2016/03/04

Salva de prata

Mal entrou em casa, notou um cheiro a cânfora revelador da presença de Ester. Alberto, vendo-a franzir os sobrolhos, apressou-se a explicar que a mãe viera dar uma ajuda. Trouxera a Fátima logo de manhã que, sob as suas indicações, passara o dia a limpar o pó e a aspirar. Também lavara a loiça acumulada no lava-loiça e fizera a cama com os lençóis de linho que estavam guardados na gaveta da roupa melhor. Clara olhou em redor: a casa estava na realidade bem limpa. Fátima, mãos calejadas, a polpa dos dedos sempre inchada dos detergentes, apesar das constantes queixas de Ester, cumpria os seus deveres com máxima eficácia: tinha gosto em ver uma casa bem limpa, mesmo que não fosse sua, o cansaço depois de um dia de trabalho era compensado pela satisfação que sentia ao ver o brilho de um chão bem encerado. Pareceu-lhe que, mais do que arrumada, a casa estava diferente. Um olhar atento permitiu notar algumas alterações que a sogra fizera durante a sua ausência: escolhera um naperão de linha fina para a mesa da sala de estar e a boneca que costumava guardar dentro da cristaleira estava agora posta num recanto do móvel da entrada. Em cima do aparador, em vez da terrina de loiça, colocara a pesada salva de prata que o tio António lhes ofereceu como prenda de casamento. Clara não fez nenhum comentário, mas a lembrança do tio deixou-a irritada. O tio, próspero e sem descendência, vivia sozinho no bairro novo que começava a ser construído perto do aeroporto. Tinha um apartamento amplo, várias divisões, a cozinha integralmente equipada com electrodomésticos alemães. Toda a família de Alberto, irmãos, cunhadas, sobrinhos, lhe prestava vassalagem com o intuito de levar o maior quinhão da herança. Sobrinhos e cunhadas rivalizavam entre si para ser o centro das suas atenções: convidavam-no para padrinho das crianças que iam nascendo e, nos dias de festa, consoada, domingo de Páscoa, aniversários, insistiam em que se sentasse à cabeceira da mesa. Clara não gostava do homem. O velho era sempre amável quando a encontrava, perguntava-lhe pela família, queria saber novidades dos Cardoso da Mata, conhecia-os bem, tinha-os em grande consideração por causa do êxito dos seus negócios. Mas, enquanto lhe falava, com uma vertigem de volúpia que se notava no modo como a fitava, pousava-lhe a mão na cara, nas pernas, às vezes até nas nádegas. Clara sentia nojo daquele homem, mais ainda da vassalagem que a família de Alberto lhe prestava. Mantinha por isso a salva de prata no louceiro, guardada no estojo de veludo vermelho, bem longe da sua vista.
- Muito obrigada, D. Ester, não precisava de se incomodar. - Disse Clara e sentiu-se aliviada por ter vestido ao menino o cueiro que a sogra insistira que usasse quando saísse da maternidade. 
- Vim conhecer o meu neto. - Respondeu Ester.
Abeirou-se da alcofa num passo firme; os seus saltos altos até na alcatifa da sala se faziam ouvir. O menino estava coberto com uma mantinha e trazia uma touca que lhe escondia o rosto. Ester destapou-o. O menino abriu a boca num bocejo prolongado e, com os seus olhos de cílios revirados, pareceu fixar a avó. Apanhada de surpresa, não esperava uma criança tão bonita, Ester emudeceu por instantes. 
- Tão bonito! Parece um anjo barroco… – Acabou por dizer e abandonou a habitual secura para largar um sorriso rasgado. Sentia-se feliz, isso mesmo se notava no semblante e no modo como os seus lábios, geralmente contraídos, repentinamente relaxaram: não só o primeiro neto nascera homem como era encantador. Como fora Clara capaz de dar à luz uma criança assim? 
Clara sentou-se numa cadeira. Detestava Ester, como a detestava, não suportava a altivez, o corpo seco, o cheiro a cânfora. Porém, naquele instante, sentia-se grata por a sogra ser capaz de mostrar alegria pelo nascimento do filho. Que alguém sentisse amor àquela criança e fosse capaz de o mostrar. Alberto, o seu Alberto, era totalmente incompetente para demonstrar afecto. Fora visitá-la à maternidade logo no primeiro dia, chegara com um ramo de rosas aninhadas numa nuvem fofa de vivaz, mas não fora capaz de lho oferecer. Depois de fazer uma festa ao menino com a ponta dos dedos, pousara o ramo aos pés da cama e ali o deixara como se fosse outra coisa qualquer. Parecia guardar em relação ao filho uma distância cerimoniosa. Clara teve a certeza de que essa distância se manteria para o resto da vida. Quanto a si própria, sentia-se imune ao amor que todas as mulheres dizem sentir assim que vislumbram os filhos acabados de nascer. O menino nascera há três dias e ela  sem sentir nada. Absolutamente nada. Encarava aquela criança apenas com estranheza. 

Ester ficou até tarde. Obrigou Clara a comer uma sopa cheia de talos, assegurando que os caules fibrosos da couve lombarda ajudavam a subida do leite. Mexendo no colar de contas jaspeadas, passou o tempo a fazer recomendações. Clara escutou-a sem a docilidade que habitualmente fingia, mas com obediência. Volta e meia, fixava o olhar na salva de prata, certa de que na véspera Ester inspeccionara o apartamento, vasculhando gavetas e armários para se inteirar da sua capacidade de organização. Passava já das onze horas quando a sogra se foi embora. Mal saiu, antes de mudar a fralda do filho, chorava o menino na alcofa, Clara voltou a arrumar a salva de prata dentro do louceiro.

2016/03/02

2016/03/01

Olho negro

Decorei o poema de manhã, no refeitório, enquanto tomava o pequeno-almoço. Durante o dia, repeti-o para mim mesma como se fosse um mantra, uma oração, a minha salvação. Repeti-o depois de cada parágrafo que escrevi, perto da máquina de cafés, na rua, ao observar os sapatos feios de uma mulher que passou e deixou o seu perfume no ar, quando escutei a voz do outro lado da linha, no regresso para casa, em estranho assombro, ao dar-me conta de como a luz do final do dia é caprichosa: ilumina apenas as fachadas do prédios mais altos, suas varandas, suas janelas, velhos que se debruçam para espreitar a rua, paredes de tinta estalada, ficam os prédios mais baixos adormecidos em triste sombra. De tão presa ao poema, decidi que o diria a cada um dos meus filhos assim que os visse. Disse-o ao Joaquim quando o vi chegar. Sussurrei-lhe as palavras ao ouvido, no corredor da escola, junto do placar com as composições dos meninos do terceiro ano. Disse-o à Madalena quando, chegada do treino, se despiu e revelou o seu corpo nu. Disse-o ao João já na cama, meio adormecido, depois de o aconchegar e lhe beijar o olho negro. Equimoses de adolescente, dores de adolescente, bebedeiras de adolescente, curam-se com beijos, abraços, gestos simples. Os meus filhos escutaram-me em silêncio. Quando me calei perguntaram: “O que é isso, mãe?”. A cada um, sentindo por cada um amor infinito, belo, redentor, único, respondi: “É um poema”. 

Homem

2016/02/26

Casaco preto

Para além de pinhas e outros tesouros que encontro e lá enfio (uma bolota e duas pedrinhas), pelo bolso roto do casaco preto caem canetas, lápis, isqueiros, grampos, elásticos de cabelo, moedas, batons. Enquanto caminho sinto o peso do lixo que se acumula no forro do casaco e escuto o tilintar abafado das moedas. E é tudo. É sobre o nada que gosto e sei escrever. 

2016/02/24

Três palavras

Três palavras maldosas, ditas com segurança por uma mulher desprezível, feia, velha, de mamas caídas, e, passados cinco dias, continuo irritada, as ideias confusas, um persistente mal-estar, furiosa comigo mesma por não a ter mandado para o caralho. 

2016/02/23

Labirinto

Acordei triste, sem vontade de ir trabalhar e com uma dor lancinante nas costas. Levantei-me com dificuldade e, só quando me despi para tomar banho, reparei que tinha um pequeno punhal enterrado nas costas. Não tentei tirá-lo. Em alternativa, tomei um comprimido para as dores e fui passear para a Amadora. Caminhei durante três horas. Devagar, apanhando sol, em habitual e despreocupada contemplação. No átrio do Centro Comercial Babilónia, um homem que entrançava o cabelo de uma mulher gorda, ao ver-me passar, apontou para as gotas de sangue no chão. “Não se preocupe. É apenas um rasto que vou deixando para depois conseguir sair do labirinto.” Caminhei durante mais algum tempo. Só parei quando passou o efeito do analgésico e voltei a sentir a lâmina enterrada nas costas. Apanhei o comboio de volta para casa. Tomei outro comprimido para as dores e limpei o sangue seco na minha pele. À noite, deitada de barriga para baixo, escrevi ao Ricardo. “Hoje fui passear à Amadora e acordei com um punhal enterrado nas costas, mas não é por isso que te escrevo. Ando triste. Queres ir almoçar?” O meu amigo ligou-me passados cinco minutos. É um grande amigo. O melhor que se pode ter.

2016/02/20

Sopa de peixe

A minha mãe matou-me muitas vezes. Da primeira vez, era ainda pequenina, cabia dentro da sua mão, atirou-me ao mar. Da segunda vez, começava a dar os primeiros passos, aos tropeções pela sala do crocodilo amarelo, atirou-me ao rio. Quando tinha seis anos, no tempo em que usava o cabelo preso em duas tranças e passava o dia a soletrar palavras difíceis, pôs-me a dormir e ligou o gás do fogão. Devia ter dez anos quando misturou veneno na sopa de peixe. Sabia que, por ser a minha sopa preferida, a comeria até ao fim, raspando o prato até não sobrar uma gota. Aos treze anos, num domingo de tempestade, os relâmpagos caiam no monte de ervas altas, afogou-me na banheira. Aos quinze, já não esperava que o fizesse, sufocou-me com a almofada de veludo azul. Ontem, dia em que fiz dezoito anos, a minha mãe levou-me ao último andar da torre onde vivemos e empurrou-me. Cansada de morrer, olhei para as mãos da minha mãe, paralisadas no ar, e voei para longe. 

2016/02/17

O gigante de Gulpilhares

Ontem, em Gulpilhares, num quarto com uma janela a dar para um quintal cheio de lixo e duas velhas magnólias de flores roxas, deitei-me com um gigante. Adepto do FCP, o gigante, apesar de doutorado em matemáticas aplicadas à gestão, não me pareceu um homem muito inteligente. Custou-me acompanhar a sua passada. É um estranho homem. Tem apenas um enorme olho na testa. É um só olho, mas vale por muitos: um belo olho redondo, de longos cílios revirados. Cada mão do gigante é do tamanho de uma melancia, cada pé do tamanho de um melão. A cabeça, grande como a de um boi, assusta a princípio. Mas, apesar das proporções gigantescas, pantagruélicas, e da estupidez evidente, foi o desconhecido mais afectuoso com quem já me deitei. Primeiro levou-me a ver o mar barrento e feroz, depois, no quarto com a janela que dá para as duas magnólias floridas, enterrou-se tão fundo que tive medo que me rompesse o avesso. À despedida, gentil, deu-me um prolongado beijo no rosto, tirou um cabelo branco caído na lapela do casaco preto e ficou à beira da estrada a ver-me desaparecer. “Liga-me quando chegares, pequenita.”, disse e o carinhoso uso do diminutivo deu-me vontade de chorar. Choro agora por tudo e por nada. Deve ser da idade. Voltei para Lisboa dorida, a sentir o cheiro do gigante nos pulsos, mas satisfeita. Ando cansada de pilas intelectuais, traumatizadas, existencialistas, titubeantes. Grande e grossa, ainda que versada em matemáticas aplicadas à gestão e, em certos momentos de maior entusiasmo, capaz de me provocar o vómito, a pila do gigante, de tão primitiva e animal, reconciliou-me com o mundo, seus insectos, pássaros e árvores. Quando parei na estação da Mealhada para comprar uma sandes de leitão para o meu filho mais velho (para os mais novos, se vou ao Porto, levo croissants tipo brioche da pastelaria Chaimite), ao sair do carro, pensei no quanto detesto a escrita da Ana Teresa Pereira e a poesia de certas novíssimas poetas portuguesas. Inveja pura: na verdade, não lhes invejo os versos, mas a juventude, os longos cabelos com vida, a pele macia, cheia de luz, os corpos tenros. Também deve ser da idade, esta inveja mesquinha que sinto. Na casa de banho da estação de serviço, para não me sentar no tampo da sanita, apoiei as mãos na parede e, enquanto escutava sair o jacto de mijo, morno e bem direccionado, pensei no gigante  à beira da estrada: o seu esplendoroso único olho ligeiramente embaciado, a mão a dizer-me adeus. Voltei a ter vontade de chorar. Não havia papel higiénico. Abanei o corpo para sacudir as pinguinhas.

Império Romano



(Enganei-me. A canção mais bonita do mundo é esta.)

2016/02/14

Dádiva

"Bom, hei-de procurar o amigo do Beuscher, e na Páscoa conto fazer uma visita ao Clarabuts. Posso-lhes oferecer juventude, entusiasmo e amor para compensar as minhas ignorâncias. Sinto-me tão estúpida: se o fosse, no entanto, não me contentaria com alguns homens que conheci? Ou será por estupidez que não me contento? Não me parece. Anseio tanto por alguém que varra de  vez o Richard; acho que mereço, sim, mereço, um amor ardente com que me seja possível viver. Meu Deus, como eu adorava cozinhar, e arranjar uma casa, e instilar força nos sonhos de um homem, e escrever – um homem que soubesse conversar, caminhar, trabalhar e desejar com paixão levar por diante a sua carreira. É-me insuportável pensar que este potencial de amor e dádiva vá acabar por secar e murchar dentro de mim." Assim escreveu Sylvia Plath no seu caderno de apontamentos. Compreendo-a bem: um homem que saiba conversar e caminhar é difícil de encontrar. Talvez seja mais fácil encontrar uma mulher. 

Lucidez

"Quis publicar um livro mas nunca o chegou a fazer, porque estava continuamente a fazer alterações no manuscrito, e fez tantas e tão grandes que, por fim, do manuscrito já nada restava, a alteração do manuscrito nada mais era do que a eliminação total do manuscrito, do qual por fim nada mais ficou do que o título O Náufrago. Agora tenho apenas o título, disse-me ele, assim é que está bem. Não sei se terei forças para escrever um segundo livro, parece-me que não, dissera ele, se O Náufrago tivesse sido publicado, disse ele, teria sido obrigado a matar-me."

Thomas Bernhard, O Náufrago 

2016/02/13

Pedra-pomes

No rebordo da banheira da casa de banho dos meus pais, no apartamento da Portela, ao lado dos frascos de champô e gel de banho, havia sempre uma pedra-pomes. Servia para a minha mãe raspar os calos dos pés. A cor da pedra-pomes, bonita e esbatida, variava: verde clarinho, azul clarinho, cor-de-rosa clarinho. Era leve, porosa e flutuava na água. Passava a mão pela superfície daquele pequeno rectângulo do tamanho de um sabonete e sentia a sua rugosidade. Com o uso, o contínuo raspar das peles duras dos pés da minha mãe, a pedra perdia a forma inicial. Suas arestas deixavam de ser aprumadas, verticais, para ganharem curvas acentuadas que tornavam maior a minha estranheza. Perante a evidente desadequação entre nome  e objecto - as pedras  eram sólidas, compactas, pesadas, afundavam-se quando tentava fazê-las saltar na ribeira de São Bartolomeu  - perdia certezas, tornava-me desconfiada. 

India Song

2016/02/11

Gato

Enquanto espero que a massa coza, depois de lavar o chão da cozinha e preparar o almoço dos miúdos para amanhã, ponho o cd dos Concertos de Brandenburgo a tocar e abro o livro sobre a bancada de mármore. Leio de pé. Gosto de ler de pé, assim como gosto de ler sentada na minha secretária de trabalho, no banco. Fica o corpo completamente desperto e leio com concentração. Começo a ler, um lápis de dois bicos na mão para sublinhar frases ou apenas palavras. É leitura que me interessa. Estou neste agradável desassossego até que o gato salta do chão e vem sentar-se entre o leitor de cds e o meu livro. Lemos os dois. Escutamos os dois. Eu leio com emoção. Escuto com emoção. Sem sentimentalismo, com contido entusiasmo, mas com emoção. Não sei ler de outra maneira, não sei escutar de outra maneira. O gato não. A sua altivez felina, a aristocrata sobranceria, reconduz-me à minha pequenez, à minha insignificância. Petulante, como se quisesse desmerecer a minha alegria por, ao final do dia, ler enquanto espero que a massa coza, caminha devagar e senta-se em cima do livro. Esqueço a leitura e, com um toque leve, afago o seu peito até o sentir vibrar. 

Paris Texas

2016/02/09

Fantasmagoria

Sentei-me num banco a vê-los brincar à volta da oliveira do tronco oco. Esperei pela chuva. Pensei na Maria Gabriela Llansol: descascava ervilhas enquanto escutava Bach. Pensei também na Hilda Hilst. Envelheceu numa casa habitada por espíritos, rodeada de cães, com unhas sujas e cigarros que se apagavam nas mãos. Escrevia perto duma figueira centenária. Hilda Hilst nunca teve filhos. Não quis. E Maria Gabriela Llansol? Também não (acho que não). Só mulheres livres, sem filhos, são capazes de se desembaraçar da normalidade. Quando senti o primeiro pingo de chuva no rosto, tirei a agenda da mala e fiquei a olhar para as páginas em branco. 

2016/02/08

Andorinhas

Não é só a dor de cabeça, essa estranha dor com que acordei e que parece concentrar-se por cima do olho direito. Sinto também tonturas e uma repentina sufocação provocada pelo excessivo aquecimento da piscina.  Deixo o jornal, os óculos e a mala na bancada e corro à casa de banho mais próxima. Debruçada sobre a sanita, mãos apoiadas na parede, vomito até ter certeza de que não tenho mais nada no estômago. À saída, depois de bochechar, olho-me no espelho. Não penso em nada, nem nos cigarros que fumei, nem no vinho que bebi. Não penso sequer no sonho que tive. Sinto apenas alívio por estar melhor e ser capaz de tratar do meu filho quando a aula de natação terminar. Volto a entrar na piscina. O Joaquim, em cima de uma prancha, prepara-se para mergulhar. A cor da prancha, um azul celeste muito esbatido, traz-me à memória uma casa que já não existe. Ficava à beira da estrada nacional, entre Sacavém e a Bobadela. Era uma vivenda azul, de janelas largas, com um pequeno jardim abandonado e beirais cheios de ninhos de andorinha. Sempre que passava na estrada nacional, a caminho do infantário, em Lisboa, invejava os desconhecidos que moravam naquela casa. Imaginava que devia ser bom estar à janela, ou no meio do pequeno jardim, a observar o voo das andorinhas. Sento-me na bancada. Sinto nos dentes e na língua a adstringência que o vómito deixou. A recordação da vivenda azul dá-me vontade de chorar. 

2016/02/06

Tapada do Mocho



("As flores que hoje apanhámos são tão bonitas que parecem artificiais.", diz o Joaquim. Beijo-o e, apontando para o ecrã do computador, cheia de alegria, mostro-lhe a música que escuto enquanto, no meu habitual cansaço de sábado, bebo e fumo. É só ao sábado, ao sábado preciso de fumar e de beber. A beleza das flores que apanhámos durante a tarde, camélias plantadas pelo meu pai na Tapada do Mocho, é como a música que me alivia o cansaço. De tal forma assombrosa, extraordinária, que custa acreditar na sua autenticidade. Glenn Gould, o virtuoso louco, desprezado por muitos, por mim amado, muito amado, gemia enquanto tocava Bach. Não gostava de Mozart. Um a um, filho no colo, tiro os grampos que me prendem o cabelo e penso no meu amor.)

2016/02/04

Moça

2016/02/03

Lenço preto

Ia alternando: ora ficava em casa de Solange, ora na de Adélia. Gostava mais de ficar na vivenda de Adélia onde tinha um quarto só para si e um quintal onde se entretinha a arrancar as folhas secas das roseiras e os joios que cresciam nos canteiros. No apartamento de Solange sentia-se presa, passava muito tempo à janela da cozinha como se só aí, no parapeito, observando o movimento da rua, conseguisse estar. Nesse Natal, chegou muito debilitada, o corpo cada vez mais torto e respirando com dificuldade. Toda a vida sofrera de falta de ar sem nunca lhe ter sido feito um diagnóstico ou proposta qualquer terapêutica. Em Felicidade notava-se um permanente arfar pesado, mas sempre que se sentia mais aflita recorria a mezinhas antigas: tomava chá de folhas de eucalipto e, por conselho de uma vizinha de São Bartolomeu, nos últimos tempos, fumava cigarros feitos com as folhas secas de uma planta que crescia nos terrenos arenosos junto da ribeira. Às vezes, para acalmar a chiadeira das secreções, também usava as folhas da planta em cataplasmas que aplicava no peito antes de dormir. Solange aceitava os remédios caseiros da mãe, mas torcia o nariz quando a via na casa de banho, sentada na sanita, fumando aqueles estranhos cigarros.
- Isso tem algum jeito… – dizia com paciência, sorrindo, mas achando tudo aquilo disparatado e até um pouco triste.
Nesse último Natal, nem os cigarros que fumou, nem os chás que bebeu nem sequer as cataplasmas que aplicou surtiram efeito. Tossia muito, cada vez mais. Às vezes, parecia quase sufocar; nos intervalos, abria a boca como uma carpa chinesa e respirava fundo para sentir o ar chegar aos pulmões. Os ataques provocavam-lhe constantes perdas urinárias que faziam com que largasse um cheiro adocicado de urina e exsudação. Era um cheiro intenso, enjoativo, mas que não causava a Solange propriamente repulsa. Notava, porém, o desconforto do marido e das filhas quando, sentados a ver televisão, viam Felicidade chegar da cozinha e sentar-se a seu lado.

Nessa manhã de Dezembro, ainda de robe traçado, o cabelo num desalinho, Solange arranjava um pedaço de carne para fazer o almoço. Preparava-se para cortar os pés de porco, rijos como cornos, de uma brancura, tão lisa e fúnebre, que faziam lembrar cotos de estearina ardendo em tocheiros de santuários e capelas. Cortado, o chispe cozia melhor, bastava meia hora na panela de pressão e ficava gelatinoso, tenro, desfazia-se em lascas.
Foi então que Felicidade entrou na cozinha. Cheirava pior do que costume, um bafo excessivo parecia libertar-se do seu corpo e espalhar-se, não só na cozinha, mas por todo o apartamento. Solange notou-lhe uma grande mancha na bata e, sentindo uma tristeza repentina, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Não querendo revelar essa fraqueza à mãe, continuou o que estava a fazer. Ergueu o cutelo e procurou localizar as articulações para não falhar o corte. Com um golpe vigoroso partiu em dois o chispe, mas, foi tal a força que imprimiu ao gesto, que se rachou a tábua de cozinha. O periquito, que afiava o bico na pedra de cálcio, amedrontou-se e piou de um modo esquisito.
- Mãezinha, antes do almoço, vou dar-lhe banho, está bem? - Disse Solange, enquanto metia a carne na panela de pressão. Pressentia que o cansaço de Felicidade já não lhe permitia tratar sozinha da sua higiene. A mãe anuiu como se não entendesse bem o significado do que a filha dizia.

Solange aqueceu a casa de banho para evitar constipações, encheu a banheira de água tépida, colocou a roupa interior a aquecer no radiador a óleo. Depois, com cuidado, ajudou a mãe a despir-se. Tirou-lhe a bata, a saia, a camisola, a combinação, as meias de lã que usava sempre presas com uma liga de elástico preto. Felicidade ficou apenas de cuecas e sutiã, de lenço na cabeça.
 - Vá, vamos lá tirar o resto! - Disse Solange com despacho, disfarçando o desconforto que a iminente revelação da nudez da mãe lhe provocava.
Felicidade porventura já não sentia o corpo vivo ou talvez estivesse demasiado cansada para sentir vergonha. Tirou as cuecas e desapertou os colchetes do sutiã com uma naturalidade que impressionou Solange. Deixou-se ficar nua, de pé, em frente da filha: corpo exposto, mas de lenço na cabeça.
- Tire lá o lenço! Há quanto tempo é que essa cabeça não é lavada em condições? – Perguntou Solange e, desviando o olhar das mamas e do sexo da mãe, fez um gesto para lhe tirar o lenço.
Felicidade recuou, levando as mãos à cabeça. Solange estranhou o gesto: a mãe parecia não ter vergonha de estar nua à sua frente, mostrava-lhe com uma estranha desenvoltura a plenitude da sua nudez enrugada, assexuada, mas recusava revelar-lhe essa outra nudez. Sabia que o lenço era uma espécie de segunda pele para a mãe. Na aldeia, todas as mulheres mais velhas ainda o usavam: com um nó apertado por baixo do queixo ou, nos dias de mais calor, atado atrás do pescoço. Que se lembrasse, só uma mulher mais velha andava sempre de cabeça descoberta. Era a irmã da Preciosa, mas essa tinha desculpa: para além de muda, era meio atrasada. Passava os dias a comer caramelos e a embalar bonecas na aduela da porta. Pois, com excepção da muda, todas as mulheres da geração da mãe usavam lenço; o lenço era um sinal de honra, de dignidade, sobretudo de respeito pelos maridos mortos.
Felicidade continuou a teimar como uma criança, agarrada ao lenço preto. Solange acabou por se irritar com a teimosia e fez-se ríspida: chegou perto da mãe e, com brusquidão, arrancou-lhe o lenço da cabeça. Viu um crânio liso, muito lustroso, calvo. Apenas um penacho de cabelos brancos nasciam no cocuruto, tornando ainda mais triste a sua aparência. A mãe era completamente careca.
- O cabelo começou a cair quando o paizinho morreu… – Explicou Felicidade tapando a cabeça com as mãos. – Fiquei sozinha, filha, tinha muitas saudades dele! Quanto mais triste me sentia mais o cabelo me caía. Foi caindo, caindo até ficar assim…
Solange voltou a sentir vontade de chorar. Colocou o lenço na cabeça da mãe, atando-o atrás para que não se molhasse. Depois, ajudou-a a entrar na banheira e deu-lhe banho, já sem estranhar a sua nudez. Lavou-a como se fosse uma criança, notando a fragilidade daquele corpo sempre escondido do sol: uma vida de trabalho no campo e a pele lisa, tão branca. Lavou-a com vagar: tronco, pernas, braços, os pés cheios de calosidades. Sentada na banheira, nua, o lenço atado na cabeça, Felicidade parecia não se sentir desapossada do seu corpo. Às vezes sorria à filha como que a dizer-lhe que lhe sabia bem a ternura daquele momento.

(A minha avó chamava-se Felicidade.)

Periquito

Bebo uma cerveja na varanda da cozinha. O João pana as últimas coxas de frango com cereais moídos e farinha temperada com cominhos, pimenta e sal. O óleo borbulha e o Joaquim anda por ali a cirandar nas pernas do irmão mais velho. Digo-lhe que vá para dentro. Gosto que o João se ocupe do jantar, mas não gosto de frituras, assusta-me o óleo a ferver. Pedi-lhe que fizesse outra coisa, mas o meu filho, maravilhado com os truques da cozinha moderna aprendidos na televisão, insistiu na ementa. Imagino um acidente grave, a frigideira instável, óleo quente a saltar, a pele clara e macia do rosto do Joaquim queimada para sempre. E se, por causa da teimosia do mais velho, acontecesse alguma coisa ao mais novo? Como reagiria eu? Seria capaz de continuar a amar o João como amo? Ou algo se alteraria para sempre entre nós? A ideia de que alguma coisa possa perturbar a nossa felicidade provoca em mim uma terrível inquietação. “ Não ouviste o que disse?”, ralho ao Joaquim e, puxando-o com brandura pela orelha, levo-o para a sala. 

2016/02/02

Rasgão

Enfio a mão e, com o dedo indicador bem espetado, procuro perceber o tamanho do rasgão. A repetição do gesto tem consequências óbvias: aos poucos, o buraco do bolso esquerdo do meu casaco preto vai aumentando. Suponho que no fim do Inverno o rasgão será de tal forma grande que, quando a enfiar no bolso, a minha mão não terá apoio, ficará suspensa na escuridão do avesso do meu casaco preto. Como um corpo baloiçando à beira do precipício. Hoje, na Praça de Londres, depois de sair do consultório do psiquiatra, apanhei cinco minúsculas pinhas do chão. Caídas dos cedros, as pequenas pinhas, com os seus buraquinhos simétricos, banhadas de luz e esquecidas no ruído da cidade,  maravilharam-me ao ponto de ficar parada no meio da rua a olhar para elas. Apanhei-as, cheirei-as e, uma a uma, enfiei-as pelo rasgão do forro do bolso.

2016/01/28

Calendário

Por desconhecer os exactos termos em que a vontade do meu marido seria posta em prática, nos últimos anos de casamento, deitava-me e adormecia. Quando o meu marido chegava ao quarto encontrava-me a dormir. Quase sempre deitava-se ao meu lado e dormia também. Mas, por vezes, procurava-me. Esse despertar, sem amortecimento de qualquer espécie, agredia-me com uma violência que ainda hoje, depois de anos de terapia, não sou capaz de explicar. Nunca me habituei a essa passagem brusca. Num instante, dormia, sonhava, e o mundo era diferente, um mundo de árvores prateadas, gigantes amistosos, torres encarquilhadas de livros, frases misteriosas que apareciam escritas na areia de uma praia deserta. No momento seguinte, era obrigada a largar esse mundo incompreensível, de delírio e insanidade, que tanto me seduzia. Acordava e fugiam os gigantes, desfaziam-se as torres de livros, apagavam-se as frases escritas na areia. Era como se alguém me arrancasse de um lugar protegido, puxando-me pelos cabelos, arrastando-me por um caminho de pedras pontiagudas. Sentia cada toque, cada apertão, cada sopro no pescoço. A barriga mole e transpirada do meu marido esmagava o meu ventre. Chegava então uma tristeza intensa que me dava vontade de chorar, mas, por vergonha, procurava pensar em assuntos que me distraíssem dessa angústia. Para fugir do choro, pensava nas pequenas decisões que tinha de tomar, organizava a vida imediata, planeava as compras, decidia o que faria para a marmita dos meus filhos: segunda-feira, bifinhos com cogumelos, terça-feira, salsichas com lombardo, quarta-feira, arroz de atum, quinta-feira, frango frito, sexta-feira, douradinhos com esparguete. Incapaz de pôr fim ao meu casamento, odiando-me por isso, muitas vezes, desejei apenas o agendamento estanque da minha vida íntima. Ao dia tantos do mês ou ao domingo ou sempre que um dos nossos filhos tivesse 100% a matemática. A periodicidade, imaginava eu, evitaria pelo menos a angústia da incerteza, a impressão da espera, sobretudo o terror do despertar.

2016/01/26

Pagode chinês

O turco ajeita o postal da Basílica de Santa Sofia na parede de cortiça, depois faz tilintar os olhos em forma de gota que estão para venda num pequeno mostruário. Ao entregar-me as chaves, olha-me com desdém, não é capaz de o esconder. Toma-me por adúltera, uma mulher fácil, sem decência e sem salvação. Não me importo. Sei agora da importância de saber conjugar certos verbos. Conjugo certos verbos como se rezasse. Lentamente, inteira, com devoção: eu fodo, tu fodes, ele fode, nós fodemos, vós fodeis, eles fodem. Pego nas chaves, pago o quarto, subo ao terceiro andar. Alguém deixou os sapatos no corredor. São sapatos de homem, brilhantes e ligeiramente revirados na ponta. Aladino, cansado, dorme num dos quartos da pensão Istambul. Abro a porta, largo a mala em cima da cama, descalço as botas. Espreito as vistas. Outros olharam por esta janela, viram exactamente o que agora vejo: o alçado lateral da Igreja dos Anjos, o edifício amarelo da sopa dos pobres, um prédio forrado a azulejo, também os telhados retorcidos de um pagode chinês. Há poesia em cada homem, cada mulher. Volto para dentro, puxo os lençóis para trás e deito-me. 

2016/01/23

Tocata



(Caminhei ao teu lado, meu amor. Perguntaste se o casaco do morto te estava apertado. Quis responder, mas de tanto bater o meu coração parou. )

2016/01/21

Cetim vermelho

O turco puxou uma baforada do narguilé. Chamou-me querida (numa intimidade que me incomodou) e deu-me a chave do melhor quarto da Pensão Istambul: janela para a avenida, cama larga com lençóis esticados, paredes pintadas a rosa chá, soalho encerado, dois conjuntos de toalhas presos com uma fita de cetim vermelho.  

Esplanada

2016/01/20

Dona Doida

Por causa de um poema, um verso, decidi em quem votar no domingo.  Agora, livre da angústia do voto em branco, depois de lavar o chão da cozinha, vou fumar. É o que me apetece fazer. Contemplar a noite e fumar.  Isso e tentar encontrar inclinações parabólicas em linhas rectas.

2016/01/19

Artigo 804º

No ginásio, entre uma e outra aula, observo as quadras de squash: o desenho das linhas, as marcas das bolas nas paredes, as gotas de suor no chão, os gestos de vitória e frustração. Penso no artigo 804º do Código Civil, na pensão Istambul, em delícias turcas e romãs, naquele que gosta da poesia de Rimbaud e me mostrou, com tal entusiasmo, o início do concerto para piano nº 24 de Mozart. Vai ter um filho com uma mulher que o trata por “mor” e utiliza a expressão “esbardalhei-me”. O amor é tão lindo.

2016/01/18

Carlos Paredes

Casa de frangos

A propósito de um texto do Manuel de Freitas na Cão Celeste, lido há alguns dias, hoje, quando voltava para casa, pensava nos dois tipos de leitores que me dão azia: os deslumbrados e os mete-nojo. Toda a gente conhece o leitor deslumbrado. Lê e impa, revira os olhos, entra em êxtase beatífico. Esse êxtase, claro, nunca é secreto, íntimo, é um êxtase partilhado, replicado, podendo, seria televisionado. Desde que pertença ao cânone literário, o leitor deslumbrado gosta de tudo o que lê. Está em toda a parte, este tipo de leitor. Dá-se um pontapé numa pedra da calçada e aparece um leitor deslumbrado. O leitor mete-nojo é mais difícil de encontrar. Circula em círculos restritos. Restritíssimos. Julga-se superior, já leu tudo, já nada o desafia ou entusiasma. Qualquer obra-prima é aborrecida, objecto do seu magnânimo tédio. O leitor mete-nojo é capaz, de uma assentada, sem justificar, só porque sim, desmerecer “A Montanha-Mágica”, “O Quarteto de Alexandria” e, sem excepção, a obra completa da Agustina Bessa Luís. Há que reconhecer: apesar de estúpido, o leitor mete-nojo é bastante audaz. Vinha nestes pensamentos, numa agradável espiral de irritação, e lembrei-me da história que a minha irmã me contou no sábado. Parece que um escritor e um poeta, ambos franzinos, escanzelados, andaram à pancada no bar da Barraca. Imaginava eu esse vigoroso duelo entre poesia e prosa, ria-me que nem uma perdida para dentro e para fora, quando, na rotunda de Moscavide, perto da casa de frangos, atropelei um ciclista.

2016/01/16

Maina




2016/01/14

Óleo de romã

Fiz tudo o que faço antes de me deitar. Tomei banho, lavei os dentes e limpei o rosto. Apliquei com movimentos circulares um creme anti-envelhecimento que comprei numa perfumaria há pouco tempo. Foi caro, mas não resisti ao anúncio que passa na televisão: mostra uma mulher bonita, sorrindo. Nos segundos finais, enquanto o corpo da mulher é apertado num abraço, uma voz assegura que o creme, feito à base de extractos naturais de óleo de romã, promove o rejuvenescimento da pele. O que uma mulher viveu não tem de ficar marcado no corpo, apenas na memória, é o que diz o anúncio. É mentira, mas não há nada a fazer. A vaidade das mulheres sempre favoreceu o engano. Sei que tudo o que vivi, tudo o que ainda viverei, ficará marcado na minha pele, em cada ruga, cada sulco, cada mancha. O meu corpo apresenta as marcas próprias da idade que tem, mas o envelhecimento, este que agora começou, parece ser um segredo vergonhoso. Quero envelhecer devagar. Por isso, apesar de não acreditar nos efeitos visíveis após oito semanas de aplicação, todos os dias uso o creme de óleo de romã.


Arroz



(Fura a multidão e atira-me um punhado de arroz.)


2016/01/13

Nenhuma

É agora um advogado de sucesso. Guia um carro de alta cilindrada, usa botões de punho e, no Verão, passa quinze dias com a mulher e os filhos em Porto Santo. Leva também uma brasileira chamada Gabriela que, como fez questão de me explicar, para além de bonita, é exímia a engomar camisas e a fazer queijadas de leite e mel. Da vida, explicou-me ainda, espera apenas conforto, prazer e ganhar ainda mais dinheiro. Apreciei a sinceridade e deitei-me com ele. Impou em demasia, o que me perturbou bastante, mas isso não o fez perder a confiança em si próprio. Como a maior parte dos advogados que conheço, tem-se em grande consideração. “Vieste-te quantas vezes?”, perguntou-me no final. “Nenhuma.”, respondi pausadamente e pensei na mulata Gabriela. Imaginei o volume sensual do peito, a curva das nádegas, o cabelo crespo caído pelos ombros. Uma breve excitação chegou-me naquele instante e estremeci por dentro. 

2016/01/11

Malhas caídas

Aproximo-me da mesinha de cabeceira e, com a ponta dos dedos, limpo a camada de pó que se acumulou na superfície. Abro a gaveta da roupa interior. Tudo está meticulosamente arrumado; ainda assim, resolvo inspeccionar os collants para ver se encontro malhas caídas. Introduzo a mão no primeiro par de collants, puxo a meia até chegar à costura do pé, depois faço a licra deslizar sobre os dedos muito esticados. Encontro uns que têm uma pequena malha na zona da barriga da perna, mas não os deito fora, ainda servem para usar por baixo de calças. Ter encontrado uma tarefa que, se for bem aproveitada, me preencherá o tempo faz-me sentir menos só. É bom estar aqui, sossegada no quarto, a realizar uma tarefa que, exigindo a minha concentração, me dá prazer. Sempre senti um prazer imediato na arrumação e na organização. Gosto de ter a casa limpa e flores nas jarras. Limpar bem a cozinha, organizar a despensa ou arrumar gavetas são tarefas que contribuem para a minha felicidade. Habituada a uma infância ruidosa, éramos muitos numa casa demasiado pequena, mal me vi no meu apartamento, organizei armários, gavetas e prateleiras. Mantive sempre essa disciplina. Na minha casa nunca há roupa suja em cima de cadeiras, camas por fazer, loiça lavada à espera de secar no escorredor, canecas lascadas, livros fora das estantes… Sei sempre em que gaveta está o corta-unhas e nunca me aconteceu não encontrar o boletim de vacinas do meu filho. A minha mãe dizia que a arrumação de uma casa revela muito da vida da mulher que nela vive. Acho que ela tinha muita razão. Recordo-me de que, há muitos anos, em casa da Luísa, espreitei para dentro da jarra chinesa que costumava estar no centro da mesa da sala de jantar. Espantei-me com a quantidade de coisas que ela conseguia guardar lá dentro: canetas, clips, recibos velhos, agulhas de croché, cadeados, parafusos cheios de ferrugem, fotografias, elásticos de cabelo, pulseiras, batons do cieiro, bulas de medicamentos, até brinquedos. Nessa tarde, senti o cheiro de coisas velhas que se soltava daquela lixeira em miniatura, mas não estranhei o conteúdo da jarra chinesa. Revelava a desordem da vida da minha irmã. A minha irmã sempre fez por transmitir aos outros uma imagem de solidez e conquista, mas, por dentro, estava como o jarra chinesa: cheia de entulho.

2016/01/10

Resposta



(Mandei a mesma mensagem a três homens diferentes - Gostas dos Joy Division? - e fiquei à espera da resposta.)

2016/01/08

Pai

Michelle acabou o internato de cardiologia em Bangalore. Alvito rompeu o noivado por temer o vigor sexual da noiva. A mulher, uma desconhecida de Colva, já enterrou dois maridos. O bando de macacos dorme no extenso coqueiral que fica perto da lagoa. Houve uma grande festa para celebrar o vigésimo aniversário do casamento do Ricky e da Melinda. Toda a família foi convidada. Vieram os de Pondá, os de Pangim e os de Mapusa. Ron, na primeira madrugada do ano, depois da missa e do baile em Cavelossim, teve um acidente de mota. Partiu o fémur e deslocou o ombro.  Álvaro, o arquitecto estrangeirado, passou as férias de Natal em Curtorim. Levou a namorada espanhola. Levou também três amigos berlinenses. A primeira colheita de cocos foi fraca. O terreno de Dicarpali, o mais bonito, o meu preferido (escutam-se os sinos da igreja de São José de Areal) foi vendido por trinta e seis laques. O Moreno discutiu com um vizinho por causa de um canteiro de arroz. Os cajueiros e as mangueiras ainda não floriram. 

(Venha, Ana Clara. Faz-me falta aqui.)

2016/01/07

Dinâmica do acidente

As hesitações da testemunha parecem aborrecê-la. Enquanto pede esclarecimentos, a procuradora mexe na pulseira que traz no pulso. É uma pulseira em malhinha de ouro branco, discreta, baça, tem apenas a graça do fecho amarelo. Talvez por estar um pouco larga, insiste em descair e esconder-se por baixo da manga larga da beca. Sempre que tal acontece a procuradora procura-a e volta a colocá-la na zona do pulso. Nesse gesto, sobretudo no modo estranho como, depois de a voltar a colocar no pulso, com contida perturbação, fica a acariciar a pulseira, tudo desaparece ou se esbate: a bandeira caída, os códigos, os volumes do processo, a chuva que bate nos vidros. Existe apenas a mão da procuradora, mão de cera, unhas pintadas de vermelho escuro, com uma pulseira de ouro branco no pulso. A pulseira  - vê-se bem - foi um presente recente, certamente de alguém muito importante na sua vida, um noivo, um namorado, um amante (depois de árvore, amante é a palavra mais bonita da língua portuguesa). A procuradora faz um esforço para se manter atenta à dinâmica do acidente, mas, por baixo da negra beca, qualquer coisa nela se anima.

2016/01/06

Andante




2016/01/05

Intimidade

Usarei a melhor blusa, os sapatos vermelhos, os brincos de ouro que herdei da avó goesa. Caminharei ao seu lado. Colocarei um pé a seguir ao outro. Em cada passo sentirei o peso exacto do meu corpo. Hei-de mostrar-lhe a estátua de Hanuman, as suásticas, as hortas em redor, o auditório forrado a alcatifa verde, a cantina escura. Chamarei a sua atenção para o tom das cadeiras de plástico do templo. É pela cor do plástico das cadeiras, a mostrar a fraca qualidade do material, que se percebe o embuste: o templo hindu não está localizado em Lisboa. Fica numa rua barulhenta dos subúrbios de Bangalore. Desceremos ao poço. Ao contrário do habitual, comerei com gosto, sobretudo as chamuças ainda quentes. Estarei atenta à maneira como come. Mostrar-lhe-ei como se partem aos pedaços os rotis e se misturam com o resto da comida. Hei-de rir quando provar o caril de legumes, aguado e sensaborão. Fará uma careta engraçada. Evitaremos temas pessoais. A intimidade nunca é por nós partilhada. Falaremos mal de escritores, críticos literários, jornalistas, editores. Para além da ausência e do falso desprendimento, a maledicência é o que nos une. Falarei com entusiasmo do conto do Dylan Thomas que li, sem nunca lhe confessar que, quando o li pela primeira vez, me imaginei deitada na cama ao seu lado. Numa intimidade de velhos, os óculos na ponta do nariz, os nossos pés a tocarem-se por baixo dos cobertores, imaginei-me a ler para ele aquele preciso conto. Maravilhoso conto. Ler em voz alto para alguém é sinal de amor. Leio em voz alta para os meus filhos. É uma outra forma de lhes dizer que os amo. Escutar-me-á falar e intimamente lamentará não me amar. No final, à despedida, um beijo apressado, a boca dele mal me tocando no rosto. Sentirei o seu cheiro. Seguirá pela rua, sem nunca olhar para trás. Ficarei a vê-lo, enfiado num casaco feio, caminhando apressado na direcção da biblioteca.

2016/01/04

Açucenas

O ruído de um carro a chegar à praceta desperta-me. Dou-me conta da atmosfera um pouco triste do quarto, a luz quebrada pelo abajur do candeeiro, sombras nas paredes, a janela ligeiramente aberta. Quero regressar aos meus pensamentos, mas o instante de revelação que ainda há pouco me fez sorrir passou. Levo a mão ao cabelo, pego numa madeixa e enrolo-a nos dedos. Não tenho mais nada para fazer, tratei dos meus filhos, planeei refeições, passei a ferro, mesmo assim continuarei aqui, acordada, à espera que o sono chegue. Coloco os braços sobre a barriga e, com as palmas das mãos, aliso o tecido do pijama. Aproximo-me da janela. O ano chegou com calor e trovoadas, o céu sempre baixo, carregado de água. As nuvens abatem-se sobre o rio e os apartamentos enchem-se de um estranho calor húmido. Lá fora, abafa, quase parece uma noite de Verão, a brisa é ligeira e as gotas da chuva rodopiam à roda da luz. Puxo as calças do pijama que insistem em descair e observo a rua. Os prédios, de quatro andares, têm uma cor que nunca consegui definir. Verde acastanhado ou castanho esverdeado. Há roupa a secar nos estendais: calças, camisas, meias, toalhas, lençóis. No segundo andar do prédio em frente, um rapaz descasca uma laranja e atira as cascas para a rua. Mais acima, a sombra que espiei na noite da passagem de ano continua a fumar. Desvio o olhar para as oliveiras da praceta, fixo o canteiro onde crescem fetos e patas de cavalo. Entre os fetos, uma mancha amarela, luminosa, mas pouco nítida. No canteiro há quatro ou cinco bolbos antigos de açucena que todos os anos, pela Primavera, florescem muito perfumados. Talvez este ano tenham florido mais cedo por causa do calor. Amanhã, quando sair, logo cedo, apanharei uma flor para colocar no solitário que está no aparador da sala. Ficará aquela haste cheia de campânulas, libertando doces aromas, mostrando-me uma beleza pura. Olho o relógio. Meia-noite. Vim cedo para o quarto, devia ter ficado mais algum tempo na cozinha, não sei bem a fazer o quê, talvez a arrumar a gaveta dos talheres. Depois de arrumar tudo, ainda pensei em ler os folhetos dos supermercados, no entanto, a ideia de acabar o dia sentada à mesa da cozinha, comparando preços, pareceu-me triste. Volto a observar o canteiro. Afinal enganei-me... As açucenas não floriram. Que pena... A mancha amarelada que se vê no canteiro é apenas uma fronha caída dos estendais. Olhando o pedaço de pano, vem-me à memória um detalhe que julgava esquecido: a cor do vestido que Isabel, mãe de um colega do meu filho, usou numa festa de final de ano lectivo. Era, recordo, um vestido drapeado, com ombros largos, exactamente daquela cor, um amarelo vivo, cheio de brilho. Estranho a recuperação da minha memória. Há tantas coisas de que gostaria de recordar, e, do nada, por causa de um pedaço de pano, fui lembrar-me da cor do vestido de uma desconhecida.

2016/01/03

Sobrancelha esquerda

Comprei uma garrafa de vinho verde, um maço de cigarros e uma caixa de bombons recheados com licor. À uma da manhã, já tinha fumado metade dos cigarros e bebido a garrafa de vinho. Nem dei pelo ano passar. Foi por essa altura que comecei a sentir saudades do João Pedro. Fiquei num pasmo silencioso a olhar para a parede da cozinha, atenta à sujidade nas juntas, aos desenhos dos veios vermelhos no brilho lacado dos mosaicos. Depois sentei-me à secretária e escrevi-lhe um longo mail, cheio de palavras vulgares, frases vulgares, a dar-lhe conta do meu amor e explicando o que faria se o apanhasse na cama. Bebi um resto de vinho que tinha no frigorífico (acho que de pacote), fumei um cigarro e decidi deitar-me. Apesar de trôpega, fiz um saco de água quente. A minha cama é grande e não consigo adormecer com os pés frios. Despi-me e enfiei-me debaixo do edredão. Adormeci rapidamente. Às cinco da manhã, acordei com falta de ar. Levantei-me com dificuldade. Aos encontrões pelo corredor, caminhei até à cozinha para ir buscar a bomba da asma. Inalei três vezes, o suficiente para dilatar bem os pulmões. Vi-me reflectida nos vidros da porta, cabelo despenteado, nua da cintura para baixo, com a bomba da asma na mão. “És a mulher mais patética que existe à face da Terra”, pensei. Voltei ao quarto, já sem falta de ar, mas cada vez mais zonza. A meio do corredor, perdi o equilíbrio, caí no chão. Ao tentar amparar a queda, apoiei-me na estante. O gato de loiça, comprado em Jaipur, caiu da última prateleira. Bateu primeiro na minha cabeça e depois partiu-se no chão. Fiquei deitada, na penumbra, a dizer palavrões, triste por se ter partido o gato de loiça. Algo de muito violento explodiu dentro de mim e comecei a chorar aos soluços. Através da janela do quarto da minha filha, conseguia ver os prédios em frente. Numa varanda, debruçada no parapeito, uma mulher fumava. Ao vê-la, apenas um vulto, uma sombra, parei de chorar. Levei a mão à testa e percebi que sangrava. Voltei à cama. Acordei como acordo depois de noites de bebedeiras solitárias. Envergonhada, humilhada, mas, deste vez, com um golpe na cabeça. Um golpe aberto, mesmo por cima da sobrancelha esquerda. 

The Platters

2016/01/02

45

Fui à Culturgest, assistir ao concerto de Ano Novo da Orquestra Metropolitana. Ao meu lado, Gema, uma senhora de cabelo bem arranjado e camisola bordada, mexeu-se com alegria ao som de valsas e polcas. A determinada altura, ensaiou mesmo um magnífico bailado com as mãos: movimentos cheios de sedução burlesca que me fizeram lembrar Nanni Moretti, entre croissants e croquetes, a dançar enquanto espia a Silvana Mangano na televisão. A sua alegria contagiou-me de tal forma que ignorei a mulher sentada à minha frente. Passou o tempo a fazer comentários arrogantes sobre como se percebia que o público, pelas suas reacções, não percebia nada de música clássica. Pobre mulher, tão empertigada na sua culturazinha de merda, horrorizada por o povo desconhecer a etiqueta do aplauso. Foi um belo serão. Mas, apesar da alegria de Gema (ouvi o marido chamá-la pelo nome, também o vi pousar-lhe a mão nos ombros), valsas e polcas não me fizeram esquecer “Smoke gets in your eyes”, dos Platters. O olhar da Charlotte Rampling enquanto, depois de 45 anos de casamento, dança com o marido. Assim que cheguei a casa, descalcei-me, pus o cd a tocar e dancei para o gato. 

Amanhã

Virado a sul, com uma grande janela de vidros de correr e caixilhos de alumínio, o quarto é a divisão mais quente da casa. Maria sente o ar pesado, o calor agarra-se à pele e parece empastar-lhe o cabelo. Volta a sentar-se na beira da cama. Respira fundo. Pensa no dia de amanhã. Logo cedo, tem aula de hidro-ginástica na piscina. Não se pode esquecer de levar os chinelos, custa-lhe sentir nos pés a água suja do chão do balneário quando não os leva. Durante a manhã, continua a pensar, precisa de telefonar ao canalizador para ver a infiltração na marquise da sala. Um fio de água aparece no tecto, mesmo por cima da trepadeira de folhas enceradas, escorre pela parede e desagua no chão de tijoleira. À tarde, se não estiver muito calor, talvez pergunte à Graça se não quer ir consigo às compras. A toalha plastificada da cozinha precisa de ser substituída e já há algumas semanas que o marido se queixa do ruído das cadeiras da sala, riscando o soalho. Comprará também borrachinhas novas para os pés das cadeiras. Se a ourivesaria da avenida não estiver fechada, talvez mande alargar a aliança. Continua a apertar-lhe o dedo. Maria sente-se entusiasmada com a perspectiva de ter um dia preenchido, mas, ao pensar no instante em que entrará na loja e pedirá as borrachas para meter nos pés das cadeiras, não é capaz de deixar de sentir uma íntima tristeza. Olha em volta. O seu quarto reflecte uma coerência que não a aborrece, pelo contrário, tranquiliza-a.

2015/12/31

América do Sul

No último dia do ano, fui ao psiquiatra. Estupidamente, tão estupidamente, pediu-me um balanço de 2015. Respondi-lhe que foi um ano de viragem, não pelo livro, mas porque a cura da minha depressão se iniciou e voltei a sentir-me bonita. Sou bonita, sou muito bonita. Já não é mau. Eu sou da América do Sul/ Eu sei, vocês não vão saber/ Mas agora sou cowboy/Sou do ouro, eu sou vocês/ Sou do mundo, sou Minas Gerais. Depois, ainda mais estupidamente, pediu-me resoluções para 2016. Respondi-lhe que quero foder muito, escrever muito, voltar a Goa e aprender a falar francês. Também quero o João Pedro, mas isso não lhe disse. Quero amá-lo, senti-lo inteiro, em cima de mim, nem que seja nos intervalos da sua vida. Assumir este amor, obsessivo amor, envergonha-me. Minto ao meu psiquiatra.

2015/12/30

Saudade

Ontem, antes de adormecer, enfiada na cama com o gato, li um conto da Sylvia Plath de que gostei bastante. No conto – “Caixinha dos desejos” –, Agnes vive angustiada por, ao contrário do seu marido, não ser capaz de reter os sonhos. Esquece-os, apenas lhe ficam sensações vagas, imagens desfocadas, borrões surrealistas. Não sei se foi do conto que li, mas esta noite sonhei muito. Tudo no sonho me pareceu belo, intenso, mas compreensível. Escrevo agora, ao final do dia e, mesmo assim, as imagens continuam a aparecer nítidas: uma loja de bules e cafeteiras de loiça (o Tea Corner em Margão), um rio de caudal largo, águas claras, luminosas (o Zuari que passa depois da várzea), um caminho escuro que atravessa uma floresta de árvores de folhas largas (o caminho que o meu pai fazia com a tia Amália para a escola). No sonho, atravesso a floresta de bicicleta, mas tenho dificuldade em equilibrar-me porque numa das mãos levo um tacho de comida para a tia Rosu (a mais velha dos irmãos, passava os dias deitada num catre imundo, a fumar charutos, a casa esquecida, os filhos ramelosos, o marido bêbado). Sei que tudo no sonho da noite passada está relacionado com Goa. A verdade é que, nas últimas semanas, tenho pensado muito em Goa. Os meus olhos ficam húmidos, as minhas veias estrangulam, sinto um peso no peito. Definho e entristeço. Tivesse eu dinheiro e compraria um bilhete de avião, entregava os miúdos aos cuidados do Reinaldo e fugia para Maina. Sinto falta do meu pai, da sujidade, da confusão, da neblina das queimadas, das vacas do Marlindo, do quintal a perder de vista, da Ligorina varrendo o chão, dos padres de batina, das chamuças compradas ao final da tarde, dos prédios feios de Margão, das pernas das minhas tias balouçando no alpendre, de almoçar no Tatu, de falar com o Rafael, meu tão querido Rafael, de escutar a sua mulher, Marianinha, rezar com fervor. Não aguento passar outro ano sem voltar a Goa. Na noite passada, o meu subconsciente, talvez querendo atenuar essas saudades, dolorosas saudades, foi um bom amigo: levou-me de volta para a minha Índia.

2015/12/29

Fome

As compras do mês eram sempre feitas na CoopAbril, a cooperativa de consumo que ficava no Largo dos Anjos. O dia do avio mensal era um dia particularmente alegre na vida de cada um de nós. Era certo e sabido que eu e os meus irmãos ganharíamos alguma guloseima. A minha tia, responsável por elaborar a lista de compras, alegrava-se por, depois de tanta solidão, ter uma família. Até o meu pai se alegrava: perante a significativa poupança que fazia ao comprar na CoopAbril esquecia nesse dia (só nesse dia!) o seu ódio à revolução. Mas é a alegria da minha mãe que melhor lembro. Recordo-me de a ver empurrar o carrinho pelos corredores da cooperativa com um entusiasmo febril que se notava nos olhos risonhos e no desembaraço dos gestos. Desde o instante em que escolhia um carrinho sem rodas perras até à hora em que, empoleirada num banquinho, recebia das minhas mãos frascos, pacotes, latas e os arrumava nas prateleiras mais altas na despensa, a minha mãe sentia uma exaltação de conforto e bem-estar. Era, percebo-o agora, uma alegria de causa definida, essa que sempre lhe chegava no dia em que, com a longa lista de compras feita pela minha tia, seguia connosco para o edifício da cooperativa. É que nesse dia, sobretudo nesse dia, a minha mãe esquecia a vergonha da fome disfarçada que passou na infância. Olhando as prateleiras cheias, sabendo que não tinha de fazer contas à vida para comprar tudo o que precisava e não precisava, alegrava-se com a certeza de nunca mais voltar a sentir fome. Hoje, rondando o Largo dos Anjos, olhando a garagem onde, na minha meninice, ficava a CoopAbril, depois de me despedir do Tiago, dei-me conta que a minha mãe envelhece e que isso não me deixa triste. 

Istambul

O sol entrou pelas janelas do quarto e iluminou a pele nua do homem. Nesse momento, de assombração, esqueci o João Pedro. Houve qualquer coisa na luz, muito forte, entrando pelos vidros, que me fez esquecê-lo. Desejei que fosse para sempre.

2015/12/28

Musguinho na pedra



(Que alegria, descobrir uma canção.)

Miudezas

No Pingo Doce do Parque das Nações, mesmo em frente do talho, à boca do corredor dos detergentes, há um pequeno escaparate com livros. Entre obras de Jodi Picoult, Júlia Pinheiro e Pedro Chagas, costuma estar também um exemplar do último livro do José Luís Peixoto. É lá, no Pingo Doce do Parque das Nações, enquanto dou instruções ao talhante vesgo - “ Deixe as miudezas, tire a cabeça e corte o coelho aos pedaços.” ou então “Quero uma perna de peru, mas, por favor, desossada.” -, que, aos soluços, tenho lido o último livro do José Luís Peixoto. A virgem e os pastorinhos. Os pastorinhos e a virgem. É uma leitura adequada para quem espera. Ligeira, irrelevante, sem chegar a ser propriamente desagradável. Às vezes, porém, interrompo a leitura para olhar a vitrina e as bancadas onde as carnes são arranjadas. Não percebo de cortes de carne, não sei  avaliar se a carne que o rapaz vesgo me dá é boa ou má, mas gosto da sua luva de malha metálica, do ruído de facas e cutelos, de certos vermelhos desmaiados.

2015/12/27

Cerejeiras

No festival literário da Gardunha conheci o Pedro Eiras. Também há coisas boas nos festivais literários. Levou para o festival a mulher e as filhas. É um homem gentil, usa t-shirts às risquinhas, fala pausadamente, sorri muito, às vezes, fecha os olhos enquanto conversa. Comprei na altura o seu romance sobre Bach. Ainda não o li, porém, desde então, sempre que escuto Bach, lembro-me do Pedro. No dia de Natal, sozinha, a caminho de casa do meu irmão, escutava no carro os Concertos de Brandenburgo. A música erudita é um bálsamo na minha vida, mas continuo a sentir-me uma intrusa quando a escuto. Perante tanta beleza, tão extraordinária e sublime beleza, eu, descrente, ateia convicta, quase acredito em Deus e acho que isso diz muito sobre as minhas contradições. Parada numa rua feia da Alta de Lisboa, os prédios de habitação social sujos de fuligem, paredes grafitadas, olhando os negros que fumavam à porta do café Milenuim, pré-disposta a agoniar-me com os risos dos meus sobrinhos e o borburinho distante das conversas sobre Inglaterra, lembrei-me da descida da serra da Gardunha: campos de cerejeiras carregadas de frutos, eu e o Pedro sentados no pequeno autocarro ao lado do condutor, em conversa animada; atrás, a Sandra, a sua mulher, morena silenciosa e muito bonita, as filhas observando a paisagem. 

2015/12/26

El Cigala




2015/12/22

Natal

Ao fim da manhã, desconcentrada, com o nariz a pingar, olhos embaciados, interrompi o trabalho para ler dois contos de Tchekhov. Retirei da mala a edição de bolso que trago sempre comigo, simples e levezinha, comprada há alguns anos na Pó dos Livros. Durante dez minutos, o meu gabinete transformou-se: o vento soprou palavras de amor ao ouvido de Nádia e Pavel Ivanitch, funcionário velho, feio e muito parvo, correu ao pavilhão na expectativa de ali se encontrar com uma jovem loura de nariz arrebitado. Voltei a enfiar o livro na mala. “É incrível o poder da boa literatura!”, reflecti enquanto me levantava. Soltei as cuecas que se haviam enfiado no rego do rabo e pintei os lábios de vermelho. Muito regalada, consoladinha, saí depois para comprar uma agenda nova e vender à D. Maria de Jesus as duas últimas libras de ouro que me restavam.

2015/12/18

Sheila



Beijinhos paternalistas

O Joaquim acabou o dia com o livro das quarenta ilustrações das canções do Sérgio Godinho. Passámos a noite no youtube. Respondi aos pedidos dos meus filhos. A Madalena pediu "Dancemos no mundo" e "Etelvina". O Joaquim pediu "O Galo é o dono dos ovos", "Charlatão", "Os demónios de Alcácer Quibir", "Alice no país dos matraquilhos", "O  coro das velhas" e "Barnabé". Senti-me tão feliz, capaz como mãe, e, como sempre acontece quando escuto o Sérgio Godinho, tive com os meus filhos conversas absurdas:

-É o meu amor!
- Ó mãe...
-A sério, é o amor da minha vida!
- E o pai?
- O pai?! Credo.
- E o João Pedro?
- O João Pedro é o segundo amor da minha vida.
- És louca!
- Não sou. O Sérgio Godinho só me deu coisas boas! 
- Ó mãe!
- Desde os meus dez anos! Não há amor igual!
- E casavas com ele?
- Claro!
- Apesar dele ser um velho?
- Gosto de velhos. 

Nos entretantos, lembrei-me dos marmelos na fruteira da cozinha. Compro marmelos para os ver apodrecer.

2015/12/17

Half crazy



Suzanne takes you down to her place near the river /You can hear the boats go by /You can spend the night beside her /And you know that she's half crazy /But that's why you want to be there /And she feeds you tea and oranges /That come all the way from China /And just when you mean to tell her /That you have no love to give her/ Then she gets you on her wavelength/ And she lets the river answer / That you've always been her lover /And you want to travel with her /And you want to travel blind / And you know that she will trust you / For you've touched her perfect body with your mind. 

2015/12/16

Lustre

Uma vez por mês, a pesada mesa de pau-preto era afastada para um canto da sala de jantar. A minha mãe colocava o escadote no meio da divisão e subia até ao último degrau. Assim empoleirada, procurando manter o equilíbrio, com um pano na mão, muito cuidado, limpava, um a um, os pingentes do lustre da sala de jantar. A tarefa, de tão delicada, exigia-lhe paciência. Passava o pano embebido em Ajax por cada pedaço de vidro, esfregando-os até que, libertos do pó acumulado de muitos dias, voltassem a brilhar. Estava naquilo muito tempo, seguindo uma ordem pré-estabelecida: começava por limpar a fila maior, junto ao tecto, ia descendo a cascata de vidrinhos até chegar à fila mais pequena que rematava com uma enorme bola de vidro. Quando terminava a tarefa, baixava os braços de cansaço. Talvez olhasse pelos vidros da janela e observasse, nos apartamentos do prédio em frente, outras mulheres que, como ela, arrastavam, limpavam, varriam, repondo, num afã dominical, a ordem do lar. Imagino que a comunhão com essas outras mulheres a entristecesse um pouco. Como eu, a minha mãe sempre foi muito sentimental, um pouco dramática, sempre sentiu um desejo de fuga. O periquito, com os seus guinchos, despertava-a desse torpor de reflexões inconsequentes. Ainda empoleirada no último degrau do escadote, chamava por mim. 
- Anita, filha, vem depressa acender a luz!
 Vinda do quarto, o coração acelerado, acorria ao chamamento: sabia que me aguardava um instante de maravilha, mas também o desempenho de uma tarefa importante. Assim que acendia a luz, a minha mãe sorria. 
- Já viste Anita? Dá uma trabalheira limpar estes vidrinhos todos, mas vê como agora reflectem tantas cores!
Era verdade. Cada pedaço de cristal, como se de um pequeno sol se tratasse, reflectia todas as cores que eu conhecia: verde, lilás, vermelho, amarelo, laranja, azul. Semicerrava os olhos e, focada num dos brincos de vidro do grande lustre, procurava apenas o lilás. Gostava naquela altura do lilás. Era a palavra que designava a cor, tão diferente das outras, e a indefinição, a fluidez entre o roxo e o violeta. Se um pingente não reflectisse o lilás era sinal de que, na sua azáfama diligente, a minha mãe se descuidara e o deixara coberto de pó. 
- Aquele ali não brilha, mãe!- Dizia-lhe e apontava para o local onde teria de voltar a passar o pano.
- Vá, agora, apaga a luz. Não podemos desperdiçar electricidade! É muito cara. - Respondia quando eu me calava, finalmente saciada de lilás. Eram tempos diferentes, de carestia, com cinco contos enchia-se um carrinho de compras, mas comíamos muitas vezes massa com atum, fatias de beringela panada, fiambrino, açorda de tomate. 
Obedecia à minha mãe, carregava no interruptor, desejando que anoitecesse depressa para voltar a procurar o lilás no lustre da sala de jantar. Às vezes, porém, antes que desligasse a luz, a minha mãe pedia-me que aguardasse um pouco. Descia então do escadote e, sorrindo de um modo diferente, andava também ela à volta do candeeiro. Nesse instante, percebia que as angústias da minha mãe, os gritos que tanto me magoavam durante as discussões com o meu pai (vou lá acima e atiro-me cá para baixo!), enfim, toda a sua tristeza e raiva eram compensadas pela satisfação de ver o lustre da sala de jantar bem limpo. A minha mãe já não sorria para mim, sorria para a luz colorida dos vidrinhos. Espiava-a nesse arrepio de alheamento, sorrindo, esquecida de mim e dos meus irmãos, esquecida do meu pai, da tia Dé, esquecida de tudo e de todos. Olhava para a minha mãe encadeada pela luz e amava-a mais e mais e mais. 

2015/12/12

2015/12/10

Cruzamento

No bairro do Armador, no cruzamento em frente da bomba da Repsol, por voltas das oito da manhã, costuma estar um homem a apontar as matrículas dos carros que por ali passam. O homem, velho e muito preto, usa botas de cordões desapertados e, esteja frio ou calor, veste sempre um casaco com capuz e forro quente. A pele do rosto é lustrosa e, de tantas horas ali passadas, imagino um cheiro de suor, urina, sujidade. Estou tão habituada a passar todos os dias pelo velho das matrículas que já pouca atenção lhe dou. A loucura só impressiona a início. Com o passar do tempo, uma pessoa habitua-se a tudo, à violência, também à loucura. O louco da rua Júlio Dinis também já não me causa estranheza. O pobre, escanzelado, muito sujo, de longas barbas imundas, é conhecido de toda a gente. A dona do café prepara-lhe o almoço. O magrinho que trabalha na farmácia e a judia da joalharia arranjam-lhe cigarros. O sapateiro, se o encontra mais sereno, fala-lhe de futebol. O cauteleiro brâmane, homem de muita prudência, recomenda-lhe calma. O louco fala sozinho, anda aos ziguezagues, delira. Muitas vezes, grita com violência, mas quem ali vive ou trabalha, no cruzamento da Júlio Dinis com a 5 de Outubro, trata-o com indiferença. Às vezes, lá de vez em quando, aparece um turista mais impressionável. Vendo o louco passar aos gritos, o turista pára de caminhar e, paralisado, fica a olhar para ele como se dissesse “Olha, vai ali um louco!”.  Sempre que isso acontece, nós - eu, a judia da joalharia, a dona do café, o magrinho da farmácia, o cauteleiro brâmane - paramos também. Não para olhar o nosso louco, mas para olhar o turista.  É a reacção do turista, espantado, amedrontado, mexendo nervosamente nos compartimentos secretos da sua fantástica mochila, que estranhamos.

Vermelho



Ao rever este filme, de que gosto tanto, percebi que a minha vocação, mais do que o meu destino, é ser só. Amo um homem que não me ama. Amo-o desde o dia em que pousou a cabeça no meu colo como se fosse um filho. Amo-o com uma certeza íntima e um ardor ambíguo. Às vezes, é um ardor feliz, outras vezes, não. O meu amor, porém, só lhe dá tesão ou talvez nem isso. É bastante triste.

2015/12/05

2015/12/04

Rapaz

A mulher parece um pombo: patas finas, plumagem cinzenta, peito insuflado. Cada vez que grita, chamando nomes ao árbitro, olha em redor, cheia de satisfação. A sua raiva incontida, primitiva e boçal, diverte-me mais do que me incomoda. Já o árbitro, lá em baixo, de olhar plácido, não consegue disfarçar o desconforto. Os seus gestos são tensos, parece um animalzinho ofuscado pela luz, hesita antes de erguer o braço para mostrar um cartão vermelho. Presto atenção ao jogo. Sigo movimentações, passes, remates. O Joaquim está sentado ao meu colo, a Dá encosta-se a mim e, assim, colada ao meu corpo, vai tirando fotografias. Beijo um, depois outro. Cheiro um, depois outro. Atento no chiar dos ténis dos jogadores no chão encerado do pavilhão. É um ruído estranho. Ouve-se uma buzina a marcar o fim da primeira parte. O João olha disfarçadamente para a bancada à nossa procura. Há muito tempo que não vínhamos assistir a um dos seus jogos. Acenamos-lhe. Mandamos beijinhos repenicados, gritamos o seu nome. Fingindo arrelia, o meu rapaz sorri.

2015/12/02

Entropia

Ia pela 5 de Outubro, a cabeça no  poema que ontem li, quando me cruzei com o nazi gago, a beata careca e o gato das botas. Não vinham juntos, não, isso não. Encontrei um, depois outro, outro mais adiante. Continuam na mesma: o tempo não corrompeu as suas particularidades invisíveis. Quando os conheci, há muitos anos, se a lua se mostrava redonda e amarela, vinham à janela e uivavam juntos ao luar. Era bonito de se ver. A coincidência de encontrar o nazi das botas, a beata gaga e o gato careca na mesma rua, enquanto pensava em entropias poéticas e outras frivolidades, não me surpreendeu. A poesia, ensinou-me o meu amigo Ricardo Álvaro, não é um laço, é uma gravata colombiana.

Air




2015/11/29

Gato



2015/11/27

Abstinência

Para me livrar do longo período de abstinência literária, uma amável desconhecida aconselhou-me, via facebook, um livro do Miguel Real. Larguei um “foda-se!” para dentro, bebi, de trago, o vinho que restava no copo e acendi outro cigarro.

Cleópatra




2015/11/26

Caminho

À beira da estrada que atravessa a montanha, num pequeno canteiro lamacento, uma mulher coloca pés de arroz na terra. Sozinha, vestida com um sari puído, já sem cor definida, a mulher é uma sombra, um traço quase invisível. Traz um alforge imundo a tiracolo. Desse alforge tira os rebentos, depois, de forma mecânica, enterra-os na lama. A visão da mulher causa desconforto. Costumo ser indiferente à miséria dos outros, centrada que vivo na minha pequenez, mas qualquer coisa naquela mulher me desarma. Talvez seja o alforge imundo ou a certeza de que os seus pés gelam dentro da água. O meu incómodo dura pouco. A habitual egolatria alcança-me como uma flecha certeira. Já os abutres, no céu de nuvens baixos, voam em círculos, à espera do banquete. Na estrema do terreno, perto de uma palafita de chapas de zinco, avista-se uma bananeira de folhas largas. O verde dessas folhas, atravessado pelo sol, é de tal forma esplendoroso que, perante tanta beleza e harmonia, rapidamente esqueço a miséria da mulher enterrada nas lamas. Sinto um doce aperto no peito, uma vontade passageira de chorar. 

2015/11/25

Gunga Din

Li a mensagem do Tiago a desmarcar o nosso encontro. Fiquei irritada. Quem é que escreve a palavra “miasmas” numa sms? Senti-me também estúpida, muito estúpida. De manhã, por causa dele, maquilhara-me com cuidado, escolhera o sobretudo cintado preto e os sapatos de saltos altos que comprei em Bilbau. São bonitos, mas apertam-me os joanetes. Para me livrar da irritação, decidi ir ao cinema. Ao meio-dia, no Monumental, vira no jornal, passava “Um anjo sentado à minha mesa”, da Jane Campion. Saí a correr do escritório. Caminhei apressadamente enquanto falei com a minha irmã ao telefone. Falámos da nossa mãe, do aniversário do Pedro, dos bilhetes para a festa de Natal. Cheguei cansada, cheia de dores nos pés. Na parede do Monumental, um cartaz anunciava a reposição das três cores do Kieslowski. Dezembro vai ser um mês bom: hei-de rever o velho juiz, com ele beberei copinhos de aguardente de pêra.  Era capaz de amar um velho assim, que me confessasse, não as suas glórias, mas a sua mesquinhez, não a sua força, mas a fragilidade porosa dos seus ossos. Um velho que me oferecesse copinhos de aguardente de pêra. Mal as luzes da sala se apagaram, libertei-me dos sapatos de saltos altos. Aguentei o filme durante três horas. Não é grande coisa. A actriz que faz de Janet Frame, com as suas momices de louca, irritou-me. Adormeci quando é internada no hospício. Ando cansada e os estereótipos dão-me sono. Os loucos não são assim. Acordei com o grito de uma anã. Voltei a acompanhar a história da escritora neozelandesa. Janet já não tem os dentes podres e conhece um velho escritor que gosta de apanhar banhos de sol nu. O velho dá-lhe vários e preciosos conselhos para que possa desenvolver a sua arte. “Tens de libertar-te dos subúrbios. Não podes escrever no meio de acomodados e burgueses”, diz o velho. Que parvo! Na confortável escuridão da sala de cinema vazia, ri-me de tamanha estupidez. Há velhos e velhos. Quando o filme terminou, contrariada, voltei a enfiar os pés nos sapatos de saltos altos. À saída, a luz de inverno animou-me. Parei no Galeto. Comi dois croquetes ao balcão. Bebi uma imperial. Voltei para o trabalho. No cruzamento da Avenida da República com a João Crisóstomo, num semáforo, perdi a capa de um salto. Continuei a andar. Manca e dorida. Ao bater nas pedras da calçada o salto do sapato fazia um estranho ruído metálico. Lembrei-me do bico de um melro a bater no vidro do carro do meu pai, numa manhã de neblina, em Goa. Para não me esquecer, para nunca me esquecer, sentindo o frio no rosto, repeti para dentro: Dylan Thomas, Gunga Din, Dylan Thomas, Gunga Din, Dylan Thomas, Gunga Din…

2015/11/19

Amendoim

Deixei o último romance da Elena Ferrante a meio. De repente, sem perceber muito bem a razão, deixei de ter interesse na história de Lina e Lenuccia. Passou um mês. Desde então, para além de um pequenino livro do Amos Oz sobre fanatismo (“tornei-me escritor por causa da pobreza, da solidão e dos gelados.”) e de alguns poemas de Álvaro de Campos, lidos na vã tentativa de os explicar ao meu filho João, não li nada. Mesmo nada. É como se uma bruxa me tivesse lançado um feitiço. Sinto um vazio, um vazio que me paralisa e estupidifica, mas que não consigo contrariar. Em vez de ler, vejo televisão: novelas, concursos e programas de culinária. Vejo também alguma pornografia, sem grande entusiasmo, mais por desfastio do que propriamente por necessidade. Ontem, pensando neste longo período de desintoxicação literária, enquanto experimentava uma receita que aprendi na televisão – barras de chocolate preto com amendoim salgado -, percebi finalmente como posso livrar-me do vazio, desta incompreensível e absoluta desnecessidade de ler.


2015/11/18

Noite

2015/11/13

Mar

Não pego num livro há mais de três semanas. Não sou capaz. Ler faz-me sentir e faz-me pensar. Não quero sentir e não quero pensar. Quero ser apenas engraçadinha. Desejo, sem condescendência ou paternalismos, ser a rapariga que ontem seguia na carruagem quase vazia do comboio. Tinha formas voluptuosas, unhas em garra e um lindo cabelo escuro. Saiu na estação de Entrecampos. Não tenho fé, nem sei rezar, mas acredito na salvação. Uma evidência: o facto de desprezar os crentes que conheço não tem de me afastar de Deus. De manhã, a caminho da escola, o Joaquim disse:
 
- As rotundas das cidades, de todas as cidades do mundo, são lugares tristes.
 
Acho que o meu filho tem razão. As rotundas das cidades, de todas as cidades do mundo, são lugares tristes. Nanni Moretti olhou-me de frente enquanto ajeitava o laço. Beijei-o na boca, depois no feio nariz, por fim nos olhos cansados. Sou uma casa habitada. Não conheço a geometria da solidão. No domingo, quando o Reinaldo vier buscar os miúdos, meto-me no carro e vou ver o mar. Quero muito ver o mar: chegar à beirinha da água, arregaçar as calças, largar meias e sapatos, molhar os pés.

2015/11/12

Goldmonexx

Não tenho dinheiro para me aguentar até ao final do mês. Enquanto não chega o cartão de crédito que pedi, fui à Goldmonexx, na Amadora, penhorar duas libras de ouro e a salva de prata que um tio do meu ex-marido nos ofereceu quando casámos. Esperava encontrar atrás do guichet de vidro, de nariz adunco, olhos malvados, uma velha parecida à que atormentava Raskólnikov. Imaginei a velha, má, cínica, diabólica, ali, na Goldmonexx da Amadora, a esfregar as mãos de contente quando me visse entrar, pobre mãe de família, envergonhada dos seus apertos. Quando dei de caras com um homem de meia-idade, cabelo branco e ralo, feições regulares, vestido com um simples pulover preto, senti alguma desilusão. Novamente dei conta de que a literatura deturpa – e de que maneira! – a realidade. Na vida real nem os prestamistas têm ar de prestamistas. Apesar do aspecto desinteressante, da ausência de fibra literária, o homem  foi amável e eficiente. Fez-me assinar um papel e, sem conversas, passou-me um rolinho de notas que me apressei a enfiar no bolso invisível da mala.

Apanhei o comboio de volta para Lisboa. Na carruagem quase vazia, vendo os subúrbios passar, pensando no  bilhetinho que à noite escreveria ao Joaquim, senti-me tranquila, em paz, liberta de preocupações. Assumir a minha miséria afinal não custou nada. É só dinheiro. Depois de anos sombrios, de tão pesada angústia, acho que sou finalmente feliz. É um sentimento estranho. Não estou habituada a sentir-me assim. No próximo mês, precisando, vendo as pulseirinhas, os fios, os crucifixos que as tias do meu ex-marido ofereceram quando os miúdos nasceram. “Cristo salva!”, costumavam dizer as tias nos seus conciliábulos. Cristo salvar-me-á: não na cruz, mas na pequena balança digital do homem da Goldmonexx.

2015/11/04

Cheiro

Comem as papaias, as mangas, as vagens do tamarindo, também os frutos das pequenas árvores que o tio Filipinho plantou junto do muro rendilhado. Roubam as aparas de coco que secam ao sol. Às vezes, anda a Juanita a estender roupa, aparecem de surpresa e, atrevidos, talvez imitando gestos observados nos homens da aldeia, levantam-lhe a saia do sari. Gritam permanentemente. Quando o fazem mostram dentes raiados de castanho e as altas gengivas muito cor-de-rosa. Durante a tarde, em vez de procurarem uma sombra, juntam-se em cima do telhado, grupos de quatro ou cinco, e, como se fossem gente, falam animadamente. O Moreno e a Michelle, que vivem no apartamento do primeiro andar, andam com os nervos à flor da pele. Queixam-se que não conseguem dormir a sesta. Pediram por isso à tia Maria que, no piso térreo, mandasse preparar o quarto que era do tio Babai. Um quarto amplo, junto da cozinha, habitado por cristos padecentes e nossas senhoras de olhar triste. Já o meu pai, cansado dos trabalhos nas repartições públicas de Margão, dorme sossegado. Liga a ventoinha, deita-se, fecha os olhos. Conta que, apesar da distância, consegue sentir o cheiro da minha mãe. Concentrado nesse doce cheiro, o cheiro da minha mãe, rapidamente adormece. Não escuta a alegria dos macacos que desceram da montanha e invadiram a aldeia.

2015/11/03

2015/11/02

Renda preta

O Miguel vem a Lisboa na próxima semana. Mandou-me um mail a dizer que gostava de almoçar comigo. Não ando com cabeça para almoços, mas estou disponível para encontrar-me com ele, ao final do dia, num hotel ou numa pensão limpinha. Não me deito com um homem há muito tempo. E preciso. Avisei-o que, se aceitar o meu convite, terá de ser ele a pagar o quarto. Nos últimos meses, por causa dos manuais escolares, dos aniversários dos rapazes, das múltiplas inscrições em actividades extra-curriculares, das vacinas para o gato, do arranjo do carro, tenho pouco dinheiro. O meu amigo ainda não me respondeu, mas eu já fui adiantando serviço: tirei o buço, os pêlos das pernas, das axilas e das virilhas. Os meus ombros estão dourados do sol. Decidi que, se nos encontramos, usarei as cuecas de renda preta que comprei para ir a um festival literário. Imaginava que, à semelhança do que acontece lá fora, os festivais literários portugueses eram locais de animado convívio. A Mila chegou a dizer-me que alguns, mais a norte, eram mesmo uma pouca-vergonha de fornicação e bebedeiras. Acreditei no que a minha querida amiga me disse e, ingénua, fui na expectativa, não só de escutar poetas, escritores, editores, jornalistas da especialidade, mas também de, a um ou outro, mostrar as minhas cuecas de renda preta. Ouvi intervenções interessantes, passei a admirar ainda mais certos escritores (e a detestar ao ponto da náusea e da regurgitação outros), conheci homens inteligentes, amáveis, sedutores, mas sexo que é bom e faz tão bem à saúde nem vê-lo. A desilusão que apanhei foi de tal ordem que, na volta, meti as cuecas de renda preta no fundo da gaveta e jurei não voltar a um festival literário. Nunca mais voltei a usá-las. Na próxima semana, se deus-nosso-senhor quiser, volto a dar-lhes uso. Quando me despir para o Miguel, quando desapertar lentamente os botões das calças, as cuecas de renda preta cumprirão finalmente o seu destino: serão mostradas a um escritor.

2015/11/01

Kramer