2017/02/17

Dois afogados

Quero abraçar tempo e o espaço. Caminhar em silêncio e, como a mulher canhota, descalçar as meias para sentir o sol nos pés. A poesia, disse-me a santa quando cheguei perto da azinheira, está no piscar luminoso dos reclames antigos, no rosto do traficante, no sorriso do carcereiro, no buraco sujo, no sapato fedorento, nos dois afogados que deram à costa, na mulher que cuspiu no chão, em palavras simples, casa, cão, boca, fome, luz. 

2017/01/29

José

2017/01/26

Trovoada

Começou a chover. Parece chuva de trovoada. Olho uma última vez a estatueta de porcelana. Com a ponta de um lenço de assoar, que humedeço com saliva, limpo as pequenas reentrâncias onde o pó se acumula. Pouso-a em cima da cómoda. Escuto passos que rangem no soalho do corredor. Já passa da meia-noite, a minha espera terminou. Mal me deito, a vivacidade do meu pensamento abandona-me, deixa-me numa fadiga que me torna as ideias confusas. Conheço esse adormecimento, desejo-o, nunca contrario a sua chegada. O meu marido entra no quarto. Parece não trazer pressa, anda devagar, e, ao contrário do que é habitual, alguma energia transparece no seu passo. A expressão do seu rosto também está diferente, descontraída, um sorriso aberto, olhos brilhantes, bochechas elevadas. O que tornará a sua passada mais enérgica? E o seu rosto animado? Talvez seja ainda a euforia do futebol que nele transparece, talvez as sobras dessa satisfação o tornem assim, revigorado, ágil. Senta-se na cama, mãos apoiadas no colchão, a olhar a janela. Deixa-se estar nessa posição durante algum tempo a escutar a chuva nas vidraças. Não diz nada, volta a sorrir, dá uma palmadinha na minha perna como que a querer partilhar comigo a sua satisfação. Depois de dar uma fungadela no spray que usa para as alergias, diz-me boa noite e apaga a luz. Não fecho os olhos. Gosto de olhar a escuridão, descobrir o que nela se esconde, vejo manchas irregulares, parecem lagartos gigantes, cobras gordas, serpenteando por ali. Quando um carro chega à praceta e o clarão dos faróis entra pelas frinchas dos estores, chega-me uma memória antiga, quase esquecida: estou deitada com a Violante num campo de ervas altas a adivinhar as formas das nuvens, divertimo-nos a encontrar coelhos, vacas, galos, algumas nuvens parecem objectos, outras parecem gente. Olha a D. Antónia, de marreca e tudo!, diz de repente a minha irmã e rimos com a descoberta. A recordação desse instante traz-me uma tristeza passageira, mas muito intensa, volto à infância, um tempo antigo em que fui feliz. Pouco a pouco, os meus olhos deixam de ver sombras alaranjadas, a escuridão cresce, só o coração luminoso da estatueta de loiça a quebra. A escuridão confunde. É na noite que o corpo do meu marido ganhará dureza. Escuto o ruído da sua respiração e, pouco depois, sinto o seu corpo voltar-se na minha direcção. 

Não perde tempo, os seus braços aumentam de volume, alongam-se, parecem ser capazes de dar várias voltas ao meu corpo. A sua respiração é cada vez mais acelerada, sinto o seu bafo na cova do meu pescoço. Lá fora, o céu desfaz-se agora em pingos grossos, a chuva estala nos vidros. O meu marido levanta-me a camisa de noite, as suas mãos tocam-me. Deixo que me tome. O meu corpo está aqui, na cama, à sua mercê, para que faça dele o que quiser. Um corpo é apenas um corpo, o meu fica aqui, daqui a nada, quando tudo acabar, venho buscá-lo para o lavar e tratar. Ausento-me: estar deitada na cama ou sentada na sala em frente do televisor ou na cozinha a lavar a loiça passa a ser igual. Tanto faz. Estou simplesmente deitada, sem fazer nada, à espera que isto acabe depressa. Mal me liberto do meu corpo sinto-me tranquila, cheia de silêncio. Pairo como um fantasma sobre o meu quarto, sobre a minha cama, sobre o meu corpo. Agora é a altura certa para me entregar aos meus pensamentos íntimos. Procuro o coração luminoso da estatueta de loiça. Aqui está, mesmo ao meu lado, uma pequena lágrima de luz capaz de quebrar a escuridão mais cerrada. El corazón de los novios alumbra la oscuridad, disse-me o homem naquela tarde e abraçou-me. Recordo o desconhecido de Ceuta, o armazém abafado, a realidade suspensa num abraço demorado. Um instante eterno, sem futuro, nem passado. Começou a trovejar. Continuo a ter medo de trovoadas, mentalmente, começo a dizer a oração a Santa Bárbara, só ela é capaz de apaziguar as tempestades que a natureza lança aos homens. O tempo parece alongar-se. Geralmente, em três, quatro minutos, tudo está terminado, mas hoje o meu marido não só intensifica a firmeza dos seus movimentos como parece querer prolongar o tempo que leva a satisfazer-se. Em movimentos repetidos, entra e sai, sai e entra, sempre na mesma persistência. O movimento parece não ter fim. Oiço os seus gemidos, sinto o cheiro do seu suor peganhento, a murchidão da barriga a roçar-me o ventre, tudo é desolador, mas descanso na perfeição dos meus pensamentos secretos. O meu marido transpira de esforço. Sinto-o dentro de mim, sinto as contracções dos músculos, o sangue a latejar. O meu marido está caído sobre o meu corpo, mas eu não estou aqui. Estou longe, muito longe, nos braços de um homem que me aperta. Consigo sentir o cheiro desse homem. Consigo sentir até a sua respiração no meu rosto. O calor desse abraço, clandestino, mas puro, perdura na minha vida. Escuta-se outro trovão, mais forte do que o primeiro. O meu marido larga por fim um grito descontrolado de dor e prazer. Sinto-me aliviada por tudo ter finalmente terminado. Assim que o meu marido resvala para o lado, acendo a luz. Levanto-me com cuidado, procuro a camisa de noite e visto o robe que está aos pés da cama. Caminho até à casa de banho para me lavar. O calor que se sente é cada vez maior, parece escorrer pelos azulejos, cobrir as loiças sanitárias, esconde-se dentro do pequeno armário com puxadores dourados. Abro a pequena janela da casa de banho, mas da rua chega apenas ar quente. Os trovões estão mais espaçados, cada vez mais longínquos, mal se ouvem. Olho-me no espelho. Noto o cabelo em desalinho, o meu rosto está tenso e, exposta à luz fosforescente da casa de banho, a minha pele mostra marcas evidentes de cansaço, as rugas parecem mais profundas, os olhos estão inchados, as olheiras, escuras, parecem borrões de tinta. Regresso ao quarto, os meus passos tornam-se leves, os pés mal tocam no chão. Vou sossegada. O cheiro da cera do soalho volta a confortar-me; a minha irmã sorri na moldura que está sobre o móvel da entrada e a Nossa Senhora, olhos moles de solidão, padece, como é próprio da sua natureza, no seu nicho de gesso dourado. Entro no quarto e sento-me na cama. Sinto-me esgotada, finalmente poderei deitar-me, fechar os olhos, adormecer, deixar o cansaço escorrer do meu corpo. Talvez já não o sinta ao acordar. O meu marido ressona baixinho, tem a boca ligeiramente aberta e a cabeça apoiada nas mãos entrelaçadas. Apago a luz. Lá fora, escuta-se apenas o vento nos plátanos da praceta. Depois da trovoada, a noite voltou a encher-se de silêncio.

Marshmallow

O recinto da feira do livro, no Parque Eduardo Sétimo, é um grande mercado. Numa barraquinha o João Pedro e a mulher vendem produtos biológicos: verduras, fruta, legumes. Tudo tem um ar desolador: as verduras estão murchas, a fruta, maças, peras, uvas, são bichosas, os legumes, de cores baças e mirrados, parecem estar ali há vários dias. Paro para comprar as poucas framboesas e amoras que restam dentro de um caixote. Para além das framboesas e das amoras, há também umas estranhas bagas. São grandes, amareladas, fazem lembrar casulos de traça. Experimento uma. Sabe a marshmallow e desfaz-se na boca. Escolho as bagas que quero levar e pago com uma nota de cinco euros. Continuo a subir o mercado. Para além de fruta e legumes, vendem-se broas, pães, cavacas, queijos e enchidos. Procuro um queijo picante, conservado em azeite, um queijo que tenha exactamente o sabor de um outro que certa vez, ainda pequena, provei em casa da prima Laura. O João Pedro acompanha-me durante alguns minutos. Não temos tema de conversa. Caminhamos em silêncio. Por fim, com o seu habitual modo desajeitado, pergunta-me se quero ir ao cinema. Fico feliz, radiante, absolutamente eufórica com o convite. O meu coração bate, muito acelerado. Estou prestes a responder-lhe, faço um esforço para disfarçar o contentamento, quero responder com descontração. Mas o João Pedro já não caminha ao meu lado. Estou outra vez só. O amor, esse velhaco, voltou a humilhar-me, morde-me agora as canelas, depois rebola de tanto rir, aponta para mim. Viro-me para trás, procuro o João Pedro no meio da multidão. Voltou para a barraquinha dos legumes. Está sorridente ao lado da sua jovem mulher.

( Curiosamente, a última vez que estive com o João foi na feira do livro.)

2017/01/21

Cotidiano



(Os Smiths não valem um caralho.)

Os pés de Rudolf Nuriyev

Foi uma alegria quando o sexto andar do prédio dos meus pais foi comprado. Finalmente o último apartamento seria ocupado. Acabava assim o corrupio de potenciais compradores, gente que entrava e saía, examinando cada recanto, mexendo em tudo, olhando-nos, seus potenciais vizinhos, com a mesma frieza com que olhavam os mármores da entrada e os alumínios dos caixilhos. O prédio podia por fim repousar na tranquila alegria de uma família completa. Soube-se logo que o apartamento fora comprado por um casal de professores aposentados. Tinham apenas um filho que acabara há pouco tempo o curso de medicina. As características do novo agregado familiar agradaram a toda a gente. Num prédio de funcionários públicos, donas de casa, militares de pequena patente, retornados, um casal de professores proporcionava uma certa decência que o exercício do professorado ainda gozava naquele tempo. Um jovem médico exerceria, por outro lado, boa influência nos miúdos do prédio. Feita a mudança, o casal instalou-se. Os professores aposentados eram muito educados, já o filho, o jovem médico, logo na sua primeira aparição, provocou nos habitantes do prédio um certo desconforto.

Esguio, seco como um ramo, de rosto pálido e comprido, o rapaz fazia lembrar um louva-a-deus. Tinha lábios finos, tensos. Os olhos, claros, eram bonitos. Vestia-se com uma certa informalidade moderna que muitos vizinhos confundiram com desmazelo. Usava o cabelo pelos ombros e trazia sempre uma mala a tiracolo. Movia-se com discrição. Parecia procurar as sombras para que ninguém o visse. O jovem médico, extravagante, tão silencioso, foi olhado com desconfiança. Até que um dia tudo se esclareceu: o rapaz afinal não era só médico. Também era bailarino. Fazia parte de uma companhia de dança clássica. Os habitantes do prédio inquietaram-se! Um bailarino, ainda que médico, não era uma influência saudável na juventude do prédio. Os rapazes mais velhos andavam quase todos na Afonso Domingos. Tinham o destino traçado. Esperava-os um futuro de sucesso e virilidade. Seriam engenheiros mecânicos, engenheiros civis, engenheiros químicos, engenheiros electrotécnicos. Se algum, mais sensível, não se sentisse atraído pelo mundo da engenharia, poderia ser sempre arquitecto. Um bailarino destoava daquele quotidiano de fundações sólidas e inabaláveis.

Já eu fiquei encantada. Por essa altura, influenciada pelo comunismo da minha tia, vibrava com os programas de televisão que glorificavam o socialismo soviético. Foi neste contexto, embalada nos braços da minha tia, que, pouco tempo antes, num documentário sobre a vida de Rodolf Nuriyev, descobrira os seus pés. Como boa aprendiza, não me interessei pela história da fuga do bailarino. Queria lá eu saber por que é que fugira da pátria amada e se enfiara no covil mais sujo do mundo! O que me impressionou, e para sempre se gravou na minha memória, foi a imagem dos seus pés:  monstruosos, feiíssimos, calejados, totalmente deformados pelas longas horas de treino em pontas. Com as suas calosidades, os seus ossos corcundas, os metatarsos deslocados, as falanges e falangetas libertas da sua posição inicial, soltas numa amálgama de tecidos moles, eram uma imagem impressionante de sofrimento e perseverança.  Pensei: se o tal Rodolf Nuriyev tinha pés deformados, também o meu vizinho bailarino os teria. Era um silogismo simples que permitia conclusões irrefutáveis. Os pés do jovem médico tornaram-se numa obsessão para mim. Precisava de os ver… Quando subia com o jovem médico no elevador, a primeira coisa que fazia era olhar para baixo. Ele trazia sempre os pés enfiados numas alpercatas vermelhas. Eu bem tentava perceber, através da lona, a forma dos seus pés. Mas nada. Nem um joanete, um aleijão, nem uma curva duvidosa se mostrava para me sossegar a curiosidade. Estava quase a perder a esperança quando finalmente lhe pude ver os pés. Certa manhã, saindo do prédio com a minha mãe, percebi que o jovem médico subia a rua em sentido contrário. Os pés vinham livres, enfiados nuns chinelos. Antecipei, com deleite, a sensação que iria experimentar. Aqueles pés iriam proporcionar-me um espectáculo maravilhoso de horror e aberração. Apressei o passo. Quando nos cruzámos, olhei descaradamente para os seus pés. Que desilusão! Eram grandes, normais, de dedos longos, sem qualquer interesse, nem um calinho se topava naquela pele macia, naqueles pés de deus grego. A normalidade daqueles pés pareceu-me grotesca, indignou-me profundamente.

O tempo passou. Passados alguns anos, sucedeu um episódio que novamente me trouxe à lembrança a banalidade dos pés do jovem médico. Estava perto do elevador. Esperava que a minha mãe chegasse com o correio para subirmos, quando, vinda da escuridão da garagem, surgiu uma mulher. Subiu connosco no elevador. Trazia o cabelo apanhado com muitos ganchos. Usava um vestido pingão às cornucópias, que parecia escorrer-lhe do corpo, escondendo formas e saliências. Calçava sandálias de couro e, por isso, pude ver-lhe os pés. Depressa percebi que conhecia aqueles pés. Por tudo aquilo que não eram, de tão normais e banais, aqueles pés tinham ficado gravados na minha memória. Eram os pés do jovem bailarino, só que estavam no corpo daquela mulher! Olhando para os pés, percebi que a mulher era parecida com o jovem médico: tinha os mesmos olhos transparentes, tristes. Quando saímos no terceiro andar, mal a porta se fechou, perguntei à minha mãe quem era aquela mulher que se apossara dos pés e do rosto do jovem médico. A minha mãe procurou a chave na mala, meteu-a na fechadura, abriu a porta. Perante o meu olhar inquisidor, como se falasse da coisa mais natural do mundo, explicou que o jovem médico fizera uma operação e se tornara numa mulher. Mandou-me fazer os trabalhos de casa e fugiu para a cozinha. Fiquei parada, no meio do corredor, na companhia dos deuses de sândalo, espantada com aquela revelação. Como podia um homem transformar-se em mulher?

O assunto foi esquecido. Calei as minhas dúvidas durante muito tempo. Anos mais tarde, percebi naturalmente o que acontecera. O rapaz do sexto esquerdo livrara-se de um corpo que não era seu. Redesenhara a sua intimidade, arrancara de si um pedúnculo de raízes fundas, mas podres. No seu lugar, crescera uma flor muito frágil. Mudara de sexo. Era um acto de profunda coragem que punha em causa as leis do mundo, de deus e do nosso prédio. Desejei que a metamorfose do seu corpo lhe trouxesse paz. O jovem médico, tornado mulher, deixaria de procurar as sombras. Foi o que pensei. Voltei a subir no elevador, muitas vezes, com a médica. Assisti ao seu envelhecimento. Passou a usar óculos. O cabelo ralo cola-se agora ao crânio, sem graça ou beleza. Parece trazer sempre o mesmo vestido pingão de cornucópias. Os pais morreram. Vive sozinha. Debruçada na janela da cozinha, onde gosto de observar a rua da minha infância, vejo-a chegar. Estaciona o carro no lugar onde o seu pai estacionava um Datsun azul. Tira sacos de compra. Movimenta-se com lentidão. Continua a procurar as sombras. Já não estranho o facto de um dia ter sido o jovem médico bailarino que fez tremer os alicerces do nosso mundo. Perdoei-lhe, há muito, o facto de ter uns pés normais, sem o grotesco encanto dos pés do Rudolf Nuriyev.

Meu amor



(Sofro por amar. Sinto vergonha por amar sem ser amada. Mas sinto-me viva. Quantos terão, como eu, amado assim, uma vez na vida, com a certeza íntima de ter amado? Meu amor, meu tão estúpido amor. Meu querido João Pedro. )

Mãos

Quando casou, por imposição nunca totalmente assumida de Ester, passou a ir à missa. De início, custou-lhe. Era baptizada, fizera a primeira comunhão, havia em si o habitual temor reverencial a Deus, assente em subordinação e obediência, mas até aí vivera à margem de ritos, sacramentos e missas. Ester pressentia a descrença da nora, a gente do sul vivia num estado de ateísmo primitivo, sem fé verdadeira. Fazia por isso muita questão de que o filho não perdesse os princípios e valores com que o educara. Quisera casar com aquela rapariga? Pois muito bem, mas não havia de o deixar viver na estrema da decência cristã, sem sentir o cheiro do incensário durante a bênção do Santíssimo e o conforto da confissão mensal.
Nunca perguntava a Maria se queria ir à missa, limitava-se a telefonar na véspera a dar instruções:
- A missa começa às onze. Estou pronta às dez e um quarto. Fazem o favor de não chegar atrasados. A Maria já sabe que gosto de chegar a tempo de arranjar um dos lugares da frente. – Dizia, avinagrada, pouco se importando se, com as suas palavras, ganhava de vez a antipatia da nora.

Os lugares das primeiras filas, de preferência junto do corredor central, eram os predilectos de Ester. Não só proporcionavam a visão desafogada do presbitério, forrado com madeiras nobres e azulejos de padrão relevado, como também permitiam que fosse das primeiras da assembleia a comungar. E isso é que era verdadeiramente importante para Ester. Chegava-se ao sacerdote com ar de reverência, estendia a língua e logo a pequena bolacha, translúcida de tão fina, se desfazia na sua boca. Era tal o consolo que sentia que a hóstia, ázima e insonsa, lhe sabia às iguarias da vida. Voltava ao lugar com o coração palpitante, cheio de alegria pela união a Cristo e ao povo de Deus, sobretudo, satisfeita pelo protagonismo assumido na celebração. Ficava por isso aborrecida se Maria e o filho se atrasavam e já só arranjava lugar nas filas laterais junto aos altares dos santos menores. Passava a celebração amuada, mexendo sempre no colar de contas de jade. Espreitava a nora, culpando-a intimamente por não ter chegado a tempo de arranjar assento condigno ao protagonismo a que se julgava com direito. Bufava: não conseguia ver o altar em condições, mal se apercebia do cortejo de entrada, e, pior, demorava muito tempo a chegar ao corredor central na altura da comunhão. Era obrigada a permanecer na fila e esperar a sua vez. Quando finalmente chegava perto do sacerdote e se dava conta do prato já meio vazio, estendia a língua para receber a comunhão, fingia um ar solene, baixava as pálpebras em sinal de recolhimento, mas a hóstia já não lhe sabia bem. Mais parecia um pedaço de pão duro. O seu coração palpitava de irritação.

Casada de fresco, Maria teve a prudência de nunca confessar à sogra que pouca ou nenhuma fé tinha. Sentia desconforto durante a celebração: tentava disfarçar a sonolência que sempre lhe chegava na hora da homilia, imitava os gestos da assembleia, dizia o pai-nosso com convicção, mas balbuciava tudo o resto em surdina. Incomodavam-na sobretudo as mãos, não sabia o que lhes fazer, acabava por pousá-las ao longo do corpo numa rigidez que causava dormência.

2017/01/11

Percevejos verdes

Depois do último internamento, há cerca de seis meses, passei a sofrer de insónia. Demoro muito tempo a adormecer. Acordo várias vezes durante a noite e fico às voltas na cama, à espera de que o sono volte. Sonho recorrentemente com a enfermaria onde estive internada. É um sonho estranho. As chapas do telhado, enferrujadas, têm buracos por onde entram pássaros e outros bichos. Os degraus da entrada, de madeira apodrecida, estão cobertos de ervas. As paredes, manchadas de tinta escura, parecem esboroar-se em caliça. Nas janelas há grades de ferro. O soalho é pardacento e áspero. As camas da enfermaria estão pregadas ao chão e, nos lençóis, manchados de urina, passeiam-se lindos percevejos verdes. A enfermaria com que sonho é muito diferente daquela, limpa e arejada, em que estive internada, mas, não sei por quê identifico aquele lugar com a enfermaria da Clínica de São José. Desperto cansada, como se tivesse caminhado durante muito tempo, o corpo moído, a cabeça a latejar, a boca seca.

Há algumas semanas, o meu amigo Eduardo convidou-me para ir lanchar a uma pastelaria antiga, com paredes de espelho e mesas cobertas de toalhas de pano. Queria saber de mim, como me sentia, se estava melhor. Enquanto comia um duchesse coberto de frutas, confessei-lhe que estava melhor, muito melhor, não alucinava há muito tempo, nem ouvia vozes, mas não conseguia dormir. Expliquei-lhe que não aguentava continuar assim, sentia um cansaço extremo, o meu desespero era de tal ordem que ponderava mesmo consultar um bruxo, um exorcista, enfim alguém que me ajudasse a dormir uma noite sossegada. Eduardo, o meu amigo, também é doente dos nervos. Nunca esteve internado, mas sofre ocasionalmente de ataques de ansiedade. Escutou as minhas queixas e riu-se do meu desespero. Depois contou que, apesar dos picos de ansiedade, não tinha qualquer problema em adormecer.
- Deitas-te e o sono chega? – perguntei com despeito.
- Não é bem assim, Ana. Tenho um truque para adormecer...
Quis saber que truque era aquele, talvez funcionasse comigo. Eduardo não tardou em revelar-mo. Todas as noites recordava um sonho que tivera. Não era um sonho alucinatório ou enigmático, desses que estimulam o pensamento e nos fazem procurar respostas sobre a vida. Tratava-se apenas de um lugar, um lugar tranquilo, que lhe trazia muita paz. Bastava fechar os olhos, imaginar-se nesse sítio e era imediatamente inundado por uma sensação de bem-estar.
- Estou debruçado no muro de um terraço. Lá em baixo, abre-se um oceano de águas claras, onde o sol bate com tal intensidade que me fere um pouco os olhos; no meio do mar há uma ilha. Nas encostas da ilha, as veredas serpenteiam entre pomares e jardins perfumados. Nos recantos da costa, as praias são de areia dourada e fina. São praias pequenas e desertas, nas águas transparentes notam-se as sombras dos peixes. Quero ir para aquela ilha, para aquele mar, mas para lá chegar, não te sei explicar por que razão, tenho de atravessar uma estufa degradada, suja e com vidros partidos. Na estufa há um banco de pedra antiga. É nesse banco que me costumo sentar antes de adormecer, fixando o horizonte onde parece terminar o mar, olhando a pequena ilha, entorpecido por memórias quentes e indefinidas.

Ouvi-o em silêncio e continuei a comer o duchesse coberto de frutas. Aborrecida, mudei de assunto. Não acho justo que Eduardo, que sofre apenas de ansiedade, tenha um lugar imaginário tão bonito e tranquilo, um lugar onde, esquecido dos seus problemas, descansa noites inteiras, e eu, doente desde os vinte anos, com tantos altos e baixos, sonhe apenas com uma enfermaria em ruínas, cada vez mais suja, cada mais escura. Da última vez que lá estive, os lindos percevejos verdes morderam-me a barriga das pernas e Nikita, o guarda, ameaçou bater-me se continuasse a falar com Ivan Dimitrich.

2017/01/10

Last night I dreamt that somebody loved me



(Desconheço o significado da palavra "falanstério", mas sei que a Adalgisa do poema,  loura, trêmula, blândula, desdobrada em duas, também é morena esfogueteada.)

Paint a vulgar picture



(Não sei quem é o Ricardo Piglia, mas sei de cor a tabuada dos sete, dos oito e dos nove.)

I started something I couldn't finish



(Nunca li Santo Agostinho, mas faço, às terças e quintas, lindos scones dourados para o pequeno almoço dos meus filhos.)

2017/01/09

Fortuna

A camisa aberta nas costas da cadeira, as calças vincadas em cima do assento, peúgas, cuecas, lenço e gravata pousados na camilha. Para além de escolher a roupa que o meu pai usaria no dia seguinte, havia uma outra tarefa que a minha mãe cumpria todos os dias antes de se deitar: deixava sempre posta a mesa do pequeno-almoço. Cinco canecas em cima da toalha plastificada, um termo com leite fervido, a pequena cafeteira italiana já pronta, o frasco do chocolate em pó, a manteiga, pão fatiado dentro de um saco de pano. Recordando a rotina desses dois gestos diários, percebo agora que a minha mãe não escolhia a roupa do dia seguinte e não deixava posta a mesa do pequeno-almoço para poder dormir até mais tarde. A minha mãe sempre se levantou muito cedo. Às seis da manhã, já estava de pé, enfiada no robe azul, preparando as marmitas, despertando os móveis da casa, dando início às rotinas, cuidando do nosso lar. Levantando-se tão cedo, poderia pela manhã escolher a roupa do meu pai e tratar do pequeno-almoço. Tinha tempo de sobra para o fazer. Suponho, porém, que a minha mãe gostasse de adiantar serviço. Mesmo que o pão endurecesse, sobretudo nos meses de calor, mesmo que a roupa escolhida na véspera para o meu pai não se adequasse ao tempo, aliviava-a a certeza de as suas obrigações estarem cumpridas. Ficava assim com tempo livre caso acontecesse algum imprevisto (não me lembro de alguma vez ter acontecido um imprevisto). Confortava-a saber que tinha o serviço adiantado, sentia-se mais confiante por saber-se organizada. Talvez até dormisse melhor. Desde que se aposentou do hospital, há mais de vinte anos, a minha mãe continua a repetir esses dois gestos antes de se deitar: arranja a mesa do pequeno-almoço e escolhe a roupa que no dia seguinte o meu pai usará. Na tristeza natural dos meus dias, estas recordações são jóias raras, a minha fortuna.

2017/01/08

Capoeira

A capoeira fica junto dos currais. Para se chegar lá é preciso subir a ladeira que divide o quintal em duas metades iguais e passar pelos arbustos que dão flores vermelhas. Sentada na capoeira, escondida, vi os homens fardados inspeccionar tudo. Entraram no barracão. Espreitaram para dentro do forno velho. Riram-se da roupa estendida no estendal: duas cuecas transparentes, um sutiã preto com rendas amarelas, outro sutiã encarnado. Mexeram no lixo amontoado perto da porta da cozinha: roupas velhas, revistas, embalagens de sumo, papelões, garrafas e alguidares. O homem mais velho começou a subir a ladeira. Quando chegou ao cimo do quintal, deu com a capoeira. Chamou o mais novo com um grito que assustou a Branquinha. Apontou na minha direcção. Ficaram os dois a olhar-me em silêncio, como se eu fosse um bicho, um animal feio, um monstro do circo. Encolhi-me ainda mais na palha.

Os homens fardados tiraram-me da capoeira. Levei o ovo da Branquinha nas mãos. Perguntaram-me o nome. Não pude responder. Na minha boca vive apenas o silêncio. Às vezes, mexo os lábios, sacudo o corpo, a ver se as palavras que vivem dentro de mim se soltam. Elas teimam em não sair. Se soubesse falar, se conseguisse soltar as palavras que tenho presas cá dentro, teria explicado aos homens das fardas que me chamo Alice como a madrinha que mora em Leiria. A madrinha visitou-nos uma vez, num dia de calor. Trazia as unhas pintadas de vermelho, um vestido com um decote redondo, os pés gordos enfiados numas sandálias de verniz. Olhou-me com desconfiança. Com um toalhete perfumado limpou-me o fio de baba. Deu-me então um beijinho, sem me tocar no rosto. O beijinho ficou pendurado no vazio e, antes que o apanhasse, fugiu para a copa das laranjeiras.

Os homens fardados perguntaram pela minha mãe, queriam saber dela, precisavam de lhe falar. Não sei se foi por magia, mas, nesse instante, ela entrou pelo portão. Vinha do supermercado e trazia batatas fritas, ursinhos de goma, caramelos de leite e bolicaos, que é o que gosto de comer. Mal me viu fora da capoeira começou a gritar. Ainda tentei mostrar-lhe o ovo que a Branquinha pôs, mas ela não ligou. Ergueu os braços. Começou a gritar. Os gritos da minha mãe parecem trovões. Assustam toda a gente. Assustam os pintos e as galinhas. Assustam o vizinho da casa ao lado que passa a vida a espreitar para dentro do nosso quintal. Assustam até a prima Nela que vem, pela tarde, tirar o leite de uma cabrinha que pôs no nosso curral.

Se soubesse falar teria explicado aos homens fardados que sei bem que capoeiras são para as galinhas e eu não sou uma galinha. Antigamente, no tempo da avó, só entrava na capoeira para levar o balde com os talos das couves e as papas de pão duro. A avó andava sempre vestida de preto e usava um lenço amarrado à cabeça. Era ela que cuidava de mim enquanto a minha mãe andava a trabalhar. Plantava batatas, cebolas, tratava dos pintos, dos coelhos, apanhava a fruta das árvores, tirava água do poço. Enquanto andava na sua vida, tratando dos bichos e da horta, eu brincava: enterrava as mãos na terra, cheirava as folhas do limoeiro e da erva-cidreira, olhava as lesmas subindo os muros cobertos de musgo, tocava gaitinhas de cana, fazia funerais aos pardais que o vento fazia cair dos ninhos. Quando a avó morreu, a minha mãe começou a trabalhar em casa.  

Chegam uns homens que se fecham com ela no quarto. Na primeira noite, tive medo que o homem a levasse. A minha mãe explicou que tinha de ficar deitada na cama e adormecer. Quando amanhecesse voltaríamos a ser só nós duas. Mas eu ouvi risos no quarto da minha mãe e pareceu-me que a voz lhe morria na garganta. Na segunda noite, entrei no quarto e vi-a deitada na cama com um homem. Deitei-me entre eles. Tira-me esta gaja daqui!, gritou o homem à minha mãe.  Na terceira noite, ela acendeu um petromax e levou-me para o barracão onde a avó costumava guardar as batatas e as cebolas. Pediu-me para ali ficar. Mal ela rodou a chave da porta dei um pontapé no candeeiro que se apagou. Na escuridão, arranquei todas as palavras que costumam estar presas dentro de mim. Fugiram-me da boca. Foi a única vez que consegui gritar. Na quarta noite, veio outro homem. Era careca e não tinha pestanas. Usava uma cruz ao peito. Foi nessa noite, na noite do homem sem pestanas, que a minha mãe me levou, pela primeira vez, para a capoeira. Tinha nascido uma ninhada nova à Branquinha e eu entretive-me a brincar com os pintos. Não gritei e a minha mãe pode trabalhar em sossego. A partir daí, sempre que ela tem trabalho ou precisa de ir a algum lado, fico na capoeira. Passo lá muito tempo. Pela rede entram lagartas das couves, caracóis, grilos e escaravelhos. Sentada na serapilheira, com a Branquinha ao colo, consigo observar tudo. Vejo as sombras do dia e da noite. Conheço as árvores do quintal e os gatos que por cá aparecem. São cinco: dois malhados, um branco, um amarelo e um preto. Passo muito tempo a olhar as nuvens e as estrelas. Os pássaros voam e desenham figuras no céu. Gosto de ver as nascer as folhas do castanheiro. Não há cor mais bonita do que o verde das primeiras folhas. É o verde das coisas que são novas, das coisas que não eram e passam a ser. No quintal, sentada na capoeira, vejo o que ninguém vê: morcegos que se soltam do poço e a avó que desce a ladeira com a sachola ao ombro. Na capoeira ninguém me limpa o rosto com toalhetes perfumados.

2017/01/05

Piaçaba

Os cuidados de higiene, a limpeza do lar, fazem parte da disciplina que Maria julga essencial para se viver com decência. Não conseguiria habitar uma casa mal varrida, pouco arejada, com bancadas de cozinha cheias de nódoas de gordura, assim como não conseguiria viver com um homem mal lavado, cabelos oleosos, unhas sujas, o suor de dias entranhado nas fibras da roupa. Dá por isso graças a Deus pelos hábitos de higiene do seu marido. O marido de Maria não é apenas asseado, é também meticuloso. Exerce a rotina com método e precisão, sem alterar procedimentos, dispensando a improvisação. Toma banho pela manhã, depois do pequeno-almoço. Desperta com um pequeno ronco na barriga, precisa de alimento mal acorda. Ainda de pijama, caminha lentamente até à cozinha, bebe uma chávena de café com leite e come duas torradas barradas com creme vegetal. Só depois, estômago confortado, se enfia na casa de banho. Escova os dentes antes e depois de dormir. Muda de meias, cuecas e camisa todos os dias. Corta as unhas com regularidade, as das mãos uma vez por semana, as dos pés de quinze em quinze dias. Nunca deixa unhas espalhadas pelo chão do quarto e apara frequentemente os pêlos das narinas e das orelhas com uma tesourinha retorcida que guarda num estojo de couro na gaveta da roupa interior. O marido também usa sempre o piaçaba para limpar a retrete. É sobretudo nesse gesto que Maria encontra razões para considerar inatacáveis os seus hábitos de higiene.

Homem de costumes enraizados, vai invariavelmente à casa de banho antes do jantar. É assim desde que o conhece. Muitas vezes, Maria anda entretida na cozinha a preparar o jantar, esquece-se de ir à casa de banho, vai aguentando a vontade enquanto prepara a comida e põe a mesa. A dada altura, sente a bexiga cheia, percorre o corredor numa aflição muito grande. Encontra a porta da casa de banho fechada, sinal de que o marido ainda lá está. Maria, apesar da aflição, nunca bate à porta, muito menos o tenta apressar. Deixa-se estar do outro lado da porta, pernas traçadas, olha em redor para se distrair, fixa-se nos ramalhetes do papel de parede, na consola da entrada cheia de fotografias do filho. Quando o marido sai, jornal debaixo do braço, olha-a com indiferença, como que a dizer “estás aqui?”. Maria não diz nada, apressa-se a entrar, fecha a porta, descruza as pernas com lentidão. Mal entra sente o cheiro que o marido lá deixou. É um cheiro que custa a morrer, nem as borrifadelas de brise que lança, uma mão no nariz, para evitar a náusea, a outra pressionando freneticamente a cápsula do ambientador, o conseguem disfarçar. 

Sozinha na casa de banho, respirando apenas pela boca, Maria levanta o tampo da sanita, puxa para baixo as cuecas e as meias. Lentamente começa o cheiro a morrer, agoniza perante a concentrada volatilidade dos aromas a brisa marítima e jardins orientais. Espreita sempre antes de se sentar. Certo como o destino: a loiça sanitária está impecavelmente limpa. Apenas se nota a auréola ferrosa do rasto da descarga que a lixívia e outros abrasivos nunca foram capazes de apagar. Maria sabe que o marido, não podendo controlar o cheiro que o seu corpo liberta, procura amenizar a marca da sua passagem, não deixando vestígios, legando-lhe a retrete limpa, autoclismo descarregado, o pincel do piaçaba enfiado no recipiente de loiça. Sempre que topa com a brancura da sanita Maria sente que teve sorte com o companheiro que a vida escolheu para si. Quantos homens haverá como o seu, capazes de pouparem as mulheres ao espectáculo da miséria diária do seu corpo?


Media Training

Desenvolvemos um acompanhamento personalizado e fazemos questão de estar presentes em todos os momentos, da negociação de direitos à leitura acompanhada durante o processo de escrita, de media training à promoção e gestão de agenda. Acreditamos no talento dos nossos autores e lutamos para potenciá-lo. 

Booktailors

(como é triste o mundo da literatura.)

Pombos

 O avô é pequeno, o pai é pequeno, o filho é pequeno. Encontro-os no portão da escola quando, ao fim do dia, vou buscar o Joaquim. Para além de pequenos, são atarracados, gorduchos e parecem estar sempre contentes. Por sorrirem constantemente, numa harmonia que aborrece, fazem-me lembrar um livro de contos do Ricardo Alberty que, em pequena, li muitas vezes: “A cozinha barulhenta”. Adorava as personagens do primeiro conto: D. Petronila, a impante, gordíssima cozinheira, generala do fogão e dos tachos, a ajudante de cozinha, belfa e burra, que insistia em fazer palavras cruzadas, preenchendo erradamente todos os espaços, a velha adormecida na soleira da porta, o rapaz dos recados cujo rosto parecia uma maça camoesa. Em contrapartida, não gostava nada das personagens do segundo conto. Passado à beira mar, falava do encontro entre um menino de cabelos doirados e um anão. O menino era um sonso, já o anão era torto, feio e caminhava pela areia como um caranguejo. Dava gargalhadas sonoras, um pouco velhacas, mas tinha um coração de ouro. No fim, se bem me lembro, ajuda o menino a perceber o significado da amizade ou coisa que o valha. Apesar da sua índole, eu odiava o anão. Irritavam-me as gargalhas, os passinhos curtos, o modo insolente como exibia a desgraçada deformidade do seu corpo. No portão da escola, quando encontro o avô pequeno, o pai pequeno e o filho pequeno, cópias aborrecidas uns dos outros, gordinhos e felizes, lembro-me sempre do anão do Ricardo Alberty. Experimento nessa altura, talvez numa revisitação da minha antiga antipatia, uma vontade inconfessável de os pontapear. Acontece-me o mesmo com os pombos. 

2017/01/03

Concentrado de tomate

No bairro onde cresci, na Portela de Sacavém, toda a gente conhece o diácono Armando e a sua história. Ele não a esconde. Vindo da esquerda mais dura, encontrou Deus tarde. Militou no partido comunista muitos anos, travou lutas, falou em comícios, distribuiu propaganda. Esteve preso. Viveu a revolução com o entusiasmo próprio dos que acreditam que o mundo pode ser um lugar melhor. Nos anos oitenta, quando sentiu que a sua crença no comunismo fraquejava, procurou Deus e, de uma forma extraordinária e simples, encontrou-o. Como o invejo! Converteu-se. Deixou de ser um comunista feroz. Passou a ser um católico feroz. Foi ordenado diácono com cinquenta anos. Acredita em Deus com a mesma força com que acreditava na ditadura do proletariado. Há muita gente no bairro que o admira. Outros olham-no com desconfiança. Não lhe apreciam a cultura enciclopédica, o estilo virulento, o passado esquerdista. A uns e a outros causa estranheza que um comunista, ateu confesso, se tenha tornado crente em Deus, fiel à sua palavra.

Eu, descrente, ímpia criatura, acho que a fé é uma espécie de droga. Vicia. Quem a experimenta não sabe viver sem ela. Acreditar no comunismo não é muito diferente de acreditar em Deus. A fé conforta, apazigua, alivia. Torna-nos parte de alguma coisa, dá sentido à nossa vida, passamos a ter um propósito, algo a que nos dedicar. É preciso acreditar. Ser fiel. Seja no que for. Os que são pouco originais são fiéis a Deus, a Buda, a Shiva, à Nossa Senhora de Fátima, à Santinha da Ladeira. Muitos, aos magotes, são fiéis a um clube de futebol. Vão rareando, mas ainda há os que são fiéis a um partido, a um ideal, a uma filosofia de vida. Há os que são fiéis a uma banda, a uma estrela pop, os que acreditam que o Michael Jackson padecia de vitiligo e nunca fez uma operação plástica ao nariz. Há os fiéis das novas seitas, em tudo acreditam, no poder da cura, nos milagres em catadupa, pague três e leve quatro, não estranham sequer os terminais de multibanco instalados nos altares para o pagamento do dízimo. Verde. Código. Verde. A sua alma está salva. Ámen.

O diácono do meu bairro acreditava no comunismo. Depois, imagino, começou a ouvir falar de execuções, censura, falta de liberdade, presos políticos, miséria. Não há fiel que aguente tamanha dose de realidade. Deve ter tido uma ressaca dos diabos. Foi preciso arranjar rapidamente um sucedâneo. Tal como os heroinómanos nos períodos de abstinência, também os fiéis, quando se apercebem da fragilidade das suas crenças, precisam de encontrar algo que substitua a fé estilhaçada. O diácono Armando, comunista convicto, - estou a imaginá-lo, de punho erguido, rosnando a Internacional, querendo nacionalizar a fábrica de concentrado de tomate de Benavente -, no dia em que o mundo se apresentou de outra forma, teve de procurar a fé noutra parte qualquer. Encontrou-a em Deus, que é magnânimo, infinitamente bom e se deixa amar por todos.

Vida tão estranha



(Que podem a flouxetina, o cloridrato de trazodona  e a quetiapina fazer por um coração velho e tão magoado? A quetiapina, a minha nova amiga, da família dos anti-psicóticos, para além de aumento de peso, em homens e mulheres, pode provocar mamas inchadas e produção inesperada de leite. Rio-me da minha desgraça.)

2017/01/02

Verbo irregular

Conduzia um pouco distraída. Conjugava em voz baixa o verbo crer. Irene, essa uma das suas particularidades, sabia conjugar todos os verbos, incluindo os irregulares. Eu cri, tu creste, ele creu, nós cremos, vós crestes, eles creram, dizia para si própria, embalada naquela antiga cantilena. Preparava-se para iniciar a conjugação no modo conjuntivo, o seu modo preferido, quando sentiu alguma coisa bater nas rodas traseiras. Parou o carro e saiu. Um pequeno rafeiro, de olhos assustados, gania dolorosamente na berma da estrada. O embate provocara-lhe uma ferida na cabeça. Dessa ferida escorria um sangue escuro e espesso que empapava o pelo macio. Irene olhou em volta à procura de ajuda, mas os poucos que passavam pareciam não dar-se conta da sua presença. Sentou-se no passeio e começou a fazer festas no animal moribundo. Não sabia explicar a razão, mas sentia-se subitamente tranquila, ali, sentada no passeio, o bafo morno do bicho nas suas mãos. Lembrou-se do tempo em que se fechava na casa de banho e batia com a cabeça na parede. Um vez, de tanto bater, fizera um golpe fundo que precisara de cinco pontos. O sangue escorreu nesse dia, escuro e espesso, e sujou o seu pijama. Era o tempo em que se afligia, vivia à beira do sono, à beira dos sonhos, à beira da morte. Apenas encontrava alegria nos abraços do filho mais novo e na contemplação absurda de prédios, ruas, jardins. Lembrou-se depois de uma palavra, cujo significado esquecia com frequência, mas com a qual embirrava desde que a ouvira na boca de uma mulher solene. Poema, notícia, conto em que aparecesse tal palavra e Irene, como se novamente escutasse o giz no quadro de ardósia, arrepiava-se toda. Continuou a fazer festas no pequeno cão, cada vez mais adormecido. Talvez esteja à beira do sono, à beira dos sonhos, à beira da morte, pensou Irene. Voltou à conjugação do verbo crer. Que eu creia, que tu creias, que ele creia, que nós creiamos, que voz creiais, que eles creiam. Entregou-se ao verbo como quem se entrega a uma oração.