Quando se debruça para receber a moeda, apoiando a mão transpirada no vidro, pergunto-lhe quantos anos tem. “Faço vinte e um na próxima semana.”, responde e, ignorando o meu sorriso, a sedução espelhada nos meus novos Clubmaster, segue entre os carros de mão estendida. Usa, como sempre, calças justas e camisola de alças. Em vez dos habituais ténis, traz umas sandálias de couro. Espreito pela janela do carro para lhe ver os pés. Certa vez, deitei-me com um homem mais velho, bonito, bom amante, tive dois orgasmos em pouco mais do que uma hora, mas, quando se levantou, vi uns pés feios, deformados, com dedos esguios, compridos, encavalitados uns nos outros, grandes joanetes. Não voltei a encontrar-me com esse homem apesar de, durante algumas semanas, me telefonar para marcar novo encontro. Sempre que nele pensava, a primeira imagem que me vinha à cabeça era a dos seus monstruosos pés. Imaginava-me na cama sendo pisada por aqueles pés. Decido que se Marina tiver pés bonitos, condizentes com a beleza do seu corpo, na próxima semana, quando fizer anos, ofereço-lhe um exemplar de “ A morte em Veneza”. Debruço-me pela janela, mas só lhe vejo os calcanhares.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2016/05/23
2016/05/22
Alcáçovas
De Évora a Alcáçovas o caminho faz-se por uma estrada quase deserta. As bermas estão floridas: giestas, cardos roxos, azedas, papoilas. No céu limpo voam andorinhas e cegonhas. Os campos, ondulações suaves e verdes, pontilhados de azinheiras e grandes pedras, guardam memória do vento e da chuva. Conduzo devagar apesar de ter pressa de chegar. Quero prolongar a volúpia que sinto perante tanta beleza, preciso de tornar o caminho mais longo. O Joaquim reclama. Tem fome. Atiro uma maçã para o banco de trás e penso que às vezes a vida é uma fantasia maravilhosa. Ou uma risota mesquinha. Ainda bem que o rapaz bebeu até cair de podre. Ainda bem que encontrou a inglesa. Ainda bem que a heroína lhe fez parar o coração. Morto, não dará mais desgostos à mãe e à avó, sossegarão a partir de agora, uma e outra vestidas de preto. Hão-de recordá-lo menino, gordo, de mãos papudas e joelhos tortos, a fazer os trabalhos de casa na mesa da cozinha. Sim, repito para mim própria, e reparo num corvo pousado num tronco velho que solta um grito estridente, ainda bem que o rapaz morreu. Se não tivesse morrido, não estaria aqui, na estrada que vai de Évora a Alcáçovas, para ir ao seu funeral.
2016/05/18
Magnetismo
(Marina, a linda malabarista dos semáforos, é parecida com a rapariga do video. Nova, muito nova, cheia de vida. Durante o jantar expliquei aos meus filhos que decidi ser lésbica. O pequeno ficou triste, os mais velhos riram-se.)
Marina
Voltei a encontrar Marina, a malabarista do semáforo da Avenida EUA. Mudou de poiso. Por isso não a vi durante meses. Pára agora num cruzamento perto do aeroporto. Acho-a diferente. Deixou crescer o cabelo. Cai-lhe, liso e preto, pelas costas. Engordou um pouco, mas o peso favorece-a. Voltou a ter formas, rabo redondinho, as mamas empinadas balouçam livres na camisola de alças. Já não usa o ridículo gorro vermelho. Qualquer coisa se alterou na rapariga dos malabares prateados. Não sei bem o quê. Já eu, no cruzamento perto do aeroporto, como no semáforo da Avenida EUA, continuo presa à beleza que, sem saber, Marina traz à minha vida. Quando ela avança de mão estendida entre os carros, segura, sinto uma estranha languidez, tenho vontade de lhe tocar.
2016/05/17
Canasten
Ia pela Avenida de Berna a pensar em certo violoncelista e em certa clarinetista da Orquestra Gulbenkian. O violoncelista faz-me lembrar “ Os dias de abandono”, o conto da Elena Ferrante que mete a um canto a sua restante obra. A clarinetista, tenho quase a certeza, foi minha colega no ciclo preparatório e chama-se Paula. Naquele tempo, parecia uma macaca, era a melhor aluna e tinha uma cadela amarela que se chamava Popsi. As voltas que a vida dá. A caminho do concerto, pensando na minha resolução de fim de ano, a única que tomei, senti-me feliz. Uma vez por mês, já não é mau, vou à Gulbenkian. Escolho um concerto, leio alguma coisa sobre os compositores e, para que os meus ouvidos se habituem, escuto as obras. Assisto aos concertos com um deslumbramento intenso, iniciático, ingénuo, palpita-me o coração, os finais apoteóticos arrebatam-me. Nesses dias, em que me sento sozinha numa das cadeiras do auditório da fundação, adio o momento em que volto para casa, faço o jantar, varro o chão e cuido dos meus filhos. Isso também me agrada. Continuei a andar. Olhei para o pespontado dos sapatos novos e esqueci a tristeza das últimas semanas.
Foi então, já nos jardins, que uma comichão intensa se fez sentir precisamente no meu epicentro, que é, como quem diz, na minha vagina. Apesar da aplicação de pomadas, dos comprimidos vaginais enfiados com um longo aplicador, volta e meia, a candidíase volta. Veio fulgurante, desta vez. Um prurido crescente, explosivo, vindo das entranhas mais fundas, parecia ser capaz de rebentar comigo. Apressei o passo, entrei no edifício. Nas escadas que descem para as casas de banho, duas mulheres, casacos pelos ombros, colares de pérolas sobre blusas caras, conversavam. Ao lado, num grupo animado, uma outra mulher deu uma gargalhada afectada e ajeitou o cabelo num gesto de sedução. Passou, sorumbático, quase cadáver, um dos fundadores do PSD. Imaginei-me no meio daquele gente, desesperada, a rebolar no chão, a meter as mãos dentro das calças, a coçar-me freneticamente como se tivesse pulgas, chatos, carraças. Comecei a rir. Sou uma deprimida que ri muito. O riso, em vez de me aliviar, acicatou a comichão. Desci as escadas, pulando degraus, enfiei-me na casa de banho e acabei com aquele tormento.
2016/05/16
Efeitos da liberdade
Eu pertenço a uma família de profetas aprés coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de Maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar. Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico. No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo. No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
– Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…
– Oh! meu senhô! fico.
– …Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…
– Artura não qué dizê nada, não, senhô…
– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Machado de Assis, crónica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de Maio de 1888, uma semana após a abolição da escravatura no Brasil
2016/05/14
2016/05/13
Dezassete segundos
Há uma aldeia em Goa que se chama Nuvem. Nessa aldeia, vive Fidélia, uma sinhá-moça que herdou duas fazendas em Paraíba, uma com quinhentos escravos, outra com setecentos e cinquenta. Fidélia demorou precisamente cem dias a atravessar o mundo para chegar a Nuvem. Não sabe por que veio, talvez para se livrar de Tristão e da herança, mas gostou da aldeia e ficou. Todos os dias acorda de madrugada, só para ver as mulheres sair da pequena igreja, depois de assistirem à primeira missa. Àquela hora do dia, a neblina matinal cobre o alçado do templo e as mulheres, apesar das pernas feias, corpos franzinos, com os seus longos cabelos negros, parecem-lhe estranhas fadas. Fidélia volta para casa às dez horas. Senta-se numa cadeira de baloiço e come o balchão de camarão que Rosa lhe prepara. Às vezes, depois de comer o balchão, sentindo ainda a boca ardente, passeia no jardim da casa. Observa as árvores, as aves e as flores. Espanta-se por serem tão diferentes das da sua infância. À tarde, quanto todos se deitam, Rosa, Maria e Pancrácio, o escravo que trouxe de Paraíba, Fidélia escuta os concertos de Brandenburgo, sobretudo o terceiro concerto, sobretudo o segundo andamento do terceiro concerto. Tem apenas dezassete segundos. Sentada na sua cadeira de madeira rosa, na mais completa solidão, no silêncio que nunca termina, Fidélia, a sinhá-moça de Paraíba, passa os dedos na boca ardente. Pensa então que a vida devia ser assim: ter exactamente dezassete segundos, ser um início, um suspiro, um curto lamento. Fidélia atravessou o mundo, viu fadas sair da igreja da aldeia, comeu balchão de camarão e escutou o segundo andamento do terceiro concerto de Brandenburgo. Não tem mais nada para fazer. Sente um enorme cansaço por ter tanta vida para viver.
Sexta-feira
Os mais novos estão com o pai. Não sei por onde anda o mais velho. Arrumei a casa ao som das Variações Goldberg. Desde que a Graça deixou de vir (não tenho como pagar-lhe o ordenado), a casa enche-se lixo. Vejo sujidade em toda a parte, manchas nos tapetes, bolas de cotão nos cantos, sarro nas loiças sanitárias, gordura nas juntas, pó nos livros, nódoas nas colchas, e assusto-me. A sujidade é um sinal do meu desnorte. Detesto sujidade. Consegui limpar os quartos, as casas de banho e a cozinha a tempo de, durante a vigésima segunda variação, a minha preferida, parar para fumar um cigarro. Escrevi um pequeno texto baseado na Fidélia do Machado de Assis e saí para comprar o jantar: um pacote de batatas fritas, duas carcaças e uma garrafa pequena de vinho branco. Voltei a casa. Troquei as Variações Goldberg por Stabat Mater de Pergolesi. Abri uma carcaça, que recheei de batatas fritas, e enchi um copo de vinho morno. Senti-me imediatamente cheia de paz. Talvez Deus me habite. O gato veio roçar-se nas minhas pernas. Peguei-o ao colo e sussurrei “amorzinho querido”, exactamente como fazia aos meus filhos quando eram pequenos.
Fanfarra
Às vezes, antes de adormecer, imagino o meu funeral. Para além dos colegas de trabalho, conheço pouca gente. Tenho três amigos. A minha família é pequena. A ideia do meu caixão descendo às profundezas da terra, com meia dúzia de pessoas em redor, mais do que me entristecer, humilha-me. Sei bem que o sucesso de qualquer acontecimento social, festas de aniversário e casamentos, é avaliado pela quantidade de pessoas que a ele assiste. Não consigo escapar desta lógica meramente estatística e por isso sinto um enorme desconforto ao imaginar o meu funeral. Os funerais com muita gente, de tão animados, quase não parecem funerais. O morto é alguém que se cumpriu em vida. Fez muitos amigos, foi amado, querido, respeitado. Nos grandes funerais há sempre reencontros. As pessoas sentem alegria. Conversam. Falam do passado, dão novidades, mostram fotografias dos filhos e dos netos. Há uma máquina de cafés e pratos com esses de limão. Coroas e palmas amontoam-se ao lado do caixão. Perante tanta variedade, às vezes, encontram-se conjugações ousadas de cores e flores. Gosto de grandes funerais. Já um funeral com pouca gente é triste. O morto é um falhado. Os que decidiram acompanhá-lo, por osmose, também. Não nego: gostava de ter um grande funeral, com muita gente a assistir e, se possível, com uma fanfarra a acompanhar. Um funeral igualzinho a um que vi passar em Curtorim, coisa bonita de se ver.
2016/05/12
Amor
Fiquei a olhar durante muito tempo para a fotografia. Desejei estar por baixo do guarda-chuva, à porta da biblioteca, colada ao corpo do João Pedro, sossegada, imóvel, a ouvir a chuva e os batimentos do seu coração. Toquei-lhe com a ponta dos dedos, beijei os olhos cansados e mudei a página da revista.
Carcinoma
“Tenho a cara cheia de tumores. Tiram um e aparece logo outro…” diz a minha tia enquanto, sentada no sofá, continua a olhar para a televisão. Sento-me ao seu lado, pego-lhe nas mãos e beijo, com vagar, cada uma das suas cicatrizes.
2016/05/10
Outra Ana
Atrás da casa amarela, havia um terreno com uma nogueira e um poço. Pelo porte, copa frondosa, folhas largas, de verde vibrante, a nogueira exercia grande fascínio sobre mim. Era diferente das árvores da aldeia: oliveiras, sobreiros, azinheiras, figueiras de ramos tortos. Sentada à sua sombra, apanhando nozes ainda verdes ou olhando-a simplesmente, sentia-me outra menina. Sempre, desde cedo, desejei ser outra Ana. A nogueira, por extraordinário que pareça, tinha esse poder mágico: libertava-me de mim própria, transformava-me, ainda que por breves instantes, noutra criança. Também o poço me atraía. Espreitava a medo para dentro. Acostumados à claridade, os meus olhos demoravam a habituar-se à escuridão. Conhecia, de as ouvir à minha avó, histórias de homens e mulheres que se tinham atirado ao poço. Imaginava um rosto defunto boiando nas águas fundas. Ofélia. Pré-rafaelitas. A ideia de encontrar um morto assustava-me, mas, ao mesmo tempo, excitava-me. Que bom seria quebrar o tédio das férias, largar a correr pelas ruas da aldeia, aos gritos, anunciando uma tragédia! Porém, quando os meus olhos finalmente se habituavam à escuridão, para além das águas paradas e escuras, viam apenas lagartixas e rãs. Sentia uma pontinha de desilusão e levantava os olhos na direcção da nogueira.
Kurt Vile
Then Saturday came around and I said "Who’s this stupid clown blocking the bathroom sink?"
2016/05/09
Sim
Para além de exaltar muito rapidamente uma certa emotividade que, com o passar dos anos, tenho aprendido a conter, o álcool tem em mim um efeito devastador. Bebo até cair para o lado. Sozinha ou acompanhada. Não sou capaz de parar. No domingo, de ressaca, deitada na cama, senti que tudo em meu redor me oprimia: os livros em cima da mesa-de-cabeceira, a luminosidade frouxa a entrar pelas frinchas do estore, o mau cheiro dos lençóis, a memória das conversas da véspera. Afinal quem é a actriz europeia mais bonita? Por volta do meio-dia, depois de vomitar na banheira, percebi que não conseguia fazer o almoço para os meus filhos. Voltei a sentir-me a pior mãe do mundo. Telefonei ao Reinaldo e pedi-lhe que levasse os miúdos a almoçar fora.
- Que se passa?
- Estou doente.
- Estás doente?
- Estou.
- Com o quê?
- Estou de ressaca.
O meu ex-marido chegou pouco depois. Entrou no quarto, fez-me uma festa na cabeça e perguntou se precisava de alguma coisa. Disse-lhe que sim.
2016/05/05
Moto-serra
Quando a vi no quintal, cabo amarelo, lâminas aguçadas e dentadas, assustei-me. “Para que querem vocês uma moto-serra? Mete medo!”, perguntei à minha mãe. “Ora, Ana Clara! Uma moto-serra faz muita falta nesta casa!”, respondeu e, de chapelinho de palha na cabeça, continuou a apanhar as ervas que insistem em crescer em redor da camélia. A camélia é a grande frustração da minha mãe. Plantada há muitos anos, a estúpida da planta, como que querendo provocá-la, não ata nem desata, mantém-se pequena, torta, sem graça, tem apenas meia dúzia de folhas enceradas. Nem uma vez floriu. Voltei a olhar para a moto-serra pousada no escalracho. Toquei-lhe a medo como se, em vez de um objecto, de um ser vivo se tratasse, um cão, um leão, um tubarão, enfim um animal capaz de me surpreender com uma dentada violenta. Dei dois passos para o lado e imaginei-me com a moto-serra nas mãos. Que faria eu com aquele extraordinário objecto? Não seria capaz de cortar a cabeça de ninguém. Isso não. Infelizmente não há quem viva sem cabeça (é pena!) e descreio firmemente da pena de morte. Mas, se impune, desconfio que, conforme o grau de embirração e repulsa, a gente que eu cá sei, cortaria braços, pernas, pés, dedos, línguas, orelhas e outros pedúnculos. Também cortaria a pequena camélia da minha mãe e, no seu lugar, plantaria um diospireiro. Senti-me animada por uma certa selvajaria bucólica. Imaginei dióspiros maduros, de polpa doce, rebentando na minha boca. Imaginei também uma multidão de amputados, decepados, pernetas, manetas, castrados, descendo lentamente o monte do moinho. Dei mais dois passos e afastei-me da moto-serra.
(moto-serra é mais bonito do que motosserra.)
2016/05/02
2016/04/29
Hospício
Levei tempo a perceber, mas finalmente tornou-se claro. Não é o homem que não quer saber das árvores da ilha. São as árvores da ilha - um jambeiro, uma araucária do Chile, três coralinas da Abissínia e os dois dragoeiros cujas copas se unem no portão do hospício - que não querem saber do homem.
2016/04/27
Caniçado
A casa do Caniçado. No portão, de mão dada à Vitória, espero que a minha mãe chegue do dispensário. Está sol, calor, a luz fere os olhos e ilumina um horizonte aberto, com poucas casas, sem árvores, animais ou gente. No caminho de terra vermelha, ao longe, vejo a silhueta de uma mulher. À medida que se aproxima, percebo que é a minha mãe. Reconheço-a por causa da blusa que veste: branca, com uns estranhos desenhos, animais de longas patas, árvores de copa azul, figuras surrealistas, desfeitas, derretidas, que, a esta distância, associo aos quadros de Dali. Certa de que é a minha mãe, largo a mão da Vitória e corro na sua direcção. Pequena, três, quatro anos, abraço as suas pernas, enterro a minha cara no seu corpo. Só quando a mulher me pega ao colo e, rindo, me entrega à Vitória, percebo que me enganei. A minha primeira memória é de desilusão e perda. Quando a minha mãe morrer, continuarei a procurá-la nos sonhos, nos objectos, nas outras mulheres. E haverá sempre amanhã.
2016/04/25
Pedras
Poema da Maria Teresa Horta, voz da Teresa Paula Brito, a mulher de olhos claros que cantou "Verdes Anos". Os quatro poemas do disco pertencem ao livro "Minha Senhora de Mim" da Maria Teresa Horta, proibido pela PIDE. Pergunto-me: somos herdeiras dignas das mulheres de Abril? Respondo por mim. Não sou.
2016/04/22
Futuro radioso
Encontro o meu pai já de pijama, sentado em frente da televisão. Beijo-lhe o cabelo, sinto o aroma da loção capilar que usa há muitos anos e sento-me no sofá. O que estás a ver?, pergunto. Não responde. Olha a televisão como se o aparelho fosse uma feiticeira capaz de encantamentos e canções mágicas. O meu pai está hipnotizado. Olho à procura da razão de tal pasmo. Imagens de abandono e desolação. Uma piscina coberta, um tanque profundo, vazio, descarnado, o fundo de ladrilhos soltos. Blocos habitacionais, ruas e ruas, alamedas, avenidas, de blocos de apartamentos, todos iguais, casas que parecem clones, umas atrás de outras, numa arquitectura assexuada, traçada em linhas paralelas e perpendiculares. Ninguém caminha por aquelas ruas. Ninguém habita aqueles apartamentos. Uma floresta rompe os espaços abertos, as raízes grossas tomam conta dos passeios, das estradas e dos cruzamentos. Árvores frondosas, de folhagem brilhante e frutos envernizados, impedem as ruas de receber luz. A cidade é azul e sombria. Centáureas gigantes, carnívoras, mostram os seus cardos roxos. A câmara passa depois para o interior dos apartamentos dos blocos habitacionais. Paredes de tinta estalada, objectos esquecidos. Um cadeirão de braços forrado a napa vermelha, uma cadeira de espaldar tombada. Posters gigantes: Brejnev, Chernenko, Gorbatchov. No parapeito de uma janela estão dois peixinhos de borracha amarela. Pelo chão desses apartamentos, em nichos de lixo e entulho, há bonecas de corpo rijo, pose estática, pernas abertas. Dormem de olhos abertos um sono eterno. Um parque de diversões. A roda gigante tem cabines folheadas de chapa amarela. Campânulas solitárias balouçando ao vento. Há também um carrossel de cavalos que sorriem, mostrando a beleza da sua dentadura equídea. Percebo tratar-se de uma cidade abandonada, uma pompeia soviética. Que cidade é esta, cristalizada no tempo e no espaço, que mostra a beleza do silêncio e do vazio?
Uma voz explica, por fim, a história daquele lugar. Trata-se de Pripyat, situada a 30 quilómetros de Chernobyl, cidade planeada para acolher cientistas, engenheiros, operários. Tinha um cinema, um teatro com uma grandiosa escada de caracol, várias piscinas, um hotel, muitas escolas e hospitais, possuía todas as infra-estruturas que o regime soviético considerava necessárias para o bem-estar do povo. Habitada por quem trabalhava na central nuclear, a média de idade dos cerca de quarenta mil habitantes da cidade rondava apenas os 26 anos. Para o regime todas as cidades deviam ser como Pripyat, planeadas, organizadas, assépticas, sem espontaneidade ou liberdade, regras claras de distribuição dos habitantes, edifícios para casados, edifícios para solteiros, procedimentos claros sobre a utilização dos espaços públicos. Só se é feliz com regras. Pripyat, cidade modelo, onde o futuro se cumpria no presente.
Uma voz explica, por fim, a história daquele lugar. Trata-se de Pripyat, situada a 30 quilómetros de Chernobyl, cidade planeada para acolher cientistas, engenheiros, operários. Tinha um cinema, um teatro com uma grandiosa escada de caracol, várias piscinas, um hotel, muitas escolas e hospitais, possuía todas as infra-estruturas que o regime soviético considerava necessárias para o bem-estar do povo. Habitada por quem trabalhava na central nuclear, a média de idade dos cerca de quarenta mil habitantes da cidade rondava apenas os 26 anos. Para o regime todas as cidades deviam ser como Pripyat, planeadas, organizadas, assépticas, sem espontaneidade ou liberdade, regras claras de distribuição dos habitantes, edifícios para casados, edifícios para solteiros, procedimentos claros sobre a utilização dos espaços públicos. Só se é feliz com regras. Pripyat, cidade modelo, onde o futuro se cumpria no presente.
No dia a seguir ao acidente, a cidade despertou na sua rotina, ignorando a dimensão da tragédia. Um homem pediu à mulher que lhe preparasse um borsch com natas azedas para o jantar; uma rapariga levou para a fábrica uma merenda de conservas de pepino escuro; dois amigos planearam uma pescaria no rio, num recanto fresco, perto de um bosque de abetos, onde nadavam as trutas mais gordas; uma mulher apanhou o comboio para Kiev na estação de Yanov e, ao olhar a cidade sentiu, sem a saber explicar, a tristeza dos espaços vazios. Nessa manhã, a vida continuou como se nada fosse, porém, o bicho invisível já se havia espalhado por toda a cidade, entrara nas casas, gotejara pelos algerozes, penetrara nos solos, espreitara pelas frinchas, procurara o coração dos objectos, dos animais e das pessoas para aí se instalar. A catástrofe chegou à tarde: foram afixados em todos os blocos, em todas as portas, em cada espaço público, avisos de evacuação. Explicavam que a cidade teria de ser evacuada. Era uma evacuação temporária, os habitantes deveriam levar pouca coisa, elementos de identificação, qualquer coisa para comer, deixassem tudo como estava, trancassem os seus apartamentos, voltariam em breve. Depois, chegaram autocarros, mais de mil, vindos de toda a república. Os habitantes de Pripyat nunca voltaram. Ficou a cidade deserta, quieta, envelhecendo. A floresta boreal avançou e cobras radioactivas treparam pelas paredes, aninhando-se dentro do corpo das bonecas que as meninas não puderam levar. Pripyat, cidade modelo, onde o futuro radioso nunca se cumpriu.
O documentário está quase a terminar, o meu pai já tem o comando na mão, prepara-se para mudar de canal. A última imagem que vejo é a de um homem jovem que fala num inglês truncado, próprio dos eslavos. Entra num apartamento, era ali que morava numa perpendicular à Avenida Igor Kurchatov. Aos domingos, explica, entrando num quarto, a minha irmã ia com a minha mãe ao Hotel Polissia preparar o desfile do 1º de Maio, eu ia com o meu pai à piscina e passava horas a nadar. Caminha pelas divisões em silêncio. Fui feliz em Pripyat, diz, por fim. Levanto-me. Volto a beijar o cabelo do meu pai, também ele forçado a abandonar uma cidade e uma vida.
2016/04/21
Volúpia literária
Às quinze horas e trinta minutos, comecei a estudar o processo do jovem professor. À medida que folheava o processo, lendo relatórios médicos e guias de tratamento, comecei a sentir vontade de fugir, as goelas estranguladas, a habitual sensação de desorientação e desperdício. Às quinze horas e trinta e quatro minutos, levantei-me. Percebi que o choro vinha descontrolado, amarinhava por dentro, em menos de um minuto, haveriam de assomar-se lágrimas aos meus olhos. Fiquei com a visão embaciada, percebi que não tinha tempo para chegar à igreja de Nossa Senhora de Fátima que é o sítio perto do trabalho onde gosto de chorar. Fico ali, na penumbra, perto do altar da Nossa Senhora do Carmo, a contar os anjos dos vitrais e a escutar o chiar dos sapatos ortopédicos das velhinhas no chão encerado. Corri à casa de banho. Tranquei-me no cubículo da retrete. Tapei o rosto com as mãos e comecei a chorar. Mordendo os lábios, sem conter os soluços. É tão bom chorar. Chorar mata a tristeza assim como a água mata a sede. Às quinze horas e quarenta minutos, senti alguém entrar na casa de banho e abrir a torneira do lavatório. Calei o choro e deixei-me estar quieta. Às quinze e quarenta e três, a mulher do outro lado, cansada de esperar, bateu à porta. Aborrecida, sorvi o ranho para dentro. É só um bocadinho!, respondi e comecei a limpar os olhos. O papel encheu-se de preto. Imaginei a minha figura. Deixei-me estar sentada na sanita a olhar o recipiente dos pensos higiénicos. A mulher que esperava foi-se embora. Saí do cubículo da retrete e olhei-me ao espelho. Há poucos suicidas na literatura contemporânea portuguesa. É uma pena. Não há boa literatura sem suicidas., disse para o reflexo. No corredor, cruzei-me com a Linda, colega do quinto piso. Gabei-lhe a cor da blusa. Ela perguntou pelas férias e pelos miúdos. Quis saber se tinha descansado. Muito, muito!, respondi, naturalmente mentido. Detesto férias, feriados, fins-de-semana. Só gosto do Natal. Comove-me o menino deitado nas palhinhas e ainda um dia hei-de fazer eggnog para a ceia. A determinada altura, eram quinze horas e cinquenta e dois minutos, a Linda começou a olhar fixamente para os meus olhos. Entrou-me uma poeira., respondi. Às dezasseis horas, sentei-me novamente à secretária. Olhei a paisagem estática que se vê da janela. Prédios feios, escritórios e hotéis, caixas do ar condicionado, nem um estendal, nem uma cortina, nem uma varanda florida. Há doze anos que olho por esta janela. Voltei a pegar no processo do jovem professor. Aos trinta anos, foi internado compulsivamente, com um diagnóstico terrível: psicose delirante crónica. Senti-me bastante aliviada por ter apenas depressão crónica. A vergonha que seria para a minha família, sobretudo, para os meus meninos, se eu tivesse uma doença assim. Não chego a ser bem louca, sou apenas, como diz o meu filho mais velho, completamente instável. Quando ele vem com essa conversa, ouvida desde pequena ao meu pai e irmãos, tenho vontade de disparatar. Mentalmente mando-o para a puta que o pariu, que é o meu insulto preferido e serve para toda a gente, mas depois, logo a seguir, lembro-me que a puta que o pariu sou eu.
(volúpia literária, o caralho.)
2016/04/06
Hora de jantar
Ninguém podia falar. O pai exigia silêncio. De olhos postos no televisor, comendo devagar, prestava atenção às notícias que a locutora ia apresentado. O jantar era sempre assim: o pai vendo o telejornal, os filhos comendo em silêncio, a mãe, em frenesim tardio, depois de um dia de trabalho, despachando o que houvesse a despachar para estar pronta à hora da telenovela. Ana estava bem avisada sobre a postura que devia ter durante a refeição: silêncio absoluto para não perturbar o pai e, se possível, se quisesse agradar-lhe, mostrar interesse nas notícias. Por vezes, distraía-se. Esquecida das ordens, falava com a irmã mais nova. Lúcia era habilidosa com as mãos. Para controlar a ansiedade que o silêncio imposto lhe causava, tinha o hábito de fazer dobragens com as folhas translúcidas dos guardanapos. À hora do jantar, saiam das suas mãos cravos, nenúfares, pequenas rosas.
- Que rosinha tão linda!
- Gostas?
- Ensina-me a fazer…
- Tu não és capaz, Ana!
- Sou sim!
- Tens sempre negativa a Trabalhos Manuais…
- Estúpida.
Riam-se. O pai não dizia nada quando via as filhas alegres, continuava a ver televisão, mas descaíam-lhe os cantos da boca, os olhos ficavam gelados. Carlos, o filho mais velho, chumbara já duas vezes no curso de Direito, era um desgraçado, nunca seria ninguém na vida, as raparigas, via-se bem, iam pelo mesmo caminho. Duas filhas, duas ignorantes que se deslumbravam com flores de papel em vez de se interessarem pelas notícias do mundo. A mãe, aflita, temendo que a desilusão do marido se transformasse em raiva, abria os olhos. “O vosso pai está a ver o telejornal!”, acabava por dizer. Lúcia logo esmagava a flor de papel na mão. Calava-se. Ana fingia não ouvir, mas, quando o pai por fim a mandava calar, desprezo na voz, calava-se também. Aquilo custava-lhe. Sentia então raiva, fazia por se controlar, não podia responder, a resposta poderia desencadear reacções violentas no pai. Ana, nesses instantes, assustava-se: pressentia que se tivesse ao seu alcance uma pedra, uma faca bem afiada, mataria o pai. Mexia com o garfo o arroz branco no prato. Não gostava de arroz branco, mas em casa, para além das batatas a acompanhar o peixe cozido, apenas se comia arroz, sempre branco, sempre cozido em água e sal. O pai só gostava de arroz branco. Observava os azulejos das paredes, a mãe, numa azáfama, de volta do fogão e do lava-loiças. Tudo era triste e desolador: o egoísmo do pai, a subserviência da mãe, a violência contida em cada gesto à hora de jantar.
Passados alguns anos, já Ana e Lúcia eram adolescentes, Carlos saíra de casa para viver num quarto alugado, o pai – talvez por sugestão da mãe – passou a jantar sozinho na sala. Depois de tomar banho, de robe e pijama, sentava-se na poltrona em frente da televisão. Cheirava bem, a sabonete e champô, estava limpo, tinha mãos bonitas, um cabelo espesso, muito preto. Ana sentia vontade de se sentar ao seu lado, mas não era capaz. O pai era um estranho, um homem que vivia na mais completa solidão. Antes de começar o telejornal, a mãe levava o tabuleiro à sala: um pano lavado, o arroz na quantidade exacta, uma costeleta frita, molho sobre o arroz, a acompanhar, um copo de vinho. Voltava depois à cozinha, onde, sentadas à mesa, Ana e Lúcia a esperavam para começar a jantar. Comiam em silêncio. Estavam habituadas ao silêncio. Tudo continuava a ser triste e desolador. Só o pai, concentrado nas notícias, sem ter ninguém a perturbá-lo, parecia agradado com a mudança. A sua felicidade era evidente: estava acompanhado pelo mundo e sua gente, mas livre da família.
2016/04/05
Afectuoso
Contaram-me, mas ainda me custa acreditar, que a Natália Correia não gostava de Bach. Preferia o absolutamente irrelevante Satie: escuta-se com agrado num elevador. Gosto menos um bocadinho da Natália Correia.
2016/04/03
Lucia Berlin
(Desde sexta-feira, quando li o artigo da Isabel Lucas no Público, que esta mulher não sai da minha cabeça. Edward Abbey, Chinua Achabe, Sherwood Anderson, Jane Austen, Paul Auster. By the time she read the all wall, she was better.)
2016/04/02
Sangue mau
Uma vez por mês, corto o pulso da mão esquerda e deixo escorrer o sangue mau. Assim que me vêem no meio do quintal, sentada na cadeira que foi da minha avó Felicidade, os filhos da vizinha largam as brincadeiras e espreitam pelo muro. A Micaela, pequenina, tem de se pôr em bicos de pés para me ver melhor. O Luís, o irmão, às vezes pega-a ao colo e senta-a em cima do muro. Ficam à espreita, em silêncio. Olham para mim, olham para o céu. Esperam a chegada do abutre. Há muitos pássaros na aldeia, andorinhas, cucos, gaios, até cegonhas, também há outras mulheres que cortam os pulsos, mas nunca aparecem abutres. Assim que notam a sua sombra no céu, os meninos agitam-se. “Mana, olha as asas dele!”, diz o Luís. “É tão feio…”, diz a Micaela e esconde o rosto com as pequenas mãos papudas. O abutre pousa ao meu lado. Faço-lhe uma festa na cabeça, é um velho amigo, conheço-o há muitos anos. Não perco tempo. Apesar da pele ser dura, estar tão calejada, faço sempre o corte no sítio da cicatriz antiga. Não quero outras marcas no corpo. O sangue mau, de tão espesso, escorre devagar. O abutre bebe-o. Imediatamente, essa a vantagem da sangria em relação a outros tratamentos, sinto alívio, um bem-estar que, apesar de transitório, me serena. A sangria constitui o nervo da cura, é nela que fundo toda a esperança. Quando o sangue se altera, fica claro, fluído, é tempo de parar. Livre do sangue mau, coso os bordos do corte. Faço outra festa na cabeça do abutre. Caminho na direcção do muro. Mostro o pulso aos meninos. O Luís não diz nada. Limita-se a olhar para a cicatriz. A Micaela, audaz, toca-lhe com os seus dedinhos gordos.
2016/04/01
2016/03/29
2016/03/23
Duas alianças
Caiu na esquina da 5 de Outubro com a Avenida António Serpa. Ficou no passeio durante duas horas, em frente da casa da sorte, à espera que chegasse o delegado de saúde pública. O dia de trabalho a terminar, a cidade no tumulto habitual, fiadas de taludas e raspadinhas na montra da casa da sorte e o corpo ali, coberto com um pano azul, fitas amarelas em volta, um polícia a guardá-lo. Gente passava, apressada, a caminho da estação de comboio. Algumas pessoas paravam, apontavam, faziam perguntas ao polícia. Queriam saber do suicida. Fora um homem? Uma mulher? Novo ou velho? E de que andar se atirara? Outras pessoas continuavam o seu caminho mal levantando os olhos do chão. Houve nesse dia um prémio elevado no euromilhões, mas, com um morto à porta, ninguém entrou na casa da sorte. O dono veio cá fora pedir explicações ao polícia. Aquele aparato estava a dar-lhe cabo do negócio. Passara já uma hora e o corpo continuava ali! O polícia procurou acalmá-lo, o delegado de saúde pública já vinha a caminho e, assim que elaborasse o auto, os serviços camarários haveriam de limpar o sangue das pedras da calçada com jactos de alta pressão. Eram assim os procedimentos legais. O dono da casa da sorte preparava-se para responder quando uma rajada de vento levantou o pano azul e mostrou um braço, a manga de um casaquinho cor de vinho, o início de uma mão velha, a pele coberta de manchas, duas alianças num dedo magro. O dono da casa da sorte calou-se, o polícia desviou o olhar e os castanheiros da Índia romperam em verde primaveril.
2016/03/22
2016/03/19
Pentelhos
Na livraria, antes de ir ao cinema, folheei a Cão Celeste. Não tenho interesse pela revista: acho-a aborrecida e insuportavelmente pretensiosa. Encontrei um conto da Ana Teresa Pereira sobre um menino, uma cadelinha e uma velhinha. Eriçaram-se-me os pêlos todos do corpo, incluindo os pentelhos.
2016/03/18
Yuri
Quando não chove os homens trocam o balcão pela esplanada. Estendem as pernas, apanham sol, conversam, bebem cervejas pelo gargalo das garrafas. Na rua, a caminho do supermercado, passam mulheres carregadas de filhos e compras. São feias, gordas e precocemente envelhecidas. Às vezes, de vez em quando, passa uma rapariga bonita. Com os mesmos filhos, os mesmos sacos de compras, mas bonita. O chefe dos soldadores logo lança um comentário ordinário. Os outros homens riem. Yuri também. São sempre assim os finais de tarde: Yuri com os outros homens que trabalham na construção do segundo tanque, em animado convívio. Mas, se rebenta uma tempestade, dessas comuns no norte, Yuri deixa de participar nas conversas. Não ri dos comentários do chefe dos soldadores. Parece mesmo não os escutar: em silêncio, imóvel, fixa com atenção a grande janela do café. Ao ver a chuva estalar nas vidraças recorda a noite em que encontrou o velho na sua cama.
*
Chovia muito nessa noite. Depois de sair da obra, Yuri passara pelo supermercado para comprar o jantar, meio frango assado, uma caixinha de cuscuz para o jantar, uma coca-cola para acompanhar, e fora levantar a encomenda de Ana aos correios. Ana, a sua querida irmã Ana, mandava-lhe, pelo menos uma vez por mês, uma encomenda cujo conteúdo variava consoante a sua própria inspiração: um frasco de champô de ervas, um bálsamo para desentupir o nariz, latas de arenque fumado, pacotes de bolacha, caramelos de seiva azul, revistas, livros, folhas e flores secas, fotografias, desenhos e colagens feitas por si. Yuri nunca sabia ao certo o que ia encontrar. Sentia por isso uma excitação febril quando recebia o aviso para levantar a encomenda da irmã. Naquela noite, ao caminhar pelo bairro com o pacote por baixo do braço, antecipava o momento em que rasgaria o papel grosso e se surpreenderia com as coisas que Ana escolhera dessa vez. Talvez, imaginava, lhe tivesse mandado fotografias do jardim. Por aquela altura, as árvores à volta do lago já deviam ter folhas e os canteiros, floridos, perfumados, atenuavam a tristeza da aldeia. Yuri sentia-se feliz porque naquela noite Jonas não o perturbaria com os habituais comentários e Lucas, ao contrário do que sempre fazia, não lançaria olhares invejosos quando o visse barrar tostas com a pasta de salmão que Ana lhe mandava. Àquela hora, Lucas, Jonas e os dois marroquinos já deviam estar na festa de despedida de Pavel.
2016/03/16
Cama
Passo a manhã de sábado a fazer as limpezas que não consigo fazer durante a semana. Aspiro, arrasto sofás, limpo as casas de banho, lavatórios, bancadas, banheiras, retretes, penteio os cadilhos dos tapetes da sala, tão direitinhos que ficam, lavo os vidros engordurados da cozinha com rolos de jornal amachucado, aplico óleo de cedro nos móveis. De todas as tarefas que decorrem ao sábado de manhã e que deixam a casa bem limpa, gosto especialmente de mudar a roupa da minha cama. Aprecio essa tarefa doméstica mais do que qualquer outra. Encaro-a mesmo com um zelo especial. Primeiro, arranco os cobertores, a seguir, com igual vigor, puxo os lençóis que, numa trouxa, lanço para o chão. Aspiro o colchão com cuidado, enfiando o bico de pato em todas as ranhuras e frestas da cama, expurgando assim o antigo leito conjugal dos bichos que se alimentam de pó. Os lençóis são depois abertos com um gesto largo, sacudidos com rapidez, às vezes estalam, fica aquela brancura a planar sobre o colchão. Entalo bem os cobertores e faço uma dobra perfeita com o lençol de cima, nem muito grande, nem muito pequena, a barra bordada a ponto cruz simetricamente colocado ao meio. Estendo, por fim, a colcha, disponho os almofadões, olho para a cama no meio do quarto limpo, o sol da manhã a entrar pelas janelas abertas. Experimento nesse instante uma sensação de conquista. Destruí e construí, penso, e transporto para a minha vida a significância libertária de tais gestos; serve tal filosofia para explicar o universo da casa e dos objectos, também para escolher os meus alicerces.
2016/03/14
Brilho metálico
Ao atravessar o corredor em direcção ao quarto, sente o cheiro da cera que ainda esta semana aplicou no soalho. É um cheiro bom de madeiras antigas, que a conforta por lhe mostrar aquilo que a casa é: um lugar onde o tempo passa sem ruído ou sobressaltos. Mas, hoje, estranhamente, o cheiro da cera não lhe traz conforto, apenas uma sensação vaga de enfado. Fica parada no corredor durante alguns instantes, sem saber o que fazer, depois decide ir à casa de banho. Não tem propriamente vontade de ir à casa de banho, pretende apenas adiar o momento em que voltará a estar sozinha no quarto. Sabe que, apesar do sono, quando chegar ao quarto não conseguirá adormecer. Mal a luz se acende, dois peixinhos-de-prata esgueiram-se para baixo do móvel do lavatório deixando no chão um rasto de brilho metálico. Tenta esmagá-los com a ponta do pé. Não consegue. Senta-se na sanita. Não quer pensar em nada, quer apenas estar ali, a observar as cornucópias do resguardo plastificado da banheira e a contar as flores que preenchem os intervalos dos pequenos chifres retorcidos. Mas, por mais que tente, a certeza de que em breve voltará ao quarto continua a assustá-la. Os seus pensamentos tomam um caminho conhecido do qual não pode fugir. É como se uma mão invisível, um corpo estranho, qualquer coisa, a empurrasse nessa direcção.
2016/03/13
2016/03/12
Peixe de luz
Primeiro dia de chuva. Atravessamos o bairro e, depressa, muito depressa, chegamos à beira-rio. Não se vê ninguém. Até aqueles que correm, detestáveis novos super-heróis, desapareceram. As águas, batidas pelo vento, estão muito agitadas. A neblina, de um branco sujo, limita o horizonte. Naquela zona do parque, quando há sol, vê-se o casario de Sacavém e da Bobadela. Nos dias mais claros, se focarmos o olhar, é mesmo possível ver o recorte do arvoredo na recta do cabo. Hoje, porém, com a chuva, a linha do horizonte diluiu-se, desapareceu. Entre o céu e a terra, entre o céu e a água, não se percebe o que começa ou acaba. A beira-rio, sempre ruidosa e alegre, transformou-se noutra paisagem, adquiriu uma beleza agreste, solitária, misteriosa. Caminhamos pelos relvados e rapidamente os nossos pés ficam molhados. O Joaquim apanha folhas e pedras que mete no bolso do impermeável. De tão feliz, em vez de andar, o meu filho galopa como um potrozinho.
No passadiço de madeira, no pontão junto da estátua da princesa, um rapaz vigia três canas de pesca. Quando nos vê, como se intuísse o nosso desejo de proximidade, faz um gesto para avançarmos. De uma caixa azul tira um casulo. Do casulo tira uma minhoca. Mais parece uma centopeia, tem a cabeça achatada, patinhas que se movem numa euforia que causa repulsa. O rapaz enfia a minhoca na ponta do anzol, fá-la deslizar pela curva do gancho, explica que tem de ficar assim, bem presa, caso contrário, os peixes serão capazes de a tirar e fugir em liberdade. O rapaz continua a falar com o Joaquim. Explica-lhe o seu ofício. Inclina-se agora sobre a protecção de metal e puxa um cesto de rede. Mostra a pescaria do dia. Dentro do cesto há dois peixes muito diferentes. Ainda estão vivos. O maior, esverdeado, assemelha-se a um tamboril. É feio: olhos esbugalhados, a pele lisa, barbatanas curtas, a cabeça enorme, desproporcionada em relação ao resto do corpo. “É um xarroco não é?” pergunto. O rapaz olha-me com espanto. Não conhece as minhas idiossincrasias: tivesse eu tempo e cabeça e aprenderia o nome de todas as árvores, de todas as flores, de todos os monstros que habitam as águas escuras e profundas do rio.
O outro peixe mexe-se no fundo do cesto. É bonito. O fole das guelras, de um vermelho escuro, muito intenso, faz-me lembrar as dálias que na minha infância cresciam no canteiro da vizinha Idalina. É um peixe magnífico, um peixe de luz. O seu corpo, coberto de escamas prateadas, luminosas, quase brancas, saltita, estremece com brandura. O rapaz tira-o do cesto e, com cuidado, coloca-o nas mãos do Joaquim. “Sabes como se chama? Tem um nome engraçado. Chama-se rabeta…” O rapaz ri. Enquanto aconchega a gola do casaco ao pescoço explica que uma rabeta é uma corvina pequena. O Joaquim continua a pegar no peixe prateado, mas, de súbito, os seus olhos ficam inquietos. A palpitação que sente nas mãos é, simultaneamente, um sinal de vida e de morte. Talvez o meu filho pressinta isso mesmo e por isso se apresse a colocar o peixe no cesto. Começa a trovejar. Caem pingos grossos, pesados, redondos. Despedimo-nos do rapaz. Aceleramos a passada. O vento, cada vez mais forte, vira o guarda-chuva do Joaquim que, assustado, o larga. Corremos para o apanhar. Voltamos a rir.
(À noite, quando lhe aconcheguei a roupa, falei-lhe ao ouvido: nunca te esqueças do passeio de hoje, do primeiro dia de chuva, do peixe nas tuas mãos, do sorriso do pescador, das palavras novas que aprendeste a soletrar.)
2016/03/11
Quinta sessão de julgamento
Quinta sessão de julgamento: a juíza traz hoje as unhas pintadas de magenta, a procuradora de azul, a advogada da parte contrária de preto. Unhas impecáveis, ovais, cutículas arranjadas, unhas que não raspam o queimado do fundo de tachos. Pergunto-me: se as sanguessugas lêem Kavafis que lerão os gafanhotos, os percevejos, as lesmas e as lagartas da couve?
2016/03/09
Aquela cidade
Os prédios eram velhos e feios, de varandas de ferro enferrujado e paredes estaladas, cobertas de manchas de salitre, nas ruas passeavam homens que cuspiam para o chão e matilhas de cães que pareciam largar doenças em toda a parte. Nas arcadas dos edifícios, os mendigos, em singular vagar, mostravam a sua vagabundagem, triste e desoladora. Um bafo de urina e lixo libertava-se dos passeios. Mesmo assim gostei daquela cidade: as janelas tinham floreiras com petúnias, malvas e gerânios, as alamedas de acácias largavam uma sombra perfumada que atenuava o cheiro dos passeios e, para aliviar do calor, em qualquer esquina se vendiam talhadas de melancia, quadrados de coco fresco e figos da Índia descascados. Mas foi a noite que me maravilhou. O seu início, além de brandas aragens, trazia às ruas da cidade uma aceleração de corpos e movimentos: luzes explodiam por todos os cantos e as conversas dos transeuntes misturavam-se com os gritos dos milhafres que, descansando nas copas dos dragoeiros, debicavam frutos maduros que pingavam mel nas ruas. O início da noite não marcava o fim do dia. O maior encanto daquela cidade estava no crepúsculo, naquela tardia confusão que sempre esconde os escombros de que são feitas as cidades do sul. Visitei as muralhas reais, os banhos árabes e a catedral de Nossa Senhora da Anunciação. Subi ao monte para tirar fotografias aos macaquinhos berberes. Bichos sinistros: sentados na berma da estrada, aparentaram uma calma absurda quando o autocarro estacionou; continuaram a descascar favas de alfarrobas e assistiram serenos às caretas dos turistas. Também visitei a grande mesquita. Gigantes ninhos de vespas pendiam da cúpula da entrada principal, o grande minarete erguia-se aos céus, os altifalantes faziam ecoar as chamadas para a oração. O guia explicou que o exterior era revestido com mosaicos azuis, sobras trazidas da grande mesquita de Istambul, e que a porta de acesso estava decorada com passagens corânicas. Já se passaram muitos anos, mas ainda recordo que senti uma felicidade libertadora por estar ali, naquele lugar tão distante do meu apartamento de três assoalhadas e marquises de alumínio, ouvindo falar de gelosias de madeira com incrustações de marfim e placas de urnas de mármore trabalhado. Como se pressentisse a irrepetibilidade daquele momento, escutei com atenção as explicações do guia e tentei armazenar o máximo de informação possível. Mas os circuitos da memória não são facilmente controláveis, quanto mais se pretende reter o conhecimento fundamental da história, datas e factos, mais se esquece a narrativa do mundo; assimila-se o detalhe, o supérfluo e o irrisório. Apesar da atenção com que escutei o guia, algumas semanas mais tarde, de volta à rotina, ao meu apartamento de três assoalhadas e marquises de alumínio, já não era capaz de identificar qualquer particularidade arquitectónica da mesquita maior daquela cidade ou sequer referir um episódio marcante da sua história. Lembrava-me apenas dos prédios feios, dos homens cuspindo para o chão, das matilhas de cães, de uma mulher descalça, vestida de trapos, a caminhar por uma alameda perfumada.
2016/03/06
2016/03/04
Salva de prata
Mal entrou em casa, notou um cheiro a cânfora revelador da presença de Ester. Alberto, vendo-a franzir os sobrolhos, apressou-se a explicar que a mãe viera dar uma ajuda. Trouxera a Fátima logo de manhã que, sob as suas indicações, passara o dia a limpar o pó e a aspirar. Também lavara a loiça acumulada no lava-loiça e fizera a cama com os lençóis de linho que estavam guardados na gaveta da roupa melhor. Clara olhou em redor: a casa estava na realidade bem limpa. Fátima, mãos calejadas, a polpa dos dedos sempre inchada dos detergentes, apesar das constantes queixas de Ester, cumpria os seus deveres com máxima eficácia: tinha gosto em ver uma casa bem limpa, mesmo que não fosse sua, o cansaço depois de um dia de trabalho era compensado pela satisfação que sentia ao ver o brilho de um chão bem encerado. Pareceu-lhe que, mais do que arrumada, a casa estava diferente. Um olhar atento permitiu notar algumas alterações que a sogra fizera durante a sua ausência: escolhera um naperão de linha fina para a mesa da sala de estar e a boneca que costumava guardar dentro da cristaleira estava agora posta num recanto do móvel da entrada. Em cima do aparador, em vez da terrina de loiça, colocara a pesada salva de prata que o tio António lhes ofereceu como prenda de casamento. Clara não fez nenhum comentário, mas a lembrança do tio deixou-a irritada. O tio, próspero e sem descendência, vivia sozinho no bairro novo que começava a ser construído perto do aeroporto. Tinha um apartamento amplo, várias divisões, a cozinha integralmente equipada com electrodomésticos alemães. Toda a família de Alberto, irmãos, cunhadas, sobrinhos, lhe prestava vassalagem com o intuito de levar o maior quinhão da herança. Sobrinhos e cunhadas rivalizavam entre si para ser o centro das suas atenções: convidavam-no para padrinho das crianças que iam nascendo e, nos dias de festa, consoada, domingo de Páscoa, aniversários, insistiam em que se sentasse à cabeceira da mesa. Clara não gostava do homem. O velho era sempre amável quando a encontrava, perguntava-lhe pela família, queria saber novidades dos Cardoso da Mata, conhecia-os bem, tinha-os em grande consideração por causa do êxito dos seus negócios. Mas, enquanto lhe falava, com uma vertigem de volúpia que se notava no modo como a fitava, pousava-lhe a mão na cara, nas pernas, às vezes até nas nádegas. Clara sentia nojo daquele homem, mais ainda da vassalagem que a família de Alberto lhe prestava. Mantinha por isso a salva de prata no louceiro, guardada no estojo de veludo vermelho, bem longe da sua vista.
- Muito obrigada, D. Ester, não precisava de se incomodar. - Disse Clara e sentiu-se aliviada por ter vestido ao menino o cueiro que a sogra insistira que usasse quando saísse da maternidade.
- Vim conhecer o meu neto. - Respondeu Ester.
Abeirou-se da alcofa num passo firme; os seus saltos altos até na alcatifa da sala se faziam ouvir. O menino estava coberto com uma mantinha e trazia uma touca que lhe escondia o rosto. Ester destapou-o. O menino abriu a boca num bocejo prolongado e, com os seus olhos de cílios revirados, pareceu fixar a avó. Apanhada de surpresa, não esperava uma criança tão bonita, Ester emudeceu por instantes.
- Tão bonito! Parece um anjo barroco… – Acabou por dizer e abandonou a habitual secura para largar um sorriso rasgado. Sentia-se feliz, isso mesmo se notava no semblante e no modo como os seus lábios, geralmente contraídos, repentinamente relaxaram: não só o primeiro neto nascera homem como era encantador. Como fora Clara capaz de dar à luz uma criança assim?
Clara sentou-se numa cadeira. Detestava Ester, como a detestava, não suportava a altivez, o corpo seco, o cheiro a cânfora. Porém, naquele instante, sentia-se grata por a sogra ser capaz de mostrar alegria pelo nascimento do filho. Que alguém sentisse amor àquela criança e fosse capaz de o mostrar. Alberto, o seu Alberto, era totalmente incompetente para demonstrar afecto. Fora visitá-la à maternidade logo no primeiro dia, chegara com um ramo de rosas aninhadas numa nuvem fofa de vivaz, mas não fora capaz de lho oferecer. Depois de fazer uma festa ao menino com a ponta dos dedos, pousara o ramo aos pés da cama e ali o deixara como se fosse outra coisa qualquer. Parecia guardar em relação ao filho uma distância cerimoniosa. Clara teve a certeza de que essa distância se manteria para o resto da vida. Quanto a si própria, sentia-se imune ao amor que todas as mulheres dizem sentir assim que vislumbram os filhos acabados de nascer. O menino nascera há três dias e ela sem sentir nada. Absolutamente nada. Encarava aquela criança apenas com estranheza.
Ester ficou até tarde. Obrigou Clara a comer uma sopa cheia de talos, assegurando que os caules fibrosos da couve lombarda ajudavam a subida do leite. Mexendo no colar de contas jaspeadas, passou o tempo a fazer recomendações. Clara escutou-a sem a docilidade que habitualmente fingia, mas com obediência. Volta e meia, fixava o olhar na salva de prata, certa de que na véspera Ester inspeccionara o apartamento, vasculhando gavetas e armários para se inteirar da sua capacidade de organização. Passava já das onze horas quando a sogra se foi embora. Mal saiu, antes de mudar a fralda do filho, chorava o menino na alcofa, Clara voltou a arrumar a salva de prata dentro do louceiro.
2016/03/02
2016/03/01
Olho negro
Decorei o poema de manhã, no refeitório, enquanto tomava o pequeno-almoço. Durante o dia, repeti-o para mim mesma como se fosse um mantra, uma oração, a minha salvação. Repeti-o depois de cada parágrafo que escrevi, perto da máquina de cafés, na rua, ao observar os sapatos feios de uma mulher que passou e deixou o seu perfume no ar, quando escutei a voz do outro lado da linha, no regresso para casa, em estranho assombro, ao dar-me conta de como a luz do final do dia é caprichosa: ilumina apenas as fachadas do prédios mais altos, suas varandas, suas janelas, velhos que se debruçam para espreitar a rua, paredes de tinta estalada, ficam os prédios mais baixos adormecidos em triste sombra. De tão presa ao poema, decidi que o diria a cada um dos meus filhos assim que os visse. Disse-o ao Joaquim quando o vi chegar. Sussurrei-lhe as palavras ao ouvido, no corredor da escola, junto do placar com as composições dos meninos do terceiro ano. Disse-o à Madalena quando, chegada do treino, se despiu e revelou o seu corpo nu. Disse-o ao João já na cama, meio adormecido, depois de o aconchegar e lhe beijar o olho negro. Equimoses de adolescente, dores de adolescente, bebedeiras de adolescente, curam-se com beijos, abraços, gestos simples. Os meus filhos escutaram-me em silêncio. Quando me calei perguntaram: “O que é isso, mãe?”. A cada um, sentindo por cada um amor infinito, belo, redentor, único, respondi: “É um poema”.
2016/02/26
Casaco preto
Para além de pinhas e outros tesouros que encontro e lá enfio (uma bolota e duas pedrinhas), pelo bolso roto do casaco preto caem canetas, lápis, isqueiros, grampos, elásticos de cabelo, moedas, batons. Enquanto caminho sinto o peso do lixo que se acumula no forro do casaco e escuto o tilintar abafado das moedas. E é tudo. É sobre o nada que gosto e sei escrever.
2016/02/24
Três palavras
Três palavras maldosas, ditas com segurança por uma mulher desprezível, feia, velha, de mamas caídas, e, passados cinco dias, continuo irritada, as ideias confusas, um persistente mal-estar, furiosa comigo mesma por não a ter mandado para o caralho.
2016/02/23
Labirinto
Acordei triste, sem vontade de ir trabalhar e com uma dor lancinante nas costas. Levantei-me com dificuldade e, só quando me despi para tomar banho, reparei que tinha um pequeno punhal enterrado nas costas. Não tentei tirá-lo. Em alternativa, tomei um comprimido para as dores e fui passear para a Amadora. Caminhei durante três horas. Devagar, apanhando sol, em habitual e despreocupada contemplação. No átrio do Centro Comercial Babilónia, um homem que entrançava o cabelo de uma mulher gorda, ao ver-me passar, apontou para as gotas de sangue no chão. “Não se preocupe. É apenas um rasto que vou deixando para depois conseguir sair do labirinto.” Caminhei durante mais algum tempo. Só parei quando passou o efeito do analgésico e voltei a sentir a lâmina enterrada nas costas. Apanhei o comboio de volta para casa. Tomei outro comprimido para as dores e limpei o sangue seco na minha pele. À noite, deitada de barriga para baixo, escrevi ao Ricardo. “Hoje fui passear à Amadora e acordei com um punhal enterrado nas costas, mas não é por isso que te escrevo. Ando triste. Queres ir almoçar?” O meu amigo ligou-me passados cinco minutos. É um grande amigo. O melhor que se pode ter.
2016/02/20
Sopa de peixe
A minha mãe matou-me muitas vezes. Da primeira vez, era ainda pequenina, cabia dentro da sua mão, atirou-me ao mar. Da segunda vez, começava a dar os primeiros passos, aos tropeções pela sala do crocodilo amarelo, atirou-me ao rio. Quando tinha seis anos, no tempo em que usava o cabelo preso em duas tranças e passava o dia a soletrar palavras difíceis, pôs-me a dormir e ligou o gás do fogão. Devia ter dez anos quando misturou veneno na sopa de peixe. Sabia que, por ser a minha sopa preferida, a comeria até ao fim, raspando o prato até não sobrar uma gota. Aos treze anos, num domingo de tempestade, os relâmpagos caiam no monte de ervas altas, afogou-me na banheira. Aos quinze, já não esperava que o fizesse, sufocou-me com a almofada de veludo azul. Ontem, dia em que fiz dezoito anos, a minha mãe levou-me ao último andar da torre onde vivemos e empurrou-me. Cansada de morrer, olhei para as mãos da minha mãe, paralisadas no ar, e voei para longe.
2016/02/17
O gigante de Gulpilhares
Ontem, em Gulpilhares, num quarto com uma janela a dar para um quintal cheio de lixo e duas velhas magnólias de flores roxas, deitei-me com um gigante. Adepto do FCP, o gigante, apesar de doutorado em matemáticas aplicadas à gestão, não me pareceu um homem muito inteligente. Custou-me acompanhar a sua passada. É um estranho homem. Tem apenas um enorme olho na testa. É um só olho, mas vale por muitos: um belo olho redondo, de longos cílios revirados. Cada mão do gigante é do tamanho de uma melancia, cada pé do tamanho de um melão. A cabeça, grande como a de um boi, assusta a princípio. Mas, apesar das proporções gigantescas, pantagruélicas, e da estupidez evidente, foi o desconhecido mais afectuoso com quem já me deitei. Primeiro levou-me a ver o mar barrento e feroz, depois, no quarto com a janela que dá para as duas magnólias floridas, enterrou-se tão fundo que tive medo que me rompesse o avesso. À despedida, gentil, deu-me um prolongado beijo no rosto, tirou um cabelo branco caído na lapela do casaco preto e ficou à beira da estrada a ver-me desaparecer. “Liga-me quando chegares, pequenita.”, disse e o carinhoso uso do diminutivo deu-me vontade de chorar. Choro agora por tudo e por nada. Deve ser da idade. Voltei para Lisboa dorida, a sentir o cheiro do gigante nos pulsos, mas satisfeita. Ando cansada de pilas intelectuais, traumatizadas, existencialistas, titubeantes. Grande e grossa, ainda que versada em matemáticas aplicadas à gestão e, em certos momentos de maior entusiasmo, capaz de me provocar o vómito, a pila do gigante, de tão primitiva e animal, reconciliou-me com o mundo, seus insectos, pássaros e árvores. Quando parei na estação da Mealhada para comprar uma sandes de leitão para o meu filho mais velho (para os mais novos, se vou ao Porto, levo croissants tipo brioche da pastelaria Chaimite), ao sair do carro, pensei no quanto detesto a escrita da Ana Teresa Pereira e a poesia de certas novíssimas poetas portuguesas. Inveja pura: na verdade, não lhes invejo os versos, mas a juventude, os longos cabelos com vida, a pele macia, cheia de luz, os corpos tenros. Também deve ser da idade, esta inveja mesquinha que sinto. Na casa de banho da estação de serviço, para não me sentar no tampo da sanita, apoiei as mãos na parede e, enquanto escutava sair o jacto de mijo, morno e bem direccionado, pensei no gigante à beira da estrada: o seu esplendoroso único olho ligeiramente embaciado, a mão a dizer-me adeus. Voltei a ter vontade de chorar. Não havia papel higiénico. Abanei o corpo para sacudir as pinguinhas.
2016/02/14
Dádiva
"Bom, hei-de procurar o amigo do Beuscher, e na Páscoa conto fazer uma visita ao Clarabuts. Posso-lhes oferecer juventude, entusiasmo e amor para compensar as minhas ignorâncias. Sinto-me tão estúpida: se o fosse, no entanto, não me contentaria com alguns homens que conheci? Ou será por estupidez que não me contento? Não me parece. Anseio tanto por alguém que varra de vez o Richard; acho que mereço, sim, mereço, um amor ardente com que me seja possível viver. Meu Deus, como eu adorava cozinhar, e arranjar uma casa, e instilar força nos sonhos de um homem, e escrever – um homem que soubesse conversar, caminhar, trabalhar e desejar com paixão levar por diante a sua carreira. É-me insuportável pensar que este potencial de amor e dádiva vá acabar por secar e murchar dentro de mim." Assim escreveu Sylvia Plath no seu caderno de apontamentos. Compreendo-a bem: um homem que saiba conversar e caminhar é difícil de encontrar. Talvez seja mais fácil encontrar uma mulher.
Lucidez
"Quis publicar um livro mas nunca o chegou a fazer, porque estava continuamente a fazer alterações no manuscrito, e fez tantas e tão grandes que, por fim, do manuscrito já nada restava, a alteração do manuscrito nada mais era do que a eliminação total do manuscrito, do qual por fim nada mais ficou do que o título O Náufrago. Agora tenho apenas o título, disse-me ele, assim é que está bem. Não sei se terei forças para escrever um segundo livro, parece-me que não, dissera ele, se O Náufrago tivesse sido publicado, disse ele, teria sido obrigado a matar-me."
Thomas Bernhard, O Náufrago
2016/02/13
Pedra-pomes
No rebordo da banheira da casa de banho dos meus pais, no apartamento da Portela, ao lado dos frascos de champô e gel de banho, havia sempre uma pedra-pomes. Servia para a minha mãe raspar os calos dos pés. A cor da pedra-pomes, bonita e esbatida, variava: verde clarinho, azul clarinho, cor-de-rosa clarinho. Era leve, porosa e flutuava na água. Passava a mão pela superfície daquele pequeno rectângulo do tamanho de um sabonete e sentia a sua rugosidade. Com o uso, o contínuo raspar das peles duras dos pés da minha mãe, a pedra perdia a forma inicial. Suas arestas deixavam de ser aprumadas, verticais, para ganharem curvas acentuadas que tornavam maior a minha estranheza. Perante a evidente desadequação entre nome e objecto - as pedras eram sólidas, compactas, pesadas, afundavam-se quando tentava fazê-las saltar na ribeira de São Bartolomeu - perdia certezas, tornava-me desconfiada.
2016/02/11
Gato
Enquanto espero que a massa coza, depois de lavar o chão da cozinha e preparar o almoço dos miúdos para amanhã, ponho o cd dos Concertos de Brandenburgo a tocar e abro o livro sobre a bancada de mármore. Leio de pé. Gosto de ler de pé, assim como gosto de ler sentada na minha secretária de trabalho, no banco. Fica o corpo completamente desperto e leio com concentração. Começo a ler, um lápis de dois bicos na mão para sublinhar frases ou apenas palavras. É leitura que me interessa. Estou neste agradável desassossego até que o gato salta do chão e vem sentar-se entre o leitor de cds e o meu livro. Lemos os dois. Escutamos os dois. Eu leio com emoção. Escuto com emoção. Sem sentimentalismo, com contido entusiasmo, mas com emoção. Não sei ler de outra maneira, não sei escutar de outra maneira. O gato não. A sua altivez felina, a aristocrata sobranceria, reconduz-me à minha pequenez, à minha insignificância. Petulante, como se quisesse desmerecer a minha alegria por, ao final do dia, ler enquanto espero que a massa coza, caminha devagar e senta-se em cima do livro. Esqueço a leitura e, com um toque leve, afago o seu peito até o sentir vibrar.
2016/02/09
Fantasmagoria
Sentei-me num banco a vê-los brincar à volta da oliveira do tronco oco. Esperei pela chuva. Pensei na Maria Gabriela Llansol: descascava ervilhas enquanto escutava Bach. Pensei também na Hilda Hilst. Envelheceu numa casa habitada por espíritos, rodeada de cães, com unhas sujas e cigarros que se apagavam nas mãos. Escrevia perto duma figueira centenária. Hilda Hilst nunca teve filhos. Não quis. E Maria Gabriela Llansol? Também não (acho que não). Só mulheres livres, sem filhos, são capazes de se desembaraçar da normalidade. Quando senti o primeiro pingo de chuva no rosto, tirei a agenda da mala e fiquei a olhar para as páginas em branco.
2016/02/08
Andorinhas
Não é só a dor de cabeça, essa estranha dor com que acordei e que parece concentrar-se por cima do olho direito. Sinto também tonturas e uma repentina sufocação provocada pelo excessivo aquecimento da piscina. Deixo o jornal, os óculos e a mala na bancada e corro à casa de banho mais próxima. Debruçada sobre a sanita, mãos apoiadas na parede, vomito até ter certeza de que não tenho mais nada no estômago. À saída, depois de bochechar, olho-me no espelho. Não penso em nada, nem nos cigarros que fumei, nem no vinho que bebi. Não penso sequer no sonho que tive. Sinto apenas alívio por estar melhor e ser capaz de tratar do meu filho quando a aula de natação terminar. Volto a entrar na piscina. O Joaquim, em cima de uma prancha, prepara-se para mergulhar. A cor da prancha, um azul celeste muito esbatido, traz-me à memória uma casa que já não existe. Ficava à beira da estrada nacional, entre Sacavém e a Bobadela. Era uma vivenda azul, de janelas largas, com um pequeno jardim abandonado e beirais cheios de ninhos de andorinha. Sempre que passava na estrada nacional, a caminho do infantário, em Lisboa, invejava os desconhecidos que moravam naquela casa. Imaginava que devia ser bom estar à janela, ou no meio do pequeno jardim, a observar o voo das andorinhas. Sento-me na bancada. Sinto nos dentes e na língua a adstringência que o vómito deixou. A recordação da vivenda azul dá-me vontade de chorar.
2016/02/06
Tapada do Mocho
("As flores que hoje apanhámos são tão bonitas que parecem artificiais.", diz o Joaquim. Beijo-o e, apontando para o ecrã do computador, cheia de alegria, mostro-lhe a música que escuto enquanto, no meu habitual cansaço de sábado, bebo e fumo. É só ao sábado, ao sábado preciso de fumar e de beber. A beleza das flores que apanhámos durante a tarde, camélias plantadas pelo meu pai na Tapada do Mocho, é como a música que me alivia o cansaço. De tal forma assombrosa, extraordinária, que custa acreditar na sua autenticidade. Glenn Gould, o virtuoso louco, desprezado por muitos, por mim amado, muito amado, gemia enquanto tocava Bach. Não gostava de Mozart. Um a um, filho no colo, tiro os grampos que me prendem o cabelo e penso no meu amor.)
2016/02/04
2016/02/03
Lenço preto
Ia alternando: ora ficava em casa de Solange, ora na de Adélia. Gostava mais de ficar na vivenda de Adélia onde tinha um quarto só para si e um quintal onde se entretinha a arrancar as folhas secas das roseiras e os joios que cresciam nos canteiros. No apartamento de Solange sentia-se presa, passava muito tempo à janela da cozinha como se só aí, no parapeito, observando o movimento da rua, conseguisse estar. Nesse Natal, chegou muito debilitada, o corpo cada vez mais torto e respirando com dificuldade. Toda a vida sofrera de falta de ar sem nunca lhe ter sido feito um diagnóstico ou proposta qualquer terapêutica. Em Felicidade notava-se um permanente arfar pesado, mas sempre que se sentia mais aflita recorria a mezinhas antigas: tomava chá de folhas de eucalipto e, por conselho de uma vizinha de São Bartolomeu, nos últimos tempos, fumava cigarros feitos com as folhas secas de uma planta que crescia nos terrenos arenosos junto da ribeira. Às vezes, para acalmar a chiadeira das secreções, também usava as folhas da planta em cataplasmas que aplicava no peito antes de dormir. Solange aceitava os remédios caseiros da mãe, mas torcia o nariz quando a via na casa de banho, sentada na sanita, fumando aqueles estranhos cigarros.
- Isso tem algum jeito… – dizia com paciência, sorrindo, mas achando tudo aquilo disparatado e até um pouco triste.
Nesse último Natal, nem os cigarros que fumou, nem os chás que bebeu nem sequer as cataplasmas que aplicou surtiram efeito. Tossia muito, cada vez mais. Às vezes, parecia quase sufocar; nos intervalos, abria a boca como uma carpa chinesa e respirava fundo para sentir o ar chegar aos pulmões. Os ataques provocavam-lhe constantes perdas urinárias que faziam com que largasse um cheiro adocicado de urina e exsudação. Era um cheiro intenso, enjoativo, mas que não causava a Solange propriamente repulsa. Notava, porém, o desconforto do marido e das filhas quando, sentados a ver televisão, viam Felicidade chegar da cozinha e sentar-se a seu lado.
Nessa manhã de Dezembro, ainda de robe traçado, o cabelo num desalinho, Solange arranjava um pedaço de carne para fazer o almoço. Preparava-se para cortar os pés de porco, rijos como cornos, de uma brancura, tão lisa e fúnebre, que faziam lembrar cotos de estearina ardendo em tocheiros de santuários e capelas. Cortado, o chispe cozia melhor, bastava meia hora na panela de pressão e ficava gelatinoso, tenro, desfazia-se em lascas.
Foi então que Felicidade entrou na cozinha. Cheirava pior do que costume, um bafo excessivo parecia libertar-se do seu corpo e espalhar-se, não só na cozinha, mas por todo o apartamento. Solange notou-lhe uma grande mancha na bata e, sentindo uma tristeza repentina, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Não querendo revelar essa fraqueza à mãe, continuou o que estava a fazer. Ergueu o cutelo e procurou localizar as articulações para não falhar o corte. Com um golpe vigoroso partiu em dois o chispe, mas, foi tal a força que imprimiu ao gesto, que se rachou a tábua de cozinha. O periquito, que afiava o bico na pedra de cálcio, amedrontou-se e piou de um modo esquisito.
- Mãezinha, antes do almoço, vou dar-lhe banho, está bem? - Disse Solange, enquanto metia a carne na panela de pressão. Pressentia que o cansaço de Felicidade já não lhe permitia tratar sozinha da sua higiene. A mãe anuiu como se não entendesse bem o significado do que a filha dizia.
Solange aqueceu a casa de banho para evitar constipações, encheu a banheira de água tépida, colocou a roupa interior a aquecer no radiador a óleo. Depois, com cuidado, ajudou a mãe a despir-se. Tirou-lhe a bata, a saia, a camisola, a combinação, as meias de lã que usava sempre presas com uma liga de elástico preto. Felicidade ficou apenas de cuecas e sutiã, de lenço na cabeça.
- Vá, vamos lá tirar o resto! - Disse Solange com despacho, disfarçando o desconforto que a iminente revelação da nudez da mãe lhe provocava.
Felicidade porventura já não sentia o corpo vivo ou talvez estivesse demasiado cansada para sentir vergonha. Tirou as cuecas e desapertou os colchetes do sutiã com uma naturalidade que impressionou Solange. Deixou-se ficar nua, de pé, em frente da filha: corpo exposto, mas de lenço na cabeça.
- Tire lá o lenço! Há quanto tempo é que essa cabeça não é lavada em condições? – Perguntou Solange e, desviando o olhar das mamas e do sexo da mãe, fez um gesto para lhe tirar o lenço.
Felicidade recuou, levando as mãos à cabeça. Solange estranhou o gesto: a mãe parecia não ter vergonha de estar nua à sua frente, mostrava-lhe com uma estranha desenvoltura a plenitude da sua nudez enrugada, assexuada, mas recusava revelar-lhe essa outra nudez. Sabia que o lenço era uma espécie de segunda pele para a mãe. Na aldeia, todas as mulheres mais velhas ainda o usavam: com um nó apertado por baixo do queixo ou, nos dias de mais calor, atado atrás do pescoço. Que se lembrasse, só uma mulher mais velha andava sempre de cabeça descoberta. Era a irmã da Preciosa, mas essa tinha desculpa: para além de muda, era meio atrasada. Passava os dias a comer caramelos e a embalar bonecas na aduela da porta. Pois, com excepção da muda, todas as mulheres da geração da mãe usavam lenço; o lenço era um sinal de honra, de dignidade, sobretudo de respeito pelos maridos mortos.
Felicidade continuou a teimar como uma criança, agarrada ao lenço preto. Solange acabou por se irritar com a teimosia e fez-se ríspida: chegou perto da mãe e, com brusquidão, arrancou-lhe o lenço da cabeça. Viu um crânio liso, muito lustroso, calvo. Apenas um penacho de cabelos brancos nasciam no cocuruto, tornando ainda mais triste a sua aparência. A mãe era completamente careca.
- O cabelo começou a cair quando o paizinho morreu… – Explicou Felicidade tapando a cabeça com as mãos. – Fiquei sozinha, filha, tinha muitas saudades dele! Quanto mais triste me sentia mais o cabelo me caía. Foi caindo, caindo até ficar assim…
Solange voltou a sentir vontade de chorar. Colocou o lenço na cabeça da mãe, atando-o atrás para que não se molhasse. Depois, ajudou-a a entrar na banheira e deu-lhe banho, já sem estranhar a sua nudez. Lavou-a como se fosse uma criança, notando a fragilidade daquele corpo sempre escondido do sol: uma vida de trabalho no campo e a pele lisa, tão branca. Lavou-a com vagar: tronco, pernas, braços, os pés cheios de calosidades. Sentada na banheira, nua, o lenço atado na cabeça, Felicidade parecia não se sentir desapossada do seu corpo. Às vezes sorria à filha como que a dizer-lhe que lhe sabia bem a ternura daquele momento.
(A minha avó chamava-se Felicidade.)
(A minha avó chamava-se Felicidade.)
Periquito
Bebo uma cerveja na varanda da cozinha. O João pana as últimas coxas de frango com cereais moídos e farinha temperada com cominhos, pimenta e sal. O óleo borbulha e o Joaquim anda por ali a cirandar nas pernas do irmão mais velho. Digo-lhe que vá para dentro. Gosto que o João se ocupe do jantar, mas não gosto de frituras, assusta-me o óleo a ferver. Pedi-lhe que fizesse outra coisa, mas o meu filho, maravilhado com os truques da cozinha moderna aprendidos na televisão, insistiu na ementa. Imagino um acidente grave, a frigideira instável, óleo quente a saltar, a pele clara e macia do rosto do Joaquim queimada para sempre. E se, por causa da teimosia do mais velho, acontecesse alguma coisa ao mais novo? Como reagiria eu? Seria capaz de continuar a amar o João como amo? Ou algo se alteraria para sempre entre nós? A ideia de que alguma coisa possa perturbar a nossa felicidade provoca em mim uma terrível inquietação. “ Não ouviste o que disse?”, ralho ao Joaquim e, puxando-o com brandura pela orelha, levo-o para a sala.
2016/02/02
Rasgão
Enfio a mão e, com o dedo indicador bem espetado, procuro perceber o tamanho do rasgão. A repetição do gesto tem consequências óbvias: aos poucos, o buraco do bolso esquerdo do meu casaco preto vai aumentando. Suponho que no fim do Inverno o rasgão será de tal forma grande que, quando a enfiar no bolso, a minha mão não terá apoio, ficará suspensa na escuridão do avesso do meu casaco preto. Como um corpo baloiçando à beira do precipício. Hoje, na Praça de Londres, depois de sair do consultório do psiquiatra, apanhei cinco minúsculas pinhas do chão. Caídas dos cedros, as pequenas pinhas, com os seus buraquinhos simétricos, banhadas de luz e esquecidas no ruído da cidade, maravilharam-me ao ponto de ficar parada no meio da rua a olhar para elas. Apanhei-as, cheirei-as e, uma a uma, enfiei-as pelo rasgão do forro do bolso.
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