2007/09/24

Murakami

A rapariga diz para o amigo que o seu escritor preferido é o Murakami. Fez, por causa dele, um curso de escrita criativa durante o Verão. Depois de o frequentar, diz, sente-se apta a escrever um romance e a tornar-se escritora. Eu ouço-a em silêncio e esbofeteio-a em silêncio. Sou muito discreta. Uso as luvas de silicone que trago sempre dentro de uma bolsinha juntamente com um penso higiénico. Nunca se sabe quando nos pode aparecer o período menstrual. Também nunca se sabe quando podemos dar de caras com um novo candidato a romancista. O melhor é prevenir e andar sempre com um par de luvas de silicone. É para não deixar rasto. Impressões digitais e coisas de género. Volto a sovar a rapariga que gosta do Murakami. Também lhe arranco vários tufos de cabelo. E vazo-lhe uma vista com o salto dos sapatos novos de camurça.

Praça do Comércio

Amanheci na Praça do Comércio. Uma praça fechada ao trânsito, por ser domingo, vazia de gente e de vida, com um palco triste lá ao canto, um balão de ar quente murcho e um carrinho de pipocas. Não há nada como prometer imbecilidades durante as campanhas eleitorais.

2007/09/22

Kate Bush - Wuthering Heights

(quando chega o Outono volto ao Monte dos Vendavais, livro com cheiro de urze.)

Anis

Mudei de mesa convencida de que o cheiro que me entrava pelas narinas, intenso e insuportavelmente doce, provinha da velha que, sentada na mesa de trás, bebia um galão pingado e comia um pastel de nata. As senhoras velhas têm muitas vezes cheiros assim, doces e intensos. Tomam banho em perfumes e águas-de-colónia das lojas chinesas. Usam roupas que cheiram a estrelas de anis. Sentada na outra ponta do café preparei-me para retomar a leitura do jornal. Preciso de ler pela manhã o jornal em sossego, sem distracções visuais ou olfactivas. Passado pouco tempo o cheiro voltou. Olhei em redor. Funguei. Farejei. Abri e fechei as minhas narinas caninas. Inalei o ar. Insultei baixinho a pobre senhora que, na outra ponta, continuava a comer o seu pastel de nata com lentidão. Desejei que lhe caísse a dentadura para dentro do copo de leite. Uma vingança por largar aquele cheiro nauseabundo de loja dos trezentos pelo café, um cheiro que começava a entrar-me no corpo, que já se colara à minha roupa e ao meu cabelo. Quando cheguei à página da necrologia percebi que era o jornal que largava aquele cheiro. Era. Fui à tabacaria reclamar. Exigi que me trocassem o jornal, que não o conseguia ler, que era uma vergonha venderem um jornal com um cheiro daqueles. A menina da tabacaria, muito recta, escutou-me em silêncio, mostrando-me as suas magníficas unhas de gel com brilhantes incrustados. Depois disse que não se trocavam jornais. Se fosse uma revista, ainda fechava os olhos, agora um jornal não podia aceitar. Peguei no jornal com as pontas dos dedos e sai da loja. Deitei-o fora no primeiro caixote do lixo que encontrei. Entrei no elevador que dá acesso ao parque de estacionamento para fugir daquele cheiro. Antes das portas se fecharem entrou a velha senhora que minutos antes eu fuzilara com o olhar no café. Sorriu-me, depois deu uma bufa ruidosa e saiu no menos dois.

2007/09/21

Nadia Comaneci (1)


Nadia Comaneci

O ginásio é antigo, de madeiras escuras, tectos altos com estuque trabalhado. Há retratos dos primeiros presidentes da colectividade pendurados nas paredes. Senhores gordos, com bigodes retorcidos e cabelo puxado com brilhantina. Em Cuba, imagino, deve ainda haver muitos ginásios como este, com cheiro de óleo de cedro. Só que, em vez de praças cheias de autocarros, hão-de dar para praças com jacarandás e rosas-da-china e mulheres velhas que vivem em prédios descarnados e usam medalhas com la virgen de la caridad. Ao fundo, um palco, guardado por reposteiros pesados de veludo cor-de-vinho, acumula o pó das memórias e dos mortos. Um grupo de meninos ensaia saltos do trampolim sobre o plinto. Outro grupo faz exercícios de tapete. Pinos. Rodas. Cambalhotas. Quatro janelas largas deixam entrar a luz serôdia do final do dia. É uma luz amarela que ameaça com trovoadas. Reparo nas argolas e nas barras paralelas, nos colchões já velhos, cansados de tantos saltos, tantas acrobacias. A minha filha, aninhada aos meus pés, calça as sapatilhas em silêncio. Não se amedronta por ser a sua primeira aula. Tem corpo de ginasta. É pequena e esguia. Depois de receber as indicações do professor avança para o fim da fila e espera a sua vez. Espanta-me o desembaraço dos meus filhos. Donde lhes vem a confiança e a calma para enfrentar o mundo e os outros? Duas meninas mais velhas falam com ela. Uma pega-a ao colo. A minha filha sorri. Quando chega a sua vez faz três cambalhotas seguidas. É o único exercício que sabe fazer. Depois arrebita o rabo e levanta os braços. Tal como lhe ensinei. Parece uma Nadia Comaneci pequenina, cabriolando no ginásio cubano que fica no Poço do Bispo.

(no y de hoje uma reportagem sobre as power mun, ou lá como é que lhes chamam, as mães bloguers, artesãs, informadas, licenciadas, pós-graduadas, citadinas, que gostam de tricotar cachecóis e de cozer pão. Odeio-as. O que não é de estranhar porque eu desprezo quase toda a gente. Com excepção da Rosa e da Ana, acho-as todos uma parolas, muito dadas ao retro, ao vintage, ao feltro, aos sabonetes ach brito, à amamentação de longa duração e a concertos de música alternativa para bebés.)

Pavão

Só os ingénuos acreditaram na reacção do pavão. As mãos postas em concha, o olhar para cima, como que a pedir perdão por ter marcado um golo em Alvalade. O C. Ronaldo está-se nas tintas para o Sporting e para os sportinguistas. Não o censuro. Eu também estou. Agora é claro como a água que aquela atitude foi encenada, foi pensada, foi desejada, foi estudada. Ficou bem nas primeiras páginas dos jornais. Vê-se logo que o tipo quis imitar o Rui Costa, quando, jogador do Fiorentina, chorou por ter marcado um golo ao Benfica. Só que o Rui Costa é o Rui Costa, nele tudo é genuíno e verdadeiro. Desde as malas Louis Vuitton até às lágrimas e às palavras. Os olhos dele são meigos e pingam o amor que tem pelo Benfica. Eu gosto do Rui Costa.

(também gosto do Petit, mas por razões completamente diferentes.)

2007/09/19

Radiohead - Knives Out

Sócrates

Continuo a encontrar ratazanas do rio quando a noite cai. São sempre três e estão sempre no mesmo local. Já me lembrei que, se calhar, são sempre as mesmas ratazanas que, num gesto de cortesia, me querem cumprimentar. Se tivesse coragem aproximava-me das terríveis bichas e dizia-lhes assim “Em vez de me atazanarem os treinos ide para a zona ocidental da cidade. Lá atentai num homem de plástico, que parece quase humano, de boa figura, que corre sempre com dois seguranças. Quando o virdes, mordei-lhe as canelas com fúria, tasquinhai-lhe as carnes macias, que é para ver se perde aquele sorriso de tolo e deixa de fazer corridinhas para aparecer nos jornais.”

Kaczynski

Acreditem ou não, eu sei que parece anedota, mas a Polónia obrigou a UE a desistir do dia europeu contra a pena de morte. Assim se mede a força de um país. Continuará a existir um dia europeu para os vizinhos (é no dia 29 de Maio) mas não um dia europeu contra a pena de morte. Grandes gémeos Kaczynski. Assim é que é.

Kouchner

Andam, numa roda-viva, a tentar ler na entrevista de Kouchner, MNE da França, aquilo que o homem não disse. Ele não apelou à guerra contra o Irão, nem defendeu uma atitude belicista, de assumida agressividade unilateral, inspirada na política americana. Limitou-se a alertar para o perigo concreto que representa o Irão (só os tontos, muito tontos, desvalorizam esse facto) e num plano abstracto, a colocar a hipótese da guerra. A guerra ou a intervenção militar, como alguns preferem chamar-lhe, é uma hipótese que deve ser equacionada como qualquer outra. Mas, enfim, a esquerda estava à espreita. Era necessário, quanto antes, crucificar Kouchner, esse malandro traidor que cedeu aos encantos da direita populista (é como a esquerda, a chique e a moribunda, chama ao governo francês).

2007/09/18

Amanhecer (2)

Não sou capaz de me olhar nas vitrinas das lojas, nem nas vidraças das entradas dos prédios. Invejo cada pessoa que passa. Invejo a mulher de cabelos compridos, bem penteada, bem maquilhada, com cheiro de luxo. Desce a rua e leva pela mão uma menina feia, que usa sapatos azuis de fivela. Invejo também o homem, de fato escuro, que, ainda com o cabelo molhado, sai de um prédio que tem uma porta de ferro. Deve ser advogado, gestor, auditor, director de qualquer coisa. Também tem cara de dentista. Cruzo-me com duas mulheres de bata branca e lenços brancos. Falam alegremente. As palavras fogem-lhes, felizes, da boca. Entram num restaurante. Devem ser cozinheiras. Também gostava de trabalhar com as mãos. Não são umas mãos muito hábeis, as minhas, mas gostava que desempenhassem outra tarefa que não bater as teclas de um computador. Podia ser cozinheira. Eu gostava. Ou jardineira. Ou mulher-a-dias, usar um avental branco, trabalhar num apartamento de luxo para um casal de sucesso. Trabalhar nas obras, colocar tijolo, cimento, estucar, ladrilhar, rebocar, pintar. Gostava de acabar o dia com o corpo fisicamente cansado e saber porquê. Continuo a andar. Sinto que é tarde. Tarde de mais. Esta frase – é tarde de mais – é fatalista, tão pouco bonita; é frase de folhetins, frase comum nos romances cor-de-rosa. Que se lixe. É o que sinto. Olho para o viaduto da Avenida da República. Por baixo das estruturas de betão cor-de-rosa, os carros, que vão para Entrecampos, passam apressados. Quem dali saltar tem uma morte santa, imediata, aparatosa, quiçá até com direito a uma notícia pequena nas páginas do Correio da Manhã ou do 24 Horas. Ao chegar à minha rua, no semáforo, cruzo-me com caras, rostos, traços que reconheço dos meus dias. São as pessoas que, como eu, apanham o comboio das nove e seis. Entro no meu edifício. Passo o cartão pela máquina. Aparece o meu nome, escrito em letras de luz vermelha. O torniquete abre-se. Entro.

Amanhecer (1)

Chego cedo à estação. Apanho o comboio das oito e cinquenta. Vem cheio. No Oriente, esvazia-se de gente. Sento-me perto da janela. A mulher, sentada à minha frente, dorme profundamente. Tem a cabeça encostada ao vidro. Da boca sai-lhe um bafo morno que embacia o vidro. As pernas dela tocam as minhas. Tem os dois pés em cima do degrauzinho que fica por baixo da janela. As colunas do comboio vomitam baixinho uma música de feira. É bonita, distante, fantasmagórica até. Lembra-me outros tempos. Parece o som de um realejo. Um carrossel, uma pista de carrinhos de choque, maçãs caramelizadas, algodão doce, uma máquina de ler a sina, o poço da morte, o comboio fantasma, pipocas, um palhaço com balões coloridos, outro que faz malabarismos com bolas amarelas e vermelhas. Vejo o rio cinzento, espelho de transparências e luz. Marvila. Chelas. O cemitério do Alto de São João assoma-se do alto de uma colina. Ciprestes e lápides brancas. Ao lado, erguem-se uns prédios amarelos, novos, altos, feios. Parecem feitos de papelão. Se chover muito, se vier aí uma tempestade, daquelas que uivam e ribombam, o papelão ensopar-se-á e os prédios tornar-se-ão numa papa mole, castanha, que desaguará nas águas e servirá de alimento às tainhas e às medusas brancas do rio. Não me apetece ir trabalhar. Também não me apetece continuar dentro do comboio. Saio na estação anterior. Quero andar. Sempre gostei de andar. O frio da manhã morde-me mansamente as carnes do rosto. Ando rapidamente. Penso. Questiono-me, também. Não me compreendo. Os gestos, os silêncios, o enfado, as omissões, a posição inadequada, fazem de mim um ser estranho, alguém que propositadamente se coloca à margem da vida e dos outros.

2007/09/17

Paris Texas

Notas Soltas

1) A Ana Sousa Dias apresenta no RCP, pelo final da tarde, um programa que se chama Janela Aberta. A Ana, que encontro por vezes no talho e na charcutaria da D. Rosa a pedir cento e cinquenta gramas de queijo fatiado, não tem jeitinho nenhum para apresentar programas generalistas de rádio. 2) O Luis Filipe Borges tem qualquer coisa de Pedro Abrunhosa. Tento imaginar como são os olhos do Abrunhosa. Também tento imaginar como será o cabelo do rapaz da boina. Desconfio que ou é careca ou sofre de problema capilar grave, tipo dermatite seborreica. 3) A Fátima Lopes escreveu o seu segundo romance. As montras da Bertrand estão cheias de pirâmides do seu livro. No comboio, já apanhei duas senhoras, quase febris, em estado de alienação, bebendo as suas palavras. Folgo em saber-nos um país de tantos e tão bons romancistas. 4) A RTP está, ao que parece, a fazer uma retrospectiva dos filmes do Nanni Moretti. Não avisaram ninguém. No sábado, ia tendo uma síncope cardíaca quando percebi que perdi meia hora de um dos seus primeiros filmes “Bianca”. Não se faz. 5) Fui à bola ver o Benfica. O Benfica ganhou e o Rui Costa é o melhor jogador do mundo. Só tenho pena de não ter provado uma sandes de coirato. 6) Consta que os Led Zeppelin vão voltar. Odeio-os. Insisto: são uma prova inquestionável da inferioridade dos homens. Não conheço uma única mulher que goste dos tipos. 7) A Paula Moura Pinheiro voltou de férias. É, de longe, a mulher mais gira da televisão portuguesa. Se fosse homem ou lésbica apaixonava-me perdidamente por ela. É linda.

2007/09/16

Desabafo

Há blogs chatos. Insuportavelmente chatos. São os blogs-masturbatórios. Não tenho nada contra a masturbação. Aliás, pratico-a, com regularidade e sofisticação, desde que me conheço. Sou uma grande defensora da masturbação. A sério. Mas uma pessoa deve masturbar-se com recato. Os blogs-masturbatórios são insuportáveis porque, para além do infundado onanismo que suscitam em quem os escreve - escrevo bem, sou culto(a), atento(a), emprego palavras difíceis, leio tanto, escuto tanto, vejo tanto -, querem dar nas vistas. Fazem lembrar aqueles exibicionistas que andam nus de gabardina nos corredores do metro. Volta e meia abrem o casaco e, com espavento, mostram-se. A gente olha e reolha. Fecha os olhos e torna a abri-los. Porém, apesar do aparato, só vê uma pila murchinha, triste e insignificante.

Outono

Sento-me junto da vitrina do café e observo. Naquela janela, entre dois vasos de gerânios, um velho muito velho come devagar uma laranja e atira, descarado, as cascas para a rua. Em jeito de provocação, lança a quem passa um sorriso trocista. Ali, uma mulher, que fala ao telemóvel, passeia um cão branco, atarracado, de orelhas pontiagudas. Agacha-se o bicho mesmo em frente da entrada de uma loja de utilidades domésticas. Deixa uma espiral de fezes mole no meio do passeio. A dona continua a falar ao telemóvel. O animal vai agora mais ligeiro. Nota-se pela maneira como corre. Trota como se fosse um cavalinho anão e orgulhoso. Como são burros os animais. Quase tanto como a maior parte dos homens. Acolá, uma mulher traz o corpo cansado. Os pés inchados enfiados nuns chinelos de corda. A criança que se aninha no seu colo atrasa-lhe o passo. A mulher quer andar mais depressa para apanhar o autocarro que vem apinhado de gente. Não consegue. Sentam-se as duas, mãe e filha, no banco da paragem. Ali ficam. A mulher descansa por breves instantes. Sabe-lhe bem aquela paragem no dia. A menina, de mil tranças, come um chocolate e atira o papel para o chão. Aquelas pessoas, as que estão do lado de lá do vidro, sem saber, fazem-me companhia.

(Caíram os primeiros dias outoniços. Trouxeram trovoadas e chuvas.)

2007/09/15

José

Estava triste, tão triste, com vontade de morrer, depois escutei-o e renasci. Ouvi-lo é, em mim, infinitamente mais eficaz do que tomar um victan ou um xanax.

A Morte Saiu à Rua

O peso dos dias

rotina: s. f., caminho já trilhado e sabido; hábito de fazer as mesmas coisas ou sempre da mesma maneira; fig., uso geral; prática constante; índole conservadora ou oposta ao progresso; aversão às inovações; norma estabelecida e fixada por escrito, existente em empresas e no funcionalismo público, que regula as relações departamentais e hierárquicas; fluxo de informação e actuações gerais a levar a cabo sempre que se apresenta determinada situação.
Pesa-me a rotina dos dias iguais. É como se os dias da minha vida tivessem sido produzidos em massa. Em fábricas assépticas, reluzentes. Todos com o mesmo peso, a mesma forma, o mesmo rótulo, as mesmas cores pardacentas. Inodoros, com um sabor indefinido, aguado. Pouco apetecíveis. Como uma chávena de chá morno. Não gosto de chá. Nada mesmo. Água quente sem sabor, sem cor, sem cheiro. Dias iguais. Sempre iguais. Iguais como os pacotes de leite, de farinha, de açúcar, que se enfileiram, aprumados, nas prateleiras dos supermercados. Pesam-me os silêncios, as ausências. Às vezes, tenho a sensação que dentro do meu corpo habita um bicho voraz que se alimenta da minha tristeza. Uma espécie de tumor que cresce à medida que os dias passam iguais. E se um dia o bicho-tumor tomar conta de mim? E se um dia ele rebentar dentro de mim, espalhando, pelos meus órgãos, tecidos, artérias, pedaços putrefactos dos meus dias?