Ando cansada para escrever. E triste. Uma tristeza miudinha percorre-me o corpo. Conheço-a de outras guerras. Procura, como sempre acontece, entrar pelos poros da minha pele para depois se instalar cá dentro. Quando a tristeza se entranha nas vísceras pouco há a fazer. Geralmente espero que se sacie e me abandone. Não fosse o cansaço e a tristeza e escreveria hoje sobre um homem que conhece os nomes das árvores e dos peixes.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2009/05/04
Eva
Entra uma rapariga na carruagem. Olho-a. Tem umas sandálias calçadas, tipo colibri, de plástico bege, daquelas baratas que se compram no Paraíso do Calçado e cheiram a cholé quando se descalçam. Morena, com umas covas nos olhos e a sombra do buço a marcar-lhe o rosto, a rapariga não terá mais de vinte anos. O cabelo é enorme, escuro, exageradamente comprido. Deve chegar-lhe ao rabo. Faz lembrar uma Eva ignota. Vê-se que tem orgulho no seu cabelo. Não pára de lhe mexer. Faz nós nas pontas. Pouco depois, desmancha-os para logo de seguida fazer outros. Quando se cansa dos nós, começa a enrolar o cabelo em volta do pescoço. Como se fosse um lenço. Ou um colar. Ou uma corda para se enforcar. Ou uma serpente de língua bífida que, sibilante, lhe oferece uma maçã. Por fim, deixa de brincar com o cabelo e arremessa-o para trás das costas. Olha em redor e dá um estalido com a pastilha elástica que mastiga. Tem noção de que o seu cabelo dá nas vistas e isso alegra-a. O que a rapariga não percebe é que é a feiura do seu cabelo-serpente que prende o olhar de quem com ela se cruza. É um cabelo baço, sem brilho, sem volume, com uma ondulação incipiente. Tenho pena da Eva que masca pastilha elástica na carruagem do metro que vai para Odivelas. Se tivesse uma tesoura à mão cortava-lhe o cabelo, tornava-a banal, livrava-a dos olhares alheios.
(Novembro 2007)
2009/04/27
A Casa dos Budas Ditosos
Interrompo o silêncio para um desabafo: a cadeia de supermercados Auchan baniu das suas prateleiras A Casa dos Budas Ditosos do João Ubaldo Ribeiro. Dizem os senhores que por lá mandam que o livro é pornográfico. Gesto tacanho, de imbecilidade necessariamente viril. Tive os melhores orgasmos da minha vida a ler o dito livro. Trouxe-o a minha irmã Susana de Brasília. Li-o às escondidas, com o coração acelerado, quando a casa paterna repousava de todos os seus outros habitantes. À conta dessas prazenteiras tardes de verão tenho até uma fotografia do escritor colada na porta do frigorífico. Perguntam-me os meus filhos quem é este senhor de bigode que aqui está? Não lhes respondo. Eu sei porque ele lá está. É, pois, absurda a atitude dos senhores do grupo Auchan. Em vez de banirem o livro do João Ubaldo Ribeiro das suas castas prateleiras, deviam encará-lo como um trunfo promocional, oferecê-lo, por exemplo, a todas as mulheres que fizessem compras superiores a cinquenta euros. Os senhores do grupo Auchan talvez não saibam mas um bom orgasmo, secreto, inesperado, proibido, dá mais felicidade a uma mulher do que os trocos que poupa comprando iogurtes de marca branca ou fraldas por atacado.
2009/04/23
Mr. Biswas
Estou em época de contenção. Poupo palavras. Fervilha o mundo e eu calo-me. Não escreverei sobre a insuportável Mísia, nem sobre o JP Simões (suspiro profundo), nem sobre o não sei quantos tiger man, nem sobre os quiosques da Catarina Portas, nem sobre a cimeira de Genebra, nem sobre as eleições na Índia e na África do Sul, nem sobre a Ilda, o Miguel, o Paulo, o Nuno e o Vital, nem sobre o Jardim Constantino, nem sobre a rua Pascoal de Melo, nem sobre o cheiro dos jardins de buxo e das petúnias floridas, nem sequer sobre o arquitecto desconhecido, Álvaro, que chega para a semana. Nos próximos dias, aviso os estimados leitores, as minhas palavras serão escassas. Evitam por cá passar. Nesta baiuca reinará o silêncio e o vazio. Tudo por causa de um tal Mr. Biswas que requer todas as minhas atenções.
(Explicaram-me um dia, já não sei quem, que ler é mais importante do que escrever. É bem verdade. Perco demasiado tempo a escrever tolices aqui.)
2009/04/17
Arranca Corações (2)
Os escritores de hoje não têm sentido do decoro. Não percebem que quem escreve deve mostrar-se com parcimónia. Esta exposição é sobretudo uma falta de respeito pelos leitores. Exijo, aos meus escritores, recato e clausura! Só assim poderei amá-los pelo que escrevem. De outra maneira, arriscam-se a ser apreciados pelo acessório. Eu explico com um exemplo concreto. O José Eduardo Agualusa esta semana deixou-se fotografar para a revista do expresso. As fotografias publicadas são a preto e branco, soturnas e envolventes. Fazem suspirar. Ora, eu não gosto particularmente dos livros que escreve. É uma embirração antiga que vem do tempo em que escreveu sobre a minha Índia. No entanto, acho-o um homem muito bonito, moreno, o cabelo rebelde, os olhos pequenos e escuros, a pronúncia do lado de lá (o que eu gosto daquela voz que tem no timbre os entardeceres mornos do sul). Compro sempre os livros do Agualusa. Leio-os, em parte, porque aprecio o invólucro do escritor. Acho, sinceramente acho, que não os leria se nunca lhe tivesse conhecido o rosto e se nunca lhe tivesse ouvido a voz. Se o Paul Auster fosse um gordalhufo, boçal e seboso, não teria a horda de fãs que tem por esse mundo fora. As trintonas tardias e as quarentonas adoram-no. Se em vez daquele olhar tresloucado, mas cativante, o Lobo Antunes fosse zarolho e belfo quem se interessaria por lhe ler a obra mais recente, indecifrável e neurótica? Tivesse o tal Paolo Giordano, o rapaz que escreveu o romance sobre os números primos, lábio leporino e orelhas de abano, em vez daquela beleza serena que suscita sentimentos concupiscentes, e nenhum editor o publicaria. Os tempos que vivemos são assim. Os escritores, como toda a gente, querem cativar-nos com todas as armas que possuem, as literárias e as outras.
(Estive quase tentada a comprar a lire, tal foi o matinal encanto que o arranca corações trouxe à minha sexta-feira. Só depois me lembrei que não sou capaz de ler duas linhas de francês.)
Arranca Corações (1)
Abriu uma tabacaria nova perto do banco onde trabalho. Tem uma boa oferta de publicações estrangeiras. Entretive-me, pela manhã, no escaparate das revistas francesas. A paris match, a magazine littéraire, os cahiers du cinéma, a fígaro, todas lá estão, apelando à minha alma francófila e levemente imbecil. Interessei-me pela lire que traz na capa uma fotografia do Boris Vian. Não o imaginava assim, delicado, frágil, com um ar núbil, quase pueril. Os escritores de antigamente têm destas coisas: surpreendem-nos. Apaixonamo-nos por eles por causa dos livros que escreveram e, depois, assim do nada, descobrimos que poderíamos amá-los por razões bem mais prosaicas. Aconteceu-me o mesmo com o Albert Camus. Descobri, há tempos, depois de lhe ler alguns livros, a fotografia que o Bresson lhe tirou. Desejei, de imediato, que saísse da tumba e me levasse para a Argélia, onde eu, de bom grado, passaria o tempo a preparar-lhe pratos de cuscuz e a cativá-lo com danças eróticas usando apenas um tarbuche. Lê-los, aos escritores de antigamente, é assim uma espécie de blind date (hei-de me vergastar, com fúria, por utilizar uma expressão inglesa). Quase sempre, não lhe conhecemos o rosto, a voz, as expressões, os interesses, as miudezas da vida privada, amores, filhos, loucuras domésticas. O mesmo não acontece com os escritores contemporâneos. A gente quer-lhes fugir e não consegue. Eles deixam-se fotografar, entrevistar, opinam sobre isto e sobre aquilo, escrevem em revistas, blogues, jornais, maçam-nos com opiniões e desabafos, integram júris variados, promovem encontros, aparecem em colóquios e seminários dissecando obras e personagens. Na verdade, os livros que escrevem parecem, muitas vezes, ser um mero acidente de percurso nas suas vidas literárias.
2009/04/14
Orangotangos
Tenho mais estima pelos orangotangos do Bornéu do que pelos terapeutas familiares. Infelizmente são os primeiros que estão em vias de extinção.
2009/04/13
Paquiderme
Sentei-me estrategicamente atrás de uma das colunas do refeitório de modo a poder observar a mulher paquiderme sem ser vista. Tenho gosto em observar tudo o que é diferente, esquisito, grotesco. Dos miseráveis às pessoas com deficiências várias, aleijões, chagas, deformidades, angiomas, todos despertam o meu interesse e me fazem arranjar estratagemas para observá-los, com detalhe, na sua estranheza e indigência. Um simples coxear me faz virar a cabeça. Enquanto mastiguei os lombinhos de garoupa tratei de olhar a mulher paquiderme. Deve pesar perto de duzentos quilos. É um monte monumental de carne flácida e gelatinosa. Só o rabo dela, colossal, há-de pesar mais do que eu. Tem, porém, um rosto bonito, uma pele lisinha, o cabelo penteado com preceito. Hoje usava, enrolado ao pescoço, um lenço com bolinhas de cor que lhe dava uma certa graça. Às vezes, o marido vem almoçar com ela ao refeitório. É miudinho. Ciranda à sua volta, mimando-a, fazendo-lhe festas no rosto, colocando-lhe o bracito por cima do ombro. Levanta-se muitas vezes para lhe trazer sobremesas de plástico, bavaroises de ananás e semi-frios de frutas vermelhas. Ela, lambona, tudo devora com prazer. O marido tem evidente orgulho no corpo da mulher. Desconfio que é um desses maravilhosos tarados que só sentem tesão chafurdando nas nalgas e nos refegos das mulheres gordas. Não consigo tirar os olhos de tão estranha parelha.
2009/04/11
2009/04/08
2009/04/07
Hemisfério Sul
Aprecio a franqueza dos países do hemisfério sul. Lá, tudo é claro, transparente. São países que, em muitos assuntos, estão mais avançados do que nós. A sério. Por exemplo, assumem com naturalidade a corrupção, o clientelismo, a utilização do poder público para alcançar benefícios pessoais, a promiscuidade entre poder político e judicial. A corrupção é uma coisa assumida. É a engrenagem que tudo faz funcionar. Se não houvesse corrupção tais países entrariam em colapso. Todos, cada um à sua medida, corrompem e são corrompidos. Com transparência. Sem temer consequências ou represálias. Isso é bom. Uma pessoa sabe com o que contar. Evita a vergonha, o embaraço, o constrangimento do gesto. Ninguém hesita se quiser subornar alguém porque todos são subornáveis, negociáveis. Recordo, a este propósito, a primeira vez que visitei o seminário de Rachol, em Margão. Ouvira falar do altar da capela e queria conhecer de perto os anjos de olhos amendoados e cabelos negros que por lá vivem. O padre que me franqueou a visita ao altar era um velhinho goês, um santo padre, de batina branca e óculos de aros grossos, tímido e frágil como uma papoila. Cheirava a mirra, a turíbulo, enfim, às coisas santas desta vida. Para meu espanto antes de me deixar entrar estendeu-me a mão a pedir qualquer coisa. Balbuciou um português antigo e correcto. Explicou que só me deixava visitar a capela, que não está aberta ao público, mediante uma pequena contribuição pessoal. Não me fiz rogada. Com certeza senhor padre, tome lá cem rupias e deixe-me apreciar os anjos de cabelos negros em paz. Ficámos ambos satisfeitos.
(O que amofina em Portugal é a ilusão de que as coisas não são assim.)
2009/04/06
2009/04/03
Cagarlax
Sabe deus nosso senhor o trabalho que me dá passar vinte e quatro horas por dia trombuda, maldisposta, enfadada. Hoje, porém, ri, com gosto, sozinha. Por duas vezes: logo pela manhã, com o cagarlax do Miguel Esteves Cardoso e, no metro, com a maravilhosa fotografia do Nuno Costa Santos, o recém-empossado provedor do leitor da revista Ler. É muita risota para um dia só. Não estou habituada a tanta galhofa.
Boca
Um dia, quando o engenho chegar - tenho fé que chegará na quarta década da minha vida -, hei-de escrever um romance sobre as altas classes médias de Lisboa. Personagens de sexualidade ambígua, caçadores e caçados, gente intelectualmente superior, noites que desaguam no Lux. Uma coisa assim original e verdadeiramente interessante.
(que feia é a boca do Fernando Pinto do Amaral.)
2009/04/02
Olé
Escutei este fim-de-semana, na telefonia, a entrevista do grão-mestre. Esmerou-se por defender a sua ordem, atafulhada de princípios e homens livres. Notei-lhe a voz pouco firme, bruxuleante. Pareceu-me que a dentadura lhe sacolejava. Como se tivesse castanholas dentro da boca. Olé. Ele a falar de assuntos sérios e importantes para o futuro da humanidade. Eu a picar cebolas para as pataniscas de bacalhau e a pensar na mulher que lhe papou a amantíssima esposa. Feia, uma dessas lésbicas matulonas e tronchudas, incapaz de usar um rímel, um vestido, um colarzinho de pérolas de água. Apesar de tudo o que se passava, tinha o grão-mestre em grande consideração. Para além da esposa, apreciava-lhe os ideais de liberdade e fraternidade, gabava-lhe a filantropia e o humanismo.
2009/04/01
Pão
Na última reunião do G8, em Julho, depois de uma manhã a discutir a crise alimentar no mundo, os poderosos deleitaram-se com dezanove iguarias preparadas por um chefe japonês. Comeram, entre outros pratos, milho recheado com caviar e ouriços-do-mar, enguias avinagradas e cordeiro aromatizado com trufas negras. Para a refeição inaugural da reunião do G20, Jamie Oliver, o delicioso cozinheiro que me acompanhou nas manhãs molengonas da terceira licença de maternidade, fará um menu mais frugal: espargos ingleses, peixe fresco e borrego temperado com alhos selvagens. Convém ter algum comedimento, alguma consciência social nestas ocasiões. Para não parecer mal. Entretanto, na costa da Líbia, continuam desaparecidos trezentos imigrantes. O número não é certo. Vinham da Somália, da Etiópia, da Nigéria. Queriam chegar a um sítio onde houvesse pão.
2009/03/31
Gula
Que fique claro: uma coisa é comer com discrição as pequenas cabeças dos carapaus fritos, outra, bem diferente, é chupar, com pecaminosa satisfação (e mais não digo), uma cabeça de coelho, lamber-lhe a dentola de roedor, sugar-lhe a mioleira, mastigar-lhe os globos oculares, olhinhos outrora pestanudos. Fico agoniada com a campestre gula da minha sogra.
Bricabraque
Enfio a mão no jarrão da entrada. Espreito dentro da terrina chinesa colocada no centro da mesa da sala de jantar. Espanto-me sempre com a quantidade de coisas que a minha mãe consegue guardar dentro dos bibelots lá de casa: lápis de pintura estalada, canetas, clips, papéis, corta-unhas, alfinetes, agulhas de crochet, cadeados, porcas e parafusos, fotografias, elásticos, brincos, pulseiras, batons do cieiro, bulas de medicamentos, brinquedos pequenos dos netos. Uma vez, há já alguns anos, até lá encontrei um dos dentes de ouro do meu pai. Fiquei a olhar para ele e a lembrar-me do embaraço que sentia cada vez que soltava uma gargalhada. Parecia um pirata, um cigano, um maltês, um bandido qualquer. Ele a rir-se, feliz, eu a desejar que fechasse depressa a boca para que a europeia decência lhe voltasse ao rosto. A verdade é que a tolice da minha pré-adolescência me fazia ter vergonha do dente de ouro do meu pai e também dos chinelos que ele usava nos pés aos fins-de-semana. Na altura, os pés usavam-se cobertos, escondidos em sapatos de vela ou sapatilhas da le coque sportif. O meu pai, de pés escancarados, os dedos feios e amarelecidos, ofendia-me com os seus hábitos de gente do sul. Uma autêntica pornografia podológica. Pego agora numa caixinha de argentaria, vinda de Lourenço Marques. A travessia do oceano, o vento salgado, deixou-lhe uma cor baça, triste. Verto tudo o que lá está dentro. Espalha-se o interior pela madeira de pau-preto. Tanta coisa, tanto quase-lixo. Não sei o que procuro. Não procuro nada. Quero apenas certificar-me que nada mudou nesta casa, que os objectos deste apartamento continuam guardiões das minudências dos dias dos meus pais. Um cheiro estranho de coisas velhas solta-se daquele bricabraque miniatura. Mistura-se o cheiro a ferrugem, que vem das chaves velhas da garagem, com o cheiro doce de um pacotinho de sementes de anis que a minha mãe trouxe do mercado de Margão.
(não vejo os meus pais há mais de três meses.)
2009/03/25
Che
Nunca usei t-shirts do Che, nem lenços palestinianos enrolados à volta do pescoço. Usei, isso sim, presos na lapela do casaco, uns cráchas com o perfil do Lenine e do Marx, redondos e brilhantes como rebuçados de fruta, trazidos pela tia Dé da União Soviética. Saía de casa, a caminho do liceu, com eles enfiados no bolso e só os colocava na gola do casaco no elevador. O meu pai, a quem a revolução dos outros deixou marcas amargas, não apreciava a minha admiração pelo comunismo da tia Dé. Volta e meia, quando a dor que trazia por dentro lhe amarinhava pelo corpo, olhava-me com ódio e mágoa.
(O Benicio del Toro, a propósito do novo filme do Steven Soderbergh, diz que quem usa t-shirts do Che é fixe. O Benicio del Toro é parvo que se farta.)
2009/03/23
Rosa Maria (3)
O caldo entornou-se. Já nem sei o que lhe disse. Só sei que, às tantas, ela olhou para mim e, abrindo muito a boca, mostrou-me outra vez a dentadura. E, depois, sabe o que me disse, senhor doutor, disse-me que tinha uns dentes melhores que os meus e que os homens gostavam de dentes bons! Foi aí, senhor doutor, que eu lhe disse assim ó Rosa Maria, tu, se fizeres um broche a um homem com esses dentes, pões-lhe a pila logo mole! E desatei-me a rir porque comecei a imaginar a Rosa Maria, muito velha, cheia de rugas, muito torta, a fazer o trabalhinho e os dentes a chocalharem por todo o lado. Deu-me um ataque de riso que não consegui parar! A gente ri-se tão poucas vezes nesta vida que tem que aproveitar quando tem vontade. Quando olhei para a Rosa Maria vi que estava caída a tremer por todos os lados. E a dentadura caída no meio do chão. Qualquer coisa no coração. Um ataque fulminante! Quando chegou o 112 e a levou parece que já ia morta. Coitadinha. Não queria que a Rosa Maria morresse senhor doutor! Fico doente, com o coração apertadinho, só de pensar que ela morreu porque eu lhe disse que nem com a dentadura nova ela conseguia arranjar homens que lhe pagassem! Apanhei a dentadura, guardei-a bem guardadinha e tenho-a aqui, senhor doutor, tenho aqui a dentadura da Rosa Maria embrulhada num guardanapo limpinho. O senhor doutor, faz o favor de a guardar, bem guardadinha, porque a Rosa Maria tem de ser enterrada com a dentadura posta. Percebeu, agora, porque quis falar consigo? É para lhe entregar os dentes novos da Rosa Maria.
Rosa Maria (2)
Ora, hoje de manhã, fui beber um galão e comer um papo-seco ali a um café antes de ir trabalhar. Cheguei à esquina devia ser cinco horas. Adivinhe quem já estava? A Rosa Maria! Só que estava diferente. Os beiços pintados de vermelho, vermelho, vermelho! As unhas, muito ratadas, mas pintadas também. Tinha uma roupinha diferente. Sei lá onde a foi desencantar! Em alguma loja chinesa ou na feira da ladra. Estava encostada à minha esquina, com a mala a tiracolo, e sorria a quem passava. Quando sorria mostrava os dentes. Foi então que percebi que a Rosa Maria tinha uma dentadura. Ó senhor doutor, eu olhei para ela, a mostrar os dentes novos, pronta para o engate, e nem sabia se havia de rir ou chorar! Eu, muito calminha, muito calminha, perguntei-lhe ó Rosa Maria, pá, olha que estás na minha esquina! Ela olhou para o relógio e disse que tinha chegado primeiro. Eu calei-me e pus-me a falar para dentro, a dizer, tem calma Maria Alice, tem calma, que a gaja é velha e já andou muitos anos na vida e tu mais dia, menos dia, vais ser igual a ela, uma puta velha. Foi então que a Rosa Maria começou a falar, a dizer que já não se faziam mulheres como dantes, que nós éramos todas umas drógadas, que andávamos a dormir com os homens e a espalhar doenças por toda a parte. Comecei a chatear-me porque há muita desgraçada com o vício nesta vida, mas não é o meu caso, senhor doutor, que nunca meti nada dentro do corpo e tenho dois filhos para criar! Olhe, mas ela não se calava, uma conversa sem pés nem cabeça!
Rosa Maria (1)
Vou contar-lhe tudo o que se passou, senhor doutor. Ando na vida há muitos anos. Já passei por muitos lugares, mas, de há uns tempos para cá, que estou na esquina da Rua João das Regras, ali perto da Praça da Figueira. É o sítio onde sempre fico. Às vezes, quando chego, está lá a Rosa Maria, a tal velha que morreu. Foi puta toda a vida. Desculpe a linguagem, senhor doutor, mas a gente tem que chamar as coisas pelos nomes! Geralmente, quando a vejo na minha esquina, chego-me ao pé dela e digo-lhe Rosa Maria põe-te a andar que este é o meu sítio. Ela resmunga, resmunga. Não se percebe metade do que ela diz. Às vezes tenho que gritar com ela para a pôr a andar. Digo-lhe assim ó Rosa Maria, põe-te na alheta se não rebento com o resto dos dentes que tens na boca. Eu sei que não devia dizer uma coisa destas a uma velha. Mas que quer, senhor doutor, a Rosa Maria é teimosa. Por mais que a gente lhe diga que já não há homens que a queiram, assim, velha, malcheirosa, desdentada, ela insiste em sair todos os dias para a rua à procura de clientes. Foram muitos anos na vida, foi o que foi. Tadinha. Deus a tenha em descanso, que bem merece!
2009/03/22
Casanova
Sonhei com o Rogério Casanova. Escusam de me acusar disto e daquilo e sei lá do que mais que a culpa não é minha. Uma mulher, é sabido, manda em muitas coisinhas da sua vida, mas não nos seus sonhos. Mandasse eu e haveria de sonhar noites inteiras com o Abishek Bachan, vestido com uma curta branca, a puxar-me pela trança e a cheirar-me o cangote. Houve tempos em que sonhei com o Pedro Mexia, de peúgas brancas e pijama de flanela, casto, enfiado comigo na cama dos meus pais a ler livros infantis. Agora, vá-se lá compreender a minha mente, dei para sonhar com o Rogério Casanova. Não usa peúgas brancas mas, pior, passeia-se pelos meus sonhos no corpo do Álvaro Costa, o apresentador gaiteiro da Liga dos Últimos.
2009/03/19
Chantal Biya
Estou fascinada com a primeira-dama dos Camarões. Chama-se Chantal Biya e põe a rainha Raina, tão sensaborona na sua beleza autêntica e delicada, a um canto. A primeira-dama camaronesa é um estoiro de mulher, um petardo rebentado no céu, a feira popular no mês de Agosto, uma autêntica pérola do espalhafato e exagero. O santo padre, que é um homem conservador e circunspecto, como convém aos homens de fé, há-de baixar os olhos quando a topa. Quer fugir do africano mamalhame saltando dos decotes em v, das quadrangulares garras pintadas de rosa choque, do exagero constrangedor dos seus chapéus e vestidos de cores vibrantes, do cabelo volumoso, ripado, pintado de laranja escuro, da palidez mórbida provocada pela aplicação diária dos melhores cremes branqueadores. Anda, pobre coitado, a apregoar o recato e a abstinência sexual, valores com os quais concordo e que, pior, pratico, e dá de caras, assim, logo no início da sua, com essa imagem de deboche, pecado e luxúria. Tenho pena do santo padre. Dizem, os crentes, que Deus escreve direito por linhas tortas.
Carapaus fritos
Pedi carapaus fritos no refeitório. Naturalmente, comi as cabeças dos animaizinhos, despedaçando com os meus molares os seus pequenos crânios fritos em óleo quente. Estaladiços e gordurosos, uma delícia! Uma rapariga, magra, que se encontrava por perto, comendo valenciana de legumes, olhou-me com leve repugnância. Há gente muito parva.
2009/03/17
Carrossel dos Esquisitos
O rapaz mais feio do meu curso casou com a rapariga mais feia do meu curso. A feiura dos dois é coisa nunca vista. Excessiva num mundo onde a beleza é quem mais ordena. Ele tem a pele muito seca, originada por uma qualquer doença de pele, psoríase provavelmente. Volta e meia, as escamas da sua pele soltam-se e deixam à descoberta manchas de um vermelho intenso e feio. Tem os dentes salientes, a fazer lembrar um coelho gigante. Uma pessoa olha para ele e espera, a qualquer momento, vê-lo cobrir-se de uma pelagem cinzenta e desatar a saltitar, frenético, em busca de um prado verdinho. É juiz. Há alguns anos, apanhei-o numa comarca do interior, muitíssimo sério, feioso dentro da sua beca, cheia de cordões e pregas, a ditar despachos com uma voz fanhosa. Quis atirar-me à cara a superioridade da sua casta. Deixei-o. Uma coisa é ser magistrado. Outra é ser jurista de um instituto público.
Ela, a rapariga mais feia do meu curso, sempre foi velha. Já o era na faculdade. Usava saias por cima do joelho e calças vincadas. Tinha olhos pequeninos, a pele baça, o cabelo oleoso colado ao rosto, sem vida, sem volume. Alta, movimentava-se com lentidão como se o corpo lhe pesasse em demasia. Tinha, e tem, uns enormes pés voltados para fora, as ancas largas, muito robustas, a maternidade entranhada nos ossos das bacia. Deve ter seguido o notariado. Assentos, certidões, averbamentos, procurações, testamentos, tudo ela há-de tratar com eficiência e sisudez, disfarçando o fastio que o cheiro a papel velho lhe provoca. Eram ambos alunos aplicados. Não faltavam às aulas, não frequentavam o bar, não fumavam, não bebiam, tinham notas medianas. Eu desprezava-os porque eles simbolizavam tudo o que eu não queria da vida: ordem, conformismo, rotina, previsibilidade.
Ultimamente, andava eu já tão esquecida dos tristes anos em que andei na faculdade de direito, voltei a cruzar-me com eles. Devem viver no meu bairro. Encontro-os no talho a pedir carne picada para fazer almôndegas e na mercearia a comprar duzentos gramas de fiambre de peru. Andam sempre juntos, de mãos dadas. Ele olha-a com amor. Ela deixa-se envolver pelo amor dele que é como uma gaze diáfana, muito leve e delicada. São, de uma forma quase escabrosa, felizes por se terem. Olho-os com uma pontinha de emoção e muita vontade de chorar.
(O Pedro Mexia também foi meu colega de curso. Não era o rapaz mais feio do meu curso, mas andava lá perto.)
Ela, a rapariga mais feia do meu curso, sempre foi velha. Já o era na faculdade. Usava saias por cima do joelho e calças vincadas. Tinha olhos pequeninos, a pele baça, o cabelo oleoso colado ao rosto, sem vida, sem volume. Alta, movimentava-se com lentidão como se o corpo lhe pesasse em demasia. Tinha, e tem, uns enormes pés voltados para fora, as ancas largas, muito robustas, a maternidade entranhada nos ossos das bacia. Deve ter seguido o notariado. Assentos, certidões, averbamentos, procurações, testamentos, tudo ela há-de tratar com eficiência e sisudez, disfarçando o fastio que o cheiro a papel velho lhe provoca. Eram ambos alunos aplicados. Não faltavam às aulas, não frequentavam o bar, não fumavam, não bebiam, tinham notas medianas. Eu desprezava-os porque eles simbolizavam tudo o que eu não queria da vida: ordem, conformismo, rotina, previsibilidade.
Ultimamente, andava eu já tão esquecida dos tristes anos em que andei na faculdade de direito, voltei a cruzar-me com eles. Devem viver no meu bairro. Encontro-os no talho a pedir carne picada para fazer almôndegas e na mercearia a comprar duzentos gramas de fiambre de peru. Andam sempre juntos, de mãos dadas. Ele olha-a com amor. Ela deixa-se envolver pelo amor dele que é como uma gaze diáfana, muito leve e delicada. São, de uma forma quase escabrosa, felizes por se terem. Olho-os com uma pontinha de emoção e muita vontade de chorar.
(O Pedro Mexia também foi meu colega de curso. Não era o rapaz mais feio do meu curso, mas andava lá perto.)
2009/03/11
Pastoral Portuguesa
Desconfio que a quase totalidade dos bloggers que costumo ler, e que estão na coluna do lado, teve um chilique quando deparou com o súbdito desaparecimento. Neste preciso momento, agonizam em frente dos seus computadores e preparam, com afinco, textos sobre a indispensabilidade do estilo casanoviano na blogosfera portuguesa. Já eu admiro o gesto. Não há nada mais deprimente do que escrever num blogue.
Deus
A minha filha anda na catequese. Anda na catequese e acredita em Deus. Ontem foi a Fátima com a sua catequista e veio de lá maravilhada com os pastorinhos, a devoção popular, o sol que bailou sobre um campo de margaridas, as pagelas de oração com a imagem da nossa senhora, tão linda, boazinha, seráfica, as lojas onde se vendem velas com forma de pernas, mãos, braços, o casinhoto miserável onde a santa família vivia, cheia de catres e bilhas de barro. À noite fui dar com ela, enfiada na cama, a rezar o terço. Olhou-me de soslaio. Custa-lhe que eu não acredite em Deus. Sente nisso, nessa total incapacidade de aceitar o divino, uma incompetência materna.
2009/03/10
Japão
O Japão é um lugar estranho. Comprei o livro por duas razões. A primeira: descobri, há pouco tempo, que o meo oferece um canal que passa exclusivamente filmes de animação japonesa. Chama-se Animax e seduz com todas aquelas histórias fantásticas de espíritos, vampiros, guerreiras, shimigamis, princesas de olhos redondos e heróis andróginas. A segunda razão: a capa do livro é magenta e eu tenho dificuldade em resistir a objectos de tal cor. Acontece-me o mesmo com o amarelo-torrado.
MEC
Antigamente, quando abria o Público, procurava ler em primeiro lugar a coluna do Eduardo Prado Coelho. Salvas raras excepções, abominava tudo o que escrevia. Gostava de começar o dia assim, com esse frémito de irritação, buscando em cada parágrafo um cliché esquerdista, em cada palavra um vestígio de insuportável pedantismo intelectual. Quando morreu o coro de elogios foi unânime e ruidoso. Acanhei-me perante tamanha homenagem e passei a folhear o Público sem método, desregradamente. Percebo, porém, que isso mudou. Agora, mal abro o jornal pela manhã, procuro a coluna diária do Miguel Esteves Cardoso. Leio-o com assumido deleite. Fale ele do seu neto António, das cancerígenas sardinhas esturricadas ou das subtis variações com que os intelectuais nortenhos pronunciam certas palavras, Mac e Apple, os seus textos mostram como é arguto, mordaz e sincero, absolutamente indispensável. Lê-lo passou a ser um gesto diário como o primeiro cigarro que fumo no estendal depois de deitar, e calar, a canalha pequena.
2009/03/06
Brilliant Histoire d’Amour
Depois de uma paixão, assolapada e imbecil, uma mulher, quando finalmente deixa de gostar de um homem, passa por várias fases. Há a fase da surpresa. Há a fase do alívio. Há a fase do nojo. Há, por fim, a fase do vazio. Maria Viegas estava na fase do nojo. Dava por si a lembrar-se de olhares, palavras, gestos e a sentir-se ligeiramente nauseada. Com vontade de abrir a boca e vomitar. Pela manhã, no carro, em pleno túnel, enquanto pintava os lábios com o brilliant histoire d’amour da lâncome, veio-lhe à cabeça uma palavra. Uma única palavra. Uma palavra escrita. Uma palavra corriqueira. Banal até, mas que odiava. Que era incapaz de utilizar. Esgalhado. Esgalhar. Esgalho. Deu um grito e fez um esgar de repulsa. A palavra em questão não lhe fora sequer dirigida. Esborratou-se. Na falta de um lenço de papel, limpou a boca a um dos muitos bilhetes de parquímetro amarelecidos que se acumulavam no tablier. Começou de novo. Foi então que olhou para o lado. Viu um homem grande e gordo. Um urso gigante. Ou um hipopótamo vagaroso. Percebeu, nesse preciso instante, que, relativamente ao seu marido, apesar de tudo o que acontecera, apesar de tudo o que estava para vir, nunca passara, nunca passaria por uma fase de nojo.
2009/03/05
Desejos
O Público de hoje conta que os homens árabes procuram mulheres israelitas para casar. As israelitas têm fama de inteligentes e bonitas. O Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita recebe por ano dezenas de cartas de árabes solicitando que lhes arranjem uma noiva judia, estando muitos dispostos a pagar o respectivo dote, em camelos ou cabras. Pobres árabes que se deixam seduzir pelo mundo ocidental, tão decadente, tão desregrado, tão livre, tão desejado. Li a notícia e lembrei-me dos homens indianos. Todos os dias, chega às praias de Goa uma chusma de gente vinda do interior indiano. Querem ver o mar. Uma pessoa caminha pelo areal e tropeça em famílias inteiras, pais, mães, filhos, avós, cunhados, primos. Deixam-se deslumbrar pelo mar e experimentam-no. Os homens despem-se e, de roupa interior, cuecas e camisolas de alças, sentem a mornidão das águas. As mulheres, até as mais velhas, chapinham de saris ou de churidas. Fica o mar manso empapado com tanta cor. As mulheres jovens mergulham nas águas de t-shirt e calças de ganga. Aos homens é permitido o ridículo de se passearem com as trousses encardidas pelas praias. Às mulheres, por imbecil decoro, querem-nas longe do meretrício e da devassidão, é imposto o desconforto pesado das gangas molhadas coladas ao corpo. Os homens indianos gostam de passear, em grupo, pela praia. Olham, boçais, para as turistas que usam biquínis e fatos de banho. A ocidental nudez paralisa-os ao ponto de parecerem autênticos bois a olhar para um palácio. Muitos têm erecções por baixo das cuecas molhadas. A gente olha e vê-lhes as pilas esticadinhas num arrepio tolo de prazer.
Os portugueses não são assim. Passaram há muito os patamares civilizacionais em que se encontram os árabes e indianos. Não querem uma mulher israelita. Não se embasbacam por ver mulheres nuas, passeando nádegas celulíticas, nas praias caparicanas. Porém, não são assim tão diferentes. Apreciam o recato das suas mulheres, que tomam com aborrecimento de quinze em quinze dias. Gostam, no entanto, do atrevimento das soraias chaves que se despem nas revistas. No fundo, no fundo, sejam os árabes ricos que desejam comprar uma mulher israelita, sejam os indianos magricelas que se excitam com os corpos semi-despidos das turistas, sejam os portugueses que alardeiam aos quatro ventos que a não sei quantas é muito boa, assegurada que esteja a decência doméstica, os homens gostam é daquilo que não podem ter.
Os portugueses não são assim. Passaram há muito os patamares civilizacionais em que se encontram os árabes e indianos. Não querem uma mulher israelita. Não se embasbacam por ver mulheres nuas, passeando nádegas celulíticas, nas praias caparicanas. Porém, não são assim tão diferentes. Apreciam o recato das suas mulheres, que tomam com aborrecimento de quinze em quinze dias. Gostam, no entanto, do atrevimento das soraias chaves que se despem nas revistas. No fundo, no fundo, sejam os árabes ricos que desejam comprar uma mulher israelita, sejam os indianos magricelas que se excitam com os corpos semi-despidos das turistas, sejam os portugueses que alardeiam aos quatro ventos que a não sei quantas é muito boa, assegurada que esteja a decência doméstica, os homens gostam é daquilo que não podem ter.
2009/03/01
2009/02/27
Idade
Não sei mentir. Sou inábil, incompetente na mentira. Até quando me interessei por outra pessoa, fui a correr contar ao meu marido o que se passava. Não conseguia estar com ele enquanto a minha cabeça fugia para outro sítio qualquer. Não tenho estofo para ser adúltera. O que é triste porque os clássicos que leio e releio estão prenhes de adúlteras magnificas, esplendorosas, radiosas, luminosas, felizes. Maria Eduarda, Luísa, Anna Karenine, Madame Bovary, Margarida. Vem esta conversa a propósito dos homens que mentem sobre a idade. É socialmente aceite que as mulheres mintam sobre a idade. A idade pesa-lhes demasiado. As mulheres devem ser eternamente jovens, mesmo quando já não o são, mesmo quando já se cansaram de o ser. Por isso se enchem de cremes, de maquilhagens, fazem lifts, vão a aulas de aerobica, coloram o cabelo de cores risíveis. Acobreado e ameixa. Diga-se o que se disser uma mulher que mente sobre a idade tem o seu encanto. Aliás, uma mulher que mente sobre a sua idade está a cumprir, e bem, o seu papel social de tonta. É diferente com os homens. Um homem que mente sobre a idade é outra coisa qualquer. É patético. É o mesmo que um homem pintar o cabelo, rapar os pêlos das pernas e do peito, ir à manicure, usar meias transparentes de nailon, como um certo professor de direito, muito velho, salazarento e incompetente, que me deu aulas. É mais do que patético. É triste. Desolador. Um homem que mente sobre a idade não é homem. É um pozinho burlesco de enganar, um desenho fruste e garrido, desenhado a giz numa calçada que, mais cedo ou mais tarde, se apagará com o vento e com a chuva.
2009/02/25
Canibais
Li a notícia há dias: uma tribo amazona atraiu à sua aldeia um rapaz que vivia num povoado vizinho. Depois comeu-o. Quando os familiares procuraram o rapaz, deficiente mental, por sinal (era assim que o chamavam na notícia), encontraram apenas os restos do macabro festim: ossos roídos, o tutano chupado, um cheiro acre a carne esturricada. Os índios, de pança cheia, marimbando-se nos civilizados conceitos de integração e aculturação, arrotavam satisfeitos na sombra das palhotas. Lembro esta história cada vez que oiço os contestatários da legalização do casamento entre homossexuais argumentar que a mesma abrirá a porta a formas de organização familiar indesejáveis, como por exemplo, a poligamia.
O argumento da poligamia é rasteiro, ordinário mesmo. Sinceramente, custa-me vê-lo ser utilizado por quem tenho consideração e admiração. É o caso da Helena de Matos. É que se compara o que não é comparável. O casamento polígamo, ao contrário do casamento entre homossexuais, não assenta nem na igualdade, nem no respeito pela liberdade de cada um. Muito pelo contrário: é tradicionalmente um casamento que explora a mulher. A mulher é menorizada, vista como um objecto que se adquire, usa e deita fora. Não é por acaso que o casamento polígamo quase só existe nos países muçulmanos. Ainda recentemente o Curdistão aprovou uma lei a favor da poligamia que permite aos homens casar-se com uma segunda mulher, caso a primeira seja estéril ou tenha uma doença grave. Se o objecto adquirido for defeituoso, tem sempre o macho, esse magnífico e superior ser dotado de um falo, a possibilidade de o trocar.
A verdade é que não se conhecem em Portugal, nem na Europa, nem nos Estados Unidos, nem na Austrália, nem em nenhum país ocidental, associações que reivindiquem a legalização dos casamentos polígamos. Percebe-se que assim seja. Bem ou mal, as sociedades ocidentais já assimilaram a base dos direitos fundamentais e percebem que o reconhecimento da poligamia contende com uma série deles. Ora, ao contrário dos casamentos polígamos, o casamento entre homossexuais vem sedimentar o respeito pelos direitos fundamentais: reafirma-se a defesa da liberdade individual de cada um e, sobretudo, consagra-se a proibição de se ser descriminado em função da orientação sexual que se tem. Querer, de forma maliciosa, confundir uma coisa com a outra é intelectualmente desonesto. Não tarda nada, os contestatários do casamento entre homossexuais, tresloucados na sua homofóbica missão, estão a acenar-nos com o canibalismo das tribos indígenas. É ridículo. É.
2009/02/22
Alcibíades
Vou descansar aqui. Aqui é um bom sítio para descansar. Comprei bilhete para a última paragem e tomei o comprimido que a doutora do centro de saúde me receitou para dormir. A minha filha está sempre a dizer que a bebé dela adormece mal o carro começa a andar. O mais certo é que me aconteça o mesmo. Ainda a camioneta não saiu da gare e já eu hei-de estar a dormir profundamente. O senhor do guichet disse que a viagem até ao Montijo dura cerca de duas horas. Tanto tempo, disse-lhe eu toda contente, já a imaginar-me com a cabeça encostada ao vidro a dormir durante duas horas. É que a camioneta dá a volta por Alcochete, por causa do centro comercial, e vai parando pelo caminho, explicou o senhor do guichet. Duas horas é muito tempo. Dá para descansar o corpo e a cabeça. Hei-de dormir descansadinha. Sem ouvir os ruídos do prédio e a respiração pesada do meu Alcibíades. É engraçado, mas só depois de morto é que lhe comecei a sentir a respiração pesada. Quando era vivo dormia que nem um anjinho. Não tugia nem mugia. Quietinho e silencioso como uma estátua de pedra. Depois de morto é que começou a ressonar tão alto que não me deixa dormir. E dá umas bufas mal cheirosos que empestam o quarto todo. Diz que é próprio dos mortos, dar assim bufas com cheiro de enxofre. Coitadito do meu Alcibíades! Quem o viu e quem o vê. Quando estava vivo dormia como se estivesse morto, nem o notava na cama, agora que está morto dorme como se estivesse ainda vivo! Sempre foi um homem muito complicado. Como o nome que tinha. Alcibíades. Agora vou fechar os olhos. Depois vou adormecer. Depois vou esperar que alguém me toque no ombro, me diga, olhe, senhora, psssst, acorde, chegámos ao terminal
2009/02/18
Compaixão (2)
Atrás, apoiada no ombro do homem, segue a mulher. Deixa-se por ele guiar. Como se também ela fosse uma passageira. Leva a bengala pendurada no braço e deixa-a arrastar pelo chão. Foi o barulho da sua bengala que me fez levantar os olhos do profeta que vive nos milheirais do sul. A mulher é feia. Usa o cabelo branco num alvoroço como se fosse uma medusa medonha e tem um buço escuro por cima de uma boca desdentada. Ao contrário do homem não esconde os olhos. Melhor seria se o fizesse. Os olhos dela assustam. São duas covas. As pálpebras parecem ter sido cozidas com linha preta por alguém demasiado egoísta, que lhe quis roubar o mundo, sobretudo, a luz.
Percebe-se, por alguns detalhes, que a mulher cuida do que veste. Busca uma certa harmonia, um certo atrevimento. Procura não ser diferente das mulheres com quem se cruza. Usa uma saia de veludo preto, justa e curta. Pela racha, que é grande, vê-se um pedaço da combinação branca. Calça uns botins de salto, já descambados, que acentuam o seu mancar. Caminha com as botinhas descambadas que lhe apertam os pés. É-lhe doloroso caminhar. Tola, a cega que quer ser igual às outras, é o que penso. Tola e ordinária. Tenho a certeza de que se a cega, de repente, pudesse abrir os olhos cozidos e olhar em volta se deslumbraria, em primeiro lugar, com o estilo porno star de algumas mulheres da plataforma: unhas quadrangulares de gel, calças enfiadas em botas de montar, extensões capilares, maquilhagem vistosa, a ondulação bamboleante dos rabos e mamas acentuada pela roupa demasiado justa. Só, depois, repararia no azul do céu e no verde das árvores da avenida. A cega também segura com a mão um cigarro que não fuma.
Mais do que o homem, é ela que prende o olhar de quem espera na plataforma. O doloroso mancar, o chiar da bengala, os olhos cozidos a linha preta, a combinação encardida espreitando naquela greta medonha, a sujidade encoberta, o cigarro ardendo nos dedos, tudo a torna repelente. Causa nojo e não piedade. O que incomoda e se estranha. Estamos habituados a dedicar aos cegos, como aos desgraçadinhos em geral, os pernetas, os manetas, os tolinhos, os imbecis, apenas a nossa compaixão. Dizemos “coitadinhos” e sentimos alívio.
Percebe-se, por alguns detalhes, que a mulher cuida do que veste. Busca uma certa harmonia, um certo atrevimento. Procura não ser diferente das mulheres com quem se cruza. Usa uma saia de veludo preto, justa e curta. Pela racha, que é grande, vê-se um pedaço da combinação branca. Calça uns botins de salto, já descambados, que acentuam o seu mancar. Caminha com as botinhas descambadas que lhe apertam os pés. É-lhe doloroso caminhar. Tola, a cega que quer ser igual às outras, é o que penso. Tola e ordinária. Tenho a certeza de que se a cega, de repente, pudesse abrir os olhos cozidos e olhar em volta se deslumbraria, em primeiro lugar, com o estilo porno star de algumas mulheres da plataforma: unhas quadrangulares de gel, calças enfiadas em botas de montar, extensões capilares, maquilhagem vistosa, a ondulação bamboleante dos rabos e mamas acentuada pela roupa demasiado justa. Só, depois, repararia no azul do céu e no verde das árvores da avenida. A cega também segura com a mão um cigarro que não fuma.
Mais do que o homem, é ela que prende o olhar de quem espera na plataforma. O doloroso mancar, o chiar da bengala, os olhos cozidos a linha preta, a combinação encardida espreitando naquela greta medonha, a sujidade encoberta, o cigarro ardendo nos dedos, tudo a torna repelente. Causa nojo e não piedade. O que incomoda e se estranha. Estamos habituados a dedicar aos cegos, como aos desgraçadinhos em geral, os pernetas, os manetas, os tolinhos, os imbecis, apenas a nossa compaixão. Dizemos “coitadinhos” e sentimos alívio.
Compaixão (1)
Ouve-se um chiar que vem de longe. Levanto os olhos dos milheirais do sul, onde vivem profetas, vendedores de tubagem de plástico, meninos selvagens. Varro com um olhar lento a plataforma. Há raparigas de calças de cintura descaída que esperam, em grupo, os comboios suburbanos. Voltam aos bairros de papelão onde o bafio das casas se disfarça com pauzinhos de incenso comprados nas lojas chinesas. Dois homens conversam animadamente sobre o jogo de futebol de ontem. Os pombos cor de chumbo trazem as penas sujas da fuligem da cidade. Ao fundo, junto ao terminal poente, um casal de cegos caminha. Conheço-os de outros dias, de outras esperas. São eles que trazem consigo o chiar.
O homem usa óculos escuros para esconder o negrume dos olhos. Veste um pulôver velho, demasiado coçado e sujo. Carrega aos ombros uma mochila que parece rebentar. Não sei o que o cego leva dentro da mochila. Alguma comida, pacotes de bolachas e iogurtes líquidos, agasalhos para quando a noite chegar. A mão livre segura a beata de um cigarro que nunca leva à boca. Caminha com segurança, desbravando o caminho da plataforma. A bengala é manuseada com perícia e movimenta-se sempre na mesma cadência. Vai de lá para cá. De cá para lá. Por vezes, bate num objecto, quase sempre são os bancos da estação, e o cego é obrigado a dar um passo pequenino para a direita. Afasta-se apenas o suficiente para se desviar do obstáculo. Passa rente aos bancos, tão perto, que espero a qualquer momento uma queda, um tropeção. A proximidade com que os cegos passam incomoda os passageiros que aguardam sentados. Encolhem os pés para baixo dos bancos a fim de lhes dar passagem. Mal podem voltam a esticar as pernas. Sentem-se aliviados com a eficácia dos seus corpos: pernas que andam, bocas que falam, ouvidos que ouvem, braços que mexem, olhos que olham.
O homem usa óculos escuros para esconder o negrume dos olhos. Veste um pulôver velho, demasiado coçado e sujo. Carrega aos ombros uma mochila que parece rebentar. Não sei o que o cego leva dentro da mochila. Alguma comida, pacotes de bolachas e iogurtes líquidos, agasalhos para quando a noite chegar. A mão livre segura a beata de um cigarro que nunca leva à boca. Caminha com segurança, desbravando o caminho da plataforma. A bengala é manuseada com perícia e movimenta-se sempre na mesma cadência. Vai de lá para cá. De cá para lá. Por vezes, bate num objecto, quase sempre são os bancos da estação, e o cego é obrigado a dar um passo pequenino para a direita. Afasta-se apenas o suficiente para se desviar do obstáculo. Passa rente aos bancos, tão perto, que espero a qualquer momento uma queda, um tropeção. A proximidade com que os cegos passam incomoda os passageiros que aguardam sentados. Encolhem os pés para baixo dos bancos a fim de lhes dar passagem. Mal podem voltam a esticar as pernas. Sentem-se aliviados com a eficácia dos seus corpos: pernas que andam, bocas que falam, ouvidos que ouvem, braços que mexem, olhos que olham.
2009/02/16
Maria Adosinda
Só ao domingo o filho parecia despertar daquele torpor que desde sempre lhe tomava conta dos dias. Sempre que o Benfica jogava o rapaz procurava um cachecol que Maria Adosinda lhe tricotara há muitos anos, era ainda pequenino, e sentava-se em frente ao televisor. O cachecol não era sequer vermelho. Era cor-de-laranja, tricotado com agulhas grossas, o ponto laço e irregular. Ainda assim, na sua tolice, o filho tomava o cachecol por vermelho e enrolava-o à volta dos pulsos ao jeito dos adeptos mais novos que via nas bancadas do estádio. Quando o jogo não dava na televisão, puxava uma cadeira para perto do rádio da cozinha e, muito direito, escutava o relato. Sempre que o Benfica marcava um golo, gritava de alegria. Dizia goloooooooooo, assim mesmo, prolongado a palavra durante vários segundos. Às vezes, a alegria era tanta que o rapaz se levantava e abraçava a mãe. Dava-lhe beijos babosos que a deixavam secretamente feliz. Para lá com isso, Ricardo Jorge, e aproveitava o intervalo para lhe limpar a boca com a fralda avental.
2009/02/14
Toilet
Let’s start a publishing house
to hell with small literature
we want something redblooded
lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene
but really clean
get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious
something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet
graced with guts and gutted
with grace
(e. e. cummings, 1935)
to hell with small literature
we want something redblooded
lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene
but really clean
get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious
something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet
graced with guts and gutted
with grace
(e. e. cummings, 1935)
2009/02/11
Confissão
Não percebo a ponta de um corno dos artigos que o Rogério Casanova escreve na Ler. Triste sina, esta a de gostar de ler sem cuidar das teorias, enquadramentos, movimentos e correntes. Como eu gostava de perceber as graçolas, as subtis facécias que o dito derrama nos seus textos.
Ponto G
Dei mais duas voltas ao quarteirão para ouvir o resto da entrevista. Falavam sobre a elevação do ponto G. Um entrevistador atrapalhado, soluçando perguntas abruptas, procurava saber junto de um médico francês os procedimentos da pequena intervenção que procura salvar as mulheres do embaraço da algidez. Injecta-se, ao que parece, um ácido qualquer na zona do ponto G. O tal ponto incha, incha, incha, como a rã da fábula. Torna-se mais saliente e rugoso. Aumenta a sua sensibilidade. Proporciona-se assim à mulher mais prazer devido à pressão feita durante o coito. Foi o que o senhor doutor explicou. Na cabeça do entrevistador, desconfio, estava também a fábula de La Fontaine. Embaraçado, atordoado com a visão dessas orgásticas mulheres, que hão-de finalmente lançar guinchos sinceros de satisfação durante a penetração, perguntou várias vezes sobre a possibilidade de rebentamento do ponto G. Credo. Os homens são parvos que se fartam.
2009/02/06
Fanfarra
Também me acontece o contrário: imaginar uma voz para quem não a tem. Por exemplo, ao Luís Januário ponho-lhe a voz do Eduardo Barroso, o insuportável epicurista dos charutos e das feijoadas, o cirurgião que, com a sua voz de trombone, faz chocalhar os tímpanos de qualquer mortal. É escusado. Por mais que tente imaginá-lo com outra voz, uma coisa assim mais limpa, mais maviosa e cristalina, sai-lhe sempre da boca uma fanfarra, uma charanga cheia de cornetas e cornetões.
2009/02/05
Rãs e Sapos
Os dias estão cheios de acontecimentos importantes, daqueles que foram feitos para nos inquietar. São acontecimentos vaidosos que, à força, querem ser protagonistas únicos das notícias nas televisões, rádios, jornais e das conversas de café. Tenho os acontecimentos desta estirpe por aborrecidos. Toda a gente fala deles, dá a sua opinião, vaticina sentenças. Uma maçada. Repetem-se teorias, congeminam-se explicações, procuram-se análises lúcidas e certeiras. Há, por outro lado, acontecimentos, factos pequeninos, insignificantes que dão conta de mim, entranham-se cá dentro e fazem-me querer escrever sobre eles. Ultimamente não me saí da cabeça a fontanela do meu filho mais novo. Um dia, pela manhã, quando o fui espreitar ao berço, reparei que a fontanela pulsava. Parecia que era ali, e não mais abaixo, que o seu coração se encontrava couraçado. Afligi-me. Imaginei uma rã miniatura saltitando, histérica, no crânio do meu benzinho, alimentando-se dos seus sonhos, atrapalhando-lhe as ligações neurológicas, destruindo a estatística das sinapses. Desde então procuro o bicho que vive dentro do meu filho. Não mais apareceu. Há-de estar aninhada num canto qualquer, tremelicando as patinhas. Também o desajuste que existe entre o rosto e a voz do Carlos Vaz Marques me tem apoquentado. Durante anos, conheci apenas a voz do Carlos Vaz Marques. Vinha pelo crepúsculo, na rádio, e trazia o mundo consigo. Escutava-o e imaginava-lhe a fisionomia. Um homem jovem, pensava eu, magro, seco, esguio, com um rosto miudinho de garoto irrequieto. Até que, há pouco tempo, coisa de um mês, descobri o rosto daquela voz. Tive um baque. Um desapontamento profundo. Pareceu-me, e não quero ser injusta, um sapo. Esfreguei os olhos. O espanto foi tamanho que não mais me largou. Até imaginei uma história, com um final trágico, sobre o assunto. Esta coisa de só conhecermos uma parte de alguém tem muito que se lhe diga.
2009/02/04
La Bella Italia
Um dia após três jovens italianos terem pegado fogo a um imigrante indiano que dormitava numa estação ferroviária perto de Roma - por puro divertimento, explicaram os rapazes às autoridades - o ministro do interior italiano, veio dizer que é preciso ser “mau” com os imigrantes ilegais. Mais do que a barbárie dos jovens italianos (a juventude de hoje é assim, move-se pelos arrabaldes das cidades, em manadas, sem eira, nem beira, sem valores ou princípios, passeando pitbules e rotvaileres, achincalhando os miseráveis e proscritos) espanta a falta de sentido de oportunidade do ministro. É que, por estes dias, trabalhadores italianos, legais, são expulsos por hooligans ingleses que reclamam para si os empregos no sector petrolífero da Grã-Bretanha. Não fora o assunto tão série e triste e não deixaria de ser irónico.
2009/02/01
La grande Jatte
Corro na margem de cá. Imagino na margem de lá, entre flamingos, pernas-longas, cegonhas, rãs, enguias, laibeques, fanecas e garças, a floresta de betão de que todos falam. Embelezada com lagos de ladrilhos azuis e caramanchões frescos, há-de ser um sítio limpo, ordenado, aprazível. As famílias passeiam a molenga dos domingos em lojas que vendem desperdícios e piquenicam hambúrgueres, pitas shoarma, pizas de carbonara e bocadinhos de sushi e sashimi. Ficam a arrotar o resto da tarde as minúcias da nova cozinha internacional. Voltam à cidade no final do dia. Vêm satisfeitos. Atravessam a ponte nos seus monovolumes de cor antracite que pagam com créditos pessoais
2009/01/22
2009/01/19
Chispe
Vou ao supermercado com os meus filhos. O mais velho desliza pelos corredores com as mãos enfiadas nos bolsos e as calças descaídas. A do meio saltita como se fosse uma libelinha, uma borboletinha, um bichinho delicado e frágil. O mais novo entretém-se a chupar os dedos, enterrado no carrinho que parece um trono. As pessoas que connosco se cruzam lançam sorrisos cheios de enlevo, como se, dessa forma, quisessem partilhar a nossa felicidade. A imagem de uma mãe com os seus filhos é sempre agradável, conforta-nos do vazio da vida, trata todas as maleitas do mundo, ameniza as quezílias do dia-a-dia. Há quem se meta com o bebé que, encantador, retribui com um sorriso baboso. Rejubilo com as minhas crias que me dão corpo e me tornam especial no corredor dos enlatados, na fila da peixaria, no açougue asséptico onde escolho embalagens de peru, galinha, coelho e, num devaneio incontrolável, um pedaço de chispe para fazer cachupa. Na caixa registadora, depois das pastilhas, chocolates e sacos de gomas, enquanto limpo o nariz da minha filha, topo com um escaparate cheiinho de revistas femininas, dessas revistas que toda a vida fiz questão de desprezar. Uma das revistas prende a minha atenção. Na capa, ao lado da imagem de uma miúda desgrenhada, magra e feia, oferecem-nos o kamasutra do sexo oral. O assunto interessa-me. Fosse eu uma mulher da má vida e seria conhecida, nos bordéis e lupanares desta cidade, pela exímia competência da minha boca. Faço deslizar a revista para o carrinho das compras e sorrio à menina da caixa, uma mulata bexigosa, que elogia os olhos dos meus filhos.
2009/01/12
30 anos
Esgotou-se-me a verve. Acontece. Não sou capaz de escrever. Nem sobre a Palestina. Nem sobre o cão do senhor presidente. Nem sobre os autocarros de Barcelona. Nem sobre os meus filhos. Nem sobre a dieta que me deixa a boca a saber a aipo. Nem sobre as prostitutas do primeiro andar. Nem sobre o canibal da Brandoa. Nem sobre o livro em que habito dois parágrafos. Nem sobre o frio. Nem sobre canções de embalar. Nem sobre este país que me aborrece. Nem sequer, e é isto que me custa, sobre a libido bacoca dos homens de trinta anos.
2009/01/04
Seguidores
De há uns tempos para cá, cada vez que abro a aplicação do blogger aparece-me uma lista, pequena é certo, de seguidores. É-se seguidor de uma seita, de uma religião, de quem alardeia profecias e promete a resolução da disfunção eréctil com a mesma facilidade que promete a felicidade eterna. Ser seguidor de um blogue é, desculpem-me a sinceridade, uma coisa um bocado parva.
Ganges
Voltei ao ginásio. No balneário vi-me rodeada de rabos cheios de celulite enfiados em cuecas fio dental. Compadeci-me daqueles pobres rabos agrilhoados. Há o rabo descaído da jurista sénior que tem focinho de doninha. Há o rabo da histérica, apreciadora de pratos de tofu, que faz os exercícios todos, os esquemas todos, as séries de abdominais todas, que nunca se engana em nenhum passo. Há o rabo empinado, lisinho e bonito da professora. Conheço bem estes rabos. Já quase consigo encará-los sem fazer um esgar de nojo profundo. Hoje, porém, ia morrendo. Estava eu a vestir-me, calmamente, e a topar os movimentos das outras mulheres quando saiu do chuveiro uma rapariga que também frequenta a minha aula de ginástica. É uma rapariga cujos traços anunciam uma castidade genuína. Tudo nela é virginal. A pele leitosa. O sorriso beato. O cabelo claro e ondulado. Os pelos púbicos ralos. Os mamilos feios. Eu olho para ela e tenho a certeza de que tem filhos, pertenceu, quando nova, ao grupo de jovens da paróquia, é fiel e feliz com um marido calvo e magrinho. Estava eu a olhar para ela e a compadecer-me do seu rabo, cheiinho de celulite, uma autêntica gigantesca casca de laranja, quando a vejo puxar de umas cuecas pretas. Estranhei, confesso, o preto. Ela vestiu as cuecas e passou ao sutian. Para meu espanto, em vez de as esconder, deixou as horríveis nalgas, cheias de buuraquinhos, à mostra. Descri. Pensei, juro que imaginei, que ela tinha umas cuecas normais e só que, por descuido, as deixara enfiadas no rego do rabo. Mas não. Percebi que ela estava a usar um fio dental quando lhe olhei para o rosto e vi o ar satisfeito que tinha. Quando uma mulher assim, uma mulher que sabe o acto de contrição, cede à ordinária tentação de usar uma cueca fio dental é sinal evidente de que o mundo está perdido. Saí desanimada do balneário. Com vontade de mergulhar nas águas sujas do Ganges para me livrar desta imundície.
(Fevereiro 2007)
2009/01/01
Nojoud
2008/12/30
2008/12/28
Pretinha
É aquela pretinha com bom aspecto, explicou o homem à sua jovem esposa. Falava da condoleezza rice. A mulher sorriu com desinteresse e beberricou de um copo de vinho. Não deu gargalhadinhas tolas. Mas poderia tê-las dado. Afinal, uma pretinha com bom aspecto é algo que suscita espanto no seu mundo de pechisbeque e baquelite. Preparei-me para lhe lançar um olhar de piedade. Um olhar fugaz que não provocasse estragos de maior e que pudesse ser confundido com outra coisa qualquer. Os almoços em família não se prestam a insultos e eu acho, acho mesmo, que no Natal devemos mostrar piedade, que é um sentimento tão cristão, pelos tristes de espírito. Porém, antes que eu pudesse olhá-la de tal modo, a mulher alisou a saia plissada, curta, curtíssima, mostrou umas impecáveis pernas torneadas e começou a falar de outra coisa qualquer. Acanhei-me no canto da mesa e procurei o olhar do meu filho João. O João traz o mundo no olhar. Aninho-me lá com frequência.
2008/12/22
2008/12/21
Rosie
Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Fausto, Madrugada dos Trapeiros
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Fausto, Madrugada dos Trapeiros
2008/12/19
2008/12/17
PSL
O problema da anunciada candidatura do PSL à câmara municipal de Lisboa não é o de vir revelar o quanto é frouxa, e pouco consistente, a liderança da Manuela Ferreira Leite à frente do PSD. Mais coisa, menos coisa, estou habituada a ser sistematicamente desiludida pelo partido com o qual me identifico. Os políticos que julguei sólidos e sérios mostram-se, à primeira oportunidade, pífios, reles, do mais ordinário que há. Veja-se o caso do Durão Barroso. O dito fez-me, pela primeira vez na vida, votar no PSD. Depois, metendo os seus interesses pessoais à frente dos interesses do país, fugiu. O problema da candidatura do PSL à câmara municipal de Lisboa não é, pois, o de vir mostrar que o maior partido da oposição não é uma opção credível para o governo do país. Isso já se sabe. O problema da candidatura do PSL, e é o que me assusta, é o risco, sério, do homem ganhar as eleições e, no seu estilo tão característico, novamente se instalar no poder. Nem quero pensar em tal hipótese.
2008/12/16
Mandamentos
Esta noite não fumarás. Cigarro atrás de cigarro. Até ficares com a boca com gosto e cheiro de estrebaria. Um odor acre de mijo de caprinos ao acordar. Esta noite não beberás. Nem martinis. Nem copos de uisqui com água gaseificada. Nem copos de vinho. Nem cervejas pretas. Esta noite não lerás. Nem a Bíblia dos Capuchinhos. Nem o livro de capa amarela e letras azuis. Com frases e pessoas inacabadas lá dentro. Nem o outro de capa castanha e letras bege que um colega de escritório te ofereceu no Natal. Esta noite não ligarás o pc. Personal computer. Deixa-o dormir na quietude fria da noite que é animal de estimação como outro qualquer. Esta noite não escreverás. Em sítio nenhum. Só deve escrever quem sabe. Ignorarás a Domitília Vento, a Rosa Maria, a Guiomar, a Judite, a Maria Adozinda e a mulher albina, de olhar simiesco, da estação de comboios. São mulheres que vivem dentro da tua cabeça. Esta noite não tomarás os comprimidos que escondes numa caixinha de cartolina roxa por baixo das cuecas e sutians. Estás demasiado cansada para morrer. Às vezes, é menos cansativo viver do que morrer. (Dezembro de 2006)
2008/12/15
Supari
Numa das gavetas do louceiro, entre as toalhas de linho que a minha mãe comprou para o enxoval, guardo pacotinhos de supari, caixas velhas de incenso, sabonetes de açafrão e sândalo, quadrados negros de kajal, masala tea bags, fiadas de flores de jasmim, já secas e esboroadas. Quando tenho saudades da Índia, o que acontece frequentemente, enfio o nariz na gaveta e deixo-me inundar pelos cheiros do mercado de Margão. O meu filho João faz o mesmo. Não sei, juro que não sei, o que faço aqui. Qualquer dia fujo.
2008/12/13
2008/12/11
2008/12/09
Laurinda
Ao que parece a Laurinda Alves será candidata ao Parlamento Europeu pelo MEP, o partido da boa vontade, dos cidadãos empenhados, dos puros de coração, dos que acreditam num futuro melhor. Uma graça de partido. Tenho pena dos deputados europeus. Se a Laurinda for eleita, o que não parece fácil, levarão com uma catadupa de propostas de legislação sobre cuidados paliativos.
Guilherme
O Guilherme Silva veio sugerir que o plenário da Assembleia da República deixe de se realizar à sexta-feira. Para evitar o constrangimento e a vergonha dos deputados faltarem às votações. Eu acho bem e não me importo que o meu director siga o exemplo e determine que, à semelhança dos deputados, à sexta-feira, não façamos a ponta de um corno: não há análises de propostas de lei, não há elaboração de articulados, não há idas a tribunal. Nada. Nadinha.
2008/12/07
Notas Domésticas
1) João, o primogénito, entra na casa de banho e pergunta se alguma vez apanhei uma bebedeira. Depois senta-se na sanita à espera da resposta. Digo-lhe que não, que nunca na vida apanhei uma bebedeira. Nem um pifo pequenino. Ele sai em silêncio. Não gosto de mentir aos meus filhos. Gosto ainda menos que eles percebam que lhes minto. 2) Há tanto a dizer sobre sutiãs de amamentação. Depois das mamadas, naquela atrapalhação de gestos, por querer rapidamente retomar a compostura, esqueço-me muitas vezes de fechar as portinholas. Quando, antes de deitar, me dispo e dou de caras com as guaritas em baixa, os mamilos flácidos espreitando nos triângulos gordos, sinto-me uma porno star de trazer por casa, velha e patética. 3) Lembro, volta e meia, a tarde em que fomos a uma sessão de terapia conjugal. A psicóloga, bonita, tinha um ar aborrecido e usava uma camisola branca de angorá. Atrás dela, como que a emoldurá-la, via-se uma tela com gomos de laranja. Não me lembro das ponderadas palavras que a senhora doutora disse. Mas lembro, com detalhe, a camisola de angorá e a pavorosa tela laranja. 4) Madalena, a bela, toca violino com a insegurança própria de tudo o que começa. E, no entanto, quando me ensina a ler as pautas põe uma voz segura e adopta uma postura de pedagoga. É bom aprender com os filhos. 5) Oiço, vezes sem conta, o amor Clandestino dos Deolinda. Há muito tempo que não escutava uma canção tão bonita. E cantada em português que é a língua mais bonita do mundo. Quando a escuto fico com vontade de apanhar um pifo pequenino.
2008/12/04
Pasolini
Quase todas as casas, à beira da ruína, têm à frente um pequeno portal: e aqui…eis-me diante de um dos factos mais impressionantes da Índia.
Todos os portais, todos os passeios transbordam de corpos adormecidos. Estão deitados no chão, contra as colunas, contra as paredes, contra as ombreiras das portas. Os seus panos envolvem-nos por completo, encardidos de sujidade. O seu sono é tão profundo que parecem mortos embrulhados em sudários esfarrapados e fétidos. São jovens, rapazes, velhos, mulheres com os seus filhos pequenos. Dormem enrolados ou deitados de costas, às centenas. Alguns estão ainda acordados, especialmente entre os rapazes: param vagueando em redor ou falam baixo sentados à porta de uma loja fechada, nos degraus da entrada desta ou daquela casa. Há os que estão a deitar-se neste momento, a envolver-se no seu lençol, tapando a cabeça. A rua toda está cheia do seu silêncio: e o seu sono é semelhante à morte, mas a uma morte, por sua vez, doce como o sono.
Pier Paulo Pasolini , O Cheiro da Índia
Todos os portais, todos os passeios transbordam de corpos adormecidos. Estão deitados no chão, contra as colunas, contra as paredes, contra as ombreiras das portas. Os seus panos envolvem-nos por completo, encardidos de sujidade. O seu sono é tão profundo que parecem mortos embrulhados em sudários esfarrapados e fétidos. São jovens, rapazes, velhos, mulheres com os seus filhos pequenos. Dormem enrolados ou deitados de costas, às centenas. Alguns estão ainda acordados, especialmente entre os rapazes: param vagueando em redor ou falam baixo sentados à porta de uma loja fechada, nos degraus da entrada desta ou daquela casa. Há os que estão a deitar-se neste momento, a envolver-se no seu lençol, tapando a cabeça. A rua toda está cheia do seu silêncio: e o seu sono é semelhante à morte, mas a uma morte, por sua vez, doce como o sono.
Pier Paulo Pasolini , O Cheiro da Índia
2008/12/02
Goa
Nunca aqui escrevi sobre o primo Renato, goês delicado, de infindável ternura. Nem sobre o Cristo falante que, numa tarde de mornidão, mandou o tio Rosário gastar o dinheiro da casa no jogo. Também nunca escrevi sobre a noite vista do terraço, o fio de palmeiras, indicando o caminho para Rachol, onde mil morcegos habitam as profundezas do claustro, matilhas de cães vadios roendo a escuridão, o pequeno arbusto de tulsi, com um pau de incenso ardendo em sinal de respeito. Durante a noite os deuses habitam o quintal. Comem chicus e limas. Brincam com os lagartos e os esquilos. Escondem as garrafas de vinagre e de feni entre as ervas altas. Só para arreliar a tia Maria.
2008/11/29
Irene Némirovsky
Leio diariamente o Público e, ao fim de semana, o Expresso. Procuro ler os colunistas que gosto, mas, por vezes, dou por mim, a prestar mais atenção àqueles que detesto. No pódio das minhas embirrações estão a Laurinda Alves (estou-me nas tintas para os cuidados paliativos), o Kalaf não sei das quantas (o tal rapaz do chapéu de coco) e a Clara Ferreira Alves. Não posso com a mulher. É superior às minhas forças. E, confesso, aqui há uns anos rejubilei com a apreciação demolidora, ao que parece não totalmente fiável, mas tão certeira do Vasco Pulido Valente.
2008/11/28
2008/11/27
Kanchanganga Bldg.
A primeira vez que fui a Bombaim fiquei em casa da minha prima Melinda. Vive na parte ocidental de Andheri, num apartamento pequeno com o marido e duas filhas. Uma das meninas chama-se Elaine e será, como já expliquei ao meu filho João, a minha futura nora. Os prédios em Bombaim têm nomes e aquele onde a Melinda vive chama-se Kanchanganga Bldg. Por ser tão alto e ter gradeamentos nas janelas - todos diferentes, todos ferrugentos, cada um ao gosto do seu proprietário - fez-me lembrar, ao primeiro olhar, uma torre medieval fortificada. Olhando para cima, vislumbrei, nesse primeiro dia, silhuetas de águias, gralhas, abutres. São aos milhares nos céus de Bombaim. Rondam os pássaros soturnos as torres de apartamentos no intuito de comer os desperdícios dos seus habitantes. São, simultaneamente, sinistros e belos. O Kanchanganga Bldg. tem um porteiro sorridente que assegura que a torre não é invadida pela amálgama de miseráveis que vive nos passeios da cidade. Usa uma farda puída e um boné que deve ter herdado do seu antecessor. Fica-lhe demasiado largo. Pela manhã abre as portas aos moradores que saem para os seus empregos e aos meninos que vão para a escola. Esvazia-se depois a torre. Ficam apenas algumas mulheres e as crianças mais jovens. Em cada piso os apartamentos desembocam num átrio circular que não serve apenas de passagem para a rua. O átrio é uma parte comum e funciona como prolongamento dos apartamentos. É aí, no átrio, que os habitantes deixam os sapatos antes de entrar nas suas casas e as mulheres conversam sobre assuntos domésticos. As portas dos apartamentos não são maciças. Têm uma espécie de portinhola que, se abrindo pela manhã, deixa antever o miolo dos apartamentos e os movimentos dos seus habitantes. A torre é habitada por católicos, hindus e muçulmanos. No átrio misturam-se os odores intensos das suas cozinhas. Ao lado das portas há pequenos oratórios com imagens de cristo, placas com luas crescentes e altares coloridos às divindades hindus. É uma miscelânea de deuses e de fés, convivendo de forma inesperadamente harmoniosa. Quando chega a tarde as mulheres dormitam e as crianças, sentadas no chão, sonham em ser iguais aos meninos prodígio que aparecem nos concursos televisivos. O porteiro aproveita o sossego da tarde. Sentado junto das caixas do correio olha gulosamente uma revista onde as actrizes da cidade aparecem seminuas. Na Índia, as mulheres vestem com decência, não usam decotes, não mostram as pernas, banham-se no mar vestidas. Ao anoitecer, quando a cidade fervilha em todo o seu esplendor, o porteiro volta a abrir as portas aos habitantes do prédio que regressam. Lá fora, os vendedores de tabaco e areca desmontam as suas bancas. Chegarão então os habitantes dos passeios, os corpos-sombra, quase invisíveis, quase mortos, os intocáveis que nascem, vivem e morrem na rua. O porteiro observa-os através dos vidros da entrada do Kanchanganga Bldg e agradece aos deuses a sua sorte.
2008/11/26
2008/11/25
Puérpera
Ontem sonhei-me vestida de branco, descalça, passeando numa avenida de casas coloridas. Era a Avenida da República, eu sabia-o, mas em nada se parecia com a Avenida da República. Talvez a largueza das faixas e o desembocar numa praça ruidosa aproximassem a avenida do meu sonho à que atravessa a cidade. O sol estava baixo e a sua luz, tão branca e quente, fazia-me piscar os olhos. Eu andava sem preocupações e sentia-me leve e esguia, quase, quase bonita. Entristeci quando acordei e me confrontei com o meu corpo de pós puérpera, flácido e volumoso e as minhas mamas imensas, gotejando leite nos lençóis de florinhas violeta. E não havia sol.
Ler
Enquanto embalo o berço folheio a última Ler. Tenho-as empilhadas em cima da mesinha de cabeceira. Gosto da ideia de adormecer na companhia de escritores e poetas. Leio a entrevista ao Dinis Machado e, depois, escarafuncho a ficha técnica. Entre colaboradores e colunistas, conto vinte e quatro homens e apenas cinco mulheres. Já desconfiava da masculinidade da revista. Pode não ser intencional. Certamente não será. Mas chateia. Aborrece. Solto um palavrão que faz estremecer o Joaquim.
2008/11/21
2008/11/19
Veludo cotelê
Passo a vida a tropeçar no Gonçalo M. Tavares. Vejo-o amiúde, de mochila às costas, perto da rua onde trabalho. Não sei de onde vem. Não sei para onde vai. Tem uma passada larga e firme, característica de quem anda muito a pé. Ontem, perto do Poço do Borratém, voltei a cruzar-me com o escritor andarilho. Usava calças de veludo cotelê.
Laranja
À porta do edifício, encontrei um menino com lábio leporino. Chupava uma laranja na sombra da saia da mãe, uma negra imensa que, com gestos largos, falava com outra mulher. Gargalhavam as duas africanas enquanto o menino do lábio leporino procurava passar despercebido para que ninguém notasse a feiura da sua fissura labial. Chupava a laranja com recato e evitava as momices próprias das crianças da sua idade. Passei devagarinho e olhei-o descaradamente, com vagar, como que a querer fixar-lhe os traços disformes do rosto. A desgraça e a miséria dos outros consola-me sempre. É terrível mas é mesmo assim. O menino sentiu-se olhado e sorriu-me com timidez. Tinha uns olhos lindos. Apeteceu-me trincá-lo como a um gomo de laranja.
João das Regras
Desde menina que me lembro de ver mulheres paradas naquela esquina da cidade. Quando, por alturas do Natal, a minha mãe nos pegava pela mão e nos levava pelas lojas mais baratas da Rua dos Fanqueiros, eu desejava, sem o confessar, que ela prolongasse o passeio até ao Martim Moniz. Desse modo, obrigava-nos a atravessar a Praça da Figueira e a passar pela Rua João das Regras. Era certo e sabido que numa das esquinas dessa rua eu encontraria uma ou duas mulheres paradas. Aconchegadas pelo ruído da praça, olhando a montra do Paraíso do Calçado, ali se deixavam estar à espera. Eu sabia bem o que esperavam mas estranhava que algum homem as procurasse. O sexo pago, pensava eu, dependia da verificação de certos requisitos: higiene, juventude, alguma harmonia de traços e formas. Aquelas mulheres, porém, não estavam limpas, não eram jovens e, quase sempre, eram feias. Gordas, desleixadas, os cabelos ásperos num desalinho, as carnes flácidas e esponjosas enfiadas em fibras baratas de poliéster. O cheiro de muitos homens entranhado nos refegos dos corpos. Ainda hoje, quando vou à Baixa, e faço-o muitas vezes, procuro as mulheres que esperam, como estátuas grotescas, na esquina da Rua João das Regras. Continuo a achá-las feias. Mas já não estranho que haja quem as procure.
(gosto da decadência da Baixa e detesto a modernidade asséptica, limpinha, do Chiado.)
(gosto da decadência da Baixa e detesto a modernidade asséptica, limpinha, do Chiado.)
2008/11/05
Rafeiro
Já tudo se disse sobre o assunto. Dos entusiastas aos cépticos já todos botaram faladura e elaboraram acertadas análises sobre o novo presidente americano. Limito-me - que a maternidade não deixa tempo para mais - a frisar um pormenor irrelevante: em rigor, o Obama não é negro. É mestiço ou, como diria o meu irmão quando fala das nossas raízes, é rafeiro. Ana Clara, escuta, tu não tens raça. És uma cadela rafeira!, diz ele pausadamente. Depois ri e mostra aquela soberba dentadura de caninos desenhados a lápis de carvão. O Obama é, pois, um mestiço. Viva os mestiços. É, como eu própria, um rafeiro. Jeitoso e janota, é certo. Tanto que até parece branco. Tal facto influenciou muita gente. É que, como em tudo, também a negritude tem vários graus. Muitos dos que votaram no Obama jamais votariam num preto retinto de narinas colossais, unhas amarelas e lábios negros.
(Ontem, um senhor da Damaia, num desses fóruns matinais, explicava que não queria que o Obama ganhasse porque isso tornaria os nossos pretos muitos arrogantes. Sossegue doce cavalgadura da Damaia que os pretos, os nossos pretos, continuarão subservientes, obedientes, trabalhando nas obras, construindo centros comerciais e bairros periféricos, fazendo limpezas, cuidando das nossas casas e dos nossos filhos. Sempre em silêncio. Como convém.)
(Ontem, um senhor da Damaia, num desses fóruns matinais, explicava que não queria que o Obama ganhasse porque isso tornaria os nossos pretos muitos arrogantes. Sossegue doce cavalgadura da Damaia que os pretos, os nossos pretos, continuarão subservientes, obedientes, trabalhando nas obras, construindo centros comerciais e bairros periféricos, fazendo limpezas, cuidando das nossas casas e dos nossos filhos. Sempre em silêncio. Como convém.)
2008/11/03
Trabalhos de casa
As meninas trazem os seus cadernos para o alpendre e na sombra da mangueira fazem os trabalhos de casa. Vêm descalças e trazem tacinhas de alumínio com rodelas de banana frita. Comem enquanto estudam. Os cadernos enchem-se de pequenas nódoas de gordura cor de açafrão. Não têm estojos da Hello Kitty, nem lapiseiras perfumadas que escrevem a lilás e azul-turquesa. Não têm manuais apelativos com ilustrações coloridas. Nunca pesquisaram na internet para fazer os trabalhos de casa. Não têm disciplinas que moldam a cidadania e aguçam a curiosidade. Têm de saber de cor as tabuadas até à do vinte. Aprendem a ler e a escrever em inglês, concanim e hindi. Em breve, falarão na perfeição três línguas, dominarão dois alfabetos, o devanagari e o latino. Saberão fazer cálculos matemáticos elaborados. Observo-as. Pego nos cadernos de folhas ásperas e lembro-me do meu avô José que, já velho, aprendeu sozinho a escrever em cadernos semelhantes.
(O Conselho Nacional de Educação aconselha que deixe de haver chumbos até ao nono ano de escolaridade. É o que se faz na Finlândia, país com o qual alguns gostam de nos comparar. O Conselho Nacional de Educação propõe tal disparate e, naturalmente, o Ministério da Educação pondera experimentar tal medida. Entretanto, o Primeiro-Ministro, tão triste na sua arrogância, foi para a cimeira ibero-americana gabar o Magalhães, o portátil anão que, segundo ele,resgatará as nossas crianças do analfabetismo e da estupidez. Somos um país de merda. Melhor, somos uma merdinha de país.)
2008/11/01
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