Não conheço a Raimunda. Nunca a vi. Sei que é brasileira e tem a pronúncia cerrada do nordeste. Conheço-lhe a história. Conheço bem os degraus do prédio que ela continua a esfregar com lixívia. Perdi a virgindade nesse prédio, deitada num sofá de cabedal, com os ruídos da rua a chegarem por uma janela aberta (como não detestar Sacavém?) Conheço também as pedras da calçada que, numa manhã de sol, se tingiram de um vermelho escuro e brilhante. Um rio de sangue saiu aos soluços de um corpo, numa ânsia de liberdade, fugindo da monotonia circular dos canais, das veias, das artérias. Correu pela calçada em direcção à pastelaria, chamou para a rua os clientes matinais que bebiam cafés, madalenas, bolos de arroz, pastéis de nata, dizendo-lhes “Corram! Lá fora, na calçada, está o corpo de uma mulher jovem. Foi golpeada pelo amante! ”. Não era o corpo da Raimunda que jazia na calçada. Era o corpo da amante do seu marido. Raimunda conheceu-a assim: morta no passeio em frente da Electro-Sacavém. História de folhetim. Possidónio e Raimunda. São nomes peculiares. Ecoam na minha cabeça pela sua estranheza. Caso os não conhecesse, duvidaria que fossem de gente de carne e osso. Mereciam uma vida de frases e silêncios.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2007/03/30
Possidónio
A morte marcou-lhes o caminho. Conheci o Possidónio à saída do cinema. Vinha a sair da sala um do king com a minha irmã - era um filme do Almodovar, lembro-me agora - quando deparei com a M. Ela apresentou-me o homem que a acompanhava, um antigo pretendente da Costa de Caparica. Já velho. Alto e seco. Triste apesar dos sorrisos corteses. O cabelo encrespado e pintado. Parecia saído de uma revista antiga, de um tempo passado. Cheirou-me a mofo, ao bolor das casas velhas. Olhei-lhe o preto do cabelo, incapaz de esconder a velhice que lhe habitava os olhos e as mãos. Depois de duas ou três frases despedimo-nos. Nunca mais o vi. Através da M., porém, conheci a sua vida. As suas bizarrias. Era meticuloso com a alimentação, a higiene. Conheci a sua solidão. Também a sua morte. Entre fragas, precipícios e abismos. O mar lá em baixo, furioso, um demónio frio de águas agitadas, chamou-o com juras falsas. Disse-lhe assim “Vem, vem agora, vem sem medo, que apagarei toda a tua dor”. Ele foi. O corpo foi descoberto muito tempo depois. Inquieto-me sempre que penso nessa madrugada e na dor que o mar engoliu. Tenho medo do mar. Sempre tive. Está cheio da dor de outros.
2007/03/29
Cartaz
Gostava de ter a lucidez do Rui Marques e não dar importância ao cartaz que está no centro da minha cidade. Mas é superior às minhas forças. Fosse eu dirigente deste país e empalava (que a morte deste gente quer-se lenta e dolorosa) o senhor da barba mal aparada e do cabelinho com laca. Depois atirava com a sua carcaça aos cães.
Prianka
Passei várias tardes de tédio e modorra, no king, a entupir-me de cinema de autor para me tornar numa jovem interessante e interessada. Aos trinta e cinco anos rendo-me ao cinema indiano, popular, colorido, kitsch, trágico, dramático, coreográfico, cheio de paisagens paradisíacas, amores impossíveis e canções intermináveis. E, na minha próxima vida, quero ser igual à Prianka Chopra.
2007/03/28
Giordano Bruno
Um destes dias, quando estávamos na cozinha da casa do lote 105 a lanchar, a minha mãe descuidou-se e largou um peido. Foi um daqueles peidos quase inaudíveis, que parecem um sussurro, mas que são muito mal cheirosos. Com o meu nariz grotesco fui a primeira a dar conta do nauseabundo cheiro. Imediatamente, em tom inquisitorial, comecei a acusar os presentes. Foste tu, tia? Tu pai? E tu, Susana? Madalena, não me digas que foste tu? Queria saber a identidade do giordano bruno das bufas malcheirosas para, impiedosa, o queimar nas labaredas da minha fogueira. Ninguém se acusou. Finalmente chegou a vez da minha mãe que, cirandando pela cozinha com a chaleira na mão, fingiu não me ouvir. Perguntei-lhe de novo. Pois a minha mãe, depois de uma hesitação pequena e querendo escapar-se ao escárnio familiar, acusou o meu sobrinho Pedro de três meses, o único desgraçado que, refastelado no colo materno da tia Dé, não se pôde defender de tão vil acusação. Desatámos a rir às gargalhadas com a mentirinha da minha mãe. O meu sobrinho, contagiado pelo nosso riso histérico, esboçou um sorriso tonto e baboso para a avó, consciente da sorte que é tê-la.
(Uma colega, com quem partilhei em tempos o perene entusiasmo por determinada professora, bonita, sofisticada e estudiosa dos russos do século XIX, disse-me um dia que a dita docente era a mãe que gostava de ter. Aquilo caiu-me mal. E nunca me esqueci de tal conversa. Não trocava a minha mãe por nenhuma.)
(Uma colega, com quem partilhei em tempos o perene entusiasmo por determinada professora, bonita, sofisticada e estudiosa dos russos do século XIX, disse-me um dia que a dita docente era a mãe que gostava de ter. Aquilo caiu-me mal. E nunca me esqueci de tal conversa. Não trocava a minha mãe por nenhuma.)
As mãos
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Música: Adriano Correia de Oliveira
Letra: Manuel Alegre
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Música: Adriano Correia de Oliveira
Letra: Manuel Alegre
Comité
Há quem se tenha por intelectual. Eu preferia ser trolha a ser intelectual. Desprezo pro-fun-da-men-te os intelectuais. Gostava, isso sim, de trabalhar com as mãos. Como diz o poeta, com as mãos tudo se faz e se desfaz. Não são de pedras as nossas casas, mas de mãos. Há, todavia, quem dê importância aos intelectuais. Veja-se o exemplo do Comité do PCP. Para além de operários metalúrgicos e engenheiros técnicos de produção animal, está carregado de intelectuais. É verdade. Contei-os. Alguns têm apenas trinta e poucos anos. Não é para qualquer partido. Mas nem todos os intelectuais do Comité do PCP são assim, novinhos e quase imberbes. Também os há maduros. O Vítor Dias que eu - imagine-se até onde pode ir a ignorância - julgava funcionário do partido, também é um intelectual. Na lista, logo a seguir, vem um tal de Vítor Manuel Batista, caldeireiro.
2007/03/27
Vagina (2)
Procurei um espelho. Encontrei um demasiado grande. Apanhei o cabelo. Abri o roupão. Fiz caretas e esgares. Depois de alguma hesitação, resolvi enfrentá-la, afastando o que a cobre. Afinal, pensei, foi por ali, por tal abertura que os meus filhos abraçaram o mundo. Foi ela, a minha vagina, que se dilatou e lhes franqueou a chegada. Foi ela que mos trouxe. Sem lhes provocar qualquer tipo de problemas. Portanto, nem que fosse pelos meus filhos, eu devia enfrentar a minha vagina. Olhá-la de frente. Olhei-a então. Durante algum tempo. Não sei como são as outras porque não ando a espreitar vaginas alheias, mas detestei a minha. Fez-me lembrar uma amiba, um crustáceo, uma ostra, uma lapa daquelas que estão presas às rochas da beira-mar e que se encolhem quando as soltamos. É monstruosa. Feia. É uma coisa muito primitiva, um resquício de antiguidade, de rudeza. O pior é que a sua forma, a sua consistência e textura revela como é o nosso corpo por dentro. O nosso corpo é bonito por fora. Por dentro é horrível, uma massa de sangue, nervos, gorduras, órgãos, fezes, vasos, tecidos, sucos, cartilagens, carne. A vagina está fora e está dentro do corpo humano. Tem uma natureza híbrida. Revela o que está oculto e se quer manter oculto. Voltei a fechar as pernas. Olhei-me no espelho. Espreitei os miúdos, a dormir, sossegados. Calei o Joe Dassin. Fui fumar para perto do aquário.
Vagina (1)
A semana passada vi um dvd do Sexo e a Cidade. Às tantas, num episódio qualquer, à mesa do pequeno almoço, a Charlotte confessa nunca ter visto a sua vagina. As outras soltam gritinhos, escandalizadas perante tal revelação. Encolhi-me no sofá. Na altura, não dei muita importância ao facto. Esqueci-me. Porém, nos últimos dias tenho pensado no assunto. É estranho. Sei como são os meus pés. Sei como é o formato das minhas orelhas. Conheço a flacidez das minhas mamas. E a secura dos meus cotovelos. Porém, não sei como é a minha vagina. Assim como não sei como é o meu rabo. Nem sei como são as minhas costas. Que curvas se insinuam nas minhas costas? A pele é lisa, uniforme, ou manchada como o início das minhas pernas? Dei, então, conta que desconheço metade do meu corpo. Que nunca o vejo. Isso aborrece-me. Eu vivo com o meu corpo. Resolvi, por isso, tratar do assunto. Na impossibilidade de revirar a cabeça para olhar o meu traseiro e as minhas costas, decidi olhar aquilo que estava mais à mão. Ontem, depois de alguns minutos de estudo, abandonei os trogloditas nas suas cavernas, coloquei o Joe Dassin, que também é uma espécie de troglodita, a cantar e fui para o meu quarto.
2007/03/26
Patroa
Embirro com o patronato. Foi coisa que ficou do tempo das deambulações etílicas pela rua da palma. A minha embirração é tal que não sou capaz de assumir o papel de patroa. Há vários anos que tento despedir a minha empregada e não consigo. Compadeço-me dela, que é uma incompetente. Ao final do dia, faço-lhe o trabalho: esfrego, lavo, limpo, arrumo, varro, estrago as unhas que deixei de roer há apenas dois meses e que, pintadas de vermelho, são um regalo para os meus olhos. Enquanto dou conta do serviço doméstico, insulto-a devidamente, chamando-lhe uma série de nomes que devia evitar em frente dos miúdos: velha, cabra fanhosa, gaja e, claro está, puta. Volta e meia, imploro ao R. que a despeça. Ele é que representa a ala liberal, direita, racional no casal. Eu sou a esquerda emotiva, irracional, levemente engajada em determinados assuntos. Mas nada. Ele nada faz. Até parece que é para me provocar. A minha filha, perante o meu desespero, já me disse que, se eu quisesse, ela podia tratar do assunto. Muito pequenina virou-se para mim e disse: mamã, eu expulso-a! Tão querida, a minha filha.
2007/03/24
Simran
Simran came to Mumbai from Hyderabad about 10 years ago after her family did not accept her as a hijra, a male to female transgender, in India. After having survived the tortures of sleeping on the side walks and begging for alms for years she now works as a prostitute to make a living. She now lives in a road side slum with Imtiyaz, a taxi driver, who is also her boy friend.2007/03/23
Holofernes
Noite dentro, enquanto a chuva mansa tamborila nas vidraças, Judite rebola na cama, resfolegando como se fosse um animal. Uma égua ou uma vaca. De lábios túmidos. Cabelos emaranhados. A pele recamada de bagas de suor. Parece uma planta orvalhada. Uma deusa ignota, imperfeita. Espera Judite que a escuridão do quarto tome a forma do corpo de um homem.
Pensa Judite: quando a escuridão e o vazio se condensarem em corpo de homem, por fim, amainarei. A chuva continuará, mansa, a bater nas vidraças. Com calma, olharei para os ciprestes que lá fora permanecerão hirtos. Olharei para o homem deitado ao meu lado. Será grande como sempre o imaginei. Cabelo comprido. Barba negra como a escuridão que lhe deu corpo. Olhos de lobo, de lince, de leão, de cão esfaimado. Um bafo quente, nebuloso, sair-lhe-á de dentro. Será como um animal feroz sem açaime ou jaula.
Judite continua a pensar: tirarei a camisa que me cobre o corpo e deixarei que o animal-homem-escuridão me tome. Este é o meu corpo. Tomai-o em nome de Deus. Ele tomar-me-á como os bichos. Saciado, descansará, então, sobre os lençóis ainda mornos. Dormitará com um sorriso de anjo boçal no rosto. Em silêncio, pegarei no machado que se esconde por baixo da cama. Ergue-lo-ei. Com um golpe, com um único golpe, cortar-lhe-ei a cabeça. Ele abrirá os olhos segundos antes do cutelo o penetrar. Um grito mudo perder-se-á pelo quarto. Baterá nas vidraças fechadas como moscas cegas. Haverá sangue derramado pela cama. Um líquido viscoso, denso, quase preto. Quando a sua cabeça rolar para o chão adormecerei. Ao lado do corpo decepado. Antes, porém, direi o seu nome: Holofernes.
(Quando escrevi este texto estava furiosa com o mundo. Já não estou. Em vez de cutelo, devia ter usado a palavra cimitarra. Cutelo faz lembrar um talhante a esquartejar a alcatra de uma vaca.)
2007/03/22
Gengibre
Quinta-feira é dia de shokado lunch. A rosinha feita de lâminas de gengibre cor-de-rosa que desfolho com lentidão e saboreio utilizando todas as papilas gustativas da minha língua è dos poucos prazeres físicos que tenho. É, por isso, lamentável que tenha escolhido esse preciso instante para ler a resposta do Rui Tavares à Helena Matos sobre o caso Mantorras. Bufei como uma vaca. Ruminei. Rezinguei. Insultei-o baixinho. Só sosseguei quando olhei para a fotografia e percebi que o Rui Tavares é uma daquelas pessoas que nasceu com 50 anos. É. Olha-se para a fotografia dele e percebe-se isso mesmo. A idade dele, para aí 80 (50+30), desculpa as posições que, por vezes, toma. São posições dignas do Vítor Dias. O problema não está na retaliação de Angola, mas sim na oportunidade dessa retaliação. Querer meter Angola, país que elogia e apoia os métodos de pacificação do Mugabe, e Portugal no mesmo saco não é só intelectualmente desonesto, é um bocadinho patético.
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