a beijar o cabelo do meu pai, também ele forçado a abandonar uma cidade e uma vida. 

2016/04/21

Volúpia literária

Às quinze horas e trinta minutos, comecei a estudar o processo do jovem professor. À medida que folheava o processo, lendo relatórios médicos e guias de tratamento, comecei a sentir vontade de fugir, as goelas estranguladas, a habitual sensação de desorientação e desperdício. Às quinze horas e trinta e quatro minutos, levantei-me. Percebi que o choro vinha descontrolado, amarinhava por dentro, em menos de um minuto, haveriam de assomar-se lágrimas aos meus olhos. Fiquei com a visão embaciada, percebi que não tinha tempo para chegar à igreja de Nossa Senhora de Fátima que é o sítio perto do trabalho onde gosto de chorar. Fico ali, na penumbra, perto do altar da Nossa Senhora do Carmo, a contar os anjos dos vitrais e a escutar o chiar dos sapatos ortopédicos das velhinhas no chão encerado. Corri à casa de banho. Tranquei-me no cubículo da retrete. Tapei o rosto com as mãos e comecei a chorar. Mordendo os lábios, sem conter os soluços. É tão bom chorar. Chorar mata a tristeza assim como a água mata a sede. Às quinze horas e quarenta minutos, senti alguém entrar na casa de banho e abrir a torneira do lavatório. Calei o choro e deixei-me estar quieta. Às quinze e quarenta e três, a mulher do outro lado, cansada de esperar, bateu à porta. Aborrecida, sorvi o ranho para dentro. É só um bocadinho!, respondi e comecei a limpar os olhos. O papel encheu-se de preto. Imaginei a minha figura. Deixei-me estar sentada na sanita a olhar o recipiente dos pensos higiénicos. A mulher que esperava foi-se embora. Saí do cubículo da retrete e olhei-me ao espelho. Há poucos suicidas na literatura contemporânea portuguesa. É uma pena. Não há boa literatura sem suicidas., disse para o reflexo. No corredor, cruzei-me com a Linda, colega do quinto piso. Gabei-lhe a cor da blusa. Ela perguntou pelas férias e pelos miúdos. Quis saber se tinha descansado. Muito, muito!, respondi, naturalmente mentido. Detesto férias, feriados, fins-de-semana. Só gosto do Natal. Comove-me o menino deitado nas palhinhas e ainda um dia hei-de fazer eggnog para a ceia. A determinada altura, eram quinze horas e cinquenta e dois minutos, a Linda começou a olhar fixamente para os meus olhos. Entrou-me uma poeira., respondi. Às dezasseis horas, sentei-me novamente à secretária. Olhei a paisagem estática que se vê da janela. Prédios feios, escritórios e hotéis, caixas do ar condicionado, nem um estendal, nem uma cortina, nem uma varanda florida. Há doze anos que olho por esta janela. Voltei a  pegar no processo do jovem professor. Aos trinta anos, foi internado compulsivamente, com um diagnóstico terrível: psicose delirante crónica. Senti-me bastante aliviada por ter apenas depressão crónica. A vergonha que seria para a minha família, sobretudo, para os meus meninos, se eu tivesse uma doença assim. Não chego a ser bem louca, sou apenas, como diz o meu filho mais velho, completamente instável. Quando ele vem com essa conversa, ouvida desde pequena ao meu pai e irmãos, tenho vontade de disparatar. Mentalmente mando-o para a puta que o pariu, que é o meu insulto preferido e serve para toda a gente, mas depois, logo a seguir, lembro-me que a puta que o pariu sou eu. 

(volúpia literária, o caralho.)

2016/04/06

Hora de jantar

Ninguém podia falar. O pai exigia silêncio. De olhos postos no televisor, comendo devagar, prestava atenção às notícias que a locutora ia apresentado. O jantar era sempre assim: o pai vendo o telejornal, os filhos comendo em silêncio, a mãe, em frenesim tardio, depois de um dia de trabalho, despachando o que houvesse a despachar para estar pronta à hora da telenovela. Ana estava bem avisada sobre a postura que devia ter durante a refeição: silêncio absoluto para não perturbar o pai e, se possível, se quisesse agradar-lhe, mostrar interesse nas notícias. Por vezes, distraía-se. Esquecida das ordens, falava com a irmã mais nova. Lúcia era habilidosa com as mãos. Para controlar a ansiedade que o silêncio imposto lhe causava, tinha o hábito de fazer dobragens com as folhas translúcidas dos guardanapos. À hora do jantar, saiam das suas mãos cravos, nenúfares, pequenas rosas.
- Que rosinha tão linda!
- Gostas?
- Ensina-me a fazer…
- Tu não és capaz, Ana!
- Sou sim!
- Tens sempre negativa a Trabalhos Manuais…
- Estúpida.
Riam-se. O pai não dizia nada quando via as filhas alegres, continuava a ver televisão, mas descaíam-lhe os cantos da boca, os olhos ficavam gelados. Carlos, o filho mais velho, chumbara já duas vezes no curso de Direito, era um desgraçado, nunca seria ninguém na vida, as raparigas, via-se bem, iam pelo mesmo caminho. Duas filhas, duas ignorantes que se deslumbravam com flores de papel em vez de se interessarem pelas notícias do mundo. A mãe, aflita, temendo que a desilusão do marido se transformasse em raiva, abria os olhos. “O vosso pai está a ver o telejornal!”, acabava por dizer. Lúcia logo esmagava a flor de papel na mão. Calava-se. Ana fingia não ouvir, mas, quando o pai por fim a mandava calar, desprezo na voz, calava-se também. Aquilo custava-lhe. Sentia então raiva, fazia por se controlar, não podia responder, a resposta poderia desencadear reacções violentas no pai. Ana, nesses instantes, assustava-se: pressentia que se tivesse ao seu alcance uma pedra, uma faca bem afiada, mataria o pai. Mexia com o garfo o arroz branco no prato. Não gostava de arroz branco, mas em casa, para além das batatas a acompanhar o peixe cozido, apenas se comia arroz, sempre branco, sempre cozido em água e sal. O pai só gostava de arroz branco. Observava os azulejos das paredes, a mãe, numa azáfama, de volta do fogão e do lava-loiças. Tudo era triste e desolador: o egoísmo do pai, a subserviência da mãe, a violência contida em cada gesto à hora de jantar.
Passados alguns anos, já Ana e Lúcia eram adolescentes, Carlos saíra de casa para viver num quarto alugado, o pai – talvez por sugestão da mãe – passou a jantar sozinho na sala. Depois de tomar banho, de robe e pijama, sentava-se na poltrona em frente da televisão. Cheirava bem, a sabonete e champô, estava limpo, tinha mãos bonitas, um cabelo espesso, muito preto. Ana sentia vontade de se sentar ao seu lado, mas não era capaz. O pai era um estranho, um homem que vivia na mais completa solidão. Antes de começar o telejornal, a mãe levava o tabuleiro à sala: um pano lavado, o arroz na quantidade exacta, uma costeleta frita, molho sobre o arroz, a acompanhar, um copo de vinho. Voltava depois à cozinha, onde, sentadas à mesa, Ana e Lúcia a esperavam para começar a jantar. Comiam em silêncio. Estavam habituadas ao silêncio. Tudo continuava a ser triste e desolador. Só o pai, concentrado nas notícias, sem ter ninguém a perturbá-lo, parecia agradado com a mudança. A sua felicidade era evidente: estava acompanhado pelo mundo e sua gente, mas livre da família.

2016/04/05

Afectuoso



Contaram-me, mas ainda me custa acreditar, que a Natália Correia não gostava de Bach. Preferia o absolutamente irrelevante Satie: escuta-se com agrado num elevador. Gosto menos um bocadinho da Natália Correia. 

2016/04/03

Lucia Berlin



(Desde sexta-feira, quando li o artigo da Isabel Lucas no Público, que esta mulher não sai da minha cabeça. Edward Abbey, Chinua Achabe, Sherwood Anderson, Jane Austen, Paul Auster. By the time she read the all wall, she was better.)

2016/04/02

Sangue mau

Uma vez por mês, corto o pulso da mão esquerda e deixo escorrer o sangue mau. Assim que me vêem no meio do quintal, sentada na cadeira que foi da minha avó Felicidade, os filhos da vizinha largam as brincadeiras e espreitam pelo muro. A Micaela, pequenina, tem de se pôr em bicos de pés para me ver melhor. O Luís, o irmão, às vezes pega-a ao colo e senta-a em cima do muro. Ficam à espreita, em silêncio. Olham para mim, olham para o céu. Esperam a chegada do abutre. Há muitos pássaros na aldeia, andorinhas, cucos, gaios, até cegonhas, também há outras mulheres que cortam os pulsos, mas nunca aparecem abutres. Assim que notam a sua sombra no céu, os meninos agitam-se. “Mana, olha as asas dele!”, diz o Luís.  “É tão feio…”, diz a Micaela e esconde o rosto com as pequenas mãos papudas. O abutre pousa ao meu lado. Faço-lhe uma festa na cabeça, é um velho amigo, conheço-o há muitos anos. Não perco tempo. Apesar da pele ser dura, estar tão calejada, faço sempre o corte no sítio da cicatriz antiga. Não quero outras marcas no corpo. O sangue mau, de tão espesso, escorre devagar. O abutre bebe-o. Imediatamente, essa a vantagem da sangria em relação a outros tratamentos, sinto alívio, um bem-estar que, apesar de transitório, me serena. A sangria constitui o nervo da cura, é nela que fundo toda a esperança. Quando o sangue se altera, fica claro, fluído, é tempo de parar. Livre do sangue mau, coso os bordos do corte. Faço outra festa na cabeça do abutre. Caminho na direcção do muro. Mostro o pulso aos meninos. O Luís não diz nada. Limita-se a olhar para a cicatriz. A Micaela, audaz, toca-lhe com os seus dedinhos gordos. 

2016/04/01

L'ombre des femmes



Vive-se melhor sem amor. 

2016/03/29

2016/03/23

Duas alianças

Caiu na esquina da 5 de Outubro com a Avenida António Serpa. Ficou no passeio durante duas horas, em frente da casa da sorte, à espera que chegasse o delegado de saúde pública. O dia de trabalho a terminar, a cidade no tumulto habitual, fiadas de taludas e raspadinhas na montra da casa da sorte e o corpo ali, coberto com um pano azul, fitas amarelas em volta, um polícia a guardá-lo. Gente passava, apressada, a caminho da estação de comboio. Algumas pessoas paravam, apontavam, faziam perguntas ao polícia. Queriam saber do suicida. Fora um homem? Uma mulher? Novo ou velho? E de que andar se atirara? Outras pessoas continuavam o seu caminho mal levantando os olhos do chão. Houve nesse dia um prémio elevado no euromilhões, mas, com um morto à porta, ninguém entrou na casa da sorte. O dono veio cá fora pedir explicações ao polícia. Aquele aparato estava a dar-lhe cabo do negócio. Passara já uma hora e o corpo continuava ali! O polícia procurou acalmá-lo, o delegado de saúde pública já vinha a caminho e, assim que elaborasse o auto, os serviços camarários haveriam de limpar o sangue das pedras da calçada com jactos de alta pressão. Eram assim os procedimentos legais. O dono da casa da sorte preparava-se para responder quando uma rajada de vento levantou o pano azul e mostrou um braço, a manga de um casaquinho cor de vinho, o início de uma mão velha, a pele coberta de manchas, duas alianças num dedo magro. O dono da casa da sorte calou-se, o polícia desviou o olhar e os castanheiros da Índia romperam em verde primaveril. 

2016/03/22

Distimia




2016/03/19

Pentelhos

Na livraria, antes de ir ao cinema, folheei a Cão Celeste. Não tenho interesse pela revista: acho-a aborrecida e insuportavelmente pretensiosa. Encontrei um conto da Ana Teresa Pereira sobre um menino, uma cadelinha e uma velhinha. Eriçaram-se-me os pêlos todos do corpo, incluindo os pentelhos.

Lush Life

2016/03/18

Yuri

Quando não chove os homens trocam o balcão pela esplanada. Estendem as pernas, apanham sol, conversam, bebem cervejas pelo gargalo das garrafas. Na rua, a caminho do supermercado, passam mulheres carregadas de filhos e compras. São feias, gordas e precocemente envelhecidas. Às vezes, de vez em quando, passa uma rapariga bonita. Com os mesmos filhos, os mesmos sacos de compras, mas bonita. O chefe dos soldadores logo lança um comentário ordinário. Os outros homens riem. Yuri também. São sempre assim os finais de tarde: Yuri com os outros homens que trabalham na construção do segundo tanque, em animado convívio. Mas, se rebenta uma tempestade, dessas comuns no norte, Yuri deixa de participar nas conversas. Não ri dos comentários do chefe dos soldadores. Parece mesmo não os escutar: em silêncio, imóvel, fixa com atenção a grande janela do café. Ao ver a chuva estalar nas vidraças recorda a noite em que encontrou o velho na sua cama. 
*
Chovia muito nessa noite. Depois de sair da obra, Yuri passara pelo supermercado para comprar o jantar, meio frango assado, uma caixinha de cuscuz para o jantar, uma coca-cola para acompanhar, e fora levantar a encomenda de Ana aos correios. Ana, a sua querida irmã Ana, mandava-lhe, pelo menos uma vez por mês, uma encomenda cujo conteúdo variava consoante a sua própria inspiração: um frasco de champô de ervas, um bálsamo para desentupir o nariz, latas de arenque fumado, pacotes de bolacha, caramelos de seiva azul, revistas, livros, folhas e flores secas, fotografias, desenhos e colagens feitas por si. Yuri nunca sabia ao certo o que ia encontrar. Sentia por isso uma excitação febril quando recebia o aviso para levantar a encomenda da irmã. Naquela noite, ao caminhar pelo bairro com o pacote por baixo do braço, antecipava o momento em que rasgaria o papel grosso e se surpreenderia com as coisas que Ana escolhera dessa vez. Talvez, imaginava, lhe tivesse mandado fotografias do jardim. Por aquela altura, as árvores à volta do lago já deviam ter folhas e os canteiros, floridos, perfumados, atenuavam a tristeza da aldeia. Yuri sentia-se feliz porque naquela noite Jonas não o perturbaria com os habituais comentários e Lucas, ao contrário do que sempre fazia, não lançaria olhares invejosos quando o visse barrar tostas com a pasta de salmão que Ana lhe mandava. Àquela hora, Lucas, Jonas e os dois marroquinos já deviam estar na festa de despedida de Pavel. 

2016/03/16

Cama

Passo a manhã de sábado a fazer as limpezas que não consigo fazer durante a semana. Aspiro, arrasto sofás, limpo as casas de banho, lavatórios, bancadas, banheiras, retretes, penteio os cadilhos dos tapetes da sala, tão direitinhos que ficam, lavo os vidros engordurados da cozinha com rolos de jornal amachucado, aplico óleo de cedro nos móveis. De todas as tarefas que decorrem ao sábado de manhã e que deixam a casa bem limpa, gosto especialmente de mudar a roupa da minha cama. Aprecio essa tarefa doméstica mais do que qualquer outra. Encaro-a mesmo com um zelo especial. Primeiro, arranco os cobertores, a seguir, com igual vigor, puxo os lençóis que, numa trouxa, lanço para o chão. Aspiro o colchão com cuidado, enfiando o bico de pato em todas as ranhuras e frestas da cama, expurgando assim o antigo leito conjugal dos bichos que se alimentam de pó. Os lençóis são depois abertos com um gesto largo, sacudidos com rapidez, às vezes estalam, fica aquela brancura a planar sobre o colchão. Entalo bem os cobertores e faço uma dobra perfeita com o lençol de cima, nem muito grande, nem muito pequena, a barra bordada a ponto cruz simetricamente colocado ao meio. Estendo, por fim, a colcha, disponho os almofadões, olho para a cama no meio do quarto limpo, o sol da manhã a entrar pelas janelas abertas. Experimento nesse instante uma sensação de conquista. Destruí e construí, penso, e transporto para a minha vida a significância libertária de tais gestos; serve tal filosofia para explicar o universo da casa e dos objectos, também para escolher os  meus alicerces. 

Azul escuro

2016/03/14

Brilho metálico

Ao atravessar o corredor em direcção ao quarto, sente o cheiro da cera que ainda esta semana aplicou no soalho. É um cheiro bom de madeiras antigas, que a conforta por  lhe mostrar aquilo que a casa é: um lugar onde o tempo passa sem ruído ou sobressaltos. Mas, hoje, estranhamente, o cheiro da cera não lhe traz conforto, apenas uma sensação vaga de enfado. Fica parada no corredor durante alguns instantes, sem saber o que fazer, depois decide ir à casa de banho. Não tem propriamente vontade de ir à casa de banho, pretende apenas adiar o momento em que voltará a estar sozinha no quarto. Sabe que, apesar do sono, quando chegar ao quarto não conseguirá adormecer. Mal a luz se acende, dois peixinhos-de-prata esgueiram-se para baixo do móvel do lavatório deixando no chão um rasto de brilho metálico. Tenta esmagá-los com a ponta do pé. Não consegue. Senta-se na sanita. Não quer pensar em nada, quer apenas estar ali, a observar as cornucópias do resguardo plastificado da banheira e a contar as flores que preenchem os intervalos dos pequenos chifres retorcidos. Mas, por mais que tente, a certeza de que em breve voltará ao quarto continua a assustá-la. Os seus pensamentos tomam um caminho conhecido do qual não pode fugir. É como se uma mão invisível, um corpo estranho, qualquer coisa, a empurrasse nessa direcção. 

Quando vier a Primavera

2016/03/13

2016/03/12

Peixe de luz

Primeiro dia de chuva. Atravessamos o bairro e, depressa, muito depressa, chegamos à beira-rio. Não se vê ninguém. Até aqueles que correm, detestáveis novos super-heróis, desapareceram. As águas, batidas pelo vento, estão muito agitadas. A neblina, de um branco sujo, limita o horizonte. Naquela zona do parque, quando há sol, vê-se o casario de Sacavém e da Bobadela. Nos dias mais claros, se focarmos o olhar, é mesmo possível ver o recorte do arvoredo na recta do cabo. Hoje, porém, com a chuva, a linha do horizonte diluiu-se, desapareceu. Entre o céu e a terra, entre o céu e a água, não se percebe o que começa ou acaba. A beira-rio, sempre ruidosa e alegre, transformou-se noutra paisagem, adquiriu uma beleza agreste, solitária, misteriosa. Caminhamos pelos relvados e rapidamente os nossos pés ficam molhados. O Joaquim apanha folhas e pedras que mete no bolso do impermeável. De tão feliz,  em vez de andar, o meu filho galopa como um potrozinho.

No passadiço de madeira, no pontão junto da estátua da princesa, um rapaz vigia três canas de pesca. Quando nos vê, como se intuísse o nosso desejo de proximidade, faz um gesto para avançarmos. De uma caixa azul tira um casulo. Do casulo tira uma minhoca. Mais parece uma centopeia, tem a cabeça achatada, patinhas que se movem numa euforia que causa repulsa. O rapaz enfia a minhoca na ponta do anzol, fá-la deslizar pela curva do gancho, explica que tem de ficar assim, bem presa, caso contrário, os peixes serão capazes de a tirar e fugir em liberdade. O rapaz continua a falar com o Joaquim. Explica-lhe o seu ofício. Inclina-se agora sobre a protecção de metal e puxa um cesto de rede. Mostra a pescaria do dia. Dentro do cesto há dois peixes muito diferentes. Ainda estão vivos. O maior, esverdeado, assemelha-se a um tamboril. É feio: olhos esbugalhados, a pele lisa, barbatanas curtas, a cabeça enorme, desproporcionada em relação ao resto do corpo. “É um xarroco não é?” pergunto. O rapaz olha-me com espanto. Não conhece as minhas idiossincrasias: tivesse eu tempo e cabeça e aprenderia o nome de todas as árvores, de todas as flores, de todos os monstros que habitam as águas escuras e profundas do rio. 

O outro peixe mexe-se no fundo do cesto. É bonito. O fole das guelras, de um vermelho escuro, muito intenso, faz-me lembrar as dálias que na minha infância cresciam no canteiro da vizinha Idalina. É um peixe magnífico, um peixe de luz. O seu corpo, coberto de escamas prateadas, luminosas, quase brancas, saltita, estremece com brandura. O rapaz tira-o do cesto e, com cuidado, coloca-o nas mãos do Joaquim. “Sabes como se chama? Tem um nome engraçado. Chama-se rabeta…” O rapaz ri. Enquanto aconchega a gola do casaco ao pescoço explica que uma rabeta é uma corvina pequena. O Joaquim continua a pegar  no peixe prateado, mas, de súbito,  os seus olhos ficam inquietos. A palpitação que sente nas mãos é, simultaneamente, um sinal de vida e de morte. Talvez o meu filho pressinta isso mesmo e por isso se apresse a colocar o peixe no cesto. Começa a trovejar. Caem pingos grossos, pesados, redondos. Despedimo-nos do rapaz. Aceleramos a passada. O vento, cada vez mais forte, vira o guarda-chuva do Joaquim que, assustado, o larga. Corremos para o apanhar.  Voltamos a rir.

(À noite, quando lhe aconcheguei a roupa, falei-lhe ao ouvido: nunca te esqueças do passeio de hoje, do primeiro dia de chuva, do peixe nas tuas mãos, do sorriso do pescador, das palavras novas que aprendeste a soletrar.)

Rumba

2016/03/11

Quinta sessão de julgamento

Quinta sessão de julgamento: a juíza traz hoje as unhas pintadas de magenta, a procuradora de azul, a advogada da parte contrária de preto. Unhas impecáveis, ovais, cutículas arranjadas, unhas que não raspam o queimado do fundo de tachos. Pergunto-me: se as sanguessugas lêem Kavafis que lerão os gafanhotos, os percevejos, as lesmas e as lagartas da couve?

2016/03/09

Aquela cidade

Os prédios eram velhos e feios, de varandas de ferro enferrujado e paredes estaladas, cobertas de manchas de salitre, nas ruas passeavam homens que cuspiam para o chão e matilhas de cães que pareciam largar doenças em toda a parte. Nas arcadas dos edifícios, os mendigos, em singular vagar, mostravam a sua vagabundagem, triste e desoladora. Um bafo de urina e lixo libertava-se dos passeios. Mesmo assim gostei daquela cidade: as janelas tinham floreiras com petúnias, malvas e gerânios, as alamedas de acácias largavam uma sombra perfumada que atenuava o cheiro dos passeios e, para aliviar do calor, em qualquer esquina se vendiam talhadas de melancia, quadrados de coco fresco e figos da Índia descascados. Mas foi a noite que me maravilhou. O seu início, além de brandas aragens, trazia às ruas da cidade uma aceleração de corpos e movimentos: luzes explodiam por todos os cantos e as conversas dos transeuntes misturavam-se com os gritos dos milhafres que, descansando nas copas dos dragoeiros, debicavam frutos maduros que pingavam mel nas ruas. O início da noite não marcava o fim do dia. O maior encanto daquela cidade estava no crepúsculo, naquela tardia confusão que sempre esconde os escombros de que são feitas as cidades do sul. Visitei as muralhas reais, os banhos árabes e a catedral de Nossa Senhora da Anunciação. Subi ao monte para tirar fotografias aos macaquinhos berberes. Bichos sinistros: sentados na berma da estrada, aparentaram uma calma absurda quando o autocarro estacionou; continuaram a descascar favas de alfarrobas e assistiram serenos às caretas dos turistas. Também visitei a grande mesquita. Gigantes ninhos de vespas pendiam da cúpula da entrada principal, o grande minarete erguia-se aos céus, os altifalantes faziam ecoar as chamadas para a oração. O guia explicou que o exterior era revestido com mosaicos azuis, sobras trazidas da grande mesquita de Istambul, e que a porta de acesso estava decorada com passagens corânicas. Já se passaram muitos anos, mas ainda recordo que senti uma felicidade libertadora por estar ali, naquele lugar tão distante do meu apartamento de três assoalhadas e marquises de alumínio, ouvindo falar de gelosias de madeira com incrustações de marfim e placas de urnas de mármore trabalhado. Como se pressentisse a irrepetibilidade daquele momento, escutei com atenção as explicações do guia e tentei armazenar o máximo de informação possível. Mas os circuitos da memória não são facilmente controláveis, quanto mais se pretende reter o conhecimento fundamental da história, datas e factos, mais se esquece a narrativa do mundo; assimila-se o detalhe, o supérfluo e o irrisório. Apesar da atenção com que escutei o guia, algumas semanas mais tarde, de volta à rotina, ao meu apartamento de três assoalhadas e marquises de alumínio, já não era capaz de identificar qualquer particularidade arquitectónica da mesquita maior daquela cidade ou sequer referir um episódio marcante da sua história. Lembrava-me apenas dos prédios feios, dos homens cuspindo para o chão, das matilhas de cães, de uma mulher descalça, vestida de trapos, a caminhar por uma alameda perfumada.

2016/03/06

2016/03/04

Salva de prata

Mal entrou em casa, notou um cheiro a cânfora revelador da presença de Ester. Alberto, vendo-a franzir os sobrolhos, apressou-se a explicar que a mãe viera dar uma ajuda. Trouxera a Fátima logo de manhã que, sob as suas indicações, passara o dia a limpar o pó e a aspirar. Também lavara a loiça acumulada no lava-loiça e fizera a cama com os lençóis de linho que estavam guardados na gaveta da roupa melhor. Clara olhou em redor: a casa estava na realidade bem limpa. Fátima, mãos calejadas, a polpa dos dedos sempre inchada dos detergentes, apesar das constantes queixas de Ester, cumpria os seus deveres com máxima eficácia: tinha gosto em ver uma casa bem limpa, mesmo que não fosse sua, o cansaço depois de um dia de trabalho era compensado pela satisfação que sentia ao ver o brilho de um chão bem encerado. Pareceu-lhe que, mais do que arrumada, a casa estava diferente. Um olhar atento permitiu notar algumas alterações que a sogra fizera durante a sua ausência: escolhera um naperão de linha fina para a mesa da sala de estar e a boneca que costumava guardar dentro da cristaleira estava agora posta num recanto do móvel da entrada. Em cima do aparador, em vez da terrina de loiça, colocara a pesada salva de prata que o tio António lhes ofereceu como prenda de casamento. Clara não fez nenhum comentário, mas a lembrança do tio deixou-a irritada. O tio, próspero e sem descendência, vivia sozinho no bairro novo que começava a ser construído perto do aeroporto. Tinha um apartamento amplo, várias divisões, a cozinha integralmente equipada com electrodomésticos alemães. Toda a família de Alberto, irmãos, cunhadas, sobrinhos, lhe prestava vassalagem com o intuito de levar o maior quinhão da herança. Sobrinhos e cunhadas rivalizavam entre si para ser o centro das suas atenções: convidavam-no para padrinho das crianças que iam nascendo e, nos dias de festa, consoada, domingo de Páscoa, aniversários, insistiam em que se sentasse à cabeceira da mesa. Clara não gostava do homem. O velho era sempre amável quando a encontrava, perguntava-lhe pela família, queria saber novidades dos Cardoso da Mata, conhecia-os bem, tinha-os em grande consideração por causa do êxito dos seus negócios. Mas, enquanto lhe falava, com uma vertigem de volúpia que se notava no modo como a fitava, pousava-lhe a mão na cara, nas pernas, às vezes até nas nádegas. Clara sentia nojo daquele homem, mais ainda da vassalagem que a família de Alberto lhe prestava. Mantinha por isso a salva de prata no louceiro, guardada no estojo de veludo vermelho, bem longe da sua vista.
- Muito obrigada, D. Ester, não precisava de se incomodar. - Disse Clara e sentiu-se aliviada por ter vestido ao menino o cueiro que a sogra insistira que usasse quando saísse da maternidade. 
- Vim conhecer o meu neto. - Respondeu Ester.
Abeirou-se da alcofa num passo firme; os seus saltos altos até na alcatifa da sala se faziam ouvir. O menino estava coberto com uma mantinha e trazia uma touca que lhe escondia o rosto. Ester destapou-o. O menino abriu a boca num bocejo prolongado e, com os seus olhos de cílios revirados, pareceu fixar a avó. Apanhada de surpresa, não esperava uma criança tão bonita, Ester emudeceu por instantes. 
- Tão bonito! Parece um anjo barroco… – Acabou por dizer e abandonou a habitual secura para largar um sorriso rasgado. Sentia-se feliz, isso mesmo se notava no semblante e no modo como os seus lábios, geralmente contraídos, repentinamente relaxaram: não só o primeiro neto nascera homem como era encantador. Como fora Clara capaz de dar à luz uma criança assim? 
Clara sentou-se numa cadeira. Detestava Ester, como a detestava, não suportava a altivez, o corpo seco, o cheiro a cânfora. Porém, naquele instante, sentia-se grata por a sogra ser capaz de mostrar alegria pelo nascimento do filho. Que alguém sentisse amor àquela criança e fosse capaz de o mostrar. Alberto, o seu Alberto, era totalmente incompetente para demonstrar afecto. Fora visitá-la à maternidade logo no primeiro dia, chegara com um ramo de rosas aninhadas numa nuvem fofa de vivaz, mas não fora capaz de lho oferecer. Depois de fazer uma festa ao menino com a ponta dos dedos, pousara o ramo aos pés da cama e ali o deixara como se fosse outra coisa qualquer. Parecia guardar em relação ao filho uma distância cerimoniosa. Clara teve a certeza de que essa distância se manteria para o resto da vida. Quanto a si própria, sentia-se imune ao amor que todas as mulheres dizem sentir assim que vislumbram os filhos acabados de nascer. O menino nascera há três dias e ela  sem sentir nada. Absolutamente nada. Encarava aquela criança apenas com estranheza. 

Ester ficou até tarde. Obrigou Clara a comer uma sopa cheia de talos, assegurando que os caules fibrosos da couve lombarda ajudavam a subida do leite. Mexendo no colar de contas jaspeadas, passou o tempo a fazer recomendações. Clara escutou-a sem a docilidade que habitualmente fingia, mas com obediência. Volta e meia, fixava o olhar na salva de prata, certa de que na véspera Ester inspeccionara o apartamento, vasculhando gavetas e armários para se inteirar da sua capacidade de organização. Passava já das onze horas quando a sogra se foi embora. Mal saiu, antes de mudar a fralda do filho, chorava o menino na alcofa, Clara voltou a arrumar a salva de prata dentro do louceiro.

2016/03/02

2016/03/01

Olho negro

Decorei o poema de manhã, no refeitório, enquanto tomava o pequeno-almoço. Durante o dia, repeti-o para mim mesma como se fosse um mantra, uma oração, a minha salvação. Repeti-o depois de cada parágrafo que escrevi, perto da máquina de cafés, na rua, ao observar os sapatos feios de uma mulher que passou e deixou o seu perfume no ar, quando escutei a voz do outro lado da linha, no regresso para casa, em estranho assombro, ao dar-me conta de como a luz do final do dia é caprichosa: ilumina apenas as fachadas do prédios mais altos, suas varandas, suas janelas, velhos que se debruçam para espreitar a rua, paredes de tinta estalada, ficam os prédios mais baixos adormecidos em triste sombra. De tão presa ao poema, decidi que o diria a cada um dos meus filhos assim que os visse. Disse-o ao Joaquim quando o vi chegar. Sussurrei-lhe as palavras ao ouvido, no corredor da escola, junto do placar com as composições dos meninos do terceiro ano. Disse-o à Madalena quando, chegada do treino, se despiu e revelou o seu corpo nu. Disse-o ao João já na cama, meio adormecido, depois de o aconchegar e lhe beijar o olho negro. Equimoses de adolescente, dores de adolescente, bebedeiras de adolescente, curam-se com beijos, abraços, gestos simples. Os meus filhos escutaram-me em silêncio. Quando me calei perguntaram: “O que é isso, mãe?”. A cada um, sentindo por cada um amor infinito, belo, redentor, único, respondi: “É um poema”. 

Homem

2016/02/26

Casaco preto

Para além de pinhas e outros tesouros que encontro e lá enfio (uma bolota e duas pedrinhas), pelo bolso roto do casaco preto caem canetas, lápis, isqueiros, grampos, elásticos de cabelo, moedas, batons. Enquanto caminho sinto o peso do lixo que se acumula no forro do casaco e escuto o tilintar abafado das moedas. E é tudo. É sobre o nada que gosto e sei escrever. 

2016/02/24

Três palavras

Três palavras maldosas, ditas com segurança por uma mulher desprezível, feia, velha, de mamas caídas, e, passados cinco dias, continuo irritada, as ideias confusas, um persistente mal-estar, furiosa comigo mesma por não a ter mandado para o caralho. 

2016/02/23

Labirinto

Acordei triste, sem vontade de ir trabalhar e com uma dor lancinante nas costas. Levantei-me com dificuldade e, só quando me despi para tomar banho, reparei que tinha um pequeno punhal enterrado nas costas. Não tentei tirá-lo. Em alternativa, tomei um comprimido para as dores e fui passear para a Amadora. Caminhei durante três horas. Devagar, apanhando sol, em habitual e despreocupada contemplação. No átrio do Centro Comercial Babilónia, um homem que entrançava o cabelo de uma mulher gorda, ao ver-me passar, apontou para as gotas de sangue no chão. “Não se preocupe. É apenas um rasto que vou deixando para depois conseguir sair do labirinto.” Caminhei durante mais algum tempo. Só parei quando passou o efeito do analgésico e voltei a sentir a lâmina enterrada nas costas. Apanhei o comboio de volta para casa. Tomei outro comprimido para as dores e limpei o sangue seco na minha pele. À noite, deitada de barriga para baixo, escrevi ao Ricardo. “Hoje fui passear à Amadora e acordei com um punhal enterrado nas costas, mas não é por isso que te escrevo. Ando triste. Queres ir almoçar?” O meu amigo ligou-me passados cinco minutos. É um grande amigo. O melhor que se pode ter.

2016/02/20

Sopa de peixe

A minha mãe matou-me muitas vezes. Da primeira vez, era ainda pequenina, cabia dentro da sua mão, atirou-me ao mar. Da segunda vez, começava a dar os primeiros passos, aos tropeções pela sala do crocodilo amarelo, atirou-me ao rio. Quando tinha seis anos, no tempo em que usava o cabelo preso em duas tranças e passava o dia a soletrar palavras difíceis, pôs-me a dormir e ligou o gás do fogão. Devia ter dez anos quando misturou veneno na sopa de peixe. Sabia que, por ser a minha sopa preferida, a comeria até ao fim, raspando o prato até não sobrar uma gota. Aos treze anos, num domingo de tempestade, os relâmpagos caiam no monte de ervas altas, afogou-me na banheira. Aos quinze, já não esperava que o fizesse, sufocou-me com a almofada de veludo azul. Ontem, dia em que fiz dezoito anos, a minha mãe levou-me ao último andar da torre onde vivemos e empurrou-me. Cansada de morrer, olhei para as mãos da minha mãe, paralisadas no ar, e voei para longe. 

2016/02/17

O gigante de Gulpilhares

Ontem, em Gulpilhares, num quarto com uma janela a dar para um quintal cheio de lixo e duas velhas magnólias de flores roxas, deitei-me com um gigante. Adepto do FCP, o gigante, apesar de doutorado em matemáticas aplicadas à gestão, não me pareceu um homem muito inteligente. Custou-me acompanhar a sua passada. É um estranho homem. Tem apenas um enorme olho na testa. É um só olho, mas vale por muitos: um belo olho redondo, de longos cílios revirados. Cada mão do gigante é do tamanho de uma melancia, cada pé do tamanho de um melão. A cabeça, grande como a de um boi, assusta a princípio. Mas, apesar das proporções gigantescas, pantagruélicas, e da estupidez evidente, foi o desconhecido mais afectuoso com quem já me deitei. Primeiro levou-me a ver o mar barrento e feroz, depois, no quarto com a janela que dá para as duas magnólias floridas, enterrou-se tão fundo que tive medo que me rompesse o avesso. À despedida, gentil, deu-me um prolongado beijo no rosto, tirou um cabelo branco caído na lapela do casaco preto e ficou à beira da estrada a ver-me desaparecer. “Liga-me quando chegares, pequenita.”, disse e o carinhoso uso do diminutivo deu-me vontade de chorar. Choro agora por tudo e por nada. Deve ser da idade. Voltei para Lisboa dorida, a sentir o cheiro do gigante nos pulsos, mas satisfeita. Ando cansada de pilas intelectuais, traumatizadas, existencialistas, titubeantes. Grande e grossa, ainda que versada em matemáticas aplicadas à gestão e, em certos momentos de maior entusiasmo, capaz de me provocar o vómito, a pila do gigante, de tão primitiva e animal, reconciliou-me com o mundo, seus insectos, pássaros e árvores. Quando parei na estação da Mealhada para comprar uma sandes de leitão para o meu filho mais velho (para os mais novos, se vou ao Porto, levo croissants tipo brioche da pastelaria Chaimite), ao sair do carro, pensei no quanto detesto a escrita da Ana Teresa Pereira e a poesia de certas novíssimas poetas portuguesas. Inveja pura: na verdade, não lhes invejo os versos, mas a juventude, os longos cabelos com vida, a pele macia, cheia de luz, os corpos tenros. Também deve ser da idade, esta inveja mesquinha que sinto. Na casa de banho da estação de serviço, para não me sentar no tampo da sanita, apoiei as mãos na parede e, enquanto escutava sair o jacto de mijo, morno e bem direccionado, pensei no gigante  à beira da estrada: o seu esplendoroso único olho ligeiramente embaciado, a mão a dizer-me adeus. Voltei a ter vontade de chorar. Não havia papel higiénico. Abanei o corpo para sacudir as pinguinhas.

Império Romano



(Enganei-me. A canção mais bonita do mundo é esta.)

2016/02/14

Dádiva

"Bom, hei-de procurar o amigo do Beuscher, e na Páscoa conto fazer uma visita ao Clarabuts. Posso-lhes oferecer juventude, entusiasmo e amor para compensar as minhas ignorâncias. Sinto-me tão estúpida: se o fosse, no entanto, não me contentaria com alguns homens que conheci? Ou será por estupidez que não me contento? Não me parece. Anseio tanto por alguém que varra de  vez o Richard; acho que mereço, sim, mereço, um amor ardente com que me seja possível viver. Meu Deus, como eu adorava cozinhar, e arranjar uma casa, e instilar força nos sonhos de um homem, e escrever – um homem que soubesse conversar, caminhar, trabalhar e desejar com paixão levar por diante a sua carreira. É-me insuportável pensar que este potencial de amor e dádiva vá acabar por secar e murchar dentro de mim." Assim escreveu Sylvia Plath no seu caderno de apontamentos. Compreendo-a bem: um homem que saiba conversar e caminhar é difícil de encontrar. Talvez seja mais fácil encontrar uma mulher. 

Lucidez

"Quis publicar um livro mas nunca o chegou a fazer, porque estava continuamente a fazer alterações no manuscrito, e fez tantas e tão grandes que, por fim, do manuscrito já nada restava, a alteração do manuscrito nada mais era do que a eliminação total do manuscrito, do qual por fim nada mais ficou do que o título O Náufrago. Agora tenho apenas o título, disse-me ele, assim é que está bem. Não sei se terei forças para escrever um segundo livro, parece-me que não, dissera ele, se O Náufrago tivesse sido publicado, disse ele, teria sido obrigado a matar-me."

Thomas Bernhard, O Náufrago 

2016/02/13

Pedra-pomes

No rebordo da banheira da casa de banho dos meus pais, no apartamento da Portela, ao lado dos frascos de champô e gel de banho, havia sempre uma pedra-pomes. Servia para a minha mãe raspar os calos dos pés. A cor da pedra-pomes, bonita e esbatida, variava: verde clarinho, azul clarinho, cor-de-rosa clarinho. Era leve, porosa e flutuava na água. Passava a mão pela superfície daquele pequeno rectângulo do tamanho de um sabonete e sentia a sua rugosidade. Com o uso, o contínuo raspar das peles duras dos pés da minha mãe, a pedra perdia a forma inicial. Suas arestas deixavam de ser aprumadas, verticais, para ganharem curvas acentuadas que tornavam maior a minha estranheza. Perante a evidente desadequação entre nome  e objecto - as pedras  eram sólidas, compactas, pesadas, afundavam-se quando tentava fazê-las saltar na ribeira de São Bartolomeu  - perdia certezas, tornava-me desconfiada. 

India Song

2016/02/11

Gato

Enquanto espero que a massa coza, depois de lavar o chão da cozinha e preparar o almoço dos miúdos para amanhã, ponho o cd dos Concertos de Brandenburgo a tocar e abro o livro sobre a bancada de mármore. Leio de pé. Gosto de ler de pé, assim como gosto de ler sentada na minha secretária de trabalho, no banco. Fica o corpo completamente desperto e leio com concentração. Começo a ler, um lápis de dois bicos na mão para sublinhar frases ou apenas palavras. É leitura que me interessa. Estou neste agradável desassossego até que o gato salta do chão e vem sentar-se entre o leitor de cds e o meu livro. Lemos os dois. Escutamos os dois. Eu leio com emoção. Escuto com emoção. Sem sentimentalismo, com contido entusiasmo, mas com emoção. Não sei ler de outra maneira, não sei escutar de outra maneira. O gato não. A sua altivez felina, a aristocrata sobranceria, reconduz-me à minha pequenez, à minha insignificância. Petulante, como se quisesse desmerecer a minha alegria por, ao final do dia, ler enquanto espero que a massa coza, caminha devagar e senta-se em cima do livro. Esqueço a leitura e, com um toque leve, afago o seu peito até o sentir vibrar. 

Paris Texas

2016/02/09

Fantasmagoria

Sentei-me num banco a vê-los brincar à volta da oliveira do tronco oco. Esperei pela chuva. Pensei na Maria Gabriela Llansol: descascava ervilhas enquanto escutava Bach. Pensei também na Hilda Hilst. Envelheceu numa casa habitada por espíritos, rodeada de cães, com unhas sujas e cigarros que se apagavam nas mãos. Escrevia perto duma figueira centenária. Hilda Hilst nunca teve filhos. Não quis. E Maria Gabriela Llansol? Também não (acho que não). Só mulheres livres, sem filhos, são capazes de se desembaraçar da normalidade. Quando senti o primeiro pingo de chuva no rosto, tirei a agenda da mala e fiquei a olhar para as páginas em branco. 

2016/02/08

Andorinhas

Não é só a dor de cabeça, essa estranha dor com que acordei e que parece concentrar-se por cima do olho direito. Sinto também tonturas e uma repentina sufocação provocada pelo excessivo aquecimento da piscina.  Deixo o jornal, os óculos e a mala na bancada e corro à casa de banho mais próxima. Debruçada sobre a sanita, mãos apoiadas na parede, vomito até ter certeza de que não tenho mais nada no estômago. À saída, depois de bochechar, olho-me no espelho. Não penso em nada, nem nos cigarros que fumei, nem no vinho que bebi. Não penso sequer no sonho que tive. Sinto apenas alívio por estar melhor e ser capaz de tratar do meu filho quando a aula de natação terminar. Volto a entrar na piscina. O Joaquim, em cima de uma prancha, prepara-se para mergulhar. A cor da prancha, um azul celeste muito esbatido, traz-me à memória uma casa que já não existe. Ficava à beira da estrada nacional, entre Sacavém e a Bobadela. Era uma vivenda azul, de janelas largas, com um pequeno jardim abandonado e beirais cheios de ninhos de andorinha. Sempre que passava na estrada nacional, a caminho do infantário, em Lisboa, invejava os desconhecidos que moravam naquela casa. Imaginava que devia ser bom estar à janela, ou no meio do pequeno jardim, a observar o voo das andorinhas. Sento-me na bancada. Sinto nos dentes e na língua a adstringência que o vómito deixou. A recordação da vivenda azul dá-me vontade de chorar. 

2016/02/06

Tapada do Mocho



("As flores que hoje apanhámos são tão bonitas que parecem artificiais.", diz o Joaquim. Beijo-o e, apontando para o ecrã do computador, cheia de alegria, mostro-lhe a música que escuto enquanto, no meu habitual cansaço de sábado, bebo e fumo. É só ao sábado, ao sábado preciso de fumar e de beber. A beleza das flores que apanhámos durante a tarde, camélias plantadas pelo meu pai na Tapada do Mocho, é como a música que me alivia o cansaço. De tal forma assombrosa, extraordinária, que custa acreditar na sua autenticidade. Glenn Gould, o virtuoso louco, desprezado por muitos, por mim amado, muito amado, gemia enquanto tocava Bach. Não gostava de Mozart. Um a um, filho no colo, tiro os grampos que me prendem o cabelo e penso no meu amor.)

2016/02/04

Moça

2016/02/03

Lenço preto

Ia alternando: ora ficava em casa de Solange, ora na de Adélia. Gostava mais de ficar na vivenda de Adélia onde tinha um quarto só para si e um quintal onde se entretinha a arrancar as folhas secas das roseiras e os joios que cresciam nos canteiros. No apartamento de Solange sentia-se presa, passava muito tempo à janela da cozinha como se só aí, no parapeito, observando o movimento da rua, conseguisse estar. Nesse Natal, chegou muito debilitada, o corpo cada vez mais torto e respirando com dificuldade. Toda a vida sofrera de falta de ar sem nunca lhe ter sido feito um diagnóstico ou proposta qualquer terapêutica. Em Felicidade notava-se um permanente arfar pesado, mas sempre que se sentia mais aflita recorria a mezinhas antigas: tomava chá de folhas de eucalipto e, por conselho de uma vizinha de São Bartolomeu, nos últimos tempos, fumava cigarros feitos com as folhas secas de uma planta que crescia nos terrenos arenosos junto da ribeira. Às vezes, para acalmar a chiadeira das secreções, também usava as folhas da planta em cataplasmas que aplicava no peito antes de dormir. Solange aceitava os remédios caseiros da mãe, mas torcia o nariz quando a via na casa de banho, sentada na sanita, fumando aqueles estranhos cigarros.
- Isso tem algum jeito… – dizia com paciência, sorrindo, mas achando tudo aquilo disparatado e até um pouco triste.
Nesse último Natal, nem os cigarros que fumou, nem os chás que bebeu nem sequer as cataplasmas que aplicou surtiram efeito. Tossia muito, cada vez mais. Às vezes, parecia quase sufocar; nos intervalos, abria a boca como uma carpa chinesa e respirava fundo para sentir o ar chegar aos pulmões. Os ataques provocavam-lhe constantes perdas urinárias que faziam com que largasse um cheiro adocicado de urina e exsudação. Era um cheiro intenso, enjoativo, mas que não causava a Solange propriamente repulsa. Notava, porém, o desconforto do marido e das filhas quando, sentados a ver televisão, viam Felicidade chegar da cozinha e sentar-se a seu lado.

Nessa manhã de Dezembro, ainda de robe traçado, o cabelo num desalinho, Solange arranjava um pedaço de carne para fazer o almoço. Preparava-se para cortar os pés de porco, rijos como cornos, de uma brancura, tão lisa e fúnebre, que faziam lembrar cotos de estearina ardendo em tocheiros de santuários e capelas. Cortado, o chispe cozia melhor, bastava meia hora na panela de pressão e ficava gelatinoso, tenro, desfazia-se em lascas.
Foi então que Felicidade entrou na cozinha. Cheirava pior do que costume, um bafo excessivo parecia libertar-se do seu corpo e espalhar-se, não só na cozinha, mas por todo o apartamento. Solange notou-lhe uma grande mancha na bata e, sentindo uma tristeza repentina, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Não querendo revelar essa fraqueza à mãe, continuou o que estava a fazer. Ergueu o cutelo e procurou localizar as articulações para não falhar o corte. Com um golpe vigoroso partiu em dois o chispe, mas, foi tal a força que imprimiu ao gesto, que se rachou a tábua de cozinha. O periquito, que afiava o bico na pedra de cálcio, amedrontou-se e piou de um modo esquisito.
- Mãezinha, antes do almoço, vou dar-lhe banho, está bem? - Disse Solange, enquanto metia a carne na panela de pressão. Pressentia que o cansaço de Felicidade já não lhe permitia tratar sozinha da sua higiene. A mãe anuiu como se não entendesse bem o significado do que a filha dizia.

Solange aqueceu a casa de banho para evitar constipações, encheu a banheira de água tépida, colocou a roupa interior a aquecer no radiador a óleo. Depois, com cuidado, ajudou a mãe a despir-se. Tirou-lhe a bata, a saia, a camisola, a combinação, as meias de lã que usava sempre presas com uma liga de elástico preto. Felicidade ficou apenas de cuecas e sutiã, de lenço na cabeça.
 - Vá, vamos lá tirar o resto! - Disse Solange com despacho, disfarçando o desconforto que a iminente revelação da nudez da mãe lhe provocava.
Felicidade porventura já não sentia o corpo vivo ou talvez estivesse demasiado cansada para sentir vergonha. Tirou as cuecas e desapertou os colchetes do sutiã com uma naturalidade que impressionou Solange. Deixou-se ficar nua, de pé, em frente da filha: corpo exposto, mas de lenço na cabeça.
- Tire lá o lenço! Há quanto tempo é que essa cabeça não é lavada em condições? – Perguntou Solange e, desviando o olhar das mamas e do sexo da mãe, fez um gesto para lhe tirar o lenço.
Felicidade recuou, levando as mãos à cabeça. Solange estranhou o gesto: a mãe parecia não ter vergonha de estar nua à sua frente, mostrava-lhe com uma estranha desenvoltura a plenitude da sua nudez enrugada, assexuada, mas recusava revelar-lhe essa outra nudez. Sabia que o lenço era uma espécie de segunda pele para a mãe. Na aldeia, todas as mulheres mais velhas ainda o usavam: com um nó apertado por baixo do queixo ou, nos dias de mais calor, atado atrás do pescoço. Que se lembrasse, só uma mulher mais velha andava sempre de cabeça descoberta. Era a irmã da Preciosa, mas essa tinha desculpa: para além de muda, era meio atrasada. Passava os dias a comer caramelos e a embalar bonecas na aduela da porta. Pois, com excepção da muda, todas as mulheres da geração da mãe usavam lenço; o lenço era um sinal de honra, de dignidade, sobretudo de respeito pelos maridos mortos.
Felicidade continuou a teimar como uma criança, agarrada ao lenço preto. Solange acabou por se irritar com a teimosia e fez-se ríspida: chegou perto da mãe e, com brusquidão, arrancou-lhe o lenço da cabeça. Viu um crânio liso, muito lustroso, calvo. Apenas um penacho de cabelos brancos nasciam no cocuruto, tornando ainda mais triste a sua aparência. A mãe era completamente careca.
- O cabelo começou a cair quando o paizinho morreu… – Explicou Felicidade tapando a cabeça com as mãos. – Fiquei sozinha, filha, tinha muitas saudades dele! Quanto mais triste me sentia mais o cabelo me caía. Foi caindo, caindo até ficar assim…
Solange voltou a sentir vontade de chorar. Colocou o lenço na cabeça da mãe, atando-o atrás para que não se molhasse. Depois, ajudou-a a entrar na banheira e deu-lhe banho, já sem estranhar a sua nudez. Lavou-a como se fosse uma criança, notando a fragilidade daquele corpo sempre escondido do sol: uma vida de trabalho no campo e a pele lisa, tão branca. Lavou-a com vagar: tronco, pernas, braços, os pés cheios de calosidades. Sentada na banheira, nua, o lenço atado na cabeça, Felicidade parecia não se sentir desapossada do seu corpo. Às vezes sorria à filha como que a dizer-lhe que lhe sabia bem a ternura daquele momento.

(A minha avó chamava-se Felicidade.)

Periquito

Bebo uma cerveja na varanda da cozinha. O João pana as últimas coxas de frango com cereais moídos e farinha temperada com cominhos, pimenta e sal. O óleo borbulha e o Joaquim anda por ali a cirandar nas pernas do irmão mais velho. Digo-lhe que vá para dentro. Gosto que o João se ocupe do jantar, mas não gosto de frituras, assusta-me o óleo a ferver. Pedi-lhe que fizesse outra coisa, mas o meu filho, maravilhado com os truques da cozinha moderna aprendidos na televisão, insistiu na ementa. Imagino um acidente grave, a frigideira instável, óleo quente a saltar, a pele clara e macia do rosto do Joaquim queimada para sempre. E se, por causa da teimosia do mais velho, acontecesse alguma coisa ao mais novo? Como reagiria eu? Seria capaz de continuar a amar o João como amo? Ou algo se alteraria para sempre entre nós? A ideia de que alguma coisa possa perturbar a nossa felicidade provoca em mim uma terrível inquietação. “ Não ouviste o que disse?”, ralho ao Joaquim e, puxando-o com brandura pela orelha, levo-o para a sala. 

2016/02/02

Rasgão

Enfio a mão e, com o dedo indicador bem espetado, procuro perceber o tamanho do rasgão. A repetição do gesto tem consequências óbvias: aos poucos, o buraco do bolso esquerdo do meu casaco preto vai aumentando. Suponho que no fim do Inverno o rasgão será de tal forma grande que, quando a enfiar no bolso, a minha mão não terá apoio, ficará suspensa na escuridão do avesso do meu casaco preto. Como um corpo baloiçando à beira do precipício. Hoje, na Praça de Londres, depois de sair do consultório do psiquiatra, apanhei cinco minúsculas pinhas do chão. Caídas dos cedros, as pequenas pinhas, com os seus buraquinhos simétricos, banhadas de luz e esquecidas no ruído da cidade,  maravilharam-me ao ponto de ficar parada no meio da rua a olhar para elas. Apanhei-as, cheirei-as e, uma a uma, enfiei-as pelo rasgão do forro do bolso.

2016/01/28

Calendário

Por desconhecer os exactos termos em que a vontade do meu marido seria posta em prática, nos últimos anos de casamento, deitava-me e adormecia. Quando o meu marido chegava ao quarto encontrava-me a dormir. Quase sempre deitava-se ao meu lado e dormia também. Mas, por vezes, procurava-me. Esse despertar, sem amortecimento de qualquer espécie, agredia-me com uma violência que ainda hoje, depois de anos de terapia, não sou capaz de explicar. Nunca me habituei a essa passagem brusca. Num instante, dormia, sonhava, e o mundo era diferente, um mundo de árvores prateadas, gigantes amistosos, torres encarquilhadas de livros, frases misteriosas que apareciam escritas na areia de uma praia deserta. No momento seguinte, era obrigada a largar esse mundo incompreensível, de delírio e insanidade, que tanto me seduzia. Acordava e fugiam os gigantes, desfaziam-se as torres de livros, apagavam-se as frases escritas na areia. Era como se alguém me arrancasse de um lugar protegido, puxando-me pelos cabelos, arrastando-me por um caminho de pedras pontiagudas. Sentia cada toque, cada apertão, cada sopro no pescoço. A barriga mole e transpirada do meu marido esmagava o meu ventre. Chegava então uma tristeza intensa que me dava vontade de chorar, mas, por vergonha, procurava pensar em assuntos que me distraíssem dessa angústia. Para fugir do choro, pensava nas pequenas decisões que tinha de tomar, organizava a vida imediata, planeava as compras, decidia o que faria para a marmita dos meus filhos: segunda-feira, bifinhos com cogumelos, terça-feira, salsichas com lombardo, quarta-feira, arroz de atum, quinta-feira, frango frito, sexta-feira, douradinhos com esparguete. Incapaz de pôr fim ao meu casamento, odiando-me por isso, muitas vezes, desejei apenas o agendamento estanque da minha vida íntima. Ao dia tantos do mês ou ao domingo ou sempre que um dos nossos filhos tivesse 100% a matemática. A periodicidade, imaginava eu, evitaria pelo menos a angústia da incerteza, a impressão da espera, sobretudo o terror do despertar.

2016/01/26

Pagode chinês

O turco ajeita o postal da Basílica de Santa Sofia na parede de cortiça, depois faz tilintar os olhos em forma de gota que estão para venda num pequeno mostruário. Ao entregar-me as chaves, olha-me com desdém, não é capaz de o esconder. Toma-me por adúltera, uma mulher fácil, sem decência e sem salvação. Não me importo. Sei agora da importância de saber conjugar certos verbos. Conjugo certos verbos como se rezasse. Lentamente, inteira, com devoção: eu fodo, tu fodes, ele fode, nós fodemos, vós fodeis, eles fodem. Pego nas chaves, pago o quarto, subo ao terceiro andar. Alguém deixou os sapatos no corredor. São sapatos de homem, brilhantes e ligeiramente revirados na ponta. Aladino, cansado, dorme num dos quartos da pensão Istambul. Abro a porta, largo a mala em cima da cama, descalço as botas. Espreito as vistas. Outros olharam por esta janela, viram exactamente o que agora vejo: o alçado lateral da Igreja dos Anjos, o edifício amarelo da sopa dos pobres, um prédio forrado a azulejo, também os telhados retorcidos de um pagode chinês. Há poesia em cada homem, cada mulher. Volto para dentro, puxo os lençóis para trás e deito-me. 

2016/01/23

Tocata



(Caminhei ao teu lado, meu amor. Perguntaste se o casaco do morto te estava apertado. Quis responder, mas de tanto bater o meu coração parou. )

2016/01/21

Cetim vermelho

O turco puxou uma baforada do narguilé. Chamou-me querida (numa intimidade que me incomodou) e deu-me a chave do melhor quarto da Pensão Istambul: janela para a avenida, cama larga com lençóis esticados, paredes pintadas a rosa chá, soalho encerado, dois conjuntos de toalhas presos com uma fita de cetim vermelho.  

Esplanada

2016/01/20

Dona Doida

Por causa de um poema, um verso, decidi em quem votar no domingo.  Agora, livre da angústia do voto em branco, depois de lavar o chão da cozinha, vou fumar. É o que me apetece fazer. Contemplar a noite e fumar.  Isso e tentar encontrar inclinações parabólicas em linhas rectas.

2016/01/19

Artigo 804º

No ginásio, entre uma e outra aula, observo as quadras de squash: o desenho das linhas, as marcas das bolas nas paredes, as gotas de suor no chão, os gestos de vitória e frustração. Penso no artigo 804º do Código Civil, na pensão Istambul, em delícias turcas e romãs, naquele que gosta da poesia de Rimbaud e me mostrou, com tal entusiasmo, o início do concerto para piano nº 24 de Mozart. Vai ter um filho com uma mulher que o trata por “mor” e utiliza a expressão “esbardalhei-me”. O amor é tão lindo.

2016/01/18

Carlos Paredes

Casa de frangos

A propósito de um texto do Manuel de Freitas na Cão Celeste, lido há alguns dias, hoje, quando voltava para casa, pensava nos dois tipos de leitores que me dão azia: os deslumbrados e os mete-nojo. Toda a gente conhece o leitor deslumbrado. Lê e impa, revira os olhos, entra em êxtase beatífico. Esse êxtase, claro, nunca é secreto, íntimo, é um êxtase partilhado, replicado, podendo, seria televisionado. Desde que pertença ao cânone literário, o leitor deslumbrado gosta de tudo o que lê. Está em toda a parte, este tipo de leitor. Dá-se um pontapé numa pedra da calçada e aparece um leitor deslumbrado. O leitor mete-nojo é mais difícil de encontrar. Circula em círculos restritos. Restritíssimos. Julga-se superior, já leu tudo, já nada o desafia ou entusiasma. Qualquer obra-prima é aborrecida, objecto do seu magnânimo tédio. O leitor mete-nojo é capaz, de uma assentada, sem justificar, só porque sim, desmerecer “A Montanha-Mágica”, “O Quarteto de Alexandria” e, sem excepção, a obra completa da Agustina Bessa Luís. Há que reconhecer: apesar de estúpido, o leitor mete-nojo é bastante audaz. Vinha nestes pensamentos, numa agradável espiral de irritação, e lembrei-me da história que a minha irmã me contou no sábado. Parece que um escritor e um poeta, ambos franzinos, escanzelados, andaram à pancada no bar da Barraca. Imaginava eu esse vigoroso duelo entre poesia e prosa, ria-me que nem uma perdida para dentro e para fora, quando, na rotunda de Moscavide, perto da casa de frangos, atropelei um ciclista.

2016/01/16

Maina




2016/01/14

Óleo de romã

Fiz tudo o que faço antes de me deitar. Tomei banho, lavei os dentes e limpei o rosto. Apliquei com movimentos circulares um creme anti-envelhecimento que comprei numa perfumaria há pouco tempo. Foi caro, mas não resisti ao anúncio que passa na televisão: mostra uma mulher bonita, sorrindo. Nos segundos finais, enquanto o corpo da mulher é apertado num abraço, uma voz assegura que o creme, feito à base de extractos naturais de óleo de romã, promove o rejuvenescimento da pele. O que uma mulher viveu não tem de ficar marcado no corpo, apenas na memória, é o que diz o anúncio. É mentira, mas não há nada a fazer. A vaidade das mulheres sempre favoreceu o engano. Sei que tudo o que vivi, tudo o que ainda viverei, ficará marcado na minha pele, em cada ruga, cada sulco, cada mancha. O meu corpo apresenta as marcas próprias da idade que tem, mas o envelhecimento, este que agora começou, parece ser um segredo vergonhoso. Quero envelhecer devagar. Por isso, apesar de não acreditar nos efeitos visíveis após oito semanas de aplicação, todos os dias uso o creme de óleo de romã.


Arroz



(Fura a multidão e atira-me um punhado de arroz.)


2016/01/13

Nenhuma

É agora um advogado de sucesso. Guia um carro de alta cilindrada, usa botões de punho e, no Verão, passa quinze dias com a mulher e os filhos em Porto Santo. Leva também uma brasileira chamada Gabriela que, como fez questão de me explicar, para além de bonita, é exímia a engomar camisas e a fazer queijadas de leite e mel. Da vida, explicou-me ainda, espera apenas conforto, prazer e ganhar ainda mais dinheiro. Apreciei a sinceridade e deitei-me com ele. Impou em demasia, o que me perturbou bastante, mas isso não o fez perder a confiança em si próprio. Como a maior parte dos advogados que conheço, tem-se em grande consideração. “Vieste-te quantas vezes?”, perguntou-me no final. “Nenhuma.”, respondi pausadamente e pensei na mulata Gabriela. Imaginei o volume sensual do peito, a curva das nádegas, o cabelo crespo caído pelos ombros. Uma breve excitação chegou-me naquele instante e estremeci por dentro. 

2016/01/11

Malhas caídas

Aproximo-me da mesinha de cabeceira e, com a ponta dos dedos, limpo a camada de pó que se acumulou na superfície. Abro a gaveta da roupa interior. Tudo está meticulosamente arrumado; ainda assim, resolvo inspeccionar os collants para ver se encontro malhas caídas. Introduzo a mão no primeiro par de collants, puxo a meia até chegar à costura do pé, depois faço a licra deslizar sobre os dedos muito esticados. Encontro uns que têm uma pequena malha na zona da barriga da perna, mas não os deito fora, ainda servem para usar por baixo de calças. Ter encontrado uma tarefa que, se for bem aproveitada, me preencherá o tempo faz-me sentir menos só. É bom estar aqui, sossegada no quarto, a realizar uma tarefa que, exigindo a minha concentração, me dá prazer. Sempre senti um prazer imediato na arrumação e na organização. Gosto de ter a casa limpa e flores nas jarras. Limpar bem a cozinha, organizar a despensa ou arrumar gavetas são tarefas que contribuem para a minha felicidade. Habituada a uma infância ruidosa, éramos muitos numa casa demasiado pequena, mal me vi no meu apartamento, organizei armários, gavetas e prateleiras. Mantive sempre essa disciplina. Na minha casa nunca há roupa suja em cima de cadeiras, camas por fazer, loiça lavada à espera de secar no escorredor, canecas lascadas, livros fora das estantes… Sei sempre em que gaveta está o corta-unhas e nunca me aconteceu não encontrar o boletim de vacinas do meu filho. A minha mãe dizia que a arrumação de uma casa revela muito da vida da mulher que nela vive. Acho que ela tinha muita razão. Recordo-me de que, há muitos anos, em casa da Luísa, espreitei para dentro da jarra chinesa que costumava estar no centro da mesa da sala de jantar. Espantei-me com a quantidade de coisas que ela conseguia guardar lá dentro: canetas, clips, recibos velhos, agulhas de croché, cadeados, parafusos cheios de ferrugem, fotografias, elásticos de cabelo, pulseiras, batons do cieiro, bulas de medicamentos, até brinquedos. Nessa tarde, senti o cheiro de coisas velhas que se soltava daquela lixeira em miniatura, mas não estranhei o conteúdo da jarra chinesa. Revelava a desordem da vida da minha irmã. A minha irmã sempre fez por transmitir aos outros uma imagem de solidez e conquista, mas, por dentro, estava como o jarra chinesa: cheia de entulho.

2016/01/10

Resposta



(Mandei a mesma mensagem a três homens diferentes - Gostas dos Joy Division? - e fiquei à espera da resposta.)

2016/01/08

Pai

Michelle acabou o internato de cardiologia em Bangalore. Alvito rompeu o noivado por temer o vigor sexual da noiva. A mulher, uma desconhecida de Colva, já enterrou dois maridos. O bando de macacos dorme no extenso coqueiral que fica perto da lagoa. Houve uma grande festa para celebrar o vigésimo aniversário do casamento do Ricky e da Melinda. Toda a família foi convidada. Vieram os de Pondá, os de Pangim e os de Mapusa. Ron, na primeira madrugada do ano, depois da missa e do baile em Cavelossim, teve um acidente de mota. Partiu o fémur e deslocou o ombro.  Álvaro, o arquitecto estrangeirado, passou as férias de Natal em Curtorim. Levou a namorada espanhola. Levou também três amigos berlinenses. A primeira colheita de cocos foi fraca. O terreno de Dicarpali, o mais bonito, o meu preferido (escutam-se os sinos da igreja de São José de Areal) foi vendido por trinta e seis laques. O Moreno discutiu com um vizinho por causa de um canteiro de arroz. Os cajueiros e as mangueiras ainda não floriram. 

(Venha, Ana Clara. Faz-me falta aqui.)

2016/01/07

Dinâmica do acidente

As hesitações da testemunha parecem aborrecê-la. Enquanto pede esclarecimentos, a procuradora mexe na pulseira que traz no pulso. É uma pulseira em malhinha de ouro branco, discreta, baça, tem apenas a graça do fecho amarelo. Talvez por estar um pouco larga, insiste em descair e esconder-se por baixo da manga larga da beca. Sempre que tal acontece a procuradora procura-a e volta a colocá-la na zona do pulso. Nesse gesto, sobretudo no modo estranho como, depois de a voltar a colocar no pulso, com contida perturbação, fica a acariciar a pulseira, tudo desaparece ou se esbate: a bandeira caída, os códigos, os volumes do processo, a chuva que bate nos vidros. Existe apenas a mão da procuradora, mão de cera, unhas pintadas de vermelho escuro, com uma pulseira de ouro branco no pulso. A pulseira  - vê-se bem - foi um presente recente, certamente de alguém muito importante na sua vida, um noivo, um namorado, um amante (depois de árvore, amante é a palavra mais bonita da língua portuguesa). A procuradora faz um esforço para se manter atenta à dinâmica do acidente, mas, por baixo da negra beca, qualquer coisa nela se anima.

2016/01/06

Andante




2016/01/05

Intimidade

Usarei a melhor blusa, os sapatos vermelhos, os brincos de ouro que herdei da avó goesa. Caminharei ao seu lado. Colocarei um pé a seguir ao outro. Em cada passo sentirei o peso exacto do meu corpo. Hei-de mostrar-lhe a estátua de Hanuman, as suásticas, as hortas em redor, o auditório forrado a alcatifa verde, a cantina escura. Chamarei a sua atenção para o tom das cadeiras de plástico do templo. É pela cor do plástico das cadeiras, a mostrar a fraca qualidade do material, que se percebe o embuste: o templo hindu não está localizado em Lisboa. Fica numa rua barulhenta dos subúrbios de Bangalore. Desceremos ao poço. Ao contrário do habitual, comerei com gosto, sobretudo as chamuças ainda quentes. Estarei atenta à maneira como come. Mostrar-lhe-ei como se partem aos pedaços os rotis e se misturam com o resto da comida. Hei-de rir quando provar o caril de legumes, aguado e sensaborão. Fará uma careta engraçada. Evitaremos temas pessoais. A intimidade nunca é por nós partilhada. Falaremos mal de escritores, críticos literários, jornalistas, editores. Para além da ausência e do falso desprendimento, a maledicência é o que nos une. Falarei com entusiasmo do conto do Dylan Thomas que li, sem nunca lhe confessar que, quando o li pela primeira vez, me imaginei deitada na cama ao seu lado. Numa intimidade de velhos, os óculos na ponta do nariz, os nossos pés a tocarem-se por baixo dos cobertores, imaginei-me a ler para ele aquele preciso conto. Maravilhoso conto. Ler em voz alto para alguém é sinal de amor. Leio em voz alta para os meus filhos. É uma outra forma de lhes dizer que os amo. Escutar-me-á falar e intimamente lamentará não me amar. No final, à despedida, um beijo apressado, a boca dele mal me tocando no rosto. Sentirei o seu cheiro. Seguirá pela rua, sem nunca olhar para trás. Ficarei a vê-lo, enfiado num casaco feio, caminhando apressado na direcção da biblioteca.

2016/01/04

Açucenas

O ruído de um carro a chegar à praceta desperta-me. Dou-me conta da atmosfera um pouco triste do quarto, a luz quebrada pelo abajur do candeeiro, sombras nas paredes, a janela ligeiramente aberta. Quero regressar aos meus pensamentos, mas o instante de revelação que ainda há pouco me fez sorrir passou. Levo a mão ao cabelo, pego numa madeixa e enrolo-a nos dedos. Não tenho mais nada para fazer, tratei dos meus filhos, planeei refeições, passei a ferro, mesmo assim continuarei aqui, acordada, à espera que o sono chegue. Coloco os braços sobre a barriga e, com as palmas das mãos, aliso o tecido do pijama. Aproximo-me da janela. O ano chegou com calor e trovoadas, o céu sempre baixo, carregado de água. As nuvens abatem-se sobre o rio e os apartamentos enchem-se de um estranho calor húmido. Lá fora, abafa, quase parece uma noite de Verão, a brisa é ligeira e as gotas da chuva rodopiam à roda da luz. Puxo as calças do pijama que insistem em descair e observo a rua. Os prédios, de quatro andares, têm uma cor que nunca consegui definir. Verde acastanhado ou castanho esverdeado. Há roupa a secar nos estendais: calças, camisas, meias, toalhas, lençóis. No segundo andar do prédio em frente, um rapaz descasca uma laranja e atira as cascas para a rua. Mais acima, a sombra que espiei na noite da passagem de ano continua a fumar. Desvio o olhar para as oliveiras da praceta, fixo o canteiro onde crescem fetos e patas de cavalo. Entre os fetos, uma mancha amarela, luminosa, mas pouco nítida. No canteiro há quatro ou cinco bolbos antigos de açucena que todos os anos, pela Primavera, florescem muito perfumados. Talvez este ano tenham florido mais cedo por causa do calor. Amanhã, quando sair, logo cedo, apanharei uma flor para colocar no solitário que está no aparador da sala. Ficará aquela haste cheia de campânulas, libertando doces aromas, mostrando-me uma beleza pura. Olho o relógio. Meia-noite. Vim cedo para o quarto, devia ter ficado mais algum tempo na cozinha, não sei bem a fazer o quê, talvez a arrumar a gaveta dos talheres. Depois de arrumar tudo, ainda pensei em ler os folhetos dos supermercados, no entanto, a ideia de acabar o dia sentada à mesa da cozinha, comparando preços, pareceu-me triste. Volto a observar o canteiro. Afinal enganei-me... As açucenas não floriram. Que pena... A mancha amarelada que se vê no canteiro é apenas uma fronha caída dos estendais. Olhando o pedaço de pano, vem-me à memória um detalhe que julgava esquecido: a cor do vestido que Isabel, mãe de um colega do meu filho, usou numa festa de final de ano lectivo. Era, recordo, um vestido drapeado, com ombros largos, exactamente daquela cor, um amarelo vivo, cheio de brilho. Estranho a recuperação da minha memória. Há tantas coisas de que gostaria de recordar, e, do nada, por causa de um pedaço de pano, fui lembrar-me da cor do vestido de uma desconhecida.

2016/01/03

Sobrancelha esquerda

Comprei uma garrafa de vinho verde, um maço de cigarros e uma caixa de bombons recheados com licor. À uma da manhã, já tinha fumado metade dos cigarros e bebido a garrafa de vinho. Nem dei pelo ano passar. Foi por essa altura que comecei a sentir saudades do João Pedro. Fiquei num pasmo silencioso a olhar para a parede da cozinha, atenta à sujidade nas juntas, aos desenhos dos veios vermelhos no brilho lacado dos mosaicos. Depois sentei-me à secretária e escrevi-lhe um longo mail, cheio de palavras vulgares, frases vulgares, a dar-lhe conta do meu amor e explicando o que faria se o apanhasse na cama. Bebi um resto de vinho que tinha no frigorífico (acho que de pacote), fumei um cigarro e decidi deitar-me. Apesar de trôpega, fiz um saco de água quente. A minha cama é grande e não consigo adormecer com os pés frios. Despi-me e enfiei-me debaixo do edredão. Adormeci rapidamente. Às cinco da manhã, acordei com falta de ar. Levantei-me com dificuldade. Aos encontrões pelo corredor, caminhei até à cozinha para ir buscar a bomba da asma. Inalei três vezes, o suficiente para dilatar bem os pulmões. Vi-me reflectida nos vidros da porta, cabelo despenteado, nua da cintura para baixo, com a bomba da asma na mão. “És a mulher mais patética que existe à face da Terra”, pensei. Voltei ao quarto, já sem falta de ar, mas cada vez mais zonza. A meio do corredor, perdi o equilíbrio, caí no chão. Ao tentar amparar a queda, apoiei-me na estante. O gato de loiça, comprado em Jaipur, caiu da última prateleira. Bateu primeiro na minha cabeça e depois partiu-se no chão. Fiquei deitada, na penumbra, a dizer palavrões, triste por se ter partido o gato de loiça. Algo de muito violento explodiu dentro de mim e comecei a chorar aos soluços. Através da janela do quarto da minha filha, conseguia ver os prédios em frente. Numa varanda, debruçada no parapeito, uma mulher fumava. Ao vê-la, apenas um vulto, uma sombra, parei de chorar. Levei a mão à testa e percebi que sangrava. Voltei à cama. Acordei como acordo depois de noites de bebedeiras solitárias. Envergonhada, humilhada, mas, deste vez, com um golpe na cabeça. Um golpe aberto, mesmo por cima da sobrancelha esquerda. 

The Platters

2016/01/02

45

Fui à Culturgest, assistir ao concerto de Ano Novo da Orquestra Metropolitana. Ao meu lado, Gema, uma senhora de cabelo bem arranjado e camisola bordada, mexeu-se com alegria ao som de valsas e polcas. A determinada altura, ensaiou mesmo um magnífico bailado com as mãos: movimentos cheios de sedução burlesca que me fizeram lembrar Nanni Moretti, entre croissants e croquetes, a dançar enquanto espia a Silvana Mangano na televisão. A sua alegria contagiou-me de tal forma que ignorei a mulher sentada à minha frente. Passou o tempo a fazer comentários arrogantes sobre como se percebia que o público, pelas suas reacções, não percebia nada de música clássica. Pobre mulher, tão empertigada na sua culturazinha de merda, horrorizada por o povo desconhecer a etiqueta do aplauso. Foi um belo serão. Mas, apesar da alegria de Gema (ouvi o marido chamá-la pelo nome, também o vi pousar-lhe a mão nos ombros), valsas e polcas não me fizeram esquecer “Smoke gets in your eyes”, dos Platters. O olhar da Charlotte Rampling enquanto, depois de 45 anos de casamento, dança com o marido. Assim que cheguei a casa, descalcei-me, pus o cd a tocar e dancei para o gato. 

Amanhã

Virado a sul, com uma grande janela de vidros de correr e caixilhos de alumínio, o quarto é a divisão mais quente da casa. Maria sente o ar pesado, o calor agarra-se à pele e parece empastar-lhe o cabelo. Volta a sentar-se na beira da cama. Respira fundo. Pensa no dia de amanhã. Logo cedo, tem aula de hidro-ginástica na piscina. Não se pode esquecer de levar os chinelos, custa-lhe sentir nos pés a água suja do chão do balneário quando não os leva. Durante a manhã, continua a pensar, precisa de telefonar ao canalizador para ver a infiltração na marquise da sala. Um fio de água aparece no tecto, mesmo por cima da trepadeira de folhas enceradas, escorre pela parede e desagua no chão de tijoleira. À tarde, se não estiver muito calor, talvez pergunte à Graça se não quer ir consigo às compras. A toalha plastificada da cozinha precisa de ser substituída e já há algumas semanas que o marido se queixa do ruído das cadeiras da sala, riscando o soalho. Comprará também borrachinhas novas para os pés das cadeiras. Se a ourivesaria da avenida não estiver fechada, talvez mande alargar a aliança. Continua a apertar-lhe o dedo. Maria sente-se entusiasmada com a perspectiva de ter um dia preenchido, mas, ao pensar no instante em que entrará na loja e pedirá as borrachas para meter nos pés das cadeiras, não é capaz de deixar de sentir uma íntima tristeza. Olha em volta. O seu quarto reflecte uma coerência que não a aborrece, pelo contrário, tranquiliza-a.