2006/12/29

Vicks inalador

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.

Álvaro de Campos

2006/12/28

Sandokan


(Quando era muito, muito, pequenina achava o Sandokan o homem mais lindo à face da Terra. Não havia outro igual. O que eu gostava dos turbantes e das lutas de sabre.)

Clara

Não sei em que dia foi. Nem em que mês. Só sei que foi antes do Verão. Usava uma saia de bombazina rodada e uma camisa branca com arabescos vermelhos. Lembro-me de ir na ambulância e de um bombeiro falar comigo. No hospital, enfiaram-me um tubo pela boca dentro. Durante a noite arranquei-o com as duas mãos. Doeu-me. Foi como se me arrancasse de mim própria. Ao meu lado, uma velha, muito velha, gemia. Adormeci. Pela manhã, cedo, levaram-me ao médico de serviço. Não lhe fixei o rosto. Só sei que era grande. Como um lutador de sumo. Perguntou-me se queria ir descansar para o Júlio de Matos. Disse-lhe que não. Dispensava o estigma. Foi precisamente esta a palavra que utilizei. Estigma. No preciso instante em que utilizei esta palavra tive noção da sua desadequação. O médico receitou-me uns comprimidos e disse para, em quinze dias, ir a uma consulta de psiquiatria. Anui. Procurei o meu casaco e saí para fora. O meu marido esperava-me. Olhei-o e, não sei porquê, desatei a rir à gargalhada. Quanto mais olhava para ele, triste como um animal manso, esguio, esquálido, mais vontade tinha de rir. Ele abriu a porta do carro. Sentei-me. Pelos vidros passeavam-se os prédios, as árvores e os cartazes da avenida. Continuei a rir. O meu corpo sacolejava com as gargalhadas. Ouvia-se o silêncio do meu marido e eu sempre a rir. Depois parei e vomitei.

2006/12/27

Marsiglia

A Mila foi a Veneza e trouxe-me um sabonete de marselha. Melhor, um sabonne de marsiglia, que é o que se lê na etrusca embalagem. Ri-me. Ela também se riu ao perceber que eu, apesar de não muito esperta, captara o sentido daquele presente. É que o Manuel da Silva Ramos, no seu último livro, um manicómio de palavras que ambas lemos, confessa lavar vigorosamente o seu pénis com sabão de marselha (ele, um descaradão, chama-lhe mesmo caralho, eu é que não lhe chamo assim, por ser donzela casta, delicada, contida, incapaz de utilizar tal palavra.)

Muda

Desde pequena que sonho partir um braço ou, em alternativa, ficar afónica. Infelizmente, tal nunca sucedeu. Os meus braços mantiveram-se sãos e inteiros à custa da benévola tirania da tia Dé que gritava mal nos via cabriolando. Chegou a sugeriu aos meus pais que brincássemos de capacete na cabeça para evitar traumatismos cranianos. Quanto à mudez, quis o destino, esse malvado, que constipações e gripes nunca me atingissem a fala. Cada vez que acordava um pouco mais rouca almejava estar afónica, para não ser interpelada pelas professoras e fazer ar de coitadinha no recreio da escola. Hoje acordei ranhosa, com uma aspereza muito grande na garganta. Pensei. É desta que estou afónica. É desta que vou passar o dia a fazer sinais às pessoas, a dizer que não posso falar. Enganei-me. Quando os miúdos se pegaram ao pequeno-almoço, supliquei-lhes que parassem. “A vossa pobre mãe está doente!”, disse-lhes baixinho. Ignoraram-me. Detesto que me ignorem. Fugi pelo corredor, tiritando de frio, enfiando as calças, e dei-lhes um grito que deve ter-se ouvido no sétimo andar. Voltei para o quarto, resmungando contra as agruras matinais da minha vida. Foi, pois, com enorme desilusão, que percebi que não estou afónica. Estou só muito ranhosa e um pouco rouca.

2006/12/26

Índia


(Ainda me custa acreditar. Começo a ficar nervosa. Tenho vontade de vomitar. Os nervos dão-me para isto. Cada vez que penso nos miúdos tenho vontade de desistir. Ela quer que lhe traga um esquilo do quintal. Prometes, mamã? Prometo, filha. Ele não percebe que interesse posso ter em conhecer um país onde, em vez de futebol, se joga críquete. É muito homem, o meu filho.)

Libélulas

Quando estou em baixo, que não é o caso, para além dos comprimidos letais lembro-me do senhor-professor-doutor-poeta-não-surrealista-que-hoje-faz-anos, passeando, vagaroso, pelo bosque de árvores centenárias, onde vivem libélulas gigantes que meninos salvam dos lagos com pauzinhos e caninhas. Com a sua voz, um ribeiro de água transparente e fria, disse que eu, Ana Clara Costa Cássia Rebelo, sou uma mulher muito interessante e enigmática. Sinto-me logo melhor quando penso nisto. Até me esqueço do buço proeminente, da pele acneica e daquela questão sexual que me perturba. Mas não tem razão, o poeta. Sou interessante, é verdade, apesar disso resultar, em parte, da psicose de que padeço. Mas não sou enigmática. Nadinha.

Serafim

O peixe está moribundo. Flutua no balão de vidro, com o papo muito inchado, as barbatanas murchinhas, os olhos remelgados, fixos no tecto. Parece um astronauta dentro de uma nave espacial. Flutua como se não houvesse gravidade, sempre de barriguinha para cima. Uma coisa estranhíssima. Por mim, há muito, que o teria deitado pela retrete abaixo. A Cristina, minha colega de gabinete, é que mo proibiu. Abriu-me muito os olhos e disse “ Ana, não te atrevas!” Gosto tanto da Cristina, mas desconfio que ela é contra a eutanásia. Pobre Serafim, vai penar até se finar.

2006/12/21

Livro (2006)


Gargantua et son fils Pantagruel, par François Rabelais, 1537

Irritações

Já não posso com botas de cavaleira, artefactos feitos em feltro (colares, bonecas, bonequinhas, bolsas, malas, pregadores, brincos) e unhas pintadas de vermelho escuro. Até a anã, responsável pela loja de animais onde costumo ir, que tem para aí um metro de altura e voz de falsete (faz lembrar um roedor), usava as unhas pintadas de vermelho escuro. Fiquei agoniada e feliz por ter as unhas ratadas, branquinhas, cheiinhas de peles. As mulheres chegam a ser quase tão estúpidas como os homens.

2006/12/20

Mexia

Nunca comento blogs alheios. Aliás, para me colocar acima da ralé, finjo que os não leio (na verdade leio três ou quatro blogs). Só que desta vez não aguento. O Pedro Mexia, que tem um dos poucos blogs que me habituei a ler, assegura que numa semana foi três vezes ao teatro. Explica que esse devaneio, esse exagero teatral só ocorreu porque estava em Londres, cosmopolita, moderna, diversificada, e não em Lisboa, armada aos cucos, bolorenta. É uma atitude tristemente provinciana. Condiz em absoluto com a infundada vaidade que enche o traseiro, quase de certeza furunculoso, do Pedro Mexia.

Desejo

O ano passado formulei três desejos para 2006: ter outro sobrinho, ir à Índia e arranjar umas sapatilhas all star pretas iguais às daquele rapaz engraçado que é vocalista dos Stroke. Realizaram-se dois dos meus desejos. Desisti das sapatilhas (não tenho idade nem estilo para andar de all star pretas). Não está nada mal. Como a coisa correu tão bem em 2006, tenho de pensar, com cuidado, nos desejos para 2007. O mais evidente seria pedir de volta a minha libido, aquela que nasceu comigo e que, desde criança, me acompanhou como boa amiga, nunca me envergonhando, apesar de descarada e desregrada. Viver assim amputada, entregando-me aos outros, sem me entregar a mim, não está com nada. Provoca, aliás, imensa frustração. Há quem viva bem sem sexo, entregando-se aos filhos, à casa, à carreira, ao tricot, às viagens, ao marido, às lojas das avenidas. Não é o meu caso. Não há nada como sentir a cama como uma enxovia. Não há nada como nos tocarem nas mamas e sentirmo-las flácidas, amorfas, distraídas. Dá vontade de as espancar. Enfim, uma tragédia. Porém, pensando bem no assunto, há uma coisa que me daria mais satisfação do que ter de volta a libido. Há. Já sei o que pedir.

2006/12/19

Visconde cortado ao meio

Voltei a encontrar o visconde cortado ao meio, a metade de homem que mendiga na estação dos Restauradores. Gritava com um outro homem que, inteiro, de pele tisnada, se assemelhava a um espectro. Era óbvio que rondava as poucas moedas arrecadadas durante a manhã pelo homem cortado ao meio. Fico sempre na dúvida. Terá ou não pénis? Em princípio tem pénis para urinar e ânus para defecar. Mas entumecerá o seu pénis? Terá companheira? Haverá quem se deite com o visconde cortado ao meio? No livro do Albert Cossery, Altivos e Mendigos (ou mendigos e altivos, nunca sei), há um homem assim, decepado, que, para espanto dos outros, provoca um ciúme doentio à sua mulher. Cada vez que passo pelo visconde cortado ao meio olho-o de viés, fixando-me nas suas partes baixas. Nada transparece. E se alguém por ali passar e, com maldade, lhe der um piparote, um empurrão? Ficará deitado, desesperado, bramindo ajuda aos transeuntes apressados da avenida que passam a caminho de sítio nenhum.

Confissões

Duas confissões. Primeira: Nem tudo o que aqui se escreve é verdade. Por exemplo, sou levemente frígida e depressiva, mas não sou nem alcoólica, nem suicida. Segunda: Gosto mais do Bryan Adams do que do Ryan Adams, o que, no panorama actual, me torna assim num ser abjecto e desprezível.

Natal


(É sempre mais prudente comprar as prendas que queremos que os outros nos ofereçam.)

2006/12/18

Mandamentos

Esta noite não fumarás. Cigarro atrás de cigarro. Até ficares com a boca com gosto e cheiro de estrebaria. Um odor acre de mijo de caprinos ao acordar. Esta noite não beberás. Nem martinis. Nem copos de uisqui com água gaseificada. Nem copos de vinho. Nem cervejas pretas. Esta noite não lerás. Nem a Bíblia dos Capuchinhos. Nem o livro de capa amarela e letras azuis. Com frases e pessoas inacabadas lá dentro. Nem o outro de capa castanha e letras bege que um colega de escritório te ofereceu no Natal. Esta noite não ligarás o pc. Personal computer. Deixa-o dormir na quietude fria da noite que é animal de estimação como outro qualquer. Esta noite não escreverás. Em sítio nenhum. Só deve escrever quem sabe. Ignorarás a Domitília Vento, a Rosa Maria, a Guiomar, a Judite e a mulher albina, de olhar simiesco, da estação de comboios. São mulheres que vivem dentro da tua cabeça. Esta noite não tomarás os comprimidos que escondes numa caixinha de cartolina roxa por baixo das cuecas e sutians. Estás demasiado cansada para morrer. Às vezes é menos cansativo viver do que morrer. (Parolada dos diabos.)

Bailarina russa

- Gostas mais do Chico Duarte, do Zeca Afonso ou do Sergio Gordinho?
- Gosto de todos.
- Mas gostas mais de qual? Diz!
- Gosto mais do Zeca Afonso.
- Porquê?
- Não sei. E tu?
- Gosto mais do Chico Duarte.
- Porquê?
- Porque tem bigode e canta a canção do João e da Maria.
- É bonita, essa canção.
- Mas também gosto das canções da Floribela.
- Eu também gosto.
- Gosto do Chico Duarte e da Floribela.

(Sentada na bancada da cozinha, com um penteado de bailarina russa, cheio de ganchos, elásticos e tranças, teatraliza a cantiga do formiga no carreiro. Exige que a emite. Aos nossos pés, a Julieta boceja. Sou uma mãe estupidamente babada. Credo. Como vou passar um mês, inteirinho, sem os ver?)

2006/12/15

Ensopado de lulas

A minha sogra gosta de provocar os outros. Fá-lo com inteligência e intuição. Muitas vezes os outros não percebem que estão a ser provocados ou gozados. É uma qualidade que lhe aprecio. E invejo. Hoje teve o descaramento de me dizer, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que a Julieta, a minha Julieta, a Julieta que podia ter nascido do meu ventre, tal é a parecença no mau feitio, é uma cadela muito, muito feia. Horrível!, chegou a dizer. Olhei primeiro para a Fátima que me preparava o almoço, um fumegante ensopado de lulas. Procurei, em vão, consolo junto dela. Geralmente, a Fátima vem sempre em meu auxílio. Desta vez, sem se virar, disse apenas laconicamente que, se calhar, a feiura da Julieta se devia à mudança do pêlo. Fiquei abismada! Fitei de novo a minha sogra. Velha e congestionada, enrolada num xaile preto, pingando ranho aguado para cima de um prato de bróculos e frango estufado. É inteligente. É, porventura, das pessoas mais inteligentes que conheço, mas tomara ela ter metade da beleza da minha Jujuzinha.

2006/12/14

Rouge

Pedro

Finalmente tenho um Pedro na minha vida.