Sem exagero ou comiseração: sou uma cavalgadura, uma autêntica bestinha asinina. Só me falta zurrar.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2007/04/26
Operário Futebol Clube (2)
Uma mulher destaca-se do grupo. É uma loira magnífica. Deve ter perto dos sessenta anos. Usa uma camisola vermelha, de mangas de balão, e corsários pretos muito justos que acentuam as curvas generosas do seu corpo. Nos pés, unas sapatos pontiagudos, com saltos de agulha, combinam com o tom rubro da camisola. O cabelo comprido, e loiro, foi ripado ganhar volume. A loira magnífica é um leão velho, de juba hirsuta, que dança no meio do campo do Operário Futebol Clube de Lisboa, ali perto da Graça. Volta e meia, quando menos se espera, alça a perna que fica, por breves instantes, suspensa no ar. Confere, desse modo, à dança rendilhados que os outros pares ignoram. O rapaz em cima da camioneta continua a cantar. Na sua voz desfilam kizombas, funanás, canções do José Malhoa e do Quim Barreiros. Levo o meu irmão para o quadrado verde. Dançamos uma kizomba, tentando imitar os passos das mulheres que dançam sós, longe dos homens que soltam gargalhadas enquanto comem tiras esturricadas de entremeada. Sonhamos ambos com a praia do Biléne, em Moçambique, onde há regatos de água salgada cheios de algas roxas e peixes invisíveis. Os meus olhos, porém, não largam a loira que, querendo aproveitar o resto do feriado, se atraca ao corpo de um rapaz que usa sapatilhas puma e tem o cabelo empastado de gel.
Operário Futebol Clube (1)
No meio do campo do Operário Futebol Clube de Lisboa, um quadrado verde delimita a zona de dança. Um rapaz, em cima de uma camioneta de caixa aberta, toca órgão e canta canções populares. Atrás, no campo que sobeja, grupos de crianças jogam à bola. Os pontapés na gravilha do campo fazem levantar nuvens brancas de pó. Ficam os meninos cobertos de uma poalha muito fina que os empalidece. São poucos, quase nenhuns, os homens que se disponibilizam para dançar. Preferem ficar junto dos grelhadores, enchendo-se de fumo, bebendo cervejas em copos de plástico. Contam anedotas, falam do jogo do próximo fim-de-semana, afagam os bigodes escuros e aconchegam os testículos. As mulheres, habituadas à ausência dos homens, dançam umas com as outras. Velhas, novas, gordas, desdentadas, movimentam-se com passos ensaiados, acompanhando na perfeição o ritmo das canções que o rapaz do órgão lança do cimo da camioneta.
2007/04/24
Submissão
Há uns anos atrás Theo Van Gog realizou uma curta-metragem, a que deu o título adequado de "Submissão". Este pequeno filme falava sobre a opressão feminina na religião islâmica. Theo van Gog foi, como se sabe, morto por denunciar o que se passa com as mulheres islâmicas na Europa. Este homem fez mais pelos direitos das mulheres do que as ruidosas activistas de esquerda que, invocando tais direitos, se preocupam quase exclusivamente com as suas barrigas e com a questão do aborto. Nunca ouvi nenhuma levantar a voz contra a obrigação de uma mulher usar um véu a cobrir-lhe o rosto. Assim como nunca vi nenhuma preocupada com esse ritual macabro que é a excisão do clitóris feminino. Pelo contrário, enleiam-se no politicamente correcto, sendo mesmo capazes de arranjar fundamentos para o injustificável. Todas, ou quase todas, admitem a utilização do véu. Algumas admitem até a excisão do clitóris. Falam em liberdade cultural e liberdade religiosa. Avançam com a antropologia e a etnologia. Esquecem, claro está, que tais práticas põem em causa os direitos fundamentais das mulheres. Calam-se quando se noticia a humilhação diária a que são sujeitas as mulheres nas ruas de Teerão. Obrigar uma mulher a usar um véu é aceitar que pode ser apedrejada em público até à morte por adultério. É dizer que é admissível extrair-lhe o clitóris por lhe ser proibido o prazer sexual. Obrigar uma mulher a usar um véu é negar-lhe a liberdade. Obrigar uma mulher a usar um véu é dizer-lhes que é indigna. É atirar-lhe à cara a sua infinita menoridade. E nestes assuntos não há meio termo. Reclamo para estas mulheres exactamente os mesmos direitos que reclamo para mim. Nem que isso signifique ter de deitar para o caixote do lixo, pela pia abaixo, culturas milenares, séculos de tradições.
Deus
Vou-te amar como Deus. Não, não. Deus não sente prazer, nem movimento progressivo até ao prazer, coitado, é tão infeliz.
Vergílio Ferreira, Em nome da terra.
(É bom saber que Deus é como eu. Fico mais conformada por ter, na angústia e na ausência, uma companhia deste calibre.)
2007/04/23
Picasso (2)
Foi então que a minha cunhada, com umas mamas gigantes, prestes a saltar do decote, uma mamas que fazem plof, plof, cada vez que ela se abana, falou. Mordiscando uma tâmara, disse calmamente: Pois eu não gosto nem do Picasso, nem do Dali. São horraaaaarosos! Atenção: ela não disse que eles eram horrorosos. Disse, isso sim, que eles eram horraaaaarosos, assim mesmo, a prolongar o pobre “a” que nem era para ali chamado. E continuou, muito confiante, como uma vaca imensa, tunisina ou argelina, a ruminar a tâmara. Fervi por dentro. O sonho dela é ter na sala um quadro do Albino Moura, aquele tipo que pinta umas gordas em campos de malmequeres e de papoilas. São daqueles quadros que se escolhem nas lojas de decoração em função do padrão dos cortinados e dos sofás. Olhei-a, tão contente consigo própria por ter desdenhado, de uma assentada, dois dos maiores pintores de sempre. Horraaaaarosos! Lembrei-me, depois, de que, quando era rapariga, na vizinhança, era conhecida pela Bo Derek de Sapadores. Contou-me ela, certa vez, derramando orgulho por todo o lado. Enterneci-me. Nem toda a gente tem a sorte de ser cunhada da Bo Derek de Sapadores. Eu, o máximo que consegui foi, no ciclo preparatório, ser conhecida como a Ana Preta do 2º B. Não tem comparação, reconheço. A verdade é que gosto da minha cunhada. Só me aborrece que opine, com jactância, sobre o que desconhece.
Picasso (1)
Durante o almoço de domingo, já não sei a que propósito, o meu irmão, a quem nunca conheci interesses artísticos, saiu-se a dizer que gostava da pintura do Salvador Dali. Olhei-o com surpresa. E amor, eu, que nem gosto do Dali (gosto daquele quadro do Narciso espreitando-se no lago). O meu pai não tardou. Aproveitou a deixa para dar uma gargalhada apatetada, como é seu costume, escancarar a boca cheia de dentes feios e dizer que também gostava do Dali. Não pela pintura, que não conhecia, nem lhe suscitava qualquer tipo de interesse, mas por o Dali ser um franquista assumido, ao contrário do Picasso, esse comunista nojento. Foi assim que ele disse. E espiou-me pelo canto do olho. Ainda falou do bigode do Dali e da Gala. Fingi que não o ouvi. Respondi-lhe muitas vezes, demasiadas, provocando grandes tumultos familiares por coisa nenhuma. O tempo ensinou-me que as provocações do meu pai são uma forma turbulenta de manifestar o amor que me tem. Eu gosto que ele me ame assim, com fúria e uma pontinha de admiração, que nunca admite e mascara de desprezo.
Osvaldo
A leitura do último romance da Lídia Jorge fez-me retomar uma coisa que gosto de fazer: correr. Corro pelo crepúsculo, na companhia de Osvaldo Campos. Mas não observo paquetes (não os há no meu pedaço de rio). Observo brasileiras que, de sandálias de cunha e saias muito curtas, ensaiam passos de dança sob o olhar atento de homens que bebem cervejas mornas encostados ao muro.
2007/04/22
2007/04/20
CDS-PP
Na universidade tive uma colega que se chamava Vanda Silvério. Pequena e magra, movia-se pela faculdade sem a gente dar por ela. Transparente como um pingo de chuva. Como se não existisse. No último ano fiquei a saber que era uma proeminente dirigente da juventude centrista. Uma promessa no mundo da direita conservadora. Olhei-a com espanto. Na altura, a licenciatura quase terminada, prescindira das calças de ganga. Usava agora saias curtas que deixavam a descoberto umas pernas que não prometiam nada de bom. Olhava-se para aquelas pernas e percebia-se que, mais acima, devia haver uma vagina precocemente envelhecida, com musgos e líquenes, mirrada como uma ostra pingada de limão. Para além de se revelarem uma montra pouco apelativa, as saias, azuis ou verde bandeira, combinavam mal com os seus tristes e descambados sapatos de vela. Recordo que, ao vê-la, por instantes, por breves instantes, senti uma enorme pena da juventude centrista. (Não sei por que me lembro hoje da Vanda Silvério. Deve ser da chuva e porque o Ribeiro e Castro, de bochechas caídas, tão desamparado, falando aos soluços, preste a rebentar num choro furioso, me dá dó.)
Autópsia
Atiro-me da janela se, daqui a uns anos, o João adolescente quiser fazer parte de uma tuna académica. Não quero um João adolescente vestido de preto, como um corvo, a tocar cavaquinho, a bater pandeireta ou a fazer momices com uma bandeira. Não estou preparada para tamanho desgosto. É sinal de que falhei redondamente na sua educação. Estou descansada enquanto ele continuar a disputar comigo os olhos e os miolos das douradas que comemos à mão, lambuzando-nos como selvagens felizes.
(A Dá não gosta de olhos de peixe. Prefere chupar a espinha, arrancando-lhe, com perícia, a medula, um fiozinho translúcido com sabor a mar. O pai, esse, olha-nos horrorizado, enquanto come os lombos branquinhos com que lhe enchemos o prato.)
(A Dá não gosta de olhos de peixe. Prefere chupar a espinha, arrancando-lhe, com perícia, a medula, um fiozinho translúcido com sabor a mar. O pai, esse, olha-nos horrorizado, enquanto come os lombos branquinhos com que lhe enchemos o prato.)
2007/04/19
Joaquim
Assim, do nada, pela segunda vez, veio-me um enjoo grande. É castigo pela maledicência. Hei-de arder, queira deus, eternamente nas labaredas do inferno. Já tomei um chá e não passa. Na minha cabeça desfilam, num cortejo precipitado, nomes. Helena, Amélia, Rosa, Florinda, Joaquim, Xavier, Gaspar, Raul. Gosto de Florinda, que é o nome da menina-flor do Rapaz de Bronze. Gosto de Joaquim, nome do irmão preferido da minha avó Felicidade, sempre muito bêbado, um cheiro acre a vinho, toda a tristeza do mundo a escorrer-lhe dos olhos pelo rosto encardido e sujo.
Rafaela
A Rafaela, a tal secretária da banda gástrica que me elogia com suspiros as camisolas quaresmais, comprou um apartamento em Armação de Pêra. Não se cala. Em vez de tratar dos requerimentos executivos que repousam em cima da sua secretária passa o tempo a falar das vistas e mordomias da casa comprada na Massamá do Algarve. O Silva, contínuo desdentado, que fala guturalmente e gasta o seu ordenado em playstations para a besta do filho que já chumbou dois anos, ouve-a embevecido. Eu, em vez de trabalhar, fico muito quieta, maravilhada, a ouvir-lhes a conversa. A mulher não se cala. Tem o corpo ensopado de palavras. Eu tenho o corpo ensopado de silêncios.
2007/04/18
Rainha de Copas (2)
Hoje, quando a vi, estava com o marido a falar com uma mulher mais velha, que fazia gestos largos e dava gargalhadas ruidosas. A Carla e o marido, embevecidos, abraçados, entrançados, como se fossem só um corpo, escutavam-na. As mãos gordas e sapudas da Carla a fazerem festas nas costas do marido. Porra. Fiquei logo enjoada com aquilo. Como é possível que, passados tantos anos, ainda façam as mesmas figuras que faziam no liceu? De certeza que ela continua a fazer beicinho e a tratá-lo por "mor" que é a maneira mais – como dizê-lo?- merdosa de se dizer "amor". Como é possível que continuem a comportar-se como se fossem as pessoas mais felizes do mundo? Enervou-me, já me enervava no liceu, tanto amor, tanta compreensão, tanta cumplicidade. Não há pachorra para quem é feliz. Detesto a felicidade dos outros, principalmente a felicidade cor-de-rosa choque, feita de sorrisos babosos, de lugares comuns, de frases feitas, repetidas, previsíveis. Imaginei-os na cama. Ele, muito excitado, com uma pila pequena e fina, muito direita, o cabelo penteadinho, com as cãs já grisalhas, a cavalgar, furioso, como se fosse uma pulga frenética, em cima daquele corpo imenso, branco, paquidérmico, insuportavelmente níveo, cheio de banhas e de celulite. Pior, imaginei a Carla a ter um orgasmo, aquela boca de beiços grandes a gemer, a arfar, os olhos a revirarem-se como espirais e a dizer baixinho "oh...mor...anda... anda…vem...". Estou mal disposta desde então. Com essa terrível imagem. E com a hipótese da rainha de copas, ao contrário da minha álgida pessoa, ter orgasmos de jeito. Grandessíssima puta.
Rainha de Copas (1)
Por baixo das arcadas do edifício onde trabalho, ao longe, reconheço o perfil de uma antiga colega de liceu. Já não me recordo do seu nome. Acho que é Carla. Ela tem cara de Carla. Tem mesmo. Detesto o nome Carla. Se a minha mãe tivesse tido a infeliz ideia de me chamar Carla, eu, assim que completasse 18 anos, mudava de nome. Desculpem-me as poucas Carlas que conheço e também as muitas que não conheço, mas Carla é nome de mulher de 40 anos, com permanente no cabelo, que passeia, aos domingos, nos centros comerciais de mão dada com um marido de bigode, fio de ouro ao pescoço e fato de treino brilhante. A dita colega, a quem chamarei Carla, está com o antigo namorado. Passado tanto tempo, o dito já deve ter subido de estatuto. Agora deve ser cônjuge, marido, de papel passado e aliança no dedo. Devem ter filhos. Dois no máximo. Um Tomás e uma Carolina. Devem viver num apartamento na Bobadela, no Prior Velho u na Quinta da Piedade. A Carla é grande e gorda. Parece uma vaca leiteira. É feia. Tem um ar, como hei-de dizer, bovino-suíno. Tem mesmo. Já o marido é miudinho, pequeno, murcho, mínimo. Parece um anão imbecil ao pé dela. O cabelo muito penteado. Quando os vi lembrei-me imediatamente da insuportável Rainha de Copas e do seu soberano marido, do filme "Alice no País das Maravilhas". Vi este filme centenas de vezes, até à exaustão, quando o João era pequeno. Para além de se parecer fisicamente com a dita personagem, a Carla tinha, e deve continuar a ter, um feitio detestável. Invejosa. Era tão invejosa. Era daquelas estúpidas que tinha inveja das notas dos outros. Podia ter uma nota razoável, um 15 ou 16, mas ficava visivelmente transtornada com o facto de alguém ter melhores notas do que ela, o que, aliás, acontecia quase sempre.
2007/04/17
Eduardo
Ainda agora o Eduardo Prado Coelho voltou às páginas do Público e já eu ando agoniada com o que escreve. Hoje fala da RTP. Insurge-se contra o matinal Praça da Alegria e também contra as entrevistas da Judite de Sousa ao Valentim Loureiro e ao Tony Carreira. Para o Eduardo Prado Coelho a televisão pública havia de nos massacrar apenas com as entrevistas da Ana Sousa Dias ou com documentários sobre o cinema realista italiano. O que ele queria era que a televisão fosse a grande educadora do povo. Era o que mais faltava! Eu, por mim, não deixo que televisão alguma me eduque! Vi a entrevista ao Valentim Loureiro e, para além do evidente interesse jornalístico, foi dos momentos mais divertidos em televisão dos últimos tempos. Já a Praça da Alegria tem como colaborador residente aquele padre que canta a canção do senhor da Galileia. Ele canta e, com o público, participa nas coreografias da palhacinha Picolé, dando graças a deus por estar ali pertinho dos decotes da sonia qualquer coisa. Eu gosto de ver. Quanto à entrevista do Tony Carreira só não a vi porque naturalmente não a apanhei. Não gosto do que o Tony canta, mas encanto-me com o frenesim à sua volta. O Tony Carreira com as suas virolas de cetim, o seu capachinho, a sua trupe de fãs, quase todas mulheres entre os 35 e os 50 anos, o seu filho Micael, é uma personagem incontornável na cultura popular portuguesa. Só um palerma como o Eduardo Prado Coelho, um intelectual que abomina a cultura popular e o povo, não percebe isso.
Guaxinim
No comboio, um homem negro, escuro como breu, um preto retinto como a minha mãe costuma dizer, lê um dicionário de inglês-português. Está vestido de branco dos pés à cabeça. Calças brancas, camisola branca, anorak da adidas branco, sapatilhas branca, boné branco. O branco que o envolve acentua a sua negritude. O homem é a noite e tem, reparo agora, uma cicatriz em forma de estrela no rosto. Ao seu lado, uma mulher grande, de cabelos longos e encaracolados, dorme com a cabeça tombada para trás. Traz os olhos exageradamente pintados de preto e branco e, no pescoço assim esticado, uma linha incerta mostra até onde espalhou uma base cor de argila. Parece um guaxinim adormecido. Um movimento brusco do comboio e a cabeça da mulher guaximim resvala para o ombro do homem negro. Ele levanta os olhos e, por breves segundos, fixa os meus. Quer, parece-me, compartilhar comigo a estranheza daquele corpo de mulher branca encostado em si que é a noite. Depois continua a ler o dicionário da verbo editora.
2007/04/16
Leite
Um homem indiano, no bulício quente da praça, grita num linguajar que lembra inglês: "you won´t fuck her again!". Tem muitos sacos de plástico aos seus pés e fala de uma cabine telefónica. Gesticula com uma mão. Segura com a outra o bocal. "You won´t fuck her again!". O amor transforma-se em cólera. Em raiva. A raiva sai da boca do homem em forma de palavras. A raiva paira sobre a cidade. Espalha-se pela praça como se fosse leite derramado. Ferve. Transforma-se em espuma. Sobe. Transborda. Cobre a placa e os bicos do fogão. “You won´t fuck her again!” O amor transforma-se numa nata pegajosa e amarelada. A raiva do homem indiano perde-se na avenida. Toca os transeuntes amanuenses que saem dos bancos, das companhias de seguros, dos escritórios de advogados, das lojas caras, das repartições públicas, das correctoras. Lá em baixo, na praça, o homem indiano pega nos seus sacos e apanha o autocarro que vai para a Apelação.
2007/04/15
2007/04/13
Varejeira
Já o disse com a certeza que sempre se confere às afirmações insignificantes. A blogosfera é uma coisa medonha. Aborrece-me a maneira como a gente nela se escancara, de perna aberta, tal qual uma puta fácil, de lábios esborratados de baton carmim, partilhando intimidades, esculpindo a imagem que queremos que os outros tenham de nós. Eu, pelo menos, minto descaradamente, com os dentes todos, que é para me imaginarem interessante, escarnecer dos outros e sentir-me, insana que sou e me quero, diferente. Aborrece-me, sobretudo, a democraticidade da coisa. Qualquer intelectual de meia tigela armado ao pingarelho tem um blog. Qualquer pretenso comentador político escalpeliza, numa diarreia de textos ilegíveis, factos, histórias, notícias. Qualquer rocinante, que zurra aos quatro ventos a sua equídea natureza, largando cagalhões gigantes cor de palha, tem um blog. Qualquer miúda fantástica da Reboleira, daquelas que usam óculos escuros gigantes e, por isso, se assemelham a moscas de olhos metalizados, tem um blog. Enfim, qualquer bardamerda tem um blog. Coisa triste, escrever num blog.
(Hoje, confesso, estou especialmente bem disposta. Há sol. Eu sou do sul. Alimento-me de luz e de sol.)
(Hoje, confesso, estou especialmente bem disposta. Há sol. Eu sou do sul. Alimento-me de luz e de sol.)
2007/04/12
Roedores
No refeitório, enquanto deslizo na cadeira, observo as bocas dos que comem. Há bocas que se abrem ao mastigar, mostrando caninos e incisivos furiosos que transformam em papa os alimentos. Outras bocas mal se mexem. São bocas rijas que interiorizaram os ditames da boa educação. Não se leva a boca ao prato, não se mastiga com a boca aberta, não se apoiam os cotovelos na mesa. Ao meu lado um homem sozinho sorri para o prato gigante de tomate, beterraba cozida e juliana de cenoura que trouxe do bufet das saladas. A gratuitidade das saladas do refeitório alegra-o. Ao final do dia, quando a mulher lhe perguntar o que almoçou, dirá que comeu feijoada de chocos e um grande prato de salada. Alertará, como todos os dias, para o facto da salada - milho, alface, tomate, rabanetes, couve roxa, couve lombarda, pepino, cebola, pimento, cenoura, tudo o que tu possas imaginar filha !- ser de graça. O homem começa a comer. A sua boca mastiga a salada com movimentos energéticos de pura satisfação. É então que vejo passar a Mafalda com a sua nova namorada. Não é nada gira. Já desconfiava pelas palavras da M. Tem corpo e feições de porquinho da Índia. Já estou a vê-la a correr por uma pradaria, enfiando-se em tocas, alarmada com o voo planado das águias e dos falcões. Consta, porém, que é muito boa rapariga. Isso é que importante. O que eu gostava de ser uma boa rapariga.
Náusea
Há quem diga, há quem assegure que o governo cai hoje – imagine-se!- por causa do inglês técnico e que, não tarda nada, o Paulo Pedroso vai voltar a este país para ser presidente de uma fundação qualquer. Tenho vontade de vomitar. Sou uma rapariga muito dada a enjoos e náuseas.
Baratas
Sonhei com baratas num apartamento. A sujidade cor de ferrugem acumulava-se pelos cantos. As paredes do apartamento estavam cobertas de papel amarelecido onde rosas cor de chá choravam as memórias de dias antigos. As janelas tinham portadas de madeira nacarada. Lá fora, gruas e contentores de várias cores acenavam com destinos longínquos e promessas de felicidade. Quis assomar-me à janela. Para respirar fundo e fugir da caliça suja daquela casa. Porém, no parapeito, nos caixilhos amarelos, várias baratas comiam por mim a bruma leitosa que pairava sobre o porto.
2007/04/11
Barão Trepador
Desato-lhe os cordões das botas. Tiro-lhe as meias. Estão transpiradas. Pego-lhe nos pés. São já do tamanho dos meus. Cheiro-lhos. Como se ele fosse um cristo ignoto e eu uma virgem mãe. Beijo-lhe o sinal que tem no dedo mais pequenino do pé esquerdo. Digo Gosto tanto do cheiro dos teus pés. Ele não responde. Limita-se a sorrir, mostrando os dentes novos, definitivos, enormes, que lhe estão a crescer na boca. Pergunto Achas que sou maluquinha por gostar do cheiro dos teus pés? Ele volta a sorrir. Atira-se para trás. Suspira. Depois responde. Um pouco. Acho que és uma mãe um pouco louca. São estas as exactas palavras que lhe saem da boca. Volto a pegar-lhe nos pés. Esfrego-os no meu rosto. Às vezes, muitas vezes, tenho a sensação de o sufocar com os meus gestos. Não sou capaz de não lhe tocar. Tantas vezes que desejo ter um ventre enorme elástico onde ele novamente se aninhe e sossegue. Tenho por ele, mais do que por ela, um amor táctil, quase obsceno.Chegará um dia em que ele não me deixará cheirar-lhe os pés, nem me contará os sonhos, nem me pedirá ajuda para colar cromos na caderneta. Estranhará a minha nudez, esconder-me-á a sua. Abrirá assim fissuras irreparáveis na nossa intimidade. Deixarei de me reconhecer no seu corpo, nos olhos, na boca, nas mãos, na sua pele de maltês e andarilho, escura como a de um cigano. O seu corpo deixará de ser o meu corpo. (Acho indecente que os filhos cresçam.)
2007/04/10
2007/04/09
Verão Quente (2)
Estávamos, pois, naquela calma morna de verão, olhando pelas frestas das persianas a ver se o sol baixava, quando um barulho estridente rompeu pela casa. Um som prolongando como a vibração de um insecto, um besouro ou um grilo. Era a campainha da entrada no prédio. A minha mãe, ensonada, levantou-se. Atendeu o intercomunicador. Ao desligá-lo esboçou um sorriso amarelo. Depois, contrariada, anunciou em voz alta, como que em jeito de aviso, Vem aí o Botelho! O Sr. Botelho é o goês mais bonito que conheço. Tem o cabelo muito fino, totalmente branco, feições perfeitas. Com aquele rosto havia de ter sido prelado de gabarito, núncio, bispo, arcediago. Não o que foi, contabilista. O meu pai, que lhe inveja a delicadeza dos traços, volta e meia, a brincar, como quem não quer ofender, tira-lhe com a casta à cara. A casta é uma coisa estranha. Não se apaga. É pior que um sinal de nascença. Não há maneira de um homem dela se livrar. Só pela morte. Um homem pode mudar de mulher, de identidade, de cor de cabelo, educar-se, enriquecer, viajar, alterar o nariz, implantar próteses mamárias, mudar de sexo até. Só há uma coisa que não pode mudar: a casta. Aquela com que nasceu é aquela com que morrerá. Por isso, até no meu pai, há tantos anos longe da Índia, o apego à estratificação que casta impõe se faz notar. Adiante. A mulher do Sr. Botelho, por sua vez, é uma réplica nortenha da minha mãe. São iguais. Até fisicamente são parecidas. É das poucas pessoas que ainda me trata por Clarinha. A porteira do prédio da minha mãe também me tratou sempre por Clarinha. Mesmo durante a faculdade, mesmo quando terminei o curso, sempre me tratou assim. Para ela só passei a ser a Ana Clara quando me casei. A D. Fernanda, é esse o nome da porteira da casa dos meus pais, deve ter entendido que o estatuto de mulher casada não se adequava a tal chamamento. É pena. Gosto de diminutivos. Sugerem pequenez, a minha, e uma docilidade que não me pertence.
Vicks
Irrita o bem que me conheço. Mais cedo que tarde a minha faceta de berloques serial killer virá ao de cima. Com excepção do primeiro, aniquilo-os, com espalhafato e frenesim, antes que completem um ano. Matar palavras, como quem esmaga uma beata ou um carreiro de formigas gordas, é forma de mutilação. Expiação, também. Alivia. Descongestiona. Como a cânfora e o óleo de agulhas de pinheiro.
Lembrete
Tópicos: progenitor suicida, mira nair, abacates, santanete, sonhos de cego, cabrito morto, cravos túnicos, excrescências, danados (ou de como a gente se pode assim apaixonar pelas palavras de um homem, querendo-me, asseguro-te, sou tua, até fecho os olhos ao anel brasonado que usas no mindinho.)
Opilca
Manhã cedo, na aula de ginástica, ao levantar os braços durante o aquecimento, reparei que o Adelino, único homem da sala, muito simpático, cheio de meneios e galanteios, a fazer lembrar uma crisálida gigante, tem menos pêlos nos sovacos do que eu. Aliás, em rigor, não tem nenhum. Tirou-os com opilca. Quase de certeza. A minha auto estima, tão arredia nestes dias, olhou-me horrorizada. Encolhi-me. No final da aula, ao ver-me afogueada, o rímel derretido escorrendo o rosto, os poros dilatados, os pêlos a espreitar dos sovacos, as varizes marmoreando a minha perna direita, inchadas de azul, recusou-se uma vez mais a acompanhar-me. Ficou no ginásio a arremelgar os olhos para o Adelino, a borboleta impecavelmente depilada do ginásio. Não voltou ainda. Sumiu-se. Não sei para onde foi.
2007/04/04
Roda Viva
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá.
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.~
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira pra lá.
Chico Buarque
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá.
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.~
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira pra lá.
Chico Buarque
Cream Kiss
À saída da pastelaria Cream Kiss, fiquei com o salto preso na grelha de uma sarjeta. Larguei um “foda-se, caralho” e entrei novamente para pedir ajuda à D. Clara, que tem um filho chamado Fábio André e vende bolas de berlim a pingar gordura às velhas da avenida. Experiente, a D. Clara libertou o salto, enquanto ofendia a edilidade, acusando-a de incompetente e corrupta. Anui e agradeci-lhe o resgate do meu sapato italiano. Ela voltou satisfeita para dentro e, sem lavar as mãos, continuou a aviar as suas freguesas, servindo-lhes galões em copos estalados e croisants maçudos que deixam na boca uma sensação fugaz de conforto. Corri para a estação. A minha auto estima, essa, não quis acompanhar-me. Ficou a escutar as conversas das velhas de Moscavide. Falam dos netos, das noras, das compras nas lojas chinesas, das filas no centro de saúde, da artrite, do preço da pescada na praça, do programa matinal que o Jorge Gabriel apresenta na companhia daquela rapariga loira, muito bonita, que escancara a boca e o decote.
2007/04/03
Verão Quente (1)
Era Verão e estava quente. Movíamo-nos moles pela casa, espreguiçando-nos pelas divisões como se fossemos gatos, ursos pardos, outros animais indolentes. O meu pai enfiado no escritório relia os jornais da manhã. Ocupava o tempo inteirando-se do mundo, catástrofes, guerras, roubos, discursos, sem perceber que o mundo nunca se inteirava dele. Duas ventoinhas furiosas, expeliam um ar cheio de pó para cima do tampo da secretária que ele mantinha, e continua a manter, meticulosamente arrumada. As duas mães dormitavam nos sofás puídos, de ramagens largas. Sonhavam o mesmo sonho. Um médico de bata branca, sorrindo por cima de um corpo aberto, dizia “Senhora enfermeira, passe-me um espéculo, por favor”. Eu e a minha irmã, ainda meninas, esparramadas nas camas que chiavam como ratos, líamos livros da Enid Blyton. O meu irmão Roberto ausente. Ou por ali, em qualquer sítio, a espreitar revistas do Mandrake, do Fantasma ou do Super-Homem. Ou então enfiado no quarto dele, com a porta fechada, baboso, o pénis erecto, a devorar revistas de banda desenhada erótica. Ele, com astúcia, sempre tentou esconder tais revistas nos esconderijos mais secretos do apartamento. Por baixo da mesa-de-cabeceira. Entre os livros de química e física que ninguém espreitava. Porém, eu descobria-as sempre. Por isso, como ele, experimentava nas tardes moles de verão vertigens de prazer para depois, logo a seguir, sentir culpa, nojo, estranheza.
2007/04/02
Poudre Prodigieux
A fêmea de caimão emergiu das águas. Percorreu o areal estreito da margem, embrenhou-se nas raízes aéreas do mangue. Andou durante muito tempo. Por fim, alcançou a cidade. Entrou numa perfumaria onde uma mulher de lábios finos escolhia um baton. Ao vê-la tão feroz, arreganhando uma boca cheia de dentes afiados, a mulher gritou com uma voz feita de estilhaços e caiu desmaiada. A fêmea de caimão sorriu enquanto contornava o corpo desmaiado. Pediu um blush. Experimentou na sua pele áspera, rugosa como um tronco velho, poalhas de mil cores. Mate. Brilhante. Bronzeado. Acabou por escolher um poudre eclat prodigieux que aplicou com um pincel de pelos macios. A fêmea de caimão saiu da perfumaria. O corpo verde. O rosto levemente rosado. Procurou sorrir à empregada que a ajudara. Parecia tremer. Da sua boca feia de mil dentes saiu um bafo quente e vermelho, um cheiro de talho, de carne retalhada. No seu passo lento deixou a cidade. Olhou a caliça suja dos prédios antigos. Olhou as pinturas rupestres, de sprays coloridos, que cobriam muros, paredes, carruagens de comboio também. Aliviada, a fêmea de caimão entrou novamente no mangue. Procurou um lugar confortável ao sol e adormeceu.
Caimão
Tanta competência no mundo. Tão pouca em mim. A secretária, de uma diligência absurda, não se cansa de falar ao telefone com tribunais, advogados, utentes. Às vezes, confesso, gostava que o seu coração parasse. Tantas ameaças, tantas operações e nada. Só para a assustar. É cedo e já estou cansada. Volto a sentir-me uma fêmea de caimão. Saio daqui vagarosamente. Arrasto o meu corpo baço e áspero. As minhas patas movimentam-se num langor pesado. A lentidão toma conta de mim. Os meus olhos quietos, raiados de amarelo, parecem berlindes de criança. Só a cauda quebra o silêncio. Bate na água, com movimentos circulares, quando mergulho num rio de águas turvas.
2007/03/30
Raimunda
Não conheço a Raimunda. Nunca a vi. Sei que é brasileira e tem a pronúncia cerrada do nordeste. Conheço-lhe a história. Conheço bem os degraus do prédio que ela continua a esfregar com lixívia. Perdi a virgindade nesse prédio, deitada num sofá de cabedal, com os ruídos da rua a chegarem por uma janela aberta (como não detestar Sacavém?) Conheço também as pedras da calçada que, numa manhã de sol, se tingiram de um vermelho escuro e brilhante. Um rio de sangue saiu aos soluços de um corpo, numa ânsia de liberdade, fugindo da monotonia circular dos canais, das veias, das artérias. Correu pela calçada em direcção à pastelaria, chamou para a rua os clientes matinais que bebiam cafés, madalenas, bolos de arroz, pastéis de nata, dizendo-lhes “Corram! Lá fora, na calçada, está o corpo de uma mulher jovem. Foi golpeada pelo amante! ”. Não era o corpo da Raimunda que jazia na calçada. Era o corpo da amante do seu marido. Raimunda conheceu-a assim: morta no passeio em frente da Electro-Sacavém. História de folhetim. Possidónio e Raimunda. São nomes peculiares. Ecoam na minha cabeça pela sua estranheza. Caso os não conhecesse, duvidaria que fossem de gente de carne e osso. Mereciam uma vida de frases e silêncios.
Possidónio
A morte marcou-lhes o caminho. Conheci o Possidónio à saída do cinema. Vinha a sair da sala um do king com a minha irmã - era um filme do Almodovar, lembro-me agora - quando deparei com a M. Ela apresentou-me o homem que a acompanhava, um antigo pretendente da Costa de Caparica. Já velho. Alto e seco. Triste apesar dos sorrisos corteses. O cabelo encrespado e pintado. Parecia saído de uma revista antiga, de um tempo passado. Cheirou-me a mofo, ao bolor das casas velhas. Olhei-lhe o preto do cabelo, incapaz de esconder a velhice que lhe habitava os olhos e as mãos. Depois de duas ou três frases despedimo-nos. Nunca mais o vi. Através da M., porém, conheci a sua vida. As suas bizarrias. Era meticuloso com a alimentação, a higiene. Conheci a sua solidão. Também a sua morte. Entre fragas, precipícios e abismos. O mar lá em baixo, furioso, um demónio frio de águas agitadas, chamou-o com juras falsas. Disse-lhe assim “Vem, vem agora, vem sem medo, que apagarei toda a tua dor”. Ele foi. O corpo foi descoberto muito tempo depois. Inquieto-me sempre que penso nessa madrugada e na dor que o mar engoliu. Tenho medo do mar. Sempre tive. Está cheio da dor de outros.
2007/03/29
Cartaz
Gostava de ter a lucidez do Rui Marques e não dar importância ao cartaz que está no centro da minha cidade. Mas é superior às minhas forças. Fosse eu dirigente deste país e empalava (que a morte deste gente quer-se lenta e dolorosa) o senhor da barba mal aparada e do cabelinho com laca. Depois atirava com a sua carcaça aos cães.
Prianka
Passei várias tardes de tédio e modorra, no king, a entupir-me de cinema de autor para me tornar numa jovem interessante e interessada. Aos trinta e cinco anos rendo-me ao cinema indiano, popular, colorido, kitsch, trágico, dramático, coreográfico, cheio de paisagens paradisíacas, amores impossíveis e canções intermináveis. E, na minha próxima vida, quero ser igual à Prianka Chopra.
2007/03/28
Giordano Bruno
Um destes dias, quando estávamos na cozinha da casa do lote 105 a lanchar, a minha mãe descuidou-se e largou um peido. Foi um daqueles peidos quase inaudíveis, que parecem um sussurro, mas que são muito mal cheirosos. Com o meu nariz grotesco fui a primeira a dar conta do nauseabundo cheiro. Imediatamente, em tom inquisitorial, comecei a acusar os presentes. Foste tu, tia? Tu pai? E tu, Susana? Madalena, não me digas que foste tu? Queria saber a identidade do giordano bruno das bufas malcheirosas para, impiedosa, o queimar nas labaredas da minha fogueira. Ninguém se acusou. Finalmente chegou a vez da minha mãe que, cirandando pela cozinha com a chaleira na mão, fingiu não me ouvir. Perguntei-lhe de novo. Pois a minha mãe, depois de uma hesitação pequena e querendo escapar-se ao escárnio familiar, acusou o meu sobrinho Pedro de três meses, o único desgraçado que, refastelado no colo materno da tia Dé, não se pôde defender de tão vil acusação. Desatámos a rir às gargalhadas com a mentirinha da minha mãe. O meu sobrinho, contagiado pelo nosso riso histérico, esboçou um sorriso tonto e baboso para a avó, consciente da sorte que é tê-la.
(Uma colega, com quem partilhei em tempos o perene entusiasmo por determinada professora, bonita, sofisticada e estudiosa dos russos do século XIX, disse-me um dia que a dita docente era a mãe que gostava de ter. Aquilo caiu-me mal. E nunca me esqueci de tal conversa. Não trocava a minha mãe por nenhuma.)
(Uma colega, com quem partilhei em tempos o perene entusiasmo por determinada professora, bonita, sofisticada e estudiosa dos russos do século XIX, disse-me um dia que a dita docente era a mãe que gostava de ter. Aquilo caiu-me mal. E nunca me esqueci de tal conversa. Não trocava a minha mãe por nenhuma.)
As mãos
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Música: Adriano Correia de Oliveira
Letra: Manuel Alegre
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Música: Adriano Correia de Oliveira
Letra: Manuel Alegre
Comité
Há quem se tenha por intelectual. Eu preferia ser trolha a ser intelectual. Desprezo pro-fun-da-men-te os intelectuais. Gostava, isso sim, de trabalhar com as mãos. Como diz o poeta, com as mãos tudo se faz e se desfaz. Não são de pedras as nossas casas, mas de mãos. Há, todavia, quem dê importância aos intelectuais. Veja-se o exemplo do Comité do PCP. Para além de operários metalúrgicos e engenheiros técnicos de produção animal, está carregado de intelectuais. É verdade. Contei-os. Alguns têm apenas trinta e poucos anos. Não é para qualquer partido. Mas nem todos os intelectuais do Comité do PCP são assim, novinhos e quase imberbes. Também os há maduros. O Vítor Dias que eu - imagine-se até onde pode ir a ignorância - julgava funcionário do partido, também é um intelectual. Na lista, logo a seguir, vem um tal de Vítor Manuel Batista, caldeireiro.
2007/03/27
Vagina (2)
Procurei um espelho. Encontrei um demasiado grande. Apanhei o cabelo. Abri o roupão. Fiz caretas e esgares. Depois de alguma hesitação, resolvi enfrentá-la, afastando o que a cobre. Afinal, pensei, foi por ali, por tal abertura que os meus filhos abraçaram o mundo. Foi ela, a minha vagina, que se dilatou e lhes franqueou a chegada. Foi ela que mos trouxe. Sem lhes provocar qualquer tipo de problemas. Portanto, nem que fosse pelos meus filhos, eu devia enfrentar a minha vagina. Olhá-la de frente. Olhei-a então. Durante algum tempo. Não sei como são as outras porque não ando a espreitar vaginas alheias, mas detestei a minha. Fez-me lembrar uma amiba, um crustáceo, uma ostra, uma lapa daquelas que estão presas às rochas da beira-mar e que se encolhem quando as soltamos. É monstruosa. Feia. É uma coisa muito primitiva, um resquício de antiguidade, de rudeza. O pior é que a sua forma, a sua consistência e textura revela como é o nosso corpo por dentro. O nosso corpo é bonito por fora. Por dentro é horrível, uma massa de sangue, nervos, gorduras, órgãos, fezes, vasos, tecidos, sucos, cartilagens, carne. A vagina está fora e está dentro do corpo humano. Tem uma natureza híbrida. Revela o que está oculto e se quer manter oculto. Voltei a fechar as pernas. Olhei-me no espelho. Espreitei os miúdos, a dormir, sossegados. Calei o Joe Dassin. Fui fumar para perto do aquário.
Vagina (1)
A semana passada vi um dvd do Sexo e a Cidade. Às tantas, num episódio qualquer, à mesa do pequeno almoço, a Charlotte confessa nunca ter visto a sua vagina. As outras soltam gritinhos, escandalizadas perante tal revelação. Encolhi-me no sofá. Na altura, não dei muita importância ao facto. Esqueci-me. Porém, nos últimos dias tenho pensado no assunto. É estranho. Sei como são os meus pés. Sei como é o formato das minhas orelhas. Conheço a flacidez das minhas mamas. E a secura dos meus cotovelos. Porém, não sei como é a minha vagina. Assim como não sei como é o meu rabo. Nem sei como são as minhas costas. Que curvas se insinuam nas minhas costas? A pele é lisa, uniforme, ou manchada como o início das minhas pernas? Dei, então, conta que desconheço metade do meu corpo. Que nunca o vejo. Isso aborrece-me. Eu vivo com o meu corpo. Resolvi, por isso, tratar do assunto. Na impossibilidade de revirar a cabeça para olhar o meu traseiro e as minhas costas, decidi olhar aquilo que estava mais à mão. Ontem, depois de alguns minutos de estudo, abandonei os trogloditas nas suas cavernas, coloquei o Joe Dassin, que também é uma espécie de troglodita, a cantar e fui para o meu quarto.
2007/03/26
Patroa
Embirro com o patronato. Foi coisa que ficou do tempo das deambulações etílicas pela rua da palma. A minha embirração é tal que não sou capaz de assumir o papel de patroa. Há vários anos que tento despedir a minha empregada e não consigo. Compadeço-me dela, que é uma incompetente. Ao final do dia, faço-lhe o trabalho: esfrego, lavo, limpo, arrumo, varro, estrago as unhas que deixei de roer há apenas dois meses e que, pintadas de vermelho, são um regalo para os meus olhos. Enquanto dou conta do serviço doméstico, insulto-a devidamente, chamando-lhe uma série de nomes que devia evitar em frente dos miúdos: velha, cabra fanhosa, gaja e, claro está, puta. Volta e meia, imploro ao R. que a despeça. Ele é que representa a ala liberal, direita, racional no casal. Eu sou a esquerda emotiva, irracional, levemente engajada em determinados assuntos. Mas nada. Ele nada faz. Até parece que é para me provocar. A minha filha, perante o meu desespero, já me disse que, se eu quisesse, ela podia tratar do assunto. Muito pequenina virou-se para mim e disse: mamã, eu expulso-a! Tão querida, a minha filha.
2007/03/24
Simran
Simran came to Mumbai from Hyderabad about 10 years ago after her family did not accept her as a hijra, a male to female transgender, in India. After having survived the tortures of sleeping on the side walks and begging for alms for years she now works as a prostitute to make a living. She now lives in a road side slum with Imtiyaz, a taxi driver, who is also her boy friend.2007/03/23
Holofernes
Noite dentro, enquanto a chuva mansa tamborila nas vidraças, Judite rebola na cama, resfolegando como se fosse um animal. Uma égua ou uma vaca. De lábios túmidos. Cabelos emaranhados. A pele recamada de bagas de suor. Parece uma planta orvalhada. Uma deusa ignota, imperfeita. Espera Judite que a escuridão do quarto tome a forma do corpo de um homem.
Pensa Judite: quando a escuridão e o vazio se condensarem em corpo de homem, por fim, amainarei. A chuva continuará, mansa, a bater nas vidraças. Com calma, olharei para os ciprestes que lá fora permanecerão hirtos. Olharei para o homem deitado ao meu lado. Será grande como sempre o imaginei. Cabelo comprido. Barba negra como a escuridão que lhe deu corpo. Olhos de lobo, de lince, de leão, de cão esfaimado. Um bafo quente, nebuloso, sair-lhe-á de dentro. Será como um animal feroz sem açaime ou jaula.
Judite continua a pensar: tirarei a camisa que me cobre o corpo e deixarei que o animal-homem-escuridão me tome. Este é o meu corpo. Tomai-o em nome de Deus. Ele tomar-me-á como os bichos. Saciado, descansará, então, sobre os lençóis ainda mornos. Dormitará com um sorriso de anjo boçal no rosto. Em silêncio, pegarei no machado que se esconde por baixo da cama. Ergue-lo-ei. Com um golpe, com um único golpe, cortar-lhe-ei a cabeça. Ele abrirá os olhos segundos antes do cutelo o penetrar. Um grito mudo perder-se-á pelo quarto. Baterá nas vidraças fechadas como moscas cegas. Haverá sangue derramado pela cama. Um líquido viscoso, denso, quase preto. Quando a sua cabeça rolar para o chão adormecerei. Ao lado do corpo decepado. Antes, porém, direi o seu nome: Holofernes.
(Quando escrevi este texto estava furiosa com o mundo. Já não estou. Em vez de cutelo, devia ter usado a palavra cimitarra. Cutelo faz lembrar um talhante a esquartejar a alcatra de uma vaca.)
2007/03/22
Gengibre
Quinta-feira é dia de shokado lunch. A rosinha feita de lâminas de gengibre cor-de-rosa que desfolho com lentidão e saboreio utilizando todas as papilas gustativas da minha língua è dos poucos prazeres físicos que tenho. É, por isso, lamentável que tenha escolhido esse preciso instante para ler a resposta do Rui Tavares à Helena Matos sobre o caso Mantorras. Bufei como uma vaca. Ruminei. Rezinguei. Insultei-o baixinho. Só sosseguei quando olhei para a fotografia e percebi que o Rui Tavares é uma daquelas pessoas que nasceu com 50 anos. É. Olha-se para a fotografia dele e percebe-se isso mesmo. A idade dele, para aí 80 (50+30), desculpa as posições que, por vezes, toma. São posições dignas do Vítor Dias. O problema não está na retaliação de Angola, mas sim na oportunidade dessa retaliação. Querer meter Angola, país que elogia e apoia os métodos de pacificação do Mugabe, e Portugal no mesmo saco não é só intelectualmente desonesto, é um bocadinho patético.
Otília
Não se chama Otília. Mas podia chamar-se. Otília é um nome redondo. Cilíndrico. Curvo. Gordo. Otília-Lua. Otília-Terra. Otília-Sol. Otília-Laranja. Otília-Bola. Otília-Berlinde. Otília-Melancia. Cruzo-me com ela quando, no final do dia, vou buscar os meus filhos. A hora da minha chegada coincide com a sua hora de saída. Trabalha num dos apartamentos do prédio dos meus pais. Não sei em qual. Tem um sorriso tímido. Escondido. Quase infantil. Parece uma menina grande. Vem sempre afogueada, cheia de sacos. O saco do lixo. O saco dos papéis, dos cartões. O saco dos vidros. O saco das embalagens. Deposita-os nos contentores coloridos que estão perto da porta da entrada. É nova. É bonita. É negra. Tem um tom de pele muito escuro. Deve ser guineense. Ou portuguesa, filha de guineenses. Tem a cor doce e amarga do chocolate para culinária. A cor das barras de chocolate Belleville que uso para fazer a mousse. É como se o seu corpo fosse feito de açúcar, pasta de cacau, manteiga e leite em pó. Apesar do corpo imenso, usa sempre roupas claras e decotadas. Roupas que lhe deixam a descoberto as formas. O seu corpo faz-me lembrar as antigas deusas da fertilidade que ilustravam o meu manual de História Universal do 7º ano. O meu olhar fixa-se sempre em dois pontos. Nas mamas e nos pés. Tem uns pés bonitos, inesperadamente pequenos. Os dedos muito certinhos, gordos, as unhas de um cor-de-rosa clarinho. As mamas, pelo contrário, são enormes, imensas. Parecem não ter fim, como se fossem florestas virgens, escuras, de vegetação cerrada, molhada, feitas de sombras, de sequóias, trepadeiras, arbustos espinhosos, musgos e fetos. Imagino-a a dar de mamar ao filho que, provavelmente, ainda não tem. Imagino-a com um namorado magrinho, de bigode ralo e olhos dengosos. Imagino-o a olhar para aquele peito, cheio de vontade de nele se afundar e, para sempre, se perder.
2007/03/21
O Romance de Diogo Soares
Diogo Soares
O grande general
Chamado "o Galego"
O homem dos olhares fatais
Comanda sessenta mil homens
De terras estranhas
Vencendo e lutando
Por quem paga mais
Eficaz nos sermões
Insinuante pois
Ganhou a simpatia
De príncipes e samurais
Já é governador
Do reino de Pegu
Mais forte do que o rei
Mais rico por golpes mestrais.
Naquela cidade
Vivia um mercador
De nome Mambogoá
De fortuna sem fim
E naquele dia
O dia das bodas
Casava uma filha
Com Manica Mandarim
Diogo Soares passou por ali
Ao saber da festa
Felicitou noivos e pais
E a noiva tão linda
Ofereceu-lhe um anel
Agradecendo a honra
Por gestos puros e sensuais
Então o galego
Em vez de guardar
O devido decoro
Prendeu-a e disse-lhe assim:
"Ó moça formosa
És minha, só minha
A ninguém pertences
A ninguém, senão a mim".
O pai Mambogoá
Ao ver pegar o bruto
Tão rijo na filha
Ouvindo este insulto de espanto
Levantou as mãos aos céus
Os joelhos em terra
No retrato da dor
Pedindo e implorando num pranto
"Eu peço-te Senhor
Por reverência a Deus
Que adoras concebido
No ventre sem mancha e pecado
Não tomes minha filha
Não leves meu tesouro
Que eu morro de paixão
Que eu morro tão abandonado".
Mas Diogo Soares
Mandou matar o noivo
Que chorava abraçado
À moça assustada
Tremendo
E a noiva estrangulou-se
Numa fita de seda
Antes que a possuísse
À força o sensual galego
A terra e os ares
Tremeram com os gritos
Do choro das mulheres
Tamanhos que metiam medo
E o pai Mambogoá
Pedindo pelas ruas
Justiça ao assassino
Acorda a cidade em sossego.
Peregrinação, Fausto
O grande general
Chamado "o Galego"
O homem dos olhares fatais
Comanda sessenta mil homens
De terras estranhas
Vencendo e lutando
Por quem paga mais
Eficaz nos sermões
Insinuante pois
Ganhou a simpatia
De príncipes e samurais
Já é governador
Do reino de Pegu
Mais forte do que o rei
Mais rico por golpes mestrais.
Naquela cidade
Vivia um mercador
De nome Mambogoá
De fortuna sem fim
E naquele dia
O dia das bodas
Casava uma filha
Com Manica Mandarim
Diogo Soares passou por ali
Ao saber da festa
Felicitou noivos e pais
E a noiva tão linda
Ofereceu-lhe um anel
Agradecendo a honra
Por gestos puros e sensuais
Então o galego
Em vez de guardar
O devido decoro
Prendeu-a e disse-lhe assim:
"Ó moça formosa
És minha, só minha
A ninguém pertences
A ninguém, senão a mim".
O pai Mambogoá
Ao ver pegar o bruto
Tão rijo na filha
Ouvindo este insulto de espanto
Levantou as mãos aos céus
Os joelhos em terra
No retrato da dor
Pedindo e implorando num pranto
"Eu peço-te Senhor
Por reverência a Deus
Que adoras concebido
No ventre sem mancha e pecado
Não tomes minha filha
Não leves meu tesouro
Que eu morro de paixão
Que eu morro tão abandonado".
Mas Diogo Soares
Mandou matar o noivo
Que chorava abraçado
À moça assustada
Tremendo
E a noiva estrangulou-se
Numa fita de seda
Antes que a possuísse
À força o sensual galego
A terra e os ares
Tremeram com os gritos
Do choro das mulheres
Tamanhos que metiam medo
E o pai Mambogoá
Pedindo pelas ruas
Justiça ao assassino
Acorda a cidade em sossego.
Peregrinação, Fausto
2007/03/20
Teolinda
Comprei o novo livro da Teolinda Gersão, tida, por muitos, como grande contista. Não querendo ser desmancha-prazeres (hoje não quero vestir essa pele), direi apenas: escrevo melhor do que a Teolinda e nunca, a propósito do cansaço na vida de uma mulher-a-dias, diria que a pobre pela manhã não tem tempo de se maquilhar.
Sangue
Confessou o meu pai que a Maria Aurora Couto, amiga de um dos homens que encontrei no crepúsculo de Curtorim, lê, ou leu, este caderno. Imaginar que uma mulher como ela - bonita, serena, inteligente, lúcida – lê as asneiras que aqui escrevo deixou-me à beira de um ataque de nervos. Até tomei um victan para sossegar. E bebi uma cerveja. Que vergonha. Tanta maledicência, tanta inveja, tanto palavrão para aqui derramado. Refreio-me, por isso. Uma chatice. Logo hoje que estou com a menstruação e queria escrever sobre a cor do sangue que o meu corpo expulsa.
2007/03/19
Pátria Incerta
(Às onze e meia passa na dois o documentário da Inês Gonçalves, “Pátria Incerta”, visto no Doclisboa num dia de muita chuva na companhia da M. Quando o vi não conhecia ainda o sabor do rebuçados de tamarindo nem a aspereza doce da árvore dos chicus. Não sabia ainda que, em Goa, as estrelas descem do céu e flutuam, como borboletas nocturnas, nas varandas e nos alpendres. Não sabia ainda que Goa me pertencia.)
Brooklyn (2)
Hoje, pela manhã, no comboio, peguei novamente no livro. Por instantes deixei-o adormecido no regaço e observei as pessoas à minha volta. Ao meu lado, um rapaz negro, de pernas abertas, esparramado, inapropriadamente refastelado, lia um jornal de distribuição gratuita. À sua frente uma turista inglesa, encolhidinha, de dentes saídos, fazia um esforço por manter as pernas recuadas para não tocar nas do rapaz negro. Eu, ao lado, a topar tudo. A áfrica negra, provocatória, achando que a miséria lhe confere um estatuto de imunidade. O velho continente amedrontando-se, não querendo provocar os selvagens. Coitaditos, que já padeceram tanto. Não há pior forma de racismo do que a tolerância paternalista, que tudo justifica e perdoa. Retirar a responsabilidade a alguém é negar-lhe dignidade e, também, liberdade. A inglesa velha deveria pedir ao rapaz para encolher as pernas. Se ele se negasse deveria dar-lhe com a bengala na cabeça. É óbvio. Por mais que me cativasse o ar compungido da velha inglesa procurei abstrai-me. Abri o livro. Li. Voltei a Nova York e a Brooklyn. Foi então que deparei com a descrição do funeral de Harry, o estereotipo do malandrim gay, culto, velho, de picha pequena. Imaginei a cena. Rufus metamorfoseado de Tina Hoot irrompendo pelo funeral de Harry, vestida de negro, chorando. Imaginei-a cantando calada. Tão linda e jamaicana. Ao ver-me ali no comboio, com os prédios de Chelas a espreitarem pelas janelas, entre a inglesa encolhidinha, o negro malcriado e o travesti sentimental, foi-se embora a irritação. Senti a pele arrepiada e um nó na garganta. Sou uma sentimental. Da noite para o dia mudei de opinião. Gosto do último livro do Paul Auster. Limita-se a contar uma história, mas a verdade é que, como sempre, o faz muito bem. É que, como se diz por lá, enquanto uma história dura, a realidade cessa de existir. E isso é sempre bom.
(Texto escrito num berloque já assassinado. Lembrei-me dele a propósito da crónica de hoje da Helena Matos, no público, sobre Africa. Gosto muito da virulência da Helena Matos.)
Brooklyn (1)
Resolvi não gostar do livro do último Paul Auster. Ando numa fase de negação. Essa é que é essa. Ontem, depois de ler algumas páginas, deitei-me desiludida, considerando-o um escritor irrecuperável, achando as loucuras de brooklyn um livro menor na galeria dos seus romances. Deitei-me aliviada por estar quase a terminar o seu último livro, querendo, quanto antes, mergulhar no mar de madrid que, escrito por um português, não traz o tormento do texto traduzido. Já de luz apagada, continuei a vilipendiar o Paul Auster. É que, ainda por cima, sem eu querer, sem eu lhe dar autorização, teve a ousadia de me explicar Mallarmé. Eu sou praticamente analfabeta. É um facto. Tenho noção disso cada vez que leio o jornal, cada vez que vou a uma livraria. Ora, acontece que, há meia dúzia de dias, folheando um livro, deparei com o nome Mallarmé. Encolhi-me. Não sou capaz de o enquadrar seja no que for nem de lhe apontar uma obra. Decidi nesse instante que teria de o procurar, de lhe tirar medidas. Há tanta gente que enche a boca cada vez que pronuncia a palavra Mallarmé. Também quero. Sucede que descobri quem foi Mallarmé nas páginas do livro do Paul Auster, quando Tom a caminho de Vermont, numa verborreia literária insuportável, debita factos, nomes e datas. Ora, eu queria descobrir sozinha a importância de se chamar Mallarmé. Não queria que o Paul Auster, tutelar, professoral, me explicasse. Adormeci, pois, levemente irritada com o escritor nova iorquino e, noite fora, sonhei com laranjeiras e castelos.
2007/03/16
Bonsai
No rés-do-chão do meu prédio mora uma italiana, simpática e parideira, que costumava colocar as suas bonsai a apanhar sol no parapeito. Espreguiçavam-se as arvorezinhas anãs, tortinhas, contentes com as cócegas que os raios de sol lhes faziam. Às vezes, quando passava junto do parapeito, ouvia umas gargalhadas pequenas e jocosas. Um ah-ah-ah. Ou um eh-eh-eh. Quase sempre um ih.ih-ih. Perguntei ao R. se notava algum barulho estranho quando passava junto da casa da vizinha italiana. Disse-me que não. Só mais tarde percebi que as bonsai se riam de mim. Só precisavam da mornidão do parapeito para ser felizes. Desdenhavam, por isso, a minha habitual sobranceria, a minha injustificada sisudez. Aborreceu-me a felicidade e o atrevimento daquelas árvores. Um dia roubaram uma das nipónicas árvores da vizinha italiana, que, insultando a selvajaria dos portugueses, nunca mais voltou a mostrá-las no parapeito. Juro que não fui eu.
Chá
Fui ao celeiro. Comprei umas cápsulas de vinagre de maçã e um chá de emagrecimento. Espanhol. Olé. A embalagem anuncia carteritas termoselladas para conservar el aroma. Acontece que, para minha surpresa, o chá cheira - juro que cheira - a pipi mal lavado. Tive de o beber com a mão no nariz. Os nuestros hermanos são muito profissionais. Imagine-se: fazer carteritas termoselladas para conservar um aroma destes.
2007/03/15
Mississipi
Dois rapazes vagueiam num bote de madeira. O rio é uma prisão: Tem grades de silvas eriçadas onde crescem amoras gigantes, pretas, maduras. Os rapazes picam as mãos ao tentar apanhá-las. O bote atravessa pântanos, dedos de água, o sol espelha-se no rio, que é manso e tem a cor da ferrugem. Por fim, encontram uma ilha pequena de areia, onde três corpos repousam.
(Explicação: 1) Os dois rapazes são o Tom Sawyer e o Huckleberry Finn que revi há dias em desenhos animados. A minha filha pouco entusiasmada com as suas aventuras, eu desapontada com ela, a chorar com saudades das manhãs de sábado e de domingo, do sol a entrar pela vidraças da marquise, das minhas mães, ainda novas, de roupão vestido, limpando o pó do bibelots da estante. 2) As amoras são as que vi ontem no pingo doce. Cada embalagem de cem gramas custava 3.99 €. Contrariada, preteri-as pelas framboesas que custavam só 1,99 €. As amoras sabem-me ao Alentejo, ao pó do caminho do moinho, são quentes como o sorriso da Margarida e da Filomena, primas-irmãs, pintam-me as mãos de preto. As amoras sabem-me a tudo. As framboesas não me sabem a nada. 3) A ilha dos mortos não sei onde a fui buscar. Talvez a algum episódio do CSI. 4) Andam inteligíveis, compreensíveis, os meus sonhos. Aborrece. E tudo me dá vontade de chorar. Envelheço.)
(Explicação: 1) Os dois rapazes são o Tom Sawyer e o Huckleberry Finn que revi há dias em desenhos animados. A minha filha pouco entusiasmada com as suas aventuras, eu desapontada com ela, a chorar com saudades das manhãs de sábado e de domingo, do sol a entrar pela vidraças da marquise, das minhas mães, ainda novas, de roupão vestido, limpando o pó do bibelots da estante. 2) As amoras são as que vi ontem no pingo doce. Cada embalagem de cem gramas custava 3.99 €. Contrariada, preteri-as pelas framboesas que custavam só 1,99 €. As amoras sabem-me ao Alentejo, ao pó do caminho do moinho, são quentes como o sorriso da Margarida e da Filomena, primas-irmãs, pintam-me as mãos de preto. As amoras sabem-me a tudo. As framboesas não me sabem a nada. 3) A ilha dos mortos não sei onde a fui buscar. Talvez a algum episódio do CSI. 4) Andam inteligíveis, compreensíveis, os meus sonhos. Aborrece. E tudo me dá vontade de chorar. Envelheço.)
Tibete
Steve McCurry(Também gostava de ir ao Tibet. As senhoras usam adereços muito giros. Põe a bijuteria da Pedra Dura a um canto. )
2007/03/14
Narrador
Mas nem sempre gosto dos que leio. Há outros que não me dizem nada. É, por exemplo, o caso do narrador, cujo nome não recordo, de “Um Amor Feliz”, do David Mourão Ferreira. Nunca me poderia apaixonar por tal sujeito. E, no entanto, dá corpo a um dos romances que mais gostei de ler. Entre nós (o tal narrador sem nome e eu) manteve-se sempre uma enorme distância. Ele, delambido, bem me tentou cativar, mas eu não deixei. Achei-o vaidoso. Pedante. Bebia champanhe com morangos. Comia caviar. E patês. Pior, muito pior, arranjava as unhas na manicura. Eu era lá capaz de amar um vaidoso de unhas arranjadas! Jamais. Depois, o sujeito tinha uma estranha maneira de amar. Amava elitisticamente. Como se o amor fosse uma coutada privada de determinada classe, de uma elite. Como se só quem vive em Cascais, quem vai a exposições, quem lê, quem ama a arte, o etéreo da vida, soubesse amar devidamente. Não sei explicar. Já Claúdio não. Ama na mais profunda solidão. Ama os que já não estão e os que, estando, não querem estar. Ou não estão mesmo. É um homem inteiro, cheio de dúvidas, intimista, íntimo, inseguro também. Amei-o nas primeiras páginas.
Cláudio
Leio as últimas páginas do livro com o comboio a chegar à estação. “Até ao Fim”, do Vergílio Ferreira. Sinto os olhos molhados, um mar pequenino e escuro dentro deles. Como explicar? Comove-me a história triste, tão triste: Cláudio, pai, vela o filho morto, Miguel. O livro faz-se do diálogo que se estabelece entre ambos, durante essa última noite. Porque Miguel, o filho, está morto e não está. Como a dada altura diz Tina (a tal cujo corpo não preenche o nome: Albertina), não se morre de repente. Demora-se tempo a morrer. Morre-se devagar. Devagarinho. Também me comove a despedida. Triste sina, esta a de me apaixonar pelos homens que vivem entre as páginas dos livros, em vidas de letras e palavras. Desta vez, calhou apaixonar-me por Cláudio. Perdidamente. Porque quando se ama é sempre perdidamente. Não há graus, escalas, graduações no amor. Há quem pense que há. Há quem consiga graduar o amor. Como se o amor fosse um tonel de vinho tinto. Para ti, tenho três almudes de amor para dar. Para ti, tenho almude e meio. Para ti, tenho o barril inteiro. Adiante. Pelo menos, Cláudio termina feliz ao lado de uma Clara. Cláudio e Clara numa casa sobre o mar.
2007/03/13
Bárbara
Ela: Já reparaste que toda a gente te embirra.
Eu: Não é verdade.
Ela: Tens a mania que és melhor do que os outros!
Eu: Sou melhor do que a maior parte.
Ela: Estás a ver?
Eu: O quê?
Ela: Lá estás tu armada aos cucos.
Eu: E então?
Ela: Então que por vezes és muito injusta.
Eu: Dá-me um exemplo.
Ela: A embirração que tens à Bárbara Guimarães.
Eu: O que é que tem?
Ela: Não é embirração, é inveja.
Eu: Deves ser doida!
Ela: É inveja!
Eu: É uma embirração justificada.
Ela: Porquê?
Eu: É uma palerma armada em intelectual.
Ela: Há tantas por aí!
Eu: Mas o pior nela nem é isso.
Ela: É o quê?
Eu: Quem, como ela, lambe a pilinha do carrilho merece toda a minha embirração.
Eu: Não é verdade.
Ela: Tens a mania que és melhor do que os outros!
Eu: Sou melhor do que a maior parte.
Ela: Estás a ver?
Eu: O quê?
Ela: Lá estás tu armada aos cucos.
Eu: E então?
Ela: Então que por vezes és muito injusta.
Eu: Dá-me um exemplo.
Ela: A embirração que tens à Bárbara Guimarães.
Eu: O que é que tem?
Ela: Não é embirração, é inveja.
Eu: Deves ser doida!
Ela: É inveja!
Eu: É uma embirração justificada.
Ela: Porquê?
Eu: É uma palerma armada em intelectual.
Ela: Há tantas por aí!
Eu: Mas o pior nela nem é isso.
Ela: É o quê?
Eu: Quem, como ela, lambe a pilinha do carrilho merece toda a minha embirração.
Caixinha
Encontrei o bilhete que escrevi naquele dia. Entre as páginas de um livro de ilustrações, parecia coberto por uma poeira de salitre. Quem o terá guardado ali? Sempre imaginei que a minha mãe o tivesse levado e escondido na caixa de cartolina amarela que está na gaveta da sua cómoda. É uma caixinha-de-esconder-sofrimento. Enganei-me. A minha mãe não levou o bilhete. Colocou-o ali, entre as páginas de um livro a que sempre volto.
2007/03/12
Inquietação
A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes.
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha.
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda.
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda.
José Mário Branco
(Mas não há inquietação que se compare à do José Mário Branco.)
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes.
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha.
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda.
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda.
José Mário Branco
(Mas não há inquietação que se compare à do José Mário Branco.)
Lição em Pondá
Despimo-nos. Eu, a sobrinha europeia. Ela, a tia goesa, a menina que o meu pai carregava por caminhos sinuosos de chuva e lama até à escola. A nudez traz-nos a proximidade que tardava em chegar. Assim despedidas, a tia Amália começa a lição. Primeiro o saiote, bem apertado ligeiramente por cima da anca. O umbigo deve deixar-se sempre destapado. É por aí que o corpo respira, explica. Se se cobrir o umbigo o corpo sufoca. Depois a blusa que deve ser justa e tapar apenas o peito. Por fim, o rectângulo que envolve o corpo como se fosse um casulo. Há quatro passos essenciais que não se podem esquecer. O mais difícil é preguear decentemente a parte de baixo. É preciso ter mãos habilidosas para o fazer. À medida que a tia Amália fala, executa os gestos, enrolando-se na perfeição no tecido. Eu tento imitá-la.
Sentada na cama, Jessica come umas uvas pretas, muito doces e sem grainhas. Para me tranquilizar, diz que, em vez do sari, poderei sempre usar um churidar. Sorrio-lhe. Não gosto nada de churidares. A única peça que gosto no churidar é a dupata. Continuamos a lição. Por fim, com a ajuda de duas mulheres, consigo vestir o sari. A minha tia apanha-me o cabelo. Manda-me andar. Olho-a. “You can’t walk in a sari like you walk in your jeans. You have to walk with grace, Ana Clara!.” Ando. Ela abana a cabeça. Diz que temos de treinar o andar-de-sari. Reconheço-me nela. E, outra vez, vejo as mãos do meu pai no seu corpo. Ela faz-me uma festa no rosto. Gosto da festa que ela me faz, que é morna, como uma manhã de maio. Diz que pareço uma parsee por causa da claridade da minha pele. Que estranho, penso, sou uma europeia escura e uma indiana clara. Jessica, escura e gorda, continua a comer bagos de uva e ri-se.
(Ontem, fiz um esforço para lembrar os conselhos da tia Amália. Depois de várias tentativas consegui vestir o sari que o meu pai trouxe. Não fica bem dizê-lo, eu sei, mas fico linda.)
Sentada na cama, Jessica come umas uvas pretas, muito doces e sem grainhas. Para me tranquilizar, diz que, em vez do sari, poderei sempre usar um churidar. Sorrio-lhe. Não gosto nada de churidares. A única peça que gosto no churidar é a dupata. Continuamos a lição. Por fim, com a ajuda de duas mulheres, consigo vestir o sari. A minha tia apanha-me o cabelo. Manda-me andar. Olho-a. “You can’t walk in a sari like you walk in your jeans. You have to walk with grace, Ana Clara!.” Ando. Ela abana a cabeça. Diz que temos de treinar o andar-de-sari. Reconheço-me nela. E, outra vez, vejo as mãos do meu pai no seu corpo. Ela faz-me uma festa no rosto. Gosto da festa que ela me faz, que é morna, como uma manhã de maio. Diz que pareço uma parsee por causa da claridade da minha pele. Que estranho, penso, sou uma europeia escura e uma indiana clara. Jessica, escura e gorda, continua a comer bagos de uva e ri-se.
(Ontem, fiz um esforço para lembrar os conselhos da tia Amália. Depois de várias tentativas consegui vestir o sari que o meu pai trouxe. Não fica bem dizê-lo, eu sei, mas fico linda.)
2007/03/09
Abstinência
Estou tão mal disposta. Apetece-me vomitar em grandes jactos a feijoada que comi ao almoço. Se possível para cima da Bárbara Guimarães ou do António José Seguro. Desconfio que é a falta prolongada do xanax que me provoca a agonia, o mal-estar, o cansaço, a astenia, a gula, a paralisia, a fraqueza, as tonturas, os pesadelos, o inchaço e tudo o mais. Tão triste, ser-se toxicodependente.
Bo Derek
Soubesse escrever decentemente, sem erros, nem hesitações, com jactância e habilidade, e escreveria uma novela, cheia de palavrões e palavras-pedra. Não sei sobre o que seria. Talvez sobre uma prostituta-negra-albina-frígida-com-umas-grandes-mamas. Ou, então, sobre a dona-de-uma-agência-funerária-feia-e-levemente-marreca-tarada-sexual-com-umas-mamas-ainda-maiores.Qualquer coisa do tipo. Sei, porém, como lhe chamaria: “Bo Derek de Sapadores”. É um nome e peras.
2007/03/08
Senhor Tobias
O senhor Tobias, responsável pelo economato do meu serviço, deixou-me uma flor na secretária. Vermelha, parecia uma gota gorda de sangue derramada por cima dos processos. Claro que não fui capaz lhe dar com a flor na cabeça. Corri até ele e agradeci-lhe com um beijinho. Depois sentei-me perto dele e falámos do Benfica. Assegurou-me que o jogo está ganho. Suspirei de alívio pelos benfiquistas que tenho em casa. O senhor Tobias é um grande benfiquista, um grande pescador de alto mar e um grande apreciador de vinho tinto. Temos sempre conversa um para o outro.
Super Mulher
A propósito do dia de hoje, o Público fala de mulheres trabalhadoras com filhos. Chama-lhes super mulheres. Na minha ingenuidade, pensei que o Público abordasse efectivamente a situação das mulheres que têm de trabalhar e cuidar dos filhos. Enganei-me redondamente. O Público limita-se a descrever, de forma aborrecida, a vida de duas ou três mulheres, bem sucedidas profissionalmente, repimpadas nas suas vidas, que gostam de parir como coelhas (espero, sinceramente, espero que, pelo menos, também gostem de foder como coelhas). Há uma tipa qualquer que pôde deixar de trabalhar porque o marido tem “uma óptima posição” na sociedade de advogados onde trabalha. Faz de motorista. Ao fim do dia é uma canseira. Tem de ir buscar as crianças à escola e andar, de um lado para o outro, a distribuí-los nas actividades. Esta tipa é uma super mulher? Há outra, com uma catrefada de filhos, é certo, mas com duas empregadas e uma equipa de babysitters e avós para a ajudar. É esta uma super mulher? Sem cair no discurso do politicamente correcto (eu sei que agora está fora de moda o politicamente correcto, aliás, agora é politicamente correcto ser-se politicamente incorrecto), digo: super mulheres são as senhoras da limpeza, os rostos precocemente marcados com sulcos profundos, as mãos gretadas, o cheiro da catinga entranhado no corpo, que entram no edifício quando eu saio ao fim do dia e o abandonam pela manhã quando eu chego. O edifício espreguiça-se em movimentos lentos e expulsa o cansaço destas mulheres. Eu olho para elas e pergunto-me sempre quando é que dormem.
(E, se alguém se atrever a entregar-me uma florzinha, murcha e desengraçada, arrisca-se a levar com ela na cabeça.)
(E, se alguém se atrever a entregar-me uma florzinha, murcha e desengraçada, arrisca-se a levar com ela na cabeça.)
2007/03/07
Manelinha
Quando cheguei do almoço o peixe boiava na bolha de vidro, numa água esverdeada, com o bucho muito inchado e as guelras dilatadas. Corri à casa de banho. Lá dentro, a D. Manuela, a Manelinha como lhe chamam as colegas do seu serviço, comia uma pêra, bojuda e madura. Sempre estranhei que a D. Manuela escolhesse para comer a sua merenda da tarde o local onde as outras mulheres evacuam, urinam, trocam pensos higiénicos, libertam peidinhos malcheirosos e bufas sonoras. Adiante. Pois, a D. Manuela fixou os olhos na bolha de vidro que eu trazia nas mãos. Ao dar-se conta da imobilidade do bicho gritou. “Ai, Doutora, não me diga que o coitadinho morreu!”, disse ela. E, cruzando as mãos no peito, começou uma litania insuportável sobre o padecimento dos animais e de que era por isso, pela afeição que se cria aos bichinhos, que ela, apesar de solteira, não queria bichos lá em casa. Queria poupar-se, explicou, a essa dor imensa. No final suspirou e enfiou mais um pedaço de pêra pela goela abaixo. Eu fiz um ar grave e disse-lhe “Pois é”. Depois despejei o cadáver do peixe na retrete e puxei o autoclismo.
Pai
Depois de três meses na Índia, o meu pai volta amanhã para Portugal. As gralhas gigantes vão deixar de pairar por cima da sua cabeça. Deixarão de observar os seus passeios pelos campos na companhia do seu sobrinho Francisco e também as suas movimentações apressadas no jardim e no quintal. Uma roseira aqui. Um hibisco ali. Cortem aquela papaeira. Podem a mangueira. Reguem os limoeiros que estão junto ao muro. As gralhas preparam-se para a ausência do meu pai e para a monção que não tarda a chegar. Do lado de cá, a minha mãe desdobra-se em preparativos e arrumações para que tudo esteja perfeito. Correu hoje ao cabeleireiro a arranjar-se, ela que é tão bonita. Penso no meu pai, na minha mãe, no meu primo Francisco Anastácio, o homem dos olhos doces e dos abraços sinceros, sempre transpirado, sempre despenteado, penso nas perninhas de galinha, com sabor a limão, que a Jessica, sua mulher, me preparou para comer na viagem de comboio para Bombaim, e dá-me vontade de chorar.
2007/03/06
Cebola frita
Ao almoço uma amiga disse, com propriedade e alguma presunção também, não ter gostado do último livro da Agustina Bessa Luís. Discordei e perguntei-lhe porquê. Explicou que, na opinião dela, a escrita da Agustina se tornara “demasiado feminina e literária”. Anui. Em silêncio, continuei a mastigar rodelas translúcidas de cebola frita e pedaços de carne de porco mergulhados num molho de natas enjoativo. Mudámos de assunto. Ainda não percebi o que ela quis dizer.
Maniaco-depressiva
A Paz viajou em busca do silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva.
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa.
A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia.
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça Duma licença graciosa.
José Afonso
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva.
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa.
A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia.
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça Duma licença graciosa.
José Afonso
(O médico olhou para o papel que trazia nas mãos. Retorceu o bigode. Depois disse “Minha senhora, confirma-se o diagnóstico”.)
Bilhete
Quero transformar-me em pó, cinzas, poeira, em nada. Tornar-me definitivamente no vazio, numa recordação, numa lembrança. Passar a ter apenas expressão nas fotografias que envelhecem devagar nos álbuns que fiz há muitos anos, quando era nova, quando me sentia nova. Habita-me uma dor que não sei, não consigo descrever. É uma dor que não se sente, mas que está lá, espalhada, derramada pelo meu corpo. Cobre-me, evanescente, como se fosse uma gaze translúcida. Só por estar lá, só por existir, não me ferindo, fere-me. De uma maneira insuportável. Ácida, a dor corrói-me por dentro. Às vezes, parece que tenho caruncho, um exército de insectos minúsculos dilacera-me, come-me os órgãos e os membros. Não consigo olhar-me no espelho. Mesmo, pela manhã, quando lavo o rosto e me penteio, executo esses gestos rotineiros sem nunca me olhar. Habito o meu corpo. É isso. Limito-me a habitar o meu corpo, invólucro de qualquer coisa que adivinho menor. Sinto constantemente um nó a estrangular-me a garganta. Sinto esse nó em cada segundo, em cada minuto, em cada hora que passa. Fujo de mim.
2007/03/05
Vício (2)
Também corro o risco de me viciar nas revistas cor de rosa que não se param de falar da bancária maneta que mandou o amante brasileiro matar o marido alcoólico e que tem um filho pequenino, coitadinho, e outro, para aí de vinte anos, tão bicha, tão bicha, tão bicha, e feio, que uma pessoa, mesmo sem querer, sente dó de tal criatura. Uma tragédia.
Vício (1)
Não sou grande apreciadora de blogs. Há, na blogosfera, uma histeria colectiva, um sentimento de companheirismo e permanente discussão, uma vaidade, uma democraticidade que me aborrece. A democracia pode ser uma coisa tão sem graça. Mas tenho de dar a mão à palmatória. Há blogs únicos. Como este. Já me tinham falado da Bunny, do seu Xu e da vontade de ambos de procriar. É precioso. Corro o risco, sério, de me viciar neste blog.
2007/03/02
Laurinda
Gostava muito mais do Público de antanho. Por exemplo, neste, tão colorido e levezinho, não encontro os anúncios eróticos. Eu bem os procuro, entre suplementos, e nada. Depois, gostava que me explicassem, por que razão sou obrigada a levar com a Laurinda Alves à sexta-feira. O que é que eu tenho a ver com a Gracinda que a Larinda encontrou no recinto do santuário de Fátima e que, entre orações e devoções, lhe disse “gosto tanto, tanto, tanto, tanto, tanto de si!” Li aquilo e imaginei logo uma cena de engate entre a Laurinda e a Gracinda ao pé da capelinha das aparições. Depois fala das óperas a que assiste no São Carlos e tece elogios rasgados ao novo hospital da Luz. Tivesse a Laurinda bom senso e calar-se-ia com estas miudezas. Como ela bem sabe, o hospital da Luz, com as mordomias próprias dos mais caros hotéis, servirá apenas aqueles que o puderem pagar. Não faz mal que assim seja. O que chateia é que uma beata como a Laurinda, na sua coluna, se limite a falar dos que têm tudo e esqueça os que nada têm.
2007/03/01
Mariana
Sete saias tem Mariana
e um emprego em Miraflores.
Viveu ontem de recados
mas hoje vive de amores.
Sete carros vão chegando
pelas tardes de Belém,
com sete homens que a beijam
entre Sintra e o Cacém.
"Não tenho amores,
nem tenho amantes pois,
quantos amados não sei.
Tenho alguns amadores,
olha para mim,
lá na terra onde morei
escutava pela rádio o folhetim".
Sete saias tem Mariana,
à noite no Parque Mayer
dança bolero em dó menor
ali num cantinho qualquer.
"Ai de mim", diz Mariana,
se um dia amor me faltar
ao almoço eu já não como
e como menos ao jantar.
Fausto, Madrugada dos Trapeiros, 1978
e um emprego em Miraflores.
Viveu ontem de recados
mas hoje vive de amores.
Sete carros vão chegando
pelas tardes de Belém,
com sete homens que a beijam
entre Sintra e o Cacém.
"Não tenho amores,
nem tenho amantes pois,
quantos amados não sei.
Tenho alguns amadores,
olha para mim,
lá na terra onde morei
escutava pela rádio o folhetim".
Sete saias tem Mariana,
à noite no Parque Mayer
dança bolero em dó menor
ali num cantinho qualquer.
"Ai de mim", diz Mariana,
se um dia amor me faltar
ao almoço eu já não como
e como menos ao jantar.
Fausto, Madrugada dos Trapeiros, 1978
Escola
Uma das razões que me faz gostar da escola do J. e da M. são os pais dos outros miúdos. Felizmente os tios do bairro fazem questão, nem que para isso tenham de fazer do cu três bicos, de manter a sua descendência nos colégios da zona. Acho bem. Gosto pouco de misturar os meus filhos com criancinhas que parecem Nunos Melo e Teresas Caiero pequeninos. Até ver só topei com uma tipa, cavaleira, claro está, de madeixas loiras, nariz adunco, feia de morrer, tratar o filho por você. Ela, a dizer “O Martim não sabe que a mãe não gosta de birras! Pare de chora, por favor!” e meia dúzia de pessoas a olhá-la de esguelha. Evidentemente, aquela mãe enganou-se na escola. A gente não a quer lá. À semelhança daquelas pessoas que não querem crianças ciganas a frequentar a escola dos seus filhos, eu não quero na escola dos meus este tipo de gente. Havíamos de fazer um boicote à mãe do pobre Martim.
Tina
Tina Modotti fotografada por Edward Weston (1927). Encontro, com facilidade, a beleza nas mulheres. Nos homens não.
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