2006/10/24

Pingo Doce (2)

Aborrece-me a anã. Tão pequena, impingindo a sua miséria, disfarçada de outra coisa qualquer, aos outros. Os outros olhando-a com surpresa e um certo nojo. Fitando-a, vasculhando bolsos à procura da esmola. Fujo-lhe. Volto a encontrá-la perto dos iogurtes e da padaria. Sempre interpelando alguém, vendendo rifas, escrevendo qualquer coisa nos papelinhos amarelos, recebendo moedas de um euro em troca. A Madalena alheia a tudo, sentada no carrinho, mexe numa árvore com cheiro de morango que será plantada no carro para disfarçar o cheiro dos chichis que a cadela insiste em fazer em cima da cadeira do João. Por fim, no corredor das cervejas, acontece o que temo. Sou abordada pela tenebrosa anã. Torta, tortinha, muito feia, sem dentes, mexendo-se com dificuldade, caminha na minha direcção, sorrindo-me. Olho-a, tentando perceber o que me diz. Os seus lábios movem-se, é certo. Um sorriso grotesco está colado ao seu rosto. Não a ouço. De repente o mundo emudece. Com calma, com muita calma, tiro a Madalena do carrinho, que vem cheio e pesado, e lanço-o na sua direcção. Ela, a anã, afunda-se no soalho encerado. Ninguém dá pela sua falta. Em sítio nenhum. Olho em redor. Nem um resquício ficou para a posteridade. Nem sequer um papelinho amarelo. Meto quatro garrafas de cerveja sem álcool no carrinho e respiro de alívio.

Pingo Doce (1)

Na peixaria, enquanto espero que a senhora de avental e da touca arranje as postas de safio, vislumbro um vulto pequeno que se aproxima do homem que está ao meu lado. É uma anã. Ou politicamente falando, uma pessoa de estatura pequena. Traz um bloco de folhinhas amarelas nas mãos anquilosadas. Escuto. “ ... e depois lembrei-me, em vez de pedir esmola, faço umas rifas e …”, ouço-a dizer com voz de falsete. Olho-a de viés. Toda a gente a olha de viés. O que nela incomoda não é a pequenez, nem sequer a feiura, que é muita. O que chateia, e surpreende, é o tom que põe na voz. Faz lembrar um fantoche ou o boneco de um ventríloquo. Tem a lengalenga decorada. Sou interrompida pela minha filha que, aborrecida, me pergunta porque é que levo safio em vez de dourada. Gosto mais de doirada, diz ela, que se deixa encantar por tudo o que brilha, até pelos nomes dos peixes.

2006/10/23

Molho de soja

Releio-me. Percebo que ando um bocado obcecada com esta merda. Credo. Já enjoa tantos álgidos lamentos. Vou passar outra tarde de náuseas, a arrotar a salmão cru e molho de soja. Que nojo.

Supérfluo

No quarto, cortei uma franja rala na testa. Saiu torta. Fiquei me examinando no fundo amarelado do espelho. E se casasse? Seria uma forma de me libertar, mas no lugar da avó, ficaria o marido. Teria então de me livrar dele. A não ser que o amasse. Mas era muito raro os dois combinarem em tudo, advertira a minha avó. Nesse em tudo estava o sexo. “Raríssimas mulheres sentem prazer, filha. O homem, sim. Então a mulher precisa fingir um pouco, o que não tem essa importância que parece. Temos que cumprir nossas tarefas, o resto é supérfluo. Se houver prazer, melhor, mas e se não houver? Ora, ninguém vai morrer por isso.”
O Espartilho, Lygia Fagundes Telles
(Havia de ter tido uma avó assim, que me explicasse, sem rodeios, o meu papel no casamento e na cama. Tinha evitado alguns dos pregos que tenho enterrados na carne. Isto de uma mulher achar-se no direito de ter prazer no casamento e na cama é uma tolice, uma modernice, uma palermice. Só traz chatices. Melhor abrir as pernas, arfar ligeiramente, receber o esperma conjugal, lavar os despojos, dar um beijinho de boa noite, virar para o lado, adormecer. Melhor viver no apartamento-prisão-labirinto, distribuindo sorrisos, fazendo sopas, lavando copos e pratos, estendendo cuecas, meias, lençóis, varrendo os cantos, sem nunca olhar para as grades que estão em toda a parte. Melhor ser uma deusa morta do que uma mulher viva.)

2006/10/20

Chungking Express



























Wong Kar Wai, 1994

(A minha irmã, por vezes, enerva-me profundamente. Até à medula, para utilizar uma expressão querida da minha mãe. Nunca lhe devia ter devolvido este filme.)

2006/10/19

Mulher-paquiderme

Ao lado da fêmea-tigre, que debica um pudim de ovos, um grupo de três mulheres fala do novo crucifixo do santo padre e das actividades da igreja. Conheço-as bem. São amigas da minha cunhada que acredita em deus com devoção e ganhará, por isso, um lugar no céu. Uma delas faz o bigode todos os dias e tem uma voz de trovão que assusta qualquer mortal. Outra é pequenina e está, hoje, especialmente esfuziante por a filha namorar com o filho de uma alta figura do Estado. A terceira chama-se Almerinda e é robusta como um paquiderme. Tem um ar campestre. Gosto muito dela e do marido, míope e excessivamente feio. Só que hoje a Almerinda traz sandálias que lhe deixam a descoberto os dedos dos pés. São uns pés gordos, inimagináveis de tão feios que são. Há uma certa obscenidade em mostrá-los. São pés pantagruélicos, gargântuescos. Tem uns dedos muito gordos, cheiinhos de carne. As unhas encaracolam, enterrando-se na carne. A unha do dedo pequenino, em vez de ser quase invisível, como é hábito, é gigantesca. Mostra-se, triangular, por cima de um bocado de carne. Olho para aqueles pés e esqueço as mamas da fêmea-tigre. Os pés da Almerinda, a mulher-paquiderme, arrumam com elas a um canto.

Fêmea-tigre

A fêmea-tigre chegou. Vem com o marido comprador de arte. Hoje usa uns calções de flanela grossa e branca. Muito curtos, com uns berloques dourados, que estão ali a fazer sei lá o quê. Como é costume tem uns saltos de dez centímetros. Desta vez imitam pele de leopardo e têm umas plumas pretas esvoaçantes. Usa uma camisa de seda verde, muito brilhante, com um decote obsceno. Tem as mamas à mostra. Literalmente. A única coisa que não se vê é o biquinho do mamilo. Não se vê, mas adivinha-se, pequenino, à espera de ser devidamente mordiscado pelo marido comprador de arte. Não consigo tirar os olhos daquelas mamas. Não que as mamas em si mesmo me interessem. A frigidez., a minha, já está num nível em que nada me estimula, o que é triste, sem ser angustiante, porque, em pequena, bastava-me olhar para a maya desnuda para empalidecer de êxtase. Agora é uma desgraça. O que me perturba é a exposição pública daquelas mamas numa festa de família. É anti-social. O meu filho está mesmo ali perto. E se o miúdo topa com aquele mamalhame acéfalo, mas magnifico? Pode ficar traumatizado e pensar que as mulheres são todas assim. Ainda bem que ele está a ver a bola.

2006/10/17

Expiação

Durmo mal. Acordo muitas vezes durante a noite. Às vezes como línguas de veado e quadradinhos de chocolate com avelãs inteiras que compro, muito baratos, no lidl. Espio os animais da casa. A cadela, os peixes, o rato russo, os bichinhos de conta que ela traz do jardim e que agonizam em tacinhas e caixinhas de fósforos. Outras vezes fumo. Gosto de fumar. Nunca vou aos quartos dos miúdos. Esqueço-me que lhes velar o sono mais tardio. Passo no corredor como um espectro. Acho que nem toco com os pés no chão. O meu corpo é evanescente, pouco denso. Sou capaz de atravessar paredes, voar através do tempo, falar com os mortos, dar risadinhas assustadoras. Sonho muito. Sempre sonhei. Sou feita de imagens sonhadas: árvores de folhas prateadas, jardins coloniais plantados no cimo da António Augusto de Aguiar, um leão passeando, calmo, pelo Parque Eduardo Sétimo, a Baixa labiríntica, um homem chinês, pequeno como eu, sorrindo ao abrir a porta. Antes de adormecer a mesma imagem toma conta da noite. São dois pulsos cortadas. Um corte ligeiro em cada um deles. Uma lágrima de sangue escorre lentamente e ensopa um tapete felpudo cor de café com leite. Não é uma imagem terrível ou angustiante. Não me assusta nem me preocupa. É uma imagem como outra qualquer. Faz lembrar as chagas de um cristo padecente, mas sereno.

2006/10/16

Unhas de porco

Passei por um talho onde, numa cartolina amarela, se anunciava a venda de unhas de porco a 0,48 €. Fiquei maravilhada a olhar para aquilo. Fascinam-me as coisas pequeninas que se podem comer de um animal: unhas, pezinhos, bofe, rins, coração, orelha, focinho, testículos. Nesse preciso instante fez-se luz na minha cabeça e percebi que o meu sonho, afinal, tem uma leitura política. Já sei quem é que mandou o telegrama ao Paulo Portas. Só não percebo porque vem escrito em espanhol. Deve ser para disfarçar.

Volta, mi amor

Vivo numa espécie de residência universitária, cheia de gente. É uma casa de vários andares, escura e desarrumada. De repente tocam à campainha. Alguém abre a porta. É o correio. Trazem um telegrama. Vindos do andar de cima, descendo uma escada em caracol, apressados, chegam dois homens. Ambos estão nus e descalços. Apenas usam uns slips brancos. O primeiro é o Paulo Portas que corre para a porta. O segundo é o Nobre Guedes e traz um ar circunspecto. O Paulo Portas apanha o telegrama e, sofregamente, lê em voz alta. “Volta, mi amor”. Emocionado, vira-se para o Nobre Guedes e diz-lhe “Ele quer que eu volte”. O outro não lhe responde. Voltam a subir as escadas em caracol. Devem ir falar das suas vidas. O amor é uma coisa complicada. Pode-se amar muita gente, ao mesmo tempo, de maneiras diferentes. Entretanto, saio com a directora da residência que me levará à cidade. É a Maria João Avilez. Guia um Nissan Micra preto, veste um vison branco e tem um ar pouco simpático. (Andam baralhados, os meus sonhos. Deste não tiro nada.)

2006/10/13

Corpo e alma

A Rita Ferro Rodrigues, na sua coluna do Expresso, falou deste meu blog há umas semanas atrás. Achei despropositada a comparação com o meu pipi e exagerada a alusão à minha frigidez angustiante. A minha frigidez não é angustiante, é apenas inconveniente, assim como uma visita que não se espera e se alonga em conversas aborrecidas. Porém, confesso, gostei de ler o que escreveu sobre as minhas as miudezas. No fundo, bem lá no fundo, foram os meus quinze minutos de glória. Quando soube corri a telefonar à mana. Mais ninguém. Hoje, no quiosque da D. Bia, ao comprar o jornal, percebi que a Rita é a capa da Caras desta semana. Ao que parece está feliz ao lado do seu novo namorado. Se fosse antes do elogio eu tê-la-ia insultado mentalmente. É óbvio. É que lhe tenho embirração antiga, o que não é muito grave porque eu desdenho quase toda a gente. Apraz-me vê-la, contrariada, apresentar o programa da manhã, ao lado da Fátima Lopes e do careca que tem um defeito na fala. Fico deliciada quando a vejo falar com o Cláudio Ramos e a Maya, ambos cagalhões antropomórficos (em rigor, não chegam a ser cagalhões porque até os cagalhões têm alguma dignidade), sobre os outros cagalhões que se passeiam nos folhetins cor-de-rosa. Acontece que a minha fonte de insultos, sempre torrencial e inesgotável, para meu próprio espanto, secou naquele preciso momento. Não a consegui insultar. Olhei para a tal revista e achei a Rita bonita e radiosa. Culpei os malandros dos fotógrafos que não a deixam em paz. Estive quase tentada a comprar a Caras para me compadecer com os seus desgostos de amor. Enfim… A verdade é que uma pessoa vende, corpo e alma, por meia dúzia de palavras agradáveis. É uma desgraça.

2006/10/12

Anna Magnini


(Já andam frenéticos a colocar luzes de Natal na cidade. Eu peço-te já, com a antecedência devida, a prendinha que quero. Desencanta-a onde quiseres. Por favor, não me desapontes.)

Realeza

A minha filha amuou porque descobriu que em Espanha há um rei e uma rainha. Agora quer ser espanhola (sempre disse que esta miúda era esperta). Sem acreditar muito no que dizia, expliquei-lhe que era melhor ter um presidente escolhido por nós. Esteve-se nas tintas para a liberdade e para o direito de voto. Inchei de orgulho. O que é isso comparado com um rei coberto por um manto de arminho e uma coroa cravejada de pedras preciosas acompanhado por uma rainha de vestido comprido, bordado a fio de ouro, com o cabelo entrançado com pérolas?

2006/10/11

As maminhas da Raimunda

Na sua crónica semanal sobre cinema, o Paulo Portas fala do último filme do Almodovar. Às tantas, já nem sei a que propósito, descreve um dos planos mais marcantes do filme. Raimunda, depois de um dia de cansaço, lava a loiça ou cozinha (já não sei) no seu pequeno apartamento de arrabalde longínquo. O plano, meia dúzia de segundos, é filmado de cima. O cineasta dá-nos uma visão do mundo que nunca temos. É o olhar de deus. Só deus lá de cima nos vê assim. O Paulo Portas remata o seu parágrafo qualificando as mamas da Penélope Cruz, que se mostram magnificas num decote generoso, como “maminhas peninsulares”. Nem mais. Ora, o plano em questão está cheio de um erotismo doméstico, intenso, que dificilmente se encontra no dia-a-dia. Ali está um peito, encoberto, que treme, que se imagina com o cheiro de um dia de trabalho recozido na pele. É um plano sensual para um homem que o observe. Mas também é muito sensual para uma mulher. Só um homossexual conservador e reprimido, que branqueia a dentadura e usa patilhas à marialva, totalmente imune ao que uma mulher tem de mais bonito, as mamas, poderia descrever, de forma tão frouxa e tíbia, as da Penélope Cruz.

2006/10/10

Cesariny (2)

Foi então que reparei no quadro. Um Cesariny, enorme e amarelo. O marido da prima, perante o meu interesse no quadro, perguntou-me se gostava. Antes que pudesse dizer-lhe que não explicou-me que a compra daquele quadro tinha sido um belo investimento. Esperava que o mesmo valorizasse assim que o pintor morresse. Olhei para o quadro preso naquela triste realidade. Lembrei-me da entrevista lida pela manhã, o Cesariny tão velho e saudavelmente louco, a falar dos urinóis de Lisboa, dos homens que amou e dos outros com quem se deitou, a falar, com desassombro, da vida e do pode haver dentro dela. Lembrei-me de tudo isto e calei o chorrilho de disparates que esteve prestes a sair-me da boca. A tua mulher é boazona, mas burra que nem um calhau e tu és um prostituto, um chulo, um badameco armado aos cucos, um cobridor de fêmea que se veste de tigre e usa unhas de gel. Havia ela de ser de Camarate, da Brandoa ou da Cova da Piedade, tesa e retesa, a ver se te casavas com ela. Era o casavas. Quando ele se calou fugi para a cozinha. Fumei vários cigarros de seguida. E deixei-me ficar a falar com a ucraniana de olhos glaciares.

Cesariny (1)

Para cumprir uma obrigação familiar, um destes dias fui a um jantar de aniversário de uma prima por afinidade que vive no meio da cidade, num apartamento de luxo. A aniversariante, que tem umas mamas grandes e uma peida apetecível (é o que dizem, que eu de peidas percebo pouco), usava uns sapatos de verniz pretos, com saltos muito altos, e uma camisa de seda a imitar pele de tigre. É simpática, a prima. Aliás, é uma daquelas pessoas em quem a gente pensa e diz fulana é simpática e não lhe ocorre mais nada. Mas sabe fazer-se de senhora crescida. Sabe dar ordens à empregada, uma ucraniana, de pele muito clara e olhos frios. Sabe servir entradas, pratos cheios de gambas, nozes, lagosta, sobremesas requintadas, estrangeiras, naturalmente, que o que é nacional é mau, comezinho, deve evitar-se a todo o custo. No final, agradeceu a prima aos convidados com uma taça champanhe francês, aquele conhecido, Moet et Chandon ou lá como é que é. Fez um discurso emocionado. Bati palmas. Os amigos da prima também. Eles de camisa azul e calças de sarja creme vincadas, elas de vestido de alças, sandálias de cunha, beberricando champanhe e sacudindo madeixas loiras, afectadas, falando nasaladamente, metendo ditongos em palavras que os não têm.

2006/10/09

Tóquio

Estive a pensar. Outra prova irrefutável da menoridade dos homens é o facto de gostarem dos Led Zpelin. Todos os homens gostam dos Led Zplin. A última vez que fui ao Tóquio, há muito tempo, o Manuel, que até tenho em boa consideração, dançou entusiasticamente um solo de guitarra da dita banda que durou para aí dez minutos. Nem queria acreditar. Não conheço uma única mulher que goste dos Led Zpelin. Uma única. Prova evidente da superioridade vaginal.

2006/10/06

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(pero, que es muy guapa.)

Encarnação

Casas altas, estreitas, geminadas, pintadas de cor, amarelo canário, amarelo torrado, grená, verde água, azul petróleo, cor-de-laranja, uma das casas tem uma varanda cheia de lixo, entre o amontoado de coisas vejo um guarda sol de ramagens largas, desbotado, as granjinhas já amarelecidas e o cabo e as varetas sarapintados de manchas de ferrugem. Lá em baixo um rio nevoento corre, agitado, águas turvas, geladas, roçagam o musgo das margens, por cima do rio, a atravessá-lo, uma ponte romana, alta, muito alta, de pedras esboroadas pelo tempo. Eu a olhar para as casas e para o rio, a achá-lo tão bonito, na sua imensa escuridão, a perceber, pela estranha quietude que por ali paira, que estou completamente só.

(Os sonhos, os que fazem as minhas noites, adormecem dentro de mim. Também nunca me abandonam. Entopem-me as veias.)

Amiga

Li, algures, que, em 20% dos casos, a depressão se torna numa doença crónica sem remissão. Ao contrário do que o doutor LM diz, a minha depressão não é reactiva. Engana-se redondamente o doutor LM que fuma charuto e está sempre excessivamente bronzeado. A minha depressão é crónica. A tristeza em mim é um estado latente. Conheço-a desde sempre. Cresceu comigo. É uma espécie de minha melhor amiga. Cuja presença me incomoda. Que se impõe nos meus dias. De vez em quando, a amiga-tristeza hiberna dentro do meu corpo durante longos períodos. Acomoda-se num canto qualquer e deixa-se adormecer, enroscada. Oiço-lhe o ressonar, brando e húmido, de animal manso. Não me incomoda, mas sei que está lá. Nesses momentos quase me sinto normal (seja lá o que isso for, não me quero normal, nunca quis, sou demasiado maníaca, megalómana, para me satisfazer com a normalidade, associo a normalidade à mediania e eu, de longe, prefiro ser medíocre a ser mediana). Outras vezes, a amiga-tristeza desperta e, como um animal acicatado, transforma-se em fúria, ira e dor. É uma dor invisível, de tal forma intensa que se sobrepõe a tudo e a todos. Como se mata uma amiga, a melhor, que vive dentro de nós? A resposta é fácil, aceitável até. Basta que se retire a carga dramática, trôpega de lamentos, urros aflitos e brados lacrimosos.

2006/10/04

Novélia

Prova da esfericidade da terra: a solidão. Quando o mundo se aproxima do teu rosto, aparecem primeiro os silêncios e só depois se sente o medo.
Manuel da Silva Ramos, Os três seios de Novélia

2006/10/03

Companheiro

Alma

Aconteceu o que temia há muito. Fiquei com o salto preso na calçada. Corri, coxeando, ao sapateiro. “Só lhos posso entregar amanhã. É que a menina partiu a alma do sapato!”, disse ele, arregalando-me os olhos. Encolhi-me. Envergonhei-me. Coisa feia de se partir. A alma. Não se parte o coração nem a alma a ninguém. Muito menos a uns sapatos pretos clássicos, nossos amigos, tão disponíveis, que ficam bem com qualquer trapo.

2006/10/02

Frio

Está frio. Tirito. Apetece-me comer marmelos cozidos com pau de canela. A tia Dé, que tem a solidão aberta nos olhos e nos dedos, fá-los bem. Se um dia me morre a tia, a mãe ou o pai morro também. Mato-me que não me quero por cá sem progenitores. Sou mais filha que mãe. Quero ser outra vez menina para ver as trovoadas da janela da cozinha da minha avó. O nariz pingão esborrachado no vidro. A imaginar deus como um mago gigante, fero, vestido de cetim recamado de estrelas e cometas, a lançar feitiços cá para baixo. Agora sou crescida. Sou uma mulher crescida e gelada. Vou para casa enrolar-me em folhas de papel de jornal. Depois acendo um fósforo. Pode ser que aqueça.

Espelho mágico

Quero trocar de corpo”, digo à imagem que o espelho reflecte. “Este não me serve. Está morto. Estou farta de velar o meu clítoris e a minha vagina." A imagem olha-me enquanto repito gestos matinais. Lavar o rosto. Esfregar os dentes. Espalhar o creme hidratante. Depois a base compacta que esconde poros, borbulhas, imperfeições, manchas. Volto a olhar a imagem do espelho. Tem os olhos rasos de água. Coitada. Um mar de escuridão dentro deles. Estende os braços. Parece querer abraçar-me. Borrifo-me de lavanda. Fujo-lhe. Apago a luz. Era o que mais faltava. Detesto cenas de comiseração logo pela manhã.

2006/09/29

Ilda e Júlio

Verdes Anos

No correnteza do comboio há figueiras de folhas largas e puras, nelas não se enforcou Judas, nem ninguém, há retalhos de terra cansada onde velhos plantam couves galegas e outras coisas, cenouras, batatas, nabos, espinafres, há colmeias na chapada do monte, mesmo por baixo de uma bomba de gasolina, há pergólas endemoninhadas feitas por ervas bravias, heras, ortigas, trepadeiras com campânulas em flor, há prédios de papelão onde vivem pessoas de papelão, vejo agora, ali, um homem de papelão espreguiçando-se numa janela e um braço de mulher que nele se enlaça como se fosse uma serpente sibilante. Adão e Eva. Há ruínas habitadas pelo silêncio e o vento. Lá em baixo, Ilda e Júlio tropeçam nos regatos que são animais mansos. As suas gargalhadas sobem pelo ar como se fossem bolas de sabão. Translúcidas, efémeras, com todas as cores lá dentro, a morte também lá está, disfarçada de vida. Entram as gargalhadas com corpo de bola de sabão pelas janelas do comboio. Por breves instantes ficam rendilhadas. Tornam-se em quase nada. Depois rebentam no meu nariz e nas minhas mãos. Plof.

2006/09/28

Amália (2)

Sempre ouvi dizer que sou parecida com a tia Amália. Fisicamente, mas não só. Desconfio que o génio também deve ser parecido. Quando se zanga com o marido, a tia Amália pega na pequena acelera de fabrico indiano, uma máquina potentíssima, percorre o caminho de Pondá a Maina, praguejando sempre contra o pobre Xavier, e vai descansar uns dias à casa materna, entre papaieiras e cajueiros. Só volta quando o marido mete o rabinho entre as pernas e lhe pede para voltar. Quero conhecê-la. Mergulhar-lhe nos olhos, nos silêncios e nos gestos. Quero que me ensine a usar um sari, a pintar os olhos com côle, a apanhar devidamente o cabelo (uma mulher deve ter o cabelo comprido, mas usá-lo sempre preso, é o que o meu pai diz). Quero pisar a terra vermelha dos caminhos da aldeia que viu crescer os cinco irmãos. Amália, Manuel Maria, Inácio Caetano, Rosário, Rosu, a mais velha, muito velha, sem idade, bruxa, feiticeira, louca, que fuma charutos, encolhida numa enxerga suja, a poalha da cinza a cair em cima do sari branco. Diz a minha mãe que, quando a tia Amália me olha nas fotografias, ao reparar nos olhos escuros, no cabelo preto e comprido, na pele, me acha mais indiana do que europeia. Serei? Apesar de nunca a ter conhecido, de nunca lhe ter ouvido a voz ou sentido o cheiro, de nunca a ter abraçado, sinto esta tia, que é uma ausência que não se quer, como minha.

Amália (1)

Chama-se Amália. Conta o meu pai que, quando eram pequeninos, a levava na bicicleta para a escola, percorrendo vários quilómetros de caminhos enlameados e tortuosos, debaixo das chuvas monótonas das monções. Quando cresceu, a tia Amália tornou-se professora e, como todas as outras raparigas goesas, casou com o homem que os seus pais, meus avós, escolheram para si. Xavier, um funcionário de uma fábrica qualquer, a quem acabou por amar. O meu pai, pouco dado a elogiar os seus, tem uma admiração grande por esta irmã. Apesar de pertencer a uma família brâmane, a tia Amália casou a filha com um rapaz de outra casta qualquer. Marimbou-se nas ancestrais tradições e ficou contente por a filha, médica, casar com um engenheiro trabalhador que a levou para a Arábia Saudita, onde ganham rios de dinheiro e são felizes. Esta atitude não é comum na comunidade católica goesa, muito apegada aos valores tradicionais. Quando o meu tio Rosário casou com uma mulher de uma casta inferior, a minha avó, para o castigar, mandou construir-lhe uma casa na periferia da aldeia, longe de si e do resto da família e, para sempre, o tratou como um pária. Morreu de cirrose, carcomido pelo álcool e pelo desprezo familiar. O meu pai só levou a minha mãe a Goa depois da avó Aninhas morrer. Parece que ela apanhou uma fúria grande por ele, preterindo a noiva goesa por ela escolhida (feiíssima, segundo consta), ter casado com uma portuguesa. Coitadinha da minha avó. Ficou a ganhar o meu pai que casou com a mulher mais bonita do mundo. Ainda hoje me custa a perceber como conseguiu o meu pai seduzir a minha mãe.

2006/09/27

Espelho mágico

Cabra infeliz e feia!” rosnei, pela manhã, à imagem que o espelho me mostrava. A imagem quedou-se por breves instantes, olhando-me. Depois, puxou a mão atrás e deu-me um valente estalo.

2006/09/26

Índia

Steve Mccurry

(O meu pai não usa turbantes amarelos. Não encanta serpentes com flautas mágicas. Não fuma cachimbos perfumados. Não tem uma expressão grave nos bigodes retorcidos. Não teme Shiva. Nunca se banhou nas águas terrosas do Ganges. Mas é assim, junto dele, sentido-lhe o calor e a indiferença, que adormeço.)

2006/09/25

Catitas e felizes (2)

Acontece que a bibliófila em questão falava, no seu blog, de um livro que li há pouco tempo. Ainda está em cima da mesa-de-cabeceira e vou ter dificuldade em devolvê-lo ao seu legítimo proprietário. Quem me conhece sabe que leio compulsiva. Por prazer. Por isso, me enervou a conversa da bibliófila. Eu amo os livros (assumo, neste caso, a parolice do emprego do verbo amar). Tenho por eles um amor táctil como diz a canção do Caetano Veloso. Mas também os odeio e desprezo e pretiro. Os livros são capazes de me pôr doente, triste, angustiada, irritada. Outras vezes, feliz. Porém, apesar da importância que têm na minha vida, jamais me passaria pela cabeça chamar-me, considerar-me bibliófila. Quem se assume como bibliófila como se assumisse um título ou uma comenda é tonto, palerma, acéfalo. É conversa de quem não percebe nada de livros. Um livro é mais do que um objecto que se lê e comenta. Os livros não servem para ser escalpelizados em teorias e críticas (essa tarefa compete apenas aos académicos, coitados, que se entopem em recensões, análises, comparações). Muito menos servem os livros para a gente se pavonear, em alaridos despropositados, com meia dúzia de linhas mal escritas na blogosfera. O que a tal bibliófila não sabe, nem percebe, é que, quando um livro nos toca, não se compartilha sequer.

Catitas e felizes (1)

Raramente leio blogs. Aborrece-me a democraticidade da coisa. Todos opinam, todos escrevem, todos se metem numa espécie de montra, assim como as putas de Amsterdão, mostrando qualidades, erudições, trocando galhardetes, elogios, lincando histericamente, furiosamente, espampanantemente, mostrando vidas preenchidas, interessantes, divertidas, viajadas, cosmopolitas. Uma pontinha de irreverência aqui. Outra pontinha de irreverência ali. Já está. Está feito. Como somos catitas e felizes! Como sou amarga. Sempre que caio na asneira de passear pela blogosfera enervo-me. E eu não posso enervar-me porque, como diz a minha empregada, sou uma pessoa fraca dos nervos. Noutro dia, já nem sei por que caminhos lá fui dar, topei com uma tipa que se assumia como bibliófila (aquele que ama livros). Franzi de imediato as sobrancelhas e lembrei-me duma colega que alardeava aos quatro ventos o seu amor aos livros e de como um dia queria adoptar um pretinho. Era assim mesmo que ela dizia, um pretinho, um estafermo de um pretinho, um pretinho do Biafra, com uma barriguinha de fome, um pretinho, um pretinho, um pretinho, coitadinhos do pretinhos. Coitadinha era da amiguinha, senhora doutora, meretíssima e tal, com uma beca pregueada, feita numa costureira da Amadora, que tinha a boca cheia de dentes amarelos e dizia “drógado” e “vou fazer o comer”. Adiante.

2006/09/22

Julieta dos Espíritos

Em vez de Rosita, ficou a chamar-se Julieta dos Espíritos. Tive que inventar uma mentira muito grande para os miúdos aceitarem. Queriam chamar-lhe Carocha. Eu sou lá mulher para ter uma cadela chamada Carocha... Ainda por cima ela é parecida com a Giulietta Masina. Pequenina. Bonitinha. Com dois olhos muito vivos. Lindinha.

2006/09/21

Baile no Bosque

Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."Eu sei.
É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eugénio de Andrade

(gosto tanto dos Trovante.)

2006/09/20

Cipralex (3)

Meti-me num táxi e rumei à primeira farmácia de serviço que encontrei. O mundo continuava a girar à minha volta, tremelicando por todos os lados, bruxuleando como a luz de um pedaço de vela. E as formigas malditas, essas não me largavam os lábios. Uma sensação, grande, de desconforto e insegurança tomava pois conta de mim. Para minha irritação, quando entrei tinha duas mulheres à minha frente. Sentei-me. A primeira pediu trifene. Bufei. Resfoleguei como os búfalos que conheceram o meu pai pequenino, lá longe, nos prados de Goa. Uma dor menstrual tem lá comparação com a ressaca provocada pela falta prolongada de um anti-depressivo? Já tive dores menstruais. Até já tive filhos sem anestesia. Não custa nada. É uma dor física que o corpo aguenta. A segunda mulher pediu palmilhas de silicone anti derrapantes para os sapatos. Aí não aguentei e reclamei que aquilo era uma farmácia de serviço, não uma para-farmácia. A farmacêutica, do outro lado do balcão, insolente, disse-me para esperar. Tive saudades, tantas, da empregada do senhor doutor, a tal Cristina, tão simpática, tão subserviente, tão senhora doutora para ali, senhora doutora para acolá. Encolhi-me. A empregada demorou imenso tempo a mostrar palmilhas de silicone à velha que estava à minha frente. Eu a morrer devagarinho. Por fim, lá se dignou a atender-me. Quando viu a minha receita, olhou-me em silêncio. Eu olhei-a de volta, prestes a desfalecer. Mal saí da farmácia meti um cipralex à boca. Passados poucos minutos o mundo parou de tremer.

Cipralex (2)

Estava eu a observar as ondulações da avenida quando entrou um homem que conheço vagamente. Trabalha num ministério qualquer. É advogado. Ou jurista. Ou coisa que o valha. Ele bem tentou esquivar-se, mas não teve como me fugir. Deu-me dois beijinhos e, claro está, passados dois ou três minutos, estava a justificar a sua presença na sala de espera de um psiquiatra. Eu ouvi e nada lhe disse. Bico calado. Era o que mais faltava explicar-lhe a minha triste depressão, a minha confrangedora frigidez, as minhas ideias suicidas, as minhas inseguranças e efabulações flatulentas. Deixei-o falar. Até porque o dito colega é uma daquelas pessoas, narcísicas, que gosta de se ouvir a si próprio. Só me aborreci quando começou a falar de trabalho e, em tom displicente, criticou determinadas orientações tomadas pela direcção do instituto público onde trabalho. Tenho a impressão de que gritei porque uma mulher gorda de olhar bovino deixou de fixar o ecran de televisão, onde a Floribella sorria imbecilmente, e me olhou de viés como quem diz “coitadita!”. Por fim, a empregada chamada Cristina, solícita, desfazendo-se em desculpas pelo atraso, chamou-me. Salvou-me daquele inferno. Entrei na consulta. Depois de meia dúzia de insignificâncias, muitos sorrisos, frases curtas, sai de lá com a abençoada receita.

2006/09/19

Cipralex (1)

O cipralex acabou-se antes do esperado. Eu deixei andar. Dois ou três dias sem tomar o dito medicamento não faz mal a ninguém. Foi o que eu pensei. Sucede que ao terceiro dia sem cipralex comecei a sentir tonturas e náuseas. Leves, levezinhas, como um manto de gaze diáfano pairando sobre mim. Ao quarto dia, para além das tonturas e das náuseas, já evidentes, comecei a sentir tremores, tremeliques e um formigueiro que se iniciava nos dedos dos pés e, coisa estranha, estranhíssima, me saía pela boca. De imediato percebi o que se passava. Era o meu corpo que se ressentia da falta do medicamento. Telefonei, de imediato, para o consultório. A empregada, que julgo chamar-se Cristina, alarmou-se. “Ó doutora, não pode estar tantos dias sem tomar a sua medicação!”, disse ela. Nota: estou-me nas tintas para o meu quase inexistente grau académico, qualquer gato-pingado da Brandoa tem uma licenciatura em direito. Porém, confesso que, nos consultórios médicos, gosto que me tratem por doutora. Sabe-me bem a deferência. Adiante. A Cristina, empregada do senhor doutor, lá fez das tripas coração e por fim, conseguiu marcar-me uma consulta para esse mesmo dia. Fui. Esperei que tempos. Espreitei a avenida, lá fora, tão desinteressante. As pessoas muito certinhas, endinheiradas, assépticas, sem pecados, nem máculas, a sair, em magotes, dos escritórios, dos bancos, das lojas, rumando aos arrabaldes chiques da cidade ou às suas casas do centro com tectos de estuque recuperados e peças de design muito caras compradas nas lojas do bairro alto e do príncipe real.

2006/09/18

À janela (4)


Bombaim, 1993 (Steve Mccurry)

À janela (3)

O pior é que, quando um homem acaba de limpar uma cozinha, esta parece estar limpa, mas, na verdade, não está. É uma ilusão. Continua suja. Sujíssima. Conspurcada. As bancadas estão cheias gordura e de migalhas. Há manchas de sujidade por baixo do tapete. Não tocou sequer no fogão. Está tudo fora do sítio. Desordenado. O chão não foi varrido, muito menos lavado. É por estas e por outras, pela inabilidade total para fazerem coisas simples, que os homens não se comparam às mulheres. As mulheres fazem tudo o que, até há pouco tempo, estava reservado aos homens. Trabalham, ganham dinheiro, têm carreiras. Depois, quando chegam a casa, fazem aquilo que se lhes continua a exigir: tomar conta da casa, orientar a empregada se a tiver, arrumar, limpar, esfregar, cuidar dos filhos, educar os filhos, vestir os filhos, fazer as compras, fazer o jantar, fazer máquinas de roupa, estender a roupa, preparar os almoços da escola, passar a ferro. Eu sei que alguns homens vão ajudando nestas tarefas. Mas o facto de se limitarem a ajudar, de não assumirem essas tarefas como suas, só demonstra a sua menoridade. Um homem pode ajudar a mulher a limpar a cozinha, mas não lava o chão, não arruma armários, não arruma a despensa; um homem pode ajudar um filho com os trabalhos de casa, mas não sabe que roupa ainda lhe serve, se é preciso comprar-lhe cuecas ou camisolas interiores. Os homens são o que são. Servem para o que servem. Para pouco mais. São uma espécie em vias de extinção. Acabarão por ser eliminados. Como os dinossauros. Mais cedo ou mais tarde, tornar-se-ão dispensáveis, descartáveis. Mesmo para o coito, se hão-de arranjar alternativas.

À janela (2)

Um homem é capaz de limpar uma cozinha sem sujar, sem molhar as mãos, o que, convenhamos, não é fácil. Pura e simplesmente, não toca nessa coisa mole, nojenta, geralmente de cor amarela, de consistência duvidosa que é o esfregão da cozinha. Limpa as bancadas com o rolo de papel ou, em alternativa, com guardanapos. O pano de limpar a loiça serve para tudo. Ás vezes até serve para limpar o chão. Se, por algum azar, alguma coisa cai no chão, não hesita em colocar estrategicamente o tapete em cima da mancha em vez de ir buscar o balde e a esfregona. Depois, gosta de enfiar toda a loiça que encontra dentro da máquina de lavar. Aquela que não consegue enfiar dentro da máquina, geralmente tachos e panelas, fica estrategicamente em cima da bancada, com um bocadinho de água no fundo. "É para amolecer", justifica-se. No final, é ela, a mulher, que acaba por lavar os tachos e as panelas. Quando termina a sua herculea tarefa, o homem faz um ar de satisfação, quase de imbecil, de quem fez um enorme favor à pobre mulher. É que a obrigação não era dele, não senhor, era dela. Ele, ser magnânimo, qual monarca absoluto, dignou-se apenas a ajudá-la naquela tarefa. Como quem dá uma esmola. No fundo, bem lá no fundo, acha que a mesma não se adequa à sua masculinidade, ao facto de ter um pénis no meio das pernas.

À janela (1)

Espreito pelos vidros da janela da sala. Estão sujos, cheios de dedadas, de marcas de mãos pequenas e gordurosas. Ainda não aprenderam que devem lavar as mãos depois das refeições. Lá fora, está escuro. Não vejo pessoas. Apenas carros. No prédio em frente, um casal novo movimenta-se numa divisão pequena. Deve ser a cozinha. Ela parece estar a lavar loiça. Ele saltita à sua volta. Assemelha-se a um gafanhoto verde-seco e pequeno, igual aos que me saltavam para as pernas quando, menina, mergulhava tardes inteiras nas searas que ficavam atrás da casa dos meus avós. Como a maior parte dos seus pares, o homem-gafanhoto do prédio em frente deve ser um incompetente, um inapto para o desempenho das tarefas domésticas. Regra geral, há que reconhecê-lo, os homens são incompetentes. Em tudo. Ou quase tudo. Até nas coisas mais simples, como, por exemplo, limpar uma cozinha.

2006/09/13

Cassia Angustifolia

Cássia. Sempre tive um certo orgulho neste meu nome. Por o associar à Santa Rita de Cássia e também àquela actriz brasileira muito gira, a Cássia Kiss. Sucede que esta semana comprei um chá, cuja composição é cem por cento folhas de cassia angustifolia. Rejubilei. Um chá com o meu nome (cássia) e com o meu desequilibrado estado espírito (angustia + folia = angustifolia). Achei-me merecedora de tal homenagem. Estive vai não vai para bater palminhas no corredor das infusões e dos outros produtos dietéticos igualmente desinteressantes. Chegada a casa quis saber que propriedades teria aquele chá, já que o pacotinho, de forma lacónica, apenas dizia que consistia num bom complemento a uma alimentação saudável e à prática regular de desporto. Imaginei, juro que imaginei, a cassia angustifolia com propriedades maravilhosas, rejuvenescedoras do espírito e do corpo. Uma espécie de elixir da juventude. Qualquer coisa entre o ginseng e a cannabis. Qual quê. Bastou uma busca pelo google para descobrir que cassia angustifolia é nome de um pequenino arbusto da Índia, cujas folhas - imagine-se ! -, são, desde a antiguidade, utilizadas para preparar infusões para quem sofre de constipação intestinal ou cujo bolo fecal se encontra há vários dias empedernido. Ou seja, para falar claro, a tal cassia angustifolia apenas tem poderes laxativos. Descobrir-se, aos trinta e muitos, que se tem nome, não de santa, mas sim de purgante é coisa odiosa.

2006/09/11

Impulso

Na livraria, enquanto procuro um livro, uma mulher, que acabou de entrar, cantarola. Não cantarola baixinho. Cantarolo alto. Esse é que é o problema. Há sítios, como as livrarias, que exigem sossego. O cantarolar da mulher deixa-me à beira de um ataque de nervos. Juro. O meu primeiro impulso é dizer-lhe “Ò minha puta do caralho, porque é que não vais comprar livros do nicholas sparks para o continente?”. Mas não. Conto até dez. Procura acalmar-me. Tivesse eu um victan à mão e já o tinha posto à boca. Olho em volta à procura de apoio. Nada. Um homem, com a ilustríssima profissão estampada no rosto, chafurda num código qualquer e um velho, de barbas brancas e traços angulosos, folheia um livro de heráldica. Aparentemente ninguém nota aquele cantarolar diabólico. Ou, pior, notando-o, ninguém se incomoda. Acanho-me. A minha irritação traduz-se apenas num olhar fixo e num “ai, ai, ai” ameaçador. A mulher dá-se conta do meu estado de espírito. Sai da livraria calmamente, sem nunca deixar de cantar, numa notória atitude de provocação. Puta. A sorte dela é que, felizmente, eu tenho um controlo extraordinário sobre os meus impulsos.

2006/09/08

Mendiga e altiva

Esta noite sonhei com deus, que é como quem diz, sonhei com o Chico Buarque. Vindo directamente do seu país, com um séquito pequenino de gente subserviente, o Chico Buarque está instalado no meu gabinete da Caixa. Eu não tiro os olhos do computador e faço um esforço enorme para ignorar a sua presença. Qual formiguinha aplicada, dedilho, com excessiva aplicação, o teclado. Ele, sentado, noutra secretária, olha-me com calma. Durante muito tempo. “Pôxa, você não pára nunca de trabalhar?”, diz, por fim. Eu, estupidamente empertigada, sem tirar os olhos do computador, respondo-lhe: “Apesar de não gostar do que faço, pagam-me para trabalhar, percebe?”. Ele sorri, aquiescendo com a cabeça. Levanta-se, depois. Deambula pelo gabinete. Bisbilhota códigos e sebentas. Olha para os andaimes do prédio em frente. Tamborila com os dedos no parapeito. Pega no livro que ando a ler e que repousa em cima da minha secretária. Um livro que, juntamente comigo, aguarda o fim do dia e o regresso a casa. Toca na capa nacarada e macia, com as letras amarelas do título que esvoaçam como borboletas agrilhoadas. “Você anda lendo esse livro?” Antes de lhe dar a resposta acordei. Acordei no preciso momento em que o Chico Buarque percebia que, atrás da minha capa ordinária de seriedade e dignidade, afinal eu era, eu sou, uma pessoa interessante. Voltei a adormecer, desejando que ele voltasse. Mas não. Escapou-se. Cansado das paredes tristes do meu gabinete, foi passear para o sonho de uma vagabunda qualquer.

(Obrigado Manelinho por, ainda que contrariado, me teres emprestado o livro do Albert Cossery. Não fora tal livro e o Chico Buarque ter-me-ia tomado por uma qualquer.)

2006/09/07

Rocky Balboa

São dois. Um pequenote negro e um gigante eslavo com mais de dois metros. O pequenote nada tem de especial. É um homem igual a tantos outros. Já o gigante faz lembrar um dos adversários do Rocky Balboa, aquele muito ruço, de cabelo curto e olhar glaciar. Aquele de calções vermelhos - no cinturão, a foice e o martelo -, mau como as cobras. Soviético, claro está. No final do combate leva um murro e fica estatelado no chão do ringue, enquanto o Stalone saltita, vitorioso ao som duma canção do James Brown. Andam por ali, nas estruturas dos andaimes, como se nada fosse. Agora mesmo, enquanto escrevo, um deles está empoleirado numa viga, a um altura correspondente a um décimo andar, a apertar porcas e parafusos. Fico com o coração nas mãos. Não me deixam trabalhar. Não tarda nada vem parar um cá abaixo. Vou-me embora. Não gosto de assistir a desgraças.

Aranhas

Da minha janela vejo o antigo edifício da rtp. Durante algum tempo esteve abandonado. Para além dos seguranças, apenas foi habitado pelo sem-abrigo que vive, rodeado de cães, num dos corredores que dá acesso a um parque de estacionamento. Consta que o edifício foi comprado. Parece que vai sem transformado num hotel zen ou coisa que o valha (hotéis zen, cafés lounge, sushi, sashimi, spas, unhas de gel, resorts, viagens temáticas, restaurantes temáticos, depilação a laser, roteiros gastronómicos, in, out, detesto a sofisticação, o pechisbeque do mundo que habito). Durante a última semana vários homens têm estado a montar os andaimes. Usam capacetes, coletes reflectores, cintos, luvas. Têm no rosto os traços do mundo. Africanos, eslavos, portugueses, paquistaneses. Com uma perícia extrema, com calma, montam peça sobre peça. Parecem aranhas. A estrutura cresce como uma teia habilmente tecida. Por vezes, enquanto esperam que outra peça chegue pelo elevador, descansam. Encostam o corpo às vigas de metal e olham para baixo. Observam, sem grande interesse, a avenida que, rotineira, se movimenta. Não sabem que alguém os observa. Acontece-me, por vezes, não conseguir tirar os olhos deles. Montar um andaime não é tarefa fácil. Exige coragem. É como andar à beira de um precipício. Invejo-os. Gostava de trabalhar com as mãos. Gostava de olhá-las e ver nelas calosidades, asperezas, notar-lhes cheiros. Sentir nelas o cansaço de um dia que termina.

2006/09/06

Rosita

(Tenho pavor de cães. Tirando isso, vai correr tudo bem.)

2006/09/04

Castidade

Pela manhã, na secretaria do colégio da Madalena, enquanto aguardava que a irmã Estela me atendesse, topei com um quadro bordado a ponto cruz: enorme, com os dez mandamentos bordados a linha dourada. Deve ter sido feito por uma das outras irmãs. A irmã Livração ou a irmã Alice. Descobri que o quarto ou o sexto mandamento é o seguinte: guardar castidade nos pensamentos e nas obras. Li-o e reli-o. Desde pequena que os meus pensamentos são tudo menos castos. Aos seis anos já eu me masturbava a pensar em mamas e em cus. Por volta dos dez roubava as revistas que o meu irmão escondia por baixo do colchão, muito pouco castas, e lia-as avidamente. Depois foi a adolescência. E depois o resto. Porém, desde há uns tempos para cá, a castidade deu conta dos meus actos e pensamentos. Isso enfurece-me. A castidade é uma coisa medonha. Só os parvos e infelizes são castos.

Valquíria (3)

Só um cão vadio que por ali andava se apercebeu daquele corpo pequeno vindo das alturas. E isso era estranho. Até para um cão que não conhece as subtilezas da vida e da morte. No ar voam pássaros, insectos, sacos de plástico, papéis velhos. Não senhoras velhas e pequenas. Ladrou o cão. Ladrou muito. Como nunca ladrara. Um ladrar furioso. Ao mesmo tempo assustado. Chamadas por aquele ladrar as pessoas começaram a sair das lojas e dos cafés. Também os transeuntes que regressavam a casa, os apressados e os muito apressados, pararam, levemente irritados com a interrupção que, por força daquele ladrar, se atravessava na sua rotina. Pouco tempo depois estava formada uma multidão pequenina perto daquele cão que perto daquele carro ladrava sem parar. Ninguém percebia a razão pela qual o bicho não se calava. Até que um homem furou a multidão. Era um homem jovem. Vestia um fato escuro e uma gravata clássica. Tinha ar de director de qualquer coisa. Devia trabalhar num dos edifícios de escritório que ficavam nas proximidades. Olhou para o cão. Apagou com a biqueira do sapato um cigarro que atirou para o chão. “O que é que esta senhora está a fazer sentada no meu carro?”. As pessoas entreolharam-se, depois olharam para o carro. Só agora davam conta de que naquele carro estava sentada uma mulher velha. Parecia dormir. O cão calou-se. Tinha cumprido a sua missão. Furou a multidão e continuou a andar pelo passeio.

2006/09/01

Valquíria (2)

A mulher caiu, sem provocar ruído, em cima de uns estofos de pele branca que amorteceram a queda. O seu corpo encaixou-se na perfeição num dos bancos do automóvel. Assim ficou: sentada, as pernas levemente abertas, um braço apoiado na porta, a cabeça caída para a frente, os olhos fechados, como se um cansaço qualquer lhe tivesse tomado conta do corpo. Quem por ali passava não se apercebera de nada. Àquela hora tardia, as ruas começavam a esvaziar-se. Alguns grupos de homens juntavam-se ao balcão dos cafés. Bebiam copos bojudos, grávidos de cerveja, e passavam os olhos pelos jornais desportivos. As poucas pessoas que se cruzavam com aquele carro não se apercebiam que lá dentro estava uma mulher morta que se acabara de atirar do décimo andar de um prédio de escritórios. Parecia apenas adormecida. Outras pessoas passavam aceleradas, com urgência de voltar a casa, e não olhavam sequer para o carro. Não que as esperasse alguém especial ou algo importante. Tinham, tão só, pressa de terminar aquele dia para que outro se iniciasse. Isso conferia-lhes um sentimento, naturalmente injustificado, de imprescindibilidade. Em vez de gente sentiam-se peças metálicas de uma engrenagem que nunca podia parar. Um dia depois de outro. Um dia igual a outro. Sempre na mesma cadência.

Valquíria (1)

Preciso de descansar, pensou a mulher. Depois, deixou-se cair. Não pensou em nada. Não pensou em ninguém. Porventura, naquele exacto momento, ninguém estaria a pensar nela. Havia assim uma justa reciprocidade na ausência de lembrança. O corpo desenhou uma espiral ao cair. Como se fosse uma pena ou uma folha. Não caiu a pique. Nem com a rapidez própria dos corpos que têm determinado peso. A mulher era velha, de estatura pequena, muito leve. Leve como uma pena. Demorou exactamente cinco segundos a chegar cá baixo. É muito tempo para um corpo. Caiu em cima de um carro estacionado à porta de uma pastelaria. Um carro refulgente de modernidade, preto, descapotável.

2006/08/31

Picoas

Este Verão deu-me para olhar para as mamas das outras mulheres. Se os homens valorizam tanto as mamas, alguma razão hão-de ter para que, por causa das ditas, ignorem o resto. Passei por isso a espiar-lhes o tamanho, a flacidez, assim, de esguelha, como quem não quer a coisa. Hoje, no metro, topei com uma rapariga negra. Uma miúda típica dos subúrbios, com o cheiro de bairro social entranhado na pele. Feia, a pele manchada, o cabelo mal alisado, teso como um carapau. Usava umas calças de cintura descaída que deixavam a descoberto uma barriga flácida e uma camisolinha de licra, de alças finas, muito justa ao corpo. Pelo decote saltavam umas mamas cor de ébano, grandes, empinadas, rígidas, túmidas. Pareciam seres vivos, com vontade própria. Dir-se-ia que não tinha sido a rapariga a escolher mostrar as mamas, mas sim as mamas que tinham decidido mostrar-se, ordenando ao corpo da rapariga que as levasse para a rua. Fiquei estupefacta. Eram dignas de se ver, aquelas mamas. Olhei para as minhas, sempre tão negligenciadas, e prometi-lhes maior atenção, algum cuidado, um sutian talvez..

2006/08/30

Casamento debaixo de chuva


(É tempo de monções do outro lado do mundo.)

2006/08/28

As cabras capadas (2)

O problema das cabras inférteis é serem cabras inférteis e analfabetas. Muitíssimo carolas. Umas aventesmas dotadas de uma carolice quase alvar, digna de piedade. Porém, se a gente pensar bem no assunto percebe que há nisto a mão divina. Aliás, quanto mais penso, mais sou levada a crer que Deus, Nosso Senhor, Pai de todos as criaturas terrestres, existe mesmo. Porque se Deus não dotou de fertilidade estas caprídeas mulheres (cujos balidos ecoam, em bando, furiosos, pela blogosfera, fazendo béééé) é porque, munido da sua grandiosa perspicácia, percebeu que as suas lanosas vaginas serviam para ser penetradas por apelativos caralhos, de glandes refulgentes e escrotos cheios, mas nunca, jamais, para franquear a chegada de crianças a este mundo. Há mulheres que não têm condições para educar uma criança. Deus, Nosso Senhor, percebendo isso, capou-as. E capou-as muito bem. Coitaditas. Tão desesperadas para ter um filhinho, pequenino e ranhoso, para amar e Deus, Nosso Senhor, esse malandro, esse monstro impiedoso, a não deixar.

As cabras capadas (1)

A minha irmã foi vilipendiada, no seu berloque, por um bando de cabras inférteis. É digno de se ler. É o que dá ter comentários no blog. Ter comentários num blog é o mesmo que deixar aberta a porta da nossa casa e deixar entrar no nosso espaço, mexer nos nossos objectos, gente que vai ao teatro ver espectáculos da Teresa Guilherme, gente que lê livros da Margarida Rebelo Pinto e afins, gente que gosta da Rita Ferro Rodrigues e da Margarida Pinto Correia, gente que participa em eventos como a mais bela bandeira do mundo, gente que vive em Agualva-Cacém e vai para Quarteira e Armação de Pêra passear, debaixo do ordinário sol algarvio, nalgas esturricadas, cheias de celulite e estrias. Eu não vou sequer ao blog da mana que é para não me irritar. Já me bastam as outras ralações da vida. O problema das cabras inférteis não é serem cabras. As cabras são até bichos engraçados, do meu agrado, dotados de uma altivez própria e genuína. Não é, claro está, serem inférteis. Infelizmente, como se sabe, a infertilidade é mal de que padecem muitas outras mulheres. É uma maleita injusta, tão pesada, dos nossos dias.

Algarve

Durante as férias fui assolada por um ataque agudo de imbecilidade e deixei o meu Alentejo sossegado de colinas pequeninas para passar uns dias no Algarve. Ao terceiro dia fugi. Abalei. Só sosseguei quando voltei a ver planícies, sobreiros, casas caiadas de branco. Quando voltei a apanhar figos nas árvores velhas da estação. Quando vi os miúdos, descalços, em pijama, correr a casa da prima Laura, a buscar pimentos, cebolas, tomates e coentros para o almoço. Quando dei com eles a arrancar as flores da minha mãe para plantar espinafres, couves tronchudas e alfaces. Durante o tempo em que agonizei no Algarve lembrei-me de um texto que escrevi a propósito de um outro assunto e que acima edito (chama-se "As cabras capadas" e é, desculpai-me a modéstia, uma pérola do insulto gratuito). É que, para além do resto, que já é mau, péssimo mesmo, o Algarve está cheiinho de cabras capadas e de outras que, o não sendo, deveriam ser submetidas a um programa de esterilização para não deixarem descendência. Não posso com o Algarve. Uma amendoeira, árvore tristonha a fazer lembrar princesas níveas e lacrimosas, tem lá comparação com um sobreiro?!

2006/08/04

Bombaim

Steve McCurry, 1996

Birkenstock

Minha querida Ana Maria, sei que estás a banhos em parte incerta e que, por isso, não lerás estas linhas que te escrevo. Levada pelo teu entusiasmo, fui ao Saldanha buscar umas Birkenstock. Segui o teu conselho e comprei umas vermelhas. São giras. Sinto-me uma Helga ou uma Petra. Com as minhas Birkenstock, os anti depressivos, os ansiolíticos, o Fidel moribundo (dá-me sempre alento a morte de um ditador) , os contos de Puchkine e Gogol (deu-me para os russos, como escrevem bem…), estou preparada para passar três semanas de férias em família, três semanas a dormir na mesma cama que o meu marido, três semanas a fugir-lhe noite após noite. Nem sabes o cansaço que é! Acabo as férias extenuada de tanto lhe fugir. Já lhe expliquei, olha vamos juntos de férias, é melhor para os miúdos, mas estás proibido de me tocar. Já sei que vai fazer ouvidos de mercador e entumecer amiúde. É uma chatice. Portanto, as Birkenstock servirão, não só para dar descanso aos meus pés e deleitar os meus olhos, mas também para lhas atirar à cara quando se armar em esposo amantíssimo. A culpa é tua. Adeus. A ver se jantamos em Setembro. Temos muito que falar.

Skinhead travesti

Esta noite sonhei que andava à porrada com um skinhead, vestido de mulher (usava um cardigan verde seco e uma saia clássica de fazenda), dentro do bar de uma sociedade recreativa. Ele era muito mais forte do que eu. Apertava-me as goelas sem piedade. Eu retaliava, dando-lhe pontapés e mordendo-lhe as mãos. Estou a voltar à minha adolescência. Tenho assomos oníricos de indignação e revolta.

2006/08/03

Serial Killer Barreirense (3)

Perto de Santa Apolónia, a música muda. Um jazz antigo, daqueles cheios de melodia, de clarinetes e outros instrumentos de sopro, enche o táxi. O condutor entusiasma-se. Aumenta o volume. Começa a bater com a mão na perna, marcando o ritmo. É engraçado, este homem, mesmo que seja um psicopata. Quando chega à minha porta, pergunto-lhe que rádio era aquela. Não é comum ouvir música assim dentro de um táxi, explico-lhe. Ele alegra-se. E explica “Ó minha senhora, isto é uma rádio onde só passa música de classe! Só música de classe! Deixe cá ver…. Como é que é? 106. 2 FM. É isso! Só música de classe! Eu logo vi que a senhora também era uma senhora de classe. Aparece-me para aí com cada ordinária!”. Dei-lhe uma gorjeta de dois euros. Não costuma dar gorjetas a ninguém. É um gesto que me incomoda. Mas este taxista é especial, que diabo. Depois, não encontro outra maneira de lhe retribuir o apaziguamento que me trouxe a travessia pela cidade ouvindo aquelas músicas tão bonitas. Antes de meter a chave à porta olho para trás. O taxista acena-me. Agora que me deixou, é certo, certinho, que vai rodar a cidade em busca de uma velhinha, de cabelos brancos. Vai levá-la para o seu apartamento no Barreiro e depois vai degolá-la ao som dos prelúdios de Debussy.

Debussy (2)

Meto-me num táxi. Observo o condutor. Veste uma camisa indescritível. Branca, muito puída, com um padrão verde que não consigo decifrar. Serão pranchas de surf ou folhas de bananeira? Usa uns óculos muito grossos, de massa pretos. Tens ar de serial killer, penso. Não é só em Santa Comba Dão que há serial killers. Em Lisboa também os há. O táxi faz o caminho junto à beira rio. As águas ciciam palavras líquidas e o casario dos bairros antigos aconchega-me. Do rádio do carro chega o som de um concerto para piano que, naturalmente, não identifico. Debussy, parece-me bem. Ui, cada vez me convenço mais que estou a ser guiada por um serial killer. Já estou a imaginá-lo. Pobre coitado, cheio de recalcamentos, originados por uma mãe castradora, má como as cobras, a degolar velhinhas, daquelas que vivem em subúrbios e passeiam rafeiros pequeninos. O sangue das velhinhas a sair em golfadas. Os rafeiros pequeninos a latir. Ele a limpar a navalha ao som de Debussy, momentaneamente liberto da terrível figura materna.

Carlos da Maia (1)

Fumando charuto e retorcendo o bigode, o senhor doutor faz finalmente o meu diagnóstico. Tenho uma depressão reactiva. Aparentemente, não é tão grave como eu pensava. Tem um ar queirozeano, o senhor doutor. Há nele uma certa afectação, uma certa sofisticação, que faz lembrar o Carlos da Maia. Gosto dele. E, no entanto, só diz as banalidades que conheço de trás para a frente. Falamos de sexo. É-me fácil falar de sexo. Seja com quem for. Mantém a mesma medicação. Despede-se com um abraço e um beijinho. Saio para a rua. É tarde. São quase onze horas. Desço a avenida a pensar nas palavras que disse. Depressão reactiva. Explosão. Implosão. Agressividade. Figura masculina. Identificação. Cruzo-me com turistas, ingleses, alemães, mal vestidos, envergando uns trapos imundos, inadequados para o passeio nocturno nesta avenida de lojas sofisticadas, caras. Quando chego perto do antigo cinema condes já vou lavada em lágrimas. Sabe bem chorar. Há que tempos que não chorava. Um grupo de adolescentes estrangeiros fala alto. Há uma miscelânea de traços. Negros, asiáticos, europeus. Devem ser americanos. Têm a segurança própria dos americanos. Continuo a descer até ao teatro. Um homem negro fala ao telefone, encostado a uma das colunas que dá para o Rossio. Dá gargalhadas sonoras que ficam a ecoar nas arcadas como bichos nocturnos. O teatro, as suas arcadas, voltaram a ser o poiso dos imigrantes que tomaram conta desta parte da cidade. Recordo as imagens recentes daqueles que vieram dar às praias de Espanha, quase mortos. Etiópia, Somália, Marrocos. Há tantos escravos no mundo.

2006/08/02

Amsterdam

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam.

Jaques Brel

Alvy

ANNIE
You followed me. I can't believe it!

ALVY
I didn't follow you!

ANNIE
You followed me!

ALVY
Why? 'Cause I ... was walkin' along
a block behind you staring at you?
That's not following!

ANNIE
Well, what is your definition of
following?

ALVY
Following is different. I was spying.

ANNIE
Do you realize how paranoid you are?

ALVY
Paranoid? I'm looking at you. You
got your arms around another guy.

ANNIE
That is the worst kind of paranoia.

ALVY
Yeah-well, I didn't start out spying.
I-I thought I'd surprise yuh. Pick you
up after school.

ANNIE
Yeah-well, you wanted to keep the
relationship flexible, remember?
It's your phrase.

ALVY
Oh, stop it. But you were having an
affair with your college professor.
That jerk that teaches that incredible
crap course "Contemporary Crisis in
Western Man"!

ANNIE
"Existential Motifs in Russian Literature"!
You're really close.

ALVY
What's the difference? It's all mental
masturbation.

ANNIE
Oh, well, now we're finally getting to
a subject you know something about!

ALVY
Hey, don't knock masturbation! It's
sex with someone I love.

(nem mais...)

2006/08/01

Annie

Annie Hall, Woody Allen, 1977

Condoleezza (2)

Continuamos a almoçar enquanto o Paulo Camacho fala no televisor. Gostava de ser imune ao sofrimento alheio. Sufoco nestes dias de guerra maior. Sinto-me fútil, abjecta, com a minha depressão. Tenho até vergonha de dizer que tenho uma depressão, doença dos que têm tudo, dos fracos que precisam do supérfluo para viver. Quem morre de fome não se pode dar ao luxo de estar deprimido. Estou nestes pensamentos narcísicos, quando o meu pai tira os olhos do televisor onde a Condoleezza Rice, num impecável fato branco, assegura ainda ter esperança num cessar-fogo. Estranho. O meu pai tem uma admiração enorme pela secretária de estado americana. Desconfio que ele até deve ter sonhos eróticos com ela. Olha-me. “Ana Clara, você hoje está com muito mau aspecto!”. Faz uma careta. “Esses olhos…Parece que alguém lhe bateu.” E remata com outra careta. Não lhe respondo. Há muitas maneiras de se ser sovada, penso. Tantas. O meu pai retoma a refeição. Fixa os olhos de novo no televisor, triste por ter como filha uma medíocre jurista de um instituto público, levemente desequilibrada, levemente instável, e não uma condoleezza rice, poderosa, de traços indianos, e sapatos clássicos, de verniz preto.

Crocodilos do Nilo (1)

Tudo calado. Um silêncio tumular toma conta da cozinha de azulejos feios. É hora do noticiário e o meu pai é, sempre foi, intransigente em tal assunto. As horas das refeições não servem para a família confraternizar, falar, trocar ideias, e esses disparates que os psicólogos e os terapeutas aconselham. A hora da refeição serve para o mundo, tal como ele é, entrar nas nossas vidas. Sempre foi assim. O meu pai alimenta-se de noticiários, debates e documentários vários. Ai de quem ouse falar quando ele está a aprender, pela centésima, o ciclo da ovulação dos crocodilos do Nilo. Bebe avidamente as notícias e sempre exigiu que fizéssemos exactamente o mesmo. Estamos, pois, em silêncio. Eu, arregalando os olhos à Madalena para que coma quietinha. Ela brinca com a colher, entretida com a canja de galinha que a tia Dé fez. Vou comer um ovinho pequenino e depois vai-me nascer um pintainho na barriga!. E cacareja. Um olhar rápido do meu pai avisa que quer silêncio. Não admite cacarejos à mesa. Nem mesmo à sua neta preferida. Peço à Madalena que coma em silêncio.

2006/07/31

México


Lucia Messeguer, 1982(?)

Agostinho

Uma mulher aproxima-se. Diz-se catequista. Tem ar de roedor, de chinchila ou de porquinho da índia. Havia de estar numa pradaria, a correr, a saltitar, a entrar dentro de tocas, rebolando pelo feno, soltando grunhidos felizes. Está muito transpirada. A sua insegurança é notória. Pergunta se me pode oferecer um livro sobre o sagrado coração, escrito por um padre do Porto. Assegura-me que depois de o ler me vou sentir muito melhor. Só tenho de rezar, todas as noites, as orações que vêm no final do livro. Agradeço-lhe. Antes de se ir embora pergunta-me se sou brasileira. Sou, sou, trabalho num bar, digo-lhe devagar, muito devagar, pronunciando as palavras num português claro, genuíno. Ela olha-me com simpatia e piedade. Toma-me por uma mulher perdida. Eu sou uma mulher perdida. Folheio o livro. Entre muitas outras coisas, descubro que o Santo Agostinho, antes de se converter ao sagrado coração e se tornar num grande pensador, era um pecador. Era um Agostinho dado a vícios, aos pecados da carne, à luxúria, indigno de uma padiola, quanto mais de um altar. Ai, o malandreco.

2006/07/27

Recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço.

Al Berto

(Fui ao teatro. Parole. Parole. Parole. Cheguei assim. Feita em nada. Feita de nada. Abri uma garrafa de Luis Pato que alguém guardou para uma ocasião especial. Às vezes, muitas vezes, vem-me uma vontade grande de morrer. Outras vezes, de amar.)

Agra

Tive um sonho erótico. Tenho que o anotar depressa sob pena de o esquecer. Fico triste quando me esqueço das pequenas imbecilidades que fazem a peculiaridade da minha pessoa. Sonhei com o Fernando Dacosta, o escritor. Aparecia, tal como é, feio, muito feio, com aqueles caracóis compridos, nariz adunco e óculos de aros escuros, integralmente nu, passeando-se de cá para lá à minha frente. Havia segurança no seu caminhar e, no entanto, era dotado de uma pila pequena, muito pequena, incrivelmente pequena. Um corpo de homem velho com uma pila de recém-nascido. Tal pila pequena despertava-me interesse. Não me causava qualquer sensação de prazer. Ou de desejo. Só curiosidade. Sonho estranho. Não me lembro de mais nada. Onde fui buscar o Fernando Dacosta? Bem vistas as coisas, não tive um sonho erótico, foi mais uma inquietação.
(O mundo desaba. Leio as notícias, os comentários, as opiniões. Às vezes, gostava de ter a simplicidade, a rudeza dos maniqueístas. Identificar os bons e os maus. Ser capaz de dizer, com vigor, “os israelitas são uns fascistas!” e acreditar nisso. Perco-me. Viro-me para um lado. Para o outro. Não sou capaz de opinar sobre o mundo, nem sobre as guerras que se fazem. Sou capaz, porém, de sonhar com o corpo macilento de um escritor velho e de me emocionar com a fotografia de uma revoada de pássaros brancos em Agra que descobri, ontem, perdida numa gaveta.)

2006/07/26

Mulher porto-riquenha

Diane Arbus, NY, 1965

2006/07/24

Bruxas

Perto, no meio dos arbustos, a fotografia de um homem jovem está presa num ramo. Tem um ar larvar. Sorri. Faltam-lhe vários dentes. Uma larva gorda. Devia estar protegido, dentro de um casulo. Estás lixado, penso, lixadíssimo. Uma mulher que recorre a feitiçarias para prender um homem-larva-desdentado é capaz de fazer coisas bem piores. As bruxas passaram por aqui. Não há dúvida que passaram. Devem ter vindo do Pragal, do Lazarim, da Sobreda, dessas terras feias que fazem a outra banda. As bruxas que aqui estiveram, desconfio, vieram da Cova da Piedade e deviam ser loiras oxigenadas ou madeixentas (tenho embirração, grande, por loiras de pechisbeque.) Mas, agora, já se foram embora. E a mata descansa. Sibila melodias simples. Só se ouve o vento nas copas das árvores e as gargalhadas dos meninos que, já longe de mim, correm pela mata. Aliviados por terem esvaziado as suas bexigas pequeninas. As cacarias das bruxas hão-de ser inundadas pelos riozinhos de mijo dos meninos e das meninas da sala da minha filha.

Licor Beirão

No meio da mata, por baixo de um pinheiro, que imagino como o mais alto, deparo com um espectáculo bizarro. Fosse eu uma mulher de respeito, devota, e ter-me-ia, de imediato, benzido e fugido dali. Sobre a caruma e a areia, uma toalha vermelha. Um rectângulo cor de sangue. Duas ou três fitas de cetim vermelho esvoaçam por cima. As fitas são de um vermelho diferente. O vermelho, é sabido, é cor de imensos matizes. Não há cor como o vermelho. Assume mil tonalidades. Pode até ser exactamente o mesmo tom, mas consoante os objectos em que encorpa o vermelho torna-se diferente. O vermelho de uma rosa é naturalmente diferente do vermelho de um copo de plástico. O primeiro tem cheiro e é aveludado. O segundo é brilhante. Adiante. A toalha tem cor de sangue. Já as fitas de cetim são de um vermelho lupanar, daquelas que serpenteiam cuequinhas de renda baratas, daquelas que se enfiam no rego do rabo e despertam expressões boçais e endurecimentos imediatos. Por todo o lado há restos escaqueirados de garrafas. Deviam ser quatro. Pelo menos conto quatro gargalos. Uma delas é de licor beirão. As outras têm rótulos de letras miudinhas e são de vidro branco. Garrafas de aguardente. Uma vela roxa repousa no meio do festim, cansada de ter alumiado os rostos que proferiram palavras secretas, sacrílegas, antigas.

2006/07/21

Mirabilis

Sonhei com a Torra da Barbela do Ruben A. Não com a história. Não me apareceram os espectros nocturnos dos Barbelas, vindos dos quatro cantos do mundo, homens e mulheres de outras eras levantando-se das valas, dos ataúdes, passeando-se, vivendo como vivos no meu sonho. Sonhei com o livro. Com o objecto físico propriamente dito. Sonhei que o comprava no dia em que se anunciava o fim do mundo. Multidões pequeninas, calmas, fugiam para as ruas. As pessoas saíam dos prédios, das casas e sentavam-se nos jardins, nos largos e nas praças, esperando tranquilamente o fim do mundo. Eu, e os meus, também fugíamos para a rua. Antes, porém, cada um de nós procurava um objecto para o acompanhar. Eu não hesitei e levei esse livro. A Torre da Barbela. É estranho que tenha sido essa a minha escolha, uma vez que nunca o li. Andam eruditos os meus sonhos. Prefiro os outros sonhos, aqueles em que sou feliz e aqueles em que o meu corpo é feliz. Há que tempos que não tenho um sonho erótico. Já nem me lembro do último. Sinal evidente de que a minha frigidez se agrava. Já se instalou em mim. Já tomou conta dos meus sonhos, daquilo que sou por baixo do que sou. Triste sina.

2006/07/20

Senhoras da limpeza

São as senhoras da limpeza. Dir-se-ia que esperaram na sacristia o momento em que as vozes esganiçadas se calassem. É que assim que se calam as do terço entram as da limpeza. Uma sincronia perfeita, uma precisão que nunca falha. Umas calam-se com os louvores ao senhor, as outras entram para lhe limpar o templo. São duas, as senhoras da limpeza. Velhas, redondas, de batas floridas. Fazem-me lembrar bichos pesados, daqueles que, em manadas, levantam nuvens de poeira ao passar. Chegam artilhadas de baldes, esfregonas, detergentes, um aspirador e uma enceradora. As devotas do terço já as conhecem. Depois de lhes acenarem com a cabeça fogem dali para fora, regaladinhas, ajeitando as mises e puxando as combinações para baixo, deixando deus lá dentro, sozinho e triste. As senhoras das batas floridas depois de expulsarem as senhoras do terço tornam-se donas do lugar. Falam alto como se aquele fosse um outro qualquer local de trabalho, uma fábrica, um edifício de escritórios, um centro comercial. As suas vozes ecoam pelo recinto. Aprecio-lhes a atitude, confesso. Geralmente, no fim, fico eu e elas. Eu, ímpia, impura, infiel, descrente, começo a encher-me outra vez do mundo de fora. Remoques de tristeza e abandono entram-me pelos poros, pelos orifícios pequeninos do meu corpo. Saio quando me dizem “Menina, são horas de fechar”.

Senhoras do terço

Todos os dias é igual. Um grupo de mulheres reza o terço lá à frente. Estão nisto que tempos. Ladainha atrás de ladainha. Balbuciam palavras de fé. Depois, quando terminam, cantam, esganiçadamente, uma canção que fala do céu. Só as oiço falar do céu. Céu, céu, céu, gritam elas, sempre em crescendo, amedrontando deus com tal desvario. Que importância terá para elas o céu? O que esperam elas do céu? Os outros, que morrem em nome de um outro deus qualquer, pelo menos esperam setenta virgens e rios de mel. Esperarão elas, as senhoras do terço, a imortalidade? Coisa aborrecida, a imortalidade. Eu, quando morrer, exijo, faço mesmo questão de ir para debaixo da terra e ser comida por bichos e bichinhos até me tornar em nada. Era o que mais faltava andar por aí, tempos infinitos, no jardim dos bem aventurados, feita parva, sem ter nada para fazer. Quando acabam de cantar, as senhoras do terço levantam-se rapidamente e trocam entre si cumprimentos. É então, nesse instante, nesse preciso instante, por uma das portas laterais junto do altar, que entram as outras senhoras.

2006/07/19

Benfica


(Se ele fosse português só poderia ser do Benfica.)

2006/07/18

Mil perdões

Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais
Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim
Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)
Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair

Chico Buarque, 1983

Gárgula

Conto os anjos do altar. São setenta e dois. Efebos alados. Uns têm feições masculinas, outros não. Anjos castrados, eunucos. O altar é feio. Parece ter sido revestido a película de alumínio dourada. Consiste numa estrutura de degraus. Por cima há sempre jarras com ramos de flores. Hoje são hortenses brancas. A semana passada eram gladíolos altos que, tombando, se assemelhavam a velhos curvados pelo peso dos anos. Gosto de gladíolos. E gosto da quietude das igrejas. Aborrece-me entrar numa igreja e descobrir que é hora da missa. Não preciso de intermediários que me ensinem a compreender o mundo. Dispenso-os. Tenho a pretensão e a triste arrogância dos que se julgam iluminados. Conheço bem esta igreja. Os veios nacarados da pedra escura que a reveste. Os vitrais laterais. Já contei as caixas de esmola. São muitas. Demasiadas. Sei onde se localizam os quatro confessionários, escuros e sombrios, preparados para receber os segredos, acolher a imundície de quem por lá passa. Que se dirá num confessionário? Na porta dos confessionários há um papelinho com o horário das confissões. Dois padres revezam-se em tal função. Um chama-se Henrique e outro Manuel Fernandes. Sento-me sempre no meio da igreja. Umas vezes penso. Nisto e naquilo. Outras vezes não penso em nada. Limito-me a estar. Deixo de ser. Esvazio-me completamente. É bom quando isso acontece. Hoje, que aqui estou, penso. A propósito de um livro que li ontem aos miúdos, penso em gárgulas, daquelas medievas, com corpo de criaturas monstruosas, medonhas, de bocarra aberta e orelhas pontiagudas. Há poucas nos edifícios desta cidade. Ou nenhumas. Paris é uma cidade de cheia de gárgulas. Lisboa não. É pena. Uma cidade com gárgulas tem outra pinta.

Vivre sa vie


(Gosto deste filme. E desta mulher.)

2006/07/17

Carioca

Houve o sair de casa sem choros, nem dramas. Um beijinho repenicado na boca e um abraço fugidio do menino cigano. Houve o vestido novo, vermelho de ramagens cor-de-rosa, muito apreciado pela Maria Emília. Houve os galanteios do senhor director do teatro que retribui com simpatia. Houve o rinoceronte que atravessou a cidade, os homens que se metamorfosearam em paquidermes africanos, outros asiáticos, e o homem que ficou só no mundo. Houve o professor de filosofia, abanando-se com um leque sob as arcadas do teatro. Imaginei-o com um vestido vermelho e caracóis pretos, tal qual a Duquesa de Alba que Goya tanto gostava de pintar. Houve o crítico com ar tísico e dentes podres. Vestido com um blaser de poliéster branco que devia cheirar mal. No pescoço uma gargantilha de vidrinhos pretos. Ladrando opiniões como um caniche de colo. “Gostei, não digo que não, mas a personagem do Bérenger não devia ter este registo naif. Ele é o único homem lúcido.”, ladrava o caniche com corpo de homem. Eu a topá-lo. Houve a mulher de lábios carmim, simpática, de que me instou a participar numa comunidade leitores. “Venha!”, disse ela. “Vou”, prometi. Sou perita em não cumprir promessas. Foi, pois, um dia quase perfeito, não fosse o resto que a noite sempre traz. Mas o melhor, confesso, foi folhear um jornal de distribuição gratuita e descobrir que os concertos do Chico Buarque já estão agendados. 3,4,5 e 6 de Novembro. Liguei logo à mana. Parecíamos duas tontinhas adolescentes. Já está combinado. Vamos no primeiro e no último dia. Se nos der na real gana, é possível que dê, nos outros dias também.

2006/07/14

Subúrbio

Lá não tem brisa
Não tem verde-azuis
Não tem frescura nem atrevimento
Lá não figura no mapa
No avesso da montanha, é labirinto
É contra-senha, é cara a tapa
Fala, Penha
Fala, Irajá
Fala, Olaria
Fala, Acari, Vigário Geral
Fala, Piedade

Casas sem cor
Ruas de pé, cidade
Que não se pinta
Que é sem vaidade
Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção
Traz as cabrochas e a roda de samba
Dança funk, o rock, forró, pagode
Teu hip-hop
Fala na língua do rap
Desbanca a outra
A tal que abusa
De ser tão maravilhosa
Lá não tem moças douradas
Expostas, adam nuas
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus
E está de costas.

Chico Buarque, Carioca

2006/07/13

Vizinho (2)

Sempre que me encontra fala-me, com genuíno entusiasmo, de escritores goeses e desafia-me a ir à Índia. Eu desculpo-me com os miúdos. E entristeço. Gosto dele. Tem a delicadeza e a beleza das porcelanas antigas. Uma beleza quase translúcida de tão fina. De há uns meses para cá, passou a visitar regularmente o meu pai. Sem aviso prévio, mete-se no elevador e desce do sétimo até ao terceiro andar. Traz uma taça de amendoins cozidos em água e sal. Sentam-se os dois nas poltronas da sala. Bebem uisquis cheios de gelo e água gaseificada. O meu pai fala, fala, fala, feliz por ter alguém que o oiça. Ele ouve-o e, com admirável paciência, tenta argumentar contra as delirantes teorias que o meu pai inventa para explicar o mundo. Estão nisto a noite toda. A minha mãe é que não gosta muito. Sente-se na obrigação de lhes fazer companhia. Chega-lhes a preparar chutney de coentros e a fritar paparis. Acompanha tudo com sorrisinhos falsos. Fica a ouvir dois goeses velhos a conversar sobre coisas que não lhe interessam. O que ela queria mesmo era sossego para ver os últimos episódios da telenovela. Hoje, quando lhe fui deixar a Madalena e me espantei por a ver ainda deitada, ela piscou os olhos pequeninos e gritou-me “O Dr. Estrócio saiu cá de casa eram quase três da manhã!”. E, enfiou, de novo, a cabeça dentro dos lençóis, furiosa com o meu pobre pai. Não percebe que a Índia faz parte de nós, do meu pai, de mim, dos meus filhos, dos meus irmãos, dela também. Tem permissão para entrar, quando quiser, como quiser, por onde quiser, nas nossas vidas. Através das imagens ferozes dos comboios que explodiram em Bombaim, mas também através do vizinho solitário que mora no sétimo andar.

Vizinho (1)

É vizinho dos meus pais. Um goês muito bonito, oftalmologista de profissão, de cabelos grisalhos. Casou com uma espanhola de Madrid, com quem teve dois filhos. Poucos anos depois, a espanhola fartou-se dele. Abalou, espavorida, como é próprio do seu povo, para Espanha, levando consigo a prole. Ficou sozinho, assistido por uma irmã, muito chata, especialista em intermináveis litanias sobre as agruras da vida e os padecimentos do corpo. Passei anos a vê-lo sozinho, saindo no seu fiat clio, em direcção a destinos incertos. Ao contrário do meu pai, afastou-se durante muito tempo da Índia. Só há meia dúzia de anos, voltou a casa. A Goa. E, então, deslumbrou-se. Como se tivesse descoberto a sua essência, uma parte de si que andava esquecida. Passou a ir todos os anos à Índia, geralmente, na mesma altura que os meus pais. Arrendou um apartamento, em Margão, que a minha mãe descreve com displicência. “Ai filha, para lá se entrar tem que se passar por um corredor escuro cheio de cães vadios! É um horror! Tu não eras capaz de passar por lá”. Ela sabe bem o pavor que tenho a canídeos. Quando lá está, vai visitar os meus pais a Maina. Espreguiça-se no alpendre da casa que viu nascer o meu pai, que o meu pai percorreu, menino descalço e feio. Olha o quintal e os campos verdes onde pastam as vacas e búfalos. Sente-se feliz.

2006/07/11

Barcelona Red

Concorri ao concurso do Rádio Clube Português para escrever o final de uma radionovela que, pouco ou nada, tem a ver com as histórias que gosto de ler e, menos ainda, com as que gosto de imaginar. Mais do que a palermice de publicar um livro com a chancela da rádio (parece que é o prémio), o que me seduzia no concurso era a possibilidade de escrever a próxima radionovela do RCP (a outra parte do prémio). Já a tinha na minha cabeça. Uma história almovadoresca, cheia de mulheres, lágrimas borradas de rímel, travestis e canções dos Bee-Gees. Ia ser um sucesso. Todos os dias vou ao site da rádio para saber se por lá há novidades. Nada. Só tenho o telefone ligado para a iminência dele tocar a dar-me a boa nova. Sei, porém, que ela nunca chegará. Excedi largamente o número de caracteres pedido. Mandei o manuscrito depois de o prazo ter terminado. Troquei o nome a algumas personagens. Escrevi o final da história de uma assentada, sem grandes cuidados, pouca imaginação, numa tarde em que me vi sem miúdos. Precisamente uma semana depois de ter engolido não sei quantos comprimidos e ter passado uma noite no hospital, a ser assistida por uma médica nova que, se deus quiser, ainda há-de cruzar-se no meu caminho para a mandar para a puta que a pariu. Escrever radionovelas era actividade que me assentava que nem uma luva. Custa muito, a rejeição. Até já tinha título para a primeira. Barcelona Red.

2006/07/10

Migrant Mother

Dorothea Lange, 1936

5 heures du matin

A Madalena foi comigo ao teatro. Aguentou – estoicamente, pobrezinha - uma hora e meia de uma peça falada em francês. Comeu muitas gomas. Escandalizou-se com uma bailarina nua. Arregalou os olhos, muito, muito, e espetando o dedo, disse “Achas que tem algum jeito uma mulher nua no meio desta gente toda?”. Claro que não tem, minha filha. Que queres que te diga? Os artistas têm destas liberdades. Durante a noite, acordou, chamando-me. Era tarde. Cinco da manhã. Quando lá cheguei, tonta de sono, abraçou-me e deu-me um beijo na boca, um beijo molhado, madrugador, muito pouco próprio para mães e filhas. Por fim, disse que eu era a melhor mãe do mundo. Tais palavras não me confortaram. Perderam-se na noite.

2006/07/07

Cigarras

Se calhar o que, pela manhã, ouvi não foram grilos. Foram cigarras. Cigarras boémias, hedonistas, fadistas, bêbadas de desejo de acasalar, de copular. Sempre gostei de cigarras, apesar de terem a feiúra própria e repelente dos insectos. Vem-me a simpatia por tais bichos da velha história da cigarra e da formiga. No entanto, em miúda, não era simpatia o que sentia pela personagem da cigarra. Era inveja por ela ser precisamente o contrário daquilo que eu era, uma formiguinha ajuizada, estudiosa, elogiada, em rasgos exagerados, por progenitores e educadores. Um exemplo de virtude e aborrecimento. Mas se calhar também não eram cigarras. Fossem cigarras, grilos, qualquer outra espécie de besouros citadinos, o certo é que espalhavam pela estação um ruído monótono, um frémito inusitado. Tornaram quente, quase abrasiva, de insuportável, a mornidão da minha manhã.

Grilos

Na estação, com os olhos ainda empapados de sono, faço uma descoberta. Para além do ruído dos comboios, das obras, das conversas dos passageiros, dos carros, do piar dos pardais e dos pombos, há um outro barulho que se ouve. São grilos. Ouvem-se grilos nesta estação de subúrbio. O ruído, que parece um crocitar de chamas, não lhes sai pela boca. É sabido. Tal ruído é provocado pela vibração dos corpos dos machos durante a altura do acasalamento para atrair as fêmeas. Explicou-me o meu pai que sabe tudo sobre bichos. Onde se escondem os grilos machos nesta estação? Não os vejo e, no entanto, o cri-cri que eles fazem diz-me que eles estão por perto. E por onde andam as fêmeas? Ora, aqui está um assunto que verdadeiramente me interessa. Mais, muito mais, que os outros que fazem as capas dos jornais. Não me interessam os mísseis provocatórios que a Coreia lançou sobre o mar. Nem sequer o impasse eleitoral no México. Ando cansada do mundo e o mundo, sei-o, anda cansado de mim. Concentro-me, pois, nos grilos e no som que fazem. Parece uma sinfonia minimalista, moderna e desinteressante. Os grilos só podem estar por baixo das pedras que preenchem os carris. É de lá, das profundezas da estação, que vem o som. Deve haver centenas de grilos nesta estação. Acasalando. O meu comboio chega. Uma anaconda gigante. A maior do mundo. Engole-me de um só trago.

2006/07/06

Stepanova


Alexander Rodchenko, 1924

2006/07/05

Santas (7)

Abandono as santas, que me fazem sentir pecadora. Mundana. Deixo a Maria Gorete ao lado da Santa Clara. Fica em boa companhia. De que falarão elas, ali, na montra da loja suja, enquanto olham os transeuntes que passam sem as olhar? Desconfio, todavia, que, com o nome que tem, a Maria Gorete esconde qualquer coisa por baixo daquelas vestes. Esconde, esconde. Aposto em como por baixo do casto manto usa uns sapatos de plataforma, em verniz preto e plástico transparente, iguaizinhos aos que vi na sapataria do lado. E que nas noites quentes de verão se desfaz do manto verde e se põe a cabriolar, a dançar, insinuante, semi nua, na vitrine da loja. Para gáudio dos santos, dos santinhos, dos milagreiros e dos beatos, que, babosos e velhinhos, aplaudem. Ela não me engana com aquele ar de sonsa.

Santa Clara (6)

A Maria Gorete - recuso-me a chamar-lhe santa! - está ao lado da Santa Clara que é a minha santa preferida. Não só por ter o meu nome, mas também por ter amado Francisco. Eu compreendo-lhe o amor. Também me apaixonei por ele aos quinze anos. Francisco e Clara num campo de papoilas. Ao longe, as torres de Assis vigiam-nos. Aliás, por causa dele é que, durante a minha adolescência, quis ser freira. Não fui. Deveria ter sido. Era só procurar um bocadinho de fé, de crença, de vocação dentro de mim e teria dado uma óptima freira. De preferência, uma daquelas carmelitas-não-sei-das-quantas, de buço imenso e óculos de há cinquenta anos, que fazem voto de castidade, de silêncio, de tudo e mais alguma coisa e que morrem para o mundo e vivem em êxtase, numa espécie de divinal e infinito orgasmo, amando e louvando Deus. Decididamente, deveria ter sido freira. Pelo menos, tinha um orgasmo decente na vida.

Maria Gorete (5)

S. Pancrácio. S. André. S. Onofre. S. Jorge. S. João de Brito, Maria Auxiliadora. São muitos os santos que aqui moram. Tantos. Até há um Menino de Praga, um anão gigante e feio, com uma coroa imensa na cabeça. Que raio é um Menino de Praga? Às tantas dou de caras com uma santa cujo nome me surpreende. Santa Maria Gorete. Maria Gorete? Que diabo, Maria Gorete não é nome de santa. Luzia é nome de santa. Maria também. Clara, que é o meu, também é nome de santa. Agora Gorete não. Muito menos Maria Gorete. Gorete é nome de puta velha. E não é sequer nome de puta nova, que essas têm nomes como Patrícia, Carla, Paula, Marina, Vanessa e Sandra. Gorete é nome daquelas putas de cabelo oxigenado e barris na barriga que estão em vias de extinção. Como é que uma santa se pode chamar Maria Gorete? Não pode. É coisa que não percebo. E não aceito. Olho-a. Para minha surpresa é a santa mais bonita que vive nesta montra. Tem um ar triste. Tez nívea. Cabelo claro, de cobre. Veste um panejamento verde cor de jade e nas mãos segura um ramo de flores brancas. Narcisos ou orquídeas. Não sei. Muito casta. Muito pura. Sem nunca ter provado o sabor do pecado. Devota a Deus, Nosso Senhor, criador do mundo e de toda a podridão que o habita.

2006/07/04

Havaneza (4)

Viro na Rua de São Domingos. É das que mais gosto em Lisboa. Apesar de ser uma ruazinha sem graça, cheia de pensões podres e casas de dormidas. Nela, movimentam-se pessoas feias. Eu sinto-me bem no meio dos feios, dos estranhos, dos dispensáveis. A montra de uma loja prende a minha atenção. Está repleta de figuras de santos, santas, santinhos, beatos, milagreiros. Olho para cima. Leio. Havaneza de São Domingos. Números quinze e dezassete. A elegância do nome da loja ter-se-á adequado ao que ela foi há muito tempo atrás. Agora é um buraco sujo, com a tinta estalada, de vitrines partidas e madeiras putrefactas. É uma loja feita de escombros. Ruínas. Olho lá para dentro. Vejo um homem que deve ter cerca de 60 anos. Perto do balcão, ajeita o escaparate dos postais. Tem um bigode branco e uns óculos encavalitados na ponta de nariz. Estranho-lhe a limpeza. Volto a fixar a montra. Leio o nome de todos os santos. Começo na prateleira de cima e vou por aí abaixo. Com vagar, com muito vagar, que ninguém me espera e a frescura da igreja não foge.

Demónios (3)

Há uns sapatos que prendem a minha atenção. Têm uma plataforma gigante, de 15 a 20 centímetros. São feitos em plástico transparente e verniz preto. Uma espécie de armadura sado-masoquista sobe, depois, pela perna acima. Fazem lembrar uma prótese ou um cinto. São grotescos. Terrivelmente feios. Como as tatuagens, os piercings e as fibras sintéticas que guardam o odor axilar. Há qualquer coisa de não humano nestes sapatos. Quem os calça torna-se num demónio, numa qualquer figura horrenda e proscrita. Não sei muito bem. Deixo os sapatos prostibulares em paz. Não foi para vê-los que vim à Baixa.

Sapatos (2)

Do outro lado da rua há uma sapataria cuja montra espreito sempre que venho para estes lados da cidade. Não lhe resisto. A gente espreita lá para dentro e vê um arrazoado de sapatos, mais ou menos clássicos, mais ou menos ordinários, quase todos feios. Mas, depois, se focarmos os olhos e procurarmos na escuridão da montra, verificamos que lá atrás, na penumbra, empinados em suportes metálicos, há outro tipos de sapatos. Variam nas cores, nos materiais e nos feitios. Só não variam na exuberância e no exagero. Sapatos prostibulares. À falta de melhor designação, é assim que lhes chamo. São aqueles sapatos que as stripers usam enquanto cabriolam à volta do varão. E que usam as putas e os travestis brasileiros da Luciano Cordeiro, que também são putas, ou sucedâneo de putas (coisa triste de se ser, sucedâneo de qualquer coisa).

Martim Moniz (1)

A estação tem um cheiro familiar. Açafrão, cominhos, pimenta, coco, coentro moído. Do chão da praça nascem repuxos e sombras. É um espelho feio de claridade e água. Uma mulher, de chapéu, alta, com ar de estrangeira, mergulha os pés descalços num dos lagos maiores. Ao seu lado brincam duas crianças pequenas e nuas. Da última vez que por ali andei, e não foi há muito, topei com o cadáver de um rato a boiar entre as águas. Ainda lá deve estar. A roçar nos pés pequeninos dos meninos. Atravesso a rua. Espreito a loja dos animais que fica por baixo de um hotel. Há pombos, rolas, periquitos, canários, pardais de java, bicos de lacre e coelhos anões. Observo com atenção os coelhos. Sei que, mais dia menos dia, cederei aos lacrimosos pedidos da minha filha para ter uma criatura de estimação.

2006/07/03

Manara

A livraria do costume está a fazer uma promoção de livros de banda desenhada. Eu não leio banda desenhada. Não gosto. Mas gosto de promoções. É o sangue indiano que me corre nas veias. Por isso fui espreitar as pilhas de livros que se amontoavam num canto. Estavam lá aqueles nomes todos que os entendidos em BD apreciam: Moebius, Pratt, Tardi, Miguelanxo Prado e outros que desconheço em absoluto. Estava quase a ir-me embora quando dei de caras com uma resma de álbuns do Milo Manara. Há já algum tempo que tenho curiosidade em conhecer os desenhos do dito Manara, provocatórios, pornográficos, indecentes. Decidi trazer um álbum que se chama a Metamorfose de Lucius, uma adaptação do Asno de Ouro que Apuleio escreveu no século terceiro. Sempre é uma coisa mais elevada, quase literária. Ontem à noite resolvi lê-lo. Mais coisa menos coisa, relata as cópulas entre uma mulher voluptuosa e um asno dotado de um enorme poder de sedução. Dotado também de um pénis gingante, capaz de provocar um êxtase prolongado e miríades de orgasmos. Quase me faltou o ar. Até deixei de bocejar, eu que, à conta dos medicamentos que tomo, passo o dia a bocejar. Aquilo é uma pouca vergonha. Das grandes. Hoje vou comprar os outros que para lá há, os Kamasutras, os Clics 1, 2 e3. Só tenho que os esconder bem para o João, e os amigos do João, que volta e meia viram a casa do avesso, não darem com eles.