2007/02/27

Tamarindeiro

Uma tarde, no balcão, com as crianças brincando aos nossos pés, a tia Maria disse que parecia que eu sempre vivera em Goa. O tapete amarelo de areca secava junto do portão e, ao longe, o tamarindeiro assomava com a sua copa de folhas pequeninas. Fingi que a não ouvi. A tia Maria - a preferida de Salazar, como lhe chamavam na escola -é uma dessas pessoas que tem a rara capacidade de dizer sempre o que os outros querem ouvir. Continuei a olhar para as crianças. As palavras da minha tia resvalaram na minha indiferença, ganharam asas e, como pássaros pequenos, fugiram para longe. Para a copa do tamarindeiro. É lá que se escondem todas as palavras-pássaro que saem da boca da minha tia. A verdade, porém, é que em Goa nunca me senti estranha. Nada me causou repulsa ou nojo ou agonia ou comiseração. Nem o clima, os mosquitos, a pobreza, a sujidade que muita gente, torcendo o nariz, em jeito de aviso, me assegurou grassar por toda a parte. Goa entrou dentro do meu corpo. Derramou-se em cores, com todos os seus excessos e encantos, na minha vida. Como se fosse uma pessoa.