2012/05/05

El enanito (2)


O regresso do meu amigo animou-me. Costumávamos dar belas passeatas ali pela Almirante Reis, encontrávamo-nos pelo meio-dia na esquina do Banco de Portugal, descíamos a avenida até ao Martim Moniz, comíamos qualquer coisa ao balcão, era, quase sempre, um prego e um copo de vinho verde no quiosque do chinês vesgo, depois, subíamos de novo até ao Intendente à cata de prostitutas, heroinómanos, chulos, alcoólicos, velhas de pele curtida; olhava-os como se fossem objectos preciosos, raridades de feira, tirava notas numa agenda, o meu amigo ria-se do meu entusiasmo, mas não o estranhava, percebia que por ali passava a minha emancipação. No final, acabávamos a tarde na Pensão S. Miguel, no quarto 27, tinha uma cama estreita, que nos chegava; num varandim enferrujado, duas floreiras com petúnias floridas disfarçavam o cheiro de mijo antigo que chegava da rua. Ele, a meio da entretenga, às vezes, dizia gostar de mim sobretudo por eu precisar da miséria dos outros para viver. Toda a gente tem válvulas de escape para aguentar a vida, mas a tua é de uma sofreguidão e tristeza que me comove. Deixava-o fazer análises, que fingisse à vontade ser discípulo de Freud se isso lhe enchia o ego, mas, sempre que se alongava na merdice psicanalítica, pedia-lhe que se calasse e para, com empenho, continuar a desempenhar o seu papel de cobridor. Eram umas tardes deliciosas, assim confortada, custava-me menos regressar ao meu bairro de empregadas brasileiras passeando pela tardinha meninas loiras de sobretudo azul, porsches cayenne rodando em avenidas floridas, como mamutes, gente saindo da mercearia gourmet com sacos cheios de iogurtes biológicos, massas frescas com tinta de choco, abacates, anonas e tomatinhos cereja.

Fiquei, pois, muito animada. Com sorte, voltaria a ter tardes de decadência e indecência para me consolar. Depois, há qualquer coisa no meu amigo anão que me atrai. Quando descemos a avenida de mãos dadas toda a gente nos olha: eu, razoavelmente portentosa - digo-o, sem exagero, por ser a mais pura das verdades -, rabo redondinho, cabelo muito preto, ondulando pelas costas, lábios vermelhos a desabrochar, olhos líquidos de fêmea infeliz; ele, pequenote, arqueado, hedionda cabeçorra, já meio careca, dentes tortos numa boca que saliva excessivamente. Devem achar que formamos um par insólito e estranho. O certo é que roubamos o protagonismo das putas retintas, dos bêbados, dos sem-abrigo que costumam parar à porta do talho do Karim que, jóia de rapaz, ao fim da tarde, faz panelonas de borrego guisado para matar a fome a quem a tem e ganhar o apreço de Alá. Roubar o protagonismo aos indigentes é sempre bom. Enche-me de vaidade e orgulho.

O meu amigo chegou no dia 1 de Maio. Passei uma hora em frente do espelho a escolher a indumentária certa, coisa simples, sem grandes arrebiques de sofisticação, mas que lhe acicatasse o desejo, entumecesse à primeira vista o mais que tudo e o fizesse esquecer o cansaço da viagem. Escolhi um vestido preto, justo, decotado, botas de cano alto. Pedi à minha irmã para cuidar dos miúdos. É que vou buscar o meu enanito ao aeroporto, expliquei. Ela aceitou prontamente, que não me preocupasse, ficaria com eles o tempo que fosse preciso, se precisares da noite para matar as saudades eu cá me arranjo, encomendo uma piza familiar, uma garrafa de dois litros de coca-cola e meto-os a ver filmes de enfiada. Agradeci-lhe. É uma irmã como não há outra, a minha única amiga, faz muita questão que, no meio da maternidade sufocante, arranje tempo para continuar a ser mulher. Quando cheguei ao aeroporto, estranhei um grupo de hare krishnas que para ali estava em cânticos mântricos. Esperei quase uma hora. Sentei-me num banco desconfortável e entretive-me a ver as carecas dos seguidores do guru indiano, tufos solitários de cabelos claros, dotis e kurtas cor de açafrão, dançavam e cantavam com a inépcia própria dos ocidentais tresmalhados. Senti fome, pedi uma empada de galinha e um sumol de laranja num café vazio. Enquanto comia lembrei-me das tardes na Pensão S. Miguel, ali ao lado do talho do Karim. O meu amigo anão, para além de sobredotado nas partes baixas, arrepio-me só de pensar, é um mineteiro muitíssimo experiente, sabe dar à língua, o que não é nada fácil de encontrar. Há homens que a entesam, um horror, fica aquele pedúnculo arroxeado, hirto e triangular, uma pichotinha de gato a fazer parelha com a outra, lambem-nos como se fôssemos um calipo de limão. Não se lambe uma vulva, não se percorrem os pequenos e grandes lábios, como se a língua, em vez de o ser, fosse um cajado de dureza hercúlea. O meu amigo anão nunca tentara metamorfosear sua língua, a sua mantinha a languidez própria e esperada de um músculo que não conhece a fadiga, a leveza do toque, sabia o que fazia e acertava sempre em cheio, nunca precisei de lhe agarrar na cabeça para lhe corrigir a pontaria. Enquanto ele cunilinguiava eu suspirava baixinho, mal se notava o meu prazer; na verdade, nunca fui mulher de exagerar, com urros, gritos e rolar de olhos, os meus folguedos. Atingia o orgasmo com intensidade, mas, ainda assim, nunca me libertava da envolvência. Pela janela aberta chegava o alarido dos miseráveis que, arengando, disputavam o segundo prato de guisado de borrego do Karim.