Esqueci-me de falar da Maria José e do seu assumido propósito de banir as lojas chinesas da Baixa. Não se esqueça a Maria José de também expulsar os africanos que param no largo de São Domingos, os mendigos que dormitam nas arcadas do Teatro Nacional e os drógados que pedincham na Rua Augusta. É preciso não deixar o trabalho pela metade e voltar a ter uma Baixa limpa, asseada, sorridente, ajuizada como qualquer mulher de bem.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2007/09/10
Notas com bolor
1) No Expresso desta semana, a Clara Ferreira Alves, para além de dissertar sobre umas camisolas (?) feitas com a lã de umas cabrinhas que estão em vias de extinção, fala sobre o Rajastão. Remata com um daqueles lugares comuns que tanto aprecia: são poucos os sítios capazes de nos mudar e o Rajastão é um deles. Eu digo: bem aventurados os desgraçados que vivem na Brandoa e apanham o 49 para o Cacém. Bem aventurados os que só foram até Ayamonte comprar caramelos e galhetas espanhuelas. Bem aventurados os que sonham com uma viagem até Pipa, Porto-Galinhas, Cancun ou Varadero. Deles é o reino dos céus. Amem. 2) Consta que o governo português não receberá oficialmente o Dalai Lama, prémio Nobel da Paz. Em contrapartida, receberá, aquando da Cimeira EU-Africa o presidente do Zimbabué, o grande herói da luta anti-colonialista, o algoz que nos últimos anos se tem empenhado, perante a indiferença de quase todos, a destruir um país e um povo. Se eu fosse o Luis Amado fazia como a avestruz. Enfiava a cabeça na areia. Nunca mais de lá a tirava. 3) A Suiça andou entretida, antes do Verão, a discutir uma proposta que possibilitava o voto das crianças. Indignou-se meio mundo. Que as criancinhas não podem votar. Falta-lhes maturidade e discernimento. Não percebo por que não há-de votar o meu filho de nove anos e a sua trupe de ruidosos amigos se gente como o Cinha Jardim, o Cláudio Ramos e outros que tais o podem fazer.
Chefe Silva (3)
Para além de me avivar estas lembranças, o Chefe Silva é uma espécie de guardião de dias preciosos e distantes, dias em que nos maravilhávamos, sem saber, com o encanto das coisas simples. Um estufado de vaca era um estufado de vaca. Um bolo de leite era um bolo de leite. Uma sopa de peixe era uma sopa de peixe. Não havia artifícios ou engodos. São patéticas as revistas de culinária de hoje (que continuo a comprar por vício) e os nomes sofisticados que se utilizam. Queijo de cabra acamado em plataforma caramelizada de figos secos com espargos selvagens salteados. Trilogia de três chocolates com nougat de nozes e xarope de hortelã. Tudo tão pedante, tão insuportavelmente pedante. Os pratos de fusão, cheios de ervas italianas e frutos vermelhos, mirtilos, casis, framboesas, são um sinal evidente da vacuidade em que vivemos. É pelo sabor genuíno do peru recheado da tia Dé, pelo leveza do bolo pic-nic, tão doméstico nas nossas vidas, pela mousse de chocolate consistente que todas fazemos, pelas tardes frias de Inverno aquecidas pelo chá e pelos churros da minha mãe, por tantos outros sabores, por tantas outras lembranças, que este ano quase me senti tentada a ir à feira do livro.
Chefe Silva (2)
Uma vez, lembro-me agora, o meu irmão desafiou-me para fazer pastéis de nata. Ignorava, pobre aprendiz, a perícia de mãos que a massa folhada exige. Disse-lhe que sim e corremos a ver a receita nos livros do Chefe Silva. Passámos uma tarde na cozinha. Os pastéis ficaram comestíveis, mas com uma aparência distante da dos que se perfilam nas vitrinas das pastelarias. O meu irmão, porém, rejubilou com o nosso feito culinário. Obrigou toda a gente a provar os ditos e procurou conforto nos elogios forçados. Por fim, sorrindo, com uma solenidade que lhe é muito própria, que lhe está entranhada no corpo, rematou dizendo “Da próxima vez, vamos fazer bolas de Berlim!”. Nunca chegámos a fazê-las. Aliás, felizmente, nunca mais cozinhámos juntos. A cozinha, salvo honrosas excepções, como o Chefe Silva, é coisa para as mulheres. Fico enervada quando vejo homens na minha cozinha, quando me dão conselhos, quando opinam, faz assim, faz assado. A cozinha, mais do que delicadeza, ponderação, imaginação, exige esforço e os homens, é sabido, não estão para isso.
Chefe Silva (1)
Deixei há muito de ir à feira do livro. A feira deixou de ser a festa que era quando, na nossa meninice, trazíamos sacos cheios de livros da Enid Blyton e da Agatha Christie. Deixou há muito de ser a aventura que foi, durante a adolescência, quando roubava livrinhos das edições avante sobre a luta de classes na China de Deng ou sobre o Maio de 68. Depois, a idade aburguesou-me. Gosto de comprar livros, ainda que mais caros, em livrarias (apesar de Lisboa ser uma cidade de poucas e más livrarias). Por tudo isto, por preguiça sobretudo, deixei de ir à feira do livro. Este ano, porém, a minha irmã soube que em determinado dia o Chefe Silva estaria lá a autografar os seus livros. Ora, todas as mulheres da minha família reverenciam o Chefe Silva. O Chefe Silva faz parte das melhores memórias de minha infância. Passei tardes a folhear os volumes da teleculinária, apreciando os pudins, as gelatinas, as galantines, os estufados, os profiteroles, os biscoitos, os fritos de Natal. Menina ainda, de cabelo muito curto, suspirava com o bolo de noiva no número 29 do volume I. Um bolo em escada, coberto de glacé branco e florzinhas pequenas. Em cima, os noivos, de mãos dadas, tão bonitos, augúrio de felicidade. Passei outras tardes experimentando doces e compotas, licores, bolos e bolinhos, biscoitos.
2007/09/08
Annie Hall
Ontem, num dos muitos canais manhosos da Cabovisão, vi, de uma ponta à outra, um dos meus filmes preferidos: Annie Hall. Até aqui nada de estranho. Sou capaz de ver os mesmos filmes várias vezes. Assim como gosto de ler várias vezes os mesmos livros. Acontece que o filme estava dobrado em brasileiro. Ora, a minha obstinação pelo Brasil é notória e pública. No entanto, ouvir o Woody Allen, com voz de falsete, dizer “pôxa” em cada frase e a Diane Keaton, a maravilhosa Diane Keaton, com uma voz igual à das personagens dos filmes da Disney que são dobrados no Brasil, tipo a fada pequena e gorducha da Cinderela ou a empertigada Rainha das Flores da Alice no País das Maravilhas, é uma tortura. Não duvidem. É uma verdadeira tortura. No entanto, vá-se lá saber como e porquê, aguentei-a, estoicamente, até ao fim. Eu não ando bem. Decididamente não ando. É a loucura, a desfaçatez de espírito que, de mansinho, pé ante pé, se aproxima. Qualquer dia, ainda dou por mim, especada em frente do televisor, a ver um qualquer programa da Bárbara Guimarães. Credo. Acho que, mesmo louca, totalmente inerte e imbecil, não me sujeitaria a tamanho sofrimento.
2007/09/07
Cornichons
Ando viciada em cornichons. Como seis a sete por dia. É um vício deplorável. Vou ao frigorífico. Abro o frasco, bojudo e largo, comprado, baratíssimo, no lidl, enfio as mãos dentro do vinagre frio e escolho dois ou três pepinos anões. Coloco-os em cima da bancada. Olho-os. Tão pequenos. Sinto um ligeiro desconforto por comê-los. Acontece-me o mesmo com as cenouras bebés, as petingas, os jaquinzinhos e também com as ervilhas tortas. Não consigo evitar. Comer uma petinga é o mesmo que “comer” uma criança. Comer um pepino anão é o mesmo que “comer” um deficiente. Tais inquietações depressa passam. Uma vez ultrapassado o complexo de culpa, enfio os cornichons na boca. Um de cada vez. Gosto do sabor do vinagre. É um sabor excessivo, mas limpo. Sempre gostei. Em miúda, esgueirava-me para dentro da despensa, esticava-me e, assim, em bicos de pés, procurava a garrafa do vinagre na segunda prateleira. Quando a encontrava, entre os mil e um frascos de especiarias da minha mãe, mesmo ao lado da garrafa de azeite, certificava-me de que ninguém me via. Principalmente, a tia Dé, sempre tão atenta, capaz de armar um pé de vento se encontrasse a sua sobrinha mais velha, ajuizada e exemplar, a beber vinagre. Se não visse ninguém, enfiava o gargalo da garrafa na boca e bebia goles pequeninos. Sentia-me reconfortada com aquele excesso de sabor. Tenho uma explicação de cariz sexual para a minha adição a pepinos anões, mas abstenho-me de a enunciar.
Kacsinsky
Os irmãos Kacsinsky são sinistros. A gente olha para eles e imagina-os assassinos impiedosos, de cutelo nas mãos, esventrando corpos de rapazes jovens, de nádegas firmes. Ou então, vestidos de cabedal e pregos, sendo vergastados por uma dominadora de saltos altos e vagina pelada. Uma coisa é certa. Os gémeos polacos são homens complexados, de falos minúsculos. Só assim se compreende as questiúnculas que, de forma sistemática, têm levantado na União Europeia, e que funcionam como entrave à pretendida consolidação europeia. Agora, imagine-se, tiveram a ousadia de se opor à proposta de instituir simbolicamente um dia europeu contra a pena de morte. Os dias europeus valem o que valem. Nada. Mas, caramba, há um dia europeu dos vizinhos e um dia europeu para uma Internet segura. Porque não há-de haver um dia europeu contra a pena de morte? Eu acho que os gémeos polacos gostam de brincar ao faz de conta. Faz de conta que somos importantes. Alguém devia dar-lhes um valente pontapé no rabo e recambiá-los para a aldeia onde nasceram.
(E, depois, há quem tenha medo, medinho, da entrada da Turquia na União Europeia. Como se os países que cá estão fossem todos modelos de virtude democrata.)
(E, depois, há quem tenha medo, medinho, da entrada da Turquia na União Europeia. Como se os países que cá estão fossem todos modelos de virtude democrata.)
2007/09/05
Livros
Em resposta, direi que sou incapaz de enunciar os livros que não mudaram a minha vida. Que interesse tem isso? São tantos. Quase todos. Sou capaz, porém, de enunciar alguns dos livros que mudaram a minha vida. São livros-cinzéis. Esculpiram o que sou: 1) Rosa, minha irmã Rosa, Alice Vieira; 2) O Diário, Anne Frank: 3) Em Nome da Terra, Vergílio Ferreira; 4) Palomar, Italo Calvino; 5) Crime e Castigo, Dostoievski.
Anatomia de Grey
Acelero a rotina dos miúdos. Engrosso a voz. Tudo deitado. Rápido. Hoje a história é pequena e não há tempo para cantorias, nem para leitinhos, nem para conversas sobre isto e sobre aquilo. Eles estranham a minha pressa. A Dádá choraminga. Temo o pior. Dou-lhe um beijinho repenicado e prometo compensá-la com a história da sardinha Julieta. Ela acena a cabeça, aquiescendo. Respiro de alívio. Deito-me por fim em frente da televisão com o primeiro cigarro do dia na mão. Estou viciada na Anatomia de Grey. O mundo pode desabar que eu não perco um episódio. E tenho, admito, um fraquinho do Dr. Derek Sheperd. Tem ar de tudo menos de médico.
(A seguir, lá para a meia noite, passaram uma série sobre lésbicas. Parece que dá todos os dias. É a coisa mais deprimente e desinteressante que já vi. Uma catrefada de mulheres, todas boazonas, dadas às artes, claro está, lindas, magras e maquilhadas, soluçando traições, apregoando o desprezo dos malvados heterossexuais, vivendo entre elas, numa espécie de comuna de fufas contentinhas e orgulhosas por assumirem a sua orientação sexual. Não há pachorra. A série não é má. É péssima. Larguei logo um chorrilho de palavrões. Mais valia darem dois episódios da Anatomia de Grey.)
(A seguir, lá para a meia noite, passaram uma série sobre lésbicas. Parece que dá todos os dias. É a coisa mais deprimente e desinteressante que já vi. Uma catrefada de mulheres, todas boazonas, dadas às artes, claro está, lindas, magras e maquilhadas, soluçando traições, apregoando o desprezo dos malvados heterossexuais, vivendo entre elas, numa espécie de comuna de fufas contentinhas e orgulhosas por assumirem a sua orientação sexual. Não há pachorra. A série não é má. É péssima. Larguei logo um chorrilho de palavrões. Mais valia darem dois episódios da Anatomia de Grey.)
Madre Teresa
Por volta dos doze anos vi um documentário na televisão sobre a Madre Teresa e as Missionárias da Caridade. Ao vê-las percorrer as ruas da cidade-labirinto, tocando os moribundos, alimentando crianças, tratando dos que não têm nada nem ninguém, roendo a miséria da vida, chorei lágrimas sinceras de comoção. Nesse preciso instante decidi que quando crescesse havia de ser freira. Também eu queria dedicar a minha vida aos outros, levar-lhes alívio e alegria. Também eu queria alimentar, lavar, ajudar, ensinar, curar. Pareceu-me, naquela altura, que essa era a única maneira de viver a vida sem criar escaras. A minha vocação, porém, durou pouco tempo. Cedo percebi que nunca poderia ser freira. Era, e continuo a ser, de uma passividade absurda, incapaz de concretizar um projecto ou uma ideia. Depois, faltava-me um requisito essencial para o desempenho de tais funções: a fé. Não tenho fé. Nunca tive. E tenho pena de não a ter. É muito difícil viver sem fé. Vive-se com urgência e precipitação, com a inquieta sensação de desperdício da única oportunidade que temos para ser felizes. A fé faz falta. Por isso, volta e meia, procuro-a. Enfio a cabeça dentro do meu corpo e lanço um grito esganiçado lá para dentro. Ecoa a minha voz nos corredores das minhas pernas e dos meus braços, no salão do meu tronco, voa a minha voz até às clarabóias distantes por onde entram as sombras e a luz. Fico rouca de tanto chamar por ela. Ela, a fé, nunca me respondeu. Como se faz para ter fé? E como é possível ter fé num mundo tão amargo, de injustiça, frivolidade, sofrimento e miséria? Não consigo compreender. Não estranho, por isso, as dúvidas e inquietações que, durante 50 anos, a Madre Teresa sentiu. Difícil é ter fé. Falo de fé genuína, não da fé domingueira dos que abrem a boca para receber a hóstia sagrada e, depois, seguem vivendo regaladinhos e aliviados. Interessa-me pouco averiguar sobre se a fé da Madre Teresa era genuína ou não. Nem me interessa saber se aquilo que fez, durante a vida, foi por causa da fé. Só me interessa saber que o fez. E continuar a tê-la como exemplo.
2007/09/03
Silêncio
Apetece-me o silêncio. Mas o silêncio é um bicho raro, em vias de extinção, não se encontra em sítio algum. Está fora de moda. O dia está cheio de ruído. Letras que copulam, furiosas, até formarem sílabas, sílabas que formam palavras, palavras que constroem espirais de frases, frases que alicerçam diálogos. Tamanho desperdício de palavras, escritas e faladas, desespera-me. As palavras são como a água. Como as jazidas de petróleo, urânio, carvão. Meios escassos não se desperdiçam. Sempre ouvi dizer. Gastamos tanto as palavras que elas correm o risco de perder o seu significado. É no silêncio e na ausência que as pessoas se encontram. Mas a noite também não traz silêncio. Vem com o frenesim dos pássaros nocturnos. Piam as aves em estranhas sinfonias, batem as asas, espalham o pó das árvores sobre o mundo. A noite vem com os murmúrios do desejo alheio. Quero-te. Abraça-me. Toca-me. Vem com o desaguar manso das lágrimas das mulheres traídas nas almofadas de poliéster. Vem com o barulho pesada das páginas que volto. Vem com o cri-cri dos grilos que habitam o jardim. Vem com os ruídos cansados das entranhas deste prédio. E com as gargalhadinhas lépidas das meninas dos anúncios de telemóveis que vivem nos sonhos dos homens. A noite é malvada. Má. Má. Má. Traz os ruídos dos sonhos. Os sonhos, os meus, com escadarias de musgo, corredores sombrios, palácios de papelão, cansam-me. Dão cabo de mim. Preciso, com a urgência tola dos tolos, de silêncio. Não o encontro.
(Voltei sem vontade de escrever. Os textos das últimas semanas são, quase todos, textos antigos, de outros diários, de outros cadernos, de outros blogs. Fica o desnecessário esclarecimento. Para que não se estranhe o silêncio quando ele, por fim, chegar.)
(Voltei sem vontade de escrever. Os textos das últimas semanas são, quase todos, textos antigos, de outros diários, de outros cadernos, de outros blogs. Fica o desnecessário esclarecimento. Para que não se estranhe o silêncio quando ele, por fim, chegar.)
Mentol
Gosto de música. Oiço todo o tipo de música. Boa e má. Só não oiço música clássica. Mas já fiz um esforço para gostar. Quando andava na faculdade cheguei mesmo a ir a dois concertos na Gulbenkian, arrastada por um colega, redondo, ufano e pretensioso, que andava a tentar impressionar-me com os seus interesses intelectuais e elitistas. Se me conhecesse um bocadinho melhor, saberia que me impressionaria bem mais um convite para passar uma noite no Ritz Club, a dançar mornas e coladeras, ou se me tivesse oferecido um disco do Travadinha ou do Tito Paris. Durante o concerto, em vez de ficar quietinho na cadeira, como a imponência da música requeria, pôs-se a abanar a cabecinha e a bater os dedos gordos na cadeira para me dar a entender que conhecia bem a partitura. Ao terceiro convite tive que lhe dizer que não aguentaria outra investida ao mundo da música clássica. Expliquei-lhe que o problema era meu, que os meus ouvidos, infelizmente, eram incapazes de se deleitar com tais acordes. Que gostava de coisas banais e comezinhas. Ele não desistiu e, em alternativa, sabendo que eu gostava de cinema, convidou-me para ir ver o Imperdoável, do Clint Eastwood. Foi pior a emenda que o soneto. Antes de entrarmos para a sala, reconhecendo a sua gula, comprou um cartuxo de rebuçados de mentol. Quando nos sentámos, ofereceu-me um. Um mísero rebuçado. Depois, para meu espanto, comeu os outros todos de enfiada, fazendo um ruído ensurdecedor. Cada vez que comia um rebuçado, dava duas ou três chupadelas ruidosas, quase cavalares. Em seguida, utilizando todas as capacidades que os seus caninos lhe permitiam, trincava-os. Dilacerava-os, mastigava-os, deixando no ar um cheiro enjoativo a mentol. Quando o filme acabou, reparei que tinha a língua verde, coisa que me causou uma agonia imensa. Continuámos a ver-nos depois de terminar o curso. Ainda chegámos a almoçar algumas vezes. Ele, entretanto, tornara-se - na postura, no aspecto, na maneira com estava e como falava - num verdadeiro senhor doutor, coisa na qual eu não me tornara. Isso causava-lhe um certo incómodo. Aliás, lembro-me que, num desses almoços, teve a distinta lata de fazer um reparo à canadiana cinzenta, coçada, que eu levava vestida. Disse-me que já conhecia aquele casaco da faculdade e que o achava inadequado ao meu novo estatuto. Ele, pelo contrário, assumia, com empenho e alegria, o seu novo estatuto. Tinha um Alfa-Romeu preto e levava-me sempre a restaurante caros, cheios de homens engravatados e de mulheres com madeixas e nuances no cabelo. Passava os almoços a gabar-se de como era um profissional respeitado e de como todas as empresas o queriam para director de qualquer coisa. Comia com a boca aberta. Uma vez chegou mesmo a dizer-me quanto ganhava e a perguntar-me quanto é que eu, jurista de um instituto público, recebia no final do mês. Eu, atordoada com tal pergunta, disse-lhe. Olhou-me com um ar misericordioso, como quem diz, coitadinha. Tanta coisa, tanta merda, mas a verdade é que, no fim, dividíamos sempre a conta. Nunca mais lhe respondi aos convites. Deixei de lhe falar. Nesse dia, decidi que não voltaria a fazer fretes. Que não voltaria a aturar gente que não me diz nada. Gente que me é insuportável. E não aturo.
2007/09/02
Martim Moniz (Buda)
Perguntei, então, ao senhor de uma das lojas se não tinha ilustrações de deuses indianos. Olhou-me com desdém como quem diz para que raio queres tu tal coisa, não te armes ao pingarelho, deves ser uma dessas tontas que renegam as heranças ancestrais. Depois de me olhar de alto a baixo, disse-me que divindades hindus não tinha, mas que, em compensação, tinha um buda. E apontou para um monstruoso buda, esférico, com ar maléfico e assustador. Saí da loja furiosa com a mana. Ainda por cima, à saída da loja, deparei com o corredor alagado de mijo. Aparentemente, uma das casas de banho do centro estava entupida e, por isso, uma água acastanhada inundava os corredores. Todavia, nenhum dos habituais frequentadores do centro parecia preocupado. Uma senhora chinesa continuou sentada à porta da sua loja, como se os dejectos dos outros não estivessem a dançar-lhe por baixo dos pés. Já eu fugi a sete pés. O cheiro a merda era de tal ordem que ainda o sinto. Mas, malograda a busca, continuo a desejar que Shiva habite a minha casa.
Martim Moniz (Shiva)
Decidi que quero uma imagem de Shiva em casa. Entre outras coisas, Shiva é o deus da destruição. E não se menospreze o poder da destruição. Só depois de se destruir se pode voltar a construir. Perguntei à mana onde é que nesta cidade podia encontrar Shiva. No Martim Moniz, é óbvio, disse ela com aquele ar insolente, de criança mimada. Pedi-lhe que me acompanhasse na busca. Que não podia, que tinha coisas a fazer. Resolvi, por isso, procurá-lo sozinha. Desci ao centro comercial da Mouraria, sob o olhar atento dos homens, de todas as raças e feitios, que se amontoam na escadaria central. Nas lojas dos meus patrícios - é como o meu pai chama aos indianos, a todos, mesmo que sejam siks de turbantes cor de açafrão - entre bugigangas, penduricalhos, lantejoulas, especiarias, cachecóis, lenços, procurei Shiva. Em vão. Nada. Nenhum sinal. Nem a serpente, nem o tridente, nem o rio que lhe nasce na cabeça, nem o objecto fálico que o costuma acompanhar e cujo nome não recordo.
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