Thursday, May 15, 2008

Gilbert Becaud - Nathalie

(que ma vie me semble vide.)

Pretérito Imperfeito

Quando as tardes de domingo se punham de breu, chuvosas, pingando lágrimas grossas sobre o bairro, corríamos para a cozinha. A minha mãe fazia churros madrilenos, fritava rodelas de batata-doce, amassava biscoitos de laranja. A minha tia fazia o bolo pic-nic, fritava argolinhas de massa lêveda e sonhos de abóbora. Arredavam-se os pequenos electrodomésticos da bancada de mármore, recolhia-se a fruteira e os naperões de linha grossa matizada. A bancada era limpa com um pano húmido. Imaculada, acolhia as massas que se estendiam, os bolos que se batiam. Eu e a minha irmã observávamos os gestos das nossas mães. Ríamos quando a massa dos churros se enchia de grumos e a minha mãe, bufando, jurava a pés juntos que nunca mais na vida faria tal receita. Competia-nos pôr a mesa para o lanche e polvilhar de açúcar e canela o que houvesse a polvilhar. Quando tudo estava pronto, a toalha de ramagens azuis estendida, as chávenas viradas de borco, as travessas lançando espirais de mornidão que embaciavam os azulejos de flores castanhas, a minha mãe mandava chamar o meu pai que passava a tarde enfiado no escritório, lendo, de fio a pavio, os jornais semanais. Chegava sempre embrulhado no roupão de flanela azul. Raramente sorria. Um homem no meio de tantas mulheres: duas filhas, uma esposa, uma cunhada, uma sogra vestida de negro. Sentava-se no topo da mesa e, em silêncio, comia. Nunca o ouvi gabar os lanches da minha mãe, esses lanches maravilhosos, de doçuras mornas, que tornavam ensolaradas as nossas tardes de chuva. Lembro-me, isso sim, de o ouvir ralhar por o chá já não estar suficientemente quente. Cada vez que o ouvia, a beiçola estendida, a dura masculinidade da sua voz, a incapacidade de ser gentil para a mulher que amava, ficava com vontade lhe enterrar uma faca no peito.

(o meu pai tem um modo estranho de amar.)

Tuesday, May 13, 2008

Alentejo



Janela, José M. Rodrigues

Vergílio Ferreira

Ao ler o Da Literatura fiquei a saber que a Bertrand alterou as capas dos livros do Vergílio Ferreira. Tenho, por alguns dos romances do Vergílio Ferreira, um amor maior do que a vida. Passei a gostar do nome Mónica, nome grave, que tem o som do oboé lá dentro, por causa de um livro do Vergílio Ferreira. Percebi a solidão de Deus por causa de outro. O amor que tenho pelos livros deste escritor é também um amor sensorial, táctil. Para além de os ler, gosto de os tocar e de os olhar. Durante décadas, a Bertrand manteve inalteradas as capas da obra do Vergílio Ferreira. Simples, de uma simplicidade absurda, faziam-se apenas do nome do autor e do nome da obra. Só a cor do livro, por vezes, mudava. E mudava para melhor. Quando a capa da Aparição abandonou o verde seco e passou a mostrar um amarelo luminoso não resisti a comprar outro exemplar. Como resistir a um amarelo daqueles, tão morno, tão alentejano, tão meu? As capas da obra do Vergílio Ferreira eram um sinal de sobriedade e extremo bom gosto no panorama das capas que hoje povoam os escaparates das livrarias. Os livros tornaram-se objectos menores. Pouco interessa o conteúdo. Interessa, isso sim, que tenham uma cinta a apregoar vendas fantásticas, de preferência com a fronha do autor, e uma capa repolhuda, sofisticada, de pechisbeque. As capas da obra do Vergílio Ferreira eram perfeitas. Para quê alterá-las?

Monday, May 12, 2008

Juventude

O Presidente da República anda preocupado com o alheamento da juventude em relação à política. Hoje, recebeu os líderes de várias associações de juventude, incluindo as velhas associações juvenis partidárias. Com tal iniciativa pretende perceber as razões pelas quais os jovens portugueses não se interessam pela política. O Presidente começou a preocupar-se com este assunto nas efemérides do 25 de Abril. Ora, salvo o devido respeito, há na preocupação do PR um grande equívoco. É que o problema não reside na juventude portuguesa. Se se fizerem inquéritos a outros grupos da sociedade portuguesa, facilmente se verá que, à semelhança dos jovens, os resultados são desastrosos. Perguntem aos mais velhos se se interessam pelos assuntos de política nacional e se sobre eles sabem alguma coisa. Hão-de deparar-se com um cenário lamentável. O problema não é pois da juventude portuguesa. O problema é da sociedade portuguesa que, dos jovens aos velhos, dos ricos aos pobres, dos analfabetos aos literatos, não liga um caracol à governação do país. Aqui chegados podemos ser levados ao segundo grande equívoco, o de que os portugueses não ligam à política porque estão desiludidos com o discurso político, com as promessas políticas, com a prática política em Portugal. Ou seja, o desinteresse nacional residiria nos políticos, essas criaturas que usam a política para cuidar, não do interesse público, mas dos interesses próprios. É mentira. Os nossos políticos não são brilhantes. É verdade. Temos muitos maus exemplos. Porém, mesmo que nunca tivessem ouvido falar de políticos como o Pedro Santana Lopes, o Luis Filipe Menezes, o António José Seguro, o Armando Vara, o Narciso Miranda, a Fátima Felgueiras, tantos outros, os portugueses continuariam alheados da política. Os portugueses querem é saber se as mamas da Diana Chaves são de silicone ou se o novo treinador do Benfica é estrangeiro. O resto, incluindo a política, é uma maçada. Os portugueses são um povo medíocre, analfabeto e desinteressado. A juventude portuguesa limita-se a imitar, e bem, mediocridade dos mais velhos.

(Há algumas semanas, perguntava o Jorge Gabriel a uma funcionária pública, mãe dois adolescentes, o nome do líder do CDS-PP. A senhora, apresentável, bem falante, sorridente, amável, não sabia. Tal facto, e era isso que chocava, sobretudo isso, não lhe provocava embaraço ou vergonha. Sacudiu a cabeça, ajeitou os óculos quadrangulares e pediu uma ajuda.)

Sunday, May 11, 2008

Verdes Anos

Moçambique

Ele: Levas-me a ver aquele filme?
Eu: Qual?
Ele: Acho que se chama Terra Submersa.
Eu: Terra Sonâmbula?
Ele: Sim.
Eu: Não é um filme para a tua idade.
Ele: Mas eu quero vê-lo.
Eu: Porquê?
Ele: Fala do teu país. É como se falasse sobre ti.

Saturday, May 10, 2008

Cidades

Fui a Coimbra e percebi que as cidades são como os homens.

Elmer

O meu irmão, pai dos meus sobrinhos, não sabe quem é o Elmer, o elefante de todas as cores. Disse-mo enquanto me passava o pato à pequim e os miúdos, muitos, cavalgavam pelo restaurante fora, atormentando a menina Mei Fong, sempre tão amável e sorridente. Eu ia tendo um chilique.

Wednesday, May 07, 2008

Iguana

The Night of the Iguana, John Huston (1964)

Caídos

Debruço-me sobre o poço do quintal. As águas escuras, imóveis, parecem guardar outros mundos. Escuto, ao longe, a voz da minha prima Filomena. Cuida do grilo perneta que apanhámos ontem perto dos tomateiros. Guardado numa caixa de fósforos, o bicho desconhece as intenções da minha prima. Quer fazer um barquinho de cana e pô-lo a navegar no regato do moinho. Tenho os lábios rebentados de comer nozes verdes. Trago as mãos peganhentas das ameixas maduras. Grito para dentro do poço. A minha voz ricocheteia nas paredes circulares como uma bala perdida. Lembro-me dos caídos e dos enforcados das histórias da minha avó. No Alentejo, conta ela, quando alguém se quer matar, atira-se a um poço ou enforca-se num sobreiro. Os que se atiram aos poços são os Caídos. Os que se deixam balançar nas árvores são os Enforcados. Sempre foi assim. A minha mãe manda-a calar quando a apanha a contar-me tais histórias. Também não gosta que me conte a história do fantasma que se deitou certa noite junto dela. O que eu gosto dessa história! Assusta-me o silêncio do poço, mais do que o silêncio das árvores ou dos fantasmas. Os Caídos fazem-me lembrar bosques adormecidos. Imagino-os sossegados, tranquilos, de boca aberta, o estômago inchado como um balão, rãs esverdeadas pastando sobre os seus corpos.

4

Descobri que a gravidez, para além de retardar o crescimento das pilosidades indesejáveis e de melhorar o estado da cútis, me desperta a libido. Já não me lembrava das maravilhas da prenhez. É uma descoberta extraordinária para quem, como eu, se tem por frígida. Ando a ponderar seriamente ter o quarto filho.

Monday, May 05, 2008

Masurca Fogo

Eminência

Procuro memórias embaraçosas. Elas aparecem sem que faça grande esforço. A vez em que os meus sogros me apanharam na cama do filho. Foi um modo estranho de os conhecer. A queda que dei em frente do advogado da outra parte depois de um julgamento miserável. Aquela vez em que o juiz me mandou calar durante uma audiência. A outra queda que dei na estação de comboios. Rebolei pelas escadas abaixo. Fui amparada por um homem de bigode e unhas sujas, um proletário barrigudo, que ralhou comigo por andar de saltos altos. Recordo também certo almoço de trabalho durante o qual me caiu uma prótese dentária. Caiu-me o segundo molar superior direito para o meio do arroz de pato. Há o ranger da cama, os suspiros e os gemidos que a vizinha de cima escutará em certas noites. Sei que os escuta. Eu escuto os dela. Há, depois, os gases, as bufas, os arrotos, os burriés, todas essas coisas que teimam em nos mostrar a matéria-prima de que somos feitos e que, por vezes, se soltam e nos enxovalham publicamente. Há tantas situações que me fazem corar de vergonha. Poucas, porém, me embaraçam como os erros de ortografia que dou.

Erosão

Enchi o primeiro blogue de asneiras. Utilizava tais palavras para confrontar os outros, para marcar uma posição, para derramar pela blogosfera certa imagem de frontalidade e irreverência. Tinha piada, achava eu, utilizar tais palavras e arremessá-las como pedras a torto e a direito a quem as não esperava. De há uns tempos para cá, porém, tenho assistido a um fenómeno estranho, o da banalização do calão, das asneirolas mais grosseiras. Escrevem os romancistas com empenho e utilizam amiúde as palavras foder, caralho, foda. Até a Mafalda Ivo Cruz, de escrita tão pedante, utiliza tal linguajar. Escrevem os blogers mais estimados, se preciso for, sobre coninhas, ratinhas e outras coisinhas. Escrevem as blogers mais badaladas emancipadamente e enchem os seus virtuais diários de palavreado que faria corar as suas mães. Certa estirpe procura mesmo, através da vernaculidade da linguagem, mostrar-se descomplexada e actual. Como se a modernidade se medisse também pelo à vontade com que se escreve a palavra foder. É uma coisa um bocado parva. As palavras gastam-se com facilidade. Se as usarmos com desregro, sem comedimento ou pudor, ficam ocas, esvaziam-se do seu sentido, perdem o seu significado. As asneiras, mais do que qualquer outra categoria de palavras, são permeáveis à erosão semântica. Se eu disser, e escrever, foda, cona, caralho, com o à vontade com que digo mar, filho, rua, tais palavras deixam de ter sentido. Deixam sobretudo de ter utilidade.