2012/02/07

Centopeia

Esvai-se o metro no cruzamento da linha amarela com a linha vermelha. Na plataforma, forma-se uma multidão compacta, um só corpo, lagarta comprida, andam os passageiros devagar, aproveitando o aconchego da proximidade para espreitar os outros: aquela rapariga tem um lacrau tatuado por baixo da orelha, o homem pequeno traz hoje um olhar magoado, a mulher gorda cheira a lixívia, a creolina, a ajax oxi plus. Sigo na multidão. Vou doente, quase morta, trago vasos inflamados, tenho tonturas, dores de cabeça, está o meu universo interior coberto de espinhos, zangado; sinto, e isso é pior do que as universais quezílias, um pingo de muco a querer fugir da narina direita, não trago lenços de papel, já os procurei e não os encontro, se me cai o pingo, se se solta a gota, vou ter de levar a mão disfarçadamente à narina para compor a coisa, levá-la hirta até encontrar onde a limpar; dói-me a cabeça; podendo, dormia. Subo as escadas com pressa de chegar à superfície, mordo os calcanhares do homem da frente, que leva um livro forrado com uma folha branca; vira-se o homem para trás e olha-me, indignado, como que a dizer, a senhora tenha cuidado, há regras e preceitos para que a centopeia se movimente; quero pedir-lhe desculpe, explicar-lhe que respeito muito o compasso da centopeia, a última coisa que quero é atrasar-lhe o passo, tanto apreço que tenho pelos quilópedes em geral, peçonhentos, primitivos, mas com graça no andar, também eu preciso de chegar à superfície para respirar, mas, perceba o senhor, venho doente, tomei os medicamentos dos meus filhos a ver se arrebitava, todos os que encontrei lá por casa, de uma só vez, brufen, maxilase, aerius, benuron, zyrtec; o dobro da dose que lhes uso a dar, costuma resultar, mas, desta vez, sinto só uma espécie de tontura infernal que me põe trôpega, a culpa, está bem de ver, é dos miúdos que não tomam os medicamentos certos para a cura dos meus males. Continuamos a subir e esforço-me por ir devagar, sem precipitações ou atropelos. Volto, porém, a pisar o homem da frente, desta vez com mais força, fica descalço no meio das escadas; pára a centopeia, por minha culpa. Tarda em chegar à luz.