2006/09/18

À janela (4)


Bombaim, 1993 (Steve Mccurry)

À janela (3)

O pior é que, quando um homem acaba de limpar uma cozinha, esta parece estar limpa, mas, na verdade, não está. É uma ilusão. Continua suja. Sujíssima. Conspurcada. As bancadas estão cheias gordura e de migalhas. Há manchas de sujidade por baixo do tapete. Não tocou sequer no fogão. Está tudo fora do sítio. Desordenado. O chão não foi varrido, muito menos lavado. É por estas e por outras, pela inabilidade total para fazerem coisas simples, que os homens não se comparam às mulheres. As mulheres fazem tudo o que, até há pouco tempo, estava reservado aos homens. Trabalham, ganham dinheiro, têm carreiras. Depois, quando chegam a casa, fazem aquilo que se lhes continua a exigir: tomar conta da casa, orientar a empregada se a tiver, arrumar, limpar, esfregar, cuidar dos filhos, educar os filhos, vestir os filhos, fazer as compras, fazer o jantar, fazer máquinas de roupa, estender a roupa, preparar os almoços da escola, passar a ferro. Eu sei que alguns homens vão ajudando nestas tarefas. Mas o facto de se limitarem a ajudar, de não assumirem essas tarefas como suas, só demonstra a sua menoridade. Um homem pode ajudar a mulher a limpar a cozinha, mas não lava o chão, não arruma armários, não arruma a despensa; um homem pode ajudar um filho com os trabalhos de casa, mas não sabe que roupa ainda lhe serve, se é preciso comprar-lhe cuecas ou camisolas interiores. Os homens são o que são. Servem para o que servem. Para pouco mais. São uma espécie em vias de extinção. Acabarão por ser eliminados. Como os dinossauros. Mais cedo ou mais tarde, tornar-se-ão dispensáveis, descartáveis. Mesmo para o coito, se hão-de arranjar alternativas.

À janela (2)

Um homem é capaz de limpar uma cozinha sem sujar, sem molhar as mãos, o que, convenhamos, não é fácil. Pura e simplesmente, não toca nessa coisa mole, nojenta, geralmente de cor amarela, de consistência duvidosa que é o esfregão da cozinha. Limpa as bancadas com o rolo de papel ou, em alternativa, com guardanapos. O pano de limpar a loiça serve para tudo. Ás vezes até serve para limpar o chão. Se, por algum azar, alguma coisa cai no chão, não hesita em colocar estrategicamente o tapete em cima da mancha em vez de ir buscar o balde e a esfregona. Depois, gosta de enfiar toda a loiça que encontra dentro da máquina de lavar. Aquela que não consegue enfiar dentro da máquina, geralmente tachos e panelas, fica estrategicamente em cima da bancada, com um bocadinho de água no fundo. "É para amolecer", justifica-se. No final, é ela, a mulher, que acaba por lavar os tachos e as panelas. Quando termina a sua herculea tarefa, o homem faz um ar de satisfação, quase de imbecil, de quem fez um enorme favor à pobre mulher. É que a obrigação não era dele, não senhor, era dela. Ele, ser magnânimo, qual monarca absoluto, dignou-se apenas a ajudá-la naquela tarefa. Como quem dá uma esmola. No fundo, bem lá no fundo, acha que a mesma não se adequa à sua masculinidade, ao facto de ter um pénis no meio das pernas.

À janela (1)

Espreito pelos vidros da janela da sala. Estão sujos, cheios de dedadas, de marcas de mãos pequenas e gordurosas. Ainda não aprenderam que devem lavar as mãos depois das refeições. Lá fora, está escuro. Não vejo pessoas. Apenas carros. No prédio em frente, um casal novo movimenta-se numa divisão pequena. Deve ser a cozinha. Ela parece estar a lavar loiça. Ele saltita à sua volta. Assemelha-se a um gafanhoto verde-seco e pequeno, igual aos que me saltavam para as pernas quando, menina, mergulhava tardes inteiras nas searas que ficavam atrás da casa dos meus avós. Como a maior parte dos seus pares, o homem-gafanhoto do prédio em frente deve ser um incompetente, um inapto para o desempenho das tarefas domésticas. Regra geral, há que reconhecê-lo, os homens são incompetentes. Em tudo. Ou quase tudo. Até nas coisas mais simples, como, por exemplo, limpar uma cozinha.

2006/09/13

Cassia Angustifolia

Cássia. Sempre tive um certo orgulho neste meu nome. Por o associar à Santa Rita de Cássia e também àquela actriz brasileira muito gira, a Cássia Kiss. Sucede que esta semana comprei um chá, cuja composição é cem por cento folhas de cassia angustifolia. Rejubilei. Um chá com o meu nome (cássia) e com o meu desequilibrado estado espírito (angustia + folia = angustifolia). Achei-me merecedora de tal homenagem. Estive vai não vai para bater palminhas no corredor das infusões e dos outros produtos dietéticos igualmente desinteressantes. Chegada a casa quis saber que propriedades teria aquele chá, já que o pacotinho, de forma lacónica, apenas dizia que consistia num bom complemento a uma alimentação saudável e à prática regular de desporto. Imaginei, juro que imaginei, a cassia angustifolia com propriedades maravilhosas, rejuvenescedoras do espírito e do corpo. Uma espécie de elixir da juventude. Qualquer coisa entre o ginseng e a cannabis. Qual quê. Bastou uma busca pelo google para descobrir que cassia angustifolia é nome de um pequenino arbusto da Índia, cujas folhas - imagine-se ! -, são, desde a antiguidade, utilizadas para preparar infusões para quem sofre de constipação intestinal ou cujo bolo fecal se encontra há vários dias empedernido. Ou seja, para falar claro, a tal cassia angustifolia apenas tem poderes laxativos. Descobrir-se, aos trinta e muitos, que se tem nome, não de santa, mas sim de purgante é coisa odiosa.

2006/09/11

Impulso

Na livraria, enquanto procuro um livro, uma mulher, que acabou de entrar, cantarola. Não cantarola baixinho. Cantarolo alto. Esse é que é o problema. Há sítios, como as livrarias, que exigem sossego. O cantarolar da mulher deixa-me à beira de um ataque de nervos. Juro. O meu primeiro impulso é dizer-lhe “Ò minha puta do caralho, porque é que não vais comprar livros do nicholas sparks para o continente?”. Mas não. Conto até dez. Procura acalmar-me. Tivesse eu um victan à mão e já o tinha posto à boca. Olho em volta à procura de apoio. Nada. Um homem, com a ilustríssima profissão estampada no rosto, chafurda num código qualquer e um velho, de barbas brancas e traços angulosos, folheia um livro de heráldica. Aparentemente ninguém nota aquele cantarolar diabólico. Ou, pior, notando-o, ninguém se incomoda. Acanho-me. A minha irritação traduz-se apenas num olhar fixo e num “ai, ai, ai” ameaçador. A mulher dá-se conta do meu estado de espírito. Sai da livraria calmamente, sem nunca deixar de cantar, numa notória atitude de provocação. Puta. A sorte dela é que, felizmente, eu tenho um controlo extraordinário sobre os meus impulsos.

2006/09/08

Mendiga e altiva

Esta noite sonhei com deus, que é como quem diz, sonhei com o Chico Buarque. Vindo directamente do seu país, com um séquito pequenino de gente subserviente, o Chico Buarque está instalado no meu gabinete da Caixa. Eu não tiro os olhos do computador e faço um esforço enorme para ignorar a sua presença. Qual formiguinha aplicada, dedilho, com excessiva aplicação, o teclado. Ele, sentado, noutra secretária, olha-me com calma. Durante muito tempo. “Pôxa, você não pára nunca de trabalhar?”, diz, por fim. Eu, estupidamente empertigada, sem tirar os olhos do computador, respondo-lhe: “Apesar de não gostar do que faço, pagam-me para trabalhar, percebe?”. Ele sorri, aquiescendo com a cabeça. Levanta-se, depois. Deambula pelo gabinete. Bisbilhota códigos e sebentas. Olha para os andaimes do prédio em frente. Tamborila com os dedos no parapeito. Pega no livro que ando a ler e que repousa em cima da minha secretária. Um livro que, juntamente comigo, aguarda o fim do dia e o regresso a casa. Toca na capa nacarada e macia, com as letras amarelas do título que esvoaçam como borboletas agrilhoadas. “Você anda lendo esse livro?” Antes de lhe dar a resposta acordei. Acordei no preciso momento em que o Chico Buarque percebia que, atrás da minha capa ordinária de seriedade e dignidade, afinal eu era, eu sou, uma pessoa interessante. Voltei a adormecer, desejando que ele voltasse. Mas não. Escapou-se. Cansado das paredes tristes do meu gabinete, foi passear para o sonho de uma vagabunda qualquer.

(Obrigado Manelinho por, ainda que contrariado, me teres emprestado o livro do Albert Cossery. Não fora tal livro e o Chico Buarque ter-me-ia tomado por uma qualquer.)

2006/09/07

Rocky Balboa

São dois. Um pequenote negro e um gigante eslavo com mais de dois metros. O pequenote nada tem de especial. É um homem igual a tantos outros. Já o gigante faz lembrar um dos adversários do Rocky Balboa, aquele muito ruço, de cabelo curto e olhar glaciar. Aquele de calções vermelhos - no cinturão, a foice e o martelo -, mau como as cobras. Soviético, claro está. No final do combate leva um murro e fica estatelado no chão do ringue, enquanto o Stalone saltita, vitorioso ao som duma canção do James Brown. Andam por ali, nas estruturas dos andaimes, como se nada fosse. Agora mesmo, enquanto escrevo, um deles está empoleirado numa viga, a um altura correspondente a um décimo andar, a apertar porcas e parafusos. Fico com o coração nas mãos. Não me deixam trabalhar. Não tarda nada vem parar um cá abaixo. Vou-me embora. Não gosto de assistir a desgraças.

Aranhas

Da minha janela vejo o antigo edifício da rtp. Durante algum tempo esteve abandonado. Para além dos seguranças, apenas foi habitado pelo sem-abrigo que vive, rodeado de cães, num dos corredores que dá acesso a um parque de estacionamento. Consta que o edifício foi comprado. Parece que vai sem transformado num hotel zen ou coisa que o valha (hotéis zen, cafés lounge, sushi, sashimi, spas, unhas de gel, resorts, viagens temáticas, restaurantes temáticos, depilação a laser, roteiros gastronómicos, in, out, detesto a sofisticação, o pechisbeque do mundo que habito). Durante a última semana vários homens têm estado a montar os andaimes. Usam capacetes, coletes reflectores, cintos, luvas. Têm no rosto os traços do mundo. Africanos, eslavos, portugueses, paquistaneses. Com uma perícia extrema, com calma, montam peça sobre peça. Parecem aranhas. A estrutura cresce como uma teia habilmente tecida. Por vezes, enquanto esperam que outra peça chegue pelo elevador, descansam. Encostam o corpo às vigas de metal e olham para baixo. Observam, sem grande interesse, a avenida que, rotineira, se movimenta. Não sabem que alguém os observa. Acontece-me, por vezes, não conseguir tirar os olhos deles. Montar um andaime não é tarefa fácil. Exige coragem. É como andar à beira de um precipício. Invejo-os. Gostava de trabalhar com as mãos. Gostava de olhá-las e ver nelas calosidades, asperezas, notar-lhes cheiros. Sentir nelas o cansaço de um dia que termina.

2006/09/06

Rosita

(Tenho pavor de cães. Tirando isso, vai correr tudo bem.)

2006/09/04

Castidade

Pela manhã, na secretaria do colégio da Madalena, enquanto aguardava que a irmã Estela me atendesse, topei com um quadro bordado a ponto cruz: enorme, com os dez mandamentos bordados a linha dourada. Deve ter sido feito por uma das outras irmãs. A irmã Livração ou a irmã Alice. Descobri que o quarto ou o sexto mandamento é o seguinte: guardar castidade nos pensamentos e nas obras. Li-o e reli-o. Desde pequena que os meus pensamentos são tudo menos castos. Aos seis anos já eu me masturbava a pensar em mamas e em cus. Por volta dos dez roubava as revistas que o meu irmão escondia por baixo do colchão, muito pouco castas, e lia-as avidamente. Depois foi a adolescência. E depois o resto. Porém, desde há uns tempos para cá, a castidade deu conta dos meus actos e pensamentos. Isso enfurece-me. A castidade é uma coisa medonha. Só os parvos e infelizes são castos.

Valquíria (3)

Só um cão vadio que por ali andava se apercebeu daquele corpo pequeno vindo das alturas. E isso era estranho. Até para um cão que não conhece as subtilezas da vida e da morte. No ar voam pássaros, insectos, sacos de plástico, papéis velhos. Não senhoras velhas e pequenas. Ladrou o cão. Ladrou muito. Como nunca ladrara. Um ladrar furioso. Ao mesmo tempo assustado. Chamadas por aquele ladrar as pessoas começaram a sair das lojas e dos cafés. Também os transeuntes que regressavam a casa, os apressados e os muito apressados, pararam, levemente irritados com a interrupção que, por força daquele ladrar, se atravessava na sua rotina. Pouco tempo depois estava formada uma multidão pequenina perto daquele cão que perto daquele carro ladrava sem parar. Ninguém percebia a razão pela qual o bicho não se calava. Até que um homem furou a multidão. Era um homem jovem. Vestia um fato escuro e uma gravata clássica. Tinha ar de director de qualquer coisa. Devia trabalhar num dos edifícios de escritório que ficavam nas proximidades. Olhou para o cão. Apagou com a biqueira do sapato um cigarro que atirou para o chão. “O que é que esta senhora está a fazer sentada no meu carro?”. As pessoas entreolharam-se, depois olharam para o carro. Só agora davam conta de que naquele carro estava sentada uma mulher velha. Parecia dormir. O cão calou-se. Tinha cumprido a sua missão. Furou a multidão e continuou a andar pelo passeio.

2006/09/01

Valquíria (2)

A mulher caiu, sem provocar ruído, em cima de uns estofos de pele branca que amorteceram a queda. O seu corpo encaixou-se na perfeição num dos bancos do automóvel. Assim ficou: sentada, as pernas levemente abertas, um braço apoiado na porta, a cabeça caída para a frente, os olhos fechados, como se um cansaço qualquer lhe tivesse tomado conta do corpo. Quem por ali passava não se apercebera de nada. Àquela hora tardia, as ruas começavam a esvaziar-se. Alguns grupos de homens juntavam-se ao balcão dos cafés. Bebiam copos bojudos, grávidos de cerveja, e passavam os olhos pelos jornais desportivos. As poucas pessoas que se cruzavam com aquele carro não se apercebiam que lá dentro estava uma mulher morta que se acabara de atirar do décimo andar de um prédio de escritórios. Parecia apenas adormecida. Outras pessoas passavam aceleradas, com urgência de voltar a casa, e não olhavam sequer para o carro. Não que as esperasse alguém especial ou algo importante. Tinham, tão só, pressa de terminar aquele dia para que outro se iniciasse. Isso conferia-lhes um sentimento, naturalmente injustificado, de imprescindibilidade. Em vez de gente sentiam-se peças metálicas de uma engrenagem que nunca podia parar. Um dia depois de outro. Um dia igual a outro. Sempre na mesma cadência.

Valquíria (1)

Preciso de descansar, pensou a mulher. Depois, deixou-se cair. Não pensou em nada. Não pensou em ninguém. Porventura, naquele exacto momento, ninguém estaria a pensar nela. Havia assim uma justa reciprocidade na ausência de lembrança. O corpo desenhou uma espiral ao cair. Como se fosse uma pena ou uma folha. Não caiu a pique. Nem com a rapidez própria dos corpos que têm determinado peso. A mulher era velha, de estatura pequena, muito leve. Leve como uma pena. Demorou exactamente cinco segundos a chegar cá baixo. É muito tempo para um corpo. Caiu em cima de um carro estacionado à porta de uma pastelaria. Um carro refulgente de modernidade, preto, descapotável.

2006/08/31

Picoas

Este Verão deu-me para olhar para as mamas das outras mulheres. Se os homens valorizam tanto as mamas, alguma razão hão-de ter para que, por causa das ditas, ignorem o resto. Passei por isso a espiar-lhes o tamanho, a flacidez, assim, de esguelha, como quem não quer a coisa. Hoje, no metro, topei com uma rapariga negra. Uma miúda típica dos subúrbios, com o cheiro de bairro social entranhado na pele. Feia, a pele manchada, o cabelo mal alisado, teso como um carapau. Usava umas calças de cintura descaída que deixavam a descoberto uma barriga flácida e uma camisolinha de licra, de alças finas, muito justa ao corpo. Pelo decote saltavam umas mamas cor de ébano, grandes, empinadas, rígidas, túmidas. Pareciam seres vivos, com vontade própria. Dir-se-ia que não tinha sido a rapariga a escolher mostrar as mamas, mas sim as mamas que tinham decidido mostrar-se, ordenando ao corpo da rapariga que as levasse para a rua. Fiquei estupefacta. Eram dignas de se ver, aquelas mamas. Olhei para as minhas, sempre tão negligenciadas, e prometi-lhes maior atenção, algum cuidado, um sutian talvez..

2006/08/30

Casamento debaixo de chuva


(É tempo de monções do outro lado do mundo.)

2006/08/28

As cabras capadas (2)

O problema das cabras inférteis é serem cabras inférteis e analfabetas. Muitíssimo carolas. Umas aventesmas dotadas de uma carolice quase alvar, digna de piedade. Porém, se a gente pensar bem no assunto percebe que há nisto a mão divina. Aliás, quanto mais penso, mais sou levada a crer que Deus, Nosso Senhor, Pai de todos as criaturas terrestres, existe mesmo. Porque se Deus não dotou de fertilidade estas caprídeas mulheres (cujos balidos ecoam, em bando, furiosos, pela blogosfera, fazendo béééé) é porque, munido da sua grandiosa perspicácia, percebeu que as suas lanosas vaginas serviam para ser penetradas por apelativos caralhos, de glandes refulgentes e escrotos cheios, mas nunca, jamais, para franquear a chegada de crianças a este mundo. Há mulheres que não têm condições para educar uma criança. Deus, Nosso Senhor, percebendo isso, capou-as. E capou-as muito bem. Coitaditas. Tão desesperadas para ter um filhinho, pequenino e ranhoso, para amar e Deus, Nosso Senhor, esse malandro, esse monstro impiedoso, a não deixar.

As cabras capadas (1)

A minha irmã foi vilipendiada, no seu berloque, por um bando de cabras inférteis. É digno de se ler. É o que dá ter comentários no blog. Ter comentários num blog é o mesmo que deixar aberta a porta da nossa casa e deixar entrar no nosso espaço, mexer nos nossos objectos, gente que vai ao teatro ver espectáculos da Teresa Guilherme, gente que lê livros da Margarida Rebelo Pinto e afins, gente que gosta da Rita Ferro Rodrigues e da Margarida Pinto Correia, gente que participa em eventos como a mais bela bandeira do mundo, gente que vive em Agualva-Cacém e vai para Quarteira e Armação de Pêra passear, debaixo do ordinário sol algarvio, nalgas esturricadas, cheias de celulite e estrias. Eu não vou sequer ao blog da mana que é para não me irritar. Já me bastam as outras ralações da vida. O problema das cabras inférteis não é serem cabras. As cabras são até bichos engraçados, do meu agrado, dotados de uma altivez própria e genuína. Não é, claro está, serem inférteis. Infelizmente, como se sabe, a infertilidade é mal de que padecem muitas outras mulheres. É uma maleita injusta, tão pesada, dos nossos dias.

Algarve

Durante as férias fui assolada por um ataque agudo de imbecilidade e deixei o meu Alentejo sossegado de colinas pequeninas para passar uns dias no Algarve. Ao terceiro dia fugi. Abalei. Só sosseguei quando voltei a ver planícies, sobreiros, casas caiadas de branco. Quando voltei a apanhar figos nas árvores velhas da estação. Quando vi os miúdos, descalços, em pijama, correr a casa da prima Laura, a buscar pimentos, cebolas, tomates e coentros para o almoço. Quando dei com eles a arrancar as flores da minha mãe para plantar espinafres, couves tronchudas e alfaces. Durante o tempo em que agonizei no Algarve lembrei-me de um texto que escrevi a propósito de um outro assunto e que acima edito (chama-se "As cabras capadas" e é, desculpai-me a modéstia, uma pérola do insulto gratuito). É que, para além do resto, que já é mau, péssimo mesmo, o Algarve está cheiinho de cabras capadas e de outras que, o não sendo, deveriam ser submetidas a um programa de esterilização para não deixarem descendência. Não posso com o Algarve. Uma amendoeira, árvore tristonha a fazer lembrar princesas níveas e lacrimosas, tem lá comparação com um sobreiro?!

2006/08/04

Bombaim

Steve McCurry, 1996